terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Lago Braies – Domínio das Guerras & Destino Cultural do Turismo.

                                              O mundo é um livro, e quem não viaja lê apenas uma página”. Santo Agostinho                   

       O Lago Braies tem como representação social um lago natural localizado nas Dolomitas de Prags, no Tirol do Sul, Itália. Pertence ao município de Prags, situado no Vale de Prags. Durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), foi o destino do transporte de prisioneiros per se de “campos de concentração” para o Tirol. Embora o lago tenha ganhado o apelido de “Pérola dos Alpes” devido à sua crescente popularidade entre os consumidores turistas, isto é, o turismo tornou-se excessivo em 2020, com 17.000 pessoas visitando a área em um único dia de verão. A partir do verão de 2023, o acesso de veículos foi restringido devido ao excesso de turistas. O Tirol é uma região histórica e geograficamente da parte ocidental da Europa Central que inclui o estado do Tirol, na Áustria, e a Região Autônoma Trentino-Alto Ádige (Trentino-Südtirol), na Itália. A porção meridional do Tirol subdivide-se desde 1920, em província autônoma de Bolzano (Südtirol-Alto Ádige) e província autônoma de Trento (Trentino). A região situa-se na área da Áustria habitada pelos récios a partir do século I a.C. Mas a história do Tirol tem início nos séculos centrais da Idade Média, com o Principado Episcopal de Trento, cuja extensão original compreendia, além do atual Trentino, também grande parte do atual Tirol Meridional, foi durante a Idade Média e Moderna um Estado autônomo dentro do Sacro Império Romano-Germânico.

            Turista é um visitante que se desloca voluntariamente por período de tempo igual ou superior a 24 horas para local diferente da sua residência e do seu trabalho pernoitando nesse mesmo lugar. Um excursionista é um visitante que, embora visite esse mesmo lugar, não pernoita. Existem duas linhas de pensamentos, no qual a história do turismo se divide. A primeira seria que é o ócio, descanso, cultura, saúde, negócios ou relações familiares. Estes deslocamentos se distinguem por sua finalidade dos outros tipos sociais de viagens motivados por guerras, movimentos migratórios, conquista, comércio, etc. Não obstante o turismo tem antecedentes históricos claros. Depois, se concretizaria com o então movimento da Revolução Industrial. A segunda linha de pensamento se baseia em que o Turismo realmente se iniciou com a Revolução Industrial, visto que os deslocamentos tinham como intuito o lazer. Na história da Grécia Antiga, dava-se grande importância ao tempo livre, os quais eram dedicados à cultura, diversão, religião e desporto. Os deslocamentos mais destacados eram os que se realizavam com a finalidade de assistir as olimpíadas que ocorriam a cada 4 anos na cidade de Olímpia. Para lá se deslocavam milhares de pessoas, misturando religião e desporto. Também existiam peregrinações religiosas, como as que se dirigiam aos Oráculos de Delfos e ao de Dódona.

Durante o Império Romano os romanos frequentavam águas termais como as das termas de Caracalla. Eram assíduos de grandes espetáculos, em teatros, e realizavam deslocamentos habituais para a costa, como o caso muito reconhecido, para uma vila de férias: a “orillas del mar”. Estas viagens de prazer ocorreram possivelmente devido a três fatores fundamentais: a “Pax Romana”, o desenvolvimento de importantes vias de tráfego e comunicação e a prosperidade econômica que possibilitou a alguns cidadãos meios financeiros e tempo social livre. Na Idade Média ocorreu num primeiro momento um retrocesso devido ao maior número de conflitos e a recessão econômica. Muitos preferiam não viajar ou se deslocar em feudos, pois teriam que pagar impostos para cada um, e cada feudo tinha seu direito de criar suas regras, entretanto surge nesta época um novo tipo de viagem, as peregrinações religiosas. Embora já tenha existido na época antiga e clássica, entretanto, tanto o Cristianismo como o Islã estenderam a um maior número de peregrinos e deslocamentos ainda maiores. São famosas as expedições desde Veneza a Terra Santa e as peregrinações pelo Caminho de Santiago, desde 814 em que se descobriu à tumba do santo, foram contínuas as peregrinações em boa parte da Europa, criando assim mapas e todo o tipo comunicativo de serviço para os viajantes. Quanto ao turismo islâmico de Haje, a peregrinação para Meca é um dos cinco Pilares do Islamismo obrigando a todos os “crentes” a fazerem esta peregrinação ao menos uma vez em sua vida.

                                            


As peregrinações, por outro lado, continuam durante a Idade Moderna. Em Roma morrem 1 500 peregrinos por causa da peste. E neste momento quando aparecem os primeiros alojamentos com o nome de hotel, palavra francesa que designava “os palácios urbanos”. Como as viagens das grandes personalidades acompanhadas de seu séquito, comitivas cada vez mais numerosas, sendo impossível alojar a todos em palácio, ocorre à criação de novas edificações hoteleiras. Esta é também a época das grandes expedições marítimas de espanhóis, britânicos e portugueses que despertam a curiosidade e o interesse por grandes viagens. Durante o século XVI surge o costume de mandar os jovens aristocratas ingleses para fazerem um “Grand Tour” ao final de seus estudos, com a finalidade de complementar sua formação e adquirir certas experiências. Sendo uma viagem de larga duração compreendida entre 3 e 5 anos que se fazia por distintos países europeus, e desta atividade nascem as palavras: turismo, turista, e assim por diante. Existindo um ressurgir das antigas termas, que haviam decaído durante a Idade Média. Não tendo somente como motivação a indicação medicinal, sendo também por diversão e o entretenimento em estâncias termais como, por exemplo, em Bath, na Inglaterra.

Também nesta mesma época data o descobrimento do valor medicinal da argila com os banhos de barro como remédio terapêutico, praias frias (Niza …) onde as pessoas iam tomar os banhos por prescrição médica. Com a Revolução Industrial se consolida a burguesia que volta a dispor de recursos econômicos e tempo livre para viajar. O invento do maquinário a vapor promove uma revolução nos transportes, que possibilita substituir a tração animal pelo trem a vapor tendo as linhas férreas que percorrem com rapidez as grandes distâncias cobrindo grande parte do território europeu e norte-americano. Também o uso do vapor nas navegações reduz o tempo dos deslocamentos. Freedom of the Seas, considerado o maior navio cruzeiro do planeta, símbolo da Era das viagens marítimas. A Inglaterra torna-se a primeira sociedade a oferecer passagens de travessias transoceânicas e dominam o mercado marítimo na segunda metade do século XIX, o que favorecerá as correntes migratórias europeias para a América. Sendo este o grande momento dos transportes marítimos e das companhias navais. Ipso facto, começa a surgir na Europa o “turismo de montanha” ou “turismo de saúde” quando se constroem famosos sanatórios e clínicas privadas europeias, muitos deles ainda existem como pequenos hotéis guardando ainda um certo charme. O turismo apesar de sua decadência é a terceira atividade legal mais importante da divisão do trabalho e da economia mundial.                       

           O nome do lago é atestado em 1296 como Hünz an den Se, em 1330 como Praxersee, em 1400 como See in Prags, em 1620 como Pragsersee e em 1885 como Pragser Wildsee; a designação de “selvagem” é, portanto, do século XIX e talvez esteja relacionada com o montanhismo, que nesse período começou a tornar-se um fenômeno de massas. O nome italiano “Lago di Braies” remonta a 1940, enquanto no primeiro Guia de 1923 ainda aparece apenas como “Pragser Wildsee”. O lago fica aos pés da imponente face rochosa do Seekofel (em italiano Croda del Becco), (em ladino Sass dla Porta), com 2.810 metros e está localizado no parque natural Fanes - Sennes – Prags. Possui uma extensão de cerca de 31 hectares, com 1,2 km de comprimento e cerca de 300-400 metros de largura. É um dos lagos mais profundos da província autônoma de Bolzano, também chamada Alto Ádige ou Tirol do Sul, tem como representação uma província italiana, uma das duas partes constituintes da região autônoma do Trentino-Alto Ádige, com uma profundidade máxima de 36 metros e profundidade média de 17 metros. A temperatura máxima da água é 14 °C. Trata-se de um lago de barragem, que se deve ao represamento do rio Prags por um deslizamento de terra desprendido do filão de Herrstein.                      

         A primeira observação familiar da crítica sociológica de Émile Durkheim (1858-1917), é que a corporação tem contra si seu próprio passado histórico. De fato, ela é tida como intimamente solidária do antigo regime político e, por conseguinte, como incapaz de sobreviver a ele. Na história da filosofia, o que permite considerar as corporações uma organização temporária, boa apenas para uma época e uma civilização determinada, é, ao mesmo tempo, sua grande antiguidade e a maneira como se desenvolveram na história. Se elas datassem unicamente da Idade Média, poder-se-ia crer, de fato que, nascidas com um sistema político, deviam necessariamente desaparecer com ele. Mas, na realidade, têm uma origem bem mais antiga. Em geral, elas aparecem desde que as profissões existem, isto é, desde que a atividade deixa de ser puramente agrícola. Se não parecem ter sido conhecidas na Grécia, até o tempo da conquista romana, é porque os ofícios, sendo desprezados, eram exercidos exclusivamente por estrangeiros e, por isso mesmo, achavam-se excluídos da organização legal da cidade. Mas em Roma, comparativamente, elas datam pelo menos dos primeiros tempos da República; uma tradição chegava até a atribuir sua criação ao rei Numa, um sabino escolhido como segundo rei de Roma.

Sábio, pacífico e religioso, dedicou-se a elaboração das primeiras leis de Roma, assim como dos primeiros ofícios religiosos da cidade e do primeiro calendário. É verdade que, por tempo socialmente, elas tiveram de levar uma existência bastante humilde, pois os historiadores e os monumentos só raramente as mencionam; não sabemos muito bem como eram organizadas. Desde de Cícero, sua quantidade tornara-se considerável e elas começavam a desempenhar um papel. Nesse momento, diz J.-P Waltzing (1857-1929), “todas as classes de trabalhadores parecem possuídas pelo desejo de multiplicar as associações profissionais” (cf. Durkheim, 2010).   Mas o caráter desses agrupamentos se modificou; eles acabaram tornando-se “verdadeiras engrenagens da administração”. Desempenhavam funções oficiais; cada profissão era vista como um serviço público, cujo encargo e cuja responsabilidade ante o Estado cabiam à corporação correspondente. Foi a ruína da instituição. Porque, segundo Durkheim, essa dependência em relação ao Estado não tardou a degenerar numa servidão intolerável que os imperadores só puderam manter pela coerção. Todas as sortes de procedimentos foram empregadas para impedir que os trabalhadores escapassem das pesadas obrigações que resultavam, para eles, de sua própria profissão. Evidentemente, tal sistema de trabalho só podia durar enquanto o poder político fosse o bastante para impô-lo.

Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade. É, em particular, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as do ponto de vista das funções econômicas absorvem o maior número de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim, como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Desde que com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais do que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases sociais. 

Os únicos agrupamentos dotados de permanência são os que se chamam sindicatos, seja de patrões, seja de operários. Historicamente, temos aí in statu nascendi o começo e o princípio ético de uma organização profissional, mas ainda de forma rudimentar. Isto porque, em primeiro lugar, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovida, por conseguinte, de qualquer poder regulamentador. O número deles é teoricamente ilimitado, mesmo no interior de uma categoria industrial; e, como cada um é independente dos outros, se não se constituem em federação e se unificam, não há neles nada que exprima a unidade da profissão em seu conjunto de práticas e saberes sociais. Não só os sindicatos de patrões e de empregados são distintos uns dos outros, o que é legítimo e necessário, como não há entre eles contatos regulares. Não existe organização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em comum uma regulamentação que, estabelecendo suas relações mútuas, imponha-se a ambas as partes com a mesma autoridade; por conseguinte, é sempre a “lei dos mais forte” que resolve os conflitos, e o estado de guerra subiste inteiro. Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera moral comum estão na mesma situação. A tese sociológica é a seguinte: para que uma moral e um direito profissionais possam se estabelecer nas diferentes profissões, é necessário, pois, que a corporação, em vez de permanecer um agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, volte a ser, um grupo definido, organizado, uma instituição pública.  A primeira observação familiar da crítica histórica e sociológica de Émile Durkheim, é que a corporação tem contra si seu próprio passado histórico. De fato, ela é tida como intimamente solidária do antigo regime político e, por conseguinte, como incapaz de sobreviver a ele.

   Na história da filosofia, o que permite considerar as corporações uma organização temporária, boa apenas para uma época e uma civilização determinada, é, ao mesmo tempo, sua grande antiguidade e a maneira como se desenvolveram na história. Se elas datassem unicamente da Idade Média, poder-se-ia crer, de fato que, nascidas com um sistema político, deviam necessariamente desaparecer com ele. Mas, na realidade, têm uma origem bem mais antiga. Em geral, elas aparecem desde que as profissões existem, isto é, desde que a atividade deixa de ser puramente agrícola. Se não parecem ter sido conhecidas na Grécia, até o tempo da conquista romana, é porque os ofícios, sendo desprezados, eram exercidos exclusivamente por estrangeiros e, por isso mesmo, achavam-se excluídos da organização legal da cidade. Mas em Roma, comparativamente, elas datam pelo menos dos primeiros tempos da República; uma tradição chegava até a atribuir sua criação ao rei Numa, Numa, de origem sabina, foi o segundo rei de Roma (datas convencionais: 717/715 - 673 a. C.), logo a seguir a Rómulo, um sabino escolhido como segundo rei de Roma. Sábio, pacífico e religioso, dedicou-se a elaboração das primeiras leis de Roma, assim como dos primeiros ofícios religiosos da cidade e do primeiro calendário. É verdade que, por tempo, elas tiveram de levar uma existência bastante humilde, pois os historiadores e os monumentos só raramente as mencionam; não sabemos muito bem como eram organizadas. Desde de Cícero, sua quantidade tornara-se considerável e elas começavam a desempenhar um papel. Nesse momento, diz J.-P Waltzing (1857-1929), “todas as classes de trabalhadores parecem possuídas pelo desejo de multiplicar as associações profissionais” (cf. Durkheim, 2010). 

Mas o caráter socialmente desses agrupamentos se modificou; eles acabaram tornando-se “verdadeiras engrenagens da administração”. Desempenhavam funções oficiais; cada profissão era vista como um serviço público, cujo encargo e cuja responsabilidade ante o Estado cabiam à corporação correspondente. Foi a ruína da instituição. Porque, segundo Durkheim, essa dependência em relação ao Estado não tardou a degenerar numa servidão intolerável que os imperadores só puderam manter pela coerção. Todas as sortes de procedimentos foram empregadas para impedir que os trabalhadores escapassem das pesadas obrigações que resultavam, para eles, de sua própria profissão. Evidentemente, tal sistema de trabalho só podia durar enquanto o poder político fosse o bastante para impô-lo. É por isso que ele não sobreviveu à dissolução do Império. Aliás, as guerras civis e as invasões haviam destruído o comércio e a indústria; os artesãos aproveitaram essas circunstâncias para fugir das cidades e se dispersar nos campos. Assim, os primeiros séculos de nossa era viram produzir-se um fenômeno que devia se repetir tal qual no fim do século XVII: a vida corporativa se extinguiu quase por completo. Mal subsistiram alguns vestígios seus, na Gália e na Germânia, nas cidades de origem romana. Portanto, naquele momento, um teórico tivesse tomado consciência da situação, teria provavelmente concluído, como o fizeram mais tarde os economistas, que as corporações não tinham, ou, em todo caso, não tinham mais razão de ser, que haviam desaparecido irreversivelmente, e sem dúvida teria tratado de retrógrada e irrealizável toda tentativa de reconstituí-las. Os acontecimentos desmentiriam uma tal profecia. De fato, após um “eclipse da razão” de algum tempo caminhando para os nossos dias, as corporações recomeçaram nova existência em todas as sociedades europeias.

Elas renasceram por volta dos séculos XI e XII. Desde esse momento, diz Emile Levasseur, “os artesãos começam a sentir a necessidade de se unir e formam suas primeiras associações”. Em todo caso, no século XII, elas estão outra vez florescentes e se desenvolvem até o dia em que começa para elas uma nova decadência. Uma instituição tão persistente assim não poderia depender de uma particularidade contingente e acidental; muito menos ainda é possível admitir que tenha sido o produto de não sei que “aberração coletiva”. Se, desde a origem da cidade até o apogeu do Império, desde o alvorecer das sociedades cristãs aos tempos modernos, elas foram necessárias, é porque correspondem a necessidades duradouras e profundas. Sobretudo, vale lembrar que o próprio fato de que, depois de terem desaparecido uma primeira vez, reconstituíram-se por si mesmas e sob uma nova forma, retira todo e qualquer valor ao argumento que apresenta sua desaparição violenta no fim do século passado como uma prova de que não estão mais em harmonia com as novas condições de existência coletiva. A necessidade que todas as grandes sociedades civilizadas sentem de chamá-las de volta à vida é o mais seguro sintoma evidente dessa supressão radical não era um remédio e de que a reforma de Jacques Turgot requeria outra que não poderia ser indefinidamente adiada. Mas nem toda organização corporativa é anacronismo histórico. Acreditamos que ela seria chamada a desempenhar, nas sociedades contemporâneas, menos pelo papel considerável que julgamos indispensável, por causa não dos serviços econômicos que ela poderia prestar, mas da influência moral que poderia ter.  O que vemos antes de mais nada no grupo profissional é um poder moral capaz de conter os egoísmos individuais, de manter no coração dos trabalhadores um sentimento vivo de solidariedade comum, de impedir que a “lei do mais forte” se aplique de maneira brutal nas relações industriais e comerciais.

Mas é preciso evitar estender a todo regime corporativo o que pode ter sido válido para certas corporações e durante um curto lapso de tempo de seu desenvolvimento. Longe de ser atingido por uma sorte de enfermidade moral devida à sua própria constituição, foi sobretudo um papel moral que ele representou e continua representando ainda, na maior parte de sua história. Isso é particularmente evidente no caso das corporações romanas. Sem dúvida, a associação lhes dava mais forças para salvaguardar, se necessário, seus interesses comuns. Mas era isso apenas um dos contragolpes úteis que a instituição produzia, lembra Durkheim: “não era sua razão de ser, sua função principal. Antes de mais nada, a corporação era um colégio religioso”. Cada uma tinha seu deus particular, cujo culto quando ela tinha meios, era celebrado num templo especial. Do mesmo modo que cada família tinha seu Lar familiaris, cada cidade seu Genius publicus, cada colégio tinha seu deus tutelar, Genius collegi. Naturalmente, o “culto profissional” não se realizava sem festas, que eram celebradas em comum sem sacrifícios e banquetes. Todas as espécies de circunstâncias serviam, aliás, de ocasião para alegres reuniões, além disso, distribuições de víveres ou de dinheiro ocorriam com frequência às expensas da comunidade. Indagou-se se a corporação tinha uma caixa de auxílio, se ela assistia regularmente seus membros necessitados, e as opiniões a esse respeito são divididas.

Mas o que retira da discussão parte de seu interesse e de seu alcance é que esses banquetes comuns, mais ou menos periódicos, e as distribuições que os acompanharam serviam de auxílios e faziam não raro as vezes de uma assistência direta. Os infortunados sabiam que podiam contar com essa subvenção dissimulada. Como corolário do caráter religioso, o colégio de artesãos era, ao mesmo tempo, um colégio funerário. Unidos, como gentiles, num mesmo culto durante sua vida, os membros da corporação queriam, como eles, dormir juntos seu derradeiro sono.  A importância tão considerável que a religião tinha em sua vida, tanto em Roma quanto na Idade Média, põe particularmente em evidência a verdadeira natureza de suas funções; porque toda comunidade religiosa constituía, então, um ambiente moral, do mesmo modo que toda disciplina moral tendia necessariamente a adquirir uma forma religiosa. A partir do instante em que, no seio de uma sociedade política, certo número de indivíduos tem em comum ideias, interesses, sentimentos, ocupações que o resto da população não partilha com eles, é inevitável que, sob a influência dessas similitudes eles sejam atraídos uns para os outros, que se procurem, teçam relações, se associem e que se forme assim, pouco a pouco, um grupo restrito, com sua fisionomia especial da sociedade em geral.

Porque é impossível que homens vivam juntos, estejam regularmente em contato, sem adquirirem o sentimento do todo que formam por sua união, sem que se apeguem a esse todo, se preocupem com seus interesses e o levem em conta em sua conduta. Enfim, basta que esse sentimento se precise e se determine, que, aplicando-se às circunstâncias mais ordinárias e mais importantes da vida, se traduza em fórmulas definidas, para que se tenha um corpo de regras morais em via de se constituir. Ao mesmo tempo que se produz por si mesmo e pela força das coisas, esse resultado é útil e o sentimento de sua utilidade contribui para confirma-lo. A vida em comum é atraente, ao mesmo tempo que coercitiva. Para o ponto de vista conservantista do método analítico durkheimiano, a coerção é necessária para levar o homem a se superar, a acrescentar à sua natureza física outra natureza; mas, à medida que aprende a apreciar os encantos dessa nova existência, contrai a sua necessidade e não há ordem de atividade que não os busque com paixão. A moral doméstica não se formou de outro modo. Por causa do prestígio que a família conserva ante nossos olhos, parece-nos que, se ela foi e é sempre uma escola de dedicação e de abnegação, o escopo por excelência da moralidade, é em virtude de características bastante particulares que teria o privilégio e que não se encontrariam em ouro lugar em nenhum grau. Costuma-se crer que exista laços sociais na consanguinidade e a formação social de uma causa excepcionalmente poderosa de aproximação moral.                       

A prova está em que, num sem-número de sociedades, os não-consanguíneos são muitos no seio da família; o parentesco dito artificialmente se contrai então com grande facilidade e exerce todos os efeitos do parentesco natural. Inversamente, acontece com grande frequência consanguíneos bem próximos serem, moral ou juridicamente, estranhos uns aos outros; é, por exemplo, historicamente o caso dos cognatos na família romana. Portanto, a família não deve suas virtudes à unidade de descendência: ela é, simplesmente, um grupo de indivíduos que foram aproximados uns dos outros, no seio da sociedade política, por uma comunidade mais particularmente estreita de ideias, sentimentos e interesses. A consanguinidade pode ter facilitado essa concentração, pois ela tem por efeito natural inclinar as consciências umas em relação às outras. Outros fatores intervieram: a proximidade material, a solidariedade de interesses, a necessidade de união contra um perigo comum, ou simplesmente de se unir, foram causas muito mais poderosas de comunicação social no processo produtivo. Mas, para dissipar todas as prevenções, para mostrar bem que o sistema corporativo não é apenas uma instituição do passado, seria necessário mostrar que transformações ele deve e pode sofrer para se adaptar às sociedades modernas, é evidente que ele não pode ser o que era na Idade Média.

Para tanto, seriam necessários estudos comparativos que não estão feitos e que não podemos fazer de passagem. Talvez, porém, não seja impossível perceber desde já, mas apenas em suas linhas mais gerais, o que foi esse desenvolvimento. O historiador que empreende resolver em seus elementos a organização política dos romanos não encontra, no decurso de sua análise, nenhum fato social que possa adverti-lo da existência das corporações. Elas não entravam na constituição romana, na qualidade de unidades definidas e reconhecidas. Em nenhuma das assembleias eleitorais, em nenhuma das reuniões do exército, os artesãos se reuniam por colégios, em parte alguma o grupo profissional tomava parte, como tal, na vida pública, seja em corpo, seja por intermédio de representantes regulares. No máximo, a questão pode se colocar a propósito de três ou quatro colégios que se imaginou poder identificar com algumas das centúrias constituídas por Sérvio Túlio, a saber: tignari (construtores de casas), aerari (corporação clerical), tibicines (serviço de monumento funerário), corporações cornicínes (espécie de pizza enrolada), mas ainda assim o fato social não está bem estabelecido.

Quanto às outras corporações, estavam certamente fora da organização oficial do povo romano. Ora, por muito tempo os ofícios não foram mais do que uma forma acessória e secundária da atividade social dos romanos. Roma era essencialmente uma sociedade agrícola e guerreira. No primeiro era dividida em gentes e em cúrias; a assembleia por centúrias refletia antes a organização militar. Quanto às funções industriais, eram demasiado rudimentares para afetar a estrutura política da cidade. Aliás, até um momento bem avançado da história romana, os ofícios permaneceram marcados por um descrédito moral que não lhes permitia ocupar uma posição regular no Estado. Sem dúvida, veio um tempo em que sua condição social melhorou. Mas a própria maneira como foi obtida essa melhora é significativa. Para conseguir fazer respeitar seus interesses e desempenhar um papel na vida pública, os artesãos tiveram de recorrer a procedimentos irregulares e extralegais. Só triunfaram sobre o desprezo de que eram objeto por meios de intrigas, complôs, agitação clandestina. E, se, mais tarde, acabaram sendo integrados ao Estado para se tornar engrenagens da máquina administrativa, essa situação como foi, para eles, uma conquista gloriosa, mas uma penosa dependência; se entraram então no Estado, não foi para nele ocupar a posição a que seus serviços sociais podiam lhes dar direito, mas simplesmente para poder ser mais bem vigiados pelo poder governamental.

É por isso que ele não sobreviveu à dissolução do Império. Aliás, as guerras civis e as invasões haviam destruído o comércio e a indústria; os artesãos aproveitaram essas circunstâncias para fugir das cidades e se dispersar nos campos. Assim, os primeiros séculos de nossa era viram produzir-se um fenômeno que devia se repetir tal qual no fim do século XVII: a vida corporativa se extinguiu quase por completo. Mal subsistiram alguns vestígios seus, na Gália e na Germânia, nas cidades de origem romana. Portanto, naquele momento, um teórico que tivesse tomado consciência da situação, teria provavelmente concluído, como o fizeram mais tarde os economistas, que as corporações não tinham, ou, em todo caso, não tinham mais razão de ser, que haviam desaparecido irreversivelmente, e sem dúvida teria tratado de retrógrada e irrealizável toda tentativa de reconstituí-las. Os acontecimentos desmentiriam uma tal profecia. De fato, após um “eclipse da razão” de algum tempo caminhando para os nossos dias, as corporações recomeçaram nova existência em quase todas as sociedades europeias. Elas renasceram por volta dos séculos XI e XII. Desde esse momento, diz Emile Levasseur, “os artesãos começam a sentir a necessidade de se unir e formam suas primeiras associações”. 

Em todo caso, no século XII, elas estão outra vez florescentes e se desenvolvem até o dia em que começa para elas uma nova decadência. Uma instituição tão persistente assim não poderia depender de uma particularidade contingente e acidental; muito menos ainda é possível admitir que tenha sido o produto de não sei que “aberração coletiva”. Mas é preciso evitar estender a todo regime corporativo o que pode ter sido válido para certas corporações e durante um curto lapso de tempo de seu desenvolvimento. Longe de ser atingido apenas por uma sorte de enfermidade moral devida à sua própria constituição, foi sobretudo um papel moral que ele representou e continua representando ainda, na maior parte de sua história. Isso é particularmente evidente no caso das corporações romanas. Sem dúvida, a associação lhes dava mais forças para salvaguardar, se necessário, seus interesses comuns. Mas era isso apenas um dos contragolpes úteis que a instituição produzia, lembra Durkheim: “não era sua razão de ser, sua função principal. Antes de mais nada, a corporação era um colégio religioso”. Cada uma tinha seu deus particular, cujo culto quando ela tinha meios, era celebrado num templo especial. Do mesmo modo, comparativamente, que cada família tinha seu Lar familiaris, cada cidade seu Genius publicus, cada colégio tinha seu deus tutelar, Genius collegi. Naturalmente, o culto profissional não se realizava sem festas, que eram celebradas em comum sem sacrifícios e banquetes.

 Todas as espécies de circunstâncias serviam, aliás, de ocasião para alegres reuniões, além disso, distribuições de víveres ou de dinheiro ocorriam com frequência às expensas da comunidade. Indagou-se se a corporação tinha uma caixa de auxílio, se ela assistia regularmente seus membros necessitados, e as opiniões a esse respeito são divididas. Mas o que retira da discussão parte de seu interesse e de seu alcance é que esses banquetes comuns, mais ou menos periódicos, e as distribuições que os acompanharam serviam de auxílios e faziam não raro as vezes de uma assistência direta. Os infortunados sabiam que podiam contar com essa subvenção dissimulada. Como corolário do caráter religioso, o colégio de artesãos era, ao mesmo tempo, um colégio funerário. Unidos, como gentiles, num mesmo culto durante sua vida, os membros da corporação queriam, como eles, dormir juntos seu derradeiro sono. A importância tão considerável que a religião tinha em sua vida, tanto em Roma, comparativamente quanto na Idade Média, põe particularmente em evidência a verdadeira natureza de suas funções sociais; porque toda comunidade religiosa constituía, então, um ambiente moral, do mesmo modo que toda disciplina moral tendia necessariamente a adquirir uma forma religiosa.

A partir do instante em que, no seio de uma sociedade política, certo número de indivíduos tem em comum ideias, interesses, sentimentos, ocupações que o resto da população não partilha com eles, é inevitável que, sob a influência dessas similitudes eles sejam atraídos uns para os outros, que se procurem, teçam relações, se associem e que se forme assim, pouco a pouco, um grupo restrito, com sua fisionomia especial da sociedade em geral. Porque é impossível que homens vivam juntos, estejam regularmente em contato, sem adquirirem o sentimento do todo que formam por sua união, sem que se apeguem a esse todo, se preocupem com seus interesses e o levem em conta em sua conduta. Enfim, basta que esse sentimento se precise e se determine, que, aplicando-se às circunstâncias mais ordinárias e mais importantes da vida, se traduza em fórmulas definidas, para que se tenha um corpo de regras morais em via de se constituir. Ao mesmo tempo que se produz por si mesmo e pela força das coisas, esse resultado é útil e o sentimento de sua utilidade contribui para confirma-lo. A vida em comum é atraente, ao mesmo tempo que coercitiva. Para o ponto de vista conservantista do método analítico durkheimiano, a coerção é necessária para levar o homem a se superar, a acrescentar à sua natureza física outra natureza; mas, à medida que aprende a apreciar os encantos dessa nova existência, ele contrai a sua necessidade e não há ordem de atividade que não os busque com paixão. A moral doméstica não se formou de outro modo.

Por causa do prestígio que a família conserva ante nossos olhos, parece-nos que, se e ela foi e é sempre uma escola de dedicação e de abnegação, o foco por excelência da moralidade, é em virtude de características bastante particulares que teria o privilégio e que não se encontrariam em ouro lugar em nenhum grau. Costuma-se crer que exista na consanguinidade uma causa excepcionalmente poderosa de aproximação moral. A prova está em que, num sem-número de sociedades, os não-consanguíneos são muitos no seio da família; o parentesco dito artificial se contrai então com grande facilidade e exerce todos os efeitos do parentesco natural. Inversamente, acontece com grande frequência consanguíneos bem próximos serem, moral ou juridicamente, estranhos uns aos outros; é, por exemplo, o caso dos cognatos na família romana. Portanto, a família não deve suas virtudes à unidade de descendência: ela é, simplesmente, um grupo de indivíduos que foram aproximados uns dos outros, no seio da sociedade política, por uma comunidade mais particularmente estreita de ideias, sentimentos e interesses. A consanguinidade pode ter facilitado essa concentração, pois ela tem por efeito natural inclinar as consciências em relação às outras. Outros fatores intervieram: a proximidade material, a solidariedade de interesses, a necessidade de união contra um perigo comum, ou simplesmente de se unir, foram causas muito mais poderosas de comunicação social no processo produtivo.

Mas, para dissipar todas as prevenções, adverte Durkheim, para mostrar bem que o sistema corporativo não é apenas uma instituição do passado, seria necessário mostrar que transformações ele deve e pode sofrer para se adaptar às sociedades modernas, pois é evidente que ele não pode ser o que era na Idade Média. Para tanto, seriam necessários estudos comparativos que não estão feitos e que não podemos fazer de passagem. Talvez, porém, não seja impossível perceber desde já, mas apenas em suas linhas mais gerais, o que foi esse desenvolvimento. O historiador que empreende resolver em seus elementos a organização política dos romanos não encontra, no decurso de sua análise, nenhum fato que possa adverti-lo da existência das corporações. Elas não entravam na constituição romana, na qualidade de unidades definidas e reconhecidas. Em nenhuma das assembleias eleitorais, em nenhuma das reuniões do exército, os artesãos se reuniam por colégios, em parte alguma o grupo profissional tomava parte, como tal, na vida pública, seja em corpo, seja por intermédio de representantes regulares. No máximo, a questão pode se colocar a propósito de três ou quatro colégios que se imaginou poder identificar com algumas das centúrias constituídas por Sérvio Túlio, foi o sexto rei de Roma. Segundo a tradição, reinou por 44 anos, entre 578 a.C. e 539 a.C. a saber: tignari (são construtores de casas), aerari (corporação clerical), tibicines (monumento funerário), corporações cornicínes (espécie de pizza enrolada), mas o fato socialmente não está bem estabelecido. 

Quanto às outras corporações, estavam certamente fora da organização oficial do povo romano. Ora, por muito tempo os ofícios não foram mais do que uma forma acessória e secundária da atividade social dos romanos. Roma era essencialmente uma sociedade agrícola e guerreira. No primeiro era dividida em gentes e em cúrias; a assembleia por centúrias refletia antes de tudo a organização militar. Quanto às funções industriais, eram demasiado rudimentares para afetar a estrutura política da cidade. Aliás, até um momento bem avançado da história romana, os ofícios permaneceram marcados por um descrédito moral que não lhes permitia ocupar uma posição regular no Estado. Sem dúvida, veio um tempo em que sua condição social melhorou. Mas a própria maneira como foi obtida essa melhora é significativa. Para conseguir fazer respeitar seus interesses e desempenhar um papel na vida pública, os artesãos tiveram de recorrer a procedimentos irregulares e extralegais. Só triunfaram sobre o desprezo de que eram objeto por meios de intrigas, complôs, agitação clandestina. E, se, mais tarde, acabaram sendo integrados ao Estado para se tornar engrenagens da máquina administrativa, essa situação como foi, para eles, uma conquista gloriosa, mas uma penosa dependência; se entraram então no Estado, não foi para nele ocupar a posição a que seus serviços sociais podiam lhes dar direito, mas simplesmente para poder ser mais bem vigiados pelo poder governamental.

Quando as cidades se emanciparam da tutela senhorial, quando a comuna se formou, o corpo de ofícios, que antecipara e preparara esse movimento, tornou-se a base da constituição comunal. De fato, segundo J.-P Waltzing, “em quase todas as comunas, o sistema político e a eleição dos magistrados baseiam-se na divisão dos cidadãos em corpos de ofícios”. Era costumeiro votar-se por corpos de ofícios e elegiam-se ao mesmo tempo os chefes da corporação e os da comuna. – Em Amiens, por exemplo, os artesãos se reuniam todos os anos para eleger os prefeitos de cada corporação ou bandeira (bannière); os prefeitos eleitos nomeavam em seguida doze escabinos, que nomeavam outros doze, e o escabinato apresentava, por sua vez, aos prefeitos das bandeiras três pessoas, dentre as quais eles escolhiam o prefeito da comuna... Em algumas cidades, o modo de eleição era ainda mais complicado, mas, em todas, a organização política e municipal era intimamente ligada à organização do trabalho. Inversamente, assim como a comuna era um agregado de corpos de ofícios, o “corpo de ofício” era uma comuna em miniatura, pelo próprio fato de que fora o modelo do qual a instituição comunal era a forma ampliada e desenvolvida. Queremos dizer com isso, que sabemos o que a comuna foi na história de nossas sociedades, de que se tornou, com o tempo, a pedra angular. Ipso facto, já que era uma reunião de corporações e que se formou com base no tipo da corporação, foi em última análise, esta que serviu de base a todo o sistema político oriundo do movimento comunal. Vê-se que, em sua trajetória, ela cresceu singularmente em importância e dignidade. 

Em Roma, começou estando quase fora dos contextos normais, ela serviu de marco elementar para sociedades contemporâneas. É um motivo para que recusemos a considera-la uma instituição arcaica, destinada a desaparecer. A obra do sociólogo não é a do homem público, assevera Émile Durkheim. O que a experiência do passado demonstra, antes de mais nada, é que os marcos do grupo profissional devem guardar sempre uma relação com os marcos da vida econômica; foi por ter faltado com essa condição que o regime corporativo desapareceu. Portanto, já que o mercado, de municipal que era, tornou-se nacional e internacional, a corporação deve adquirir a mesma extensão. Em vez de ser limitada apenas aos artesãos de uma cidade, ela deve ampliar-se, de maneira a compreender todo os membros da profissão, dispersos em toda a extensão do território, porque, qualquer que seja a região em que se encontram, quer no campo, todos são solidários uns com os outros e participam da vida comum. Entretanto, nessa vida comum é, sob certos aspectos, independentemente de qualquer determinação territorial, tem que ser criado um órgão apropriado, que a exprima e regularize seu próprio funcionamento. Por causa de suas dimensões, tal órgão estaria necessariamente em contato relacional com o órgão central da vida coletiva, pois os acontecimentos importantes o bastante para envolverem toda uma categoria de empresas industriais num país tem necessariamente repercussões bastante gerais, que o Estado não pode sentir, o que o leva a intervir. 

Não foi sem fundamento que o poder real tendeu indistintamente a não deixar fora de sua ação a grande indústria. Era impossível que ele se desinteressasse por uma forma de atividade que por sua natureza, é capaz de afetar o conjunto da sociedade. Essa organização unitária para o conjunto de um mesmo país não exclui, alguma formação extraordinária de órgãos secundários, que compreendam os trabalhadores similares de uma mesma região ou excepcional localidade, e cujo papel seria especializar ainda mais a regulamentação profissional segundo as necessidades locais ou regionais. A vida econômica poderia ser regulada e determinada, sem nada perder de sua diversidade. Por isso mesmo, o regime corporativo seria protegido contra essa propensão ao imobilismo, que lhe foi frequente e justamente criticada no passado, porque é um defeito que resultava do caráter estreitamente comunal da corporação. Uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança risível. Eis porque é necessário que a inteligência guiada disciplinarmente pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. Tais sentimentos são capazes de inspirar não apenas esses sacrifícios cotidianos, mas também atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. A sociedade aprende a ver os membros que a compõem como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, que, essa moralidade em sociedade ainda não tem todo o desenvolvimento que lhes seria necessário. Daí resulta duas grandes correntes da vida social, que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais ocorre quando um grupo é capaz de criar e reproduzir para si e para os outros a princípio só e sem rival.

O lago é um “destino turístico” que atrai visitantes pela cor azul-esmeralda de suas águas cristalinas e pela paisagem natural que o cerca. O lago é rodeado em três lados por picos das Dolomitas, incluindo o Seekofel. O lago é o ponto de partida da Alta Via nº 1 das Dolomitas, chamada de “A Clássica”, que chega a Belluno, aos pés do Grupo Schiara. Graças à popularidade da série de televisão italiana de 2011, Un passo dal cielo, o Pragser Wildsee tornou-se um dos locais turísticos mais visitados da região Trentino-Altorão do Sul, atraindo inúmeros blogueiros de viagens, influenciadores e fotógrafos profissionais. O grande fluxo turístico levou os administradores locais a pensar em maneiras de reduzir o número de visitas para preservar o ecossistema de montanha-lago. De julho a setembro de 2018, 1,2 milhão de visitantes vieram ao Pragser Wildsee, segundo a Região Autônoma de Bolzano-Tirol do Sul em 2020. Um pico de 17.874 visitantes foi registrado em um único dia de agosto. Como esses números excessivos “não são bons para o meio ambiente natural a longo prazo”, a região decidiu restringir o acesso público de turistas, conforme a Heimatverband Südtirol, o que tornou necessário estabelecer regras para roteirizá-los. No verão de 2023, por exemplo, a estrada para o Vale de Pragser esteve fechada durante o dia, de 10/07/2023 a 10/09/2023, e a reserva de um bilhete de estacionamento custou 38 €.  O lago deve ser acessado pelo lado Norte, através do Vale de Prags.

O Partido Popular do Tirol do Sul, em alemão: Südtiroler Volkspartei (SVP) é um partido político regionalista e predominantemente democrata-cristão do Tirol do Sul, uma província autônoma com maioria de língua alemã no norte da Itália. Fundado em 8 de maio de 1945, o SVP tem raízes no Deutscher Verband, uma confederação de partidos de língua alemã formada em 1919 após a anexação do Tirol do Sul pela Itália, que compartilhava muitas das mesmas figuras de proa do SVP original. Um partido étnico abrangente, o SVP visa representar a população de língua alemã do Tirol do Sul, bem como os falantes de ladino. É principalmente democrata-cristão, mas, no entanto, bastante pluralista, incluindo conservadores, liberais e social-democratas. O partido também dá atenção especial aos interesses dos agricultores, que constituem uma boa parte de seu eleitorado, especialmente nos vales alpinos. De 1948 a 2013, o partido manteve a maioria absoluta no Landtag do Tirol do Sul (Conselho Provincial). Seu melhor resultado foi de 67,8% nas eleições provinciais de 1948, e o pior, de 34,5% nas eleições provinciais de 2023. O SVP manteve uma aliança duradoura com a Democracia Cristã, além do Partido Socialista Democrático Italiano ou Partido Socialista Italiano e, desde 1994, com alguns de seus partidos sucessores, incluindo o Partido Popular Italiano e a União Democrática do Alto Adige, bem como o Partido Democrático da Esquerda e, posteriormente, os Democratas da Esquerda e o Partido Democrático. Essa coalizão durou 25 anos, até que o partido optou por se unir à Liga Alto Adige Tirol do Sul, seção da Liga Norte/ Liga, em 2019. 

A coalizão foi ampliada para incluir os Irmãos da Itália, Die Freiheitlichen e Lista Cívica após as eleições provinciais de 2023. O SVP tem um partido irmão no Trentino, o Partido Autonomista Tirolês do Trentino (PATT). No Parlamento italiano, o SVP alia-se a outros partidos regionalistas, nomeadamente a União Valdostana do Vale de Aosta, enquanto a nível europeu é membro do Partido Popular Europeu (PPE) e formou recentemente pactos eleitorais com o Forza Italia, o principal membro italiano do PPE. Do ponto de vista ecológico é possível fazer um passeio ao redor das margens do lago. Este percurso é plano e amplo na margem oeste, enquanto na margem Leste é íngreme e estreito, com alguns trechos em escadaria. Durante o inverno, esses caminhos costumam ficar fechados devido ao risco de avalanches, especialmente o da margem Leste. Desde 2012, competições de  curling são realizadas na superfície “congelada do lago durante o inverno”. O curling não tem origem exata, mas admite-se que é um dos esportes mais antigos do mundo. Pinturas do artista flamengo Pieter Bruegel retratam uma atividade semelhante ao curling atual sendo praticada sobre lagos congelados. Uma referência escrita em latim no ano de 1540 fala de um desafio entre John Sclater, um monge da Abadia de Paisley, na Escócia, e Hamilton Gavin, um representante do Abade. Também na Escócia foram encontradas, em Dunblane, pedras datadas de 1511 e 1551, outra incontestável evidência da origem do curling. O primeiro clube de curling constituído foi o Kilsyth Curling Club, Escócia, em 1716. As primeiras regras do método também foram elaboradas na Escócia e adotadas formalmente como as “Regras do Curling” pelo Grand Caledonian Curling Club, formado em Edimburgo em 1838 e que se tornou na esfera político-administrativa o órgão gestor do esporte. 

Em 1843, após assistir a uma apresentação no Palácio de Scone, a Rainha Vitória ficou fascinada pelo jogo e permitiu a mudança no nome do clube para Royal Caledonian Curling ClubA disseminação do esporte pelo mundo globalizado se deu através de emigrantes escoceses durante o Século XIX. Nos dias atuais, o curling é praticado principalmente no Canadá, sendo o Royal Montreal Curling Club o mais antigo clube ainda ativo na América do Norte, fundado em 1807. Nos Estados Unidos, o Orchard Lake Curling Club, primeiro clube do país, foi fundado em 1832 em Detroit. Outros países, como Suécia, Suíça, Noruega e Nova Zelândia, também sofreram influência escocesa no desenvolvimento do curling. Um grupo de homens, vestidos com roupas de inverno e usando chapéus, participam de uma partida de curling. Um deles varre o gelo, enquanto os outros, também com vassouras na mão, observam. Homens jogam curling em Ontário, Canadá, em 1909. Há registros da realização de torneios ainda no século XIX, mas nenhum é considerado oficial até os Jogos Olímpicos de Inverno de 1924, em Chamonix, na França. Mesmo esta competição não era considerada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) parte dos Jogos, até que em 2006 uma investigação metodológica realizada pelo jornal escocês The Herald possibilitou oficializar os resultados e declarar os vencedores como campeões olímpicos. A equipe da Grã-Bretanha qual o Reino Unido é tratado no COI venceu a Suécia e França e ficou com o ouro. O primeiro Campeonato Mundial ocorreu em 1959. Ainda sob o nome de Scotch Cup, o torneio foi disputado pelas equipes da Escócia e do Canadá, mais países aderiram ao campeonato, fazendo com que em 1966 o Royal Caledonian Curling Club fundasse a Federação Internacional de Curling. Em 1991, o nome foi mudado para Federação Mundial de Curling.  

 O COI decidiu em 1992 incluir o esporte no programa olímpico, sendo disputado de forma oficial a partir dos Jogos de 1998, em Nagano, Japão, após aparecer como esporte de demonstração basicamente em três edições, a saber: Lake Placid 1932, Calgary 1988 e Albertville 1992. Participaram oito equipes masculinas e oito femininas. Em 1994, a WCF passou a ter um escritório próprio, se desligando do Royal Caledonian Curling Club. Outras categorias de competição foram criadas nos últimos anos e atualmente o curling faz parte do programa da Universíada, dos Jogos Asiáticos de Inverno e dos Jogos Paralímpicos de Inverno. Além desses eventos ainda há campeonatos mundiais júnior masculino e feminino, de duplas mistas e de seniores. As regras do curling atualmente em vigor foram definidas pela WCF em junho de 2011. A World Curling, antes reconhecida como Federação Mundial de Curling (WCF), é o órgão mundial que rege a acreditação do curling, com escritórios em Perth, Escócia. Foi formada a partir da Federação Internacional de Curling (ICF), quando houve a pressão para que o curling se tornasse um esporte olímpico de inverno. O Principado Episcopal de Trento foi um Estado eclesiástico governado pelo bispo de Trento que existiu por cerca de oito séculos de 1027 a 1802, vinculado ao Sacro Império Romano-Germânico no Círculo Imperial Austríaco e depois ao Império Austríaco. Localizava-se no território da região italiana do Trentino-Alto Ádige (Trentino-Südtirol), no antigo Condado Principesco do Tirol.

No início do século XIX, a administração foi secularizada e reunida ao restante governo do condado do Tirol, do qual o território de Trento já fazia parte como entidade semiautônoma desde 1363. O Principado Episcopal foi criado em 1027 pelo imperador romano-germânico Conrado II, juntamente com o vizinho Principado Episcopal de Bressanone. Conrado II decidiu investir bispos com o poder temporal para estabilizar a região que com frequência era palco de batalhas entre os diversos príncipes laicos do império, assim como para facilitar a passagem do exército imperial entre o norte da península Itálica e a Alemanha, ao longo de duas antigas estradas romanas da região, a Via Cláudia Augusta e a Cláudia Augusta Altinate. A maior parte da área compreendida nos dois novos estados fazia parte anteriormente da Marca de Verona. Os dois príncipes-bispos eram autênticos príncipes do Sacro Império Romano-Germânico, sujeitos somente à autoridade do imperador e do papa, e membros da dieta imperial. O bispo de Trento estabeleceu uma sólida ligação com o imperador, enquanto era crescente a influência do condado do Tirol sobre toda aquela região alpina. A maior parte dos bispos de Trento e Bressanone (Brixen) era de origem alemã, pertencente a nobres famílias do Tirol, Suíça, Baviera (Bayern), Boêmia (Böhmen), Suábia (Schwaben). O condado do Tirol, surgido na Val Venosta (Vinschgau), no Castelo Tirol, mantinha influência na cidade de Bolzano, Arco e Innsbruck e ampliou durante a Idade Média seu domínio sobre as terras da Bassa Atesina (Tiroler Unterland), territórios então pertencentes à Arquidiocese de Trento. O bispo Adelpreto/Adelbrecht (1156-1172), da família dos Hohenstaufen do imperador Frederico I, havia tentado impor o próprio poder temporal sobre todo o território da diocese; foi assassinado em Arco, em 30 de setembro de 1172 supostamente a mando dos condes de Appiano (Eppan). 

A autoridade do príncipe-bispo foi, porém, reafirmada pelo imperador Frederico Barbarossa e por seu filho Henrique VII: os bispos foram de fato autorizados a emitir moedas e instituir novos impostos. O principado foi reorganizado por Frederico Vanga/Friederich Wanger (1205-1218), uma das figuras históricas mais importantes da Igreja tridentina, parente do imperador Oto IV. Aliado do bispo de Bressanone (Brixen) e apoiado pela ordem religiosa dos Cavaleiros Teutônicos, a quem doou grande patrimônio, conseguiu limitar a influência e a força dos nobres leigos e reconquistou grande parte dos territórios perdidos no passado. A fim de definir definitivamente a autoridade do bispo sobre o território da região, ele reuniu numa coletânea chamada Codex Wangianus todos os documentos históricos que certificavam o poder episcopal, anotada na origem com o título: Libro di San Vigilio, uma das principais fontes para a historiografia do principado na Idade Média. Frederico foi um grande mecenas de artistas e arquitetos, manteve o comércio ao longo da via dos Alpes e investiu notáveis capitais na mineração de prata. O estatuto de mineração que outorgou em 19 de junho de 1209 é considerado o mais antigo documento sobre extração mineral nos Alpes.

Nesse período, a cidade de Trento foi fortificada com a construção de novas muralhas e teve início a construção da Catedral de Trento. Ademais, com a instalação de tiroleses de língua alemã em Primiero (Primör), Valsugana (Suganertal), nesse período surgiu aquela que é atualmente a maior comunidade germanófona trentina, a de Valle dei Mocheni (Fersental), embora documentos atestam que o uso do idioma alemão era muito mais difuso em boa parte do território trentino. A morte de Vanga na Terra Santa durante uma cruzada parou as reformas. Em 1236, o imperador Frederico II depôs os bispos da região e suas insígnias de autoridade sobre uma vasta região em torno de Trento, anexada pela marca de Treviso: a administração do novo feudo foi confiada ao fiel companheiro Ezzelino da Romano de Verona. No século XIII, os condes do Tirol ampliaram seus domínios por meio de acordos de união com os bispos. Uma vez que a igreja de Trento não poderia manter uma defesa militar própria e não poderia aplicar penas capitais, coube aos condes tiroleses a defesa militar do território do condado e das dioceses de Trento e Bressanone. Com Mainardo II de Tirol-Gorizia, o criador do Tirol, cresceu a influência política do condado nas dioceses de Coira, Salzburgo, Bressanone (Brixen) e Trento.

O poder temporal do bispo foi reafirmado em 1310, quando o papa Clemente V nomeou como chefe da igreja tridentina o abade Henrique de Metz (Heinrich von Metz), chanceler do rei da Germânia, Henrique VII de Luxemburgo: em 1338, assumiu a cátedra episcopal um outro chanceler, o boêmio Nicolau de Bruna, estreitamente ligado à dinastia real. Nicolau tentou limitar o poder dos nobres nas terras do episcopado, organizando um pequeno exército episcopal e oferecendo à diocese um novo brasão unitário, a “águia de São Venceslau” - padroeiro da Boêmia. No curso da segunda metade do século XIV, durante a luta entre os imperadores rivais Carlos IV e Luís IV, o principado foi objeto de diversas devastações e foi temporariamente anexado ao território da Baviera, que procurava ampliar seu domínio na região tirolesa. Neste período, o bispo Alberto de Ortenburg (Albert von Ortenburg) formou uma aliança exclusiva e perpétua com os poderosos condes de Tirol, já da família dos Habsburgo, mediante os tratados feitos pela condessa Margareth Maultasch em 1363 (que unia definitivamente o Tirol à Casa real da Áustria) e na reconfirmação do acordo de união do Tirol com a Áustria em 1365. Esses estabeleceram definitivamente uma espécie de confederação entre o Condado do Tirol e a Diocese Tridentina e o fim de uma política externa e militar para esta última.

No início do século XV o bispo tridentino Jorge I de Liechtenstein (Jörg I von Liechtenstein,1390-1419) procurou diminuir a influência política do condado tirolês sobre sua diocese, mas reconhecendo a aliança e colocando-se diretamente sob a autoridade do imperador. Porém, neste período a morte do duque de Milão Gian Galeazzo Visconti em 1402 desencadeou instabilidade no Norte da Itália, e tropas de Galeazzo de Mântua percorreram o principado em 1405. Uma preocupação mais séria veio da expansão da República de Veneza, obrigando ao reforço militar das fronteiras do sul. Neste contexto, em abril de 1407 ocorreu uma revolta de cidadãos de Trento contra o bispo, liderados por Negro de Nigris, reivindicado direitos e invocando a proteção do conde do Tirol. Entre as causas da rebelião estavam uma pesada carga fiscal imposta pela diocese aos camponeses, a ingerência oficial de estrangeiros e negação de direitos. Os revoltosos exigiam a criação de um conselho cívico com poderes administrativos e de fiscalização do vigário episcopal, e a instalação de um referendário dotado de funções militares. Rodolfo Belenzani foi eleito capitão do povo. Essas medidas visavam criar uma administração cívica independente da jurisdição dos bispos e vinculada aos condes do Tirol. Em 16 de abril, chamado pelos trentinos, Frederico IV (1382-1439, conde do Tirol, tomou posse da cidade de Trento. O bispo foi preso e seus membros assassinados. Frederico IV concedeu aos revoltosos o que pediam: a jurisdição do conselho para todo o principado. O bispo teve de renunciar ao poder temporal. Contudo, Belenzani acabou rompendo com Frederico IV, teve de fugir e os direitos cívicos há pouco concedidos foram cancelados. 

O estado de guerra continuou ao longo de 1408. Em 1409 reconquistou Trento, mas em julho Henrique de Rottenburg, capitão de Frederico IV, entrou na cidade com suas tropas, e Belenzani foi morto. Os revoltosos esperavam obter o apoio militar da República de Veneza, mas o apoio não veio, e foram derrotados em 5 de julho de 1409. Em dezembro o bispo foi reinstalado, mas no ano seguinte foi despojado de seus direitos novamente e acabou se refugiando no castelo de sua família. Com a morte de Jorge I de Liechtenstein, a cátedra episcopal foi confiada ao sobrinho do rei da Polônia, Alexandre da Mazóvia (1423-1444]). Patrocinador de uma política de reforço do poder episcopal, o bispo buscou aproximar-se da República de Veneza e do Ducado de Milão. O despotismo do bispo polonês provocou uma outra revolta sanguinária com a intervenção das tropas tirolesas (1435). Com sua morte, alçado à cardeal, a administração do principado caiu numa cisma interno: o capítulo da catedral e o Império nomearam um bispo que operava ao norte da diocese, enquanto o Papa Eugênio IV e Veneza apoiaram um ex-abade que governava o sul do episcopado. Em junho de 1511, Trento e Bressanone afirmaram um acordo com o qual os dois principados tornavam-se perpetuamente confederados com o Condado de Tirol. O Tirol era, portanto, um condado unido a duas dioceses, formando a Confoederatio Tyrolensis.

Durante a vitoriosa guerra contra Veneza, em 1519, o território Trentino foi invadido por lanceiros de retorno de uma expedição fracassada contra Vicenza. Na cidade e no campo houve diversos episódios de peste (1510 e 1512), carestia (1512, 1519-1520) e um terremoto em 1521: estes episódios trágicos marcaram o início de uma forma de resistência ao poder dos bispos e dos nobres. Uma revolta armada foi organizada em 1525, a revolução camponesa ou guerra rústica. Os rebeldes eram guiados por Michael Gaysmair (1490-1532), que inspirado nas ideias protestantes advindas dos reinos alemães, procurou estabelecer a instituição de uma “república” camponesa no Tirol, com nacionalização das terras e dos minérios (tirando seu controle dos bispos e nobres) e abolição do poderio excessivo da nobreza dos bispos. Gaysmair aliou-se a Veneza, o que foi considerado um ato de traição pelos tiroleses. Os revoltosos careciam de organização e foram facilmente derrotados na batalha do Valle Isarco e de Vipiteno (1797) pelas tropas tirolesas e austríacas, com o apoio do bispo trentino Bernardo Clesio. O próprio Gaysmair foi morto por um sicário do arquiduque Fernando, em Pádua, em 1532. Um milhar de rebeldes tiroleses se refugiara na Morávia, próximo a Auspitz, onde organizaram “as fábricas fraternas” (Bruderhöfe). Na Catedral de Trento, Maximiliano I de Habsburgo foi coroado Imperador Romano-Germânico. Amante da terra tirolesa, fez prosperar naquela região as artes e deu maior importância às organizações paramilitares dos tiroleses.

Com ajuda do bispo de Trento (e a pedido deste), Mazimiliano criou o Landlibell, um conjunto de normas que permitia a organização militar voluntária e organizada composta por camponeses, artesãos e nobres em companhias de atiradores (Schützen, Sìzzeri, Bersaglieri) que se formaram em toda a região tirolesa e que não tinham a obrigação de lutar fora das terras do Tirol. O cardeal Bernardo Clesio é considerado o autêntico refundador da autoridade episcopal dos príncipes-bispos de Trento. Conselheiro do imperador Maximiliano I e amigo de Erasmo de Rotterdam, teve um papel importante na eleição de Carlos V ocorrida em Frankfurt, em 1519, e na de Fernando I, na qualidade de rei da Boêmia. Desenvolveu um mecenato artístico e cultural, ordenou reformas e embelezamentos na Catedral de Trento, abriu estradas, construiu habitações populares, pontes e aquedutos, regularizou o curso de rios, fomentou a agricultura, a indústria, a mineração e também o comércio, saneou as finanças do principado, protegeu os pobres, promulgou os Estatutos de Trento e leis contra a usura, organizou arquivos históricos e implementou amplas melhorias urbanas e paisagísticas na capital. Procurou moralizar os costumes do clero e foi um grande defensor da ortodoxia católica, opondo-se firmemente à Reforma Protestante, iniciando os preparativos para a realização do Concílio de Trento.

As grandes reformas feitas pelo bispo Clesio foram completadas por seu sucessor, o cardeal Cristoforo Madruzzo. Graças ao Concílio de Trento e à política deste período, o Trentino gozou de um forte crescimento econômico no âmbito da mineração, da manufatura e do comércio. A região do Tirol havia sido escolhida para o concílio por ser um local de “encontro” dos mundos germânico e latino. O intuito era iniciar uma contra-reforma, que reconquistasse a fé católica nas terras protestantes do Sacro Império. A presença, devido ao concílio, de homens de cultura e de estudiosos principalmente de língua italiana, contribuiu para a difusão dos ideais renascentistas e da cultura italiana na região de Trento. Em seguida, a introdução da Contrarreforma determinou uma decisiva inversão da tendência do passado, com a definitiva difusão da língua italiana em prejuízo da alemã muito difundida anteriormente entre os religiosos, mas também em todo o território. O medo da difusão do protestantismo no Tirol também contribuiu para que o alemão perdesse cada vez mais espaço na região trentina. Os sermões das missas já não eram mais em alemão, mas consequentemente quase que exclusivamente em italiano; vários sobrenomes de origem germânica foram latinizados ou italianizados. No século XVII, o principado sofreu as consequências econômicas da Guerra dos Trinta Anos e a decadência do comércio com o Vêneto. Na primeira metade do século, o episcopado foi dirigido por membros da família Madruzzo que passaram o cargo de príncipe-bispo de tio a sobrinho: Ludovico, Carlo Gaudenzio alçados a cardeal pelo papa e Carlos Manuel governaram a diocese tridentina por um século, controlando indiretamente também o principado de Bressanone (Brixen) até a morte de Carlos Manuel em 1658.

Neste ano, o imperador da Áustria, Leopoldo I deu o governo do principado ao arquiduque Sigismundo Francisco da Áustria, irmão do conde de Tirol. A diocese reforçava, assim, sua ligação com o território tirolês, comparativamente o mesmo se em 1662 os Habsburgo permitiram ao capítulo de Trento a jurisdição episcopal das terras eclesiásticas. Três anos depois, Sigismundo morreu e, extinta a dinastia dos condes de Tirol, o principado tridentino e as terras do condado tornaram-se definitivamente dependentes da dinastia austríaca dos Habsburgo. Isto não significou, porém, a perda do status na esfera político-administrativa de semi-independência do principado, que obteve vantagens como o equilíbrio do balanço em 1683, a conclusão do Castelo do Buonconsiglio em Trento e a melhora de zonas insalubres no vale do rio Ádige (Etschtal), onde foi introduzido cultivo de arroz. Os bispos tridentinos (em particular Leopoldo Spaur) mantiveram perante as autoridades imperiais sua política de independência episcopal no controle sobre as terras da Igreja, como as demais dioceses do Sacro Império. No início do século XVIII, quando o Tirol foi invadido pelas tropas francesas e bávaras, e a própria cidade de Trento foi assediada por uma semana, em setembro de 1703.

Tropas tirolesas correram em defesa dos vales da região, pois a invasão francesa trazia consigo ideias divergentes de Iluminismo e mudanças que geraram desagrado entre toda a população tirolesa, sobretudo ao clero. O bispo de Trento, Pietro Vigilio Thun (1724-1800), fugiu para o exílio antes da chegada das tropas franco-bávaras e a capital tirolesa Innsbruck foi dominada rapidamente pelo exército bávaro. A população tirolesa, fortemente apegada ao clero e à coroa austríaca, reagiu à invasão napoleônica com uma rebelião que se tornou um marco na história política de conquistas como a primeira baixa do poderio napoleônico na Europa. Os grupos armados formados por voluntários de diferentes origens sendo nobres, artesãos, comerciantes e camponeses que se organizaram contra a expansão francesa. Entre os atiradores da cidade de Merano (Meran) estava Andreas Hofer (1767–1810), um taberneiro nascido em San Leonardo nella Val Passiria (Sankt Leonhardt in Passeiertal), comerciante de cavalos fabuloso e de poder carismático líder popular. Andreas Hofer (1767-1810) conhecia muito bem o Tirol e sua população. Falava o alemão e o italiano, pois morou na região trentina na  juventude e, conseguiu reunir para a resistência popular os camponeses de todos os vales tiroleses.

Andreas Hofer foi um estalajadeiro e condutor de gado tiroles que se tornou líder da Rebelião do Tirol de 1809 durante a Guerra da Quinta Coalizão. Hofer, além disso, comandou tropas nas batalhas de Bergisel durante a revolta. Posteriormente, ele foi capturado e executado. Hofer ainda é venerado como um herói popular, um combatente da liberdade e um patriota austríaco. Seu bisneto, Andreas Hofer, foi membro do grupo de resistência antinazista centrado em torno de Heinrich Maier. Filho de Josek Hofer e Maria Aigentler, Andreas era o único filho homem e o mais novo de uma família de seis filhos. Quando tinha apenas três anos, faleceu sua mãe e, com seis anos, faleceu também seu pai. O jovem foi criado por sua irmã mais velha, Anna Hofer, e pelo cunhado Josef Grüner. Após concluir os estudos primários obrigatórios na Áustria desde o reinado de Maria Teresa, Andreas Hofer foi enviado pela irmã ao Tirol italiano atual província de Trento, onde aprendeu a língua italiana e o ofício de taberneiro. Após esse período, retornou para a propriedade familiar, onde seguiu a profissão do pai e do avô. Seu alistamento no corpo voluntário de atiradores (Schützen) seria posteriormente um “divisor de águas” em sua vida, do ponto de vista sociológico da divisão do trabalho. Em poucos anos, tornou-se comandante e chegou a defender o Tirol das primeiras tropas francesas.                 

Católico fervoroso e dotado de liderança, Andreas Hofer tornou-se um herói da resistência tirolesa e austríaca contra Napoleão. Em 1802, as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadem o Império Austríaco, obrigando o imperador Francisco I a abdicar da coroa do Sacro Império Romano-Germânico. O Tirol é invadido através da região trentina e, posteriormente, pelo Norte, através da Baviera aliada de Napoleão. A fortificada Trento não resis A sociologia francesa do trabalho como disciplina científica teve como objeto central o operário do sexo masculino da empresa industrial, como figura arquetípica considerada universal. Com o crescimento do mercado feminino e o desenvolvimento do terciário, setor majoritariamente feminino. As pesquisas sobre divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo/ gênero demonstraram que uma análise de gênero muda quase que radicalmente as condições de produção dos conhecimentos sobre o trabalho. Os trabalhos masculino e feminino são comparáveis se partimos do conceito marxista de trabalho, enquanto trabalho formal e informal, profissional e doméstico, remunerado e não-remunerado. A introdução do conceito de gênero nas análises da sociologia clássica do trabalho, como o emprego, o desemprego, a qualificação, os movimentos sociais, os modelos “especialização flexível”, desloca a ordem tradicional masculina e produz novos conhecimentos. Não tem a mesma significação conjugada no masculino ou no feminino. O desemprego tem implicações contrastadas para homens e mulheres. Os processos de “requalificação” atingem os homens e muito pouco as mulheres na produção.

 O trabalho não representa apenas a produção de objetos-mercadoria, a força de trabalho não é mais apenas sujeita à inércia das coisas, o trabalho não é mais apenas o instrumento da sociedade procurando organizar a sobrevivência. Trabalho, força de trabalho, capacidade de trabalho e trabalhador tendem a unificar-se em pessoas que se produzem reproduzindo o mundo. E essa produção ocorre igualmente nos locais de trabalho, escolas, bares, estádios, viagens, teatros, concertos, jornais, livros, exposições, comunas, bairros, grupos de discussão e de luta, em suma em todos os lugares onde os indivíduos relacionam-se uns com os outros e produzem o universo das relações humanas. Cada vez mais, essa produção tende a fazer parte integrante não somente da produção do homem, mas da reprodução – necessariamente ampliada – da própria força de trabalho. O desenvolvimento internacional e intercontinental das trocas; a divisão do trabalho em escala de espaços econômicos mais vastos; a tendência às especializações regionais e nacionais; a rapidez das comunicações massivas, põem cada atividade produtiva, através do jogo das mediações, mais numerosas com o universo inteiro e tendem à sua unificação prática. te e é invadida e seu príncipe bispo, Pietro Virgilio Thun, foge para o exílio. As ideias do Iluminismo francês descontentaram a população tirolesa, que pegou em armas para combater as tropas napoleônicas formadas por franceses, alemães (bávaros e saxões) e italianos. 

Após a invasão de sua propriedade por soldados bávaros, Andreas Hofer organizou seu próprio grupo de atiradores voluntários, que posteriormente se juntou aos vários já formados em todo o Tirol. Essas pequenas guerrilhas locais se solidarizaram a partir de 1807, tendo Hofer como um de seus líderes, juntamente com Josef Speckbacher, Peter Mayr, Bernardino Dal Ponte, entre outros. Ipso facto, com a experiência da guerrilha Andreas Hofer liderou, a partir de 1809, o grande levante popular que, mesmo sem a prometida ajuda do imperador austríaco, por várias vezes defendeu o Tirol do exército napoleônico. Durante a libertação da cidade de Trento, Andreas Hofer foi recebido com júbilo pela população regional. Contudo, após a derradeira batalha de Bergisel, nos arredores de Innsbruck que marcou a queda do quase invencível general francês, os tiroleses perderam batalhas sucessivamente e Hofer foi capturado, sofrendo o fuzilamento em Mântua a pedido pessoal de Napoleão. O Tirol foi dividido e o território de Trento passou para o controle do Reino napoleônico da Itália, sendo chamado Dipartamento dell`Alto Adige, enquanto a parte norte passou para o controle do Reino da Baviera com o nome de Südbayern (Baviera do Sul). Durante esse período, houve consideráveis modificações no sistema administrativo da cidade de Trento e uma primeira tentativa de italianização dos sobrenomes de origem alemã do Tirol italiano. Com a queda de Napoleão e o Congresso de Viena, em 1816, o Condado Principesco do Tirol (Gefürstete Grafschaft Tirol) retornou para o domínio austríaco, ao qual permaneceu unido até o final da Guerra Mundial (1914-1918).

Depois de um ato religioso em abril de 1809 com a bênção da bandeira tirolesa, Hofer teve apoio do frade capuchinho Joachim Haspinger (1776-1858), que com ele participou ativamente da resistência. Na região trentina, um dos nomes de maior destaque foi o da jovem Giuseppina Negrelli (1790-1842) de Primiero (Primör), irmã do engenheiro Luigi Negrelli (1799-1858), idealizador e projetista do Canal de Suez. Além dela, os capitães Bernardino Dal Ponte das Giudicarie (Judikarien) e Michael Giacomelli de Val di Fiemme (Fleimstal). Com apoio do clero e auxílio do irmão do imperador, o arquiduque da Áustria Johann von Habsburg (1782–1859), os tiroleses venceram várias batalhas nos meses de abril e maio de 1809. Com a vitória sobre Bergisel em 29 de maio de 1809, passou a ser a data comemorada em todo o Tirol como anno 9, os tiroleses retomaram a capital Innsbruck do domínio bávaro e expulsaram as tropas napoleônicas; foi instaurado um governo provisório que durou quase dois anos eesse período reforçou o sentimento de unificação política tirolesa. Andreas Hofer era reconhecido como Vater Hofer (“pai Hofer”) entre os tiroleses de língua alemã e Capitàn Barbón (“capitão barbudo”) entre os tiroleses trentinos. Por seus atos patrióticos foi condecorado pela Igreja e pelo imperador austríaco com o colar de honra (Ehrenkette) de três mil ducados.

Mas Napoleão ainda mantinha sua influência no governo de Viena (por ele controlado) e obrigou a intervenção vienense na situação política tirolesa com medo das represálias francesas contra a nobreza vienense. Após batalhas contra os bávaros e as baixas, o governo provisório tirolês enfraqueceu-se politicamente. Hofer se refugiou em sua cidade natal e a as baixas permitiram o avanço das tropas francesas, bávaras e italianas (sob o domínio napoleônico). Após o caos que se instaurava, um dos ex-combatentes, Josef Raffl, traiu e entregou Hofer ao exército italiano. O líder tirolês foi preso e levado para Mântua (Mantova), e ali fuzilado em 22 de fevereiro de 1810. A porção norte do Tirol retornou ao domínio bávaro e a parte sul foi entregue ao Reino da Itália de Napoleão Bonaparte, que tratou de substituir rapidamente os cargos públicos e adequá-los ao modo administrativo das cidades italianas - esse período marcou o início da disputa italiana pela região tirolesa (sobretudo pela área trentina). O Tratado de Paris, (28 de fevereiro de 1802), estabeleceu a secularização do estado eclesiástico tridentino. A restauração austríaca de 1815 sinalizou o fim definitivo do Principado Episcopal de Trento, e sua administração foi englobada pelo Império Austríaco como parte do governo do Tirol.

O atual Trentino então chamado Tirolo Italiano ou Tirolo Meridionale continuou parte do Império Austríaco até depois da unificação italiana ocorrida em 1860. A população mantinha-se fiel ao imperador e havia grande resistência anti-italiana por parte dos camponeses, enquanto nos meios socialistas e intelectuais (formado por muitos filhos e netos de italianos que haviam se transferido para as terras do Império Austríaco) havia maior simpatia pela Itália. Somente após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, com o Tratado de Saint-Germain-en-Laye, o Trentino passou a fazer parte integrante do Reino de Itália, juntamente com o atual Südtirol/Tirol Meridional (Província Autônoma de Bolzano). O nome “Tirol Meridional”, que outrora designava o Trentino, é atualmente oficial para a província de Bolzano. O termo histórico “Tirol Italiano” (Welschtirol) é ainda bastante utilizado, identificando o idioma predominante na região trentina. As relações sociais desenvolvidas do principado de Trento com os condes do Tirol oscilaram entre a dependência político-militar e tentativas de usurpação do poder administrativo, até a queda do principado sob o domínio napoleônico e sua total administração pela dinastia Habsburgo. 

Em 1252, Alberto III do Tirol obteve do bispo de Trento os feudos da extinta casa dos condes de Apiano, depois de ter obtido os feudos de Bressanone. Os principados de Trento e Bressanone uniam-se administrativamente ao Condado do Tirol, mas não foram submetidos a este, pois os bispos eram príncipes do Sacro Império e, como tais, eleitores do imperador e a este submetidos. No século XIII, pela política matrimonial da época, a primeira dinastia dos condes de Tirol foi substituída pela dinastia Tirol-Gorizia, da qual o maior expoente foi Mainhard (ou Mainardo) II, verdadeiro fundador da “potência tirolesa”. Neste período, o Tirol estendeu sua influência sobre uma vasta área alpina, nos confins de territórios das atuais Áustria, Suíça e Itália. Em 1363, Margarida Maultasch, sobrinha de Mainardo II, então viúva e sem herdeiros, cedeu o título e o controle do território a Rodolfo IV de Habsburgo. Durante a segunda metade de 1500, com Leopoldo V da Áustria, nasceu a dinastia dos Habsburgo-Tirol, que durou até 1665. O Imperador austríaco Maximiliano de Habsburgo foi coroado na Catedral de Trento (Duomo di Trento) e, em 1511, promulgou o famoso Landlibell, que organizava a proteção territorial tirolesa através de atiradores selecionados entre a nobreza, burguesia e camponeses - eram os Schützen e também Sìzzeri ou Scìzer, organização que se mantém viva e ativa até os dias atuais em todas as regiões do Tirol histórico

Do fim do século XIV até 1918, com exceção do período napoleônico, a região tornou-se um dos principais domínios da Casa de Habsburgo (imperadores do Sacro-Império quase ininterruptamente da metade do século XV até 1806, depois imperadores da Áustria), que passou a administrar em 1815 os territórios do Principado Episcopal de Trento (secularizado em 1801 por Napoleão Bonaparte), entre os confins administrativos do Condado do Tirol, tornado parte do Império Austríaco. No fim da Primeira Guerra Mundial, as tropas do Império Austro-Húngaro foram derrotadas na batalha de Vittorio Veneto, em 29 de outubro de 1918. Apesar do subsequente armistício firmado em 3 de novembro (que passaria a valer a partir do dia seguinte), o comando austríaco recuou imediatamente, o que permitiu que as tropas militares italianas capturassem 356 mil soldados austríacos (Kaiserjäger) e ocupassem o Tirol, incluída a parte setentrional (Tirol Meridional) formada pelas regiões Südtirol e Trentino (Welschtirol). Os territórios do Condado de Tirol ao Sul da vertente alpina foram anexados ao Reino da Itália e assim o Condado de Tirol termina sua existência com a ocupação italiana, em 1918.

O Tratado de Saint-Germain-en-Laye estabeleceu que a parte meridional do Tirol seria cedida ao Reino da Itália, o que incluía não apenas a região italianófona do Tirol, chamada então Trentino, mas também a parte germanófona hoje administrativamente conhecida como Província autônoma de Bolzano (Südtirol) - à época apenas 3% da população era de língua italiana. A região do Trentino, o Tirolo italiano, também adquiriu autonomia, para que as tradições tirolesas da área fossem protegidas, inclusive das minorias de língua alemã e ladina em seu território: Val de Mòcheni (Fersental), Luserna (Lusern), Val di Fassa (Val de Fascia). Em 1919, com o Tratado de Saint-Germain-en-Laye, da conferência de Paris, que marcou o fim do Império Austro-Húngaro, o Condado de Tirol foi dividido na esfera da vida política entre Áustria e Itália, nas seguintes áreas geográficas: Tirol Setentrional (Nordtirol) com capital Innsbruck. Tirol Oriental (Osttirol) com capital Lienz; Tirol Setentrional e Oriental são unidas no estado federal austríaco (Bundesland) do Tirol. Istom é, do Tirol Meridional, região denominada entre as duas guerras mundiais Veneza Tridentina segundo o nome proposto em 1863 pelo linguista goriziano Graziadio Isaia Ascoli, depois denominada Trentino-Alto Ádige, compreendendo os atuais Alto Ádige/Südtirol e Trentino, com capitais Trento (em alemão Trient); a atual capital provincial da região, com Trento (Trient) e Bolzano (Bozen) respectivamente capitais do Trentino e do Alto Ádige-Südtirol, formalizada com o estatuto de autonomia de 1972.

Depois da 2ª Guerra Mundial o Acordo de Paris chancelou que o Tirol do Sul tinha que permanecer italiano, com a condição de que se respeitassem os direitos da minoria de língua alemã e lhe fosse garantida uma ampla autonomia. O presidente do conselho italiano, Alcide De Gasperi (1881-1954), originário da província de Trento, decidiu estender a autonomia aos seus concidadãos, criando a região autônoma do Trentino-Alto Ádige. Dessa maneira, a autoadministração da minoria alemã tornou-se impossível. Este fato e a imigração de mais italianos provocaram uma resposta violenta, que culminou no terrorismo do BAS – Befreiungsausschuss Südtirol (Comitê pela liberação do Tirol do Sul), que queria geopoliticamente falando a reunificação à Áustria. Numa primeira fase os atentados dirigiram-se contra edifícios públicos e monumentos fascistas. A segunda fase foi mais sangrenta: 21 pessoas foram mortas, entre elas 15 agentes da polícia italiana, quatro terroristas e dois cidadãos. Em 1972, foi aprovado um novo estatuto de autonomia, que transferiu os poderes legislativos e administrativos da região italiana para as províncias de Trento e Bolzano. A província de Bolzano mantém 90% de todos os impostos e é hoje a região mais rica da Itália. A região possui a maior autonomia administrativa da Europa para garantir sua identidade étnica, linguística e cultural.

Recentemente as quatro regiões concordaram em colaborar institucionalmente na assim chamada Euregião Tirol-Alto Ádige-Trentino, com a abertura de uma representação comum em Bruxelas. Todas as comunidades anexadas ao Tirol na época fascista requereram seu ingresso na região do Tretino-Alto Ádige em muitas ocasiões a partir de 1943. Recentemente estes pedidos foram expressos oficialmente com referendos: Colle Santa Lucia, Livinallongo del Col di Lana e Cortina d`Ampezzo, em 28 de outubro de 2007; Pedemonte (compreendendo também a ex-comuna de Casotto), em 9 e 10 de março de 2008; Magasa e Valvestino, em setembro de 2008. O parlamento italiano não deu seguimento a estes pedidos. No Sul (Tirol Meridional) (Província autônoma de Bolzano), são idiomas oficiais, o alemão e o italiano. A eles se soma o ladino em alguns vales orientais (Val Badia, Val di Fassa e Val Gardena). No Trentino, existem duas minorias alemãs, em Val dei Mòcheni/Fersental e Luserna/Lusern. Todas as repartições públicas são bilíngues, cada cidadão tem o direito de utilizar a própria língua materna com a administração pública, também nos tribunais. As escolas são separadas em escolas alemãs, italianas e ladinas. Na repartição dos empregos públicos aplica-se o sistema da proporcionalidade étnica. Por ocasião do censo decenal cada habitante tem que declarar a sua pertinência a um dos três grupos linguísticos. Conforme os resultados, é possível proceder à repartição étnica. Os italianos que se estabeleceram na província durante o período da “italianização fascista” vivem principalmente nos centros urbanos. A capital Bozen/Bolzano e quatro municípios são majoritariamente italianófonos. Em 103 de 116 municípios a etnia dominante é a alemã – até 99,81% em San Pancrazio (Sankt Pankraz).

Na síntese sobre o lugar de análise das corporações deve-se até supor que esteja destinada a se tornar a base, ou uma das bases essenciais de nossa organização política. Ela começa por ser exterior ao sistema social, tenderá a se empenhar de forma cada vez mais profunda nele, à medida que a vida econômica se desenvolve. Ela foi outrora a divisão elementar da organização comunal. Agora que a comuna, de organismo autônomo que era outrora, veio se perder no Estado, como o mercado municipal no mercado nacional, acaso não é legítimo pensar que a corporação também deveria sofrer uma transformação correspondente e tornar-se a divisão elementar do Estado, a unidade política fundamental? A sociedade, em vez de continuar sendo o que ainda é, um agregado de distritos territoriais justapostos, tornar-se-ia um vasto sistema político de corporações nacionais. Mas essas divisões geográficas são, em sua maioria, artificiais e não despertam em nós sentimentos profundos. O espírito provinciano desapareceu irremediavelmente: o patriotismo de paróquia tornou-se um arcaísmo que não se pode restaurar à vontade. Uma nação só se pode manter se, entre o Estado e os particulares, se intercalar toda uma série de grupos secundários bastante próximos dos indivíduos para atraí-los fortemente em sua esfera de ação e arrastá-los, assim, na torrente geral da vida social.

Isso não quer dizer, porém, que a corporação seja uma espécie de panaceia capaz de servir a tudo. Será necessário que, em cada profissão, um corpo de regras se constitua, fixando a quantidade de trabalho, a justa remuneração dos diferentes funcionários, seu dever para com os demais e para com a comunidade, etc.  Estaremos, pois, não menos que atualmente, em presença de uma tábula rasa.  A vida social deriva inexoravelmente de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indivíduo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se como seus semelhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da sociedade que resulta de sua união. Esta divisão dá origem às regras jurídicas que determinam as relações das funções divididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. De todos os elementos técnicos e sociais da civilização, a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de clareza. Nunca é demais repetir que para que as sociedades possam viver nas condições de existência que lhes são dadas, é necessário que o campo da consciência se estenda e se esclareça. Quanto mais obscura uma consciência, mais é refratária à mudança social, porque não vê depressa o que é necessário mudar. Nem em que sentido é preciso mudar.

Bibliografia Geral Consultada.

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