sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Terra Fria – Ação Coletiva, Justiça & Interpretação Consciente no Trabalho.

 “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem”. Simone de Beauvoir                         

          

          A Lógica da Ação Coletiva (em inglês The Logic of Collective Action) é um livro escrito pelo economista norte-americano Mancur Olson em 1971 que propõe a utilização de modelos econômicos para a análise dos grupos sociais e da ação coletiva. A tese básica deste extraordinário livro é a de que “mesmo que todos os indivíduos de um grupo grande sejam racionais e centrados em seus próprios interesses, e que saiam ganhando se, como grupo, agirem para atingir seus objetivos comuns, ainda assim eles não agirão voluntariamente para promover esses interesses comuns e grupais” (Olson, 1999). O argumento formal empregado pelo autor para explicar a disjunção entre racionalidade individual e racionalidade coletiva tem como objetivo se contrapor às interpretações academicamente dominantes do comportamento coletivo na década de 1950, classificadas por Olson como pertencendo às “teorias tradicionais dos grupos sociais”. Apropriando-se do método individualista, do princípio da maximização da utilidade marginal da economia neoclássica e do conceito de bens públicos sistematizado por Paul Samuelson, Olson afirma que quando está em pauta um bem público, um benefício caracterizado pela impossibilidade de discriminação entre aqueles que contribuíram para o provimento do mesmo daqueles que não o fizeram, o membro racional, em determinados casos, pode preferir não contribuir para a consecução do bem grupal. Isto porque o ator, mesmo não contribuindo com a consecução do benefício coletivo, poderia, em certas circunstâncias, usufruir de igual modo do bem em questão.

Ainda que os custos da cooperação sejam mais reduzidos do que os benefícios auferidos pelo ator, a deserção na ação coletiva é racional, de acordo com Olson, sempre que o efeito da contribuição de cada indivíduo para a provisão do benefício coletivo não exerce “uma diferença perceptível para o grupo como um todo, ou para o ônus ou ganho de qualquer membro do grupo tomado individualmente”. Como a consequência positiva que cada contribuição individual exerce sobre a produção do bem coletivo não é notada, pelo fato de ser muito reduzida, e essa contribuição envolve custos, é racional que o ator auto-interessado não arque com esses mesmos custos, maximizando assim a sua utilidade. Grupos cujos membros se deparam com essa percepção em relação à contribuição individual dos mesmos para a produção do benefício coletivo são classificados por Olson como latentes. O “dilema da ação coletiva” em grupos latentes tal como formulado por Olson reside justamente nessa ambivalência: na medida em que todos os membros do grupo raciocinam da mesma maneira, isto é, na medida em que procuram maximizar as suas respectivas utilidades às custas da deserção, pelo fato de não notarem, no fim, qualquer acréscimo significativo no nível de provisão do bem coletivo para o grupo como um todo ou para algum membro isoladamente por conta da contribuição individual, o resultado acaba se tornando desastroso do ponto de vista agregado. Do ponto de vista da racionalidade coletiva, todos ganhariam caso houvesse uma cooperação integral.

Porém, de acordo com a racionalidade individual, a deserção não deixa de ser a estratégia que proporciona a recompensa mais vantajosa a cada ator, independentemente dos outros membros do grupo cooperarem ou deixarem de cooperar. Ao contrário da metáfora da mão invisível de Adam Smith (1723-1790) que inverte a moral tradicional atribuindo à busca do autointeresse um caráter positivo em termos sociais, justificando, assim, a própria economia de mercado, para Olson, em situações específicas (aquelas que os economistas do bem-estar chamam de “falhas de mercado”), a mera perseguição do interesse individual do membro, seja ele material ou de qualquer outra natureza, termina produzindo resultados desastrosos do ponto de vista coletivo. Em casos como estes, o bem público não será provido a menos que sejam aplicados incentivos seletivos negativos (como processos de coerção) sobre os membros que não cooperam ou inventivos seletivos positivos (como retribuições individuais materiais ou simbólicas) aos membros que forneceram a sua contribuição para o bem comum. A obrigatoriedade das contribuições sindicais, ou ainda o fornecimento de retribuições materiais individuais aos associados de um sindicato, tal como comparativamente os jornais, espaços de lazer e serviços de assistência jurídica e médica, seriam exemplos comprobatórios da impossibilidade da cooperação se encaminhar de forma voluntária em uma série de situações concretas.                                            

Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, é, simplesmente, mais reconhecida como Simone de Beauvoir (Paris, 1908, Paris, 1986), uma escritora talentosa, filósofa existencialista e feminista francesa par excellence. Escreveu romances, monografias sobre filosofia, política, sociedade, ensaios, uma autobiografia: Mémoires d’une jeune fille rangée (1958) e uma biografia: La Cérémonie des adieux suivi de Entretiens avec Jean-Paul Sartre: août - septembre 1974.  Simone de Beauvoir era a mais velha das únicas duas filhas de Georges Bertrand de Beauvoir, um advogado em tempo integral e ator amador, e Françoise Brasseur, uma jovem mulher de Verdun. Nasceu em Paris como Simone (então um nome pomposo que seu pai gostava) - Lucie (por sua avó materna) - Ernestine (por seu avô paterno, Ernest-Narcisse) - Marie (pela Virgem Maria) Bertrand de Beauvoir (ela foi orientada quando criança a dar seu nome como simplesmente “Simone de Beauvoir”). Era uma criança atraente, mas mimada, teimando para obter o que queria, tendo sido o centro das atenções em família. A mãe não foi uma grande costureira, e as que costurou eram mal ajustadas. Ao crescer, Simone de Beauvoir não tinha amigos, exceto no âmbito familiar a irmã Hélène, que era dois anos e meio mais nova e de quem ela era próxima. Em 1909, o avô materno de Beauvoir, Gustave Brasseur, presidente do Banco Meuse, faliu, jogando toda a sua família em desonra e pobreza.

Georges não recebeu o dote devido por casar-se com Françoise, e a família teve que se mudar para um apartamento menor. Georges de Beauvoir teve de voltar ao trabalho, embora o trabalho não lhe agradasse. A família lutou durante toda a infância das meninas para manter seu lugar na alta burguesia, e Georges dizia frequentemente: “Vocês, meninas, nunca vão se casar, porque vocês não terão nenhum dote”. Beauvoir sempre esteve consciente de que seu pai esperava ter um filho, ao invés de duas filhas. Ele afirmava, “Simone pensa como um homem!” o que a agradava muito, e desde pouca idade Beauvoir distinguiu-se nos estudos. Georges de Beauvoir passou seu amor pelo teatro e pela literatura para sua filha. Ele ficou convencido de que somente o sucesso acadêmico poderia tirar as filhas da pobreza. Hélène tornou-se uma pintora. Do ponto de vista da formação ela se tornou adolescente desajeitada, dedicada aos livros e à aprendizagem, e preferiu ignorar os esportes porque ela não era nada atlética e cada pessoa, socialmente busca determinada coisa e tem uma motivação diferente para se realizar no mundo.  Ela e sua irmã foram educadas no Institut Adeline Désir, ou Cour Désir, “uma escola católica para meninas, algo que era desprezado pelos intelectuais da época”.  

As escolas católicas para meninas eram vistas como lugares onde as jovens aprendiam uma das duas alternativas abertas às mulheres: casamento ou um convento. Sua mãe, que Beauvoir considerava uma intrusa espiando cada movimento seu, frequentou aulas com elas, sentada atrás delas, como se esperava que a maioria das mães fizessem. Lá Beauvoir conheceu sua melhor amiga, Elisabeth Le Coin (ZaZa nas memórias de Beauvoir). Simone amou a escola e se formou em 1924 com “distinção”. Aos 15 anos, Beauvoir já havia decidido que seria uma escritora. Jacques Champigneulle tornou-se seu mentor intelectual e amigo, aquele que sua mãe esperava que fosse cortejá-la e um dia se casar com ela. Geraldine Paro (GéGé) e Estepha Awdykovicz (Stépha) tornaram-se suas amigas. Depois de passar nos exames de bacharelado em matemática e filosofia, estudou matemática no Instituto Católico e literatura e línguas no Instituto Sainte-Marie, e em seguida, filosofia na Universidade de Paris. Em 1929, quando na Sorbonne, Beauvoir fez uma apresentação sobre Leibniz. Lá, ela conheceu outros jovens, incluindo Maurice Merleau-Ponty, René Maheu e Jean-Paul Sartre que sugeriu aos outros dois que Simone, então com 21 anos, fizesse uma apresentação privada de Leibniz para ajudá-los nas provas. Enquanto na Sorbonne, Maheu deu a Beauvoir o apelido que lhe acompanharia ao longo da vida, Castor, dado a ela por causa do trabalho ético do animal. Em 1929, na idade de 21, Beauvoir se tornou “a pessoa mais jovem a obter o Agrégation na filosofia, e a nona mulher a obter este grau”. No exame final, ficou em segundo lugar; Sartre, 24 anos, foi o primeiro, mas ele havia sido reprovado em seu primeiro exame.

O júri do Agrégation discutiu sobre a possibilidade de dar a Sartre ou Beauvoir primeiro lugar na competição.  No final, concederam a Sartre. Sua amizade com Elizabeth Mabille (“Zaza”) foi abruptamente rompida com a morte precoce de Zaza. Simone narrou esse episódio de sua vida, em seu primeiro livro autobiográfico, Memórias de Uma Moça bem-comportada, que é a primeira parte da obra autobiográfica em que critica os valores tipicamente burgueses, onde descreve a sua educação numa família de classe média, sem dinheiro e sem relações sociais, e a sua mudança da vida, graças à literatura, à filosofia e a novas amizades. Move-a um desejo de intervenção filosófica e de que a sua vida seja útil. Sem temor escolher o seu próprio destino e de se tornar alguém. Escolhe a filosofia e com ela uma forma determinada. Logo se uniu estreitamente ao filósofo Jean-Paul Sartre e a seu círculo, dos amigos íntimos (a chamada família) criando entre eles uma relação social polêmica e fecunda, que lhes permitiu compatibilizar suas liberdades individuais com sua vida em conjunto. Na verdade, é difícil caracterizá-los como casal, porque viveram longas relações amorosas cada um com outras pessoas; Beauvoir, por exemplo, teve uma forte relação com o escritor norte-americano Nelson Algren logo após a guerra, e na década de 1950 manteve outra relação duradoura com Claude Lanzmann,  cineasta francês conhecido pelo documentário Shoah (1985) e também Editor chefe da revista Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, e professor da European Graduate School em Saas-Fee, na Suíça.

Em 2009, ele publicou suas memórias sob o título Le lièvre de Patagonie.  No verão, era comum Simone de Claude Beauvoir e Lanzmann viajarem com Sartre e sua amante Michelle Vian, ex-esposa do escritor Boris Vian. Profissionalmente Simone de Beauvoir foi professora de filosofia até 1943 em escolas de diferentes localidades francesas, como os casos de cidades como Ruão e Marselha. Morreu de pneumonia em Paris, aos 78 anos. Encontra-se sepultada no mesmo túmulo de Jean-Paul Sartre no Cemitério de Montparnasse em Paris. Vale lembrar que Sartre em 1924 ingressou na École Normale Supérieure na mesma turma de Paul Nizan, Daniel Agache e Raymond Aron. Curiosamente músico e ator talentoso e sempre disposto a participar de brincadeiras e eventos sociais, Sartre torna-se muito popular entre os colegas na universidade. Os alunos da escola se dividem em grupos de afinidades religiosas, ateus e “carolas”, e claro das facções políticas, socialistas, comunistas, reacionários, pacifistas. Mas Sartre adere aos ateus e aos pacifistas e enquanto Aron e Nizan aderem aos círculos socialistas e comunistas e começa a participar da vida política francesa, o que o leva a manter o individualismo e o desinteresse pela política que conservaria até o fim da Segunda Guerra. No campo filosófico, além de Bergson, passou a ler Nietzsche, Kant, Descartes e Spinoza. Já na escola começa a desenvolver as primeiras ideias de uma “filosofia da liberdade leiga”, tendo como representação a oposição entre os seres e a consciência, do absurdo e da contingência que ele viria a desenvolver posteriormente em suas grandes obras filosóficas. Seu principal interesse é o indivíduo e a psicologia. A singularidade é o que distingue um homem de outros, é o que o torna na ontogênese humana.

A mão invisível tem como representação social um conceito que inicialmente foi introduzido por Adam Smith (1723-1790) em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais, escrito em 1759, invocando a “interferência natural que o mercado exerceria na economia”. Segundo Smith, se a economia for livre, sem intervenção alguma de órgãos externos ou do governo, ela irá regular de forma automática, como se houvesse “uma mão invisível por trás de tudo, fazendo com que os preços dos produtos fossem ditados pelo próprio mercado, conforme sua necessidade”. Na época em que escreveu A Riqueza das Nações, em 1776, Smith estudou os modelos econômicos dos fisiocratas franceses por muitos anos, e, nesta obra, a “mão invisível” é mais diretamente associada à produção e ao emprego de capital em suporte à indústria doméstica. O único uso do termo “mão invisível” encontrado na obra A Riqueza das Nações se encontra no Livro IV, Capítulo II, “Restrições à Importação de Mercadorias Estrangeiras que Podem Ser Produzidas no Próprio País”. A frase exata é utilizada somente três vezes nas escrituras de Smith. Mas economicamente ele pode ter dado dois significados da frase por influência de Richard Cantillon (1680-1734), que desenvolveu ambas as aplicações econômicas em seu modelo do estado isolado. A ideia de comércio e do mercado de troca automática canalizando o interesse próprio para fins sociais desejáveis é a justificativa central da filosofia econômica de laissez-faire, que antecede a economia neoclássica. Nesse sentido, a discordância central entre ideologias econômicas pode ser vista como uma discordância sobre quão poderosa é a “mão invisível”. A mão invisível é uma expressão da economia política usada três vezes na obra de Adam Smith. 

         1. Na História da Astronomia: “Pois se pode observar que em todas as religiões politeístas, entre os povos primitivos como nas épocas mais remotas da Antiguidade, apenas os fenômenos irregulares da natureza são atribuídos ao poder de seus deuses. O fogo arde, corpos pesados ​​descem e as substâncias mais leves voam por necessidade própria; o recurso à mão invisível de Júpiter jamais é considerado nessas circunstâncias. Mas o trovão e o relâmpago, as tempestades e o Sol, esses fenômenos mais irregulares são atribuídos à sua ira”. 2. Na Teoria dos Sentimentos Morais: “Os produtos da terra sustentam quase todas as pessoas que ela é capaz de sustentar. Os ricos escolhem, dentre essa produção, apenas o que lhes é mais valioso e agradável. Consomem pouco mais que os pobres e, apesar de seu egoísmo e rapacidade natural, embora aspirem apenas ao próprio conforto, o único objetivo que buscam obter do trabalho de milhares de pessoas que empregam seja satisfação de desejos vãos e insaciáveis, compartilham com os pobres os frutos das melhorias que fazem. São guiados por uma mão invisível a realizar uma distribuição das necessidades da vida quase idêntica à que ocorreria se a terra tivesse sido dividida em partes iguais entre todos os seus habitantes; e assim, sem saber, servem aos interesses da sociedade e fornecem os meios para a multiplicação da espécie”.

N`A Riqueza das Nações: “Mas a receita anual de qualquer sociedade é sempre precisamente igual ao valor de troca de toda a produção anual de sua indústria, ou melhor, é precisamente a mesma coisa que esse valor de troca. Portanto, como cada indivíduo se esforça, na medida do possível, 1) para empregar seu capital na promoção da indústria nacional e 2) para direcionar essa indústria de modo a produzir o maior valor possível, cada indivíduo necessariamente trabalha para tornar a receita anual da sociedade a maior possível. Na verdade, sua intenção, em geral, não é servir ao interesse público, e ele nem sequer sabe até que ponto pode ser útil à sociedade. Ao preferir o sucesso da indústria nacional ao da indústria estrangeira, ele está pensando apenas em obter maior segurança pessoal; e ao direcionar essa indústria para que seu produto tenha o maior valor possível, ele está pensando apenas em seu próprio ganho.” Nisso, como em muitos outros casos, ele é conduzido por uma mão invisível a atingir um fim que não faz parte de sua intenção; e nem sempre é o pior para a sociedade que esse fim não faça parte de sua intenção. Ao buscar apenas seus próprios interesses, ele frequentemente trabalha de forma muito mais eficaz para o benefício da sociedade do que se tivesse realmente essa intenção. Nunca vi aqueles que, em seus empreendimentos comerciais, aspiravam a trabalhar para o bem comum, realizarem muito bem. É verdade que essa nobre paixão não é muito comum entre os comerciantes, e não seriam necessários longos discursos para curá-los dela.                                               

Escólio: Após um casamento fracassado, Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no Minnesota, Estados Unidos da América, em busca de emprego. Mãe solteira e com dois filhos para sustentar, ela é contratada pela principal fonte de empregos da região: as minas de ferro, que sustentam a cidade há gerações. O trabalho é duro, mas o salário é bom, recompensa o que compensa o esforço. Aos poucos as amizades conquistadas no trabalho passam a fazer parte do dia-a-dia de Josey, aproximando famílias e vizinhos. Incentivada por Glory (Frances McDormand), uma das poucas mulheres que trabalha nas minas, Josey passa a trabalhar no grupo daqueles que penam para arrancar o minério das pedreiras. Ela está preparada para o trabalho duro e, às vezes, perigoso, mas o que não esperava era sofrer com o assédio dos seus colegas de trabalho. Como ao reclamar do tratamento recebido é ignorada, ela decide levar à justiça o caso.

            Terra Fria (North Country) é um filme de drama norte-americano de 2005 dirigido por Niki Caro, estrelado por Charlize Theron, Frances McDormand, Sean Bean, Richard Jenkins, Michelle Monaghan, Jeremy Renner, Woody Harrelson e Sissy Spacek. O roteiro de Michael Seitzman foi inspirado no livro de 2002 Class Action: The Story of Lois Jenson and the Landmark Case That Changed Sexual Harassment Law (Ação Coletiva: A História de Lois Jenson e o Caso Marcante que Mudou a Lei de Assédio Sexual), de Clara Bingham e Laura Leedy Gansler, que narra o caso Jenson contra a Eveleth Taconite Company e o sindicato USW Local 2705, que apoiou os esforços do empregador durante os eventos horríveis e as subsequentes batalhas judiciais. O filme Terra Fria estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 12 de setembro de 2005, antes de ser lançado pela Warner Bros. Pictures em 21 de outubro de 2005. O filme recebeu críticas positivas, mas teve um desempenho contradizendo “o princípio hologramático significa que não apenas a parte está num todo, mas que o todo está inscrito, de certa maneira, na parte”, do esperado nas bilheterias, arrecadando US$ 25,2 milhões contra um orçamento de US$ 35 milhões. Na 78ª edição do Oscar, Theron e McDormand foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz e de Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. Em 1989, Josey Aimes foge do marido abusivo com os filhos, Sammy e Karen.

            Ela retorna à sua cidade natal, na região de Mesabi Iron Range, no Norte de Minnesota, para morar com os pais, Alice e Hank. Hank tem vergonha da filha, que teve Sammy na adolescência com um pai desconhecido: ele acredita que ela é promíscua. Enquanto trabalha em um salão de cabeleireiro, Josey reencontra uma antiga conhecida, Glory Dodge. Ela trabalha na mina de ferro local e Glory sugere que ela faça o mesmo, pois o emprego lá paga seis vezes o seu salário atual. Quando Josey aceita o emprego, seu relacionamento com Hank fica mais tenso. Ele também trabalha na mina e acredita que mulheres não deveriam trabalhar lá, então Josey e seus filhos se mudam para a casa de Glory e seu marido, Kyle. Josey rapidamente faz amizade com várias outras trabalhadoras da mina, mas logo percebe que as mulheres são alvos constantes de assédio sexual e humilhação por parte da maioria de seus colegas homens. Elas, assim como Hank, acreditam que seus trabalhos são mais apropriados para homens. Josey, em particular, é alvo de Bobby Sharp, seu ex-namorado do Ensino Médio. Ela tenta conversar com seu supervisor, Arlen Pavich, sobre o problema, mas ele se recusa a levar suas preocupações a sério. As mulheres sofrem assédio adicional e até mesmo abuso em represália.  

        Depois que Josey rejeita as investidas sexuais de Bobby, ele espalha boatos de que ela tentou seduzi-lo, o que leva sua esposa a repreendê-la publicamente no jogo de hóquei de Sammy que começa a acreditar nos boatos sobre a suposta promiscuidade de sua mãe. Josey leva suas preocupações ao dono da mina, mas suas garantias anteriores de que estava ali para ajudar eram uma farsa. Ao chegar, ela descobre que ele convidou Pavich para a reunião, juntamente com vários executivos. Pearson oferece apenas aceitar sua demissão imediatamente, mas ela recusa. Depois que ele insinua acreditar nos rumores sobre sua promiscuidade, ela sai devastada. Mais tarde, após ser agredida física e sexualmente por Bobby no trabalho, Josey pede demissão. Ela então pede a Bill White, um advogado amigo de Kyle e Glory, que a ajude a entrar com um processo contra a empresa. Ele a aconselha a recrutar outras mulheres para formar uma ação coletiva, que seria a primeira desse tipo. As mineiras, no entanto, temem perder seus empregos e enfrentam ainda mais assédio, então Josey decide prosseguir com o caso sozinha. Ela também descobre que Glory tem esclerose lateral amiotrófica (ELA) e sua saúde está se deteriorando rapidamente. Alice e Hank discutem sobre o processo de Josey e, como Hank ainda se recusa a perdoar a filha, Alice o deixa. Em uma reunião do sindicato, Josey tenta se dirigir aos mineiros para explicar os motivos do processo, mas eles a interrompem e a insultam constantemente, levando Hank a tomar o microfone e repreender seus colegas pelo tratamento dado a Josey e mulheres da mina, recebendo alguns aplausos relutantes.  

Ele e Alice então se reconciliam. No tribunal, o advogado da mineradora tenta usar o histórico sexual de Josey contra ela, com base no depoimento de Bobby de que Sammy é fruto de uma relação sexual consensual entre Josey e seu professor do ensino médio, Paul Lattavansky. Josey então revela que, um dia, depois da aula, enquanto ela e Bobby cumpriam detenção juntos por terem sido pegos se beijando, ela foi estuprada por Lattavansky, o que resultou em sua gravidez de Sammy. O professor está presente na reunião e Hank o ataca. Bill consegue um recesso depois que Josey sai furiosa do tribunal. Sammy continua se recusando a acreditar na mãe e foge de casa, ficando com Kyle e Glory, até que Kyle o convence a reconsiderar. Ele e Josey se abraçam depois de conversarem. Durante o interrogatório de Bobby, Bill o faz admitir que testemunhou Lattavansky estuprando Josey, mas que estava com muito medo de fazer algo a respeito. Glory, que chegou ao tribunal em sua cadeira de rodas e não consegue falar, pede a Kyle que leia uma carta dizendo que ela apoia Josey, embora isso ainda não seja suficiente para se qualificar para uma ação coletiva. Após uma pausa, muitas outras mulheres se levantam, seguidas por familiares e até mesmo vários mineiros que nunca estiveram envolvidos no caso. A mineradora é obrigada a indenizar as mulheres pelo sofrimento e a estabelecer uma política histórica de combate ao assédio sexual no local de trabalho.

Na esfera socioeconômica, domínio da segunda e terceira ocorrências, essa fórmula evoca a ideia de que ações guiadas unicamente pelo interesse próprio podem contribuir para a riqueza e o bem-estar comum. Apesar de sua posição bastante modesta na obra de Smith, essa expressão tornou-se muito popular, a ponto de ser objeto de inúmeros comentários e interpretações, alguns referentes ao seu significado para Smith no contexto de sua época, e a maioria referentes aos seus usos posteriores por outros autores. As diversas interpretações, pelo menos catorze, serão examinadas mais adiante. Uma das razões para a abundância de interpretações reside no fato de Smith ter escrito numa época em que a controvérsia em torno do sistema de otimismo de Leibniz era muito intensa. Isso levanta a questão de se a “mão invisível” seria uma metáfora para algo semelhante a esse sistema. A outra razão para a multiplicidade de interpretações reside em consequências práticas, tanto econômicas quanto políticas; a estas, posteriormente, nos referiremos como as implicações. William Dyer Grampp (2014-2019) identificou nove maneiras de interpretar a mão invisível por pesquisadores: A força que faz com que o interesse de um seja o interesse de outros. É o que Élie Halévy (1870-1937) chama de “harmonização natural dos interesses”. É também a interpretação mais difundida, à qual retornaremos mais tarde. Ela foi notavelmente defendida por Cropsey e Sugden. Uma metáfora para a ideia de consequências não intencionais. Para Grampp (2000), trata-se dos neoaustríacos.

 Vaughn (1987) escreve: “A mão invisível é uma metáfora usada por Smith para designar o princípio pelo qual uma ordem social benéfica emerge das consequências não intencionais das ações individuais dos seres humanos”. Competição. É o que afirma Rosenberg, mas para Grampp, nada no trabalho de Smith apoia esta tese. Bruno partilha desta posição e escreve que “também não pode ser comparada à competição perfeita”. A vantagem mútua da troca. Esta interpretação é a de Frank Knight. Para Grampp, esta ideia já se encontra em Cícero, de quem Smith também poderia ter tomado emprestada uma ou duas ideias sobre os benefícios da divisão do trabalho e do bem-estar material. Uma piada ou uma metáfora irônica. Esta é a interpretação de Emma Rothschild (2001). Um processo evolutivo. Cosmides e Tooby (1994) acreditam que a “mão invisível” é o processo pelo qual os seres humanos adquirem o conhecimento, as habilidades e os hábitos que os levam, ao comprar e vender, a maximizar seus próprios interesses e os de seu país. Para Grampp, esses temas não são estranhos a Smith, mas não têm nada a ver com a “mão invisível”. Uma força providencial. Esta é a interpretação de Jacob Viner, de Spiegel (1979) e de Evensky (1993). A força que restringe as exportações de capital e contribui para a segurança de um país. Interpretação proposta por Persky (1989).

Um dos méritos do artigo de Grampp (2000) é a sua ênfase no forte poder retórico e na capacidade evocativa da expressão “mão invisível”, mostrando que por vezes a interpretamos mais de acordo com a nossa própria compreensão do que com o que Smith realmente escreveu. No entanto, a tipologia de Grampp mistura interpretações a diferentes níveis, e esta é também a sua fragilidade. De fato, enquanto algumas interpretações estabelecem um quadro geral de pensamento ou fazem da “mão invisível” uma metáfora para esse quadro, outras são muito mais técnicas, enquanto outras ainda visam principalmente minimizar o âmbito “realista” da expressão “mão invisível” ou dissociar as diferentes ocorrências econômicas da expressão. Às interpretações inventariadas por Grampp foram acrescentadas as que emanam do próprio Grampp e as, muitas vezes recentes, de economistas e filósofos franceses. Grampp (2000) questiona se as três referências à “mão invisível” encontradas respectivamente na História da Astronomia, na Teoria dos Sentimentos Morais (1999) e em A Riqueza das Nações (1976) constituem um oratório, isto é, se devemos interpretá-las como se todas se referissem ao mesmo princípio, ou se, pelo contrário, são variações sobre um tema não explorado, isto é, se princípios diferentes estão na verdade escondidos por trás das mesmas palavras.

Ele segue um caminho aberto por Macfie (1971). A “mão invisível de Júpiter” e o modelo da “mão invisível” do século XVIII. Macfie, no artigo “A Mão Invisível de Júpiter” (1971), argumenta que a escola escocesa do século XVIII ofereceu interpretações da história semelhantes às de Giambattista Vico (1668-1744), que distinguia entre a Era dos deuses, a Era dos heróis e a Era dos homens. Assim, para Macfie, a “mão invisível de Júpiter” simboliza a intervenção caprichosa e incompreensível dos deuses antigos, ligada à Era da “superstição”. Em contraste, a “mão invisível” está mais alinhada com a ideia de Deus ou do Ser Supremo, tal como se desenvolveu no século XVIII, e serve para preservar a ordem natural. Assim, tornar-se-ia, na Teoria dos Sentimentos Morais e na Riqueza das Nações, o instrumento do “autor da natureza que governa e anima toda a máquina do Universo”. Para este autor, a passagem na Teoria dos Sentimentos Morais, muito mais do que a dos fins não intencionais na Riqueza das Nações, seria um excelente exemplo do esforço de Smith para articular argumentos teológicos, jurídicos e éticos naquilo que seria a sua interpretação do “grande sistema da natureza”. Em Três Variações sobre um Tema Não Explorado (Grampp 2000), este autor vai além de Macfie. Ele distingue três mãos invisíveis diferentes e proclama que continuará a pensar desta forma até que seja demonstrado, com base no que Smith escreveu, que existe uma relação entre elas.

Em seu artigo, ele interpreta a “mão invisível de Júpiter” de maneira semelhante à de Macfie. A mão invisível da Teoria dos Sentimentos Morais claramente lhe apresenta problemas, por pelo menos três razões: é um componente da ordem natural, ele considera o livro “enigmático” (confuso) e, sobretudo, este livro não separa a economia da ética. Ele escreve a este respeito: “O tema da Teoria dos Sentimentos Morais diz respeito a como formamos nossos juízos éticos, o que pode ou não ser de interesse para os economistas”. Ele opta claramente pela segunda solução e parece pensar que os economistas não estão interessados ​​em juízos éticos: “o que lhes interessa é a distribuição de rendimentos, e esse é também um tema do livro”. A mão invisível da RDN, a única que, segundo ele, interessa aos economistas, guia o interesse próprio dos industriais ou comerciantes que não carecem de bom senso e que, depois de calcular a taxa de retorno dos negócios realizados dentro e fora do território nacional, optam, uma vez incluído o prêmio de risco, pelo seu próprio país. Grampp demonstra um desejo de reduzir o papel da mão invisível. Um conceito marginal na obra de Adam Smith? Para Élie Halévy, a mão invisível ocupava de fato um lugar central na obra de Smith. Essa afirmação foi recentemente contestada de forma radical por Emma Georgina Rothschild e, de maneira mais sutil, por Michaël Biziou. Para entender essa oposição, é necessário lembrar que existem duas leituras de Smith: uma conservadora, com Edmund Burke, e outra progressista, com Thomas Paine, Mary Wollstonecraft ou James Mackintosh.

Emma Rothschild traça um paralelo entre Smith e Nicolas de Condorcet e adota um “liberalismo progressista”. Isso pode explicar por que ela minimiza o papel da mão invisível. Lois Jenson, em quem a personagem Josey é baseada, começou a trabalhar na mina EVTAC (de “Eveleth Taconite”) em Eveleth, Minnesota, em 1975 e iniciou seu processo em 1984, quatro anos antes do ano em que o filme começa. O filme condensou a linha do tempo, mas na realidade levou quatorze anos para que o caso fosse resolvido. Jenson recusou uma oferta para consultoria no filme e não quis vender os direitos de sua história; assim, os cineastas criaram um relato ficcional com personagens originais. A personagem Glory Dodge, interpretada por Frances McDormand, foi baseada em Pat Kosmach, uma das autoras originais da ação coletiva. Kosmach morreu durante o processo, em 7 de novembro de 1994. A Eveleth Mines fez um acordo quatro anos depois, em dezembro de 1998, pagando a quinze mulheres um total de US$ 3,5 milhões. O filme foi filmado nas cidades do Norte de Minnesota de Eveleth, Virginia, Chisholm e Hibbing; Minneapolis; bem como Silver City e Santa Fé no Novo México. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2005 e foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Chicago antes de ser lançado nos EUA, onde arrecadou US$ 6.422.455 em seu fim de semana de estreia, ficando em 5º lugar nas bilheterias.

Com um orçamento de US$ 35 milhões, acabou arrecadando US$ 18.337.722 nos EUA e US$ 6.873.453 em mercados estrangeiros, para uma bilheteria mundial total de US$ 25.211.175. No agregador de críticas Rotten Tomatoes, 70% dos críticos deram ao filme avaliações positivas, com base em 174 críticas, e uma classificação média de 6,7/10, com Theron e McDormand recebendo elogios da crítica por suas atuações. O consenso do site afirma: “Embora às vezes melodramático e previsível, Terra Fria é, no entanto, uma história emocionante e poderosa de coragem e humanidade”. No Metacritic, o filme tem uma pontuação média de 68 em 100, com base em 39 críticas. O público pesquisado pelo CinemaScore deu ao filme uma nota média de “A−” em uma escala de A+ a F.  Manohla Dargis, do The New York Times, chamou-o de “um veículo para estrelas com coração – um drama liberal à moda antiga sobre verdade e justiça” e acrescentou: “[Ele] é um daqueles entretenimentos de Hollywood que se esforçam para contar uma história difícil e amarga com o máximo de otimismo possível. O fato de o filme funcionar tão bem, apresentando uma primeira hora difícil apenas para se desintegrar como um jornal molhado, atesta a habilidade dos cineastas, bem como as restrições impostas a eles por uma indústria que insiste em colocar um laço bonito até mesmo na verdade mais sórdida”. Em sua crítica no Chicago Sun-Times, Roger Ebert observou: “Terra Fria é um daqueles filmes que te agitam e te deixam furioso, porque dramatiza práticas sobre as quais você já ouviu falar, mas nunca realmente visualizou. Lembramos que Frances McDormand interpretou uma policial nessa mesma região em Fargo, e valorizamos essa lembrança porque ela fornece uma base para Josey Aimes.

O papel de McDormand neste filme é diferente e muito mais triste, mas traz a mesma coragem e bom senso para a tela. Junte essas duas mulheres (como atrizes e personagens) e elas podem realizar praticamente qualquer coisa. Vê-las fazer isso é uma ótima experiência cinematográfica”. Ruthe Stein, do San Francisco Chronicle, chamou o filme de “um filme envolvente, embora ocasionalmente desnecessariamente complexo... Os primeiros 15 minutos são uma bagunça... Felizmente, [ele] se acalma e se torna extremamente cativante, especialmente nas batalhas do tribunal... tudo é cuidadosamente calculado para efeito dramático e consegue brilhantemente envolver o espectador e provocar lágrimas no processo... Terra Fria teria se beneficiado de uma edição mais concisa. Dura pelo menos 15 minutos a mais do que o necessário... Apesar de todas as suas falhas, [ele] causa um forte impacto emocional e apresenta algumas atuações dignas de reconhecimento na época das premiações”. Na revista Rolling Stone, Peter Travers deu ao filme duas de quatro estrelas possíveis e comentou: “Quaisquer semelhanças entre Josey e Lois Jenson, a mulher real que fez a Eveleth Mines pagar por seus pecados em um processo histórico de ação coletiva em 1988, são mera coincidência. Em vez disso, temos uma fantasia de filme para a TV sobre o empoderamento feminino, revestida de teatralidade de novela. Os atores, a diretora Niki Caro (Whale Rider) e o excelente diretor de fotografia Chris Menges se esforçam para que tudo pareça autêntico.

Mas uma farsa é uma farsa, apesar da ferocidade e da emoção que Theron traz para o papel... Embora a sujeira e a fuligem em Terra Fria sejam aplicadas artisticamente, são puramente cosméticas e superficiais”. Em “Stories from North Country”, um documentário que acompanha o filme no DVD, Lois Jenson, em quem a história é baseada, disse: “Acho importante que as pessoas vejam isso”. Sobre Charlize Theron, Jenson disse: “Ela tem a personagem. [...] Ela conhecia o papel. Ela sabia o que era preciso – a profundidade que precisava alcançar. Ela fez um ótimo trabalho com isso”. David Rooney, da Variety, disse: “[O filme] recorre à manipulação cinematográfica em suas cenas culminantes no tribunal. Mas continua sendo uma história emocionalmente potente, contada com grande dignidade, à qual as mulheres, em especial, se identificarão... O filme representa um próximo passo confiante para a protagonista Charlize Theron. Embora os desafios de suceder um papel que redefiniu sua carreira e lhe rendeu um Oscar tenham frustrado atrizes, Theron transita de Monster para uma atuação, em muitos aspectos, mais bem-sucedida... A força tanto da atuação quanto da personagem ancora o filme firmemente na tradição de outros dramas sobre mulheres da classe trabalhadora liderando a luta por questões trabalhistas na indústria, como Norma Rae ou Silkwood”.

Vale lembrar que Norma Rae é um filme estadunidense de 1979, dos gêneros drama biográfico, dirigido por Martin Ritt. O roteiro é baseado na história real de Crystal Lee Sutton, que liderou uma campanha contra as condições de trabalho oferecidas pela empresa J.P. Stevens Mill. Em 1978, em Hinleyville, uma pequena cidade do Alabama no sul dos Estados Unidos, a maioria da população trabalha em uma indústria têxtil, cujas condições de trabalho são péssimas. Lá também trabalha Norma Rae, uma mãe solteira de dois filhos e que vive com os pais que também são operários da fábrica. De repente, chega de Nova Iorque o sindicalista Reuben Warshowsky, que procura um lugar na casa de uma família para morar. Segundo ele, aquela fábrica é a única no país que não possui um sindicato e ele quer que os trabalhadores se organizem para formar um no local, mas os mesmos resistem pois temem a reação dos patrões. Ele também enfrenta preconceito por ser judeu e na cidade haver predominância da religião Batista. Norma Rae e Reuben acabam amigos e ele passa a influenciá-la para que se engaje na luta sindical. Mesmo admirando Reuben, Rae se casa com o operário Sonny Webster que a ama, mas fica inseguro quando ela se filia à entidade de classe e começa a passar muito tempo com o sindicalista. No St. Petersburg Times, Steve Persall classificou o filme como A e o chamou de “profundamente, inegavelmente comovente... cinema de cruzada no seu melhor”.

Bibliografia Geral Consultada.

HOBBES, Thomas, A Natureza Humana. Prefácio e tradução de João Aloísio Lopes. Lisboa: Editora Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987; COHEN, Ierome Bernard, La Rivoluzione nella Scienza. Milano: Editore Longanesi, 1988; MARÍAS, Julián, A Felicidade Humana. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1989; ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon, “Nova Ordem Política traz o Fim dos Alinhamentos Ideológicos”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/18; VIGARRELLO, Georges, Storia della Violenza Sessuale. Veneza: Marsilio Editore, 2001; MACÉ, Eric (Org.), Penser les Médiacultures. Nouvelles Pratiques et Nouvelles Aproches de la Represéntation du Monde. Paris: Editeur Armand Colin, 2005; RUSSELL, Matt, “Metade de Terra Fria foi filmada no Novo México”. In: Post Bulletin, 20 de outubro de 2005; MANOHLA, Dargis, “Algumas mulheres em uma mina, dando um golpe por todas”. In: The New York Times, 21 de outubro de 2005; Artigo: “Filmes indicados ao Oscar contam histórias reais do ambiente de trabalho”. In: workplacefairness.org. 7 de março de 2006; PERSALL, Steve, “Uma vítima se levanta”. In: St. Petersburg Times. Arquivado do original em 7 de agosto de 2011; EBERT, Roger, “Uma mina de atuações dignas de Oscar”. In: Rogerebert.com, 20 de outubro de 2005; STEIN, Ruthe, “Uma mineira impressionante consegue extrair emoção de uma situação desoladora”. In: San Francisco Chronicle, 21 de outubro de 2005; THOREAU, Henry, Walden, La Vida en los Bosques. Buenos Aires: Parsifal Ediciones, 1989; Idem, A Desobediência Civil. São Paulo: Penguin Classics; Editora Companhia das Letras, 2012; METZ, Christian, A Significação no Cinema. São Paulo: Editora Perspectiva, 2012; DIAS, Janaina Almeida Ortins, Ambiguidade e Liberdade na Filosofia Moral de Simone de Beauvoir. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2016; GRÜNER, Eduardo, Lo Sólido en el Aire: El Eterno Retorno de la Crítica Marxista. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2022; Artigo: “Charlize Theron Fala Sobre Desgaste Físico aos 50: ‘Sinto Falta da Juventude’”. In: https://www.estadao.com.br/emais/gente/25/05/2026; entre outros.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rosalba Neri – Interpretação & Sensualidade, Estrelato na Itália e Espanha.

“Um trabalho tem sentido para uma pessoa quando ela o acha importante, útil e legítimo”. Edgar Morin      

Entre o final do século XIX e o fim da II Guerra Mundial, em 1945, a Itália possuiu um império colonial que estendia seu domínio até à Líbia, Eritreia, Somália, Etiópia, Albânia, Dodecaneso e uma concessão em Tianjin, na China.  A Itália moderna é uma república democrática, classificada como o 24º país mais desenvolvido do mundo e com índice de qualidade de vida entre os dez primeiros do planeta. O país goza de um alto padrão de vida e tem um elevado PIB nominal per capita. A Itália tem a quarta maior reserva de ouro, o oitavo maior PIB nominal, o décimo maior PIB e o sexto maior orçamento público do mundo. A República Italiana tem o nono maior orçamento de defesa do mundo, acesso às armas nucleares da Organização do Tratado do Atlântico Norte e um papel proeminente nos assuntos militares, culturais e diplomáticos europeus e mundiais, o que a torna uma das principais Potências Médias do mundo e uma Potência Regional de destaque na Europa. O país tem um elevado nível de escolaridade pública e é uma nação altamente globalizada. As escavações em toda a Itália revelaram uma presença de neandertais que remonta ao período paleolítico, cerca de 200 mil anos atrás. Os humanos modernos apareceram há cerca de 40 mil anos na região. Os sítios arqueológicos deste período incluem locais como Ceprano e Gravina in Puglia. Civilizações importantes que desapareceram há milhares de anos nasceram na Itália, como a civilização de Nurago, da Sardenha. 

Durante a Idade do Ferro existiram várias culturas que podem ser diferenciadas em três grandes núcleos geográficos, a do Lácio Antigo, a da Magna Grécia e a da Etrúria. Itália, oficialmente República Italiana, é uma república parlamentar unitária localizada no centro-sul da Europa. Ao Norte, faz fronteira com França, Suíça, Áustria e Eslovênia ao longo dos Alpes. A parte Sul consiste na totalidade da península Itálica, Sicília, Sardenha, as duas maiores ilhas no mar Mediterrâneo, e muitas outras ilhas menores ficam no entorno do território italiano. Os Estados independentes de San Marino e do Vaticano são enclaves no interior da Itália, enquanto Campione d`Italia é um exclave italiano na Suíça. O território do país abrange cerca de 301 338 km² e a maior parte do seu território tem um clima temperado sazonal. Com 58,9 milhões de habitantes em 2025, é a quinta nação mais populosa da Europa e a 25ª do mundo. Roma, a capital italiana, foi durante séculos o centro político e religioso da civilização ocidental como capital do Império Romano e como sede da Santa Sé. Após o declínio do Império Romano, a Itália sofreu inúmeras invasões de povos estrangeiros, desde tribos germânicas, como os lombardos e ostrogodos, aos bizantinos, aos normandos, entre outros. Séculos mais tarde, Itália tornou-se o berço das repúblicas marítimas e do Renascimento, um movimento intelectual extremamente frutífero que seria fundamental na formação social subsequente do pensamento europeu. Durante grande parte de sua história pós-romana, a Itália foi fragmentada em vários reinos tais como o Reino da Sardenha; o Reino das Duas Sicílias e o Ducado de Milão, etc. e Cidades-Estado, unificada em 1861, após um período tumultuado da história reconhecido como “Il Risorgimento”. 

Uma dessas culturas, os lígures, foram um enigmático povo que habitava o norte da Itália, Suíça e sul de França. Entre os diversos povos da Antiguidade destacam-se os lígures, os vênetos e os celtas no Norte, os latinos, etruscos e samnitas no centro, enquanto no Sul prosperaram colônias gregas (Magna Grécia), e na Sardenha desde o segundo milênio floresceu a antiga civilização dos sardos. Uma das mais importantes culturas antigas desenvolvidas em solo italiano foi a etrusca a partir do século VIII, que influenciou profundamente Roma e sua civilização, na qual muitas tradições importantes de origem mediterrânica e eurasiática encontraram a mais original e duradoura síntese política, econômica e cultural. Nascida na península Itálica, Roma, um assentamento em um vau no rio Tibre, com fundação convencional em 753. Foi regida por um período de 244 anos por um sistema monárquico, inicialmente com soberanos de origem das tribos latina e sabina, depois por reis etruscos. A tradição conta sete reis: Rômulo, Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo. Em 509 os romanos expulsam o último rei da sua cidade e estabelecem a República Romana. Desde sempre terra de origem e de encontro entre diversos povos e culturas, a civilização romana foi capaz de explorar as contribuições provenientes dos etruscos e de outros povos itálicos, da Grécia e de outras regiões do Mediterrâneo Oriental (Palestina, Síria, Fenícia e Egito). Graças ao seu império, Roma difundiu a cultura heleno-romana na Europa e Norte de África, que foram limites de sua civilização.                                           

A teoria inicial do cinema surgiu durante o período da chamada Era do Cinema Mudo e se preocupava principalmente com a definição dos elementos cruciais do meio de trabalho. Ricciotto Canudo (1877-1923) foi um dos primeiros teóricos do cinema italiano que via o cinema como “arte plástica em movimento”, e deu ao cinema o rótulo de “a Sexta Arte”, posteriormente alterado para “a Sétima Arte”. Em 1915, Vachel Lindsay (1879-1931) escreveu um livro sobre cinema, seguido um ano depois por Hugo Münsterberg (1863-1916). Lindsay argumentou que os filmes poderiam ser classificados em três categorias: filmes de ação, filmes íntimos, e também filmes de esplendor. Segundo ele, o filme de ação era escultura em movimento, enquanto o filme íntimo era pintura em movimento, e o filme de esplendor arquitetura em movimento. Ele também argumentou contra a noção contemporânea de chamar os filmes de fotoplays e vistos como versões filmadas do teatro, em vez de ver o filme com oportunidades nascidas da câmera. Ele também descreveu o cinema como hieroglífico no sentido de conter símbolos em suas imagens. Ele acreditava que essa visualidade dava ao filme o potencial de acessibilidade universal. Münsterberg, observou as analogias entre as técnicas cinematográficas e processos mentais. Ele comparou o close-up com “a mente prestando atenção”.

O flashback, seria semelhante a recordar. Isso foi seguido pelo formalismo de Rudolf Arnheim (1904-2007), que estudou como as técnicas influenciaram o cinema como arte. Cinema mundial é um termo da teoria do cinema que se refere a representação social de filmes e produções cinematográficas realizadas fora da cinematografia norte-americana, particularmente aquelas que se opõem à estética e aos valores do cinema comercial norte-americano. A teoria do cinema é um conjunto de abordagens acadêmicas dentro da disciplina acadêmica de filmologia que começou na década de 1920 questionando os atributos formais essenciais do cinema; e que agora fornece estruturas conceituais para entender a relação social do filme com a realidade, as outras artes, os espectadores individuais e a sociedade em geral. A teoria do cinema não deve ser confundida com críticas de cinema, ou a história do cinema, embora essas três disciplinas se interrelacionem. Embora alguns ramos da teoria sejam derivados da linguística e da teoria literária em geral, ela também se originou e se sobrepõe à questão da filosofia do cinema. Deste ponto de vista Matéria e Memória (1896), do filósofo francês Henri Bergson, antecipou o desenvolvimento da teoria do cinema durante o nascimento do cinema no início do século XX. Bergson comentou sobre a necessidade de novas formas de pensar sobre o movimento e cunhou os termos “imagem-movimento” e “imagem-tempo”.

 No entanto, em seu ensaio de 1906: L`illusion Cinématographique (em L`évolution créatrice) ele rejeita o cinema como um exemplo do que ele tinha em mente. Historicamente, décadas depois, em Cinéma I e Cinema II (1983-1985), o filósofo Gilles Deleuze tomou Matéria e Memória como base de sua filosofia do cinema e revisitou os conceitos de Bergson, combinando-os com a semiótica de Charles Sanders Peirce. Entre os primeiros teóricos franceses, Germaine Dulac (1882-1942) foi uma pioneira diretora, roteirista, produtora e crítica de cinema francesa quando trouxe o conceito de impressionismo para o cinema, descrevendo o cinema que explorava a maleabilidade da fronteira entre a experiência interna e a realidade externa, por exemplo, através da sobreposição. O surrealismo também influenciou a cultura do cinema francês. O termo fotogenia foi importante para ambos, tendo sido usado por Louis Delluc em 1919 e se tornando difundido em seu uso para capturar o poder único do cinema. Jean Epstein (1897-1953) observou como a filmagem dá uma “personalidade” ou um “espírito” aos objetos, ao tempo em que revela “o falso, o irreal, o surreal”. Isso foi semelhante à desfamiliarização usada por artistas de vanguarda para recriar a interpretação do mundo.  

Rosalba Neri nascida em 19 de junho de 1939 é uma atriz italiana aposentada. Nascida em Forlì, Emilia-Romagna, Itália, Neri era considerada bonita desde jovem, tendo vencido um concurso de beleza ainda criança. Posteriormente, decidiu seguir a carreira de atriz, tendo frequentado o Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma, onde se formou em 1959. Ela também recebeu uma oferta para frequentar o Actors Studio nos Estados Unidos, mas não a aceitou. Ela estreou no cinema em 1958 no filme Mogli Pericolose. Seu nome não é creditado nesta comédia, dirigida por Luigi Comencini. Seu segundo papel no cinema foi no premiado drama Era Notte a Roma, de Roberto Rossellini, em 1960. Neste ano, ela também participou de dois filmes de espada e sandália ambientados no mundo antigo. O primeiro foi Il Sepolcro dei Re, também reconhecido como A Filha de Cleópatra ou O Túmulo do Rei. Este filme narra a história social de Nemorat, um faraó egípcio que foi fundamental na construção das pirâmides de Gizé devido às intrigas que cercaram sua morte e sepultamento. O segundo foi Esther and the King (1960), de Raoul Walsh (1887-1980), estrelado por Joan Collins como a rainha judia bíblica. Rosalba interpretou Keresh e foi assassinada por alguém que a confundiu com a rainha. Devido à sua beleza morena e sensual, Rosalba era frequentemente escolhida naturalmente para interpretar certas personagens lendárias.

Ela foi a noiva prometida de Ramsés na aventura de Hércules, Il leone di Tebe (O Leão de Tebas), em 1964. Interpretou Dalila, a beleza bíblica que causou a ruína do herói do Antigo Testamento, Sansão, em I Grandi Condottieri (Os Grandes Condottieri), 1965. Retornou ao gênero em A Arena (1974). Embora os papéis principais fossem raros para Neri, ela trabalhou constantemente ao longo do decorrer das décadas de 1960 e 1970 em papéis coadjuvantes e, às vezes, sem destaque, como sua atuação no papel social de uma garota do harém em El Cid (1961). Neri teve vários papéis em filmes de espionagem europeus, frequentemente interpretando personagens obviamente pouco virtuosas. Ela foi Faddja em Superseven Chiama Cairo (Superseven Visita o Cairo), de 1965, uma das mulheres perigosas que o espião, no estilo inglês de James Bond, entra em contato social. Também em 1965, ela interpreta em Due Mafiosi contro Goldginger (Dois Mafiosos Contra Goldfinger). Em 1967, ela interpretou Amalia em Password: Uccidete Agente Gordon (Senha: Mate o Agente Gordon). No mesmo ano, fez sua estreia no cinema com o diretor espanhol Jess Franco (1930-2013) em uma paródia de filme de espionagem, mas em estilo de história em quadrinhos, Lucky, the Inscrutable, estrelada por Ray Danton. Logo apareceu em OSS 117 - Double Agent (1968). Ela seguiu as tendências do europeu ao aparecer em vários faroestes italianos, como Johnny Yuma (1966), Arizona Colt (1966), Long Days of Hate (1968), A Long Ride from Hell (1968), The Reward`s Yours... The Man`s Mine (1969), Arizona Colt Returns (1971), Drummer of Vengeance (1971) e Man Called Invincible (1973).

Neri, a beldade, também era muito requisitada para filmes eróticos giallo, de terror e de exploração sexual. Ela atuou no sucesso de bilheteria de Jess Franco, 99 Mulheres (1969), um dos primeiros filmes com mulheres na prisão, e em Top Sensation (As Sedutoras), 1969, ao lado de Edwige Fenech. Em 1972, interpretou a esposa de Farley Granger em Amuck!. Granger interpreta um autor rico que contrata uma bela secretária (Barbara Bouchet) e se envolve em jogos sexuais pervertidos com ela e sua esposa. Também em 1972, Neri desempenhou o papel principal no filme de terror erótico Lucifera: Demon Lover. Bouchet e Neri voltariam a trabalhar juntos em 1972 em outro filme que combinava sexo com terror, Casa d`appuntamento (Assassinatos Sexuais Franceses). Um ladrão de joias é acusado de assassinar uma prostituta, mas é decapitado em um acidente de motocicleta antes do julgamento. Quando os envolvidos no julgamento começam a morrer, todos se perguntam se o morto voltou para se vingar. Talvez os filmes mais reconhecidos de Neri sejam do gênero terror. Creditada como Sara Bay, ela interpretou Tania Frankenstein, a filha do criador do monstro, em Lady Frankenstein (1971). Tania estava disposta a levar a obra de seu pai a novos – e assustadores – níveis. O filme é considerado um clássico do cinema B. Em 1973, ela estrelou em A Noite de Núpcias do Diabo como Lady Drácula, uma vampira que usa o anel de Drácula para atrair jovens virgens para sua casa, onde ela as assassina e se banha em seu sangue (à la Condessa medieval Elizabeth Báthory). Na Itália, o filme foi lançado como Il Plenilunio dell Vergini (Lua Cheia das Virgens). 

O Império Romano estava entre as forças econômicas, culturais, políticas e militares mais poderosas do mundo de seu tempo. Foi um dos maiores impérios da história mundial. Em seu auge, sob o governo de Trajano, cobriu 5 milhões de quilômetros quadrados. O legado romano influenciou profundamente a civilização ocidental, moldando a maior parte do mundo moderno; entre os muitos legados do domínio romano estão o uso generalizado das línguas românicas derivadas do latim, do sistema numérico, do alfabeto, do calendário do Ocidente e da transformação do cristianismo em uma religião mundial importante. Em um lento declínio desde o século III, o Império dividiu-se em dois no ano de 395. O Império Ocidental, sob a pressão das invasões bárbaras, entrou em colapso em 476, quando seu último imperador foi deposto pelo chefe germânico Odoacro, enquanto o Império Oriental ainda sobreviveria por mais mil anos. Após a queda do Império Romano do Ocidente, o território da península se dividiu em vários Estados, alguns independentes, alguns parte de estados maiores (inclusive fora da península Itálica). O mais duradouro entre eles foram os Estados Pontifícios, que resistiram até a tomada italiana de Roma em 1870 e que foi mais tarde reconstituído como o Vaticano, no coração da capital italiana. Depois da queda do último imperador romano do Ocidente, seguiu-se a o domínio dos hérulos e, em seguida, dos ostrogodos.

A reanexação da Itália ao Império Romano do Oriente realizada por Justiniano no decurso das Guerras Góticas, na primeira metade do século VI, foi curta, uma vez que entre 568 e 570 os lombardos, povos germânicos provenientes do território da atual Hungria, ocuparam parte da península, reduzindo os domínios bizantinos na Itália ao Exarcado de Ravena, mas representaram uma formidável continuidade política e cultural e a garantia da prosperidade económica da península e de toda a Europa por muitos anos. Depois, a área sob domínio romano-bizantino foi sujeita a fragmentações territoriais, mas conseguiu resistir até o final do século XI, enquanto os lombardos tiveram que se submeter aos francos comandados por Carlos Magno a partir da segunda metade do século VIII. Os francos ajudaram na formação dos Estados Papais e no ano 800, a Itália central tornou-se parte do Sacro Império Romano-Germânico. Até o século XIII a política foi dominada pela relação entre os imperadores do Sacro Império e os papas, com a maioria das cidades italianas se aliando com os primeiros (gibelinos) ou com os últimos (guelfos) de acordo com a conveniência do momento. Foi durante essa época caótica que as cidades italianas viram a ascensão de uma instituição peculiar, as comunas medievais. Devido ao vácuo de poder causado pela extrema fragmentação e a luta entre o império e a Santa Sé, as comunidades locais buscaram maneiras autônomas de manter a lei e a ordem

O Estado absolutista nasceu originariamente da Renascença. Muitas de suas técnicas essenciais, quer administrativas, quer diplomáticas, foram criadas historicamente na Itália. Põe-se assim a pergunta: porque razão a   Itália nunca construiu o seu absolutismo nacional? É óbvio que instituições medievais como o Papado e o Império, com seu caráter universalista, atuaram na Itália e na Alemanha no sentido de frustrar o desenvolvimento de uma monarquia territorial ortodoxa, mas distante ainda da construção da nação. Em Itália, o Papado resistiu as tentativas de unificação territorial da península. Todavia, este fato não bastava para impedir o resultado, pois longos períodos houve em que foi notória a debilidade do Papado. Um monarca forte como o francês Filipe o Belo não teria dificuldade em tratar o assunto “manu militari”, com meios simples e óbvios – raptar em Anagni, aprisionar em Avignon. Foi a ausência em Itália de um poder político com esse ascendente que permitiu ao Papado as suas manobras políticas. Há que buscar algures a determinante fundamental que impossibilitou a formação de um absolutismo nacional. Reside precisamente do capital mercantil nas cidades do Norte da Itália, que permitiu a formação de um poderoso Estado feudal reorganizado ao nível nacional. Foi a riqueza e a vitalidade das comunas da Toscana e Lombardia que derrotaram os esforços para a constituição de uma monarquia feudal que servisse de base a um posterior absolutismo com a tentativa de Frederico II, no século XIII, para alargar o seu baronato, relativamente progressivo, a partir de sua base no Sul.

O Imperador dispunha de muitos recursos. Ele dispunha de muitos recursos para os seus projetos. O Sul da Itália era essa região da Europa ocidental onde à hierarquia feudal, em pirâmide, implantada pelos Normandos, se associava um forte legado bizantino de aristocracia Imperial. O Reino da Sicília ficara desamparado na confusão dos últimos anos de dominação normanda, quando os barões locais se tornaram senhores da autoridade sobre as províncias régias. Frederico II assinalou a sua chegada ao Sul de Itália com a promulgação das leis de Cápua de 1220, em que se reafirmava o forte controle centralizado do Regno. Os bailios do rei substituíram os prefeitos das cidades, os principais castelos voltaram à posse dos nobres, a herança de feudos ficou sujeita à aprovação régia, foram canceladas as doações de terras dominiais e restaurados os tributos feudais afetos à manutenção da frota. As leis de Cápua formam impostas a fio de espada; dez anos mais tarde, as Constituições de Melfi (1231) vieram completá-las, com a codificação do sistema jurídico e administrativo do reino, a supressão dos últimos vestígios de autonomia urbana e a severa restrição dos senhorios clericais. Nobres, prelados e cidades ficaram subordinados à monarquia, graças a um apurado sistema burocrático, incluindo um corpo judiciário, juízes e comissários de província, que trabalhava com documentos escritos e com rotação dos funcionários de modo a impedir que estes se envolvessem nos interesses senhoriais.

Multiplicara-se os castelos, para intimidar cidades e ou senhores rebeldes. A população muçulmana da Sicília ocidental, que resistia nas montanhas, tornando-se um espinho que constantemente fustigava o Estado Normando, foi vencida e fixada na Apúlia: a colônia árabe de Lucerna passou a fornecer a Frederico uma excelente força de tropas profissionais islâmicas para as suas campanhas em Itália. Economicamente, não era menos racional a organização do Regno. Abolidas as portagens internas, foi instaurado apenas um serviço aduaneiro externo. O controle pelo Estado do comércio externo de cereais permitiu grandes lucros ao domínio real, o maior produtor siciliano de trigo. Uma substancial receita fiscal provinha de importantes monopólios de mercadorias e dos impostos sobre aterra, cada vez mais regulares; foi até criada a cunhagem nominal de ouro. A solidez e prosperidade desta fortaleza Hohenstaufen do Sul permitiu que Frederico II ousadamente se apostasse em criar um Império unitário abrangendo toda a península. Reclamando a herança de todas a Itália, com a maior parte dos senhores feudais disseminados pelo Norte aliados à sua causa, o Imperador tomou a Marca e invadiu a Lombardia. Por momentos, as suas ambições pareciam estar a ponto de realizar-se: em 1239-1240, Frederico II ensaiou o que seria a futura administração da Itália como reino único, dividido em províncias governadas por vigários-gerais e capitães-generais, moldados sobre os funcionários judiciais da Sicília, nomeados pelo imperador e selecionados entre a corte da Apúlia.  As vagas desagregadoras da guerra impediram a estabilização, mas a lógica e coerência eram indubitáveis.

Até mesmo os recuos finais e a morte do imperador não dearticularam a causa gibelina. O seu filho Manfredo, ilegítimo e sem título imperial, em breve operava a restauração do poder Hohenstauffen sobre a sobre a península, com a vitória, em Montaperti, sobre os guelfos de Florença; alguns anos depois, os seus exércitos ameaçaram capturar o próprio Sumo Pontífice em Orvieto, num movimento que prefigurava o futuro coup de main francês de Anagni (1303). Os sucessos temporários da dinastia haviam porém de revelar-se ilusórios: nas prolongadas guerras entre os guelfos e os gibelinos, a linha Hohenstauffen acabaria por ser derrotada e destruída. O Papado foi o vencedor nesta contenda, tendo orquestrado ruidosamente a luta contra o “Anticristo” imperial e sua descendência. Mas o papel ideológico e diplomático desempenhado pelos sucessivos papas – Alexandre III, Inocente IV e Urbano IV – no ataque ao poder Hohenstauffen em Itália não correspondeu nunca à verdadeira força política e militar do Papado. Durante muto tempo, faltaram à Santa Sé até os modestos recursos administrativos de um principado medieval: só no século XII, após a Questão das Investiduras com o imperador da Alemanha, o Papado se fez dotar de um aparelho de corte normal comparável aos dos Estados seculares da época, com a constituição da Curia Romana. Consequentemente, diferentes fases, curiosamente divergentes, seguiu o poder papal na sua dupla senda, eclesiástica e secular. Dentro da igreja universal, o Papado foi construindo gradualmente uma autoridade centralista e autocrática, cujas prerrogativas ultrapassavam em muito as de qualquer monarquia temporal de seu tempo.  

A Questão das Investiduras, um conflito sobre duas visões radicalmente diferentes sobre as autoridades seculares tais como reis, condes ou duques, terem qualquer papel legítimo no apontamento de instituições eclesiásticas tais como bispados, foi finalmente resolvida pela Concordata de Worms. Em 1176, uma liga de cidades Estado, a Liga Lombarda, derrotou o imperador germânico Frederico Barbarossa na Batalha de Legnano, assim certificando a Independência efetiva para a maioria das cidades do centro e Norte da Itália. Nas áreas costeiras e do Sul, as repúblicas marítimas cresceram para finalmente dominarem o Mediterrâneo e monopolizar as rotas de comércio com o Oriente. Elas eram cidades-estados talassocráticas e independentes, ainda que a maioria delas tenha tido origem em territórios que pertenciam ao Império Bizantino. Durante o tempo em que foram independentes, todas essas cidades tiveram sistemas de governo similares, nos quais a classe mercante detinha praticamente todo o poder. Na prática, as repúblicas eram oligárquicas e pouco se assemelhavam a democracias modernas. A relativa liberdade política que nelas se vivia contribui decisivamente para o avanço acadêmico e artístico. Veneza e Gênova eram portas de entrada da Europa para o comércio com o Oriente, além de produtoras de vidro fino, enquanto a Florença foi a capital da seda, lã, bancos e joalheria. A riqueza desses negócios trazidos à Itália significou o patrocínio público e privado de grandes projetos artísticos. As repúblicas estiveram envolvidas com as Cruzadas, providenciando suporte, mas especialmente, tomando vantagem das oportunidades políticas e de comércio resultante dessas guerras.

 No Sul, a Sicília se tornou um emirado islâmico no século IX, prosperando até que os ítalo-normandos o conquistaram no fim do século XI junto com a maioria dos principados lombardos e bizantinos no sul da Itália. Por uma série de eventos complexos, o sul da Itália desenvolveu um reino unificado, primeiro sob a Dinastia de Hohenstaufen, depois sob a Casa capetiana de Anjou e a partir do século XV com reis aragoneses. Na Sardenha, comparativamente, as antigas províncias bizantinas se tornaram estados independentes reconhecidos como giudicati, embora algumas partes da ilha se tornaram controladas por Gênova ou Pisa até à anexação aragonesa no século XV. A Peste Negra de 1348 deixou a sua marca ao matar talvez cerca de um terço da população. Contudo, a recuperação da praga levou ao ressurgimento das cidades, comércio e economia, que permitiu o florescimento do humanismo e da Renascença, que depois se espalhou pela Europa. Rosalba Neri, nascida em 19 de junho de 1939 em Forlì, na província de Forlì-Cesena em Emilia-Romagna, é uma atriz italiana, que estrelou um grande número de filmes na Itália e na Espanha, entre 1958 e 1976.                                   

A província está localizada no eixo Milão - Ancona, atravessada pela Via Emília e pela autoestrada A14 (Autobahn del Sole). Ao Norte fica a região de Bolonha, a Leste a região de Ferrara, a Oeste os Apeninos e ao Sul o Mar Adriático que deve seu nome à antiga cidade portuária de Adria, localizada no território do atual município italiano de mesmo nome, na província de Rovigo, no Vêneto, fundada no século V pelos etruscos e anteriormente situada no fundo de um pequeno golfo, agora preenchido pelas aluviões situadas no rio Pó. O Mar Adriático faz parte do Mar Mediterrâneo, uma espécie de golfo alongado às vezes chamado de Golfo de Veneza em mapas antigos, fechado a Noroeste. O historiador Fernand Braudel o descreveu como uma das “planícies líquidas” que compõem o Mediterrâneo. É limitado ao Norte e Oeste pela Península Itálica e a Leste pela Península Balcânica. Ao Sul, o Mar Adriático está conectado ao Mar Jônico pelo Estreito de Otranto, que tem 72 km de largura. Sua profundidade média é de 252 metros, distribuída de forma desigual entre a parte Noroeste rasa e a parte Sudeste que atinge 1.233 metros no ponto mais profundo. Existem cerca de dez áreas protegidas no Adriático que garantem a biodiversidade: mais de 7.000 espécies estão presentes no Adriático, algumas das quais são endêmicas, raras e ameaçadas.

         

O Mar Adriático possui mais de 1.300 ilhas, a maioria localizada em sua costa Leste, próxima à Dalmácia, e pertencente à Croácia. É dividido em três bacias, sendo a bacia Norte a mais rasa e a bacia Sul a mais profunda (1.233 metros). As correntes fluem no sentido anti-horário a partir do Estreito de Otranto, seguindo para o Norte ao longo da costa Leste antes de retornarem pela costa italiana em direção ao Oeste. As marés são moderadas, embora amplitudes maiores sejam ocasionalmente observadas. A salinidade do Adriático é menor que a do Mediterrâneo, e ele forma uma bacia hidrográfica que coleta um terço da água doce que flui para o Mediterrâneo. A temperatura da superfície gira em torno de 24 °C no verão e 12 °C no inverno, resultando em um clima relativamente ameno na bacia do Adriático. O Mar Adriático situa-se na Placa Adriática, que se separou da África historicamente durante a Era Mesozoica. Os movimentos das placas contribuíram para a formação dos Montes Apeninos. Durante o Oligoceno, formou-se primeiro a Península Itálica, separando a bacia do Adriático do resto do Mediterrâneo. O Adriático apresenta grande diversidade de sedimentos, principalmente devido às águas do Rio Pó, que transportam depósitos aluviais dos Alpes e das planícies do norte da Itália. A parte ocidental do mar é aluvial, com longas praias e linhas costeiras relativamente retilíneas, enquanto a costa oriental é mais fragmentada, com ilhas, golfos e penínsulas rochosas, muitas vezes cársticas. Colônias foram fundadas pelos etruscos (Adriático) e pelos gregos (Epidauro – Cavtat; Epidamno – atual Durrës; Apolônia – atual Vlorë, as colônias siracusanas na costa Leste: Ancona, Apsoris, Tragyrion, Faros, Corcyra Melane e Lissos, que comerciavam com os ilírios.

No século III a primeira guerra pelo controle do Adriático opôs Teuta, rainha da Ilíria, à República Romana. Sob o Império Romano, Ravena tornou-se uma importante base naval e, posteriormente, o refúgio dos últimos imperadores romanos do Ocidente até a conquista ostrogótica da Itália. A reconquista de Justiniano no século VI restaurou a autoridade do Império Romano do Oriente em ambas as margens do Mediterrâneo e inaugurou a Itália bizantina, com um comando bizantino: o Exarcado de Ravena na margem ocidental. A frota imperial manteve ligações com Constantinopla. A partir do século VI, eslavos do Sul, como os narentanos, começaram a se estabelecer na margem oriental, gradualmente subjugando os dálmatas e os morlacos, inicialmente falantes de línguas românicas, bem como os ilírios, que recuaram mais para o leste, para o que hoje é a Albânia. Nessa época, Veneza ainda era apenas um pequeno posto avançado bizantino, resistindo aos ataques das potências continentais: primeiro o reino lombardo e depois o Império Franco Carolíngio.  Após a questão política em torno da cristianização dos eslavos, a separação das Igrejas do Oriente e do Ocidente criou uma linha divisória entre os carentanos, eslovenos e croatas no Oeste, que se colocaram sob a obediência da Igreja Católica litúrgica latina, ligada aos carolíngios e ao papado de Roma, e os narentanos, sérvios e dioclecianos no Leste que, assim como os gregos, colocam-se na obediência da Igreja Ortodoxa do rito Bizantino, ligada ao Império Bizantino e ao Patriarcado de Constantinopla. O período medieval testemunhou a ascensão de uma talassocracia: a República de Veneza. Por muito tempo, o Adriático foi tão completamente dominado pela “Sereníssima República” que é frequentemente chamado de “Golfo de Veneza”.

Eslavos é o termo usado para se referir a uma ramificação étnica e linguística de povos indo-europeus que vivem principalmente na Europa central e oriental. A partir do começo do século VI eles se dispersaram para habitar a maior parte da Europa central, oriental e os Bálcãs. Posteriormente, muitos estabeleceram-se na Sibéria e na Ásia Central ou emigraram para outras partes do mundo. Mais da metade do território europeu é habitado por comunidades de falantes de línguas eslavas. As nações e grupos étnicos modernos reconhecidos pelo etnônimo “eslavos” são consideravelmente diversos genética e culturalmente, sendo as ligações entre esses povos bastante variadas, desde um senso de conexão e afinidade eletiva até sentimentos de hostilidade mútua. Os povos eslavos são classificados geográfica e linguisticamente em eslavos ocidentais que engloba tchecos, eslovacos, morávios, poloneses, silesianos e sórbios, eslavos orientais que inclui bielorrussos, russos, rutenos e ucranianos e eslavos meridionais que abrange bosníacos, búlgaros, croatas, macedônios, montenegrinos, sérvios e eslovenos. De acordo com um estudo genético realizado em 2007 baseado nos haplogrupos do cromossomo Y humano, o grupo de homens eslavos se divide em dois grupos principais; um abrange todos os eslavos ocidentais, eslavos orientais e duas populações eslavas meridionais masculinas, isto é, a representação dos povos croatas ocidentais e eslovenos, enquanto que o outro abrange todos os homens eslavos meridionais restantes antropologicamente.

A Quarta Cruzada (1202-1204) permitiu que Veneza estendesse sua hegemonia sobre a Dalmácia e as ilhas gregas, embora tivesse que lidar com o Arquiducado da Áustria, que detinha Trieste ao Norte, e o Reino de Nápoles , com os portos da Apúlia , ao sul. Nos séculos XV e XVI  , Veneza foi ameaçada por três vastos impérios continentais: ao Norte, a Monarquia Habsburgo, cujo ramo austríaco controlava Trieste; ao Sul, o ramo espanhol , que ocupava as possessões napolitanas; e a leste, o Império Otomano , que dominava os Bálcãs. Mas Veneza resistiu graças à sua poderosa frota. Ancona, a cidade dos Estados Papais, desempenhou um papel modesto até seu estabelecimento como porto livre em 1734. Baseados nas ilhas da Dalmácia, os piratas Uskok e Morlach representavam um incômodo menor para o tráfego veneziano, enquanto a pequena República de Ragusa (agora Dubrovnik) manteve sua neutralidade entre os otomanos e as potências cristãs. No século XVIII, após o Tratado de Passarowitz em 1718, a ascensão gradual dos portos imperiais dos Habsburgos (Trieste, Fiume (atual Rijeka) e Porto Re), a forte concorrência do porto franco papal de Ancona e o ressurgimento de Ragusa limitaram a hegemonia veneziana. Bari manteve um comércio significativo, direcionado principalmente para os Balcãs e a Grécia Otomana. A dissolução da “Sereníssima República” pelo Tratado de Campo Formio em 1797 levou a uma luta pela hegemonia do Adriático durante as Guerras Napoleônicas. Na Dalmácia permitiram que a Primeira República Francesa, que se tornaria o Império Francês, obtivesse acesso ao Adriático e anexasse as Províncias Ilírias.                    

Contudo, em 1813-1814, o Império Austríaco, apoiado pela Grã-Bretanha, pôs fim ao controle francês sobre as Províncias Ilírias e o Reino da Itália. Esse novo equilíbrio de poder foi ratificado pelo Congresso de Viena em 1815: os britânicos, em troca de seus serviços, mantiveram a ilha grega de Corfu, considerada a chave para o Adriático. A partir de então, a potência dominante no Adriático, após a anexação dos territórios venezianos, passou a ser a Áustria, cuja frota se expandia. O Império Austríaco que se tornou Austro-Húngaro em 1867 teve que enfrentar a rivalidade do novo Reino da Itália, proclamado em 1861, apoiado pelo Segundo Império Francês e, posteriormente, pelo Reino da Prússia, que anexou Veneza em 1866. A Regia Marina então se opôs à Áustria, enquanto o Império Otomano manteve a Albânia até a Primeira Guerra Balcânica de 1912-1913. Após a Primeira Guerra Mundial e a desintegração do Império Austro-Húngaro, a costa Leste foi dividida: a Itália recebeu a Ístria, Fiume, Zara e algumas ilhas da Dalmácia; o Reino da Iugoslávia recebeu a Dalmácia continental e a maior parte das ilhas da Dalmácia; e o Principado da Albânia recebeu a margem Leste do Estreito de Otranto.

As ambições da Itália terrorista fascista levaram-na a conquistar a Albânia em 1939 e, posteriormente, a participar da invasão da Iugoslávia, ao lado da Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. A derrota do Eixo Roma-Berlim em 1945 trouxe a Albânia e a Iugoslávia, que se tornara comunista, para o bloco soviético, enquanto a Itália e a Grécia aderiram à Aliança Atlântica e, mais tarde, à União Europeia. A costa do Adriático abriga mais de 3,5 milhões de pessoas. As maiores cidades são Ancona, Bari, Veneza, Trieste e Split. A Itália e a Iugoslávia concordaram com suas fronteiras marítimas em 1975, e essas fronteiras ocidental e oriental foram reconhecidas após 1992 pelos Estados que surgiram da dissolução da Iugoslávia: Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina e Montenegro. O Cerco de Dubrovnik, em 1991-1992, durante a Guerra Croata-Iugoslava, foi a última batalha travada no Adriático na qual a Marinha Iugoslava desempenhou um papel significativo. Os Estados sucessores da Iugoslávia ainda não estabeleceram completamente suas respectivas fronteiras. Os Acordos entre a Itália e a Albânia relativos aos seus limites marítimos datam de 1992. As dificuldades decorrentes da queda do regime comunista albanês e da crise albanesa de 1997 levaram a um êxodo marítimo de dezenas de milhares de albaneses para portos italianos.

Bibliografia Geral Consultada.

MORIN, Edgar, As Estrelas. Mito e Sedução no Cinema. 1ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1972; ASOR ROSA, Scrittori e Popolo – Il Populismo nella Letteratura Italiana Contemporânea. Roma: Editore Savelli, 1976; GRAMSCI, Antônio, Sobre el Fascismo. Madrid: Editore Era, 1980; MARTINS, Luíz Renato, Conflito e Interpretação em Fellini: Construção da Perspectiva do Público. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1992; FABRIS, Mariarosaria, O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996; DOUIN, Jean-Luc, Dictionnaire de la Censure au Cinéma, Images Interdites. Paris: Quadrige/Presses Universitaires de France, 2001; LANCIA, Enrico, POPPI, Roberto, “Neri, Rosalba”. In: Dizionario del Cinema Italiano. Le Attrici: Roma: Editore Gremês, 2003; CATANI, Afrânio Mendes et alii (Org.), Estudos Socine de Cinema: Ano IV. São Paulo: Editora Panorama, 2003; CAMARGO, Mauricio Hermini, La Ciociara: Romance, Cinema e Relação com o Espaço. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Literatura Italiana. Departamento de Letras Modernas. Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005; MARTIN, Marcel, A Linguagem Cinematográfica. São Paulo: Editora Brasiliense, 2007; BONDANELLA, Peter, Italian Cinema. From Neorealism to the Present. New York/London: Editor Continuum, 2008; TOUBOUL-TARDIEU, Eva, Séphardisme et Hispanité. Paris: Presses de l`Université Paris-Sorbonne, 2009; GOMES, Valdemarin Coelho, Pensamento Complexo e Educação para o Futuro: Entrelaçamentos na Teia Ideológica do Capital. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2010; DI BIAGI, Flaminio, Il Cinema a Roma. Guida alla Storia e Ai Luoghi del Cinema nella Capitale. Roma: Palombi Editore, 2010; OLIVEIRA, Cesar Augusto Alencar de, A Itália no Cinema: Cartões Postais e o Imaginário do Amor Romântico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade Estadual Paulista, 2016; TREVISAN, Ana Lúcia, Na literatura, o insólito. Uberlândia: O Sexo da Palavra, 2023; CÂMARA, Vasco, “Um guia para a Festa do Cinema Italiano, um filme por dia”. Disponível em: https://www.publico.pt/2026/04/08/; entre outros.