“O memorável é o que pode ser sonhado de um lugar”. Michel de Certeau
Tribo tem como representação social
um tipo de agrupamento humano unido pela língua, costumes, instituições e
tradições. O termo era, originalmente, empregado para designar cada uma das
trinta divisões da Roma Antiga formadas por cidadãos plebeus. Passou a ser
aplicado, posteriormente, aos ramos dos povos da Antiguidade, como as doze
Tribos de Israel, o conjunto de unidades tribais patriarcais ou clãs familiares
do antigo povo de Israel, que de acordo com a tradição judaico-cristã,
originaram-se dos doze filhos de Jacó, neto de Abraão. O sentido de tribo na
Torá representa o conjunto de livros fundamentais da fé israelita, refere-se ao
clã familiar, uma forma de organização que vigorou e vigora, sobretudo na
Europa Ocidental - não referindo-se ao sentido comum de tribo dos povos
primitivos ou pré-modernos, como as antigas tribos ameríndias - embora a
religião dos hebreus tenha origem no Sudoeste asiático, por exemplo. Nas épocas
colonialista e neocolonialista, foi utilizado por antropólogos.
Por estar cercado por uma carga de etnocentrismo, sendo considerada uma
organização “primitiva, de povos subdesenvolvidos historicamente, o mesmo
deixou de ser no domínio da antropologia. Os romanos tinham a ligação familiar
baseada na agnação, ou parentesco de consanguinidade por linha masculina,
segundo a qual o parentesco dava-se pela adoração aos mesmos deuses lares,
formando a base da gens. A adoração de um deus comum a mais de uma família
recebeu, na Grécia Antiga, o nome de fratria e, na Roma Antiga, de cúria.
O livro de Gênesis conta da descendência do patriarca Jacó, mais tarde batizado por Deus com o nome Israel, e de suas duas mulheres (Lia e Raquel) e duas concubinas (Bila e Zilpa). Jacó teve ao todo doze filhos e uma filha (Diná), cujos nomes estão acima citados. Neste momento da narrativa, o cronista bíblico concentra-se no relato da história de José, sobre como ele foi vendido pelos seus irmãos, como obteve importância política no Egito, e de como voltou a reunir sua família. A narração conta também que os treze filhos de Jacó e suas famílias e criados obtiveram permissão para habitar a fértil região oriental do Delta do Nilo, onde teriam se multiplicado grandemente. Cada uma das doze famílias teria mantido uma individualidade cultural, de forma que se identificassem entre si como tribos separadas. A narrativa ainda destaca que José teve dois filhos, Manassés e Efraim, e seus descendentes seriam elevados ao status de tribos independentes. Contudo, a Bíblia refere-se à tribo de Manassés como "meia tribo". Ocorre que na conquista das terras a tribo de Manassés ficou dividida, parte dela ocupou o oriente do rio Jordão, sendo assim, foi chamada de Manassés Oriental e a outra parte ocupou o ocidente do rio. Pela leitura de Josué 13.14-33, pode-se concluir que a meia tribo de Manassés a receber sua herdade foi a oriental, em seguida, no texto de Josué 17.1-18, a ocidental.
Todavia, apesar da referência de meia tribo e sua divisão geográfica, a tribo era uma só. Em Josué 17.17 pode-se ler claramente o motivo, tratava-se de uma tribo numerosa, e, portanto, carecia de um espaço maior para habitar. Com isso encerra-se um número fixo de doze tribos. Ao final de Gênesis, Jacó, em sua velhice, abençoa a cada um de seus filhos, prenunciando o destino que aguardava os seus descendentes no futuro. Em Êxodo, a Bíblia conta como Moisés, membro da tribo de Levi, e seu irmão Aarão, lideraram os hebreus das doze tribos em sua fuga do Egito. Durante a narrativa, as tribos são contadas, e seus líderes e representantes são nomeados, demonstrando um forte senso de individualidade entre as tribos e as meio-tribos de José. À tribo de Levi são designadas por Deus a todas as tarefas sacerdotais e os direitos e deveres diferenciados, inclusive seria a única tribo que poderia carregar a arca da aliança. As demais mantiveram-se com os mesmos direitos e obrigações, embora, através do número de membros, algumas tribos já pudessem gozar de alguma superioridade política. Para os Judeus, não há dúvidas da veracidade do relato bíblico e, há pouco o que se discutir sobre a origem das Tribos de Israel fora do contexto bíblico. No entanto, arqueólogos, historiadores e estudiosos da Bíblia argumentam sobre a origem das tribos.
Há teorias que sugerem que apenas algumas das tribos teriam realmente saído do Egito e se fixado por alguns anos no entorno de Canaã, onde teriam encontrado outras tribos de origem hebraica autóctones da região. Sua afinidade linguística e racial, em contraste com as diferenças encontradas nos vizinhos cananeus teria encorajado as tribos a agirem em regime de coexistência e, em algumas vezes, de cooperação, o que teria favorecido a conquista de Canaã (uma miríade de cidades-Estado e pequenos reinos independentes) pelos hebreus. Neste caso, as tribos do Êxodo teriam sido aquelas de maior destaque na narrativa bíblica, ou seja, Judá, Levi, Simeão, Benjamim, e as meias-tribos de Efraim e Manassés, o que enfraqueceria toda a base histórica da narrativa do Êxodo. Já os arqueólogos notam que não há vestígios concretos da passagem de um povo, estimado em mais de 600 mil pessoas, por quarenta anos pelo deserto entre o Egito e a Terra de Israel. Assim, a narrativa de Gênesis e Êxodo não tem uma base histórica, embora alguns pontos pudessem ter sido moldados para justificar com raízes familiares a união das doze tribos. Cada cúria possuía seu chefe, chamado curião, cuja função principal era a de presidir aos rituais religiosos. A reunião de várias cúrias formava a tribo. À tribo, cabia um altar comum, dedicado a um deus originado, assim como nas famílias e cúrias, de algum herói do lugar, tornado divino, e do qual a tribo retirava seu nome.
O ritual comum em que toda a tribo
tomava parte tinha seu ponto alto num banquete; seu chefe se tornava, então, o
tribuno. Por sua origem e uso na filosofia colonialista para designar
agrupamentos humanos nos diversos territórios conquistados pelos europeus, o
termo ganhou alguma oposição no meio científico, sendo considerado impreciso e
que não atende às divisões peculiares dos povos que pretendia reunir. Alguns
dos autores que o aboliram argumentam que se trata de “ficção etnográfica e
acadêmica”. Os críticos alegam que estes conceitos de tribo, bem como os de
tribalismo, etnicidade, clã e linhagem, trazem forte vício colonialista e
neocolonialista, com o apoio da antropologia que, então, servia aos interesses
europeus, sugerindo que devem ser evitados por alegadamente trazerem inerentes
divisões que visam antes ao domínio político do que propriamente à compreensão
das realidades que procuram retratar. Como exemplo deste mau uso, citam-se os
meios de comunicação de massa, que costumam retratar problemas africanos como
decorrentes de conflitos tribais, ocultando, assim, as suas reais causas
econômicas, políticas e sociais. Roberto Cardoso de Oliveira ressalta que
conceitos como tribo e etnia surgem na ótica europeia para definir as
sociedades asiáticas, ameríndias e africanas, dotando-os de um rótulo comum que
lhes retira suas especificidades históricas.
A casbá recebe o nome
da tribo Udaya. Este nome só passou a ser associado à casbá no século XIX,
depois da tribo ter sido expulsa permanentemente de Fez. Eles estão situados em
torno de Fez e Meknes, Marraquexe e em Rabat. Eles foram recrutados por Ismail
Ibn Sharif como uma das tribos guich que formavam um componente integral
do exército marroquino pré-colonial. Os Mghafra ou os Banu Maghfar, uma
subtribo dos Oudaya, fundaram vários emirados na Mauritânia, por exemplo o
Emirado de Trarza, como resultado da Guerra Char Bouba, também reconhecida
como Guerra dos Trinta Anos da Mauritânia ou Guerra dos Marabutos, ocorreu
entre 1644 e 1674 nas áreas tribais do que é a Mauritânia e o Saara Ocidental,
bem como no vale do rio Senegal. Casbá é mais popular nos seguintes países: Algérie,
France, Espanha, Reino Unido. De acordo com os autores históricos Leo Africanus
e Marmol Carvajal, os Oudaya vieram do ramo Banu Hassan dos Ma`qil. Leo
Africanus estima que os Oudaya somavam mais de 60.000 e os situa entre Ouadane
e Oualata. Segundo o historiador do século XIX, an-Nasiri, Moulay Ismail (1672–1727),
encontrou os Oudaya através de um pastor pobre, Bou-Chefra. Ele soube que seu
povo estava fugindo da fome e decidiu recrutá-los.
Ele disse a Bou-Chefra: Vocês são minhas tias maternas e já ouviram falar de mim, mas ainda não vieram me visitar. Agora, vocês são minhas companheiras. Vão, levem suas ovelhas de volta para a tenda e voltem para me ver em Marrakech! As tribos guich eram tribos tipicamente de origem árabe que serviam como parte do exército marroquino pré-colonial sob a dinastia Alauíta. Os Oudaya eram uma das principais tribos guich que serviram sob o comando dos Alauítas. Eles ascenderam à proeminência sob Moulay Ismail, que visava reorganizar o exército institucionalizando o sistema guich e criar um novo governo central forte como resultado de uma série de reveses militares que sofreu, como a desastrosa campanha contra a Regência Otomana da Argélia. Isso culminou na criação do 'Abid al-Bukhari, uma guarda de elite composta por escravos negros do Marrocos e da África Subsaariana, bem como na criação do Guich Oudaya. Em 1678, ele se casou com Khanatha bint Bakkar (1668–1754), filha de Shaykh Bakkar, um importante líder e xeique tribal dos Oudaya. Este casamento confirmou uma aliança entre os Makhzen e os Oudaya e,desta aliança, os Oudaya forneceram ao sultão um grande e poderoso guich. Ele estacionou essas tropas dos Oudaya fora das muralhas da cidade de Fez.
Ismail chamou os Oudaya de tribo de seus tios maternos para formar um parentesco fictício ou real entre ele e a tribo, já que sua mãe, Mubarka bint Yark al-Maghfiri, nasceu como membro ou escrava negra dos Mghafra uma divisão dos Oudaya. Casbá é o nome dado às cidadelas cercadas por muros ou muralhas existente em diversas cidades do Norte da África. Cidadela é qualquer tipo de fortaleza ou fortificação construída em ponto estratégico de uma cidade, visando sua proteção. A cidadela pode, por vezes, incorporar parcial ou totalmente um castelo existente nesta cidade. A palavra cidadela vem de Civitas, uma das palavras em latim para a origem da cidade. E alguns dos primeiros exemplos históricos indicam que eram construídas originalmente de maneira a proteger uma guarnição ou poder político dos próprios habitantes da cidade que ela defendia, projetados para assegurar a lealdade dos cidadãos que defendiam. As cidadelas mais antigas foram construídas pela civilização do vale do Indo, onde a cidadela representava uma autoridade centralizada. A civilização do Indo era contemporânea das demais civilizações ribeirinhas do mundo antigo: o Egito ao longo do Nilo, Mesopotâmia nas terras regadas pelo Eufrates e Tigre e a China na bacia de drenagem do rio Amarelo, o segundo mais longo rio da China e o 6º maior no processo de globalização, medindo 5.464 km, e tem uma bacia de 752.000 km².
É de grande importância para a economia chinesa, pois o seu vale tem terras férteis, bons pastos e importantes jazidas minerais. Foi ao longo desse rio que a civilização chinesa começou. Seu nome deve-se à grande quantidade de materiais em suspensão que arrastam suas turbulentas águas de formação do lodo e partículas de areia muito finas, que lhe tingem de dourado. Na época de sua fase madura, a civilização havia se espalhado por uma área maior do que as outras mencionadas, o que incluía um núcleo de 1.500 km acima do plano aluvial do Indo e de seus afluentes. Além disso, havia uma região com flora, fauna e habitats díspares, até dez vezes maiores, que haviam sido moldados cultural e economicamente pelo Indo. Há alguma controvérsia, no entanto, sobre o real propósito destas cidadelas; embora elas possuíssem muros, ainda não se tem certeza sobre o propósito defensivo destes muros, ou se eram simplesmente uma maneira de desviar água de enchentes e inundações causadas pelas cheias do Indo. Na Grécia Antiga a cidadela, que era chamada de acrópole, cidade alta, em grego, era uma presença eminente constante na vida do povo da cidade, servindo como refúgio e fortaleza em situações de perigo, armazém de mantimentos militares e alimentícios, santuário de deuses e palácio real. Na Idade Média era a última linha de defesa de exército sitiado, defendida mesmo depois que já havia sido conquistada, e oferecia abrigo às pessoas que moravam nas áreas rurais em volta das cidades.
A agricultura surgiu no
Baluchistão, nas margens de aluvião do Indo. Nos milênios seguintes, incursões
nas planícies do Indo preparam o terreno para o crescimento de assentamentos
humanos rurais e urbanos. A vida sedentária mais organizada, por sua vez, levou
a um aumento líquido na taxa de natalidade. Os centros urbanos de Moenjodaro e
Harapa muito provavelmente chegaram a ter entre 30 mil e 60 mil habitantes e,
durante o florescimento da civilização, a população do subcontinente cresceu
para algo entre 4 e 6 milhões de pessoas. Durante esse período, a taxa de
mortalidade também aumentou, pois as condições de existência próximas de
humanos e animais domesticados levaram a um aumento de doenças contagiosas.
Segundo uma estimativa, a população da civilização do Indo demográfico pode
ter sido entre um e cinco milhões de pessoas. A Civilização do Vale do Indo se
estendeu do Baluchistão do Paquistão, a Oeste, a Utar Pradexe no Oeste da
Índia, a Leste, do Nordeste do Afeganistão, no Norte, ao estado de Guzerate, no
Sul da Índia. O maior número de locais harapeanos está nos estados de Guzerate,
Hariana, Punjabe, Rajastão, Utar Pradexe, Jamu e Caxemira na Índia, e nas
províncias de Sinde, Punjabe e Baluchistão no Paquistão. Os assentamentos
costeiros se estenderam de Sutkagan Dor no Baluchistão Ocidental a Lotal em
Guzerate. Uma cidade do Vale do Indo foi encontrada no rio Oxo em Xortugai no Norte
do Afeganistão, no vale do rio Gomal no Noroeste do Paquistão, em Manda, Jamu
no rio Beas perto de Jamu, Índia, e em Alamgirpur, no rio Hindon, apenas 28 km
de Deli. O local ao Sul é Daimabad, em Maharashtra. Os sítios arqueológicos
harapeanos são encontrados com mais frequência nos rios, mas também no litoral
antigo, Balakot, e nas ilhas, por exemplo, Dolavira.
Uma cultura urbana
sofisticada e tecnologicamente avançada é evidente na Civilização do Vale do
Indo (CVI), que criou os primeiros centros urbanos da região. A qualidade do
planejamento das cidades sugere conhecimento sobre planejamento urbano e
governos regionais eficientes, que priorizam a higiene ou,
alternativamente, a acessibilidade aos meios de ritual religioso. Como
visto em Harapa, Moenjodaro e Raquigari, recentemente escavada, esse plano
urbano incluía os primeiros sistemas de saneamento reconhecidos, como demonstram
evidências da engenharia hidráulica da civilização. Dentro da cidade, casas
individuais ou grupos de casas obtinham água de poços. De uma sala que parece
ter sido reservada para o banho, as águas residuais eram direcionadas para
esgotos cobertos, que ladeavam as principais ruas. As casas abriam apenas para
pátios internos e faixas menores. A construção de casas em algumas aldeias da
região ainda se assemelha em alguns aspectos à construção de casas dos
harapeanos. Os antigos sistemas de esgoto e drenagem, desenvolvidos e usados em
cidades de toda a região do Indo, eram muito mais avançados do que os
encontrados em locais urbanos contemporâneos no Oriente Médio e ainda mais eficientes
do que os encontrados em muitas áreas do Paquistão e da Índia atualmente. A
arquitetura avançada dos harapeanos é demonstrada por seus impressionantes
estaleiros, celeiros, armazéns, plataformas de tijolos e paredes de proteção.
As enormes muralhas das cidades do Indo provavelmente protegeram os harapeanos
das inundações e podem ter dissuadido os conflitos militares.
Em nítido contraste com os contemporâneos desta civilização, a Mesopotâmia e o Egito antigo, nenhuma grande estrutura monumental foi construída. Não há evidências conclusivas de palácios ou templos - ou de reis, exércitos ou sacerdotes. Pensa-se que algumas estruturas sejam celeiros. Encontrado em uma cidade há um enorme banho bem construído (o “Grande Banho”), que pode ter sido um banho público. Embora as cidadelas fossem muradas, não está claro se essas estruturas eram defensivas. A maioria dos habitantes da cidade parece ter sido composta por comerciantes ou artesãos, que moravam com outros que tinham a mesma ocupação em bairros bem definidos. Materiais de regiões distantes eram utilizados nas cidades para a construção de selos e outros objetos. Entre os artefatos descobertos estavam belas contas de faiança envidraçadas.
Os selos de esteatita têm imagens de animais, pessoas e outros tipos de inscrições, incluindo um sistema de escrita ainda não decifrado. Alguns selos foram usados para estampar argila em mercadorias comerciais. Embora algumas casas fossem maiores que outras, as cidades da CVI eram notáveis por seu aparente e relativo igualitarismo. Todas as casas tinham acesso a instalações de água e drenagem. Isso dá a impressão de uma sociedade com uma concentração de riqueza relativamente baixa, embora um claro nível social seja visto em adornos pessoais. As pessoas da Civilização do Vale do Indo alcançaram grande precisão na medição de comprimento, massa e tempo. Eles foram os primeiros a desenvolver um sistema de pesos e medidas uniformes. Os engenheiros harapeanos seguiam a divisão decimal da medida para todos os fins práticos, incluindo a medida da massa conforme revelada por seus pesos hexaedros, um poliedro com 6 faces. Cubos e pirâmide são exemplos de poliedros. Diz-se que o poliedro é convexo se sua superfície, compreendendo suas faces, arestas e vértices, não se intercepta e o segmento de linha que une quaisquer dois pontos abstratos do poliedro está contido no interior ou visivelmente na superfície. Um poliedro é um exemplo tridimensional do politopo mais geral em qualquer número de dimensões. Esses pesos de cherte estavam dispostos com cada unidade pesando aproximadamente 28 gramas, semelhante à onça imperial inglesa, sendo que objetos menores eram pesados em proporções semelhantes com as unidades de 0,871. Desde a Antiguidade, a proporção áurea é usada na arte. É frequente a sua utilização em pinturas renascentistas, como as do mestre Giotto. Este número está envolvido com a natureza do crescimento.
Justamente por ser
encontrado em estudos de crescimento, o número de ouro ganhou um status de ideal,
sendo alvo de pesquisadores, artistas e escritores. O fato de ser apoiado pela
matemática é que o torna fascinante. No entanto, como em outras culturas, os
pesos reais não eram uniformes em toda a área. Os pesos e medidas utilizados
posteriormente em Artaxastra e Cautília são os mesmos que os usados em Lotal. Uma
pedra de toque contendo faixas de ouro foi encontrada em Banawali, um sítio
arqueológico pertencente ao período da Civilização do Vale do Indo, localizado
no distrito de Fatehabad, Haryana, Índia, a cerca de 120 km a Nordeste de
Kalibangan e a 16 km de Fatehabad. Banawali, anteriormente chamada de Vanavali,
situa-se na margem esquerda do leito seco do rio Sarasvati e provavelmente foi
usada comercialmente para testar a pureza do ouro, pois essa técnica ainda é
usada em algumas partes da Índia. O sistema de religião e crenças do povo do
Vale do Indo recebeu considerável atenção, especialmente da visão de
identificar precursores de divindades e práticas religiosas de religiões
indianas que mais tarde se desenvolveram na área. No entanto, devido à escassez
de evidências, que está aberta a interpretações variadas e ao fato social da
escrita harapeana permanecer indecifrada, as conclusões são parcialmente
especulativas e amplamente baseadas em uma visão retrospectiva ocidental de uma
perspectiva hindu muito posterior.
Um trabalho influente
na área que estabeleceu a tendência para interpretações hindus de evidências
arqueológicas dos sítios arqueológicos harapeanos foi de John Marshall
(1755-1835), que em 1931 identificou o seguinte como características
proeminentes da religião indo: um Grande Deus Masculino e uma deusa mãe;
deificação ou veneração de animais e plantas; representação simbólica do falo
(linga) e da vulva (yoni); e, uso de banhos e água na prática religiosa. As
interpretações de Marshall foram muito debatidas e, às vezes, disputadas nas
décadas seguintes. Um selo do Vale do Indo mostra uma figura sentada com um
toucado com chifres, possivelmente tricefálico e possivelmente fálico, cercado
por animais. Marshall identificou a figura como uma forma primitiva do deus
hindu Shiva (ou Rudra), associado ao ascetismo, ioga e linga; considerado como
um senhor de animais e frequentemente descrito como tendo três olhos. O selo
passou a ser conhecido como o Selo Pashupati, por conta de Pashupati (senhor de
todos os animais), um epíteto de Shiva. Embora o trabalho de Marshall tenha
recebido algum apoio, muitos críticos e até apoiadores levantaram várias
objeções. Doris Meth Srinivasan, uma indologista alemã, argumentou que a figura
não tem três faces, ou postura de ioga e que na literatura védica Rudra não era
um protetor de animais selvagens.
Herbert Sullivan e Alf Hiltebeitel também rejeitaram as conclusões de Marshall, com o primeiro alegando que a figura era feminina, enquanto o último associou a figura com Mahisha, o Deus Buffalo e os animais ao redor com vahanas (veículos) de divindades para as quatro direções cardeais. Escrevendo em 2002, Gregory L. Possehl concluiu que, embora seja apropriado reconhecer a figura como uma divindade, sua associação com o búfalo de água e sua postura como disciplina ritual, considerando-a como um proto-Shiva estaria indo longe demais. Apesar das críticas à associação de Marshall ao selo com um ícone proto-Shiva, ele foi interpretado como o tirthankara Rishabhanatha por jainistas e Vilas Sangave ou um antigo Buda pelos budistas. Historiadores como Heinrich Zimmer e Thomas McEvilley acreditam que há uma conexão entre Rishabhanatha e a civilização do Vale do Indo. Ele foi o primeiro dos vinte e quatro mestres no ciclo de tempo na cosmologia Jain e chamado de “construtor de vau” porque seus ensinamentos ajudaram a atravessar o mar de renascimentos e mortes intermináveis. Marshall hipotetizou a existência de um culto à adoração à Deusa Mãe, com base na escavação de várias figuras femininas e achou que isso fosse um precursor da seita hindu do shaktismo. No entanto, a função feminina na vida do povo do vale do Indo permanece incerta e Possehl não considera que as evidências da hipótese de Marshall sejam “terrivelmente robustas”.
Alguns dos bétilos
interpretados por Marshall como representações fálicas sagradas agora são
considerados pilões ou balcões de caça. Enquanto que as pedras de anel que
foram pensadas para simbolizar yoni foram determinadas como características
arquitetônicas usadas para sustentar pilares, embora a possibilidade de seu
simbolismo religioso não possa ser eliminada. Muitos selos do vale do Indo
mostram animais, sendo que alguns parecem ser transportados em procissões,
enquanto outros mostram criações quiméricas. Um selo de Moenjodaro mostra um
monstro meio humano e meio búfalo atacando um tigre, o que pode ser uma
referência ao mito sumério de um monstro criado pela deusa Aruru para
combater Gilgamesh. Em contraste com as civilizações egípcias e mesopotâmicas
contemporâneas, o Vale do Indo carece de palácios monumentais, embora as
cidades escavadas indiquem que a sociedade possuía o conhecimento de engenharia
necessário. Isso pode sugerir que as cerimônias religiosas, se ocorreram, podem
ter sido confinadas em grande parte a lares individuais, pequenos templos ou ao
ar livre. Vários locais foram propostos por Marshall e estudiosos posteriores
como possivelmente devotados a fins religiosos, mas se pensa que apenas o
Grande Banho de Moenjodaro tenha sido usado como um local para purificação
ritual. As práticas funerárias da civilização harapeana são marcadas por
enterro fracionário no qual o corpo é reduzido a restos esqueléticos por
exposição aos elementos antes do enterro final e até cremação.
Anteriormente, os
estudiosos acreditavam que o declínio da civilização harapeana levou a uma
interrupção da vida urbana no subcontinente indiano. No entanto, a civilização
do vale do Indo não desapareceu repentinamente e muitos de seus elementos
aparecem em culturas posteriores. A cultura do Cemitério H pode ser a
manifestação do período tardio em uma grande área na região de Punjabe, Hariana
e oeste de Utar Pradexe, e a cultura da cerâmica colorida de ocre é sua
sucessora. David Gordon White cita três outros estudiosos tradicionais que “demonstraram
enfaticamente” que a religião védica deriva parcialmente das Civilizações do
Vale do Indo. Desde 2016, dados arqueológicos sugerem que a cultura material
classificada com a fase tardia pode ter persistido e foi parcialmente
contemporâneo da cultura cerâmica colorida de ocre. O arqueólogo de Harvard
Richard Meadow aponta para o final do assentamento de Piraque, que prosperou
continuamente até a época da invasão de Alexandre, o Grande. Após a queda da
CVI, surgiram culturas regionais mostrando, em graus variados, a influência
harapeana. Na antiga cidade de Harapa, foram encontrados enterros que
correspondem a uma cultura regional chamada cultura do Cemitério H. Ao
mesmo tempo, a cultura da cerâmica colorida ocre expandiu-se do Rajastão para a
Planície Indo-Gangética.
A cultura do Cemitério
H tem as primeiras evidências de cremação; uma prática dominante no hinduísmo
atual. Impressão de um selo cilíndrico do Império Acádio, com o rótulo: “O
Divino Sarcalisarri Príncipe de Acádia, Ibni-Sarrum, o Escriba, seu servo”.
Pensa-se que o búfalo de chifres longos tenha vindo do vale do Indo e
testemunha trocas com Melua, a Civilização do Vale do Indo. A fase madura da CVI é contemporânea à Idade
do Bronze no antigo Oriente Próximo, em particular ao período de Elão, Período
Dinástico Arcaico, Império Acádio a Terceira dinastia de Ur na Mesopotâmia e da
Civilização Minoica em Creta e do Antigo Reino do Primeiro Período
Intermediário Antigo Egito. A CVI foi comparada em particular com as
civilizações de Elão, também no contexto da hipótese elamo-dravídica e com a
Creta minoica, por causa de paralelos culturais isolados, como o onipresente
culto à deusa e representações de saltos de touros. Era identificada com
o topônimo “Melua” nos registros sumérios; os sumérios os chamavam de “meluaítas”.
Shahr-i-Sokhta, localizado no Sudeste do Irã, mostra rota comercial com a
Mesopotâmia. Um número de selos com escrita indo também foi encontrado em
sítios arqueológicos. Após a descoberta na década de
1920, ela foi imediatamente associada aos nativos dasa, hostis às tribos
rigvédicas, em numerosos hinos do Rigveda. Mortimer Wheeler interpretou a
presença de muitos cadáveres não enterrados encontrados nos níveis mais altos
de Moenjodaro como vítimas de uma conquista bélica e afirmou que “Indra é
acusado” da destruição.
A associação do CVI com
os dasas, que moravam em cidades, permanece sedutora porque o prazo assumido da
primeira migração indo-ariana para a Índia corresponde perfeitamente ao período
de declínio da CVI observado no registro arqueológico. A descoberta do período
urbano avançado, no entanto, mudou a visão do século XIX da migração
indo-ariana precoce como uma "invasão" de uma cultura avançada às
custas de uma população aborígene "primitiva", a uma aculturação
gradual de "bárbaros" nômades em uma civilização urbana avançada,
comparável às migrações germânicas após a queda de Roma, ou a invasão cassita
da Babilônia. Esse afastamento de cenários simplistas “invasionistas” é
paralelo a desenvolvimentos semelhantes no pensamento sobre a transferência de
idiomas e o movimento populacional em geral, como no caso da migração dos
falantes de proto-grego para a Grécia ou a indo-europeização da Europa
Ocidental. Línguas munda e um “filo perdido” talvez relacionado ou ancestral da
língua nihali foram propostos como outros candidatos à linguagem da CVI.
Michael Witzel, um filólogo germano-americano, mitólogo comparativo e
indologista, sugere uma linguagem de prefixo subjacente semelhante às línguas
austro-asiáticas, principalmente a língua khasi; ele argumenta que o Rigveda
mostra sinais dessa influência hipotética harapeana no nível histórico mais
antigo e o dravídico apenas em níveis posteriores, sugerindo que os falantes de
austroasiático eram os habitantes de Punjabe e que os indo-arianos só
encontraram os falantes de dravídico tarde.
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