“A verdade não é para ser encontrada, é para ser construída”. Richard Rorty (1931-2007)
A cultura, que caracteriza as
sociedades humanas, é organizada/organizadora via o veículo cognitivo da
linguagem, a partir, segundo Morin (1998), do “capital cognitivo coletivo” dos
conhecimentos adquiridos, das competências aprendidas, das experiências
vividas, da memória histórica, das crenças míticas de uma sociedade. E,
dispondo de seu capital cognitivo, a cultura institui as regras/normas que
organizam a sociedade e governam os comportamentos individuais. Estas regras
geram processos sociais e regenera globalmente a complexidade social adquirida
por essa mesma cultura. Assim, a cultura não deve ser compreendida pelas
metáforas estruturais, que são termos impróprios em uma organização recursiva
onde o que é produzido e gerado torna-se produtor e gerador daquilo que o
produz ou gera. Isso facto, cultura e sociedade estão em relação
geradora mútua; nessa relação, não podemos esquecer as interações entre
indivíduos, eles próprios portadores ou transmissores de cultura, que regeneram
a sociedade, a qual regenera a cultura. Daí a tese sociológica segundo a qual,
“se a cultura contém um saber coletivo acumulado em uma memória social, se é
portadora de princípios, modelos, esquemas de conhecimento, se gera uma visão
de mundo, se a linguagem e o mito são partes constitutivas da cultura, então a
cultura não comporta somente uma dimensão cognitiva: é uma máquina cognitiva
cuja práxis é cognitiva”. É neste saber cognitivo que uma cultura abre e fecha
as potencialidades bioantropológicas do conhecimento.
Ela as abre e atualiza
fornecendo aos indivíduos o seu saber acumulado, a sua linguagem, os seus
paradigmas, a sua lógica, os seus esquemas, os seus métodos de aprendizagem,
métodos de investigação, de verificação, etc., mas, ao mesmo tempo, ela as
fecha e inibe com as suas normas, regras, proibições, tabus, o seu etnocentrismo,
isto é, a sua autossacralização, a sua ignorância de ignorância. Ainda aqui, o
que abre o conhecimento é o que fecha o conhecimento. Desde o seu nascimento, o
ser humano conhece não só por si, para si, em função de si, mas, também pela
sua família, pela sua tribo, pela sua cultura, pela sua sociedade, para elas,
em função delas. Assim, o conhecimento de um indivíduo alimenta-se de memória
biológica e de memória cultural, associadas na própria memória, que obedece a
várias entidades de referência, diversamente presentes nela. Tudo o que é
linguagem, lógica, consciência, tudo o que é espírito e pensamento,
constitui-se na encruzilhada dialógica entre dois princípios de tradução, um
contínuo, o outro descontínuo (binário). As aptidões individuais organizadoras
da mente necessitam de condições socioculturais para se atualizarem, as quais
necessitam das aptidões do espírito humano para se organizarem individual e
socialmente. A cultura está nos espíritos, vive nos espíritos, os quais estão
na cultura, vivem na cultura. Meu espírito conhece através da minha cultura,
vivem na cultura.
Meu espírito conhece através da minha cultura, mas, em certo sentido, a minha cultura conhece através do meu espírito. Assim, portanto, as instâncias produtoras do conhecimento se coproduzem umas às outras; há uma unidade recursiva complexa estabelecida entre produtores e produtos do conhecimento, ao mesmo tempo em que há relação hologramática entre cada uma das instâncias, cada uma contendo as outras e, nesse sentido, cada uma contendo o todo enquanto todo. Falar em complexidade é falar em relação de interação simultaneamente complementar, concorrente, antagônica, recursiva e hologramática entre essas instâncias cogeradoras do reconhecimento humano. Mas não é apenas essa complexidade que permite compreender a possível autonomia relativa do espírito (faculdades intelectuais) e no sentido técnico do cérebro individual. Mas é assim mesmo que o espírito individual pode autonomizar-se em relação à sua determinação biológica. Recorrendo às suas fontes e recursos socioculturais. Em relação à determinação cultural utilizando sua aptidão bioantropológicas para organizar o conhecimento. O espírito individual pode alcançar a sua autonomia jogando com a dupla dependência que, ao mesmo tempo, o constrange, limita e alimenta.
Entre o bioantropológico
e o sociocultural, o ser individual e a sociedade residem a possibilidade de
autonomia do espírito inscrita no princípio de seu conhecimento. E isso em
nível de seu conhecimento cotidiano, proporcionalmente quanto em nível de
pensamento filosófico ou científico. A cultura fornece ao pensamento as suas
condições sociais e materiais de formação, de concepção, de conceptualização do
ponto de vista de sua dinamização. Impregna, modela e eventualmente governa os
conhecimentos individuais. A cultura e, pela via da cultura, a sociedade está
no interior do conhecimento. O conhecimento está na cultura e a cultura está na
representação do conhecimento. Um ato cognitivo é, ipso facto, um
elemento do complexo cultural coletivo que se atualiza em um ato cognitivo
individual. As nossas percepções ou mesmo concepções de vida e de trabalho estão
sob um controle, não apenas de constantes fisiológicas e também psicológicas,
mas níveis de variáveis culturais e históricas. A percepção é submetida a
categorizações, conceptualizações, taxinomias, que influenciarão o
reconhecimento e a identificação das cores, das formas, dos objetos como na
trilogia das cores do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski: Trois Couleurs:
Bleu (de 1993), Trois Couleurs: Blanc (de 1994) Trois Couleurs:
Rouge (de 1994). O conhecimento intelectual organiza-se em função de
paradigmas que selecionam, hierarquizam, rejeitam as ideias sociais e as
informações técnicas, bem como em função de significações mitológicas e de
projeções imaginárias. Assim opera a “construção social da realidade”, ou
antes, a “co-construção social da realidade”, visto que a realidade se constrói
a partir de dispositivos cerebrais, em que o real (imagem) se consubstancializa
e se dissocia do irreal (ficção), que constitui a visão de mundo, que se
concretiza em verdade, em erro, na mentira.
Para conceber a sociologia do conhecimento, é necessário, conceber não só o enraizamento do conhecimento na sociedade e a interação social do conhecimento na sociedade. Mas no anel recursivo que agencia a dinâmica entre sujeitos e objetos, no qual o conhecimento é produto/produtor sociocultural que comporta uma dimensão própria cognitiva. Os homens de uma cultura, pelo seu modo de conhecimento, produzem a cultura que produz seu reconhecimento. A cultura gera os conhecimentos que regeneram a cultura. Ao considerar-se a que ponto o conhecimento é produzido por uma cultura, dependente de uma cultura, integrado a uma cultura, pode-se ter a impressão de que nada seria capaz de libertá-lo. Mas isso seria, sobretudo, ignorar as potencialidades de autonomia relativa, no interior de todas aquelas culturas, dos espíritos individuais. Os indivíduos não são todos, e nem sempre, mesmo nas condições culturais mais fechadas, máquinas triviais obedecendo impecavelmente à ordem social e às injunções culturais. Isso seria ignorar que toda cultura está vitalmente aberta ao mundo exterior, de onde tiram conhecimentos objetivos e que conhecimentos e ideias migram entre as culturas.
Seria ignorar que aquisição de uma informação, a descoberta de um saber, a invenção de uma ideia, podem modificar e transformar uma sociedade, mudar o curso da história. Assim, o conhecimento está ligado, por todos os lados, à estrutura da cultura, à organização social, à práxis histórica. Sempre por toda parte, o conhecimento científico transita pelos espíritos individuais, que dispõem de autonomia potencial, a qual pode em certas condições sociais e políticas atualizarem-se e tornar-se um pensamento pessoal crítico. Sobre a aquisição do conhecimento pesa um formidável determinismo. Ele nos impõe o que se precisa conhecer, como se deve conhecer, o que não se pode conhecer. Comanda, proíbe, traça os rumos, estabelece os limites, ergue cercas de arame farpado e conduz-nos ao ponto onde devemos ir. E também que conjunto prodigioso de terminações sociais, culturais e históricas é necessário para o nascimento da menor ideia, da menor teoria. Não bastaria limitarmo-nos a essas determinações que pesam do exterior sobre o conhecimento. É necessário considerar, também, os determinismos intrínsecos ao conhecimento, que são, segundo Morin, muito mais implacáveis. Em primeiro lugar, princípios iniciais, comandam esquemas e modelos explicativos, os quais impõem uma weltanschauung, um conjunto ordenado de valores, crenças, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva, anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive e das coisas que governam/e controlam de modo imperativo e proibitivo a lógica dos discursos, pensamentos, teorias.
Ao organizar os paradigmas e modelos sociais explicativos associa-se o determinismo organizado dos sistemas de convicção e de crença que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu. É um triângulo sob a forma de campo. As doutrinas e ideologias dominantes dispõem também da força imperativa e coercitiva que leva a evidência aos convictos e o temor inibitório aos desalmados. Há, assim, sob o conformismo cognitivo, muito mais do que mero conformismo. Há um imprinting cultural, matriz que estrutura o conformismo, e há uma normalização que o impõe. O imprinting é um termo que Konrad Lorentz (1903-1989) propôs para dar conta da marca incontornável imposta pelas primeiras experiências do jovem animal, como o passarinho que, ao sair do ovo, segue como se fosse sua mãe, o primeiro ser vivo ao seu alcance. Há um imprinting cultural que marca os humanos, desde o nascimento, com o selo da cultura, primeiro familiar e depois escola, prosseguindo na universidade ou na profissão. Contrariamente à orgulhosa pretensão dos intelectuais e cientistas, o conformismo cognitivo não é de modo algum uma marca de subcultura que afeta principalmente as camadas subalternas da sociedade. Os subcultivados sofrem um imprinting e normalização atenuados e há mais opiniões pessoais “diante do balcão de café do que num coquetel literário”. Embora contrariados em contradição com seu desenvolvimento liberal intelectual que permite a expressão de desvios e de ideias e formas escandalosas, o imprinting e a normalização crescem em paralelo com a cultura.
O imprinting
cultural determina à desatenção seletiva, que nos faz desconsiderar tudo
aquilo que não concorde com as nossas crenças, e o recalque eliminatório, que
nos faz recusar toda informação inadequada às nossas convicções, ou toda
objeção vinda de fonte técnica considerada má. A normalização manifesta-se de
maneira repressiva ou intimidatória. Cala os que teriam a tentação de duvidar
ou de contestar. A normalização, portanto, com seus subaspectos de conformismo,
exerce uma prevenção contra o desvio e elimina-o, se ele se manifesta. Mantém,
impõe a norma do que é importante, válido, inadmissível, verdadeiro, errôneo,
imbecil, perverso. Indica os limites a não ultrapassar. As palavras a não
proferir. Os conceitos a desdenhar, as teorias a desprezar. O imprinting
assimila a perpetuação dos modos de conhecimento e verdades estabelecidas.
Obedece a processos de tribunais: uma cultura produz modos de conhecimento
entre os homens dessa cultura. Através do seu modo de conhecimento, reproduzem
a legitimidade que produz esse conhecimento. As crenças que se impõem são
fortalecidas pela fé que suscitaram. Se reproduzem não somente os
conhecimentos, mas as estruturas e os modos reguladores que determinam a
invariância desses conhecimentos. As ideias movem-se, mudam de lugar, ganham
força na história, apesar das formidáveis determinações internas e externas
globais. O conhecimento transforma-se, progride, regride. Crenças e teorias
renascem; outras, antigas, morrem. A primeira condição de uma dialógica
cultural é a pluralidade e diversidade de pontos de vista. Essa diversidade
cultural é potencial e está em toda parte. Toda sociedade comporta indivíduos
genética, intelectual, psicológica e bem diversos, apto a outros
pontos de vista cognitivamente variados.
São, justamente, essas
diversidades de pontos de vista culturais e políticos que inibem e a
normalização reprime. Do mesmo modo, as condições ou acontecimentos aptos a
enfraquecerem o imprinting e a normalização permitirão às diferenças
individuais exprimirem-se no domínio cognitivo. Essas condições aparecem nas
sociedades que permitem o encontro, a comunicação e o debate de ideias. A
dialógica cultural supõe o comércio, constituído de trocas múltiplas de
informações, ideias, opiniões, teorias; o comércio das ideias é tanto mais
estimulado quanto mais se realizar com ideias de outras culturas do passado. O
intercâmbio das ideias produz o enfraquecimento dos dogmatismos e
intolerâncias, o que resulta no seu próprio crescimento. Comporta a competição,
a concorrência, o antagonismo, o conflito social e político, e portanto, entre
ideias, concepções e visões de mundo. Quando a sociedade é demasiada complexa,
isto é, policultural, e um mesmo indivíduo experimentam várias inserções, seja
familiar, de casta ou clã, étnica, nacional, política, filosófica, religiosa, e
assim por diante, então, todo o conflito entre essas dependências e crenças
pode tornar-se fonte de debates, problemas, crises internas, o que segundo a
perspectiva de Morin, “instala a dialógica no seio do próprio espírito
individual”. Mas quando ideias contrárias se enfrentam no espírito de um mesmo
indivíduo, elas podem então: - seja se anular reciprocamente, dando lugar ao
ceticismo, ele mesmo fermento de atividade crítica e motos do debate de ideias;
seja, provocar uma double bind, contradição pessoal gerando na mente uma
crise espiritual, que estimula a autorreflexão e suscita eventualmente uma
busca de nova solução; - seja suscitar uma hibridização ou, melhor, uma síntese
criadora entre ideias contrárias.
O encontro de ideias
antagônicas cria uma zona de turbulência que abre uma brecha no determinismo.
Mas pode estimular, entre indivíduos na formação de grupos, interrogações,
dúvidas, reticências, buscas. Medalha de Bronze (The Bronze) tem
como representação social um filme norte-americano de 2015 do gênero
comédia-drama, dirigido por Bryan Buckley e escrito por Melissa Rauch e Winston
Rauch. É estrelado por Melissa Rauch, Gary Cole, Thomas
Middleditch, Sebastian Stan, Cecily Forte, Haley Lu Richardson e Dale Raoul. Teve a sua estreia mundial no
Festival de Cinema de Sundance em 22 de janeiro de 2015. O filme foi lançado
nos cinemas em 18 de março de 2016 pela Sony Pictures Classics. Bryan Buckley é
um cineasta, roteirista, produtor e diretor americano, indicado duas vezes ao
Oscar. A estreia de Buckley na direção aconteceu com uma série de comerciais
que ele criou para a NHL na ESPN, antes de criar a campanha “This is
SportsCenter” para a ESPN em 1999. O trabalho tornou-se parte da marca ESPN e
lançou Buckley no mundo da publicidade. Buckley dirigiria mais de 70 comerciais
do Super Bowl. Seu primeiro longa-metragem, The Bronze (2015), abriu o
Festival de Cinema de Sundance de 2015, enquanto seu segundo, The Pirates of
Somalia (2017), estreou no Festival de Tribeca em 2017. Dois de seus
curtas-metragens, Asad (2013) e Saria (2019), foram indicados ao
Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action, isto é, um termo
cinematográfico que define produções audiovisuais gravadas com atores e
cenários reais, em oposição a animações. Suas duas indicações na mesma década
marcam a vez que um diretor conseguiu retornar à categoria em mais de 30 anos.
O pai de Bryan Buckley,
um ex-reservista do Exército, trabalhou como diretor de arte em uma pequena
agência de publicidade regional e mais tarde tornou-se presidente da Escola de
Arte da Nova Inglaterra de Boston. Sua mãe trabalhava como executiva de
promoção de alto nível na loja de departamentos Jordan Marsh. Seus pais eram
ambos ativistas envolvidos nos movimentos contra a guerra e pelos direitos
civis da década de 1960. Em 1976, seus pais se separaram e ele retornou a
Massachusetts com sua mãe. Em seu último ano do ensino médio, Buckley foi
selecionado para o Instituto de Curta Duração na escola preparatória Phillips
Andover com uma bolsa integral de arte. Ele foi então admitido no programa de
design da Universidade de Syracuse; ele concluiu sua primeira aula em design
publicitário lá em 1985, mas nunca se matriculou em uma aula de cinema durante
seu tempo na faculdade. Após se formar em Syracuse, Buckley começou como
diretor de arte iniciante na Doyle Dane Bernbach. Em 1988, ele cofundou sua
própria agência, Buckley/DeCerchio, com seu colega da Chiat/Day, Tom DeCerchio.
Seu primeiro cliente foi a conta de 4 milhões de dólares da Godfather`s Pizza.
Buckley e DeCerchio então contrataram amigos e cineastas que trabalhariam por
baixo custo. Em poucos meses, Buckley e DeCerchio estavam na capa da Adweek.
No primeiro ano de
atividade, o trabalho que fizeram para a Godfather`s Pizza foi premiado com um
Lápis de Ouro no One Show, uma premiação merceológica de publicidade. A agência
viria a fechar contratos com clientes como a Yugo Cars e a Snapple, para quem
criaram o famoso slogan: “Feito com os melhores ingredientes da Terra”. Em
dezembro de 1993, Buckley e DeCerchio foram capa da seção de negócios do New
York Times. No dia seguinte, anunciaram o fechamento da agência. Em 1994,
Buckley e seu colaborador Frank Todaro receberam a oportunidade de dirigir
alguns comerciais não roteirizados e de baixíssimo orçamento para as
transmissões de hóquei da ESPN. Buckley nunca havia estado atrás das câmeras
antes, e o trabalho não era remunerado. Ao
longo de seus 25 anos de duração, a campanha contou com aparições de várias
estrelas do esporte, incluindo Kobe Bryant, Wayne Gretzky, David Ortiz, LeBron
James, Mike Tyson e Michael Phelps. O SportsCenter foi eleito a melhor campanha
comercial da década de 1990 pelo The One Club. Em 1997, Buckley cofundou
a Hungry Man Productions com Hank Perlman, criador do programa “This
is SportsCenter”, e Steve Orent, produtor de longa data. A empresa rapidamente adicionou
diretores ao seu elenco, como Jim Jenkins, David Shane, Bennett Miller e Stacy
Wall.
O primeiro grande
trabalho de Buckley veio em 1999 com seu primeiro comercial para o Super Bowl,
um anúncio para o Monster.com chamado “When I Grow Up”. No comercial de 30
segundos, crianças respondiam à pergunta “O que você quer ser quando crescer?”
com respostas como “Quero ser um puxa-saco” e “Quero ser forçado a me aposentar
cedo”. Inicialmente, o anúncio foi considerado uma decepção, já que os
telespectadores deram notas baixas ao comercial no USA Today Ad Meter,
uma pesquisa de opinião pública sobre os melhores e piores anúncios do Super
Bowl, que se tornou um padrão da indústria para medir a reação do público ao
projeto multimilionário. No entanto, o anúncio da Monster.com continuou a ser
exibido nos dias seguintes, enquanto a conversa sobre outros comerciais
diminuiu, e o site de empregos acabou saindo do ar devido ao aumento da
atividade do usuário. A Monster.com
relatou um aumento de 1 milhão de visitas ao site por mês durante o
restante do período de 1999. Em 2004, a empresa conquistou a Palma de Ouro do
Festival de Cannes como a melhor produtora de comerciais do mundo globalizado e
figurou entre as dez melhores por mais de dez anos consecutivos, sendo a
primeira produtora a alcançar tal feito. A Hungry Man possui escritórios em
Nova York, Los Angeles, Londres, Rio de Janeiro e São Paulo, e conta com
diretores como Taika Waititi, Wayne McClammy e Nanette Burstein.
A ex-medalhista de bronze de ginástica Hope Ann Greggory (Melissa Rauch) vive de seu status de celebridade em sua cidade natal, Amherst, Ohio, embora ela esteja reduzida a passar pelas entregas de correio do pai carteiro (Gary Cole) para buscar dinheiro. Quando sua ex-treinadora Pavleck (Christine Abrahamsen) tira a própria vida, chega uma carta endereçada a Hope afirmando que, se ela puder orientar a melhor aluna de Pavleck, uma jovem estrela de ginástica chamada Maggie Townsend (Haley Lu Richardson) para as Olimpíadas em Toronto, ela receberá uma herança de US$500.000. Não querendo ser ofuscada pelo sucesso de Maggie, Hope planeja aceitar o dinheiro, sabotando o treinamento de Maggie para que ela possa ficar por cima, inicialmente a alimentando sua junk food e um shake de maconha. Maggie tem um desempenho tão ruim que o arrogante medalhista olímpico de ouro Lance Tucker (Sebastian Stan), que se ressente da celebridade de Hope por causa de sua medalha de bronze inferior (que ela venceu apesar de uma lesão no final da carreira), ameaça assumir o cargo de treinador de Maggie. Quando Hope descobre que perderá o dinheiro da herança se não continuar treinando Maggie, Hope se dedica a contragosto ao treinamento de Maggie. Ao longo do caminho, ela inicia um romance com seu assistente técnico Ben Lawfort (Thomas Middleditch), apelidado de “Twitchy” devido a espasmos faciais involuntários.
Os esforços de Hope
acabam sendo recompensados quando Maggie se qualifica para os Jogos
Olímpicos. No entanto, ela fica chocada ao descobrir que a academia da
treinadora Pavleck corre o risco de fechar porque Pavleck não tinha dinheiro em
seu nome quando morreu. Ao ouvir a notícia, o pai de Hope confessa que foi ele
quem escreveu a carta, para motivar Hope a fazer algo significativo com a vida
dela. Depois de uma conversa acalorada, Hope fica bêbada e acaba transando com
Lance Tucker, levando um Ben de coração partido, que testemunhou o ato, a
romper o relacionamento. Maggie ganha a medalha de ouro e é comemorada como uma
heroína local em Amherst, mas anuncia sua intenção de começar a treinar com
Lance em Los Angeles, em vez de ficar com Hope. Quando Maggie não aparece para
dar autógrafos em um shopping center, Hope se dirige à multidão decepcionada e
declara que ela sempre será o herói de Amherst. Ela propõe um plano para
financiar a academia de Pavleck sozinha, vendendo uniformes e aulas de
ginástica para garotas locais. Ela então pede desculpas a Ben e o mantém como
seu assistente técnico. No epílogo, uma legenda revela que Maggie foi forçada a
abandonar sua carreira em ginástica após engravidar do filho de Lance. Hope
continua treinando ginástica, embora nenhuma de suas alunas tenha feito
distinção no esporte.
Escólio: Para que possamos melhor especificar a questão tópica as quais derivam os grupos sociais particularmente dedicados às ideias e ao conhecimento, isto é, a clericatura, denominam todas as coisas: pessoas, objetos, sensações, sentimentos e a intelligentsia, faremos uma distinção sobre a posição da classe intelectual e as duas culturas nas sociedades arcaicas, nas quais há, com frequência, uma extraordinária acumulação de savoir-faire e de conhecimentos sobre a vida vegetal e animal, os homens possuem por vezes um saber escondido ás mulheres, e essas, um saber desconhecido dos homens: os anciãos são, em geral, portadores da experiência e da sabedoria e há, entre os feiticeiros ou xamãs, um conhecimento visionário que é fonte, segundo Morin (1998), de terapias e de atos mágicos. São comuns ao conjunto da sociedade, por um lado, um rico pensamento cosmogônico e cosmológico, expresso sob a forma de mitos e, por outro lado, uma sabedoria de vida concentrada em máximas e provérbios. Nas sociedades teocráticas da Antiguidade, comparativamente, os saberes cosmológicos, mágico, mitológico e religioso foram concentrados nos mesmos espíritos, na casta de Sacerdotes/Magos. As verdades supremas, de caráter esotérico, não podiam ser divulgadas e o acesso exigia uma iniciação longa, mas na Idade Média ocidental a instrução é privilégio dos clérigos.
Que os rostos dos atores sociais
célebres sejam frequentemente reproduzidos pode parecer algo anódino. Na
verdade, trata-se de um fenômeno novo que traduzia o lugar que o teatro assumia
na vida urbana do século XVIII, que se inscrevia também em uma transformação
mais ampla da cultura visual. Com frequência imagina-se que a celebridade
moderna esteja ligada à reprodução maciça das imagens, caraterística do século
XX. As novas tecnologias de produção e de reprodução da figura humana, a partir
da fotografia, e sobretudo com o cinema e a televisão, teriam transformado a
história da celebridade, para fazer a visibilidade a forma dominante da
notoriedade. É incontestável que essas tecnologias tenham transformado de
maneira considerável o universo midiático, bom como nossa relação com a imagem.
Os retratos das estrelas estão, disponíveis profusamente, fixos ou móveis, em
close ou com teleobjetiva. No entanto, uma transformação da cultura visual já
acontecera ao longo do século XVIII, fundada em inovações técnicas, como a gravura
em couro a buril e a água-forte, que permitiam tiragens bastante importantes,
outrora inacessíveis para a gravura em madeira, e imagens mais fiéis. A mutação
era sobre social e cultural. Nos centros urbanos, os retratos eram cada
vez mais visíveis, nas formas de suporte – dos retratos pintados,
expostos nos salões da Academia, as figuras de porcelana se tornaram moda, passado pelas inúmeras gravuras vendidas nas bancas dos
comerciantes.
Mas a celebridade não
se reduz à visibilidade e à presença de imagens: ela se alimenta, na mesma
medida, de narrativas, de discursos, de textos, como demonstra o jornalismo de
fofoca. Também no âmbito do impresso, as mutações foram decisivas do século XVIII.
O público alfabetizado conheceu um crescimento, e a relação com o livro, com a
leitura, transformou-se largamente. Atividade erudita nos séculos precedentes,
a leitura muda doravante de estatuto, conforme demonstrado pelo sucesso dos
romances, dos impressos baratos, e, sobretudo, dos jornais, que se multiplicam,
a partir do século XVII, por toda a Europa. Os jornais literários e as gazetas
políticas, sobretudo, chamaram a atenção dos historiadores. Os primeiros
asseguram a comunicação intelectual entre meios eruditos, ao lado das
correspondências pessoais, que haviam estruturado, a primeira República das
Letras. Os segundos inauguraram uma nova era de informação política, que não
circula mais unicamente sob a forma de correspondências manuscritas ou rumores
orais, mas por meio de organismos de imprensa. Para os teóricos do espaço
público, foi por meios dos jornais, e nos lugares de sociabilidade reservados à
sua leitura coletiva e ao seu comentário, que o uso público da razão se forjou
no século das Luzes. Quando Kant, em O Que é o Iluminismo? descreve a Auflarklärung como um
processo de emancipação individual e coletivo permitido pelo uso que cada um
faz da razão “diante do público que lê” (cf. Lilti, 2018), refere-se aos
leitores de jornais.
E foi, em um deles,
nomeadamente Berlinische Monatsshcrift, que esse texto famoso apareceu
em 1784, no quadro de um debate sobre as questões do casamento religioso.
Alguns anos mais tarde, Friedrich Hegel poderá chegar a escrever que a leitura
do jornal da manhã tornou-se “a prece do homem moderno”. Entretanto, ao lado
dos homens eruditos e políticos que relatam as notícias diplomáticas e
políticas, recenseiam as novidades científicas e literárias ou acolhem debates
intelectuais, existem, no século XVIII, outros jornais, cada vez mais
numerosos, muitos deles mais interessados na atualidade da alta sociedade e na
cultural, no sentido amplo. Eles oferecem a seus leitores as notícias dos
espetáculos e dos lançamentos literários, dos principais acontecimentos
literários e políticos, mas também os faits divers mais notórios e, cada
vez mais, anedotas sobre a vida, pública e privada, das pessoas célebres. Por
mais que esses periódicos tenham chamado menos a atenção dos historiadores,
eles contribuíram de maneira decisiva para moldar a consciência das camadas médias
urbanas de que elas constituíram um público. A atualidade era alimentada tanto
por faits divers e escândalos quanto por tratados e batalhas. O conjunto
dessas transformações marca a entrada em uma nova Era Midiática, que,
espirituosamente, um historiador propôs chamar de Print 2.0, para indicar que
se trata de uma guinada na história do impresso, de seus usos e de seus
efeitos.
A comunicação
mediatizada, que difunde textos e imagens para um público indefinido,
potencialmente ilimitado, torna-se uma condição ordinária da comunicação e
concorre com as formas tradicionais fundadas na oralidade, na co-presença e na
reciprocidade. As próprias condições da celebridade são profundamente
transformadas por ela: as cadeias da reputação estendem-se, e ser confrontado
com o nome ou a imagem de pessoas que jamais se encontrará em carne e osso
torna-se cada vez mais frequente. A notoriedade de alguns indivíduos muito
conhecidos emancipa-se dos círculos tradicionais em que circulava o
reconhecimento (a corte, os salões, os espectadores de teatro, as academias e
as redes eruditas) e, projeta no espaço público um conjunto de representações –
de discursos e de imagens – destinadas a um público indefinido e anônimo de
leitores e de consumidores, de curiosos e de admiradores. Essa circulação
potencialmente ilimitada e incontrolável de representações os constitui como
figuras públicas. Mas a questão é: onde se viam retratos de pessoas vivas,
antes do século XVIII? Nas moedas em que figurava o rosto do soberano; nos
palácios, em que os cortesãos podiam admirar os retratos do rei; nos palacetes
aristocráticos em que os donos da casa se faziam voluntariamente retratar ao
lado a galeria de seus ancestrais.
Tratava-se, antes de
tudo, de uma representação extraordinárias das relações de poder, político ou
social. O retrato do rei era, um simulacro do poder, e que tinha uma eficácia
própria para representar o poder e de ser, de algum modo, o próprio poder, em
sua força e em seu prestígio, o mesmo podendo ser dito da força sociopolítica
que “emanava” dos retratos aristocráticos. Seria possível objetar que havia, no
século XVII, retratos de alguns escritores, como Corneille ou Molière.
Inversamente, pode-se lembrar que não existe nenhum retrato, em vida, de
Rabelais. O reinado de Luís XIV já marcara uma clara ascensão do retrato, com a
criação da Academia de pintura e de escultura, na qual os retratistas eram
admitidos, e o sucesso de Pierre Mignard e, depois, de Hyacinthe Rigaud. No
entanto, os retratos permaneceriam essencialmente ligados ao universo da corte
e da alta nobreza, na qual tinham uma função política e sentimental.
Dificilmente deixava-se que fossem copiados. Até o início do século XVIII, a
existência de retratos sinalizava o acesso de raras figuras culturais a um
estatuto social excepcional, sobretudo no quadro de instituições a
acadêmicas. Eles circulavam unicamente em espaços restritos, que todavia,
estavam quase sempre integrados nas relações sociais frequentemente em uma
relação interpessoal. Possuir o retrato de alguém era uma honra calcada na
dignidade do modelo, mas também na exibição de um laço direto, familiar ou de
amizade.
Quando Samuel Sorbière,
que admirava Thomas Hobbes e muito contribuiu para a difusão de sua obra na
Europa, quis obter seu retrato, teve que lhe pedir autorização pessoalmente
para mandar copiar um retrato já existente, que pertencia a Thomas de Martel: “Peço-lhe
do modo mais sério do mundo, certo de que examinareis com benevolência meu
pedido e desconsiderará obrigatoriamente minha ousadia”. Em 1658, escreve-lhe
que seu maior prazer é poder falar dele e de sua obra com seus amigos e
contemplar “o retrato na minha coleção”. O retrato substitui o amigo ausente,
inscreve-se em um regime de familiaridade, de afeição e de admiração. Sua
presença honra Sorbière, pois demonstra que ele mantém laços diretos de amizade
com o modelo. Em 1661, Hobbes aceita posar no ateliê de Samuel Cooper para seu
grande amigo John Aubrey, afim de agradecer-lhe por tê-lo permitido cair nas
graças de Charles II. A clericatura
significa na origem o Estado eclesiástico, mas, já no século XV, o clérigo
tornou-se a pessoa instruída, o letrado, o sábio e, embora dentro da Igreja,
ele se diferencia do padre. Depois, a maior parte do saber moderno escapou à clericatura
da Igreja e o termo clérico laicizou-se e profissionalizou-se. À antiga clericatura,
sucedeu a intelligentsia, aos clérigos, sucederam os intelectuais. O termo vem-nos da Rússia do século XIX e designa o conjunto de pessoas
instruídas, cultivadas, por oposição à massa rural ou urbana que não teve
acesso à escola, ou mesmo à escrita.
Mais intensivo que o termo “intelectual”, da teoria geral do italiano Antônio Gramsci especifica as duas esferas de ação social, de divisão do trabalho intelectual na luta política de organização da cultura entre letrado (abstrato) das frações da classe dominante e orgânico (concreto) da classe subalterna, para a análise de Edgar Morin, a intelligentsia engloba não apenas letrados e professores, mas, também, funcionários e burgueses educados, abrangendo, assim, um grande número de categorias sociais. Ela compreende as profissões que produzem ou reproduzem saber (professores, pesquisadores), ideias (filósofos), formas (artistas, arquitetos, designers), ou ainda, cuja qualidade do trabalho profissional depende do manejo das ideias (advogados), do saber (experts) ou da concepção (engenheiros). Edgar Morin define a intelligentsia em função do caráter intelectual/espiritual dos produtos da atividade social de seus membros (saber, ideias, coisas do espírito) e não pela atividade intelectual/espiritual em si mesma, de que são desprovidos muitos membros da intelligentsia, como práticas manuais, como o artesanato, a caça, a pesca, que demandam inteligência constantemente desperta, de que muitos são desprovidos.
Isto quer dizer o seguinte: que em seu processo social de desenvolvimento a intelligentsia contemporânea engloba categorias muito diferentes. Ela avoluma-se e diversifica-se com o desenvolvimento, em paralelo à intelligentsia humanista, de uma intelligentsia científica e de uma intelligentsia tecnicista. Mais do que isso, os intelectuais são membros da intelligentsia, mas os membros da intelligentsia não são necessariamente intelectuais. Escritores, artistas, advogados, pesquisadores não são, enquanto tais, “intelectuais”. Para que se tornem intelectuais é necessário que, a partir, mas para além da sua arte e da sua ciência, auto-instituam-se como tais, isto é, autorizem-se a tratar dos problemas gerais/fundamentais de importância moralmente, socialmente, politicamente; assumam-se assim general problems setters/solvers. A noção de intelectual explicativa não pode reduzir-se a uma categoria socioprofissional; ao contrário, ela perpassa as categorias: muitos escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados consideram-se e são considerados exclusivamente como escritores, artistas, universitários, cientistas, advogados; outros, consideram-se e são considerados como intelectuais porque intervêm na vida pública, seja pelo ensaio, pelo artigo de jornal, seja em função de uma tribuna política. Roland Barthes, escritor, crítico literário e filósofo dizia que o escritor (écrivain) escreve para escrever, e que o escritor-intelectual (écrivant) escreve para exprimir propriamente ideias. Os que são écrivains e écrivants são ao mesmo tempo, filósofos, escritores e ensaístas, talvez possam ser considerados os mais representativos dos intelectuais, visto que a atividade social e política de intelectuais em geral, ignoram as categorias especializadas e tratam os problemas ignorados pelas categorias sociais especializadas.
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