domingo, 4 de janeiro de 2026

Caverna Azul – Sítio Arqueológico, Cinema & Amor Naturalista.

        O homem é uma invenção cuja recente arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente”. Michel Foucault                               

          Em Caverna Azul (2024) acompanhamos a viagem de um homem em encontro do amor e da memória. Caverna Azul (Mavi Mağara), é uma caverna marinha numa pequena baía chamada Balun (Ball no dialeto local), no lado Leste da ilha Biševo e  aproximadamente 4,5 nautical miles (8,3 km) de Komiža, na costa croata do Mar Adriático. Situa-se na parte central do arquipélago da Dalmácia, a 5 km a Sudoeste da ilha de Vis. A gruta é uma das atrações naturais mais conhecidas na costa do Adriático e muito popular pelo “brilho azul-claro refletido em certas horas do dia”. A Dalmácia é uma região que abrange territórios da Croácia, Bósnia e Herzegovina (Neum) e Montenegro (Bocas de Cattaro), na costa leste do mar Adriático, estendendo-se entre a ilha de Pag a noroeste e a baía de Kotor a Sudeste. A Dalmácia interior (Zagora) ocupa uma faixa até cerca de 50 km do mar, sendo muito estreita na região mais a sul. Devido a correntes marítimas e ao modo como os ventos sopram no Adriático, a água do mar é mais limpa e quente na Dalmácia que no lado italiano. A costa inclui um largo número de reentrâncias e ilhas, estreitos, baías e praias, tornando-se atrativa para desportos náuticos e turismo. A Gruta Azul (Modra špilja) é uma gruta marinha inundada localizada numa pequena baía chamada Balun, no lado Leste da ilha de Biševo e a cerca de 4,5 milhas náuticas (8,3 km) de Komiža, no Adriático croata. Situa-se no arquipélago da Dalmácia Central, a 5 km a Sudoeste da ilha de Vis. A gruta é um dos locais de beleza natural do Adriático e uma gruta turística popularmente reconhecida devido fenômeno de irradiação ótica à luz azul brilhante que aparece em determinados horários do dia.

Descrita e pintada pela primeira vez pelo Barão Eugen von Ransonet (1838-1926), a gruta era originalmente acessível apenas por mergulho, pois possuía uma entrada natural abaixo do nível do mar. Com base em sua sugestão, uma entrada artificial grande o suficiente para pequenas embarcações foi construído em 1884. A entrada natural da caverna, localizada em seu lado Sul, assemelha-se a uma abóbada no teto de uma gruta. É por essa abertura, semelhante à de um submarino, no teto da caverna, que a luz do Sol penetra e cria um efeito iridescente azulado ao redor de toda a caverna. É um fenômeno óptico que causa a mudança de cores de uma superfície conforme o ângulo de visão ou iluminação. Ele ocorre devido à interferência da luz em microestruturas ou películas finas, fazendo com que a luz refletida se manifeste em um brilho multicolorido, semelhante a um arco-íris. Este efeito é comum em materiais como pérolas, asas de insetos, bolhas de sabão e em certos cristais. Além disso, uma faixa de pedra, que conecta duas paredes da caverna, é claramente visível logo abaixo da linha d`água, tanto em fotografias tiradas acima da água quanto em fotos subaquáticas. Dependendo da estação do ano, o momento ideal para visitar a gruta é entre as 11h e o meio-dia. Nessa hora do dia, a luz do Sol reflete na água que vem do chão branco da gruta e banha a gruta em uma luz azul-turquesa, enquanto os objetos na água parecem ser prateados. A Gruta Azul (em italiano: Grotta Azzurra) na ilha de Capri, na Itália, também é famosa por esse tipo de fenômeno.

            Dalmácia é uma região histórica localizada na atual Croácia e Montenegro, na costa Leste do Mar Adriático. É uma estreita faixa de terra que se estende da ilha de Rab, ao Norte, até a Baía de Kotor, ao Sul. O interior da Dalmácia varia em largura de 50 Km ao Norte a apenas alguns quilômetros ao Sul; é em grande parte coberto pelos Alpes Dináricos. Setenta e nove ilhas (e cerca de 500 ilhotas) correm paralelas à costa, sendo as maiores na Dalmácia Brač, Page Hvar. A maior cidade é Split, seguida por Zadar, Šibenik e Dubrovnik. No filme A Caverna Azul (Mavi Mağara), Cem (Kerem Bürsin) tem como representação social um oficial da Marinha que, apesar de sua profissão evidentemente séria e perigosa, é um eterno romântico que procura um grande amor e um lar estável. Um dia, ele conhece Alara (Devrim Özkan) e os dois se apaixonam. O destino, porém, guardava algo inesperado e uma tragédia encurta a história de amor do casal. Cem, então, embarca numa jornada até a Caverna Azul, o lugar favorito da Alara, para honrar a memória imperfeita e está sujeita a distorções, mas sentir mais próximo da esposa. Nessa viagem até o sítio arqueológico, Cem, contudo, se depara com as lembranças e a dor do amor perdido, o que o leva a refletir historicamente sobre os momentos e os detalhes de seu relacionamento. Ipso facto, ao olhar mais de perto, sua expedição até a caverna azul se transforma num percurso real de autodescoberta, nostalgia e o significado da perda.

                                            


            Eugen von Ransonnet‑Villez foi um barão, diplomata, pintor, litógrafo, biólogo e explorador austríaco. Ele era filho de Geheimrat Karl Freiherr von Ransonnet-Villez, vice-presidente da Instituição Suprema de Auditoria da Áustria, e de Margarethe, filha do Marechal de Campo-Tenente Franz Ludwig Conde Bigot de Saint-Quentin. Aos 11 anos, iniciou seus estudos na Academia de Belas Artes de Viena e, posteriormente, estudou Direito (1855-1858) também em Viena. Em 1858, ingressou no Ministério Imperial das Relações Exteriores, dando início à sua carreira diplomática. A carreira diplomática tem suas origens nas relações entre antigas cidades-Estado, com os primeiros diplomatas atuando como mensageiros. Contudo, a forma moderna da diplomacia profissionalmente começou a se desenvolver na Itália renascentista, com a criação de embaixadas permanentes e a necessidade de representantes com habilidades diplomáticas de negociação e persuasão permanente. A profissionalização continuou com a necessidade de embaixadores especializados, e o Congresso de Viena em 1815 estabeleceu regras e o método de precedência para o corpo diplomático. Em seu tempo livre, Eugen von Ransonnet‑Villez dedicava-se às ciências naturais, assim como à fotografia, à pintura e, especialmente, à cromolitografia. Por volta de 1860, ele viajou extensivamente para a Palestina, Egito, Índia e Japão profissionalmente como diplomata. Durante esse período, ele desenvolveu um “sino de mergulho” para esboçar cenas subaquáticas diretamente.   

O sino possuía uma vigia, assento, balas de canhão com peso para lastro e uma linha de comunicação de suprimento de ar de um barco. Ele o usou para desenho subaquático em águas relativamente rasas, realizando mergulhos ao largo do Ceilão (atualmente Sri Lanka), do Mar Vermelho, do Golfo de Aqaba, da costa da Dalmácia e do Attersee, na Áustria. Ele foi o primeiro artista subaquático reconhecido. Suas experiências produziram observações sobre como as cores apareciam debaixo d`água, detalhadas em sua publicação: “Sketches of the habits, animal life and vegetation ... of Ceylon ... submarine scenery” (Viena, 1867), incluindo 22 litografias coloridas e 4 litografias coloridas. Entre 1871 e 1873, Ransonnet-Villez construiu uma vila em Nußdorf am Attersee, decorada com plantas exóticas que havia coletado durante suas viagens. Mais tarde, ele ajudou a desenvolver o turismo na região e fundou o Union Yacht Club Attersee em 1886. Sua filha, Eugénie-Caroline, herdou a propriedade e, em 1956, a legou à Diocese de Linz. Funciona como hotel para seminários reconhecido como Grafengut. Uma trilha temática (Ransonnet-Themenweg) com painéis interpretativos comemora seu legado. Sua pintura a óleo subaquática restante, com mais de 5.000 espécimes zoológicos, fora doada ao Museu de História Natural de Viena em 1892.     

O nome Dalmácia é derivado da tribo ilíria chamada Dalmatae que viveu na área costeira do mar Adriático oriental no primeiro milênio antes de Cristo. Supõe-se que em algum momento da primeira invasão indo-europeia da Europa, a área adriática, a assim também a Dalmácia, foi ocupada por um grupo de povos afins entre si, os liburnos, os japidos ou japudes e os ístrios na área oriental; os picenos, os japigios na área ocidental, sobre a península Itálica. A área da Dalmácia atual provavelmente era ocupada por tribos de pastores, dedicados ocasionalmente à pesca e à pirataria, os dálmatas (dalmatae). Tal área se encontrava, na parte mais setentrional, nas proximidades do golfo de Quarnero, com a área ocupada com os povos que deram vida à “cultura dos casteleiros”. O centro urbano principal dos dálmatas era Delmínio (em latim: Delminium), isto é, provavelmente na Bósnia e Herzegovina (Duvno), e talvez porque originários dessa cidade, já em 170 a.C. preservarem o nome pelo qual são conhecidos em nossos dias. Provavelmente Delmínio é um termo de origem albanesa que significa “pasto”. Em 153 a.C., os dálmatas eram unidos em uma liga inimiga dos romanos. Públio Cornélio Cipião Násica Córculo os enfrentou pela primeira vez e destruiu Delmínio. Alguns historiadores recordam também as incursões celtas na costa dálmata, que alcançaram Salona (atualmente Solin).

Depois que o Império Bizantino foi conquistado pelas forças da Quarta Cruzada em 1204, a República de Veneza acelerou sua ascensão na região, enquanto o Reino da Croácia, aliado dos bizantinos, tornava-se crescentemente influenciado pelo Reino da Hungria ao norte, sendo absorvido em 1102. Então estas duas facções tornaram-se dominantes na Dalmácia, intermitentemente controlando-a. Um consistente período de domínio húngaro na Dalmácia terminou com a invasão mongol da Hungria em 1241. Os mongóis atacaram severamente o estado feudal, de tal forma que no mesmo ano o rei Béla IV teve que refugiar-se na Dalmácia, na fortaleza de Klis, bem ao Sul. Os mongóis atacaram as cidades da Dalmácia, mas depois retiram-se sem muito sucesso. Em 1389, Tordácato I, o fundador do reino da Bósnia e Herzegovina, conseguiu controlar o litoral adriático entre Cotor e Šibenik e até mesmo a reivindicar controle sobre a costa Norte até Fiume (Rijeka), e seu aliado independente, a República de Ragusa (Dubrovnik). Isto foi temporário, já que os húngaros e venezianos continuaram sua luta sobre a Dalmácia depois da morte da morte de Tordácato em 1391. Nessa época os reinos húngaro e croata enfrentavam dificuldades internas, como os 22 de guerra civil entre a Casa de Anjou do Reino de Nápoles e o rei Sigismundo da Casa de Luxemburgo.

Argumentava com razão o historiador Perry Anderson (1984), que os teóricos marxistas, persuadidos da universalidade das sucessivas fases do desenvolvimento socioeconômico registradas na Europa, têm afirmado, pelo contrário, que o feudalismo foi um fenômeno de proporções mundiais, que abrangeu os Estados africanos e de países asiáticos tanto quanto os europeus. Distinguiu-se e estudou-se o feudalismo otomano, egípcio, marroquino, persa, indiano, mongol ou chinês. A reação política contra a superioridade das ideologias europeias conduziu a uma extensão intelectual dos conceitos historiográficos consequentemente derivados do passado de um continente para explicar a evolução per se análoga dos outros Estados. Nenhum outro termo sofreu uma difusão tão lata e indiscriminada como “feudalismo” o qual foi muitas vezes aplicado na prática a qualquer formação social situada entre os polos de identidade tribal e capitalista, não marcada pelo escravagismo. O modo de produção feudal, é assim definido como a combinação da grande propriedade com a pequena produção camponesa, em que a classe exploradora extrai um excedente ao produtor imediato pelas habituais formas extraeconômicas de coerção como as corveias, prestações em espécie, ou em numerário em que a troca de mercadorias e a mobilidade são assim restritas.  Nesta perspectiva teórica e histórica, o tipo de propriedade agrária, a natureza da classe possuidora e a matriz do Estado podem variar enormemente, sobre uma ordem rural comum que constitui a base de toda a formação social. Em particular, a soberania parcelarizada, a hierarquia vassálica e o sistema de feudo da Europa medieval deixam de ser, sob qualquer aspecto, características essenciais ou originais do feudalismo.

A sua completa ausência é compatível com a presença de uma formação feudal, desde que se verifique a combinação de exploração agrária em grande escala com a produção camponesa, baseada em relações extraeconômicas de coerção e dependência. Assim, a China dos Ming, a Turquia seldjúcida, a Mongólia de Gengis Khan (1162-1227), a Pérsia dos Safávidas, a Índia dos Mogols, e Egito dos Telúnidas, o Marrocos almorávida e a Arábia wahhabita, todos são igualmente susceptíveis de serem classificados em categorias feudais, a par da França de Hugo Capeto (cf. Duby, 1992), da Inglaterra normanda ou da Alemanha Hohenstaufen. As confederações nômadas dos Tártaros, o império bizantino e o sultanato otomano foram designados Estados feudais por teóricos qualificados na história respectiva, com o argumento de que as divergências superestruturais (jurídico-político-ideológico), evidentes em relação às normas ocidentais, ocultam uma convergência subjacente de relações de produção infraestruturais. O privilégio do desenvolvimento ocidental tende a desaparecer, no processo multiforme da história do mundo secretamente una à partida. Na historiografia materialista, o feudalismo torna-se um oceano de absolvição no qual quase todas as sociedades podem receber o batismo.  A invalidade científica deste “ecumenismo teórico” na análise crítica marxista de Perry Anderson (1984) fica demonstrada pelo paradoxo lógico que dele resulta. Isto é, se o conceito de modo de produção feudal pode definir-se.

Independentemente das várias superestruturas jurídicas e políticas que o acompanham, de tal modo que a sua presença pode registrar-se em todo o globo, onde quer que as formações sociais primitivas e tribais foram superadas, põe-se o problema: como explicar esse dinamismo único no teatro europeu do feudalismo internacional? Ao que parece nenhum historiador afirmou que o capitalismo industrial se desenvolveu espontaneamente em qualquer região exterior à Europa e sua extensão americana, que precisamente então conquistava o resto do mundo em virtude do seu primado econômico que bloqueava um implantava o modo de produção capitalista noutros países, segundo as necessidades e tendências do seu sistema imperial. Se existia uma base econômica comum ao feudalismo de toda essa massa territorial desde o Atlântico até ao Pacífico, apenas interrompida por formas jurídicas, e no entanto, só uma zona produziu a revolução industrial que levaria à transformação das sociedades do mundo, há que procurar a determinante deste sucesso nas superestruturas políticas e jurídicas, únicas que as diferenciam socialmente.  Um modo de produção pré-capitalista só pode ser definido por via das suas superestruturas políticas, jurídicas e ideológicas, uma vez que são estas que condicionam o tipo social de coerção extraeconômica que lhes é específico.   

As formas jurídicas exatas de dependência, de propriedade e de soberania que caracterizam uma formação social pré-capitalista, longe de serem apenas epifenômenos acessórios ou contingentes, constituem pelo contrário os índices principais do modo de produção determinado que nelas domina. Uma taxonomia escrupulosa e exata é um pressuposto para a elaboração de uma exaustiva tipologia dos modos de produção pré-capitalista. É evidente que a complexa imbricação de exploração econômica com instituições e ideologias extraeconômicas cria modos de produção possíveis antes do capitalismo do que pode deduzir-se da generalidade relativamente simples e massiva do próprio modo de produção capitalista, que acabou por ser, com a época do imperialismo industrial, o seu terminus ad quem comum e involuntário. Neste sentido, as condições e possibilidades de uma pluralidade de modos de produção pré-capitalistas posteriores ao tribalismo e ao escravagismo é inerente ao seu mecanismo de extração de excedentes. Não é por acaso, afirma Anderson (1984: 474), a uma profunda análise das formas de propriedade agrária em modos de produção contemporâneos na Europa, na Ásia e na América refere-se a mudança social no caráter e na posição de propriedade e as suas relações interligadas com os sistemas políticos, do tribalismo primitivo ao capitalismo. 

Como categoria analítica social e histórica, o feudalismo foi cunhado pelas Luzes. Mas não restam dúvidas que Montesquieu, dotado de um sentido histórico muito mais profundo, andava mais perto da verdade. A investigação moderna descobriu apenas uma grande região do mundo onde vingou inegavelmente um modo de produção comparável ao da Europa. No outro extremo da massa continental eurasiana, para além dos impérios orientais familiares ao Iluminismo, as ilhas do Japão haviam de revelar um panorama social vivamente evocador do passado medieval para os viajantes e observadores europeus do final do século XIX, depois que a chegada do comodoro Perry à baía de Yokoama, em 853, por fim ao seu longo isolamento do mundo exterior. Pouco mais de uma década passada, é o próprio Marx que comenta em O Capital, publicado ante da restauração Meiji: - “O Japão, com sua organização puramente feudal de propriedade fundiária, e a sua petite culture desenvolvida, dá-nos um retrato mais fiel da Idade Média europeia do que todos os nossos livros de história”. A opinião sociológica dos teóricos concorda quase que unanimemente em considerar que o Japão foi lugar histórico de um autêntico feudalismo. O interesse feudal do Extremo Oriente reside na análise comparativa desde a sua distinta combinação de similaridades estruturais e divergências relativamente à evolução em conjunto da sociedade europeia.

O feudalismo japonês, que surgiu como um modo de produção desenvolvido a partir do século XIX-XV e após um longo período de incubação, caracterizava-se essencialmente pela mesma conexão fundamental do feudalismo europeu: a fusão de vassalagem, benfeitoria e imunidade num sistema de feudo que constituía a estrutura político-jurídica de base que permitia a extração ao produtor direto de um sobre-trabalho. As relações sociais entre serviço militar, propriedade fundiária condicional e jurisdicional senhorial reproduziram-se fielmente no Japão. Igualmente perante a hierarquia escalonada entre senhor, vassalo e sub-vassalo, constituindo uma cadeia de suserania e dependência. A classe dirigente hereditária, era formada por uma aristocracia de cavaleiros; o campesinato encontrava-se juridicamente vinculado ao solo, numa réplica próxima da servidão da gleba. O feudalismo japonês possuía características próprias locais, que contrastavam com o feudalismo europeu. As condições técnicas da cultura do arroz ditavam uma estrutura diferente das aldeias, de que era ausente o sistema se assolamento trienal. Por sua vez, o domínio senhorial japonês raramente continha uma reserva ou residência. O pacto feudal era menos contratual e específico do que na Europa: os deveres do vassalo eram mais imperativos. Dentro do equilíbrio entre honra e subordinação, reciprocidade e desigualdade, que marcava a ligação feudal, a variante japonesa pendia acentuadamente para o segundo termo.            

Embora a organização clânica estivesse ultrapassada, como em todas as verdadeiras formações sociais feudais, o expressivo “código” da relação senhor-vassalo era ditado pela linguagem de parentesco, mais do que por elementos da lei: a autoridade do senhor sobre o seu subalterno era mais patriarcal e indiscutível do que na Europa. Era-lhe estranho o conceito de felonia senhorial; não havia tribunais de vassalos; e o sistema jurídico manteve-se de uma maneira geral, muito limitado. A mais importante das consequências gerais do maior autoritarismo e do conteúdo assimétrico das relações hierárquicas entre os senhores no Japão foi a ausência de um sistema de cortes, quer a nível regional, que a nível nacional. Esta é sem dúvida a mais importante linha divisória ente os feudalismos japonês e europeus, considerados enquanto estruturas fechadas. Na realidade, essa parcelarização da soberania atingiu no Japão Tokugawa uma forma mais organizada, estável e sistemática do que jamais conheceu qualquer país da Europa; e a propriedade privada escalonada da terra foi universal no Japão do que na Europa medieval, já que o Japão rural desconhecia os alódios. O paralelismo de base entre as duas grandes experiências, nos extremos opostos do continente eurasiano, havia de receber a confirmação mais convincente do destino de cada uma delas. Os caracteres históricos e sociais que compõem o nome Japão significam “Origem do Sol”, razão pela qual o Japão é muitas vezes identificado como a “Terra do Sol Nascente”. O nome japonês Nippon é usado de forma oficial tradicional, inclusive no dinheiro japonês, selos postais e para muitos eventos esportivos internacionais. Nihon é um termo percebido senso mais casual e mais frequentemente utilizados no discurso contemporâneo.                       

Tanto Nippon quanto Nihon, significam “origem do Sol” e muitas vezes são traduzidos como a “Terra do Sol Nascente”. Esta nomenclatura vem das missões do Império com a dinastia chinesa Sui e refere-se à posição a Leste do Japão em relação à China. Foi durante o século XVI que comerciantes e missionários portugueses chegaram ao Japão pela primeira vez, dando início a um intenso período de trocas linguísticas, culturais e comerciais. No Japão, os portugueses praticaram pari passu o comércio e a evangelização. Os missionários, principalmente os sacerdotes da Companhia de Jesus, levaram a cabo um intenso trabalho disciplinar de missão em cerca de 100 anos de presença portuguesa no Japão. Em 1582 a comunidade cristã no país chegou a ascender a 150 mil cristãos no Japão e 200 igrejas. Toyotomi Hideyoshi deu continuidade ao governo de Oda Nobunaga e unificou o país em 1590. Depois da morte de Hideyoshi, o regente Tokugawa Ieyasu aproveitou-se de sua posição para ganhar apoio político e militar. Quando a oposição deu início a uma guerra, ele a venceu em 1603 na Batalha de Sekigahara. Tokugawa fundou um novo xogunato, um sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, com capital em Edo e expulsou os portugueses e restantes estrangeiros, dando início à perseguição dos católicos no país, tidos como subversivos, com uma política reconhecida como sakoku, a política externa isolacionista japonesa. A perseguição aos cristãos japoneses fez parte desta política, levando esta comunidade à conversão forçada ou mesmo à morte, como é o caso dos 26 Mártires do Japão. O Japão era uma sociedade feudal bem desenvolvida com tecnologia pré-industrial. Era mais povoado do que qualquer país ocidental e tinha no século XVI  26 milhões de habitantes.

Um fato social ainda mais revelador, é que o Japão do fim do feudalismo reconheceu um nível de urbanização sem equivalente, exceto na Europa contemporânea: no princípio do século XVIII, a sua capital, Edo, era maior do que Londres ou Paris, e talvez um em cada dez japoneses vivia em cidades de mais de 10 mil habitantes. E há que notar também que o esforço educacional do país suportava bem a comparação com as mais desenvolvidas nações da Europa ocidental: no limiar da “abertura” japonesa ao Ocidente, cerca de 40% a 50% da população masculina adulta estava alfabetizada. O êxito e a rapidez impressionantes com que o capitalismo industrial foi implantado no Japão pela restauração Meiji tiveram os seus pressupostos históricos determinados no avanço ímpar da sociedade que foi herdeira do feudalismo de Tokugawa. Quando a esquadra da Perry aportou a Yokohama, em, 1853, o fosso histórico entre o Japão e as potências euro-americanas que o ameaçavam era, apesar de tudo, enorme. A agricultura japonesa encontrava-se notavelmente comercializada ao nível da distribuição, mas muito menos ao nível da própria produção. Os tributos feudais, coletados em espécie, contavam ainda para o total do sobre-produto, embora acabassem por ser convertidos em moeda: a produção agrícola direta para o mercado era subsidiária dentro da economia. sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, baseado na crescente autoridade do xógum, supremo líder militar, que terminaria por submeter até mesmo a autoridade do imperador. A retomada do poder imperial determinou o encerramento do feudalismo, xogunato, a abertura do país ao exterior e o início de sua ocidentalização.

Em outras palavras, nada de comparável ao Renascimento tocar em terra japonesa. É lógico que a estrutura do Estado tivesse uma forma rígida e fragmentária. O Japão teve uma longa e rica experiência de feudalismo, mas nunca produziu um absolutismo no sentido conceitual. O shogunato Tokugawa, que governou as ilhas durante os últimos duzentos e cinquenta anos da sua existência, até a intrusão do ocidente industrializado, assegurou uma paz prolongada e manteve uma ordem disciplinar rigorosa: o seu regime era, porém, a negação do Estado absolutista. O shogunato não mantinha monopólios coercivos no Japão: os senhores regionais mantinham os seus próprios exércitos, cujo total era superior aos das tropas da casa Tokugawa. Não impunha uma legislação uniforme, os seus decretos cobriam apenas um quinto ou um quarto do território. Não possuía uma administração competente para o total da sua área de suserania: todos os feudos importantes tinham as suas próprias administrações separadas e autônomas. Não coletava impostos nacionais, estando três quartos do território fora do seu alcance fiscal. Não tinha diplomacia, pois o isolamento oficial e social impedia o estabelecimento de relações com o mundo exterior. Exército, fisco, administração, direito, diplomacia, comparados, faltavam no Japão todos esses complexos institucionais que são chave explicativa e processual do contexto do absolutismo europeu. A distância neste aspecto histórico e social entre o Japão e o continente europeu as duas pátrias do feudalismo, manifestava e simbolizava a profunda divergência nas suas evoluções históricas. Torna-se necessária e instrutiva uma comparação teórica e histórica não da “natureza”, mas da “posição” do feudalismo em cada uma destas trajetórias sociais e políticas. 

Durante a guerra, o perdedor Ladislau de Nápoles vendeu seu “direito” sobre a Dalmácia à República de Veneza por 100.000 ducados. A república de Veneza, mais centralizada, assumiu em 1420 o controle da Dalmácia, que permaneceu sob domínio veneziano por 377 anos. A República de Veneza controlou a maior parte da Dalmácia de 1420 a 1797, sendo o enclave mais ao Sul chamado de “Albânia Vêneta”. A língua vêneta foi a língua franca no mar Mediterrâneo naquela época e influenciou fortemente a língua dálmata e, num menor grau, o croata e o albanês. Em 1481, Veneza mudou sua aliança para o Império Otomano. Isto deu a seus mercadores vantagens tais como o acesso ao mar Negro, e a República de Ragusa foi o mais feroz competidor dos mercadores venezianos nos séculos XV e XVI. A República de Veneza foi também um dos poderes mais hostis à expansão do Império Otomano e participou de muitas guerras contra ele. À medida que os turcos assumiam o controle do interior, muitos cristãos buscaram refúgio nas cidades costeiras da Dalmácia. Depois da Grande Guerra Turca, tempos mais pacíficos fizeram a Dalmácia experimentar um período de certo crescimento econômico e cultural no século XVIII. A cidade de Ragusa (Dubrovnik) tornou-se de fato independente em 1358 pelo Tratado de Zara, quando Veneza recuperou sua suserania de Luís I da Hungria. Este período encerrou-se abruptamente com a queda da República de Veneza em 1797.

As tropas de Napoleão Bonaparte (1769-1821) invadiram a região e terminaram também a Independência da República de Ragusa, mas evitaram sua ocupação pelo Império Russo e Montenegro. Em 1797, a República de Veneza, que havia dominado por quase quatro séculos a costa adriática oriental foi derrubada por Napoleão Bonaparte. Também a Dalmácia entrou nos planos de anexação de Napoleão. Depois de um breve período em que as cidades dálmatas venezianas foram cedidas à Áustria por Napoleão com o tratado de Campoformio, essas terminaram sob controle francês que primeiro decide pela anexação ao reino napoleônico da Itália e, depois, em 1809, instituiu o governo das províncias Ilíricas, com a Ístria, a Carniola, a Krajina (com fim militar dos Habsburgo), os condados de Gradisca, Gorizia, Trieste e parte da Caríntia, das quais a capital foi Liubliana, a capital e a maior cidade da Eslovénia. É reconhecida pela sua notável população acadêmica e pelos espaços verdes, incluindo o extenso Parque Tivoli. Com a restauração em 1815, as cidades de Gorizia, Trieste, Pola (Pula) e Fiume (Rijeka), da Veneza-Júlia, com as terras a Oeste dos Alpes Julianos, reobtiveram, no âmbito do Império Habsburgo, a separação da Ilíria e o governo desta foi dado ao império Habsburgo, que, por um breve período da história política nacional, constituiu o termo “reino da Ilíria” para referir-se a duas entidades históricas distintas: o reino ilírio antigo, formado por várias tribos nos Bálcãs, e o Reino da Ilíria (1816–1849), uma terra da coroa do Império Austríaco e, depois, definitivamente, o reino da Dalmácia, com capital em Zara (Zadar). Em 1816, época da restauração, a comunidade italiana representava a quinta parte do total da região, concentrando-se, porém, do ponto de vista urbano nas cidades e no litoral, enquanto a etnia servo-croata predominava no interior. 

Na primeira metade do século XIX, começou a difundir-se na Dalmácia o movimento chamado Ilírico, apoiado pela maioria croata e liderado por um representante deste grupo étnico, Ljudevit Gaj (1809-1872). Este movimento social tinha como objetivo a criação de uma única cultura e consciência dos eslavos do Sul. A etnia majoritária da Dalmácia parecia assim ser naquele período a eslava, mas não são bem claros os dados sobre a população de etnia italiana. Depois da Primeira Guerra Mundial, com base no Tratado de Londres, a Itália obteve a Dalmácia setentrional, inclusive as cidades de Zara (Zadar), Sebenico (Šibenik) e Tenin (Knin). À anexação, opôs-se o recém-criado Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, apoiado por Woodrow Wilson e a Dalmácia foi finalmente entregue ao estado eslavo do Sul, com a exceção de Zara (de maioria italiana), da ilha de Lagosta (Lastovo) e Cazza (Sušac) e as carnerinas Cherso (Cres), Lussino (Lošinj), Unie (Unije), Sansego (Susak) e Asinello, que se tornaram italianas. No ordenamento regional do reino iugoslavo, a Dalmácia fazia parte da Banovina do litoral com parte da Herzegovina.  Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia foi invadida pelo Eixo e desmembrada. A Dalmácia foi repartida entre a Itália, que ficou com Zaravecchia, Sebenico (Šibenik), Traù (Trogir), Spalato (atual Split) e Bocas de Kotor (atual Kotor); e o Estado Independente da Croácia, que anexou Ragusa (Dubrovnik) e Morlacchia, embora na região estivessem acantonadas tropas italianas. 

Apesar da turbulência causada pela guerrilha contra o Eixo, anexada à Itália tornou-se refúgio para a população do interior que fugia dos Ustaše. Com a derrota italiana em 8 de setembro de 1943, o Estado Independente da Croácia atacou a região anexada pela Itália e fez as fronteiras recuarem aos limites de 1941, enquanto as Bocas de Cattaro passavam à administração militar alemã, assim como a cidade de Zara, que desta forma consegue temporariamente evitar a anexação à Croácia. Porém Zara sofreu pesados bombardeios que a destruíram quase completamente. Em dezembro de 1944, toda a Dalmácia estava sob domínio dos partisans de Josip Broz Tito (1892-1980), inclusive o que restou de Zara.  No fim do conflito toda a costa adriática oriental, inclusive Zara e as ilhas anteriormente italianas, terminam sob a nova República Socialista Federativa da Iugoslávia que administrou estas áreas até a sua dissolução em 1991. Nesse ano, a Dalmácia tornou-se parte do território da Croácia e, em parte, da Sérvia e Montenegro (Kotor), enquanto a foz do rio Neretva ficou com a Bósnia e Herzegovina. Nas regiões banhadas pelo mar Adriático, os mariscos, os camarões, as amêijoas, além de queijos e presuntos defumados dominam o cardápio. Entre as especialidades estão o peixe grelhado, a sopa e salada de frutos do mar, o presunto defumado em vinho branco e o peixe guisado com arroz. No interior é comum o consumo de galinha ou patos servidos com salsichas defumadas, pernas de porco, além das costeletas preparadas ao ar livre, acompanhadas de batatas assadas. Outra iguaria originalmente do país é a sopa fresca de milho com feijão é o strukle (rolos de queijo caseiro). Vale a pena experimentar e fazer em casa o sarma, repolhos recheados com carne moída, bacon e presunto. Entre as sobremesas mais populares está o palacinke (crepe) e a maçã com strudel de queijo.

Bibliografia Geral Consultada.

ANDERSON, Perry, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo. Porto: Edições Afrontamento, 1984; DUBY, Georges, A Idade Média na França: de Hugo Capeto a Joana D’Arc. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1992; AUGÉ, Marc, La Guerre des Rêves. Exercices d`ethno-fiction. Paris: Éditions du Seuil, 1997; RADOVINOVIČ, Radovan, O Adriático Croata. Zagreb: Editor Naklada Naprijed, 1999; TOMASEVICH, Jozo, Guerra e Revolução na Iugoslávia, 1941-1945: Ocupação e Colaboração. Stanford: Stanford University Press, 2002; SILVA, Marcos Paulo do Nascimento, A Problemática do Mal em O Mal-Estar na Civilização. Dissertação de Mestrado. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2004; KEPEL, Gilles, La Revancha de Dios. Cristianos, Judíos y Musulmanes à la Reconquista del Mundo. Madrid: Alianza Editorial, 2005; ELIAS, Norbert, Escritos & Ensaios (I): Estado, Processo, Opinião Pública. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006; FRANCO, José Eduardo, “Jesuítas e Franciscanos perante as Culturas e as Religiões do Extremo Oriente: O Caso da Apologia do Japão e a Dramática Missionação das Ilhas do Sol Nascente”. In: História Unisinos. Volume 11, nº 2 - maio/Agosto de 2007; MELL, Julie Lee, Religion and Economy in Pre-Modern Europe: The Medieval Commercial Revolution and the Jews. Thesis PhD. North Carolina: University of North Carolina, 2007; ROSENSTONE, Robert, A História nos Filmes, os Filmes na História. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2010; FOUCAULT, Michel, Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 42ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2014; GOIANA, Francisco Daniel Iris, Instinto e Civilização: A Sociologia Processual de Norbert Elias e Seu Encontro com a Psicanálise Freudiana. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2014; HIRST, John, A Mais Breve História da Europa. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2018; LAKY, Lilian de Angelo, “A Expansão Grega no Mar Adriático: Insularidade e Contato Cultural na Organização do Território da Pólis da Dalmácia Central nos Periódicos Clássico e Helenístico”. In:  rev. hist. (184) • 2025; PIETRANI, Elina Eunice Montechiari, Identidade, Trabalho e Suicídio: Uma Análise Fenomenológico-hermenêutica. Tese de Doutorado. Instituto de Psicologia. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2025; entre outros.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Bela Amada – Filme Hindi, História Política & Comédia Romântica.

                                                                                          Seja a mudança que você quer ver no mundo”.  Mahātmā Gandhi                               

                    

        Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), mais reconhecido como Mahatma Gandhi (sendo Mahatma um título), foi um advogado, estadista, líder espiritual e ativista indiano. Considerado também um líder religioso, além de nacionalista, anticolonialista e especialista em ética política indiana. Ficou reconhecido por ter “empregado a resistência não violenta” para liderar a campanha bem-sucedida pela Independência da Índia do Reino Unido e, por sua vez, por inspirar movimentos sociais pelos direitos civis e pela liberdade em todo o mundo. O título honorífico Mahātmā, aplicado-lhe pela primeira vez em 1914 na África do Sul, é agora usado em todo o mundo. O aniversário de Gandhi, 2 de outubro, é comemorado na Índia como Gandhi Jayanti, um feriado nacional e em todo o mundo como o Dia Internacional da Não Violência. Gandhi nasceu e foi criado em uma família hindu no litoral de Guzerate, Oeste da Índia, e se formou em Direito no Inner Temple, Londres, Inglaterra. É comumente embora não formalmente considerado o Pai da Pátria indiana, também chamado de Bapu (Guzerate: carinho por pai, papa). Seguia o princípio da não violência incorporado à desobediência civil, e empregou pela primeira vez a desobediência civil não violenta como advogado expatriado na África do Sul, na luta da comunidade indiana pelos direitos civis. Após seu retorno à Índia em 1915, começou a organizar camponeses, agricultores e trabalhadores urbanos para protestar contra o imposto sobre a terra e a discriminação excessiva. Assumindo a liderança do Congresso Nacional Indiano em 1921, Gandhi liderou campanhas nacionais para várias causas sociais e para alcançar o Swaraj ou o autogoverno.  

Mahātmā Gandhi levou os indianos a desafiar o imposto salino cobrado pelos ingleses com a Marcha do Sal, de 400 km, em 1930, e mais tarde pedindo aos britânicos que abandonassem a Índia em 1942.  Foi preso por muitos anos, em várias ocasiões, na África do Sul e na Índia. Vivia modestamente em uma comunidade residencial autossuficiente e usava o dhoti e o xale indiano tradicional, entrelaçados com fios feitos à mão em um charkha. Comia comida vegetariana simples e também realizou longos jejuns como um meio de autopurificação e protesto político. A visão de Gandhi de uma Índia independente baseada no pluralismo religioso foi desafiada no início da década de 1940 por um novo nacionalismo muçulmano que exigia uma pátria muçulmana separada da Índia. Em agosto de 1947, o Reino Unido concedeu a Independência, mas o Império Britânico da Índia foi dividido em dois domínios, a Índia de maioria hindu e o Paquistão de maioria muçulmana. Como indianos, muçulmanos e sikhs deslocados chegaram às novas terras, a violência religiosa irrompeu em Panjabe e em Bengala. Evitando a celebração oficial da Independência em Délhi, uma imensa área metropolitana no Norte do país, Gandhi visitou as áreas afetadas, tentando proporcionar consolo. Nos meses seguintes, ele realizou “várias greves de fome para deter a violência religiosa”. O último deles, realizado em 12 de janeiro de 1948, quando tinha 78 anos, também teve o objetivo indiretamente de pressionar a Índia a pagar alguns ativos em dinheiro devidos ao Paquistão. Alguns indianos pensavam que Gandhi era complacente com os muçulmanos. Entre eles estava Nathuram Godse (1910-1949), um nacionalista hindu, que assassinou Gandhi em 30 de janeiro de 1948, disparando três vezes contra seu peito.

O hindi ou híndi tem como representação social a língua indo-ariana, descendente direta do sânscrito védico a partir do prácrito sauraseni e do Śauraseni Apabhraṃśa, falada por 70% dos indianos no Norte, Centro e Oeste da Índia. É parte de uma continuidade dialetal da família indo-ariana fortemente associado à religião hindu. Os falantes do hindi não são apenas os que o reconhecem como uma língua materna, mas também de outras variantes que consideram antropologicamente o seu idioma uma variante do hindi padrão. De acordo com a Constituição indiana de 1950, o híndi é uma das línguas oficiais da Índia em nível federal. A Constituição indiana estabelece ainda que o híndi deve ser escrito com o alfabeto devanágari. Entre as várias línguas oficiais da Índia, o híndi goza, ao lado do inglês, de maior prestígio dentro da sociedade indiana. O hindi é uma língua oriunda do sânscrito védico, mais precisamente do dialeto ou prácrito do Sânscrito prākṛta (“inalterado, não refinado”) das proximidades de Délhi, que adquiriu prestígio no período do Império Mughal no século XVII, dando-lhe a denominação de urdu, a “língua da corte”. Depois da Independência da Índia as autoridades sentiram a necessidade de uma unificação dentro do idioma, portanto decidiu-se por padronizar o hindi como língua separada do urdu. A constituinte oficializou o hindi como idioma oficial da União em 14 de setembro de 1949, esta data foi adotada mundialmente como sendo o dia da língua hindi. Em 1954 o governo organizou um comitê para preparar uma gramática. O relatório final do comitê foi concluído em 1958 com o título de “Gramática Básica do Hindi Moderno”. Com a padronização veio a obrigatoriedade do alfabeto devanágari pelo Ministério da Educação indiano na intenção de uniformizar a língua e evitar desvios de pronúncia, inclusive na adição de diacríticos para datação de palavras de outras línguas.

                                    


Bollywood representa a indústria de cinema de língua hindi, a maior indústria de cinema indiana, em termos de lucros e popularidade a nível nacional e internacional. O nome Bollywood surge da “fusão de Bombaim, antigo nome de Mumbai, cidade onde se concentra esta indústria cultural, e de Hollywood, nome dado à indústria cinematográfica norte-americana”. Contudo este nome é utilizado por vezes para designar todo cinema indiano o que se trata de uma utilização incorreta. Os filmes de Bollywood, assim como a maior parte dos filmes indianos, são na maior parte musicais. Espera-se sempre que contenham algumas melodias “cativantes sob a forma de números de canto e dança”. O sucesso de um filme depende muito da qualidade dos seus números musicais. Geralmente as músicas costumam ser lançadas antes do filme para aumentar o interesse do público no filme. O público indiano espera fazer o seu dinheiro valer a pena quando de uma ida ao cinema. Músicas e danças, triângulos amorosos, comédia e ação são todos misturados num espetáculo de três horas de duração com intervalo. Esses tipos de filmes são chamados de masala, é o nome dado a uma mistura de especiarias da culinária indiana. Tal como os masalas da culinária, este tipo de filmes são uma mistura de muitas coisas.

Os enredos temáticos de Bollywood tendiam pela tradição histórica a ser melodramáticos. Frequentemente empregavam ingredientes tais como amores impossíveis, triângulos amorosos, laços familiares, sacrifício, políticos corruptos, sequestradores, terríveis vilões, cortesãs com coração de ouro, parentes há muito desaparecidos, irmãos separados pelo destino, mudanças de sorte dramáticas e coincidências convenientes. Ao mesmo tempo também existiam filmes indianos com objetivos mais artísticos e histórias mais sofisticadas, tanto dentro como fora dos costumes da tradição de Bollywood, no entanto estes geralmente perdiam nas bilheteiras para filmes com um maior apelo de massas. No entanto atualmente as convenções de Bollywood têm mudado. A grande diáspora de indianos nos países de língua inglesa e a maior influência ocidental na própria Índia têm levado os filmes de Bollywood a se aproximarem dos modelos de Hollywood. Beijos em filmes não são mais um tabu. E os enredos mostram uma vida urbana com encontros ao estilo ocidental e “cada vez menos se veem os casamentos por combinação”. Bollywood emprega pessoas de quase todas as partes da Índia e atrai milhares de aspirantes a atores.

Modelos, atores televisivos, atores de teatro e até pessoas comuns vêm para Mumbai na esperança de se tornarem estrelas. No entanto apenas poucos são bem sucedidos. A popularidade na indústria do entretenimento é algo muito frágil e Bollywood não é exceção. A popularidade das estrelas pode subir ou cair rapidamente. Diretores competem para contratar as estrelas mais populares do dia, que acreditam ser uma garantia de sucesso para o filme, mesmo que nem sempre seja constatado. Apenas poucos atores não indianos conseguiram deixar alguma marca em Bollywood, apesar de terem tentado várias vezes. Mas existem algumas excepções, como no exemplo do recente êxito Rang de Basanti, onde a atriz inglesa Alice Patten desempenhou um dos papéis centrais. Outros filmes como Kisna (2005), Lagaan (2001), The Rising: Ballad of Mangal Pandey (2005) e Marigold (2011) também incluíram atores estrangeiros. Bollywood é por vezes muito dominada por clãs sendo que os familiares de pessoas que trabalham na indústria conseguem com mais facilidade papéis muito desejados ou apenas um lugar no elenco de um filme. Contudo as boas ligações, ou relações de poder, dentro da indústria não são garantia de uma carreira longa. E por outro lado algumas das maiores estrelas tais como Dharmendra, Amitabh Bachchan e Shahrukh Khan foram bem sucedidos apesar de terem uma falta de ligações dentro da indústria. Os filmes de Bollywood são produções da indústria cultural de vários milhões de dólares, com os mais caros a custarem até cerca de 10 milhões.

No entanto estão em pauta projetos mais ambiciosos que pretendem ultrapassar em muito esse valor. Cenários, vestuário, efeitos especiais e cinematografia estavam abaixo da média mundial até a meio da década de 1990, com notáveis excepções. Quando os filmes ocidentais e a televisão começaram a ter uma maior distribuição na Índia, passou a existir a pressão para que os filmes de Bollywood atingissem os mesmos níveis de produção, particularmente em áreas tecnológicas como os efeitos especiais. Recentes filmes de Bollywood têm empregado técnicos internacionais para melhorar em determinadas áreas, tal como aconteceu no filme Krrish (2006) no qual a ação foi coreografada por Tony Ching de Hong Kong. A cada vez maior acessibilidade a profissionais de ação e efeitos especiais agregada aos orçamentos cada vez mais altos dos filmes têm resultado numa explosão na produção de filmes de ação e ficção científica. Filmes com sequências filmadas no exterior têm-se provado sucessos de bilheteira, assim as equipes de filmagem de Mumbai têm filmado cada vez mais em lugares como Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido, Estados Unidos, Europa continental e em muitos outros lugares, tal como também no Brasil onde em 2006 foi filmada parte da ação do filme Dhoom 2, sendo um dos maiores sucessos de sempre do cinema indiano.

O financiamento dos filmes de Bollywood geralmente vem de distribuidores privados e de alguns grandes estúdios. No passado os bancos e instituições financeiras indianas estavam proibidos de emprestar dinheiro aos estúdios de cinema. Contudo, esta proibição já foi levantada. Nos últimos anos algumas produções também têm recebido o apoio de grandes estúdios de Hollywood tal como no caso do filme Saawariya (2007) que foi coproduzido pela Columbia Tristar e de Roadside Romeo (2008) coproduzido pela Walt Disney. Até ao passado recente algumas produções foram financiadas por fontes ilegais tais como a máfia de Mumbai. Por exemplo em 2001 o Central Bureau of Investigation apreendeu todas as cópias do filme Chori Chori Chupke Chupke (2001) depois de se ter descoberto que o filme tinha sido financiado pelo submundo do crime de Mumbai. Muitos artistas indianos costumavam ganhar a vida a pintar à mão letreiros e cartazes anunciando os novos filmes. Isto acontecia porque o trabalho manual ficava mais barato do que imprimir e distribuir publicamente o material. A maioria dos vários outdoors nas grandes cidades indianas são criados digitalmente. Os velhos letreiros e cartazes são hoje colecionados como uma forma de arte popular. Lançar a música, ou os vídeos musicais antes do próprio filme também é considerada uma forma de publicidade.      

O crime organizado na Índia, ou crime organizado indiano, refere-se a elementos do crime organizado originários da Índia e àqueles que atuam em outras partes do mundo. O objetivo do crime organizado na Índia, como em outras partes do mundo, é o ganho financeiro. Sua forma virulenta nos tempos modernos deve-se a diversos fatores socioeconômicos e políticos, bem como aos avanços da ciência e da tecnologia. Não existem dados precisos que indiquem o número de quadrilhas do crime organizado que operam no país, seus membros, seu modus operandi e as áreas de atuação. Sua estrutura e padrões de liderança podem não se enquadrar estritamente na máfia siciliana clássica. O crime organizado indiano também é prevalente fora da Índia, principalmente em países ocidentais como Canadá, Estados Unidos e Reino Unido. No Canadá, grupos criminosos organizados indianos têm estado envolvidos em extorsão, violência direcionada e terrorismo. A atual disputa diplomática entre o Canadá e a Índia está relacionada a isso. Independentemente dos grupos criminosos estabelecidos na Índia, também existem grupos criminosos de origem indiana envolvidos em atividades criminosas como tráfico de drogas, extorsão, contrabando e lavagem de dinheiro no Canadá e no Reino Unido. A D-Company é o grupo de crime organizado controlado por Dawood Ibrahim, originário de Mumbai. Argumenta-se que a D-Company não é um cartel estereotipado no sentido estrito da palavra, mas sim uma conivência de grupos terroristas criminosos baseada no controle e liderança pessoal de Ibrahim.

Ele está na lista de procurados da Interpol por fraude, conspiração criminosa e chefiar um sindicato do crime organizado, e em 2008 foi o número dois na lista da Forbes dos 10 Mais Procurados do Mundo. Ele é acusado de liderar um império ilegal contra a Índia e os indianos. Após os atentados de Bombaim em 1993, que Ibrahim supostamente organizou e financiou com Tiger Memon, ambos se tornaram parte dos mais procurados da Índia. Ibrahim Mushtaq Abdul Razzaq Memon, mais reconhecido pelo apelido de Tiger Memon, é um gângster e terrorista, considerado um dos cérebros por trás dos atentados de 1993 em Mumbai. Ele é procurado pela Interpol e pelo Bureau Central de Investigação. Ele é um ex-membro da D-Company, uma gangue liderada por Dawood Ibrahim. De acordo com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Ibrahim pode ter tido ligações com Osama bin Laden (1957-2011). Consequentemente, os Estados Unidos declararam Ibrahim um “Terrorista Global Especialmente Designado” em 2003 e levaram o caso às Nações Unidas numa tentativa de congelar os seus bens em todo o mundo e reprimir as suas operações. As agências de inteligência indianas e russas apontaram o possível envolvimento de Ibrahim em vários outros ataques terroristas, incluindo de Mumbai em 2008. Desde que entrou na clandestinidade, a localização de Ibrahim tem sido frequentemente rastreada até Karachi, no Paquistão, uma alegação que as autoridades paquistanesas negaram. Chotta Rajan é o chefe de um sindicato do crime com sede em Mumbai. Ele foi um dos principais auxiliares e tenentes de Dawood Ibrahim.

Começando como um “pequeno ladrão” e contrabandista trabalhando para Rajan Nair, também reconhecido como Bada Rajan (Grande Rajan), Chotta Rajan assumiu o comando da gangue de Bada Rajan após o assassinato deste. Mais tarde, ele se afiliou a Dawood e operou sob suas ordens em Mumbai, fugindo da Índia para Dubai em 1988. Ele é procurado por diversos crimes, incluindo extorsão, assassinato, contrabando, tráfico de drogas e financiamento de filmes. Seu irmão é acusado de produzir filmes financiados por Rajan. Ele é procurado por 17 casos de assassinato e várias tentativas de assassinato. Chhota Rajan foi preso em Bali pela polícia Indonésia em 25 de outubro de 2015. Ele foi extraditado para a Índia em 6 de novembro, após 27 anos foragido, e atualmente aguarda julgamento sob custódia do Departamento Central de Investigação (CBI), a agência de investigação de crimes internos da Índia. Opera sob a jurisdição do Ministério do Pessoal, Queixas Públicas e Pensões. Originalmente criado para investigar suborno e corrupção governamental, em 1965 recebeu jurisdição ampliada para investigar violações de leis federais aplicáveis ​​pelo Governo da Índia, crime organizado multiestadual, casos multiagências ou internacionais. O CBI está isento das disposições da Lei do Direito à Informação. O CBI é o ponto de contato único oficialmente designado pela Índia para atuar como elo de ligação com a Interpol. A gangue de Arun Gawli está baseada em Dagdi Chawl, em Byculla, Mumbai. Gawli iniciou suas atividades criminosas ali, utilizando os cômodos para manter pessoas sequestradas, torturá-las, extorquir dinheiro delas e assassiná-las. A polícia invadiu o local diversas vezes e finalmente desmantelou suas operações. 

Ele foi preso várias vezes por atividades criminosas e detido por longos períodos durante os julgamentos. No entanto, não conseguiu ser condenado na maioria dos casos, pois as testemunhas se recusavam a depor contra ele por medo. Ele, juntamente com outros onze, foi finalmente condenado pelo assassinato do político do Shiv Sena, Kamalakar Jamsandekar, por um tribunal em agosto de 2012. Bal Keshav Thackeray (1926-2012) foi um jornalista, ativista e político hindu indiano. Em 1966, foi o fundador e líder do Shiv Sena, um partido político nacionalista hindu e conservador com presença no estado de Maharashtra. Thackeray nasceu em uma família de classe alta e tradição política: seu pai Keshav Sitaram era um jornalista e um dos líderes do movimento reformista Samyukta Maharashtra, em português, Maharastra Unida, que defendia uma comunidade linguística independente para os maratas no agora extinto estado de Bombaim (1947-1960).​ Bal começou a trabalhar como cartunista em vários jornais e em 1960 lançou a revista Marmik, através do qual exigia que os maratas tivessem tratamento preferencial em Bombaim sobre a população imigrante, principalmente indianos do Sul. Em 19 de junho de 1966, fundou o partido nacionalista Shiv Sena que defendia o tratamento preferencial dos maratas, a quem chamava de “filhos da terra” com um discurso conservador, contrário à imigração e anticomunista. Esta opção política tornou-se muito popular entre os Maratís graças à sua oratória e medidas populistas, como a criação de comunidades (shakhas) que garantiam trabalho e proteção em troca do apoio ao partido. Thackeray estabeleceu-se assim como um líder de massas e foi defendido por seus seguidores por meio de boicotes, ataques, greves e manifestações contra empresas e sindicatos que, em sua opinião, prejudicavam a comunidade local.

Ao mesmo tempo, fundou os jornais Saamana (marata) e Dopahar ka saamana (hindi) para difundir suas ideias. Na década de 1980, esse discurso evoluiu para o nacionalismo hindu (Hindutva) e a defesa acérrima da religião e da identidade hindu, especialmente nos espaços públicos. Nessa época seus seguidores encenaram atos violentos como os motins contra a população muçulmana (1984) ou a destruição da mesquita Babri Masjid (1992) que levou a uma série de ataques terroristas islâmicos em Bombaim em 1993. Após esses ataques, o apoio ao Shiv Sena aumentou. Graças a uma aliança com o Partido do Povo Indiano, o Shiv Sena conseguiu governar Maharashtra de 1995 a 1999.  A primeira medida adotada foi mudar o nome oficial de Bombaim para “Mumbai”. Até então Thackeray já era uma das figuras mais influentes do estado e qualquer ação tinha que ter sua aprovação. Em 1999 foi desqualificado por seu envolvimento em vários casos de corrupção política. Um ano depois, ele foi preso sob a acusação de incitar o ódio contra a comunidade muçulmana em 1993, embora nesse caso ele não pudesse ser condenado porque o tribunal decidiu que os crimes haviam prescrito. Os processos judiciais, juntamente com a crescente diversidade étnica de Mumbai, reduziram sua popularidade. Apesar de sua saúde deteriorada, Bal Thackeray ocupou a liderança do Shiv Sena até sua morte em 17 de novembro de 2012, de parada cardíaca aos 86 anos. O primeiro-ministro indiano Manmohan Singh expressou suas condolências e concordou com um funeral de Estado no Parque Shivaji, que contou com a presença de cerca de um milhão de pessoas, segundo a imprensa nacional.

Uma boa melodia, mutatis mutandis, acredita-se que ajuda a levar o público até aos cinemas. Os publicitários de Bollywood também começaram a usar a Internet como um meio de anunciar seus filmes. A maior parte dos filmes com bom financiamento têm os seus próprios sites na Internet, onde podem ser visualizados trailers, imagens do filme e informação acerca da história, elenco e equipe de produção. Os filmes de Bollywood, como também acontece em Hollywood, são usados como meio de publicitar outros produtos. A cerimônia dos Filmfare Awards é das mais antigas e, comparativamente, proeminentes do cinema hindi e é também chamada ipso facto de “Óscares Indianos”. Os Filmfare Awards foram primeiro introduzidos historicamente em 1954 no mesmo ano dos National Film Awards, um prêmio de mérito artístico e técnico concedido à excelência na indústria cinematográfica indiana. No entanto este último é um prêmio decidido por um painel de jurados decidido pelo governo indiano enquanto que os Filmfare Awards são votados tanto pelo público como por um comité de especialistas. Desde 1973 que o governo patrocina os National Film Awards, que são entregues pelo governo. Nesta cerimônia não são premiados apenas filmes de Bollywood, mas também filmes provenientes de outras indústrias culturais de cinema regionais e também concomitantemente os chamados filmes independentes. Esta cerimónia é anual e é presidida pelo presidente da Índia. Além destas existem muitas outras cerimônias de entrega de prêmios tanto dentro como fora da Índia.

  Ao longo do decorrer dos anos, Bollywood, tem demonstrado uma crescente popularidade, e tem ganho a atenção do público consumidor e dos produtores ocidentais. A maioria da população do Paquistão assiste aos filmes de Bollywood, devido à similaridade entre as línguas hindi e urdu. No entanto existe uma proibição oficial aos filmes indianos, por isso eles não são exibidos nos cinemas paquistaneses. Fora isso os filmes de Bollywood são assistidos através da TV a cabo e também existe um grande mercado para os filmes de Bollywood nas lojas de venda de filmes. Recentemente a proibição aos indianos tem começado a ser quebrada com a chegada às salas de cinema paquistanesas de alguns poucos filmes indianos, tal como o recente filme Welcome que foi muito bem recebido pelo público paquistanês. Devido a isso já se começa a discutir a possibilidade de ser levantada totalmente a proibição aos filmes de Bollywood. Os filmes de Bollywood também são populares em outros países do Sul da Ásia como no Bangladesh e Nepal. No Afeganistão os filmes de Bollywood também são populares entre a população devido à proximidade com o sub continente indiano. Além disso vários atores de Bollywood têm raízes afegãs. Também várias produções foram filmadas em território afegão, tais como Dharmatma, Kabul Express, Khuda Gawah e Escape From Taliban. Os filmes indianos estavam proibidos durante o regime Taliban, mas em 2001 com a queda deste regime os filmes de Bollywood voltarem a entrar livremente em território afegão.

Recentemente Bollywood também já atingiu Israel. Existem canais especiais na TV a cabo dedicados ao cinema indiano. Os filmes indianos também são populares em alguns países árabes, particularmente nos países do Golfo Pérsico. Os filmes indianos importados costumam ser dublados em árabe. Bollywood é bem conhecido na África. A população indiana em países como África do Sul, Nigéria e Marrocos permite algum sucesso nas bilheteiras para as produções de Bollywood. Os filmes de Bollywood são particularmente populares nos países da ex União Soviética. Isso deveu-se em parte ao fato de os filmes de Hollywood e de outros países ocidentais terem sido banidos pelo governo soviético. Sendo assim visto que não existiam outros meios de entretenimento baratos os soviéticos permitiram a entrada dos filmes de Bollywood que eram supostamente não controversos e não políticos. Além disso na época em que União Soviética se estava a recuperar de Segunda Guerra Mundial, a Índia também se estava a recuperar do desastre da partição e da libertação do jugo colonial, sendo assim os filmes indianos pensava-se serem um bom meio de trabalho para prover esperança às massas. Os filmes eram dublados em russo e exibidos em cinemas por toda a União Soviética.  Depois do colapso do sistema soviético de distribuição de filmes, Hollywood ocupou o vazio deixado no mercado cinematográfico russo. 

Isto tornou as coisas difíceis para Bollywood, que viu perder a sua quota de mercado para Hollywood. Contudo começa a existir um interesse renovado em Bollywood por parte dos jovens russos. Bollywood tem experimentado um grande crescimento de mercado na América do Norte e particularmente entre as comunidades provenientes do Sul da Ásia nas grandes cidades americanas. A Yash Raj Films, umas das maiores casas de distribuição e produção, anunciou em setembro de 2005 que os filmes de Bollywood nos Estados Unidos da américa rendem cerca de 100 milhões por ano através de exibições nos cinemas, vendas de DVDs e venda das trilhas sonoras dos filmes. Em outras palavras os filmes indianos são os filmes estrangeiros mais lucrativos nos Estados Unidos. Ao longo da última década as películas de Bollywood têm sido filmadas várias vezes em cidades como New York, Los Angeles, Vancouver e Toronto. Os filmes de Bollywood também têm bons resultados no Reino Unido. Muitos filmes como Kabhi Khushi Kabhie Gham... e Bhagam Bhag, têm tido Londres como cenário. Entretanto, Bollywood não é muito popular na América do Sul, contudo tem algum reconhecimento em países como a Guiana e o Suriname e também no Caribe e nas ilhas de Trinidad e Tobago, sendo que em todos esses países mencionados, os descendentes de indianos compõem a maioria da população. Em 2006 o filme Dhoom 2, foi parcialmente rodado no Rio de Janeiro. E em 2007 o filme Fool n Final, também teve parte de sua ação filmada no Brasil. Além disso têm sido realizadas várias mostras de filmes indianos em algumas cidades brasileiras, como São Paulo e Salvador, com o objetivo de tornar reconhecido o cinema indiano neste país. A Austrália é um dos países com a maior diáspora de pessoas provenientes de países do sul da Ásia. 

Mas Bollywood também é popular entre os não-asiáticos. Desde 1997 o país foi cenário para vários filmes de Bollywood. Inicialmente os cineastas indianos sentiram-se atraídos pelas belas paisagens Australianas, e usavam-nas como pano de fundo para sequências de canto e dança. Contudo hoje em dia muitos filmes têm a sua ação passada na Austrália. As produções hindi filmadas na Austrália costumam incorporar aspectos do estilo de vida australiano. O filme Salaam Namaste (2005) foi o primeiro a ser filmado inteiramente na Austrália e tornou-se o filme mais bem sucedido de Bollywood de 2005, nesse país. Seguiram-se a este filme muitos outros filmes tais como Heyy Babyy e Chak De! India, que foram alguns dos maiores sucessos de 2007. Haseen Dillruba (“Bela Amada”) tem como representação social um filme de suspense romântico indiano em hindi de 2021, dirigido por Vinil Mathew e escrito por Kanika Dhillon. Nascido em 1977 é um cineasta e escritor indiano, que dirige e produz principalmente comerciais de televisão. Ele também dirigiu dois longas-metragens. Depois de estudar cinema no Instituto de Cinema e Televisão da Índia (FTII), ele fez campanhas publicitárias para várias marcas, incluindo Vodafone, Nescafé e Cadbury. Em longas-metragens, Vinil dirigiu a comédia romântica Hasee Toh Phasee (2014), que foi um sucesso de crítica e público, e o thriller romântico de 2021 Haseen Dillruba, que se tornou o filme hindi mais assistido na Netflix naquele ano.  É estrelado por Taapsee Pannu, Vikrant Massey e Harshvardhan Rane. No filme Rani Kashyap (Taapsee Pannu) é suspeita de ter assassinado o próprio marido. Durante a investigação, ela revela detalhes do seu casamento que complicam o caso. Rani Kashyap Saxena, uma dona de casa, está de fora da residência, alimentando os cachorros, quando sua casa explode repentinamente, presumivelmente matando seu marido, Rishab Rishu Saxena. A polícia encontra um corpo carbonizado irreconhecível, com uma mão decepada que Rani identifica como sendo de Rishu. O filme alterna entre o passado em flashback e o presente; a realidade da explosão se entrelaça com a investigação que ocorre na vida nos dias atuais.   

Vinil Mathew nasceu em uma família malaiala em Delhi. Ele frequentou a St. Columba`s School, em Delhi. Vinil se interessou por filmes desde jovem e disse que assistir a Roja (1992) de Mani Ratnam quando estava na 10ª série o inspirou a ser cineasta. Vinil cursou Economia com honras na Universidade de Delhi. Após a graduação, estudou cinema no Instituto de Cinema e Televisão da Índia. Em seguida, estudou cinema na Universidade de Televisão e Cinema de Munique, onde realizou seu curta-metragem de formatura Danke schon Bitte Schon. Vinil mudou-se para Mumbai em 2000 e juntou-se à empresa de publicidade Highlight Films, onde trabalhou como assistente de Prasoon Pandey. Em 2003, Vinil dirigiu um filme para televisão para o canal Star One, chamado The Chosen One. Após dois anos, fundou sua própria produtora, a Nomad Films. Em seguida, juntou-se à Footcandles Films, onde trabalhou em anúncios para a Reliance, Vodafone e Airtel. Para esta última marca, dirigiu Vidya Balan e R. Madhavan. Ele realizou mais de 250 campanhas publicitárias, incluindo uma popular para a Cadbury. Em 2014, Vinil abriu sua própria produtora, Breathless Films, que produz anúncios publicitários. 

           A empresa lançou campanhas para as marcas Lays, Voot e Club Mahindra, entre outras. Enquanto trabalhava em uma campanha de café para a Nescafé, Vinil conheceu Karan Johar, que produziu seu primeiro longa-metragem. O filme, intitulado Hasee Toh Phasee, foi lançado em 2014. Estrelado por Parineeti Chopra e Sidharth Malhotra, o longa-metragem narra a história de amor entre um empresário em dificuldades e uma cientista viciada em drogas. Vinil afirmou que sua experiência em publicidade o ajudou a dirigir o filme. David Chute, da revista Variety, resumiu que “este primeiro longa-metragem de Vinil Mathew, diretor de comerciais de TV estilosos, é simplesmente muito bem feito e muito agradável”. Uma crítica da Índia Today deu ao filme 3/5 estrelas, afirmando: “Hasee Toh Phasee é uma adição refrescante e muito necessária ao gênero de comédia romântica contemporânea”. O filme teve um desempenho comercial moderadamente bom, arrecadando ₹ 61,7 crore em todo o mundo contra um orçamento de ₹ 26 crore, tornando-se o oitavo filme hindi de maior bilheteria de 2014. Desejoso de trabalhar em um gênero diferente, Vinil se interessou pelo roteiro de Kanika Dhillon para Haseen Dillruba, um thriller romântico sobre um assassinato envolvendo uma mulher casada. Estrelado por Taapsee Pannu, o filme foi lançado na Netflix em 2021. O filme recebeu críticas mistas.  Ronak Kotecha, do The Times of India, deu 3,5 estrelas de 5 e o chamou de “uma história de amor deliciosamente sombria e desafiadora com uma reviravolta emocionante”. Stutee Ghosh, do The Quint, elogiou os “toques de direção de Vinil Mathew” e acrescentou que “a única maneira de Haseen Dillruba funcionar é se nos entregarmos inequivocamente ao seu universo pulp”.

Tornou-se o filme hindi mais assistido na Netflix em 2021, alcançando o top 10 em 22 países diferentes. O filme estreou em 2 de julho de 2021 na Netflix. Recebeu críticas mistas. Haseen Dilruba tornou-se o filme hindi mais assistido na Netflix naquele ano, alcançando o top 10 em 22 países. Um flashback revela o casamento “arranjado” entre os dois, no qual Rishu se apaixonou instantaneamente por Rani, enquanto ela se casou com ele porque seu namorado a havia abandonado. Após o casamento, persistem tensões e constrangimentos entre ela, Rishu e a família dele. Para piorar a situação, um “nervoso Rishu não consegue consumar o ato”. No dia seguinte, ele a ouve falando para a mãe e a tia sobre sua dificuldade no casamento em ter relações sexuais. Magoado, ele a ignora completamente e o relacionamento entre eles se deteriora. Seu primo, Neel Tripathi, bonito e charmoso, vem visitá-los, e Rani se sente atraída por ele. Os dois iniciam um caso apaixonado. Rani se apaixona e até aprende a cozinhar carneiro, apesar de ser vegetariana. Algum tempo depois, ela abre o jogo e diz a Neel que gostaria de se casar com ele. Mas, com medo do compromisso, Neel entra em pânico e foge. Magoada, Rani revela a verdade para Rishu. Ele passa a não gostar dela, mas ainda a protege daqueles que a criticam. Entretanto, do ponto de vista da investigação da polícia, ciente do histórico desenvolvido nas relações estabelecidas de confiança entre Rani e Rishu, está convencida de que ela e Neel planejaram e assassinaram friamente Rishu.

Eles usam polígrafos e vários métodos para descobrir seu motivo. Encontram imagens de Neel fugindo da casa momentos antes da explosão. Também flagram Rani trapaceando em um dos testes de polígrafo, manipulando sua pressão arterial. No passado, depois de Rani contar a Rishu a verdade sobre ela e Neel, Rishu se transforma em um sádico e deliberadamente agride fisicamente diversas vezes, além de tentar matar Neel, que o nocauteia quando ele tenta matá-lo. Apaixonada por Rishu, Rani suporta tudo como penitência. Com o tempo, porém, eles se reconciliam e se apaixonam de verdade, tornando-se íntimos. Ao narrar os eventos do dia da explosão, Rani conta à polícia que Neel foi visitá-la e discutiu com ela. Rishu, querendo resolver a situação, pediu a Rani que esperasse do lado de fora. A explosão ocorreu logo em seguida. A polícia sabe que ela está mentindo, mas não encontra nenhuma evidência de irregularidade em seu teste de polígrafo. Rani é absolvida e sai da delegacia com um sorriso de satisfação no rosto. É revelado que, quando Neel apareceu, tentou chantageá-los usando as fitas de sexo de Rani. Irritado com isso, Rishu o atacou e os dois entraram em luta corporal. Rani atingiu Neel na cabeça com uma perna de carneiro quando ele estava por cima e o estrangulando. Para não serem presos, eles simulam a cena do crime, com Rishu cortando a própria mão e colocando-a ao lado do corpo de Neel. Eles armam o fogão a gás para explodir e Rishu sai pela porta dos fundos, vestido como Neel. Rani sai e pega a perna de carneiro cortada, que depois dá para os cachorros comerem. A explosão acontece e encobre as evidências do assassinato. Cinco anos depois, o inspetor de polícia, ao sair da cidade, compra um exemplar de um livro de “suspense policial” sobre o qual Rani havia falado diversas vezes em seu depoimento. Ao ler o livro, ele percebe a verdadeira história, mas já não pode fazer nada a respeito. O final mostra o casal se reconciliando, Rishu sem a mão esquerda.

Bibliografia Geral Consultada.

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