sábado, 8 de agosto de 2026

Uma Canção de Gratidão – Família Musical & Vocação do Protestante Cristão.

                                                                   “Neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”. Max Weber      

     

            A voz é uma característica especificamente humana intimamente relacionada com a necessidade de se agrupar e se comunicar. Ela é produto da sua evolução histórica e cultural, um trabalho em conjunto do sistema nervoso, respiratório e digestivo, e de músculos, ligamentos e ossos, atuando harmoniosamente para que se possa obter uma emissão eficiente em termos de qualidade vocal. As cordas vocais, primordialmente, não foram feitas para utilidade de uso da voz. Esta foi uma função na qual a laringe, onde se encontram as cordas vocais, se especializou, mas estes músculos foram desenvolvidos, em primeiro lugar, para as funções corpóreas de respiração, alimentação e esfincteriana. Consideradas do ponto de vista de suas estruturas, as cordas vocais superiores são pregas da mucosa da laringe, compreendendo em sua contextura uma lâmina fibro-elástica. As cordas vocais inferiores se compõem, essencialmente, de uma lâmina elástica, revestida por uma prega da mucosa da laringe, contendo em sua espessura um volumoso fascículo muscular, que a caracteriza. A voz está associada a reprodução no contexto social da fala, na realização da comunicação verbal, e pode variar quanto à questão da intensidade, altura, inflexão, ressonância, articulação e muitas outras características sociais. 

       A perfeição caracteriza um conceito ideal típico que reúne todas as qualidades humanas e não apresenta nenhum defeito, e circunstância que não possa ser melhorada. Na história das ideias o termo perpassa pelo conceito de entelecheia desenvolvido por Aristóteles, configurando um trabalho ativo para a realização pessoal, intrínseca à mesma coisa. Mas é também esse alvo, esse estágio social em que a organização alcançou todas suas potencialidades, e consequentemente, alcançou em sua démarche a perfeição. O conceito moderno de perfeição se origina do movimento idealista do século XVIII, e está estreitamente ligado à noção de progresso. Em Immanuel Kant (1724-1804) e seus antecessores, Christian Wolff (1679-1754) e Gottlieb Baumgarten (1714-1762) perfeição é uma noção ontológica em torno de completude como sendo “uma reunião de todas as disposições sujeitas a uma unidade harmoniosa”. O perfeito é completo, um manancial de ações potenciais. A perfeição é uma ideia, uma condição que pode ser alcançada, mas não deve necessariamente ser almejada se é a ética do homem. Na linguagem profissional, perfeição pode ser definida não como assunção dialética. Mas como alguém que apresenta limites, mas que esses seus limites são ofuscados pelas suas qualidades, fazendo com que eles se tornem invisíveis aos olhos das outras pessoas. O ato humano per se individual perturba a calma organização do mundo ético, e seu tranquilo desenvolvimento social.

            Uma Canção de Gratidão (Unsung Hero) tem como representação social um filme dramático cristão norte-americano de 2024, escrito e dirigido por Richard Ramsey e Joel Smallbone. O filme Unsung Hero foi lançado na América do Norte em 26 de abril de 2024. Recebeu críticas mistas e arrecadou US$ 21,1 milhões nas bilheterias. A trama dramatúrgica acompanha Rebecca, Joel e Luke Smallbone, da banda For King & Country, em processo de desenvolvimento e formação em sua jornada para se tornarem artistas cristãos. Anteriormente reconhecido como Joel & Luke e Austoville, é uma dupla de pop cristão composta pelos irmãos Joel, nascido em 5 de junho de 1984 e Luke Smallbone, nascido em 22 de outubro de 1986. Os irmãos são naturais da Austrália e imigraram para os Estados Unidos da América quando crianças, estabelecendo-se na área de Nashville. Após lançar um EP curto como Joel and Luke, eles lançaram seu álbum de música de estreia: Crave, em 2012. A banda foi declarada pela Billboard como um dos “Novos Artistas para Ficar de Olho” de 2012. A American Songwriter os descreveu como “a resposta australiana ao Coldplay”. Em 2014, eles lançaram seu segundo álbum de estúdio, Run Wild. Live Free. Love Strong, que ganhou um prêmio Grammy. Em 2018, lançaram Burn the Ships, que alcançou o status de ouro pela Associação Americana da Indústria de Gravação (em inglês: Recording Industry Association of America) – RIAA, uma organização comercial, sediada em Washington, D.C., que representa as gravadoras e distribuidores estadunidenses.                                             

Possui o objetivo merceológico de promover a vitalidade financeira dos negócios dos associados. Seus membros consistem em gravadoras e distribuidores, responsáveis em média por 85% das músicas gravadas legalmente nos Estados Unidos. A associação é conhecida popularmente por sua tradicional certificação de álbuns e canções ouro e platina nos Estados Unidos e também participa do gerenciamento de direitos coletivos de gravações. O álbum contou com três singles, incluindo “God Only Knows”, que alcançou o status de platina, e “Joy” e “Burn the Ships”, que alcançaram o status de ouro. Em 2020, lançaram um álbum natalino completo, A Drummer Boy Christmas. Em 2022, lançaram seu quinto álbum de estúdio, What Are We Waiting For? A banda demonstrou um apelo considerável na mídia mainstream, com mais de 2 bilhões de streams de sua música em 2024, e apresentações em eventos de concertos seculares como o CMA Country Christmas e o Houston Rodeo. Eles colaboraram com outros artistas em seu trabalho, incluindo Dolly Parton, Timbaland, Tori Kelly, Lecrae, CeCe Winans e Needtobreathe. Além da música, a banda esteve no centro de vários filmes (cf. Bourdieu, 1974), incluindo Priceless, Unsung Hero e o recente documentário No Turning Back, que compartilham títulos e temas com três de suas canções, bem como o filme musical Journey to Bethlehem. Um filme produzido por eles, chamado Drummer Boy, tem previsão de lançamento para 2026.

Em 1991, a família Smallbone mudou-se de Sydney, Austrália, para Nashville, Tennessee, em busca de um novo começo. Nashville é a capital e também a cidade mais populosa do estado norte-americano do Tennessee. É a sede do condado de Davidson, e localiza-se no centro do estado, nas margens do rio Cumberland. Com quase 690 mil habitantes, de acordo com o censo nacional de 2020, é a 21ª cidade mais populosa dos Estados Unidos e uma das cidades mais importantes na região sul do país. Quase 10% da população total do Tennessee vive em Nashville. Apelidada de Music City, U.S.A. (Cidade da Música), é um centro importante da indústria discográfica. Também é chamada a Atenas do Sul, por causa das suas várias instituições de ensino e da arquitetura clássica. Embora Nashville seja conhecida como um importante centro da indústria discográfica, as suas maiores indústrias são na realidade a assistência médica, a publicação, a financeira e o transporte. Foi fundada no dia de Natal de 1779, tendo como nome Fort Nashborough e tornou-se capital em 1843. Foi nomeada em homenagem a Francis Nash (1742-1777), um soldado da Revolução Americana. Em 1784 passou a chamar-se, Nashville. É cruzada por três rodovias: 40, 24 e 65. A Metropolitan Transit Authority é a responsável pelo serviço de mobilidade de autocarros dentro da própria cidade. Além disso, a cidade é servida pelo Aeroporto Internacional de Nashville.

            Na música a própria diferença entre cordas vocais ainda se faz mais saliente. Para certo número de autores especialistas, a função humana esfincteriana da laringe situa e igualmente categoriza o sentido da função respiratória. Ambas são, biologicamente, as mais importantes da laringe na escala filogenética as mais antigas, em relação àquela da fonação. A laringe é um órgão em forma de cone que se localiza na região anterior do pescoço. Ela permite a passagem do ar quando respiramos e também impede que corpos estranhos adentrem as vias respiratórias inferiores, causando infecções nos pulmões. A função esfincteriana na laringe é ser protetora das vias aéreas inferiores pela ação de dois conjuntos de esfíncteres: o superior, constituído pela epiglote, pregas ariteno-epiglóticas e aritenóides; e o inferior, formado pelas bandas ventriculares ou cordas vocais verdadeiras. Ambas, em conjunto, atuam e desempenham pontos de apoio aos músculos abdominais, intercostais e diafragma, correlacionando com os esforços da defecação, do trabalho de parto, tosse, espirro e suporte para os membros em torno da bacia escápulo-umeral, segundo suas ações primárias em abdutores, adutores, flexores, extensores e rotadores. As características de dinâmica da laringe são as de impedir a entrada de alimentos ou corpos estranhos nas vias aéreas inferiores e franquear sua passagem.

            A música se relaciona com vários aspectos sociais e culturais dos Estados Unidos, em termos da estrutura social e seus significados nos aspectos étnicos e raciais, religiosos, linguísticos, de gênero, assim como aspectos sexuais. Este relativismo permitiu ao antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) criticar não só o pensamento evolutivo mal elaborado do século XIX, mas também versões mais sofisticadas de neoevolucionistas como ocorre nestes com o reconhecido antropólogo norte-americano Leslie White (1900-1975). Foi um antropólogo dos Estados Unidos, reconhecido por suas teorias quanto à evolução cultural (2009). Mas trata-se de um evolucionista recente que preconiza o regresso à chamada “culturologia”, isto é, elabora generalizações relativas à compreensão da evolução cultural. No entanto, a sua obra neoevolucionista teve poucos seguidores na antropologia atual. Renovou o interesse extraordinário da antropologia de Edward Tylor (1832-1917). Este havia tentado restabelecer o evolucionismo isento de juízos de valor “estabelecendo uma linha de progresso a partir de critérios objetivos, como a capacidade de utilizar e armazenar energia”. Claude Lévi-Strauss aceita a possibilidade em tese de situarmos as sociedades em uma sequência deste tipo social, mas adverte que ainda está se usando uma das obsessões da nossa civilização ocidental - a energia - para julgar analogamente outras sociedades, comparativamente, para as quais nem sempre ou de fato, este não é um valor condicionalmente importante. No século XIX, um  avivamento de fervor religioso ecoou entre pessoas nos Estados Unidos, especialmente na região Sul.

Hinos protestantes escritos na maior parte por pregadores religiosos da Nova Inglaterra, uma região geográfica extraoficial de grande valor histórico dos Estados Unidos, localizada na ponta Nordeste do país e que compreende seis estados: Connecticut, Maine, Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island e Vermont. Boston é seu centro cultural e econômico, bem como sua cidade mais populosa que se tornara na prática, parte dos encontros campestres entre cristãos devotos do Sul. Ipso facto comparativamente o desenvolvimento da música negra nos Estados Unidos da América, independentemente da África e da Europa, tem sido um tema constante no estudo da história da música americana. Existem poucos registros da era colonial, quando estilos, canções e instrumentos da África ocidental se mesclaram no caldeirão da escravidão. Os Estados Unidos da América são bem reconhecidos por ser um “caldeirão” de músicas, com influência de várias partes do mundo e criando novos estilos culturais distintos dos outros. Embora os aspectos da música americana terem uma origem específicas, a origem de culturas particulares de músicas é problemática, devido à constante evolução da música americana de transplantar técnicas, instrumentos e gêneros. Elementos da música estrangeira entraram tanto pelos canais formais de patrocínio de eventos educacionais e de evangelismo por indivíduos e grupos musicais, por processos formais, como no transplante da música africana através do trabalho compulsório da escravidão, e da música irlandesa de homens brancos, admitida pela imigração específica de trabalho. As músicas norte-americanas mais distintas são resultado das misturas culturais espetaculares de contatos sociais. A escravidão aculturou inúmeras tribos resultando em uma tradição musical compartilhada que foi enriquecida com elementos étnicos e sociais de músicas e técnicas ancestrais indígenas, latinas e europeias em seu conjunto de práticas e saberes.     

A ética disciplinar, a religião e etnias diversificadas produziram vários gêneros de francês-africano, como na Louisiana creoles; nativas, como as músicas europeias e mexicanas unidas, e outros estilos como as músicas havaianas. Os ancestrais da população afro-americana foram traficados aos Estados Unidos da América como escravos, trabalhando primariamente nas plantações do Sul. Eles pertenceram às centenas de tribos através do Oeste da África, e trouxeram certos traços da música diversificada africana incluindo vocais chamadas e resposta e música rítmica complexa, como também as batidas síncope e acentos variáveis. A música da África tem como escopo canto e danças rítmicos trazidos para o chamado Novo Mundo, e aonde se tornou parte de uma cultura “folk” distinta que ajudou os africanos a “reter a continuidade com seu passado através da música”. Os primeiros escravos afro-americanos ou afrodescendentes cantavam músicas de trabalho, “gritos de campo” em louvor ao senhor, seguindo os rituais da cristianização, hinos. Quando negros começaram a cantar adaptações destes hinos, foram chamados exatamente de “espirituais negros”. E desta raiz, de mimetismo sociológico originam-se um processo comunicativo em que músicas espirituais, de trabalho e cantos de campo, onde o blues, jazz e o gospel se desenvolveram. No dia 13 de junho é celebrado do Dia Mundial do Rock, e  nos surge à mente abstrata ícones pop do ritmo. Mas a data marca a apresentação global do Live Aid, em 1985, um megaevento mundial, realizado no Wembley Stadium, em Londres; e no John F. Kennedy Stadium, na Filadélfia, que teve o objetivo de chamar a atenção para o problema da fome na Etiópia.

Não é muito certo quão antiga é a palavra Etiópia, cujo uso mais velho aparece na Bíblia em Gênesis, capítulo 2. E também na Ilíada, onde o nome aparece duas vezes, e na Odisseia, onde aparece três vezes. O uso mais antigo atestado na região é um nome cristianizado do Reino de Axum no século IV, em escrituras de pedra do Rei Ezana. O nome ge`ez ʾĪtyōṗṗyā e seu cognato português são considerados por estudiosos derivados da palavra grega Αἰθιοπία, Aithiopia, de Αἰθίοψ, Aithiops “um etíope”, derivado, por sua vez, de palavras gregas que significam “de rosto queimado”. No entanto, O Livro de Axum, uma crônica em ge`ez compilada no século XV, alega que o nome é derivado de “Ityopp`is” — um filho (não mencionado na Bíblia) de Cuxe, filho de Cam, quem, de acordo com a lenda, fundou a cidade de Axum. Plínio, o Velho alega, igualmente, que o nome da nação deriva de alguém cujo nome foi Aethiops. Uma terceira etimologia, sugerida por pesquisadores etíopes recentes e o poeta laureado Tsegaye Gabre-Medhin, condiciona o nome às palavras “egípcias, velhas e negras”: Et (Verdade ou Paz), Op (Alto ou Superior) e Bia (Terra ou País), sendo Etiópia a “terra de paz superior”. No português e fora da Etiópia, o país também foi historicamente chamado de Abissínia, derivado de Habesh, uma forma árabe do nome etíope-semítico Ḥabaśāt, atualmente Habesha, o nome nativo para os habitantes do país enquanto o país era chamado de Ityopp`ya. Em poucas línguas, Etiópia ainda é referido por nomes cognatos com Abissínia, por exemplo, à palavra árabe Al-Ḥabashah, que significa terra do povo Habasha.

Ipso facto, o termo Habesha, a rigor, se refere somente aos povos Amhara e Tigré-Tigrínio, que em seu devir dominaram o país politicamente, os quais juntos representam cerca de 36% da população humana da Etiópia. Algumas vezes, o termo é usado para designar os quase 45% da população etíope que usaram línguas semíticas desde tempos antigos, como os amáricos (30,1% da população), os tigrés (6,2%), os gurage (4,3%) e outras comunidades menores que falam línguas semíticas, como o povo Harari no sudeste da Etiópia. Desde que a língua amárica tornou-se o idioma oficial do país, muitos da população da Região das Nações, Nacionalidades e Povos do Sul (RNNPS) e uma porção significante das regiões Oromia e Benishangul-Gumuz usaram-na como segunda língua. Em contraste, na Etiópia contemporânea, a palavra Habesha é frequentemente utilizada para descrever todos os etíopes e eritreus. Abissínia pode estritamente se referir à apenas as províncias do Noroeste da Etiópia de Amhara e Tigré, bem como a Eritreia central, enquanto ela historicamente foi utilizada como um outro nome para a Etiópia. A Etiópia também foi conhecida por ser considerada a terra dos cuxitas. O nome foi originalmente derivado do hebreu, para referir-se às nações da costa leste do Mar Vermelho. No entanto, a Bíblia é clara ao alegar que os povos cuxitas são atualmente etíopes. Quando Moisés referiu-se ao povo de Cuxe, ele se referia a uma nação parente dos egípcios. Por causa das relações políticas próximas do Egito e a Etiópia, ambas as nações, em um ponto da história sob o termo Cuxe, concordaram com os historiadores hebreus.

Embora as intenções originais da palavra eram em referência a ambos os lados do Mar Vermelho, ficou demonstrado que partes da costa Leste não são pertencem aos etíopes. A consciência ética está realmente decidida por uma dessas potências, é essencialmente caráter. Como vê o direito somente de seu lado, e do outro, o agravo, a consciência que pertence à lei divina enxerga, do outro lado, a violência humana contingente. Mas a consciência, que pertence à lei humana, vê no lado oposto à obstinação e a desobediência do ser-para-si interior. Os mandamentos do governo são, com efeito, o sentido público universal, exposto à luz do dia; mas a vontade da outra lei é o sentido subterrâneo, enclausurado no interior, que em seu ser-aí se manifesta como vontade da singularidade, e que, em contradição com a primeira, comparativamente, lei é o delito. Assim, surge na consciência a oposição entre o sabido e o não-sabido, como também na substância a oposição entre o consciente e o carente de consciência – o direito absoluto da consciência-de-si ética entra em conflito tout court com o direito divino da essência. A efetividade objetiva, tem essência para a consciência-de-si como consciência; mas segundo sua substância essa consciência-de-si é a unidade de si e desse oposto, e a consciência-de-si ética é a consciência da substância. O objeto abstrato, oposto à consciência-de-si, perdeu por isso sua significação de ter essência para si. Como desvaneceram as esferas em que o objeto é apenas uma coisa, assim também as esferas em que a consciência solidifica algo de si, e faz, singular, a essência.

Vale lembrar que o interesse especial da paixão é, portanto, inseparável da realização do universal, pois o universal resulta do particular e definido e de sua negação. É o particular que se esgota na luta, onde parte dele é destruída. Não é a ideia geral que se envolve em oposição e luta expondo-se ao perigo, ela permanece no segundo plano, intocada e incólume. Isto pode ser chamado astúcia da razão, porque deixa as paixões trabalharem por si, enquanto aquilo através do qual ela se desenvolve paga o preço e sofre a perda. O fenomenal é que dialeticametne em parte é negativo e em parte, positivo. Em geral o particular é muito insignificante em relação ao universal, os indivíduos são sacrificados e abandonados. A ideia “paga” o tributo e o preço da existência humana e da transitoriedade sociologicamente, não de si mesmo, mas das paixões individuais (os sonhos) e coletivas. Podemos achar tolerável a ideia de que os indivíduos, seus objetivos e suas satisfações sociais sejam assim sacrificados e sua felicidade entregue ao domínio do acaso, a que ela pertence – e que em geral os indivíduos sejam vistos sob a categoria de seus recursos. Este é um aspecto dinâmico de representação da individualidade que devemos recusar a tomar exclusivamente a esta luz, mesmo em relação ao mais elevado, um elemento que absoluto não está subordinado, mas que existe nos indivíduos como essencialmente eterno e divino. Estamos falando da moral, da ética e da religião. 

Por prosperidade pode-se entender muitas coisas – a riqueza, a honra aparente e afins, mas ao falar-se de objetivo em si e por si, o que chamamos de prosperidade ou infelicidade deste ou daquele indivíduo isolado não pode ser visto como elemento essencial na ordem racional do universo. Com mais razão do que a simples felicidade ou as circunstâncias afortunadas dos indivíduos, requer-se do objetivo do mundo que os objetivos bons, morais e corretos encontrem aí sua satisfação e segurança realizadas de forma plena. O que faz os homens insatisfeitos moralmente – uma insatisfação de que eles se orgulham – é que não acham o presente adequado à realização de objetivos que em sua opinião são corretos e bons, especialmente os ideais das instituições políticas de nosso tempo. Comparam as coisas como elas são, com seu ideal de como deveriam ser. Neste caso, não é o interesse privado ou a paixão que deseja a satisfação, mas a razão, a justiça, a liberdade. Em seu nome as pessoas pedem o que lhes é devido e geralmente não estão apenas insatisfeitas, mas abertamente revoltadas contra a condição de mundo. Para julgar esses pontos de vista e esses sentimentos, ter-se-ia de examinar as exigências persistentes e as opiniões dogmáticas em questão. Em nenhuma época tanto como na nossa vida privada esse tipo de princípios e ideias gerais se apresentou com tamanha pretensão. Embora as paixões não faltem, a história demonstra uma luta de ideias justificáveis e, em parte, uma luta de paixões e interesses subjetivos sob as pretensões mais elevadas como possíveis. Isto é que tais pretensões são encaradas como legítimas em nome do suposto destino humano praticamente da Razão, têm assim validade como fins absolutos – da mesma maneira que a religião, a moral, a ética, o trabalho.

No amor, nunca é demais repetir, um indivíduo tema consciência de si na consciência do outro, ele vive de maneira altruísta. Nesta renúncia cada um ganha a vida do outro e também a sua, que é uma só com o outro. Contra tal unilateralidade tem a efetividade uma força própria: alia-se à verdade contra à consciência, e lhe mostra enfim o que é a verdade. Mas a consciência ética bebeu, da taça da substância absoluta, o olvido de toda a unilateralidade do ser-para-si, de seus fins e conceitos peculiares; e por isso afogou, ao mesmo tempo, nessa água do Estige toda essencialidade própria e significação independente da efetividade objetiva. É, portanto, seu direito absoluto que, agindo conforme à lei ética, não encontre outra coisa nessa efetivação que o cumprimento dessa lei mesma, e o ato não mostre outra coisa senão o agir ético. O ético, enquanto essência absoluta e ao mesmo tempo potência absoluta, não pode sofrer perversão de seu conteúdo. Fosse apenas a essência absoluta sem a potência, poderia experimentar uma perversão por parte da individualidade, mas essa, como consciência ética, com o abandonar de seu ser-para-si unilateral, renunciou ao perverter. Inversamente, a simples potência seria pervertida pela essência, caso fosse ainda um tal ser-para-si. A individualidade é pura forma da substância, que é o conteúdo; e o agir do pensamento à efetividade, o movimento de uma oposição carente-de-essência, cujos momentos não possuem conteúdo e essencialidade distintos entre si. O direito absoluto da consciência ética é o ato, a figura da efetividade, não seja outro, só o que ela sabe.     

Dois importantes jornais diário de Nashville são o Tennessean e o Nashville City Paper. David e sua esposa, Helen, deixaram para trás suas vidas e seus seis filhos – Rebecca, Daniel, Ben, Joel, Luke e Joshua – buscando refúgio em Nashville após o colapso da empresa musical de David na Austrália, na sequência de um prejuízo de 500 mil dólares com uma turnê de shows que não conseguiu vender ingressos suficientes em meio à crise econômica. À medida que a família se instala na nova casa, enfrenta inúmeros desafios, incluindo dificuldades financeiras e a árdua tarefa de recomeçar a vida em um país estrangeiro. Apesar da incerteza, a fé inabalável de Helen e a determinação de David os impulsionam, incutindo esperança e resiliência nos filhos. Após relutar devido às suas decepções na indústria musical, David ouve a esposa e tenta conseguir um contrato com uma gravadora para sua filha Rebecca, cujo talento vocal é reconhecido pelos amigos. Joel e Luke acabam formando a dupla For King & Country, como vimos, enquanto Rebecca embarca em uma carreira de bastante sucesso como cantora cristã. Música gospel, em português, evangelho ou música cristã ou evangélica, tem como representação um tipo de música composto para expressar a crença, individual ou comunitária, predominantemente cristã, e é considerada também oposição à música profana.

A música gospel é escrita e executada por muitos motivos com motivo religioso ou até cerimonial, ou como um produto de entretenimento para o mercado comercial. No entanto, o tema obrigatoriamente abordado na música gospel é o louvor, adoração ou graças a Deus. Em inglês, “gospel”, derivada do anglo-saxónico “god-spell” faz alusão como ao Evangelho bíblico que narra as “boas novas ao mundo”, a vinda de Cristo ao Mundo, pelos livros dos Evangelhos Canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Uma tradução literal da palavra grega, euangelion, ou seu derivado latino evangelium para o inglês antigo eu- “good”, -angelion “spell”, que significaria “message”, formando assim “god-spell” e depois “gospel”. Traduzindo para Português, “boa mensagem”. Originalmente, no grego Clássico, angelion referia-se a gorjeta que se dava ao mensageiro que entregava uma (eu = boa) mensagem ("o antigo correio"), e assim já dos anos de Cristo a palavra se cunhou no significado de "mensagem". A palavra grega, euangelion é também a fonte do termo "evangelista". Os autores dos Evangelhos Canônicos Cristão são conhecidos como os evangelistas, nos Estados Unidos, o termo gospel é uma referência a trabalhos do gênero de literatura cristã antiga.

Escólio: Antes do primeiro evangelho ser escrito (Marcos, ca. 65-70 DC), Paulo, o Apóstolo, usou o termo euangelion quando ele lembrou ao povo da Igreja de Corrinto: …o evangelho que vos anunciei … (I Coríntios 15:1).[4] Paulo asseverou que eles estavam sendo salvos pelo Evangelho, e ele caracterizou nos termos mais simples, enfatizando a aparição de Cristo após a Sua Ressurreição (15:3-8). O uso extensivo mais cedo de “euangelion” (gospel) para indicar um gênero específico de escrever datas ao Século II: o bispo Justino Mártir, por volta do ano 155, em “1 Apologia LXVI”, escreveu: “… os Apóstolos, nas suas memórias escritas por eles, a qual são chamadas de Evangelhos”. Na Introdução ao Antigo Testamento de Henry Barclay Swete (1835-1917), páginas 456-457, diz: “Euangelion no LXX ocorre somente no plural, e talvez somente no sentido clássico de uma recompensa pelas boas notícias” (II Sam. 4:10; 18:20; 18:22; 18:25-27[8] e II Reis 7:9. No Novo Testamento o termo aparece apropriadamente as circunstâncias das boas novas Messiânica (Marcos 1:1; 1:14), provavelmente derivando este novo significado do uso Euangelion em Isa. 40:9; 52:7; 60:6 e 61:1. No Novo Testamento, o “evangelho” significava a proclamação do poder da salvação de Deus através de Jesus de Nazareth, ou da mensagem do Ágape proclamada por Jesus de Nazaré. Este é o uso no Novo Testamento original por exemplo: Marcos 1:14-15 ou I Coríntios 15:1-9; veja também “G2098 de Strong”. A palavra ainda é usada neste sentido. O gospel representa a música cristã negra nos Estados Unidos da América. Talvez um dos mais velhos estilos da música negra que realmente se aproximou do gospel, foi o negro spiritual, em português, as canções harmoniosas dos “Espirituais dos Negros”.

O que é central desta breve história é a música que fluiu da igreja Afro-americana deu origem a vários estilos musicais como blues que influenciou a música country que constituem o folk contemporâneo, rhythm and blues conhecido como R&B, jazz, soul music , que deram origem ao rock and roll ao hip hop, que deram origem a música pop, e inspirou uma cornucópia de corais modernos, artistas do mercado R&B contemporâneo e o atual gospel contemporâneo (música cristã contemporânea), além de outros estilos musicais do gênero. Alimentado pela gigantesca indústria multibilionária de gravação musical nos Estados Unidos, o “pequeno infante” da música gospel pulou do seu berço humilde e cristão e atravessou as muralhas da igreja para um mercado bem diferente do mundo atual. E, o gospel continua a crescer. De acordo com a revista Norte-americana, gospel Today (2003-2008), sete gravadoras criaram divisões especiais para lidar com artistas gospel; as estatísticas da mesma publicação indicaram que os selos independentes cresceram 50%, e o rendimento das vendas só de música gospel chegou a triplicar nas últimas décadas, de US$180 milhões de dólares em 1980 a US$500 milhões em 1990.

Thomas A. Dorsey (1899-1993), compositor de sucesso tipo There Will Be Peace in the Valley, é considerado por muitos, O Pai da Música gospel. No início de sua carreira ele era um importante pianista de blues, conhecido aliás por Geórgia Tom. Ele começou a escrever gospel depois que ouviu Charles A. Tindley (1851-1933) numa convenção de músicos na Filadélfia, e depois, abandonando as letras mais agressivas de outras canções, não abandonou, contudo, o ritmo de jazz tão parecido com o de Tindley. A Igreja inicialmente não gostou do estilo de Dorsey e não achou apropriado para o santuário, na época. Em 1994, após o seu falecimento, a revista Norte-americana, Score, publicou um artigo com o título: The Father of Gospel Music (“O Pai da Música Gospel”); neste artigo a revista declara que quando Dorsey percebeu, no início de sua carreira com o gospel, que muita gente estava brigando contra a música gospel, ele estava “determinado para carregar a bandeira” a favor do gospel, bem entendido. Assim ele fez. Ele investiu em 500 cópias da canção dele, If you See My Saviour (“Se Você Ver o meu Salvador”) e enviou para diversas igrejas do país. Levou quase três anos para ele conseguir mais pedidos da música e ele quase retornou a tocar o Blues. Mas Dorsey não desistiu e com ajudas de outros bons músicos ele foi em frente. Trabalhou com as cantoras, Sallie Martin (1895-1988) e Willie Mae Ford Smith (1904-1994), escreveu centenas de músicas gospel e testemunhou a sua música subir no púlpito das igrejas - aonde, uma vez, recusaram ela de subir! 

Dorsey fundou a Convenção Nacional de Corais gospel nos Estados Unidos, em 1932, uma organização que ainda existe até hoje na origem da música gospel. Muitos outros novos nomes apareceram. Talvez fossem “prisioneiros de uma velha corrente, mas agora estavam salvos” prontos para alimentar a nova corrente do gospel, como Mahalia Jackson, Clara Ward e James Cleveland. Mahalia Jackson (1911-1972) foi convidada para cantar no televisionado Ed Sullivan Show, minutos antes do eternizado discurso pró-liberdade negra de Martin Luther King (1929-1968), que ele disse as palavras certas na hora certa: I have a dream (“Eu tenho um sonho”). Mahalia acabou sendo a convidada para cantar durante a cerimônia do funeral do Rev. King; talvez, como num toque de mágica, ela escolheu uma canção de Dorsey: Take My Hand, Precious Lord (“Precioso Senhor, Pegue Minha Mão”). Clara Ward (1924-1973) junto ao The Ward Singers, foi uma artista com presença e substância. Sua canção Surely God is Able foi comentada como o primeiro disco de platina após a 2ª guerra mundial (1939-1945). Mas esta informação não pode ser confirmada pois a RIAA mantém que Edwin Hawkins Singers foi o primeiro vencedor do disco de ouro com um gospel, em 1968, com o famoso sucesso, Oh, Happy Day, desde que a RIAA começou a manter as estatísticas sociais nas vendas dos discos, mas Ward influenciou muitos artistas com seu estilo, incluindo nomes como Little Richard e Aretha Franklin, que mantém que Ward era seu ídolo.

James Cleveland (1932-1991): se Dorsey foi aclamado, por muitos das indústrias e seus seguidores, como o pai da música gospel, o cantor Cleveland foi coroado, pelos seus admiradores, “The King of gospel” (“O Rei do gospel”). Ele recebeu nada menos do que quatro Grammys, incluindo um póstumo pelo seu álbum Having Church. Assim como Clara Ward, James Cleveland tinha muita presença com sua audiência. Ele não teve uma reputação de ter uma boa voz, mas ele conseguia agradar a todos que o ouvia. O seu grande feito foi fundar sua organização, em 1967, Gospel Music Workshop of America, considerada a maior convenção de gospel do mundo, com mais de 185 escritórios de representações distribuídos pelos Estados Unidos. O gospel Moderno em sua forma original era geralmente interpretado por um solista, acompanhado de um coro e um pequeno conjunto instrumental. Grandes intérpretes da música norte-americana começaram assim, como cantores de gospel nas igrejas. É o caso de Mahalia Jackson, Bessie Smith e Aretha Franklin, além de Ray Charles e Solomon Burke, entre outros. O gospel foi também se influenciando, assumindo formas às vezes surpreendentes em se tratando de música religiosa. É o caso dos quartetos gospel, surgidos após a Segunda Guerra Mundial, com suas músicas gritadas, com danças e roupas extravagantes. Deste estilo foram influenciados grupos e cantores rock dos anos 1950, desde o extraordinário “Bill Haley & His Comets”, passando por Jerry Lee Lewis, até Elvis Presley nos anos da década de 1960 e Michael Jackson com a música “Will You Be There” na década de 1990.

Desde as décadas de 1980 e 1990 tiveram grande importância os corais e solistas, com destaque para Kirk Franklin e Fred Hammond. Elvis Presley foi um dos maiores divulgadores desse gênero musical durante os meados do século XX. Elvis adorava esse tipo de música, inclusive, tanto quanto rock, blues, R&B, country e música erudita. Desde a década de 1950 ele já incorporava em seus álbuns e canções algumas influências desse gênero tipicamente americano. Como exemplo podemos citar, o acompanhamento vocal do grupo gospel “The Jordanaires”, logo depois, no final da década de 1960 até o começo da década de 1970, vieram os “The Imperials” e durante a mesma década os “The Stamps”, com a participação de J. D. Sumner e até mesmo um grupo vocal feminino de nome “Sweet Inspirations” e de outra cantora chamada “Kathy Westmoreland”. Elvis lançou quatro álbuns gospel: Peace In The Valley em 1957, His Hand in Mine em 1960, How Great Thou Art em 1967, considerado um dos “divisores de águas” em sua carreira e He Touched Me em 1972. Para se ter a real noção do que Elvis representou para o gospel americano, ele ganhou três Grammys por suas interpretações gospel, em 1967, 1972 e 1974. Em 2001 ele entrou para o Hall da fama do gospel, deixando para sempre marcado o seu nome nesse gênero musical americano tão importante e influente. 

Entre os seus sucessos gospel estão, “Peace in the Valley”, “Crying in the Chapel”, sucesso mundial em 1965, a para sermos breves, “How Great Thou Art” entre outras. Muitos o consideram um dos maiores intérpretes desse gênero tipicamente sulista nos Estados Unidos. Escólio: O elenco de Unsung Hero (2024) é formado por Daisy Betts como Helen Smallbone; Joel Smallbone interpreta David Smallbone, marido de Helen; Kirrilee Berger como Rebecca Smallbone, filha de Helen e David; Jonathan Jackson como Eddie DeGarmo; Lucas Black como Jed Albright; Hillary Scott como Luanne Meece; Candace Cameron Bure interpreta Kay Albright, esposa de Jed; Terry O`Quinn como Vovô James, pai de David; Diesel Cash La Torraca como Joel Smallbone, o terceiro filho de Helen e David; JJ Pantano como Luke Smallbone, o quarto filho de Helen e David; Paul Luke Bonenfant como Daniel Smallbone, o primeiro filho de Helen e David; Tenz McCall interpreta Ben Smallbone, o segundo filho de Helen e David; Angus K. Caldwell como Joshua Smallbone, o quinto filho de Helen e David; Beau Wirick como Matt; Don Most como Pierce; Lance E. Nichols como Art Meriweather; Rachel Hendrix como Amy Grant; Roslyn Gentle como “Nana” Jean Francis; Rebecca St. James como comissária de bordo; Kevin Downes de terno.  Em 30 de novembro de 2022, Joel e Luke Smallbone anunciaram pelas redes sociais que haviam realizado um filme com seu irmão Ben sobre sua mãe. O filme foi lançado em 26 de abril de 2024 pela Lionsgate e produzido pela Kingdom Story Company e Candy Rock Entertainment, uma produtora liderada por Candace Cameron Bure, que também atua no filme. O filme foi dirigido por Joel Smallbone, em sua estreia na direção, e escrito por Joel e Richard Ramsey.

O elenco inclui Jonathan Jackson, Bure, Kirrilee Berger, Lucas Black, Terry O`Quinn e Hillary Scott, uma cantora. Os produtores são Justin Tolley, Josh Walsh e Luke Smallbone. O filme foi lançado nos Estados Unidos em 26 de abril de 2024. Estava previsto o lançamento na Austrália em 30 de maio, coincidindo com a turnê musical “Homecoming” do For King & Country pela Austrália e Nova Zelândia. Na preparação para o filme, o For King & Country lançou uma versão atualizada de “Place in this World”, com Michael W. Smith, que lançou a música originalmente em 1991. Em 23 de junho de 2024, Unsung Hero ainda estava em ampla distribuição; nos Estados Unidos da América e Canadá, arrecadou em torno de US$ 21,1 milhões nas bilheterias contra um orçamento de produção de US$ 6,0 milhões. Durante as três primeiras semanas de exibição, esteve no Top 10 nas bilheterias nacionais, atingindo o pico de 2º lugar na primeira semana. No site agregador de críticas Rotten Tomatoes, 61% das 33 críticas são positivas, com uma classificação média de 6,1/10. O consenso do site diz: “Unsung Hero apresenta uma dramatização emocionante de sua história baseada em fatos reais, que é inspiradora o suficiente para compensar sua abordagem morna do drama da vida real”. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 46 em 100, com base em 5 críticas, indicando avaliações “mistas ou médias”. O público pesquisado pelo CinemaScore deu ao filme uma nota média de “A+” em uma escala de A+ a F, enquanto aqueles pesquisados ​​pelo PostTrak deram uma pontuação positiva geral de 96%, com 90% dizendo que definitivamente o recomendariam.

Bibliografia Geral Consultada.

CLAGHORN, Charles Eugene, Biographical Dictionary of American Music. EUA: Parker Publishing Company, 1973; BOURDIEU, Pierre, “Gênese e Estrutura do Campo Religioso”. In: MICELI, Sérgio (Org.), A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974; HIRSCHMAN, Albert, The Passions and the Interests: Political Arguments For Capitalism Before Its Triumph. Princeton: Princeton University Press, 1977; TOURAINE, Alain, La Voix et le Regard. Paris: Éditions du Seuil, 1978; WILLIAMS, Eric, Capitalismo e Escravidão. Rio de Janeiro: Editores Palas, 1978; GENOVESE, Eugene, A Terra Prometida: O Mundo que os Escravos Criaram. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988; BERLIN, Ira, “Time, Space, and the Evolution of Afro-American Society on British Mainland North América”. In: The American Historical Review, vol. 85, nº 1, pp. 44-78, February, 1980; MINTZ, Sidney; PRICE, Richard, O   Nascimento da   Cultura   Afro-Americana:   Uma Perspectiva Antropológica. Rio de Janeiro: Editora Pallas; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2003; BAILYN, Bernard, As Origens Ideológicas da Revolução Americana. Bauru: Editora da Universidade Sagrado Coração, 2003; NORTHUP, Solomon, Doze Anos de Escravidão: A História Real de Solomon Northup. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2014; WEBER, Max, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição. São Paulo: Pioneira Editora, 2003; Idem, Ciência e Política: Duas Vocações. São Paulo: Editora Martin Claret, 2015; BAPTIST, Edward, The Half Has Never Been Told: Slavery and the Rise of American Capitalism. New York: Basic Books Editor, 2014; MARQUESE, Rafael; SALLES, Ricardo (Org.), Escravidão e Capitalismo Histórico no Século XIX: Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2016; AZEVEDO, Mariana Perelló Lopes, Um Mapa Peregrino para Anne Carson. Algumas Entradas em Água Corrente. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Departamento de Letras. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2025; Artigo: “Amazon Prime Vídeo – Uma Canção de Gratidão (Unsung Hero)”. Disponível em: https://www.coelhonocinema.com.br/2026/03/26; entre outros.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Córsega – História Política, Memória & Coletividade Territorial Única.

          A guerra, que desenvolve a força do corpo, simultaneamente tempera a alma”. Pasquale Paoli                                    

        

        Sambucucciu d`Àlandu é uma das figuras importantes na história da Córsega na Idade Média. Entretanto, não se sabe nem a data nem o local de seu nascimento. Ele não é mais mencionado nas fontes depois de 1370; possivelmente morreu de peste ou de causas naturais naquele ano. Acredita-se que ele tenha vindo da vila de Alando, na paróquia de Bozio. Graças aos cronistas corsos da Idade Média, Giovanni della Grossa e Petrus Cyrnæus, sabemos que d`Alandu liderou a revolta antifeudal de 1357 ao lado de outras figuras notáveis. Durante esses levantes populares, todos os senhores foram caçados e seus castelos destruídos, pelo menos temporariamente. Os Corporales (capurali em corso) substituíram os nobres da ilha como a nova aristocracia. Contudo, os senhorios foram restabelecidos no Sul da Córsega, na Terra dos Senhores (A Terra di i Signori) e em Cap Corse. É uma península com aproximadamente 400 km² de área, localizada no Nordeste da ilha da Córsega. Estendendo-se para o Norte em direção à Ligúria, fica a 33 km de Capraia, 83 km de Piombino, 96 km de Livorno, 160 km de Gênova e a menos de 175 km da costa francesa. A ponta Norte do Cabo situa-se ao Sul de uma linha Leste-Oeste que passa por Toulon e um pouco mais ao Sul do que a ilha de Porquerolles, colocando o Norte da Córsega na mesma latitude da parte mais meridional da França continental (Pyrénées-Orientales, ao Sul de Perpignan). Na Antiguidade, o país era chamado de Sacrum Promontorium

         Na Idade Média, tornou-se território de senhorios (San Colombano, Avogari,  etc.). Foi dividido em cantões durante a Revolução. O centro da ilha era chamado de Terra di Comune, ou Terra del Comune, em referência à comuna de Gênova, cujos apoiadores politicamente na revolta se colocaram sob sua proteção. É apropriado traduzir essa expressão como “Terra da Comuna (de Gênova)” e não “Terra do Povo Comum”, como era o caso na historiografia próxima passada da Córsega. Sambucucciu d`Alando tinha um sobrinho com o mesmo nome, que foi nomeado tenente do povo em 1466 pelos habitantes de “En-Deçà-des-Monts”. Colonna de Cesari Rocca, em sua História da Córsega publicada em 1916, relata uma infeliz interpretação dos cadernos de Cirno por Limperani que deu origem ideológica ao mais grosseiro anacronismo que a historiografia registrou e que muitos escritores contemporâneos hic et nunc ainda persistem em reproduzir. “Assim, Limperani datou a existência de Sambucucciu d`Alandu e do movimento popular do qual essa figura era líder (1359) no século XI. Então, incapaz de conter sua imaginação, ele inventou do zero um Sambocuccio, senhor de Alando, que expulsou os Cinarchesi da Córsega (numa época em que sua presença lá é incerta), destruiu as fortalezas dos barões e então, como Licurgo e Sólon, dotou a Terra da Comuna de uma constituição adequada às suas necessidades, provando ser um legislador tão judicioso quanto havia sido um capitão corajoso”.

 Embora Giovanni della Grossa e Cyrnæus concordassem que o movimento de Sambocuccio culminou na ocupação genovesa e no governo de Giovanni Boccanegra, Limperani, cujo texto é repleto de referências, baseou sua nova teoria na autoridade desses dois cronistas. No entanto, seria em vão procurar em suas obras uma palavra sequer sobre Sambocuccio no ano 1000, bem como sobre Sambocuccio o legislador. Limperani tinha “uma mania de corrigir a história, e nota-se, em seus dois volumes, vários exemplos da obliteração de sua previsão”. Cego por uma teoria que atribuía uma constituição comunal à Córsega no século XI, ele encontrou um pretexto para aplicá-la na desordem dos Cadernos de Cirno. A pega de Sambocuccio precedia a de Giudice ali, e isso foi um golpe de gênio de Limperani: ele não considerou que Sambocuccio estava solicitando a intervenção do governador Boccanegra (1359) e que ele próprio iria a Gênova para solicitar o envio de Tridano della Torre (1362). Ele se recusou a notar que o Cirno estava atribuindo a biografia do primeiro (século XIII) ao segundo Giudice (século XV) e que essas transposições poderiam simplesmente ter se originado da transposição das páginas do manuscrito original! “Foi por isso que, sob a influência de Limperani, os historiadores corsos acreditavam com sabedoria adotar de “boa fé” o que consideravam ser a cronologia de Cirneu: Entre Giovanni e Pietro, declara o Abade Galletti, não hesitamos em favorecer este último’. Durante o século XIX, apenas Renucci e Robiquet se conformaram ao texto de Giovanni, que, sendo quase contemporâneo histórico de Sambocuccio, não merecia ser questionado nesse ponto. Todos os outros seguiram o sistema de Limperani.

                                    

Gregori, em sua nova edição de Filippini, inseriu uma cronologia da Córsega que consagrou o mito de Sambocuccio como legislador do ano 1000; encontramos essa cronologia reproduzida em Jacobi, Friess, Gregorovius, Galletti, Mattei, Monti, Girolami-Cortona, todos autores de histórias gerais da Córsega; também no Grand Dictionnaire Larousse e na Grande Enciclopédia, para não mencionar obras de menor importância. O Inventário dos Arquivos Departamentais da Córsega (1906) ainda mantém essa cronologia errônea. Além disso, o mais importante e consciencioso historiador da Córsega, o Abade Rossi, confiando em Limperani, aceitou sem questionar a história de Sambocuccio assim modificada. Em seus Anais da Córsega (1873), o doutor Mattei coletou e classificou cronologicamente um número significativo de registros; em sua obra, Sambocuccio, duplicado, aparece no século XI e no século XIV. Colonna de Cesari Rocca afirma que o papel de Sambucucciu foi ampliado por historiadores modernos que o consideram o libertador do povo e o legislador da Córsega, e conclui: “Não há tradição nem documento que sustente essa opinião, que surgiu no século XVIII, nas condições que descrevemos no início desta obra. O povo o escolheu para liderá-lo contra os senhores feudais; em duas ocasiões, Sambucucciu negociou com a República o envio de um governador e, muito provavelmente, representou o partido popular em Gênova, onde atos notariais atestam sua presença. Na Córsega, ele parece ter servido apenas como conselheiro do governador, cargo que dividiu com outros seis habitantes da ilha”. Sua estátua, criada por Noël Bonardi (1934-20212), fica na saída da vila de Alando, perto do antigo Convento de Alando. Esta obra monumental em granito rosa, pesando 18 toneladas e com 6 metros de altura, foi inaugurada recentemente em 1994.

A Córsega é a quarta maior ilha do mar Mediterrâneo por extensão depois da Sicília, Sardenha e Chipre e a maior ilha da França. Localiza-se a Oeste da Itália, na zona geográfica italiana, constituindo uma coletividade territorial única. É dividida em dois departamentos: Alta Córsega e Córsega do Sul. Separada da Sardenha por um curto trecho do Estreito de Bonifácio, emerge como uma enorme cadeia de montanhas rica em florestas do Mar Mediterrâneo, marcando a fronteira entre a parte ocidental do mar Tirreno e o mar Lígure. É universalmente reconhecida como o berço de Napoleão Bonaparte (1769-1821), que nasceu em Ajaccio, um ano após a ilha ser ocupada pelo Reino da França. Também é o berço de Pascal Paoli (1725-1807), lutador e revolucionário corso. Pasquale Paoli: “Nós nascemos italianos pelo sentimento, mas, em primeiro lugar, nos sentimos italianos pelo idioma, pelas raízes, pelas tradições. Todos os italianos são irmãos para a História e para Deus... Como corsos, nós não queremos ser escravos, nem rebeldes e, como italianos, nós temos o direito de ser tratados como todos os outros irmãos italianos... Nós ganharemos ou nós morreremos (contra os franceses) com nossas armas em nossas mãos... A guerra contra a França há pouco é santa porque o nome de Deus é santo e justo. Aqui em nossas montanhas aparecerá para toda a Itália o sol da liberdade”.

A sua capital e maior cidade é Ajaccio, que também é a capital da Córsega do Sul, enquanto a Bastia geograficamente, a segunda mais populosa cidade da ilha, é a capital da Alta Córsega. Outras localidades importantes são Porto-Vecchio, Borgo, Corte e Calvi. Seu ponto mais alto é o Monte Cinto, com 2.706 metros de altitude. Com cerca de um terço do território protegido como parque nacional, e muito do belo litoral continuando imune do cimento que mudou grande parte da costa mediterrânica, a Córsega, quase despovoada (31 hab./km²), com base da sua economia em boa parte no turismo, pode praticamente duplicar a sua população no verão. A relação não resolvida entre a Córsega e a França, que a governa há 258 anos, manifesta-se não só a partir do apego de seu povo às suas tradições e sua língua (u Corsu, “linguagem poderosa, e o mais italiano entre os dialetos da Itália”, segundo Niccolò Tommaseo), mas por indicadores estatísticos que revelam a crise econômica e social (perene último colocado do país francês por nascimento e emprego) e por seus fortes sociais impulsos de autonomia e Independência, representados pelo nacionalismo corso, que colidem com a constituição francesa.

Na história de Córsega, a geografia e orografia tiveram consequências maiores que em outros lugares. A grande ilha mediterrânea é uma “montanha no meio do mar”, atravessada de noroeste a sudeste por um formidável relevo cujas montanhas superam por vezes os 2,5 km de altitude. O ponto mais alto da ilha alcança os 2706 m no Monte Cinto, cujo pico fica somente a 28 km do mar, mostrando o grande declive da ilha. Esse relevo sempre dividiu Córsega em duas partes à nordeste e sudoeste da ilha: a Alta Córsega, chamada historicamente de “Banda de dentro” pois se encontra antes das montanhas pegando como referência a Itália ou Cismonte, e a Corse-du-Sud, chamada historicamente de “Banda de fora”, além das montanhas ou Pumonte. Os vilarejos que se dispersam pelas montanhas, muitos acima dos 1000 metros de altitude, ficavam no inverno sem ligações com o resto da ilha por conta de nevascas que podem durar até semanas. Isto causava uma barreira que dividia as duas regiões. Além disto, os íngremes vales eram por vezes sem estradas de ligação com outros vales dentro da própria Banda, o que deixava o interior corso com pouca influência com o restante do mundo. 

Se por um lado estas características do terreno deixaram mais difícil o trabalho dos invasores, deixaram bastante lenta a penetração e acostumando os corsos a fazer pequenas guerrilhas para resistir por séculos, contribuíram a deixar baixa a densidade de população e a separar os corsos entre eles. A Alta Córsega, virada para a Península Itálica, sofreu maior influência italiana, que no plano político-social e linguístico, enquanto a parte sudoeste manteve uma originalidade maior, mas tendo um menor progresso político, pelo menos até a invasão francesa. Enquanto as áreas de montanhas tinham uma maior tendência a conservar as tradições locais, as cidades costeiras foram fundadas por invasores. Ocasionando a criação do anarquismo nas aldeias e empurrando a população do interior a fazer “justiça com as próprias mãos”, e a difundir o fenômeno do banditismo (cf. Hobsbawm, 1971). A grande divisão orográfica acabou por criar na ilha fronteiras sociais, linguísticas e de ideais políticos. Tais fronteiras ao longo da história social e política, mesmo com poucas variações, acabaram criando as subdivisões administrativas que permanecem. A grandes dimensões da ilha (quase 8800 km²) mesmo não garantindo autonomia, foi suficiente para criar um desejo de independência nos corsos. Localizada em uma posição estratégica no Mediterrâneo acabou atraindo o interesse em outros povos que chegariam à ilha como comerciantes ou conquistadores. Os fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, pisanos, aragoneses, genoveses e, last but not least, os franceses com o Tratado de Versalhes de 1768 sorrateiramente obrigaram os genoveses a ceder a ilha, e foram os dominadores da ilha, deixando ao povo local poucos períodos de Independência.

Escólio: Devido às glaciações, o nível médio do Mediterrâneo se abaixou e se criaram diversas pontes naturais permitiram a passagem da fauna (e talvez do homem) da península Itálica ao arquipélago sardo-corso, passando pelas ilhas toscanas e atravessando um pequeno trecho de mar. Entre 12 e 14 mil anos atrás, o clima começou a sua evolução e levou o Mediterrâneo à sua forma atual, e a Córsega assumiu o aspecto atual insular. Remontam aproximadamente de 9000 anos as primeiras localidades paleolíticas de pedras e esboços de escultura achadas na Córsega, na região de Porto-Vecchio. Um esqueleto feminino chamado a dame de Bonifácio datado do VII milênio foi achado perto da cidade homônima. O neolítico se concluiu por volta de 1800 na Córsega. Neste período se desenvolveu uma civilização megalítica da que ficam menires. A localidade de Filitosa é reconhecida como patrimônio mundial, se encontra perto de Sollacaro, próximo da foz do rio Taravo. Sempre no Sul, se desenvolveu com a chegada da Idade do Bronze, a civilização Torreana, ligada com a Nurágica na ilha vizinha, a Sardenha. Desta cultura restam numerosas torres com estrutura parecida com as dos nuragues sardos, ainda que menos imponentes. Pela natureza dos achados, da época e da localização destas, acredita-se que tal civilização seria da extensão da desenvolvida na Sardenha.

Melhor organizados e armados, os Torreanos que alguns acreditam ser o antigo povo do mar dos Shardana, ganham dos megalíticos e mandam estes para o Centro e o Norte da ilha. Na mesma localidade de Filitosa restam os traços da destruição cruel do assentamento precedente e um assentamento Torreano no lugar deste. Na Idade do Ferro parece que aconteceu uma progressiva fusão entre os herdeiros das duas civilizações: começa a nascer o povo que os gregos chamarão de Κὁρυιοι, corsos. Também são achadas algumas inscrições fenícias do século IX a.C. que citam o povo do mar chamado krsym, que habitavam a Córsega e parte da Sardenha assentado em Kition (Chipre). Neste período, cada novo invasor expulsa o precedente. Chegam à ilha iberos, lígures, fenícios e gregos, enquanto os indígenas negligenciados na literatura se refugiam nos montes.

Durante as convulsões que acompanharam o fim do Império Romano do Ocidente, a Córsega foi disputada entre vândalos e godos, aliados dos últimos imperadores romanos, até que Genserico assegurou o controle em 469. Durante os 65 anos de dominação, os vândalos desfrutaram do patrimônio florestal da ilha para os estaleiros, e tiveram uma frota que aterrorizou o Mediterrâneo ocidental. A potência vândala na África foi destruída por Belisário, enquanto seu general Cirilo conquista a Córsega em 534, que foi unida ao Império Romano do Oriente. Segundo Procópio, na Córsega restavam menos de 30 000 habitantes. No período sucessivo, godos e longobardos saqueiam a ilha, deixada indefesa pelos Bizantinos, os quais após empobrecerem a ilha devido a um excessivo peso fiscal, não a tinham protegido devidamente. Por outro lado, os próprios Bizantinos tiveram problemas na África com a invasão árabe e, em 713, os árabes realizam as primeiras incursões contra a Córsega. Nesta conjuntura ocorre notável processo de despovoamento da ilha e a formação, perto de Roma, de uma colônia corsa em Porto (Óstia). A Córsega continua ligada nominalmente ao Império romano do oriente até que, em 774, Carlos Magno vence os Longobardos na Itália e conquista a ilha, que passa assim sob a jurisdição dos Francos. Porém, em 806 há novas incursões de mouros, desta vez provenientes da Península Ibérica; mesmo vencidos várias vezes por tropas de Carlos Magno (748-814), estes conseguem estrategicamente tomar o controle por breve tempo em 810.

Foram enfim expulsos por uma Expedição guiada pelo filho de Carlos Magno, porém os mouros não se dão por vencidos e continuam a fazer incursões na ilha. Para tentar acabar com esta situação, em 828 a defesa da ilha foi entregue ao Marquês Bonifácio II da Toscânia (791-838), que conduziu expedições punitivas contra os portos norte-africanos de onde saíram incursões árabes contra o litoral do mar Tirreno; na via de volta Bonifácio construiu uma fortaleza perto da ponta sul da Córsega, fundando o núcleo fortificado da cidade de Bonifácio. A guerra contra os sarracenos, que voltaram bem cedo a fazer ataques, foi continuada pelo filho de Bonifácio, Adalberto, que herdou o compromisso em 846. Os sarracenos permaneceram donos de algumas bases na ilha pelo menos até 930. A Córsega, que nesta altura era unida ao reino de Berengário II, rei da Itália, virou refúgio de seu filho Adalberto em 962, depois que Berengário perdeu o reino para Otão I, o Grande, coroado Rei de Itália em Pavia, em 951. Adalberto conseguiu manter o controle da Córsega e passou-a para o seu filho homônimo, que foi vencido pelas forças de Otão II. Determinou-se então a entrega da ilha à marca da Toscana, ficando o último Adalberto responsável pela Córsega. Nesta época surgiu uma anarquia feudal que viu explodir uma luta entre pequenos senhores locais ansiosos de expandir seus pequenos domínios. Entre estes aparecem os Condes de Cinarca, que se pretendem descendentes diretos de Adalberto e procuram expandir o domínio à ilha inteira. Tal vontade deu origem a batalhas que duraram por séculos: para pôr contraste às ambições dos feudatários, ainda no século XIV Sambuccio d`Alando se colocou à frente de uma Dieta que se opôs às pretensões deles, confinando os senhores na porção Sudoeste da ilha.

Esta receberá o nome de “Terra dos Senhores” (Pomonte) enquanto no restante da ilha se afirma definitivamente um regime que liga entre eles comuns autônomos (ao exemplo do modelo análogo que se aconteceu na Itália desde o século XI). Tal território receberá o nome de “Terra de Comuns” (Cismonte). A divisão durará até ao século XVIII e marcará significativas diferenças no desenvolvimento social, econômico e até linguístico entre as duas partes da ilha, com o Norte mais ligado à Itália e com uma língua mais parecida com a da Toscana. Do ponto de vista de organização, na Terra de Comuns, cada qual dos comuns mais importantes chefiando uma Piave (a paróquia principal) nomeavam através de sufrágio universal, incluindo as mulheres, os representantes chamados “Pais dos comuns”, responsáveis pela administração da justiça e da eleição dos presidentes deles, chamado podestà, que coordenava a operação. Os podestàs das várias Piaves, por sua vez, escolhiam os membros de um conselho superior, chamado “Conselho dos Doze”, responsável das leis e regulamentos estabelecidos na Terra de Comuns. Os “Pais dos comuns”, além disso, elegiam para cada Piave um Chefe, um magistrado responsável pela proteção e pela segurança da população, encarregado de garantir que os mais desfavorecidos não fossem explorados e que fosse mantida justiça para eles. Grande parte das terras dessa região eram consideradas de propriedade da coletividade comunal.

 A total abolição das propriedades comuns, promovida na segunda metade do século XIX pela França, trouxe consequências graves para a economia da Córsega. Em Cinarca (Terra dos Senhores), os barões feudais mantinham as suas prerrogativas, assim como aqueles que controlavam o Capo Corso, e juntos constituíam uma ameaça para o sistema em vigor na “Terra de Comuns. Para fazer frente, em 1020 os magistrados desta última pediram ajuda de Guglielmo Marquês de Massa (1160-1214) da família Malaspina, o qual, descendo na ilha, reduziu a ordem dos barões do Conde de Cinarca e estabeleceu na Córsega um próprio protetorado, para transmitir depois ao próprio filho. Em torno da metade do século XI, todavia, o Papado levantou, na base de documentos falsificados, uma doação por obra de Carlos Magno, o qual havia estabelecido ama reversibilidade do próprio domínio a favor da Santa Sede, a questão da própria soberania na Córsega.

Tal reivindicação achou grande consentimento na ilha, a começar pelo seu clero, e em 1077 os corsos se declararam súbditos de Roma. O papa Gregório VII (1073-1085), em auge da questão das investiduras com o Imperador Henrique IV, não tomou diretamente o controle da ilha, mas passou ao bispo de Pisa, Landolfo, que o encarregou de legado pontifício pela Córsega. Em seguida, o titular da cátedra arcebispal pisana passou a ser também Primado da Córsega (e da Sardenha). Catorze anos depois, o Papa Urbano II (1088-1099) confirmou as concessões do seu predecessor através da bula Nos Igitur. O título de legado pontifício passou então a Daiberto, instalado na cátedra de Landolfo. A assinação como sufragânea dos bispados corsos fez com que o bispo de Pisa assumisse o título de arcebispo. Pisa, com o seu porto, mantinha por séculos (desde a época romana) estreitos ligações com a ilha, expandindo - ao mesmo tempo que a própria potência marítima crescia - a própria influência política, cultural e econômica. Durante a administração episcopal seguiu inevitavelmente a autoridade política dos Juízes da República toscana, destinada em breve tempo a fazer reflorescer a Córsega e marcar profundamente também depois de substancial perda de controle da ilha em seguida a desastrosa derrota sofrida pelos pisanos nas mãos dos genoveses, na Batalha da Meloria em (1284). Apesar de que na atualidade em geral se julgue positivamente o governo da República de Pisa, não faltaram na Córsega motivos de descontentamento.

Parte do clero e dos bispos da ilha não suportava a submissão ao arcebispo de Pisa, ao mesmo tempo que o poder crescente da República de Génova, rival tradicional de Pisa, sabendo do valor estratégico da Córsega, apoiou às reclamações dos corsos no tribunal papal de Roma para obter a ilha em próprio favor. Deste modo, depois de um período durante o qual o papado não adotou uma posição clara, em 1138 Papa Inocêncio II estabeleceu uma solução de compromisso e dividiu a jurisdição eclesiástica da ilha entre os arcebispos de Pisa e de Gênova, assinando o começo da influência lígure na Córsega, sendo ainda mais forte depois de 1195 com a ocupação genovesa de Bonifácio. Os pisanos tentaram por vinte anos, sem sucesso, de recapturar a cidade, até que em 1217 o Papa Honório III tomou o controle da ilha. Porém, a mediação papal não serviu para cessar a briga entre Pisa e Gênova, e com a influência deles, fez repercutir durante todo o século XIII também na ilha a briga entre guelfos e gibelinos que estava acontecendo em toda a Itália. No ambiente desta briga e que já tinha acontecido e que se repetiria muitas vezes mais tarde favorecendo os domínios, os maiorais da Terra de Comuns invocaram a intervenção do marquês Isnardo Malaspina. Os pisanos reagiram estabelecendo um novo conte de Cinarca, e a guerra invadiu a ilha sem que nem o partido genovês nem o pisano puderam ser impostos definitivamente até a batalha de Meloria 1284, inclinado a balança a favor de Gênova que, a partir daquele momento, estendeu a sua influência na Córsega.

A memória da influência pisana permaneceu na toponímia e na onomástica ainda são muito difundidos na Córsega sobrenomes de origem toscana, no idioma local bem toscano principalmente na região de Bastia e de Capo corso e em alguns dos exemplos mais notáveis de arquitetura românica que permaneceu na ilha, igrejas e edifícios públicos: em todas as catedrais de Nebbio, Mariana, San Michele di Murato, San Giovanni di Carbini, Santa Maria Maggiore di Bonifacio, San Nicola di Pieve e de infraestruturas de rodovias, pontes, fortificações e torres. Contudo, até mesmo depois do começo do domínio genovês, Pisa manteve intensas relações com a Córsega, como é demonstrado empiricamente no corpus documental abundante relativo à Córsega que está na Cúria de Pisa, a qual anexara uma escola para seminaristas corsos durante muito tempo. Pouco conhecido, embora significante, é o fato de o Nielluccio, um dos vinhedos mais difundido na ilha semelhante ao Sangiovese da Toscana, a base do vinho corso Patrimônio, ter sido importado pelos pisanos no século XII. Durante aquele tempo ganha também prestígio na Córsega o toscano vulgar, que passa a ser a língua oficial. Pisa também será a primeira da sede universitária seguida por Roma e Nápoles frequentada por corsos. 

Estudaram em Pisa Carlo e Giuseppe Bonaparte, Antonmarchi, médico em Santa Helena de Napoleão, o poeta Salvatore Viale, o higienista Pietrasanta, o doutor de Napoleão III vindo a ser, nos casos de Angeli, Farinola, Pozzo di Borgo e outros a formar parte do corpo educacional e reitoral da extraordinária Universidade de Pisa. Em 12 de junho de 1295, para complicar ainda mais a situação na Córsega, depois da derrota dos pisanos na batalha de Meloria que fez estes perderem o controle da ilha, interveio o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), investindo em favor do rei Jaime II de Aragão (insinuado na briga pela Reconquista) e soberano do novo Reino de Sardenha e Córsega (Tratado de Anagni). Porém, os aragoneses não decidiram atacar a Sardenha até 1324, acabando assim com qualquer desejo dos pisanos de controlar o norte de Sardenha e da Córsega. Durante aquele tempo a Córsega continuou em uma situação de anarquia até 1347, tempo em qual foi convocada uma grande assembleia de Líderes e Barões que, guiada por Sambucuccio de Alando, decidiu-se ficar sob a proteção de Génova e oferecer à república lígure a soberania total na ilha que seria exercitada por meio de um governador. De acordo com esta oferta, a Córsega pagaria tributos regulares a Génova, que em troca ficaria com o custo de proteger a ilha dos ataques repetidos de piratas que continuarão de um modo descontínuo até o século XVIII e garantiria a manutenção das leis corsas e de suas estruturas e alfândegas de governo autônomo local que foi regulado pelo Conselho dos Doze em Cismonte, e para o Conselho dos Seis em Pumonte. Os interesses insulares seriam representados por Génova através de um Oratore.

Naquele tempo toda a Europa estava sendo afetada pela Peste negra que também chegou na Córsega e causou numerosas vítimas no mesmo momento no qual a supremacia genovesa foi afirmada. O acordo entre os Líderes e Barões foi violado e tanto uns como os outros mantiveram conflitos que afetaram a colocação efetiva do domínio genovês na Córsega. Nesta situação o rei Pedro IV de Aragão reivindicou os direitos de soberania da ilha. Então, o Barão Arrigo della Rocca, Conde de Cinarca, aparece em cena, e com o apoio das tropas aragonesas em 1372 assume o controle quase total da ilha, deixando apenas o extremo norte e algumas fortificações marinhas sob controle genovês. Esta vitória levou os Barões do Capo corso a pedir ajuda novamente a Génova, que pensou resolver o problema investindo na ilha uma companhia comercial chamada Maona, formada por cinco pessoas com tentativa de subornar Arrigo, ainda que sem resultados. A Maona especialmente era um consórcio de comerciantes por vezes de caráter familiar que Gênova usou entre os séculos XIII e o século XV, com as funções de governo também nas colônias orientais. Entre as primeiras Maonas esteve a da ilha de Quios, no Egeu, instituída em 1347 e entre os sócios originou a família nobre famosa genovesa dos Giustiniani. Ao continuar as tensões, em 1380, quatro dos cinco sócios da Maona resignaram a Gênova os cargos, deixando Leonello Lomellino a exercitar a função de governador. Com tal cargo, Lomellino fundou, em 1383, a cidade de Bastia, dedicado a transformar o núcleo mais importante do domínio genovês e capital da ilha até a mudança para Ajaccio, depois da invasão francesa no século XVIII.

  

Foi somente em 1401, depois da morte de Arrigo, que a autoridade genovesa foi formalmente restabelecida na ilha, embora Génova naquela época tenha caído nas mãos dos franceses: entre 1396 e 1409, Carlos VI da França foi senhor da República de Génova, que administrou por meio do governador Jean II Le Meingre (1366-1421) chamado Boucicault. Sob o governo destes, em 1407, foi fundado o Banco di San Giorgio, um consórcio potente de credores privados os quais foi dada a administração das rendas do Estado e o governo de numerosas terras e colônias, entre elas a Córsega. Então, Lomellino foi reenviado a Córsega em 1407 como governador por conta de Carlos VI da França e teve que enfrentar Vincentello d`Istria que, depois que obter privilégios da Coroa de Aragão, tinha sido declarado Senhor de Cinarca e tinha contido ao redor sim a Terra de Comuns Bastia incluída, se proclamou Conde da Córsega em 1405. Os esforços de Lomellino não tinham êxito e em 1410 Gênova que tinha recuperado a Independência só controlava Bonifácio e Calvi. Uma revolta interna acabou com a Independência virtual da Córsega: a revolta de um feudatário e do bispo de Mariana fez Vincentello perder o controle da Terra de Comuns e, enquanto ele foi para Aragão para pedir ajuda, os genoveses poderiam completar a reconquista da ilha inteira. 

Porém, o jogo complexo de alianças e inimizades locais não permitiu que esta reconquista fosse durável. A colocar a situação novamente em movimento foi o Cisma do Ocidente e a briga para a investidura papal que acontece em torno ao último papa de Avinhão, Bento XIII, apoiado pelos bispos corsos favoráveis a Génova por um lado, e pelo antipapa João XXIII, apoiado por aqueles favoráveis a Pisa. Vincentello que conseguiu desembarcar na ilha com uma força militar aragonesa, não acha grandes obstáculos e tira proveito das rivalidades cruzadas para assumir o controle facilmente de Cinarca e de Ajaccio. Depois de se aliar com os bispos a favor dos pisanos, aumentou sua influência na Terra de Comuns e construiu o castelo de Corte: em 1419 a influência genovesa na ilha tinha sido novamente reduzida aos núcleos de Calvi e Bonifácio, enquanto Vincentello, com o título de Vice-rei da Córsega, estabelecia a partir de 1420 a sede de seu governo em Biguglia. Nestas circunstâncias, Afonso V de Aragão apresentou-se com uma grande frota no mar da Córsega, com o objetivo de tomar posse pessoalmente da ilha para que passasse a fazer parte do Reino de Sardenha e Córsega. Depois da queda de Calvi, Bonifácio, cidade que sempre teve grande influência genovesa seguiu resistindo animada pelas intrigas dos partidários de Gênova. Durante esse período de tempo, a resistência de Bonifácio fez com que os sitiadores acabassem com o bloqueio da cidade, que, uma vez obteve a confirmação de seus privilégios, se tornou de facto numa espécie de microrrepública independente sob proteção dos genoveses. Pouco depois, o descontentamento devido aos elevados impostos fez estourar uma revolta geral contra Vincentello, que, numa tentativa de se dirigir à Sicília, acabou restando prisioneiro e, conduzido a Gênova como rebelde e traidor, foi decapitado em 27 de abril de 1434.

A luta entre as facções pró-genovesas e pró-aragonesas prosseguiu na ilha, e o Doge genovês Giano di Campofregoso recuperou o controle da Córsega, apoiando-se na maior capacidade artilheira (1441). Com motivo de dita reconquista funda-se e fortifica a cidade de San Fiorenzo (1440). A reação aragonesa levou a luta ao seu ponto culminante. Em 1444 desembarcou na ilha um exército pontifício de 14 000 homens, enviada pelo papa Eugênio IV. Este exército, no entanto, foi derrotado pelas milícias corsas controladas por Rinuccio da Leca, encabeçando uma união que reunia quase todos os Chefes e Barões locais. No entanto, uma segunda expedição saiu vitoriosa, e o próprio Rinuccio morreu em batalha na frente de Biguglia. O ano de 1447 pode considerar-se crucial para o controle genovês da Córsega. Neste ano acede à cadeira papal Nicolau V, natural de Sarzana, na região lígure, e por isso ligado à República de Gênova. De modo imediato fez valer os direitos papais sobre a ilha (cujas principais praças estavam sob controle das tropas pontifícias) e cedeu-os a Gênova. Assim passou-se a um período em que a ilha passa a estar controlada amplamente pela República genovesa excetuando Cinarca, sob controle nominal dos aragoneses mediante o domínio mais concreto dos Senhores locais, e da Terra de Comunas, que mediante uma assembleia de seus chefes, em 1453 decidiu oferecer o governo de toda a ilha ao Banco de San Giorgio, a potente companhia comercial e financeira estabelecida em Gênova em 1407, que o aceita.

Uma vez expulsos os aragoneses de cujo passo pela Córsega ficará o emblema da Cabeça Moura, o Banco de San Giorgio começou uma autêntica guerra de extermínio contra os Barões insulares, cuja resistência organizada termina em 1460, quando os líderes são detentos e mandados ao exílio na Toscana. Ainda teriam de decorrer dois anos de lutas para conseguir submeter por completo a ilha, até 1462, em que o capitão genovês Tommasino da Campofregoso, de mãe corsa, fez valer com sucesso seus direitos familiares para reafirmar o controle total da República também no interior da ilha. Apenas dois anos depois, em 1464, Gênova, e com a Córsega, cai em mãos de Francisco I Sforza, duque de Milão. A sua morte, em 1466, a autoridade milanesa na ilha desvaneceu-se pelas habituais turbulências internas e, uma vez apenas as cidades costeiras permaneceram de modo efetivo sob a tutela das potências continentais. Em 1484 Tommasino da Campofregoso convenceu aos duques Sforza para que lhe confiassem o governo da ilha, conseguindo o controle das fortificações. 

Nesse tempo consegue consolidar o poder interno, aliando-se com Gian Paolo da Leca, o mais poderoso dos Barões insulares. Três anos depois a situação voltava-se a mover. Um descendente dos Malaspina, que já tinham tido relação com Córsega no século XI, Jacopo IV de Appiano, príncipe de Piombino, foi chamado para que interviesse em favor daqueles que se opunham a Tommasino, e assim o irmão do príncipe, Gerardo conde de Montagnano, se proclamou conde da Córsega e, depois de desembarcar na ilha, se apoderou de Biguglia e de San Fiorenzo. Mais que se opor a Gerardo, Tommasino restituiu discretamente as prerrogativas em favor do Banco de San Giorgio, que durante esse tempo refundou e fortificou Ajaccio (1492) perto do lugar da antiga Aiacium romana. A decisão de Tommasino foi criticada por outros membros de sua família e por Gian Paolo da Leca, com razão, já que em quanto o banco terminou com Gerardo, apontou suas armas contra os belicosos barões corsos, aos que não conseguiu submeter até 1511, e isto depois de longa e sangrenta luta. Durante seu governo, o Banco de San Giorgio demonstrou escassa visão política, optando por uma busca do benefício mais imediato em lugar de uma estratégia de integração, e instaurando desse modo um regime colonial.

Aumentou-se o desenvolvimento dos bosques, mas os principais benefícios eram para o Banco, que impunha à ilha umas taxas de tal magnitude que de fato impedia qualquer possibilidade de desenvolvimento local. Ao longo de toda a costa da ilha se reconstruíram e em grande parte se construíram ex novo torres de vigilância e defesa (muitas delas ainda existem hoje em dia) para dispor de um sistema de alerta contra as incursões dos piratas berberiscos, unido às patrulhas marítimas. Apesar de que não se eliminará do todo (permanecerá até o século XVIII), esta praga se controlou, ainda que mais para proteger os interesses econômicos coloniais que para brindar proteção à população corsa, que seguirá sofrendo as sangrentas incursões dos piratas, virtualmente impunes quando atuavam nas zonas de costa, que o banco considerava sem interesse estratégico e econômico. Em grande parte, as instituições locais (entre as que se distinguia por seu realmente avançado conceito político a organização da Terra de Comunas) foram abolidas ou esvaziadas de conteúdo e concorrências concretas. Os notáveis corsos nem sequer puderam gozar por completo dos direitos de cidadania, sem falar de aceder à oligarquia republicana genovesa, que por definição lhes estava fechada. As tentativas de rebelião foram geralmente reprimidas com grande dureza, utilizando com frequência o recurso à pena de morte; ou alternativamente aplicando o princípio de “divide et impera”, manejou habilmente, incitando-as quando era necessário batalhas ou inícios de guerra civil, utilizando esses desencontros para debilitar as forças e o moral dos senhores da ilha e, portanto, prevenir contra alianças que pudessem ocasionar um levantamento geral.

Desenvolveu-se a cultura da vendetta e do banditismo, que cresceram ao invés de acabarem. Tudo isto enquanto em Europa, e especialmente na vizinha Itália peninsular, florescia o Renascimento. Às desgraças políticas uniram-se epidemias de peste e o encarecimento do custo da vida que serviram para que o processo de empobrecimento e “embarbaramento” da ilha, além de exacerbar o ódio dos corsos para o domínio genovês. Durante a primeira metade do século XVI França, que se estava desenvolvendo como estado e potência europeia, começa a colocar os seus peões no Mediterrâneo pelo que manifesta interesse pela Córsega e por Itália. Neste quadro, Henrique II da França concebe um projeto para apoderar-se da ilha, aproveitando a torpeza da política dos genoveses e o ressentimento dos corsos enrolados nos exércitos franceses como mercenários. Depois de assinar em 1553 um tratado de cooperação com o sultão otomano Solimão, o Magnífico, o rei da França garantiu-se não só a neutralidade, senão também a colaboração da frota turca no Mediterrâneo. Só 18 anos depois, em 1571, o avanço turco para Europa deter-se-á na batalha de Lepanto com uma frota multinacional, ainda que dirigida principalmente por Espanha e Veneza, e na que França não participa.

Pouco depois da assinatura do tratado entre Francisco I da França e Solimão, a frota franco-turca apresentou-se ante a costa da ilha e atacou-a, sitiando ao mesmo tempo todas as fortalezas costeiras. Bastia caiu quase sem lutar, enquanto Bonifacio resistiu muito tempo e só cedeu ante a promessa à guarnição de respeitar a vida dos sitiados, promessa que os turcos incumpriram, já que uma vez a cidadela se rendeu toda a guarnição foi massacrada e a cidade saqueada. Cedo caiu toda a ilha, salvo Calvi que seguiu resistindo. Preocupado pela ação francesa, que abria decididamente as portas aos otomanos em pleno coração do Mediterrâneo ocidental, interveio o rei de Espanha e imperador de Alemanha, Carlos V, que a sua vez invadiu a ilha à cabeça de suas tropas e as de Gênova. Nos anos seguintes (os Turcos tinham desembarcado brevemente só em Bonifacio), alemães, espanhóis, genoveses, franceses e corsos lutaram ferozmente pelas fortalezas da ilha. Em 1556, data em que ocorre uma trégua, que deixava momentaneamente a França o controle de toda a ilha, salvo Bastia que, anteriormente tinha voltado a ser conquistada por genoveses e espanhóis. O governo francês conseguiu simpatias entre a população, também graças à ação dos corsos ao serviço da França, entre os que estava, com o grau de coronel, o mercenário Sampiero di Bastelica (1498-1567).

No entanto, em 1559, as conclusões da Paz de Cateau-Cambrésis dispuseram a restituição da Córsega ao Banco de San Giorgio. Os responsáveis do banco procederam imediatamente a impor duros impostos para tratar de ressarcir-se dos gastos de guerra, impostos que grande parte dos corsos se negaram ou estiveram em medida de pagar e, violando o tratado, que previa uma anistia general, procederam a confiscar todos os bens de Sampiero, de sua esposa Vannina d`Ornano (1527-1563), e de outros corsos que tinham servido ao lado da França. Sampiero, estabelecido em Provença, não se deu por vencido e começou a trabalhar para agrupar meio a ele uma parte significativa dos notáveis da ilha enfrentados a Gênova, enquanto paralelamente buscava apoios para seu projeto de separar a ilha da República de Gênova. Dirigiu-se com esse objetivo a Catarina de Médicis, então rainha regente da França depois da morte de seu marido durante os festejos de celebração da Paz de Cateau-Cambrésis (1559). Catarina negou-se a apoiar Sampiero, não querendo se implicar numa operação que reabrisse a longa guerra que acabara de terminar. Não teve mais sorte uma tentativa com Cosme I de Médicis, que queria apropriar-se da Córsega, mas pretendia fazer com ela só mediante tratados com as potências europeias, já que sabia que Toscana não estava em condições de desafiar abertamente aos genoveses.

Fracassada uma posterior tentativa de conseguir o apoio dos Farnésio de Parma, Sampiero, que tinha conseguido credenciais diplomáticas francesas, conseguiu ir pessoalmente ao Norte da África e Constantinopla para suplicar ao Sultão que interviesse para converter a Córsega em província otomana, o que demonstra bem até que ponto Gênova era odiada entre os corsos agrupados ao redor do antigo coronel dos franceses. A missão de Sampiero em Oriente terminou frustrada porque enquanto Cosme I, conhecedor dos projetos do corso para instalar à potência otomana justo em frente à costa toscanas, tinha advertido da iniciativa aos genoveses, cujos embaixadores se tinham adiantado a Sampiero e convencido aos ministros turcos para que recusassem a proposta. Enquanto Sampiero estava em Oriente, sua mulher, Vannina d`Ornano (1527-1563), dona de feudos confiscados por Gênova, tinha de recuperá-los buscando pessoalmente um acordo com a Serenísima República de Gênova. Ao ficar a saber Sampiero destas gestões ao regressar à França, não hesitou em reagir ante o que considerava uma sangrenta traição, matando a um amigo corso que tinha permanecido para cuidar a sua esposa e estrangulando pessoalmente a esposa e às duas damas de companhia que a cuidavam em sua ausência.

Sampiero reivindicou os homicídios como delito de honra debochando deste modo à justiça francesa. Levado por um grande entusiasmo e uma dose de desespero unida às suas vivências pessoais, desembarcou em julho de 1563 com um punhado de seguidores em Propriano, no golfo de Valinco, com o desejo de expulsar aos genoveses da ilha. Enquanto os genoveses uma vez conscientes do nefasto papel político desempenhado pelo Banco de San Giorgio na administração da Córsega, tinham decidido assumir o controle direto a partir de 1562, instalando um governador na ilha. Em muito pouco tempo Sampiero consolidou as alianças antes preparada consolidando um exército de 8000 homens, com o que levou a cabo uma sangrenta série de golpes de mão aos que o governo genovês se opôs tanto pelas armas como animando as rivalidades entre os notáveis ilhéus. Depois de anos de uma guerra caracterizada por uma extrema ferocidade por ambas partes, por matanças, saques, incêndios de colheitas e de populações, os genoveses explodindo o ódio dos familiares de Vannina conseguiram recrutar entre eles sicários que, em 1567 mataram Sampiero pelas costas e levaram sua cabeça ao governador de Gênova. O suposto nome do assassino de Sampiero, Vittolo passou assim a se converter em paradigma do traidor na fantasia corsa popular e ainda hoje guarda esse significado.

A luta prosseguiu durante algum tempo encabeçada por um juveníssimo filho de Sampiero, Afonso, mas os rebeldes corsos, sem a experiente liderança de Sampiero e sem recursos militares, se desanimaram e buscaram a paz, à que se chegou em 1569 com o pacto entre Afonso e o genovês Giorgio Doria. Se chegou também ao final da guerra graças a que, já nos últimos momentos da luta, Gênova parecia ter compreendido que a excessiva dureza mostrada na administração e na exploração da Córsega incitava seus habitantes a se rebelar ante as misérias infligidas, e tinha preparado uma política mais moderada e equilibrada para recuperar o apoio da população. O dispositivo de paz previa uma anistia e a libertação de reféns e prisioneiros, a concessão aos corsos de liberdade de movimento de e para Itália e liberdade para dispor diretamente seus bens, remissão e prorrogação fiscal de cinco anos. Ofereceu-se a Alfonso a restituição dos feudos de Ornano que, confiscados, estavam na origem da tragédia familiar, sempre que ele, junto a seus mais próximos colaboradores, se exilasse, como fez trasladando-se a França. Com intenção de pacificar a ilha de modo duradouro e reconhecer, além dos direitos mais básicos, elementos de autogoverno local significativos, em 1571 Gênova que se tinha voltado a ocupar diretamente da Córsega desde o final da administração do Banco de San Giorgio em 1562, instituiu os Estatutos Civis e Militares que, desde esse momento em adiante, regulariam, ao menos sobre o papel, o direito e a administração na ilha.

Sucessivamente emendados e ampliados, os Estatutos resultaram ser um bom instrumento institucional e, nas partes trasladadas à Constituição Paolina de 1755, seguirão parcialmente em vigor até a conquista francesa (1769). Desde o ponto de vista administrativo Córsega passou a depender a partir desse momento, de uma espécie de ministério especial com sede em Gênova, o Magistrado da Córsega, que rendia contas de suas atuações ante os máximos órgãos da República, a saber: o Maggior Consiglio e o Minor Consiglio. Na ilha residia um governador genovês, ajudado por um Vicário e pelo Conselho dos Doze Nobres, inspirado na instituição similar da Terra de Comunas. O território subdividiu-se em províncias, cada uma das quais chefiada por um comissário com sede em Bonifacio, Ajaccio e Calvi, ou um lugar tenente com sede em Corte ou Aleria, Rogliano, Algaiola, Sartena e Vico. As fortalezas nuns casos consertaram-se e em outros se consolidaram e ampliaram, além de dispor nelas guarnições mais sólidas que no passado. 

Se reorganizaram as Cortes de Justiça e foram dotadas de um complexo aparelho burocrático. A vida pública se reorganização sobre uma cuidada redefinição das comunidades rurais que passaram a ser o núcleo básico do território desde o ponto de vista institucional, fiscal e religioso, integrando a antiga rede das Pievi. Os povos, reunidos em parlamentos, elegiam periodicamente seus Podestás ou Pais do município, responsáveis das funções administrativas e de polícia local, mediante o cargo, também eletivo, de capitão da milícia. As comunidades governavam-se, pois, de modo bastante autônomo, sem intervenção da República, salvo casos excepcionais. Nos povos do interior da ilha esta liberdade de desenvolvimento foi tal que se criou uma classe de notáveis aos que se chamou Principais. Os atos, tanto privados como públicos, isto é, as eleições locais e Grida do governador, se transcreviam nos registros notariais, que eram remetidos de forma regular ao Cancelliere da sede provincial competente e durante um verdadeiro período as autoridades locais puderam enviar representantes próprios ao Governador ou, inclusive, às autoridades centrais em Gênova, para expressar exigências particulares, denúncias por abusos graves ou petições de ajuda em caso de calamidades como a seca. Subdividiu-se o território, desde o ponto de vista fiscal e produtivo, em círculos destinados a frutais e vinhas, tomadas, destinadas a semeia-as, e terras comuns, patrimônio coletivo das comunidades, destinadas a pastos, a cultivos de temporada e hortos, enfim, à coleta de frutos do bosque e da madeira.

Guardas florestais e juízes especializados preocupavam-se de velar por que se respeitassem os Estatutos no tratamento das terras. Definiram-se as leis civis e criminosas, bem como os impostos, que foram bem mais eficientes, apesar de seguir se baseando na talha (imposição direta) e na gabela como o escudo por bota para o vinho, as mermas para outros produtos, o boatico, venda forçada a preço reduzido de cevada e grão às guarnições estabelecidas na ilha e diversos monopólios (o mais importante o da saia) no que diz respeito à imposição indireta. As cidades costeiras, algumas das quais estavam povoadas em sua grande maioria por gente originaria de Liguria em especial Calvi, Bastia e Bonifacio, tinham diversos privilégios com respeito às localidades do interior como isenções fiscais, imunidades especiais), pelo que constituíam um mundo à parte. Sede dos governos provinciais, estas pequenas capitais desenvolveram um patriciado similar ao que se estava desenvolvendo nesse momento em Itália, se enriquecendo tanto com o comércio marítimo e com os benefícios derivados do exercício de funções administrativas unidas ao governo, como mediante os labores de exploração agrícola desenvolvidas nas zonas do interior mais próximas. A classe do patriciado, chamados os Nobres, ainda que em realidade tratava-se de uma burguesia urbana, controlava o mercado do cereal é, o da pesca, o dos empréstimos e o dos artesãos e manufaturas locais.  

Serão precisamente os membros desta classe estamental os que, sempre desejosos de ter maior prestígio e riquezas, encabeçarão no século XVIII a rebelião popular e constituirão a fonte da Córsega independente de Pasquale Paoli (1725-1807), e a seguir o primeiro elemento de legitimação local dos governos franceses. A República, tanto durante o século XVII como no XVIII, recuperou as melhores ideias do Banco de San Giorgio para melhorar o cultivo de cereais nas regiões litorais, o cultivo da oliveira, especialmente em Balagna e o aproveitamento florestal em especial os castanheiros de Castagniccia. A rede de estradas da ilha ampliou-se e melhorou alguns das pontes genoveses ainda seguem em uso, ao mesmo tempo que especialmente no Cismonte e em todas as cidades da costa teve lugar uma intensa atividade de urbanização e reestruturação de edifícios que caracterizou muitos centros históricos cujo aspecto hoje segue marcado pela forte influência do estilo lígure e barroco deste período. Na costa reforçou-se o dispositivo das torres de vigilância e defesa, devido ao recrudescimento das incursões berberiscas, que foram especialmente frequentes e destrutivas nas duas décadas que seguiram à derrota dos turcos em Lepanto em 1571. Isto é normal, já que a pirataria vinha a encher o vazio deixado pela impossibilidade de aceder de outro modo às riquezas que antes dispunham através do comércio e não era acessível devido à derrota de sua frota.

As consequências destas duas décadas de ataques, muito bem documentados e distribuídos ao longo da costa da ilha, foram desastrosas e ocasionaram o despovoamento de muitas zonas nas planícies, num êxodo que não se conhecia desde séculos antes. Como exemplo pode-se citar o caso de Sartena. Em 1540 esta região tinha onze centros maiores que no final de século ficaram abandonados em sua totalidade, se exceptuamos a própria Sartena, que teve que se fortificar e constituiu assim refúgio para toda a população circundante até o século XVIII em que, uma vez passado o perigo, puderam ressurgir os centros menores. Nesse mesmo período a ilha padeceu duas epidemias de peste que constituíram mais adiante um grave obstáculo para poder levar a cabo os planos de desenvolvimento preparados pela República, que apesar de estar bem concebidos sobre o papel não tiveram o sucesso realmente esperado. As dificuldades econômicas mantiveram a emigração dos corsos, que buscaram politicamente falando fortuna no continente, quando muitos servindo como militares ao serviço das potências estrangeiras, desafiando a proibição que nessa linha emitia Gênova, preocupada por esta sangria que dificultava seus planos de desenvolvimento e despovoava os campos. Ademais, dita preocupação estava justificada pela diminuição de erário dos rendimentos fiscais devido à falta de desenvolvimento. Esta míngua nos rendimentos era muito preocupante devido aos problemas financeiros da República, que se tinha arriscado a financiar à coroa da Espanha que, durante o século XVII, deixou de pagar os importantes empréstimos concedidos pelos genoveses nos prazos estipulados, chegando inclusive a se declarar insolventes.

Estas dificuldades minguaram a capacidade econômica de uma República genovesa, já diminuída pela progressiva perda de todas suas colônias orientais a mãos dos turcos e da diminuição do volume de seu comércio com o Levante, devido à concorrência dos franceses, que se uniu a partir do século XVI, à já tradicional concorrência exercida pela República de Veneza. Além de restabelecer a proibição formal de emigrar, imposta de novo aos corsos apesar do que se estabelecia nos Estatutos, Gênova tratou de todos os modos possíveis de impulsionar a revalorização das terras da ilha, instituindo também com esse objetivo a figuração do Magistrado do cultivo e elaborando planos de desenvolvimento que no entanto resultaram ineficazes em sua maior parte, mas de cuja qualidade geral dá depoimento o fato de que bem mais tarde serão copiados pelos franceses em planos similares por outra parte, também ineficazes durante muito tempo. Um dos pontos débeis desses planos se devia ao fato de que se baseavam, mais que sobre a questão da atuação na esfera do Estado que, em contrapartida, tinha dificuldades por seus problemas econômicos, sobre a iniciativa privada mediante um complexo sistema de feudos e enfiteuse que longe de iniciar uma dinâmica positiva acabou erodindo as terras comuns impedindo a disponibilidade plena às comunidades locais e favorecendo o lucro de alguns Principais e Nobres sem que a coletividade tivesse vantagem alguma.

Este fenômeno de expropriação e empobrecimento das comunidades corsas em benefício dos terratenentes ricos se acelerará quando este esquema seja proposto de novo pelos franceses, e acabará ocasionando danos sociais enormes e que desencadearão das rebeliões que, durante meio século, se deram na Córsega depois da ocupação francesa, e que ocasionarão o fenômeno que passará à história social como Banditismo. Neste quadro se implanta a chegada de algumas centenas de gregos originários da Lacônia a região meridional do Peloponeso fugindo do domínio otomano. Depois de dar, com problemas, o consentimento do primado pontifício estes prófugos instalaram-se em 1676 nas terras costeiras a uns 50 km ao Norte de Ajaccio. Na região, telefonema Paomia, os gregos fundaram uma colônia em Cargese que, depois da ocupação francesa, manteve quase até nossos dias seu idioma e algumas tradições originarias, incluindo o rito religioso oriental. O sucesso frustrado dos planos genoveses de desenvolvimento, que acabou por propor a questão agrícola cujas consequências se fazem sentir até nossos dias, no contexto de uma economia ainda marcada por uma exploração substancialmente colonial e de restrição progressiva na prática das escassas liberdades de que gozavam os corsos, considerados de fato súbditos e não cidadãos da República, acabou ocasionando uma crise que se parecia levar a Córsega à ruptura definitiva com Gênova, primeiro de modo gradual e imperceptível, e finalmente com a explosão da revolta a partir de 1729. A longa história dos conflitos e violências que caracterizou a Córsega a partir ao menos da queda do Império Romano, tinha acostumado a seus habitantes a considerar a guerra algo habitual e tinha fato do oficio das armas uma das principais atividades exercidas pelos corsos expatriados para os estados italianos e em muita menor medida para França desde a Idade Média até a Idade Moderna. Percorrendo atenciosamente a lista de nomes dos capitães mercenários italianos, pode-se observar que muitos deles eram originários da Córsega e que, em alguns casos, contavam com batalhões inteiros de corsos.

Entre os destacamentos militares integrados em sua totalidade por corsos que operaram fora da ilha destaca a Guarda Corsa papal, que exerceu suas funções durante vários séculos. Apesar da pouca fiabilidade dos documentos, normalmente data-se em 1378, coincidindo com o final do cativeiro de Avinhão, a fundação em Roma de um corpo militar composto exclusivamente por corsos com funções de Guarda Pontifícia e de milícia urbana. Não parece que tenha documentos que certifiquem a criação deste corpo militar antes, apesar da presença de uma significativa colônia corsa em Porto (Fiumicino) e depois no Trastevere quando a igreja de San Crisogono foi basílica sepulcral dos corsos, certificada ao menos desde o século IX e de fato socialmente não se pode excluir uma presença organizada de milícias corsas no seio os exércitos papais inclusive muito antes do século XIV, considerando o importante vínculo extraordinário entre Córsega e Roma, cidade da que dependeu a ilha formalmente a partir do século VIII e até sua definitiva entrada na órbita genovesa. A Guarda Corsa que estará ao serviço do Papa durante quase três séculos e precederá em quase 130 anos à instituição em 1506 da Guarda Suíça. Seu final chega depois de um incidente ocorrido em Roma em 20 de agosto de 1662 e é um dos indícios de que os franceses têm a cada vez mais influência na Itália. Em meados do século XVII a presença em Roma de numerosas delegações diplomáticas dos Estados tinha acabado por criar uma situação paradoxal, com respeito às potências maiores, que abusando do conceito de extraterritorialidade, tinham dotado suas embaixadas de autênticas guarnições militares que se moviam armadas por toda a cidade, e levado à transformação de zonas inteiras do centro da cidade em zonas francas, nas que os delinquentes e assassinos de todo tipo encontravam refúgio e impunidade.

O Papa Alexandre VII tratou de remediar estes excessos. O rei da Espanha e os representantes do Império aceitaram reduzir suas milícias, mas o rei da França Luís XIV, em mudança, mandou a Roma o seu primo Carlos III, duque de Créqui, como embaixador extraordinário com uma escolta militar reforçada, que pouco tempo depois teve um grave confronto perto da Ponte Sixto com alguns membros da Guarda Corsa, que patrulhavam as ruas de Roma, especialmente grave porque, inclusive, os militares sem serviço no quartel tentaram assaltar o vizinho Palácio Farnese, sede da embaixada da França, exigindo a detenção dos militares franceses responsáveis do incidente. Produziram-se disparos, no momento em que regressava ao Palácio Farnesio, a esposa do embaixador com numerosa escolta militar. Um pajem da senhora de Créqui foi ferido de morte e Luís XIV aproveitou-se para explorar ao máximo o conflito com a Santa Sé que se tinha iniciado com o governo do Cardeal Mazarino (1602-1661). O Rei Sol retirou de Roma o seu embaixador, expulsou da França o embaixador do Papa, anexou os territórios pontifícios de Avinhão e ameaçou seriamente com a invasão de Roma se o Papa não lhe apresentasse desculpas e não se submetesse a suas petições, que compreendiam a imediata dissolução da Guarda Corsa, a emissão de um anátema contra seu país, o encarceramento como represália de verdadeiro número de militares e a condenação como galeotes para outros muitos, o cesse do Governador de Roma e a construção cerca do quartel da Guarda de uma coluna de infâmia e maldição para os corsos que se tinham atrevido a desafiar a autoridade francesa. Num primeiro momento, o Papa opôs-se e tratou de ganhar tempo, mas a real possibilidade de uma intervenção do exército francês em Roma fez que cedesse. Dissolveu-se a Guarda Corsa para sempre e se encarcerou a alguns de seus membros, foi erguido o monumento infamante, e se desterrou de Roma ao governador. Em fevereiro de 1664 os franceses restituíram os territórios de Avinhão e em julho, em Fontainebleau, o sobrinho do papa, Flavio Chigi, foi obrigado a humilhar-se e a apresentar desculpas de Roma ao rei da França, que quatro anos depois deu permissão para destruir a coluna infamante. Nas negociações Luis XIV tinha visto como ampliar sua influência em Itália, convertendo-se em protetor de alguns príncipes italianos ao obrigar ao Papa, sempre no contexto dos desagravos pelo assunto da Guarda, a devolver Castro e Ronciglione ao Duque de Parma e a indenizar ao Duque de Modena por seus direitos sobre Comacchio.

Bibliografia Geral consultada.

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