domingo, 10 de maio de 2026

Casbá dos Udaias – Cultura, Origem das Ruas & Significado do Bairro.

                                                                 O memorável é o que pode ser sonhado de um lugar”. Michel de Certeau                                

            

        Tribo tem como representação social um tipo de agrupamento humano unido pela língua, costumes, instituições e tradições. O termo era, originalmente, empregado para designar cada uma das trinta divisões da Roma Antiga formadas por cidadãos plebeus. Passou a ser aplicado, posteriormente, aos ramos dos povos da Antiguidade, como as doze Tribos de Israel, o conjunto de unidades tribais patriarcais ou clãs familiares do antigo povo de Israel, que de acordo com a tradição judaico-cristã, originaram-se dos doze filhos de Jacó, neto de Abraão. O sentido de tribo na Torá representa o conjunto de livros fundamentais da fé israelita, refere-se ao clã familiar, uma forma de organização que vigorou e vigora, sobretudo na Europa Ocidental - não referindo-se ao sentido comum de tribo dos povos primitivos ou pré-modernos, como as antigas tribos ameríndias - embora a religião dos hebreus tenha origem no Sudoeste asiático, por exemplo. Nas épocas colonialista e neocolonialista, foi utilizado por antropólogos. Por estar cercado por uma carga de etnocentrismo, sendo considerada uma organização “primitiva, de povos subdesenvolvidos historicamente, o mesmo deixou de ser no domínio da antropologia. Os romanos tinham a ligação familiar baseada na agnação, ou parentesco de consanguinidade por linha masculina, segundo a qual o parentesco dava-se pela adoração aos mesmos deuses lares, formando a base da gens. A adoração de um deus comum a mais de uma família recebeu, na Grécia Antiga, o nome de fratria e, na Roma Antiga, de cúria.

            O livro de Gênesis conta da descendência do patriarca Jacó, mais tarde batizado por Deus com o nome Israel, e de suas duas mulheres (Lia e Raquel) e duas concubinas (Bila e Zilpa). Jacó teve ao todo doze filhos e uma filha (Diná), cujos nomes estão acima citados. Neste momento da narrativa, o cronista bíblico concentra-se no relato da história de José, sobre como ele foi vendido pelos seus irmãos, como obteve importância política no Egito, e de como voltou a reunir sua família. A narração conta também que os treze filhos de Jacó e suas famílias e criados obtiveram permissão para habitar a fértil região oriental do Delta do Nilo, onde teriam se multiplicado grandemente. Cada uma das doze famílias teria mantido uma individualidade cultural, de forma que se identificassem entre si como tribos separadas. A narrativa ainda destaca que José teve dois filhos, Manassés e Efraim, e seus descendentes seriam elevados ao status de tribos independentes. Contudo, a Bíblia refere-se à tribo de Manassés como "meia tribo". Ocorre que na conquista das terras a tribo de Manassés ficou dividida, parte dela ocupou o oriente do rio Jordão, sendo assim, foi chamada de Manassés Oriental e a outra parte ocupou o ocidente do rio. Pela leitura de Josué 13.14-33, pode-se concluir que a meia tribo de Manassés a receber sua herdade foi a oriental, em seguida, no texto de Josué 17.1-18, a ocidental. 

         Todavia, apesar da referência de meia tribo e sua divisão geográfica, a tribo era uma só. Em Josué 17.17 pode-se ler claramente o motivo, tratava-se de uma tribo numerosa, e, portanto, carecia de um espaço maior para habitar. Com isso encerra-se um número fixo de doze tribos. Ao final de Gênesis, Jacó, em sua velhice, abençoa a cada um de seus filhos, prenunciando o destino que aguardava os seus descendentes no futuro. Em Êxodo, a Bíblia conta como Moisés, membro da tribo de Levi, e seu irmão Aarão, lideraram os hebreus das doze tribos em sua fuga do Egito. Durante a narrativa, as tribos são contadas, e seus líderes e representantes são nomeados, demonstrando um forte senso de individualidade entre as tribos e as meio-tribos de José. À tribo de Levi são designadas por Deus a todas as tarefas sacerdotais e os direitos e deveres diferenciados, inclusive seria a única tribo que poderia carregar a arca da aliança. As demais mantiveram-se com os mesmos direitos e obrigações, embora, através do número de membros, algumas tribos já pudessem gozar de alguma superioridade política. Para os Judeus, não há dúvidas da veracidade do relato bíblico e, há pouco o que se discutir sobre a origem das Tribos de Israel fora do contexto bíblico. No entanto, arqueólogos, historiadores e estudiosos da Bíblia argumentam sobre a origem das tribos.                                   

Há teorias que sugerem que apenas algumas das tribos teriam realmente saído do Egito e se fixado por alguns anos no entorno de Canaã, onde teriam encontrado outras tribos de origem hebraica autóctones da região. Sua afinidade linguística e racial, em contraste com as diferenças encontradas nos vizinhos cananeus teria encorajado as tribos a agirem em regime de coexistência e, em algumas vezes, de cooperação, o que teria favorecido a conquista de Canaã (uma miríade de cidades-Estado e pequenos reinos independentes) pelos hebreus. Neste caso, as tribos do Êxodo teriam sido aquelas de maior destaque na narrativa bíblica, ou seja, Judá, Levi, Simeão, Benjamim, e as meias-tribos de Efraim e Manassés, o que enfraqueceria toda a base histórica da narrativa do Êxodo. Já os arqueólogos notam que não há vestígios concretos da passagem de um povo, estimado em mais de 600 mil pessoas, por quarenta anos pelo deserto entre o Egito e a Terra de Israel. Assim, a narrativa de Gênesis e Êxodo não tem uma base histórica, embora alguns pontos pudessem ter sido moldados para justificar com raízes familiares a união das doze tribos. Cada cúria possuía seu chefe, chamado curião, cuja função principal era a de presidir aos rituais religiosos. A reunião de várias cúrias formava a tribo. À tribo, cabia um altar comum, dedicado a um deus originado, assim como nas famílias e cúrias, de algum herói do lugar, tornado divino, e do qual a tribo retirava seu nome. 

O ritual comum em que toda a tribo tomava parte tinha seu ponto alto num banquete; seu chefe se tornava, então, o tribuno. Por sua origem e uso na filosofia colonialista para designar agrupamentos humanos nos diversos territórios conquistados pelos europeus, o termo ganhou alguma oposição no meio científico, sendo considerado impreciso e que não atende às divisões peculiares dos povos que pretendia reunir. Alguns dos autores que o aboliram argumentam que se trata de “ficção etnográfica e acadêmica”. Os críticos alegam que estes conceitos de tribo, bem como os de tribalismo, etnicidade, clã e linhagem, trazem forte vício colonialista e neocolonialista, com o apoio da antropologia que, então, servia aos interesses europeus, sugerindo que devem ser evitados por alegadamente trazerem inerentes divisões que visam antes ao domínio político do que propriamente à compreensão das realidades que procuram retratar. Como exemplo deste mau uso, citam-se os meios de comunicação de massa, que costumam retratar problemas africanos como decorrentes de conflitos tribais, ocultando, assim, as suas reais causas econômicas, políticas e sociais. Roberto Cardoso de Oliveira ressalta que conceitos como tribo e etnia surgem na ótica europeia para definir as sociedades asiáticas, ameríndias e africanas, dotando-os de um rótulo comum que lhes retira suas especificidades históricas.

A casbá recebe o nome da tribo Udaya. Este nome só passou a ser associado à casbá no século XIX, depois da tribo ter sido expulsa permanentemente de Fez. Eles estão situados em torno de Fez e Meknes, Marraquexe e em Rabat. Eles foram recrutados por Ismail Ibn Sharif como uma das tribos guich que formavam um componente integral do exército marroquino pré-colonial. Os Mghafra ou os Banu Maghfar, uma subtribo dos Oudaya, fundaram vários emirados na Mauritânia, por exemplo o Emirado de Trarza, como resultado da Guerra Char Bouba, também reconhecida como Guerra dos Trinta Anos da Mauritânia ou Guerra dos Marabutos, ocorreu entre 1644 e 1674 nas áreas tribais do que é a Mauritânia e o Saara Ocidental, bem como no vale do rio Senegal. Casbá é mais popular nos seguintes países: Algérie, France, Espanha, Reino Unido. De acordo com os autores históricos Leo Africanus e Marmol Carvajal, os Oudaya vieram do ramo Banu Hassan dos Ma`qil. Leo Africanus estima que os Oudaya somavam mais de 60.000 e os situa entre Ouadane e Oualata. Segundo o historiador do século XIX, an-Nasiri, Moulay Ismail (1672–1727), encontrou os Oudaya através de um pastor pobre, Bou-Chefra. Ele soube que seu povo estava fugindo da fome e decidiu recrutá-los.  

Ele disse a Bou-Chefra: Vocês são minhas tias maternas e já ouviram falar de mim, mas ainda não vieram me visitar. Agora, vocês são minhas companheiras. Vão, levem suas ovelhas de volta para a tenda e voltem para me ver em Marrakech! As tribos guich eram tribos tipicamente de origem árabe que serviam como parte do exército marroquino pré-colonial sob a dinastia Alauíta. Os Oudaya eram uma das principais tribos guich que serviram sob o comando dos Alauítas. Eles ascenderam à proeminência sob Moulay Ismail, que visava reorganizar o exército institucionalizando o sistema guich e criar um novo governo central forte como resultado de uma série de reveses militares que sofreu, como a desastrosa campanha contra a Regência Otomana da Argélia. Isso culminou na criação do 'Abid al-Bukhari, uma guarda de elite composta por escravos negros do Marrocos e da África Subsaariana, bem como na criação do Guich Oudaya. Em 1678, ele se casou com Khanatha bint Bakkar (1668–1754), filha de Shaykh Bakkar, um importante líder e xeique tribal dos Oudaya. Este casamento confirmou uma aliança entre os Makhzen e os Oudaya e,desta aliança, os Oudaya forneceram ao sultão um grande e poderoso guich. Ele estacionou essas tropas dos Oudaya fora das muralhas da cidade de Fez. 

Ismail chamou os Oudaya de tribo de seus tios maternos para formar um parentesco fictício ou real entre ele e a tribo, já que sua mãe, Mubarka bint Yark al-Maghfiri, nasceu como membro ou escrava negra dos Mghafra uma divisão dos Oudaya. Casbá é o nome dado às cidadelas cercadas por muros ou muralhas existente em diversas cidades do Norte da África. Cidadela é qualquer tipo de fortaleza ou fortificação construída em ponto estratégico de uma cidade, visando sua proteção. A cidadela pode, por vezes, incorporar parcial ou totalmente um castelo existente nesta cidade. A palavra cidadela vem de Civitas, uma das palavras em latim para a origem da cidade. E alguns dos primeiros exemplos históricos indicam que eram construídas originalmente de maneira a proteger uma guarnição ou poder político dos próprios habitantes da cidade que ela defendia, projetados para assegurar a lealdade dos cidadãos que defendiam. As cidadelas mais antigas foram construídas pela civilização do vale do Indo, onde a cidadela representava uma autoridade centralizada. A civilização do Indo era contemporânea das demais civilizações ribeirinhas do mundo antigo: o Egito ao longo do Nilo, Mesopotâmia nas terras regadas pelo Eufrates e Tigre e a China na bacia de drenagem do rio Amarelo, o segundo mais longo rio da China e o 6º maior no processo de globalização, medindo 5.464 km, e tem uma bacia de 752.000 km². 

É de grande importância para a economia chinesa, pois o seu vale tem terras férteis, bons pastos e importantes jazidas minerais.  Foi ao longo desse rio que a civilização chinesa começou. Seu nome deve-se à grande quantidade de materiais em suspensão que arrastam suas turbulentas águas de formação do lodo e partículas de areia muito finas, que lhe tingem de dourado. Na época de sua fase madura, a civilização havia se espalhado por uma área maior do que as outras mencionadas, o que incluía um núcleo de 1.500 km acima do plano aluvial do Indo e de seus afluentes. Além disso, havia uma região com flora, fauna e habitats díspares, até dez vezes maiores, que haviam sido moldados cultural e economicamente pelo Indo. Há alguma controvérsia, no entanto, sobre o real propósito destas cidadelas; embora elas possuíssem muros, ainda não se tem certeza sobre o propósito defensivo destes muros, ou se eram simplesmente uma maneira de desviar água de enchentes e inundações causadas pelas cheias do Indo. Na Grécia Antiga a cidadela, que era chamada de acrópole, cidade alta, em grego, era uma presença eminente constante na vida do povo da cidade, servindo como refúgio e fortaleza em situações de perigo, armazém de mantimentos militares e alimentícios, santuário de deuses e palácio real. Na Idade Média era a última linha de defesa de exército sitiado, defendida mesmo depois que já havia sido conquistada, e oferecia abrigo às pessoas que moravam nas áreas rurais em volta das cidades.

A agricultura surgiu no Baluchistão, nas margens de aluvião do Indo. Nos milênios seguintes, incursões nas planícies do Indo preparam o terreno para o crescimento de assentamentos humanos rurais e urbanos. A vida sedentária mais organizada, por sua vez, levou a um aumento líquido na taxa de natalidade. Os centros urbanos de Moenjodaro e Harapa muito provavelmente chegaram a ter entre 30 mil e 60 mil habitantes e, durante o florescimento da civilização, a população do subcontinente cresceu para algo entre 4 e 6 milhões de pessoas. Durante esse período, a taxa de mortalidade também aumentou, pois as condições de existência próximas de humanos e animais domesticados levaram a um aumento de doenças contagiosas. Segundo uma estimativa, a população da civilização do Indo demográfico pode ter sido entre um e cinco milhões de pessoas. A Civilização do Vale do Indo se estendeu do Baluchistão do Paquistão, a Oeste, a Utar Pradexe no Oeste da Índia, a Leste, do Nordeste do Afeganistão, no Norte, ao estado de Guzerate, no Sul da Índia. O maior número de locais harapeanos está nos estados de Guzerate, Hariana, Punjabe, Rajastão, Utar Pradexe, Jamu e Caxemira na Índia, e nas províncias de Sinde, Punjabe e Baluchistão no Paquistão. Os assentamentos costeiros se estenderam de Sutkagan Dor no Baluchistão Ocidental a Lotal em Guzerate. Uma cidade do Vale do Indo foi encontrada no rio Oxo em Xortugai no Norte do Afeganistão, no vale do rio Gomal no Noroeste do Paquistão, em Manda, Jamu no rio Beas perto de Jamu, Índia, e em Alamgirpur, no rio Hindon, apenas 28 km de Deli. O local ao Sul é Daimabad, em Maharashtra. Os sítios arqueológicos harapeanos são encontrados com mais frequência nos rios, mas também no litoral antigo, Balakot, e nas ilhas, por exemplo, Dolavira.

Uma cultura urbana sofisticada e tecnologicamente avançada é evidente na Civilização do Vale do Indo (CVI), que criou os primeiros centros urbanos da região. A qualidade do planejamento das cidades sugere conhecimento sobre planejamento urbano e governos regionais eficientes, que priorizam a higiene ou, alternativamente, a acessibilidade aos meios de ritual religioso. Como visto em Harapa, Moenjodaro e Raquigari, recentemente escavada, esse plano urbano incluía os primeiros sistemas de saneamento reconhecidos, como demonstram evidências da engenharia hidráulica da civilização. Dentro da cidade, casas individuais ou grupos de casas obtinham água de poços. De uma sala que parece ter sido reservada para o banho, as águas residuais eram direcionadas para esgotos cobertos, que ladeavam as principais ruas. As casas abriam apenas para pátios internos e faixas menores. A construção de casas em algumas aldeias da região ainda se assemelha em alguns aspectos à construção de casas dos harapeanos. Os antigos sistemas de esgoto e drenagem, desenvolvidos e usados em cidades de toda a região do Indo, eram muito mais avançados do que os encontrados em locais urbanos contemporâneos no Oriente Médio e ainda mais eficientes do que os encontrados em muitas áreas do Paquistão e da Índia atualmente. A arquitetura avançada dos harapeanos é demonstrada por seus impressionantes estaleiros, celeiros, armazéns, plataformas de tijolos e paredes de proteção. As enormes muralhas das cidades do Indo provavelmente protegeram os harapeanos das inundações e podem ter dissuadido os conflitos militares. O objetivo da cidadela permanece em debate. 

      

Em nítido contraste com os contemporâneos desta civilização, a Mesopotâmia e o Egito antigo, nenhuma grande estrutura monumental foi construída. Não há evidências conclusivas de palácios ou templos - ou de reis, exércitos ou sacerdotes. Pensa-se que algumas estruturas sejam celeiros. Encontrado em uma cidade há um enorme banho bem construído (o “Grande Banho”), que pode ter sido um banho público. Embora as cidadelas fossem muradas, não está claro se essas estruturas eram defensivas. A maioria dos habitantes da cidade parece ter sido composta por comerciantes ou artesãos, que moravam com outros que tinham a mesma ocupação em bairros bem definidos. Materiais de regiões distantes eram utilizados nas cidades para a construção de selos e outros objetos. Entre os artefatos descobertos estavam belas contas de faiança envidraçadas. 

Os selos de esteatita têm imagens de animais, pessoas e outros tipos de inscrições, incluindo um sistema de escrita ainda não decifrado. Alguns selos foram usados para estampar argila em mercadorias comerciais. Embora algumas casas fossem maiores que outras, as cidades da CVI eram notáveis por seu aparente e relativo igualitarismo. Todas as casas tinham acesso a instalações de água e drenagem. Isso dá a impressão de uma sociedade com uma concentração de riqueza relativamente baixa, embora um claro nível social seja visto em adornos pessoais. As pessoas da Civilização do Vale do Indo alcançaram grande precisão na medição de comprimento, massa e tempo. Eles foram os primeiros a desenvolver um sistema de pesos e medidas uniformes. Os engenheiros harapeanos seguiam a divisão decimal da medida para todos os fins práticos, incluindo a medida da massa conforme revelada por seus pesos hexaedros, um poliedro com 6 faces. Cubos e pirâmide são exemplos de poliedros. Diz-se que o poliedro é convexo se sua superfície, compreendendo suas faces, arestas e vértices, não se intercepta e o segmento de linha que une quaisquer dois pontos abstratos do poliedro está contido no interior ou visivelmente na superfície. Um poliedro é um exemplo tridimensional do politopo mais geral em qualquer número de dimensões. Esses pesos de cherte estavam dispostos com cada unidade pesando aproximadamente 28 gramas, semelhante à onça imperial inglesa, sendo que objetos menores eram pesados em proporções semelhantes com as unidades de 0,871. Desde a Antiguidade, a proporção áurea é usada na arte. É frequente a sua utilização em pinturas renascentistas, como as do mestre Giotto. Este número está envolvido com a natureza do crescimento.

Justamente por ser encontrado em estudos de crescimento, o número de ouro ganhou um status de ideal, sendo alvo de pesquisadores, artistas e escritores. O fato de ser apoiado pela matemática é que o torna fascinante. No entanto, como em outras culturas, os pesos reais não eram uniformes em toda a área. Os pesos e medidas utilizados posteriormente em Artaxastra e Cautília são os mesmos que os usados em Lotal. Uma pedra de toque contendo faixas de ouro foi encontrada em Banawali, um sítio arqueológico pertencente ao período da Civilização do Vale do Indo, localizado no distrito de Fatehabad, Haryana, Índia, a cerca de 120 km a Nordeste de Kalibangan e a 16 km de Fatehabad. Banawali, anteriormente chamada de Vanavali, situa-se na margem esquerda do leito seco do rio Sarasvati e provavelmente foi usada comercialmente para testar a pureza do ouro, pois essa técnica ainda é usada em algumas partes da Índia. O sistema de religião e crenças do povo do Vale do Indo recebeu considerável atenção, especialmente da visão de identificar precursores de divindades e práticas religiosas de religiões indianas que mais tarde se desenvolveram na área. No entanto, devido à escassez de evidências, que está aberta a interpretações variadas e ao fato social da escrita harapeana permanecer indecifrada, as conclusões são parcialmente especulativas e amplamente baseadas em uma visão retrospectiva ocidental de uma perspectiva hindu muito posterior.

Um trabalho influente na área que estabeleceu a tendência para interpretações hindus de evidências arqueológicas dos sítios arqueológicos harapeanos foi de John Marshall (1755-1835), que em 1931 identificou o seguinte como características proeminentes da religião indo: um Grande Deus Masculino e uma deusa mãe; deificação ou veneração de animais e plantas; representação simbólica do falo (linga) e da vulva (yoni); e, uso de banhos e água na prática religiosa. As interpretações de Marshall foram muito debatidas e, às vezes, disputadas nas décadas seguintes. Um selo do Vale do Indo mostra uma figura sentada com um toucado com chifres, possivelmente tricefálico e possivelmente fálico, cercado por animais. Marshall identificou a figura como uma forma primitiva do deus hindu Shiva (ou Rudra), associado ao ascetismo, ioga e linga; considerado como um senhor de animais e frequentemente descrito como tendo três olhos. O selo passou a ser conhecido como o Selo Pashupati, por conta de Pashupati (senhor de todos os animais), um epíteto de Shiva. Embora o trabalho de Marshall tenha recebido algum apoio, muitos críticos e até apoiadores levantaram várias objeções. Doris Meth Srinivasan, uma indologista alemã, argumentou que a figura não tem três faces, ou postura de ioga e que na literatura védica Rudra não era um protetor de animais selvagens.

Herbert Sullivan e Alf Hiltebeitel também rejeitaram as conclusões de Marshall, com o primeiro alegando que a figura era feminina, enquanto o último associou a figura com Mahisha, o Deus Buffalo e os animais ao redor com vahanas (veículos) de divindades para as quatro direções cardeais. Escrevendo em 2002, Gregory L. Possehl concluiu que, embora seja apropriado reconhecer a figura como uma divindade, sua associação com o búfalo de água e sua postura como disciplina ritual, considerando-a como um proto-Shiva estaria indo longe demais. Apesar das críticas à associação de Marshall ao selo com um ícone proto-Shiva, ele foi interpretado como o tirthankara Rishabhanatha por jainistas e Vilas Sangave ou um antigo Buda pelos budistas. Historiadores como Heinrich Zimmer e Thomas McEvilley acreditam que há uma conexão entre Rishabhanatha e a civilização do Vale do Indo. Ele foi o primeiro dos vinte e quatro mestres no ciclo de tempo na cosmologia Jain e chamado de “construtor de vau” porque seus ensinamentos ajudaram a atravessar o mar de renascimentos e mortes intermináveis. Marshall hipotetizou a existência de um culto à adoração à Deusa Mãe, com base na escavação de várias figuras femininas e achou que isso fosse um precursor da seita hindu do shaktismo. No entanto, a função feminina na vida do povo do vale do Indo permanece incerta e Possehl não considera que as evidências da hipótese de Marshall sejam “terrivelmente robustas”.

Alguns dos bétilos interpretados por Marshall como representações fálicas sagradas agora são considerados pilões ou balcões de caça. Enquanto que as pedras de anel que foram pensadas para simbolizar yoni foram determinadas como características arquitetônicas usadas para sustentar pilares, embora a possibilidade de seu simbolismo religioso não possa ser eliminada. Muitos selos do vale do Indo mostram animais, sendo que alguns parecem ser transportados em procissões, enquanto outros mostram criações quiméricas. Um selo de Moenjodaro mostra um monstro meio humano e meio búfalo atacando um tigre, o que pode ser uma referência ao mito sumério de um monstro criado pela deusa Aruru para combater Gilgamesh. Em contraste com as civilizações egípcias e mesopotâmicas contemporâneas, o Vale do Indo carece de palácios monumentais, embora as cidades escavadas indiquem que a sociedade possuía o conhecimento de engenharia necessário. Isso pode sugerir que as cerimônias religiosas, se ocorreram, podem ter sido confinadas em grande parte a lares individuais, pequenos templos ou ao ar livre. Vários locais foram propostos por Marshall e estudiosos posteriores como possivelmente devotados a fins religiosos, mas se pensa que apenas o Grande Banho de Moenjodaro tenha sido usado como um local para purificação ritual. As práticas funerárias da civilização harapeana são marcadas por enterro fracionário no qual o corpo é reduzido a restos esqueléticos por exposição aos elementos antes do enterro final e até cremação.

Anteriormente, os estudiosos acreditavam que o declínio da civilização harapeana levou a uma interrupção da vida urbana no subcontinente indiano. No entanto, a civilização do vale do Indo não desapareceu repentinamente e muitos de seus elementos aparecem em culturas posteriores. A cultura do Cemitério H pode ser a manifestação do período tardio em uma grande área na região de Punjabe, Hariana e oeste de Utar Pradexe, e a cultura da cerâmica colorida de ocre é sua sucessora. David Gordon White cita três outros estudiosos tradicionais que “demonstraram enfaticamente” que a religião védica deriva parcialmente das Civilizações do Vale do Indo. Desde 2016, dados arqueológicos sugerem que a cultura material classificada com a fase tardia pode ter persistido e foi parcialmente contemporâneo da cultura cerâmica colorida de ocre. O arqueólogo de Harvard Richard Meadow aponta para o final do assentamento de Piraque, que prosperou continuamente até a época da invasão de Alexandre, o Grande. Após a queda da CVI, surgiram culturas regionais mostrando, em graus variados, a influência harapeana. Na antiga cidade de Harapa, foram encontrados enterros que correspondem a uma cultura regional chamada cultura do Cemitério H. Ao mesmo tempo, a cultura da cerâmica colorida ocre expandiu-se do Rajastão para a Planície Indo-Gangética.

A cultura do Cemitério H tem as primeiras evidências de cremação; uma prática dominante no hinduísmo atual. Impressão de um selo cilíndrico do Império Acádio, com o rótulo: “O Divino Sarcalisarri Príncipe de Acádia, Ibni-Sarrum, o Escriba, seu servo”. Pensa-se que o búfalo de chifres longos tenha vindo do vale do Indo e testemunha trocas com Melua, a Civilização do Vale do Indo.  A fase madura da CVI é contemporânea à Idade do Bronze no antigo Oriente Próximo, em particular ao período de Elão, Período Dinástico Arcaico, Império Acádio a Terceira dinastia de Ur na Mesopotâmia e da Civilização Minoica em Creta e do Antigo Reino do Primeiro Período Intermediário Antigo Egito. A CVI foi comparada em particular com as civilizações de Elão, também no contexto da hipótese elamo-dravídica e com a Creta minoica, por causa de paralelos culturais isolados, como o onipresente culto à deusa e representações de saltos de touros. Era identificada com o topônimo “Melua” nos registros sumérios; os sumérios os chamavam de “meluaítas”. Shahr-i-Sokhta, localizado no Sudeste do Irã, mostra rota comercial com a Mesopotâmia. Um número de selos com escrita indo também foi encontrado em sítios arqueológicos. Após a descoberta na década de 1920, ela foi imediatamente associada aos nativos dasa, hostis às tribos rigvédicas, em numerosos hinos do Rigveda. Mortimer Wheeler interpretou a presença de muitos cadáveres não enterrados encontrados nos níveis mais altos de Moenjodaro como vítimas de uma conquista bélica e afirmou que “Indra é acusado” da destruição.

A associação do CVI com os dasas, que moravam em cidades, permanece sedutora porque o prazo assumido da primeira migração indo-ariana para a Índia corresponde perfeitamente ao período de declínio da CVI observado no registro arqueológico. A descoberta do período urbano avançado, no entanto, mudou a visão do século XIX da migração indo-ariana precoce como uma "invasão" de uma cultura avançada às custas de uma população aborígene "primitiva", a uma aculturação gradual de "bárbaros" nômades em uma civilização urbana avançada, comparável às migrações germânicas após a queda de Roma, ou a invasão cassita da Babilônia. Esse afastamento de cenários simplistas “invasionistas” é paralelo a desenvolvimentos semelhantes no pensamento sobre a transferência de idiomas e o movimento populacional em geral, como no caso da migração dos falantes de proto-grego para a Grécia ou a indo-europeização da Europa Ocidental. Línguas munda e um “filo perdido” talvez relacionado ou ancestral da língua nihali foram propostos como outros candidatos à linguagem da CVI. Michael Witzel, um filólogo germano-americano, mitólogo comparativo e indologista, sugere uma linguagem de prefixo subjacente semelhante às línguas austro-asiáticas, principalmente a língua khasi; ele argumenta que o Rigveda mostra sinais dessa influência hipotética harapeana no nível histórico mais antigo e o dravídico apenas em níveis posteriores, sugerindo que os falantes de austroasiático eram os habitantes de Punjabe e que os indo-arianos só encontraram os falantes de dravídico tarde.

Bibliografia Geral Consultada.

BALANDIER, Georges, Sociologie Actuelle de L’Afrique Noire. Paris: Presses Universitaires de France, 1971; HOBSBAWM, Eric, Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1983; DALES, George Franklin, “The Balakot Project: Summary of four years excavations in Pakistan”. In: Maurizio Taddei, South Asian Archaeology. Berkeley: University of California, 1977; MORRIS, Anthony Edwin James, History of Urban Form: Before the Industrial Revolution. Londres: Editor Longman, 1994; BRIDGET, Allchin, Origins of a Civilization: The Prehistory and Early Archaeology of South Asia. New York: Viking Penguin Índia, 1997; VIEILLARD-BARON, Jean-Louis, Compreender Bergson. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2007;  DELGADO, Manuel, Sociedades Movedizas: Pasos Hacia Una Antropología de las Calles. Barcelona: Editorial Anagrama, 2007; COSTANTINI, Lilian, “Os Primeiros Agricultores no Paquistão Ocidental: A Evidência do Assentamento Agropastoril Neolítico de Mehrgarh”. In: Pragdhara 18:167-178, 2008; KI-ZERBO, Joseph (Editor), História Geral da África, I: Metodologia e Pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010; MARTINS, Anderson Bastos, Onde Fica o Meu País? O Exílio e a Migração Ficção Pós-Apartheid de Nadine Gordimer. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Letras: Literatura. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2010; DIDI-HUBERMAN, Georges, Sobrevivência dos Vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora Universidade Federal de Minas Gerais, 2011; ROCHA LIMA, Eduardo, Cidades-Sensuais: Práticas Sexuais Desviantes X Renovação do Espaço Urbano. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2012; OVERDORF, Jason, “Archeologists confirm Indian civilization is 2000 years older than previously believed”. In: GlobalPost, 28 de novembro de 2012; HABIB, Irfan, The Indus Civilization. Índia: Tulika Books, 2015; NOVARINA, Gilles, Histoire de l`Urbanisme de la Renaissance à Nos Jours: L`Art et la Raison. Paris: Éditions du Moniteur, 2023; Artigo: “Rabat é a Capital Mundial do Livro em 2026: O Que Torna a Cidade Especial?”. In: https://www.cnnbrasil.com.br/31/03/2026; entre outros.

sábado, 9 de maio de 2026

Mouchette – Suicídio Altruísta, Cinema & Produção do Imaginário Social.

                                             Não há suicídios cujo caráter altruísta seja mais marcado”. Émile Durkheim (2011: 281)                                 

           

           A imaginação pode separar todas as ideias simples, e uni-las novamente da forma que bem lhe aprouver, nada seria mais inexplicável que as operações dessa faculdade, se ela não fosse guiada por alguns princípios universais, que a tornam, em certa medida, uniforme em todos os momentos e vivência e lugares praticados. Fossem as ideias inteiramente soltas e desconexas, apenas o acaso as ajuntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se reunissem de maneira regular em ideias complexas se não houvesse algum laço de união entre elas, alguma qualidade associativa, pela qual uma ideia naturalmente introduz outra. Esse princípio de união entre as ideias não deve ser considerado uma conexão inseparável, tampouco devemos concluir que, sem ele a mente não poderia juntar duas ideias – pois nada é mais livre que essa faculdade. Devemos vê-lo apenas como uma força suave, que comumente prevalece, e que é a causa pela qual, entre outras coisas, as línguas se correspondem de modo tão estreito umas às outras: pois a natureza aponta a cada um de nós as ideias simples mais apropriadas para serem unidas em uma ideia complexa. As qualidades não dão origem a tal associação, e que levam a mente, dessa maneira, de uma ideia a outra, são três, a saber: semelhança, contiguidade no tempo e no espaço, e causa e efeito. 

        Dois objetos podem ser considerados como estando inseridos nessa relação, seja quando um deles é a causa de qualquer ação ou movimento do outro, seja quando o primeiro é a causa da existência do segundo. Falar em objeções e respostas, em contraposição de argumentos numa questão como essa, é o mesmo que confessar que a razão humana é um simples jogo de palavras, ou que a pessoa que assim se exprime não está à altura desses assuntos. Há demonstrações difíceis de compreender socialmente, por causa do caráter abstrato de seu tema; nenhuma demonstração, porém, uma vez compreendida, pode conter dificuldades que enfraqueçam sua autoridade. É uma máxima estabelecida da metafísica que tudo que a mente concebe claramente inclui a ideia da existência possível, ou, em outras palavras, que nada que imaginamos é absolutamente impossível. Não poderia haver descoberta mais feliz para a solução de todas as controvérsias em torno das ideias, que compreendemos, as impressões sempre precedem as ideias, e que toda ideia contida na imaginação apareceu primeiro em uma impressão correspondente. As percepções deste último tipo social são todas tão claras e evidentes que não admitem discussão, ao passo que muitas de nossas ideias são tão obscuras que é quase impossível, mesmo para a mente humana que as forma, dizer qual é exatamente sua natureza e composição. 

        Façamos uma aplicação desse princípio, a fim de descobrir algo mais sobre a natureza de nossas ideias de espaço e tempo. Melhor dizendo, que as ideias da memória são mais vivas e fortes que as da imaginação, e que a primeira faculdade pinta seus objetos em cores mais distintas que as que possam ser usadas pela última. Ao nos lembrarmos de um acontecimento passado, sua ideia invade nossa mente com força, ao passo que, na imaginação, a percepção é fraca e lânguida, e apenas com muita dificuldade pode ser conservada firme e uniforme pela mente durante todo o período considerável de tempo. Temos aqui uma diferença sensível entre as duas espécies de ideias. Mas há uma outra diferença, não menos evidente, entre esses dois tipos de ideias. Embora nem as ideias da memória nem as da imaginação, nem as ideias vívidas nem as fracas possam surgir na mente antes que impressões correspondentes tenham vindo abrir-lhes o caminho, a imaginação não se restringe à ordem das impressões originais, ao passo que a memória está amarrada a esse aspecto, sem nenhum poder de variação. É evidente que a memória preserva a forma original a qual seus objetos se apresentaram. A principal função da memória não é preservar as ideias simples, mas sua ordem e posição. Esse princípio se apoia em aspectos comuns e vulgares cotidianos que podemos poupar o trabalho de continuar insistindo nele.                    

Escólio: Mouchette, de quatorze anos, filha de alcoólatras pobres, é uma adolescente taciturna e solitária, mas que anseia por pureza. Numa noite tempestuosa, ela vagueia pela floresta. Lá, encontra um caçador furtivo conhecido na região, o belo Arsène, que a leva ao seu esconderijo e lhe conta uma história mais ou menos verossímil sobre o assassinato do guarda-caça. Mouchette recebe essa confissão como uma bênção: pela primeira vez, um homem se entregou a ela. Mas ele a desvirgina, sem qualquer violência em particular. Ela retorna para casa de manhã cedo: seu pai e irmãos, sempre tramando algo, ainda não chegaram. Sua mãe, já debilitada, agoniza em seus últimos momentos e morre, embriagada por um último gole de gim. No dia seguinte, essa morte lança uma atmosfera quase sagrada sobre a aldeia. Mouchette, no entanto, precisa seguir com seus afazeres diários. Ela vai ao mercado, à casa do guarda-caça (Arsène, no fim, não o matou) e depois à casa de uma senhora idosa que ainda realiza funerais na aldeia. A mulher lhe dá um lençol para a mortalha e um xale magnífico. Nessas três ocasiões, Mouchette acaba insultando aqueles que fingiam se importar com ela. A cena final, a quarta parte do livro, mostra seu suicídio em um lago solitário. Mouchette foi enganada, derrotada por mentiras e pelo destino. Robert Bresson adaptou este romance sobre a condição humana para um filme exemplar (cf. Mouchette, 1967), especialmente as páginas finais. Mas o estilo de Bernanos aqui alcança domínios subterrâneos que seria inútil atribuir unicamente à psicologia. E é aqui que seu livro se torna único (mesmo que deva muito a Dostoiévski, por exemplo). 

Os pensamentos de Mouchette, selvagens e rebeldes, mal encontram expressão — uma coleção de repulsas e sensações, no entanto, dominada pelo mais belo orgulho, e que por vezes permite que a mais pura canção transpareça. Lendo esta Nova História de Mouchette, talvez nos aproximemos um pouco mais daquilo que ainda ousaríamos chamar, por mais empobrecido que seja, de alma. “Desde as primeiras páginas desta história, o nome familiar Mouchette impôs-se a mim de forma tão natural que se tornou impossível mudá-lo. A Mouchette da Nova História não tem nada em comum com a de O Sol de Satã, exceto a mesma solidão trágica em que as vi viver e morrer”. A ação ou movimento não é senão o próprio objeto, considerado sob um certo ângulo, e como o objeto continua o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil imaginar de que forma tal influência dos objetos uns sobre os outros pode conectá-los na imaginação. Podemos prosseguir com esse raciocínio, observando que dois objetos estão conectados pela relação causa e efeito não apenas quando produz um movimento ou uma ação qualquer no outro, no outro, mas também quando tem o poder de os produzir. Essa é a fonte das relações de interesse e dever através dos quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade que se ligam pelos laços de governo e subordinação. Um senhor é aquele que, por sua situação, decorrente da força ou acordo, tem o poder de dirigir, sob alguns aspectos particulares, as ações de outro homem. Um juiz de direito é aquele que, em todos os casos litigiosos entre a figuração dentre os membros que formam os grupos da sociedade, é capaz de decidir, com sua opinião a quem cabe à posse ou a propriedade de determinado objeto. 

Quando uma pessoa possui certo poder, nada mais é necessário para convertê-lo em ação social que o exercício da vontade; e isso, em todos os casos, é considerável possível, e em muitos, provável – especialmente no caso da autoridade, em que a obediência do súdito é um prazer e uma vantagem para seu superior. Está claro que, no curso de nosso pensamento social e na constante circulação de nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia a qualquer outra que seja semelhante a ela. Assim como existe o nascimento de uma semiologia e sociologia da celebridade, uma economia da celebridade e tal qualidade, por si só, constitui um vínculo afetivo e uma associação suficiente para a fantasia. É também evidente que, com os sentidos, ao passarem de um objeto a outro, precisam fazê-lo de modo regular, tomando-os sua contiguidade uns em relação aos outros, a imaginação adquire, por um longo costume, o mesmo método de pensamento, e percorre as partes do espaço e do tempo ao conceber seus objetos. Quanto à conexão realizada pela relação de causa e efeito, basta observar que nenhuma relação produz uma conexão mais forte na fantasia e faz com que uma ideia evoque mais prontamente outra ideia que a relação de causa e efeito entre seus objetos. Para compreender toda a extensão dessas relações sociais, devemos considerar que dois objetos estão conectados na imaginação. Não somente quando um deles é semelhante ou contíguo ao outro, ou quando é a representação da causa. Mas quando entre eles encontra-se inserido um terceiro objeto, que mantém com ambos alguma dessas notáveis relações. Dentre relações mencionadas, a de causalidade é a de maior extensão.

Mouchette tem como representação social um filme francês de tragédia de 1967 dirigido por Robert Bresson, estrelado por Nadine Nortier e Jean-Claude Guilbert. Robert Bresson realizou seu primeiro longa-metragem, Les Anges du Péché, em 1943. Depois, uma leitura de Jacques o Fataliste et Son Maître de Denis Diderot o inspirou a realizar Les Dames du bois de Boulogne em 1945. Os diálogos foram escritos por Jean Cocteau. Desapontado com as atuações de atrizes como Maria Casarès em seus dois primeiros longas-metragens, decidiu trabalhar exclusivamente com atores não profissionais, a quem chamava de seus “modelos”. Em 1951, lançou O Diário de um Pároco de Aldeia, adaptado do romance de Georges Bernanos. Essa adaptação permitiu a Bresson refinar seu estilo: ele retrata a vida, ou melhor, o sofrimento, do jovem padre de Ambricourt, recém-saído do seminário, que sofre de câncer de estômago em uma paróquia hostil. O filme é composto por pequenas cenas do cotidiano (Bresson filma um barril, pão, etc.) interligadas pelas palavras do padre (escritas ou em voz off) em seu diário, um modesto caderno escolar que abre o filme. 

Esse princípio é posteriormente utilizado em Pickpocket (1959). Em 1956, Bresson apresentou Um Condenado à Morte Escapou em Cannes, baseado na história de André Devigny (1916-1999), e ganhou o prêmio de Melhor Diretor.  A história da fuga de Fontaine, um membro da Resistência Francesa em Lyon preso em Montluc, é narrada em detalhes através de cada gesto seu. A precisão cirúrgica do plano de fuga e a ênfase nos gestos fazem dele um filme único. A Grande Missa em Dó menor de Mozart sublinha a repetição da vida cotidiana. No entanto, Fontaine não é retratado como um santo; ele está preparado para matar seu companheiro de cela Jost e um guarda alemão. Além disso, sua jornada não é meramente uma fuga noturna sinuosa de uma prisão, mas também um caminho espiritual para a liberdade: um pastor e um padre também estão presos e apoiam Fontaine. O subtítulo, retirado da conversa entre Jesus e Nicodemos, é passagem do Evangelho de João. Foi um grande sucesso de público e de crítica.  Em Pickpocket, de 1959, ele mostra o “estranho caminho” de Michel, um batedor de carteiras convencido de que alguns homens deveriam ter o direito de se colocar acima da lei. A música de Lully acompanha o filme. O texto antes dos créditos anuncia: “Este filme não é um filme policial. O autor se esforça para expressar, através de imagens e sons, o pesadelo de um jovem levado por sua fraqueza a uma aventura de batedor de carteiras para a qual ele não tinha vocação. Somente essa aventura, por caminhos estranhos, unirá duas almas que, sem ela, talvez nunca tivessem se encontrado”.

Em 1962, ele dirigiu O Julgamento de Joana d`Arc, inspirado no novo julgamento de Joana d`Arc. Bresson pesquisou durante meses antes de escrever o roteiro, buscando criar um retrato autêntico e realista do julgamento; ele fez com que sua atriz interpretasse as respostas reais que Joana deu durante seu julgamento. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri naquele mesmo ano em Cannes. Em 1963, foi abordado pelo produtor Dino De Laurentiis para dirigir um projeto que lhe era muito caro, Gênesis. De Laurentiis idealizou uma epopeia bíblica cujos episódios seriam dirigidos por diretores de prestígio. Bresson já havia escrito um roteiro sobre esse tema em 1952. Mas, para A Arca de Noé, apesar de todos os animais trazidos para as filmagens, o cineasta só queria filmar suas pegadas. Segundo Bernardo Bertolucci, as inúmeras diferenças artísticas, particularmente em relação à cor da pele de Eva, levaram De Laurentiis a dispensar Bresson. Essa grande epopeia acabou sendo reduzida à Bíblia de John Huston (1906-1987). Em diversas ocasiões, Bresson quis adaptar Gênesis, mas não conseguiu obter o financiamento necessário. Um acordo de pré-produção foi firmado em 1985, mas o projeto nunca se concretizou. Em 1966, ele realizou seu filme dramaticamente mais complexo, Au hasard Balthazar. Jean-Luc Godard, em uma entrevista concedida logo após o lançamento do filme, descreveu-o como um “filme-mundo”, por abranger todas as facetas da vida. Através da vida e da morte do burro Balthazar, Bresson tece uma metáfora para a presença do mal no mundo. O título Au hasard Balthazar é uma referência ao lema dos Condes de Baux, que alegavam descendência do rei mago Balthazar. Em 1967, dirigiu Mouchette, uma adaptação do romance Nouvelle histoire de Mouchette de Georges Bernanos.

Em 1969, Bresson filmou seu primeiro longa-metragem colorido, Uma Mulher  Gentil. A fotografia ficou a cargo de Ghislain Cloquet, que havia filmado as cenas em preto & branco de Mouchette e Ao Acaso, Baltazar. O filme começa com o suicídio (cf. Minois, 1995; Durkheim, 2014) de uma jovem cujo xale voa pela rua. Seu marido relembra o encontro dos dois e a vida que compartilharam. Essa adaptação histórica e social do conto de Fiódor Dostoiévski oferece a Bresson a oportunidade de retratar a vida da baixa burguesia parisiense e de denunciar o cinema (que ele contrapõe à sua própria arte, a cinematografia) quando o jovem casal assiste a Benjamin ou Memórias de uma Virgem, de Michel Deville, em um teatro escuro, ou mais tarde durante uma apresentação de Hamlet, de William Shakespeare. Dominique Sanda faz sua estreia no cinema neste filme. Junto com Marika Green, ela é uma das poucas atrizes que trabalharam com Bresson e que posteriormente seguiram carreira no cinema. Em 1971, ele adaptou um conto de Dostoiévski pela segunda vez com Quatro Noites de um Sonhador. Em 1974, Lancelot do Lago, um filme com um orçamento considerável, retrata o retorno do cavaleiro à corte do Rei Arthur após o fracasso de sua busca pelo Santo Graal. O futuro produtor Humbert Balsan interpreta o papel de Gawain. Bresson filma numa tentativa de evitar uma reconstrução histórica artificial. Pode, também, ser concebido como o signo de “incapacidade dos grupos e das sociedades em matéria de socialização”. Enfim, é um arquétipo de conformidade por relação a um grupo que não se identifica com o padrão normativo dominante da sociedade global.                  

 Em primeiro lugar, o livro Le Suicide. Étude de Sociologie representou um dos pilares no campo da sociologia. Escrito pelo sociólogo francês Émile Durkheim e publicado em 1897, trata-se um “estudo de caso” de um suicídio, publicação única em sua época, que trouxe o exemplo de como uma monografia sociológica deveria ser escrita. Inúmeros estudos contemporâneos sobre o suicídio têm como escopo características individuais. Durkheim estudou as conexões entre os indivíduos e a sociedade. Procurou demonstrar com propriedade o quanto um ato individual é o resultado do meio social que o cerca, que, além disso, teria uma prova da utilidade da sociologia. Neste livro, o sociólogo francês Émile Durkheim desenvolveu o conceito de anomia, explorando as diferentes taxas de suicídio comparativamente entre religiosos protestantes e católicos, apresentando resultados estatísticos convincentes que comprovam o forte controle social entre os católicos resulta em menores índices de suicídio. Os indivíduos têm certo nível de integração com os seus grupos, o que o sociólogo Émile Durkheim chama de “integração social”. 

Níveis anormalmente baixos ou altos de integração social poderiam resultar num aumento das taxas de suicídio: a) níveis baixos porque baixa integração social resulta numa sociedade desorganizada, levando os indivíduos a se voltar para o suicídio como uma última alternativa; b) níveis altos porque as pessoas preferem destruir a si próprias a viver sob o grande exercício de controle da sociedade, o que resultou no caso de “suicídio egoísta” de Ariel Castro (1960-2013). O trabalho sociológico de Durkheim influenciou os proponentes das teorias sociais funcionalistas do controle social, e é frequentemente mencionado como um estudo pioneiro tornando-se sociológico clássico no pensamento ocidental. Não se pode, portanto, sem fazer mau uso das palavras, considerar todo suicida um louco. Mas de todos os suicídios o que pode parecer mais difícil de discernir do que se observam nos homens são os de “espírito melancólico”; pois, com muita frequência, o homem normal que se mata também se encontra num estado de abatimento e de depressão, exatamente como o alienado. Mas sempre há entre eles a diferença essencial de que o estado do primeiro e o ato resultante dele não deixam de ter causa objetiva, ao passo que, no segundo, não têm nenhuma relação com as circunstâncias exteriores. Para Durkheim, nas situações de degredo, como ocorre nas prisões e nos regimentos há um estado coletivo que inclina os soldados e os detentos ao suicídio diretamente quanto o pode fazer a mais violenta das neuroses. O exemplo é a causa ocasional que faz manifestar-se o impulso. Mas observa o filósofo que não é aquele que o cria, e, se o impulso de fato não existisse, o exemplo seria inofensivo. Uma observação pode servir de corolário a essa conclusão.

Segundo a versão oficial, Walter Benjamin, mutatis mutandis, cometeu o suicídio em Port Bou, na fronteira da França com a Espanha, em 26 de setembro de 1940. Foi vítima, do que nos traz à mente a afirmação de Mark Twain, para quem “coincidência é a única explicação que o otário encontra para a coincidência”. Com medo da captura pelas tropas franquistas e alemãs que naquela altura, haviam confiscado seu apartamento parisiense, depois de saber que a passagem para a Espanha estava fechada, Benjamin tomou uma grande quantidade de morfina durante a noite. Apavorados com o suicídio do filósofo, no dia seguinte os oficiais da fronteira permitiram que os demais integrantes da caravana de refugiados seguissem em direção a Portugal. Afinal, a proibição de passar pela fronteira para a Espanha tinha validade apenas para o dia anterior. Justamente o dia em que o filósofo escolhera para sair da França e tentar a sorte em alguma paragem menos conturbada com a trágica guerra europeia com o emprego intolerável e massificado da força bruta da política. No entanto, a tese publicada em 2001 por Stephen Schwartz no semanário político conservador The Weekly Standard, baseado em Washington, há setenta e cinco anos, na noite de 26 de setembro de 1940, Walter Benjamin (1892-1940), um dos maiores e mais sensíveis pensadores marxistas do século XX, foi assassinado a mando do ditador russo Joseph Stálin que governou a União Soviética (URSS) de meados da década de 1920 até sua morte, servindo como Secretário-Geral do Partido Comunista de 1922 a 1952, e como primeiro-ministro de seu país de 1941 a 1953. A causa mortis não foi o suicídio por envenenamento com morfina como consta na versão oficial.           

A morte do filósofo esteve sempre envolta em mistério, mas só meio século depois o motivo de sua morte voltou a causar polêmica no meio jornalístico e da literatura acadêmica. O corpo do ensaísta da primeira geração da extraordinária da Escola de Frankfurt foi encontrado por Henny Gurland. Walter Benjamin cruzou clandestinamente a fronteira franco-espanhola pela Rota Lister, de Banyuls a Portbou. Ele estava acompanhado pela ativista da resistência Lisa Fittko, uma fotógrafa alemã de origem judaica conhecida pelo sobrenome de seu segundo marido, Henny Gurland, e pelo filho de Gurland, a quem ele conhecera em Marselha. Ele havia obtido um visto que lhe permitiria entrar na Espanha, viajar para Portugal e, de lá, embarcar para os Estados Unidos. Após dois dias de uma jornada exaustiva, de 24 a 26 de setembro, eles chegaram a Portbou, mas um novo decreto em vigor naquele mesmo dia os impediu de entrar em território espanhol. As autoridades os informaram que seriam deportados para a França, destruindo qualquer esperança que tivessem. O desespero levou Walter Benjamin ao suicídio no Hotel Francia, em Portbou, nas primeiras horas de 27 de setembro, por overdose de morfina. Uma das quatro mulheres que o acompanhavam na viagem que possivelmente terminaria como refúgio da violência nazista, nos Estados Unidos da América. Mas de acordo com a análise de Stephen Schwartz, estudioso da relação política entre comunismo e a intelectuais nos anos 1930, parte dessa história não tem consistência.  

A fuga aconteceu e Gurland foi realmente a primeira a encontrar Walter Benjamin morto, única fonte a ter feito declaração sobre o suicídio. Henny Gurland era militante de extrema esquerda e teve comportamento aparentemente suspeito no caso e seu marido, Arkadi, que era um espião soviético. Além disso, há o caso do manuscrito desaparecido. De acordo com relatos ocorridos na época, o filósofo carregava o tempo todo consigo durante a fuga uma pesada mala que conteria os originais de um livro inédito, “o mais importante para mim”, segundo declarou Henny disse ter destruído as duas notas de suicídio que teriam sido escritas por Walter Benjamin (1892-1940) e entregues a ela, uma provavelmente sem destinatário e outra que seria para seu amigo, Theodor Adorno. Depois, resumiu-as numa nota escrita em francês por ela. Contudo, entre as evidências que apresentadas por Schwartz está a autópsia oficial, que determina como causa da morte de Benjamin “hemorragia cerebral” e afirma que não foram encontradas drogas em seu sangue nem em seu aparelho digestivo. Benjamin morreu numa época em que muitos ex-partidários dos soviéticos estavam desiludidos com Moscou por causa do pacto radical mundial entre esquerda e direita. Como resposta, um dos killerati, intelectuais socialistas recrutados como agentes stalinistas para cometer assassinatos, o matou. A principal causa de seu assassinato, para Slavoj Žižek (2008:14), foi que “durante a fuga pelas montanhas da França para a Espanha, Benjamin levava um manuscrito, a obra-prima em que estivera trabalhando na Bibliothèque Nationale de Paris, a elaboração das Teses”.

A pesada mala que continha o manuscrito fora confiada a um colega refugiado que a perdeu convenientemente no trem ente Barcelona e Madri. Benjamin não vivia num ambiente seguro, foi o que disse o estudioso Stephen Schwartz ao jornal The New York Times, pois ao que parece ele “participava de um submundo povoado por pessoas perigosas”. Ele retrata a vida como se estivesse filmando a vida contemporânea, sem embelezar cenários e figurinos. Em 1975, ele publicou suas Notas sobre o Cinematógrafo, uma coleção na qual defende sua visão do “cinematógrafo”, que ele distingue do cinema. Ele considera o cinema “como teatro filmado”, enquanto o cinematógrafo inventa uma nova forma de escrita “com imagens e sons em movimento” ligados pela montagem. Bresson queria aspectos da indústria cultural contrastando o cinema e o cinematógrafo. Com o filme “The Devil Probably”, ele ganhou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim em 1977. Seu último filme, L`Argent, é uma adaptação do conto de Tolstói, O Cupom Falso. A história gira em torno de um jovem rico que entrega a um fotógrafo uma nota falsa de 500 francos, levando o funcionário a uma espiral descendente de prisão, roubo, degradação e assassinato. Vaiado em Cannes ganhou o Grande Prêmio de Cinema Criativo em 1983, com Nostalgia, de Andrei Tarkovsky. Em 1995 sua obra recebeu o prêmio René-Clair. Mouchette é baseado no romance homônimo de Georges Bernanos (1888-1948). 

Nascido em uma família de ascendência Lorena e espanhola, passou a juventude em Fressin, em Artois, região do Pas-de-Calais que serve de cenário para a maioria de seus romances. Estudou direito no Instituto Católico de Paris. Serviu nas trincheiras durante a 1ª grande guerra (1914-1918), alcançando o posto de brigadeiro no final da guerra e foi ferido diversas vezes. Obteve sucesso com seus romances Sob o Sol de Satã, em 1926, e Diário de um Pároco de Aldeia, em 1936. Membro da Action Française quando jovem estudante, Georges Bernanos (1888-1948) rompeu com os ideais desse tipo de partido político, cujas falhas não hesitava em denunciar publicamente. Action Française é um movimento contrarrevolucionário monarquista e orleanistas francês fundado em 1898 por Maurice Pujo (1872-1955) e Henri Vaugeois (1864-1916), e cujo principal ideólogo foi Charles Maurras (1868-1952), poeta monarquista francês, dirigente e principal fundador do jornal germanófobo Action Française e teórico do Nacionalismo Integral. 

Salazar estudou as suas ideias, que teriam tido relevante influência na sua formação política. Ideólogo exerceu a influência sobre movimentos sociais nacionalistas como o Integralismo Lusitano e o Patrianovismo, e autores integralistas brasileiros, como Félix Contreiras (1884-1960) Rodrigues e Gustavo Barroso (1888-1959). Surgiu durante o Caso Dreyfus, em parte como reação à revitalização da extrema-esquerda que se materializou em defesa do capitão do exército, celebremente iniciada pelo J`accuse de Emile Zola (1840-1902).  É o título do artigo redigido por Zola quando do caso Dreyfus e publicado no jornal L`Aurore do 13 de janeiro de 1898 sob a forma de uma carta ao presidente da República Francesa, Félix Faure. Zola inspirou-se num dossiê fornecido em 1896 pelo escritor Bernard Lazare. Originalmente uma organização nacionalista que atraiu figuras como Maurice Barrès, tornou-se monárquico sob a influência de Maurras, que seguia os passos do teórico contrarrevolucionário Joseph de Maistre (1753-1821). Até sua dissolução ao fim da 2ª guerra mundial, a Action Française foi uma defensora tout court de destaque do integralismo de inspiração tradicionalista. As ideias centrais do pensamento político de Maurras eram um intenso nacionalismo que ele descreveu como um “nacionalismo integral” e uma crença numa sociedade ordenada.

Estas eram as bases para o seu apoio à monarquia e à Igreja Católica Romana. Como muitas pessoas na Europa do seu tempo, ele foi assolado pela ideia da decadência, em parte inspirado pelas leituras de Hippolyte Taine (1828-1893) e Ernest Renan (1823-1892). Ele achava que a França perdera a sua grandeza com a Revolução Francesa de 1789, uma grandeza herdada das raízes clássicas romanas e desenvolvida, como ele disse, por “quarenta reis que fizeram a França em mil anos”. A Revolução, como escreveu no Observateur Français, um jornal diário católico francês, publicado em Paris entre 1887 e 1895, foi “uma revolta, uma obra negativa e destrutiva”. Ele viu neste declínio o resultado do Iluminismo e da Reforma Protestante; ele descreveu a fonte deste mal como “Ideias Suíças”, uma referência a Jean-Jacques Rousseau e João Calvino (1509-1564). Ele colocou um sentimento de culpa naquilo ao que chamou a “Anti-França”, como os “quatro estados confederados de Protestantes, Judeus, Mações e estrangeiros”. De fato, para ele, os primeiros três já eram todos uma forma de estrangeiros internos. O anti-semitismo e antiprotestantíssimo eram temas comuns nas suas escritas. Ele achava que a Reforma, O Iluminismo e a Revolução tinham todos contribuído para que os indivíduos se colocassem à frente da nação, com consequentes efeitos negativos nesta última.

Segundo ele, a democracia e o liberalismo continuavam a fazer as coisas ainda pior. Durante a 1ª grande guerra, o empresário judeu Emile Ullman foi forçado a demitir-se do conselho de administração do “Comptoir d`Escompte” após Maurras lhe ter chamado de agente do Kaiser Wilhelm II (1859-1941) da Alemanha. Apesar de que as soluções políticas que ele advogava serem não muito distantes das dos monarquistas franceses, de muitas maneiras Maurras não se incorporava na tradição monarquista na França. As suas visões, pelo menos era o que ele dizia, eram baseadas na razão e não tanto no sentimento, lealdade e fé. Aliás, tal como muitos líderes da Terceira República Francesa que ele detestava, Maurras era também um admirador do filósofo Augusto Comte. Enquanto que a maioria dos monarquistas se recusava a envolver na ação política - por esta altura muitos tinham recuado para um Catolicismo intransigentemente conservador e uma indiferença para com os acontecimentos do mundo, que eles viam agora como irremediavelmente perigosos - Maurras estava preparado para se envolver na ação política, seja ela convencional ou não convencional, isto é, os Camelots du Roi, grupo paramilitar da Action Française, envolviam-se frequentemente em violência nas ruas. Ele adotou a frase “La politique d`abord” (política primeiro) como o seu slogan, querendo significar “política religiosa em primeiro lugar”.

Auguste Comte representou seu pensamento sociológico de um ponto de vista lógico, formado nas disciplinas da Escola Politécnica. Raciocínio lógico é um processo de estruturação do pensamento de acordo com as normas da lógica que permite chegar a uma determinada conclusão ou resolver um problema. Um raciocínio lógico requer consciência e capacidade de organização do pensamento. A maneira de pensar positiva se impôs mais cedo nas matemáticas, na física, na química, e depois na biologia. É normal, aliás, que o positivismo apareça mais tarde nas disciplinas que têm por objeto matérias mais complexas. Quanto mais simples uma disciplina, mais fácil pensar sobre ela positivamente. Há mesmo alguns aspectos ou fatos sociais cuja observação se impõe por si mesma, seja pela curiosidade ocular, seja pela impressão que causa, de sorte que, nesses casos, a inteligência é imediatamente positiva. O fundamento desta ciência social teria por objeto de estudo a história da espécie humana, considerada como uma unidade, o que seria indispensável para a compreensão das funções particulares do todo social e de um momento particular do devenir. É normal, que o positivismo apareça nas disciplinas que têm por objeto matérias mais complexas. Mas essa combinação interdisciplinar não tem unicamente por objeto de pensamento demonstrar a necessidade de criar a sociologia.  Na linguagem de Comte as múltiplas significações são analíticas no sentido de que estabelecem leis entre fenômenos isolados, e necessária e legitimamente pela ciência.     

Na biologia, comparativamente, porém, é impossível explicar um órgão ou uma função sem considerar o ser vivo como um todo. É com relação ao organismo como um todo que um fato biológico particular tem um significado e pode ser explicado. Se quiséssemos separar arbitrária e artificialmente um elemento de um ser vivo, teríamos diante de nós apenas matéria morta. A matéria viva enquanto tal é intrinsecamente global. Ipso facto, essa ideia de primazia do todo sobre os elementos deve ser transposta para a sociologia. É impossível compreender o estado de um fenômeno social particular se não o recolocarmos no todo social. Não se pode entender a situação da religião, ou a forma precisa do Estado, numa sociedade particular, sem considerar o conjunto dessa sociedade. Mas tal prioridade do todo sobre os elementos não se aplica apenas a um momento artificialmente abstrato do devenir histórico. Isto é, só se compreenderá o estado da sociedade francesa no princípio do século XIX se recolocarmos esse momento histórico na continuidade do devenir francês. A Restauração só pode ser compreendida pela Revolução, e a própria Revolução pelos séculos de regime monárquico. O declínio do espírito teológico e militar pelas suas origens, nos séculos passados. Da mesma forma como só é possível compreender logicamente um elemento do todo, não se pode entender um momento da evolução histórica sem levar em conta o seu conjunto.  

Analogamente convém acrescentar que Comte, considerando que a sociologia é uma ciência à maneira das ciências precedentes, não hesita em retomar a fórmula que já empregara nos Opúsculos: assim como não há liberdade de consciência na matemática ou na astronomia, não pode haver também em matéria de sociologia. Como os cientistas impõem seu veredito aos ignorantes e aos amadores, em matemática e astronomia, devem logicamente fazer o mesmo em sociologia e política. O que pressupõe, evidentemente, que a sociologia possa determinar o que é, o que será e o que deve ser. Sua sociologia sintética, na expressão de Aron (1993: 75), sugere aliás, tal competência: ciência do todo histórico, ela determina não só o que foi e o que é, mas também o que será, no sentido da necessidade do determinismo. O que será é justificado como sendo conforme aquilo que os filósofos do passado teriam chamado a “natureza humana”, com aquilo que o pensador francês chama simplesmente de realização da ordem humana e social, justificando uma teoria da natureza humana e da natureza social, essa unidade da história humana. O ponto de partida da análise representa uma reflexão interna da sociedade de seu tempo, entre o tipo social teológico militar e o tipo social científico-industrial. Como esse momento histórico é caracterizado pela generalização do pensamento científico e da atividade industrial, o único meio de pôr fim à crise é acelerar o devenir, criando um sistema de ideias científicas que presidirá a ordem social, como o sistema de ideias teológicas presidiu à ordem social do passado. 

O positivismo (cf. Kremer-Marietti, 1977) como corrente de pensamento defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. Assim, desconsideram-se todas as outras formas do conhecimento humano que não possam ser comprovadas cientificamente. Consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, por meio da promoção do primado da experiência sensível. Única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico. Subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. É uma reação radical ao transcendentalismo idealista alemão e ao romantismo, no qual os afetos individuais e coletivos e a subjetividade cultural são completamente ignorados, limitando a experiência humana ao mundo sensível e ao conhecimento aos fatos observáveis. 

Substitui-se a teologia e a metafísica pelo culto à ciência, o mundo espiritual pelo mundo humano, tendo como primícias a realização do espírito pela matéria, sabidamente porque considerava os problemas políticos, sociais e culturais como estreitamente ligados à nossa capacidade prática de resolvê-los. Com isto ele dizia apoiar a Igreja Católica porque ela estava intimamente ligada com a história Francesa e porque a sua estrutura hierárquica e distinta elite clerical eram para si o espelho de uma sociedade ideal. A Igreja Católica em França era, na sua opinião, a argamassa que mantinha a nação unida. No entanto, ele desconfiava dos evangelhos, escritos, como ele o colocou, “por 4 obscuros Judeus” (Le Chemin du Paradis, 1894) e admirava a Igreja por ter, na sua opinião, conseguido esconder muitos dos ensinamentos pretensamente perigosos da Bíblia. Sociologicamente ele advogava um Catolicismo sem Cristandade, tanto quanto possível. Apesar disto, ele gozou de um grande apoio entre católicos e monárquicos, incluindo os orleanistas, de cujo pretendente ele recebeu o apoio direto. O seu agnosticismo era motivo de insatisfação por partes da hierarquia católica, e em 1926 alguns dos seus livros foram incluídos no Index Librorum Prohibitorum pelo Papa Pio XI (o movimento Action Française como um todo foi condenado ao mesmo tempo e Maurras excomungado) — um grande choque para muitos dos seus seguidores, incluindo um número considerável do sacerdócio francês. 

Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), ele testemunhou as atrocidades cometidas pelos homens de Franco, com o apoio do clero local, contra a população civil, uma situação que ele estava determinado a denunciar em Os Grandes Cemitérios Sob a Lua (1938). Uma lesão na perna sofrida durante a 1ª guerra mundial o impediu de participar da 2ª guerra mundial (1939-1945), como esperava. Ele retirou-se para o Brasil em 1938, onde apoiou ativamente De Gaulle contra Pétain. Seus dois filhos (Yves e Michel) e seu sobrinho (Guy Hattu) juntaram-se às Forças Francesas Livres em 1940. Em suas obras, Georges Bernanos, um católico fervoroso, explora a luta espiritual entre o Bem e o Mal, particularmente através da personagem do padre que se esforça pela salvação das almas de seus paroquianos perdidos, ou através de personagens com destinos trágicos, como em Nouvelle histoire de Mouchette. Bresson explicou sua escolha do romance, dizendo: “Não encontrei nele psicologia nem análise. A substância do livro parecia utilizável. Podia ser peneirada”.  Foi inscrito no Festival de Cinema de Cannes de 1967, ganhando o Prêmio da Organização Católica Internacional para o Cinema e o Audiovisual. Mouchette se passa em uma aldeia rural francesa e acompanha a filha de um pai opressor e uma mãe moribunda. Desenvolvendo-se no estilo notoriamente esparso e minimalista do diretor, Bresson disse que sua personagem titular “oferece evidências de miséria e crueldade. Ela é encontrada em todos os lugares: guerras, campos de concentração, torturas, assassinatos”. Mouchette está ipso facto entre os filmes mais aclamados de Bresson.

Bibliografia Geral Consultada.

KREMER-MARIETTI, Angèle, L’Anthropologie Positiviste d’Auguste Comte. Paris: Thèse Paris IV: Université Paris-Sorbonne, 1977; CASTEL, Robert, A Ordem Psiquiátrica: A Idade de Ouro do Alienismo. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1978; GABILONDO, Angel, El Discurso en Acción: Foucault y una Ontologia del Presente. Barcelona: Editorial Anthropos, 1990; MAIO, Marcos Chor, Nem Rothschild Nem Trotsky. O pensamento Antissemita de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1992; MINOIS, Georges, Histoire du Suicide: La Société Occidentale Face à la Mort Volontaire. Paris: Editeur Librairie Arthème Fayard, 1995; CANEVACCI, Massimo, Antropologia della Comunicazione Visuale. Roma: Edizionne Meltemi, 2001; HALBWACHS, Maurice, Les Causes du Suicide (1930). Paris: Presses Universitaires de France, 2002; GIROLA, Lídia, Anomia e Individualism: Del Diagnóstico de la Modernidad de Durkheim al Pensamiento Contemporáneo. Barcelona: Anthropos Editorial, 2005; ESTABLET, Roger, “A Atualidade de O Suicídio”. In: MASSELLA, Alexandre [et al], Durkheim: 150 anos. Belo Horizonte: Argvmentvm Editora, 2009; FEHSE, Felipe Bentancur, Impacto de Ruídos Ambientais Desagradáveis sobre as Emoções e o Comportamento do Consumidor. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Administração. Escola de Administração. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009; ŽIŽEK, Slavoj, Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism. Estados Unidos: Editora Verso, 2013; DURKHEIM, Émile, O Suicídio: Estudo de Sociologia. 2ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011; Idem, Il Suicidio. Studi di Sociologia. Biblioteca Univ. Rizzoli, 2014; TANAKA, Elder Kôei Itikawa, Inimigos Públicos em Hollywood: Estratégias de Contenção e Ruptura em Dois Filmes de Gângster dos Anos 1930-1940. Tese de Doutorado. Departamento de Letras Modernas. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, 2015; NIQUETTI, Ricardo, Deleuze e Velhice: Uma Política de Encontro. Tese de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2015; MORAES, Fabrício Tavares, “A Nova História de Mouchette: Entre Silêncios e Gritos”. Disponível em: https://estadodaarte.estadao.com.br/25/08/2018;  JARDONNET, Evelyne, “La Caméra du Philosophe: Mouchette”. Disponível em: https://www.icp.fr/08/04/2026; entre outros.