quarta-feira, 8 de abril de 2026

As Duas Faces de Um Crime – Suspense & Interpretação Dramatúrgica.

                Os grandes artistas são aqueles que impõem à humanidade a sua ilusão particular”. Guy Maupassant                       

        Medo Primário (Primal Fear) ou As Duas Faces de Um Crime tem como representação social um filme norte-americano de “suspense jurídico” de 1996 dirigido por Gregory Hoblit, um diretor de cinema americano, diretor de televisão e produtor de televisão. Ele é reconhecido por dirigir os filmes Primal Fear (1996), Fallen (1998), Frequency (2000), Hart`s War (2002), Fracture (2007) e Untraceable (2008), no primeiro caso, o filme baseado no romance homônimo de 1993 de William Diehl (1924-2006), um escritor americano, com roteiro de Steve Shagan e Ann Biderman. Criou o personagem Martin Vail, protagonista de três dos seus livros. O advogado de “causas perdidas” foi interpretado por Richard Gere no filme Primal Fear, baseado no romance de mesmo título. Estrelado por Richard Gere, Laura Linney, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand e Edward Norton em sua estreia no cinema, o filme acompanha um advogado de defesa de Chicago que acredita na inocência de seu cliente, um coroinha, “acusado de assassinar um bispo católico”. O filme foi um sucesso de bilheteria e recebeu críticas positivas, com a atuação de Norton recebendo elogios. Norton ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Cinema e foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e ao BAFTA de Melhor Ator Coadjuvante.

            Chicago é a cidade mais populosa do estado de Illinois, nos Estados Unidos. É a sede do Condado de Cook, o segundo condado mais populoso dos Estados Unidos depois do Condado de Los Angeles, na Califórnia. Possui menos de 1% de seu território no Condado de DuPage. Foi fundada em 1833, perto de um varadouro entre os Grandes Lagos e a bacia do rio Mississipi. É a quinta localidade mais densamente povoada de Illinois. Sua área metropolitana, vulgarmente conhecida por Grande Chicago, é a 27ª aglomeração urbana mais populosa do mundo, abrigando um número superior a 9,6 milhões de pessoas espalhadas pelos estados estadunidenses de Illinois, Indiana e Wisconsin. Pouco mais de 21% da população total de Illinois vive em Chicago. A cidade mantém o seu status como um importante polo para a indústria das telecomunicações, transporte e infraestrutura, com o Aeroporto Internacional O`Hare, sendo o segundo aeroporto mais movimentado, em termos de movimentos de tráfego, em todo o mundo. Em 2008, a cidade recebeu 45,6 milhões de visitantes nacionais e estrangeiros. Em 2010, a área metropolitana de Chicago tinha o 4º maior Produto Interno Bruto (PIB) entre as áreas metropolitanas do mundo. É um centro de negócios e finanças e é listada como um dos dez melhores do mundo pela Índice de Centros Financeiros Globais.

Henri-René-Albert-Guy de Maupassant foi o primeiro filho de Laure Le Poittevin e Gustave de Maupassant, de prósperas famílias burguesas. Quando Maupassant tinha onze anos e seu irmão Hervé tinha cinco anos, sua mãe separou-se do marido. Em outubro de 1868, com a idade de 18 anos, salvou o poeta Algernon Charles Swinburne (1837-1909) de afogamento na costa da Étretat na Normandia. Na escola secundária, ele conheceu o grande autor Gustave Flaubert. Ele entrou pela primeira vez um seminário em Yvetot, mas foi expulso. A Guerra Franco-Prussiana eclodiu logo após sua formatura na faculdade em 1870, e Maupassant se alistou como voluntário. Posteriormente, em 1871, deixou a Normandia e se mudou para Paris, onde passou dez anos como funcionário do Departamento da Marinha. Gustave Flaubert (1821-1880) tomou-o sob sua proteção e atuou como uma espécie de tutor literário, guiando a sua estreia no jornalismo e na literatura. Foi na casa de Flaubert que conheceu Émile Zola (1840-1902) e o romancista russo Ivan Turgenev (1818-1883). Em 1878, foi transferido para o Ministério da Instrução Pública e tornou-se editor de contribuição de vários jornais de referência como Le Figaro (1935), Blas Gil (1715), Le Gaulois (1868) e l`Écho de Paris (1937). Ele dedicou seu tempo livre para escrever romances e contos. Em 1880 publicou o que é considerada a sua primeira obra-prima, “Boule de Suif”, que teve sucesso instantâneo.                          

 

Esta foi primeira peça de Maupassant de ficção curta ambientada durante a Guerra Franco-Prussiana, e foi seguida por histórias curtas, como “Deux Amis”, “La Mère Sauvage” e “Mademoiselle Fifi”. A década de 1880-1891 foi o período mais fértil da vida de Maupassant. Tornou-se famoso pelo seu primeiro conto e trabalhou de forma metódica. Em 1881 publicou seu primeiro volume de contos sob o título de La Maison Tellier, que alcançou sua décima segunda edição dentro de dois anos; em 1883 terminou seu primeiro romance, Une Vie, do qual “25 mil cópias foram vendidas em menos de um ano”. Nos seus romances, ele reuniu todas as observações dispersas nos seus contos. Sua segunda novela Bel-Ami, que saiu em 1885, tinha “trinta e sete edições em quatro meses”. Seu editor, Havard, encomendou obras-primas e Maupassant continuou a produzi-las. Ele escreveu o que muitos consideram ser o seu maior romance, Pierre et Jean (1888). Com uma aversão natural à sociedade, ele amava o retiro, solidão e meditação. Ele viajou extensivamente na Argélia, Itália, Inglaterra, Bretanha, Sicília, Auvergne, e de cada viagem trouxe um novo volume. Ele navegava em seu iate privado “Bel-Ami”, o nome de seu romance. Conheceu Alexandre Dumas (filho) e Hippolyte Taine. Maupassant foi um dos vários parisienses do século XIX, entre eles Charles Gounod, Alexandre Dumas, filho, e Charles Garnier que não apreciavam a Torre Eiffel construída entre 1887 e 1889.

Ele costumava almoçar no restaurante situado na sua base, não por preferência pela comida, mas porque “somente ali podia evitar a visão do perfil da torre”, de outro modo inevitável. Ele e outros quarenta e seis notáveis parisienses do meio literário e artístico assinaram uma elaborada e indignada carta de protesto contra a construção da torre, dirigida ao Ministro das Obras Públicas e publicada em 14 de fevereiro de 1887. Recusou a nomeação para a Legião de Honra e a sua eleição para a Academia Francesa, Maupassant também escreveu sob vários pseudônimos, tais como “Joseph Prunier”, de “Guy de Valmont” e “Maufrigneuse” que ele usou entre 1881–1885. Encontram-se contos da sua autoria na revista literária portuguesa A Leitura (1894-1896). Em seus últimos anos ele desenvolveu um constante desejo de solidão, uma obsessão para a autopreservação, e um medo de morte e paranoia de perseguição enlouquecida que veio da sífilis que contraiu na juventude. Em 2 de janeiro de 1892, Maupassant tentou cometer suicídio cortando sua garganta e estava internado no célebre asilo privado do Dr. Esprit Blanche, em Passy, em Paris, onde morreu de sífilis em 6 de julho de 1893. Era um grande autor e sempre será lembrado como um dos maiores escritores franceses de todos os tempos. O primeiro surto registrado de Sífilis na Europa ocorreu em 1494/1495 em Nápoles, Itália, durante uma invasão francesa. Como foi disseminada por tropas francesas que retornaram dessa campanha, a doença ficou reconhecida como “mal francês”, e só em 1530 o termo “sífilis” foi aplicado pela primeira vez pelo médico e poeta italiano Girolamo Fracastoro. 

O agente causador, Treponema pallidum, foi identificado em 1905 por Fritz Schaudinn e Erich Hoffmann na clínica Charité em Berlim. O primeiro tratamento eficaz, Salvarsan, foi desenvolvido em 1910 por Sahachiro Hata no laboratório de Paul Ehrlich. Seguiu-se a introdução da penicilina em 1943. Muitas figuras reconhecidas, como Scott Joplin, Franz Schubert, Friedrich Nietzsche, Al Capone e Édouard Manet, acredita-se que tenham contraído a doença. O histórico da sífilis é bem estudado, mas a origem exatamente da doença só foi esclarecida quando evidências arqueológicas e genéticas demonstraram que ela se originou nas Américas. Duas hipóteses principais surgiram: uma, da década de 1950, propunha que a sífilis chegou à Europa pelas tripulações de Cristóvão Colombo como parte da Troca colombiana; a outra, dos anos 1930, sugeria que já existia na Europa, mas não havia sido reconhecida. A história das mentalidades representa do ponto de vista teórico um meio de compreensão dos mecanismos sócio históricos sobre um plano de fundo onde os conceitos elaboram-se a partir dos “estados mentais de grupos coletivos”. Desse modo, as manifestações que estão ligadas ao amar, lazer, morrer e viver num sentido de desvelar os discursos. 

Para além do óbvio visando uma interação entre o antropológico, a sociologia e a psicanálise. Em que a autoridade, tradição e passado está ligado à investigação multidisciplinar. Apesar de estudar o modo de agir e pensar do indivíduo a História das mentalidades estava ficando “fora de moda” e os historiadores não gostam de serem tratados e rotulados como “historiador do mental” e a partir de meados da década de 1980, na França, esse tipo de análise histórica já estava sendo reformulada, dando lugar a sua principal herdeira, a Nova História Cultural. Para compreender a história das mentalidades é preciso remontar aos séculos XIX e XX, onde conceitos estabelecidos pelo historiador Leopold von Ranke que idealizava uma história tradicional, política voltada à biografia dos reis, foi contestada mais tarde por Marc Bloch e Lucien Febvre que, em busca de uma história-problema e de uma história do cotidiano fundaram a “Revue des Annales”, em torno da qual se estabeleceu a chamada Escola dos Annales. A história das mentalidades teve como destaques principais dois historiadores que com suas obras mostraram o pensar e o agir na História do mental: Bloch editou “Os Reis Taumaturgos”, uma obra comparativa entre crença e autoridades dos Reis e Febvre publicou “O Problema do Ateísmo no Século XVI: a religião de Rabelais” onde defendia a tese da História representar uma forma de estudo interdisciplinar.

Na perspectiva abstrata da dimensão simbólica, da capacidade própria ao ser humano de fixar o vínculo social pela criação de sentido e de valores, em primeiro lugar, a unidade da condição humana implica diferenças nas relações de gênero tanto individuais (o sonho) quanto coletivas (os mitos, os ritos, os símbolos). De um lado, ela gera a diversidade cultural, de outro, acarreta a singularidade das maneiras pelas quais os indivíduos delas se apropriam. As percepções sensoriais, ou a experiência, e a expressão das emoções parecem irradiar da intimidade secreta do sujeito empregado por Nicolau Maquiavel (1469-1527), no caso da têmpera, entretanto, elas também são social e culturalmente modeladas. Os gestos que sustentam a relação social com o mundo e que colorem a presença não provêm, nem da pura e simples fisiologia, nem unicamente da psicologia: ambas se encrustam a um simbolismo corporal, segundo Le Breton (2019), que lhes confere sentido, nutrindo-se, ainda, da cultura afetiva que o sujeito vive à sua maneira, tendo em vista a sua capacidade de interpretar a realidade. Na perspectiva antropológica, os sentimentos e emoções não são estados absolutos, substâncias que se pode transpor de um indivíduo ou grupo a outro. 

Elas tampouco são, ao menos não exclusivamente, processos fisiológicos cujos segredos estariam contidos no corpo. Trata-se de relações, que, embora os sentimentos e emoções não sejam fenômenos unicamente fisiológicos ou psicológicos, eles não são deixados ao acaso ou à iniciativa pessoal de cada ator. Sua emergência e expressão corporal correspondem a convenções que não se distanciam da linguagem, mas, no entanto, que dela se distinguem. As emoções nascem de uma avaliação mais ou menos lúcida, como é comum na vida cotidiana, de um acontecimento presenciado por um ator social provido de sensibilidade própria. Elas são pensamentos em ação dispostas num sistema de sentido e de valores. Enraizadas numa cultura afetiva, elas também se exprimem mediante uma linguagem gestual e mímica que pode, em princípio, ser reconhecida pelos integrantes de seu meio social. A cultura afetiva, de acordo com a análise pontual de Le Breton, oferece os principais esquemas de experiência e de ação sobre os quais o indivíduo como um tecelão desenvolve a sua conduta de acordo com a sua história pessoal, seu estilo de vida e, notadamente, sua avaliação da situação. A emoção experimentada traduz a significação conferida pelo indivíduo às circunstâncias que nele ressoam. É pari passu uma atividade produtiva de conhecimento, uma construção social e, a qual se torna um fato pessoal mediante o estilo de vida particular do indivíduo real. Os sentimentos ou as emoções fazem parte de um sistema de sentidos e de valores próprios a um grupo social cujo bem-fundado, os principais organizadores de elo social, eles confirmam. O fundo biológico universal se declina social e culturalmente em modos por vezes análogos ou diversos.           

A natureza realiza-se somente na cultura que o acolhe. As particularidades da afetividade nas sociedades, as sensíveis divergências dos etos de uma época e de um lugar a outro, consoante as orientações coletivas são marcadas pela existência de emoções ou de sentimentos que não são traduzíveis sem erros grosseiros de interpretação para o vocabulário do outro grupo. A fidelidade aos significados visados implica a conservação do termo local para designar a singularidade do estado afetivo ou o recurso a explicações, a longas perífrases a fim de discernir com sutileza e precisão. Diversos etnólogos, segundo Le Breton, admitiram sua incapacidade de descrever a cultura afetiva da sociedade que estudam por causa da singularidade da mesma. Tal viés antropológico demonstra hic et nunc a relatividade cultural dos etos e o aplainamento das diferenças operado pela afirmação peremptória da universalidade emotiva e de sua expressão. O obstáculo da tradução remete a muitas diferenças de sentimentos entre uma sociedade ou época e outra. Além disso, cada estado afetivo se insere num conjunto de significados e de valores do qual depende e do qual pode ser desagregado sem romper seu enredo. Uma cultura afetiva forma um tecido estreito onde cada emoção é colocada em perspectiva no interior de um conjunto indissociável. Falar de emoções em absoluto, como, por exemplo, da raiva, do amor, da vergonha, etc., implica incorrer em etnocentrismo de forma mais ou menos clara, pois que propõe implicitamente um significado comum a diferentes culturas.

Os motivos da vergonha, por exemplo, podem ser estranhos ou desconhecidos para outras sociedades e suas consequências podem ser muito diferentes, assim, o sentimento afetivo assim denominado pode não ter nada em comum com o estado afetivo do indivíduo “envergonhado”, entre aspas para traduzir o fato de que ele somente pode ser realmente entendido no interior de um etos próprio.  O simbolismo conforma seu corpo e lhe possibilita compreender as modalidades corporais dos outros. Para desenvolver plenamente seu relacionamento social com o mundo, o homem demanda que a presença dos outros sobre ele reverbere. Neste sentido, o outro não é somente o “transformador” do homem da qualidade de infans para a de ator social, ele é também a condição de perpetuidade do simbolismo que o atravessa e do qual ele se serve para comunicar-se com os outros. O outro é a estrutura que organiza a ordem de significado do mundo. Ele relativiza, na falta de melhor expressão, “o não saber e o não perceber, pois o outro, para mim, introduz o sinal do não perceber naquilo que eu percebo, determinando-me a compreender o que eu não percebo, mas que é perceptível pelo outro.

Em todos esses sentidos, é sempre pelo outro que passa o meu desejo, e que o meu desejo recebe um objeto. O que eu desejo é o que é visto, pensado, possuído por um possível outro. Eis o fundamento de meu desejo. É sempre o outro que pondera o meu desejo sobre um objeto. A partir do comportamento desta ordem de significação, nunca estamos sozinhos em nosso corpo. Esse se revela uma superfície e uma espessura de inscrição cuja forma e sentido são delineadas pelas injunções culturais que se apõem.  De outro ponto de vista, ainda que eurocentrista, entendemos que o tema central da teoria moral de Marx é: como realizar a liberdade humana. Isso significa que ele tem de investigar não só os obstáculos criados pelo homem – ou seja, autoimpostos – à liberdade na forma dada de sociedade, mas também a questão geral da natureza e das limitações da liberdade como liberdade humana. O problema da liberdade emerge na forma de tarefas práticas no curso do desenvolvimento humano e apenas mais tarde, de fato muito mais tarde, segundo Mészáros (2006: 149) podem os filósofos elevá-lo ao nível da abstração. Assim, a verdadeira questão é a liberdade humana, não um princípio abstrato chamado “liberdade”. 

E como o caráter específico de tudo é ao mesmo tempo a “essência” (poder, potencial, função) daquela determinada coisa bem como o seu limite, chegaremos então ao fato de que a liberdade humana não é a transcendência das limitações (caráter específico) da natureza humana, mas uma coincidência com elas. Em outras palavras, a liberdade humana não é a negação daquilo que é especificamente natural no ser humano – uma negação em favor do que parece ser um ideal transcendental – mas, pelo contrário, sua afirmação. Os ideais transcendentais – no sentido em que transcendental significa a superação das limitações inerentemente humanas – não têm lugar no sistema de Marx. Ele explica seu aparecimento em sistemas filosóficos anteriores como resultado de uma suposição a-histórica, socialmente motivada, de certos absolutos. Um exemplo: se o economista político do século XVIII funda suas teorias na “natureza humana”, identificada com o egoísmo, o filósofo moral que é sua contrapartida, como no caso de Adam Smith, pode ser a mesma pessoa, irá completar o quadro superpondo a esse “homem egoísta” a imagem ideal transcendental. Não deixa de ser significativo que Immanuel Kant tenha sido influenciado por Adam Smith. Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade.

É, em particular, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as funções econômicas absorvem o maior número de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim (2010), como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Não sem razão, com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases sociais.

Os únicos agrupamentos dotados de permanência são os que se chamam sindicatos, seja de patrões, seja de operários. Historicamente, temos aí in statu nascendi o começo e o princípio ético de uma organização profissional, mas ainda de forma rudimentar. Isto porque, em primeiro lugar, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovida, por conseguinte, de qualquer poder regulamentador. O número deles é teoricamente ilimitado, mesmo no interior de uma categoria industrial; e, como cada um é independente dos outros, se não se constituem em federação e se unificam, não há neles nada que exprima a unidade da profissão em seu conjunto de práticas e saberes sociais. Não só os sindicatos de patrões e de empregados são distintos uns dos outros, o que é legítimo e necessário, como não há entre eles contatos regulares. Não existe organização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em comum uma regulamentação que, estabelecendo suas relações mútuas, imponha-se a ambas as partes com a mesma autoridade; por conseguinte, é sempre a “lei dos mais forte” que resolve os conflitos sociais, e o estado de guerra subiste inteiro. Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera moral comum estão na mesma situação. A tese sociológica conforma: para que uma moral e um direito profissionais possam se estabelecer nas diferentes profissões, é necessário, pois, que a corporação, em vez de permanecer um agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, volte a ser, um grupo definido, organizado, uma instituição pública.

Seu nome em italiano é Cristóforo Colombo, em latim Christophorus Columbus e em espanhol, Cristóbal Colón. Este antropónimo inspirou o nome de, pelo menos, um país, Colômbia e duas regiões da América do Norte: a Colúmbia Britânica no Canadá e o Distrito de Colúmbia nos Estados Unidos da América. Entretanto o Papa Alexandre VI escrevendo em latim sempre chamou ao navegador pelo nome de Christophorum Colon com significado de Membro e nunca pelo latim Columbus com significado de Pombo. Colombo é creditado como o primeiro explorador europeu a estabelecer e documentar rotas comerciais para as Américas, apesar de ter sido precedido cinco séculos por uma expedição viquingue liderada por Leif Erikson no século XI. As viagens de Cristóvão Colombo abriram caminho para um período de contato, expansão, exploração, conquista e colonização do continente americano pelos Europeus pelos próximos séculos. Essas viagens e expedições trouxeram várias mudanças e desenvolvimentos na história moderna do conturbado Mundo Ocidental. Entre várias outras coisas, impulsionou, por exemplo, o comércio atlântico de escravos. Colombo é acusado por diversos historiadores de iniciar e incitar o genocídio e repressão cultural dos povos nativos na América. O próprio Colombo viu suas conquistas sob a luz de expandir a religião cristã. Ele foi também acusado, até por contemporâneos, de “comportamento tirânico, corrupção e vários crimes contra os nativos indígenas, como espancamentos, torturas, saques e estupros”.

Há denúncias sobre como a chegada/invasão de Colombo ao Novo Mundo esteve ligada à perseguição, agressão, estupro e morte de nativas, consequência da subvalorização e desconhecimento da humanidade dos povos nativos. Essas reavaliações de seus feitos fizeram com que a visão dos acadêmicos e historiadores sobre Colombo ficasse um tanto quanto negativa com o passar do tempo. Na biografia História del Almirante Don Cristóbal Colón escrita pelo filho, este obscureceu a pátria e origem de Colombo, afirmando que o pai não queria que fossem conhecidas tais informações, enumerando várias cidades italianas, em especial lígures, que disputavam tal glória. No livro Pedatura Lusitana, um nobiliário de famílias de Portugal, Cristóvão Colombo é apresentado como um homem natural de Gênova, junto aos seus dois irmãos, Bartolomeu Colombo e Diogo Colombo. Também é possível observar que no documento é relatado o seu casamento com uma mulher portuguesa chamada D. Filipa Muniz de Melo. Em Espanha Colombo invariavelmente foi considerado como estrangeiro, lamentando-se de como essa situação o prejudicava em alguns dos documentos que escreveu. Esteve constantemente em contacto com italianos, e neles depositava a sua confiança. Mas “as regras do tempo mostram-nos que um plebeu nunca se casava com uma nobre, pelo que a origem de Colombo é assaz duvidosa”.               

Apesar do esforço desenvolvido na investigação da vida do navegador, ainda restam algumas incertezas, ou fantasias nacionalistas ou ideológicas. Um dos principais problemas apresentados é o da pátria do navegador, e embora este assunto não seja de interesse primário, a importância que lhe tem sido dada e a sua constante atualidade obrigam a que se lhe faça menção. Em 2020, achou-se na Península de Yucatán um esqueleto de 30 anos, datado de mais de 9.900 anos, com peritonite por treponema, doença relacionada à sífilis. Filogenias de 2008 e 2024 apontam origem americana de cerca de 9.000 anos, reforçando evidências arqueológicas e o registro histórico que vincula a chegada da sífilis ao retorno das tripulações de Colombo. A sífilis é a mais letal das treponematoses em adultos. As outras, bejel, frambésia e pinta, são doenças endêmicas da infância, geralmente não fatais, mas desfigurantes. Confundia-se com lepra, elefantíase e escabiose, entre outras. Por isso, ganhou o apelido de “o grande imitador”, sem nome próprio por longos períodos. Historiadores e paleopatólogos debatem se ela chegou com Colombo ou já existia na Europa, dando origem às hipóteses “colombiana” e “pré-colombiana”. Estudos de Marylynn Salmon demonstram que deformidades típicas de sífilis aparecem historicamente em iluminuras medievais, comparáveis a registros médicos modernos. 

Uma deformidade típica, o nariz em sela, e marcas de ptose e incisivos de Hutchinson aparecem em iluminuras de flagelantes e algozes de Cristo, indicando referência a sífilis, mas faltam citações diretas. É intrigante que tratados médicos medievais evitem descrever a sífilis, talvez por confundi-la com outras doenças ou por omissão, pois revelar associação com elites sociais poderia provocar escândalo. Estudos em Castela sugerem esforços de ocultação pela nobreza. Termos como “morbus curialis”, “mal de cour” e “doença da realeza” refletem essa vinculação. Alfred Crosby sugeriu em 2003 que linhagens treponêmicas ancestrais podem ter migrado com humanos pelo estreito de Bering e, em 1490, evoluído para sífilis venérea e não venérea sob novas condições ecológicas. Outra versão afirma que forma não venérea similar à frambésia foi trazida por Colombo e deu origem à sífilis. O primeiro surto europeu bem documentado ocorreu em 1495 entre tropas francesas invasoras da Itália. A transmissão pode ter ocorrido via mercenários espanhóis a serviço de Carlos VIII da França. Conforme relata Jared Diamond, “Quando a sífilis foi definitivamente registrada em 1495, suas pústulas cobriam o corpo da cabeça aos joelhos, faziam a carne cair dos rostos e levavam à morte em poucos meses”. O padrão epidemiológico sugere doença nova ou mutante. Pesquisas variam entre a teoria colombiana e a pré-colombiana; muitos tripulantes de Colombo teriam servido depois ao exército de Carlos VIII, espalhando a doença por toda a Europa, causando até cinco milhões de mortes.

Estudos genéticos indicam que bactérias tropicais não venéreas teriam mudado de forma na Europa com maior letalidade. A sífilis foi grande matadora no Renascimento. Em 1539, Ruy Díaz de Isla estimou mais de um milhão de infectados e originou a teoria de Hispaniola. Estudo de 2020 estimou que mais de 20% dos indivíduos de 15–34 anos em Londres no final do século XVIII foram tratados para sífilis. O nome sífilis foi caracterizado por Girolamo Fracastoro (1478-1553), um médico, matemático, geógrafo e poeta italiano, em seu poema latino Syphilis sive morbus gallicus (1530), “Sífilis ou Doença Francesa”, e usado em seu tratado De Contagione et Contagiosis Morbis (1546). Antes, na Itália, Malta, Polônia e Alemanha, era “mal francês”; na França, “doença italiana”; nos Países Baixos, “doença espanhola”; na Rússia, “doença polonesa”; e no Império Otomano, “doença cristã” ou “frengi”. No século XVI, “grande pústula” diferenciava da varíola. Também se usou “[lues]” ou “lues venérea”, e “doença de Cupido”. Na Escócia, “Grandgore” ou “Spanyie Pockis”. Soldados britânicos em Portugal chamavam as úlceras de “The Black Lion”. Sem cura eficaz, recorriam a sangrias, laxantes e banhos de vinho, ervas ou azeite. Ibn Sina recomendou mercúrio na lepra (1025); Paracelso o aplicou à sífilis. Sommariva, em 1496, talvez tenha sido o primeiro. Aplicava-se por pele, emplastro, ingestão ou fumigação em tabernáculos. Visava salivação; causava úlceras gengivais e perda dentária. Persistiu até o século XIX.

O Grupo de Estudos de Cidades Globais da Universidade de Loughborough avaliou Chicago como uma “cidade global alfa”. Em uma pesquisa de 2010 feita pela Foreign Policy e a A.T. Kearney, Chicago foi classificada na sexta posição, logo depois de Paris e Hong Kong. A classificação avalia cinco dimensões: o valor do mercado de capitais, a diversidade do capital humano, os recursos de informação internacionais, os recursos internacionais culturais e a influência política. Chicago foi classificada pela revista Forbes como a quinta cidade mais economicamente poderosa do mundo. Chicago é um reduto do Partido Democrata e foi o lar de muitos políticos influentes, incluindo o ex-presidente Barack Hussein Obama II é um advogado e político norte-americano que serviu como o 44º presidente da República de 2009 a 2017, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo. A notoriedade da cidade expressa na cultura popular é encontrada em romances, peças teatrais, filmes, músicas, revistas de esportes, entretenimento, negócios, comércio e acadêmicas, e nos meios de comunicação. Chicago tem apelidos que refletem as impressões e opiniões históricas e contemporâneas sobre Chicago. Os nomes mais reconhecidos incluem: “Chi-town”, “Windy City” e “Second City”. Chicago também tem sido chamada de “a mais americana das grandes cidades”.

            Ipso facto no caso cinematográfico Martin Vail é um arrogante advogado de defesa de Chicago, reconhecido por defender “clientes indesejáveis”, porém de “alto perfil”, incluindo o suposto chefe da máfia Joey Piñero. Vail era anteriormente promotor público, mas, após perceber que era uma carreira sem futuro, tornou-se advogado de defesa. Apreciador dos holofotes, Vail é tema de uma matéria de capa de revista e, em seguida, tenta reatar um relacionamento casual com uma ex-colega, a promotora Janet Venable. O arcebispo Rushman, muito querido pelo público, é encontrado assassinado e mutilado em seu quarto. Aaron Stampler, um coroinha de 19 anos do Kentucky, é preso enquanto fugia do local coberto de sangue e, posteriormente, acusado de assassinato. Vail se oferece para defendê-lo gratuitamente. O tímido e gago Aaron alega ser inocente, mas sofre de amnésia e não consegue se lembrar do que aconteceu durante o assassinato. Ele afirma que havia uma terceira pessoa no quarto. Vail acredita em Aaron, enquanto o promotor, John Shaughnessy, designa Venable para conduzir o caso e buscar a pena de morte. No apartamento de Aaron, o investigador de Vail, Tommy Goodman, é atacado por outro coroinha, Alex, que foge. A neuropsicóloga Dra. Molly Arrington entrevista Aaron sobre sua infância difícil, seus lapsos de memória e o desaparecimento de sua namorada, Linda.

Com a ajuda de Piñero, Vail descobre que líderes cívicos influentes, incluindo Shaughnessy, perderam milhões em investimentos imobiliários devido à decisão de Rushman de não desenvolver terrenos pertencentes à igreja, incluindo uma clínica gratuita administrada por Piñero. Uma passagem ligada a A Letra Escarlate foi tatuada no peito de Rushman, o que a polícia interpreta como o motivo do assassinato e uma denúncia de que o arcebispo era hipócrita. Vail e Goodman encontram Alex, que afirma estar procurando uma fita de Video Home System incriminatória no apartamento de Aaron. É um padrão comercial para consumidores de gravação analógica em fitas de videoteipe. O sistema foi desenvolvido pela Japan Victor Company. Foi o formato de vídeo doméstico dominante durante as décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000. Ao retirar a fita do armário do arcebispo na cena do crime, e, portanto, não a registrar corretamente na cadeia de custódia, Vail e sua equipe descobrem imagens gravadas pelo arcebispo nas quais ele coage Aaron, Linda e Alex a praticarem atos sexuais. Vail e sua equipe presumem que Rushman ameaçou os jovens com o despejo da casa de acolhimento, fornecendo um motivo evidente para Aaron assassinar Rushman. Vail confronta Aaron furiosamente sobre o ocultamento de informações, mas ele nega as acusações, ficando cada vez mais angustiado à medida que Vail continua a pressioná-lo.

O comportamento de Aaron muda abruptamente de deferente para agressivo, e ele repreende Vail por “assustá-lo”. Essa personalidade violenta, que se apresenta como Roy, admite ter matado o arcebispo, mas ameaça Vail para que não apresente a gravação no julgamento. De repente, ele retorna à personalidade dócil de Aaron, sem qualquer lembrança do episódio. O Dr. Arrington conclui que Aaron sofre de transtorno dissociativo de identidade causado por anos de abuso tanto por seu pai quanto, posteriormente, por Rushman. Vail fica em conflito, sabendo que poderia absolver seu cliente alegando insanidade, mas não pode legalmente mudar sua estratégia no meio do julgamento. Vail entrega as provas anonimamente a Venable, forçando-a a usar a gravação no tribunal como prova do motivo de Aaron, correndo o risco de prejudicar a imagem do arcebispo e gerar simpatia por Aaron. Shaughnessy exige que ela destrua as provas, mas ela se recusa e as apresenta no tribunal. Piñero é encontrado assassinado, e Vail surpreende o tribunal ao chamar Shaughnessy como testemunha. Vail sugere que guardava ressentimento do arcebispo por este ter impedido o negócio imobiliário de 60 milhões de dólares e o acusa de ocultar provas anteriores da predileção sexual do arcebispo e de ser cúmplice na morte de Piñero. A juíza intervém e multa Vail por usar o tribunal para suas vinganças pessoais. Ela também desconsidera o depoimento do Dr. Arrington, por considerá-lo muito próximo de uma alegação de insanidade.               

Vail chama Aaron ao banco das testemunhas, provocando-o intencionalmente para que ele se transforme em Roy, que grita obscenidades e agride Venable. A juíza dispensa o júri e decide realizar um julgamento sem júri para declarar Aaron inocente por motivo de insanidade. Vail informa Aaron que ele será internado em um hospital psiquiátrico para tratamento e provavelmente liberado. Quando Aaron expressa remorso por ter ferido o pescoço de Venable, Vail percebe que Aaron estava ciente de seus atos durante o ataque, contradizendo sua suposta amnésia. Aaron elogia a advogada por sua perspicácia; ele se vangloria de ter assassinado Linda e Rushman sem remorso e revela que nunca houve um “Aaron”. Vail deixa o tribunal por uma porta dos fundos, atônita e desiludida. Diversas personalidades da televisão de Chicago fizeram participações especiais interpretando a si mesmas ao apresentarem reportagens sobre o caso, incluindo Diann Burns e Linda Yu da WLS, Mary Ann Childers, Lester Holt e Jon Duncanson da WBBM-TV, e Bob Jordan e Randy Salerno da WGN-TV. A Paramount queria Leonardo DiCaprio como Aaron Stampler; ele recebeu a oferta, mas recusou por achar o roteiro “problemático”.

Testes de elenco foram realizados na Califórnia e na Inglaterra, onde 2.100 atores foram avaliados para o papel de Aaron, incluindo Matt Damon, James Van Der Beek, e Pedro Pascal. Connie Britton recusou o papel de Naomi, que acabou ficando com Maura Tierney. Primal Fear foi filmado em diversas locações, incluindo Chicago, Illinois, Keystone, Virgínia Ocidental e Los Angeles, Califórnia. O filme também utilizou os estúdios da Paramount em Hollywood para algumas cenas. As filmagens ocorreram entre 28 de abril de 1995 e 12 de julho de 1995. A banda sonora inclui o fado português “Canção do Mar” cantado por Dulce Pontes. O filme foi lançado em 5 de abril de 1996 e estreou em primeiro lugar, permanecendo lá por três semanas consecutivas. Arrecadou US$ 56,1 milhões nos Estados Unidos e US$ 46,5 milhões internacionalmente, totalizando uma bilheteria mundial de US$ 102,6 milhões. O filme foi lançado em VHS e LaserDisc em 15 de outubro de 1996. Em 21 de outubro de 1998, foi lançado em DVD. A Paramount lançou Primal Fear em Blu-ray em 10 de março de 2009. 

O Blu-ray inclui uma faixa de comentários em áudio do diretor Gregory Hoblit, da roteirista Ann Biderman, do produtor Gary Lucchesi, do produtor executivo Hawk Koch e da diretora de elenco Deborah Aquila, bem como os extraordinários vídeos “Primal Fear: The Final Verdict”, “Primal Fear: Star Witness - Casting Edward Norton” e “The Psychology of Guilt”. A estreia de Edward Norton no cinema foi aclamada pela crítica, rendendo-lhe o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Cinema, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O site agregador de críticas Rotten Tomatoes reporta uma taxa de aprovação de 77% com base em 48 críticas, com uma classificação média de 6,8/10. O consenso dos críticos do site diz: “Primal Fear é um thriller direto, porém divertido, elevado por uma atuação brilhante de Edward Norton”. O Metacritic, que usa uma média ponderada, lista o filme com uma pontuação média ponderada de 47/100 com base em 18 críticos, indicando “críticas mistas ou medianas”. O público pesquisado pelo CinemaScore atribuiu ao filme uma nota média de B+ em uma escala de A+ a F.  Janet Maslin, do The New York Times, escreveu que o filme tem um “bom charme superficial”, mas “a história depende de uma sobrecarga de subtramas tangenciais para parecer movimentada”. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, deu a Primal Fear três estrelas e meia, escrevendo que “o enredo é tão bom quanto o de filmes policiais, mas o filme é realmente melhor do que o seu enredo por causa dos personagens tridimensionais”. Ebert descreveu a atuação de Gere como uma das melhores de sua carreira, elogiou Linney por se destacar do que poderia ter sido um personagem estereotipado e aplaudiu Norton por oferecer uma interpretação “completamente convincente”.

Bibliografia Geral Consultada.

VOVELLE, Michel, Ideologies et Mentalités. Paris: Éditions François Maspéro, 1982; Idem, Le Mort et l’Occident de 1300 à Nous Jours, à Paraître fin 1982. Paris: Éditions Gallimard, 1982; VINCENTE-BUFFAULT, Anne, História das Lágrimas: Séculos XVIII-XIX. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988; DELUMEAU, Jean, História do Medo no Ocidente: 1300-1800, Uma Cidade Sitiada. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1989; BLOCH, Marc, Os Reis Taumaturgos. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1993; SALLMANN, Jean-Michel, “Santi Patroni e Protezione Collettiva”. Santi Barocchi: Modelli di Santità, Pratiche Devozionali e Comportamenti Religiosi nel Regno di Napoli dal 1540 al 1750. Lecce: Argo Ediciones, 1996; FURET, François, A Oficina da História. Lisboa: Editora Gradiva, 1991; VERNANT, Jean-Pierre, O Universo, os Deuses, os Homens. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2000; BAILYN, Bernard, As Origens Ideológicas da Revolução Americana. Bauru: Editora da Universidade Sagrado Coração, 2003; MÉSZÁROS, István, O Poder da Ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004, especificamente cap. 3 - Política e Ideologia, pp. 143-239; DOBB, Maurice Herbert, Estudios sobre el Desarrollo del Capitalismo. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 2005; CASETTI, Federico Francesco, Cómo Analizar un Film. Barcelona: Ediciones Paidós, 2007; MACKENZIE, Debora, “Columbus blamed for spread of syphilis”. In: New Scientist, 15 de janeiro de 2008; DURKHEIM, Émile, Da Divisão do Trabalho Social. 4ª edição. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010; SCARAMBONI, Bruna Aline, Além de Freud: Um Estudo sobre a Relação entre a Sociologia de Norbert Elias e a Psicanálise Freudiana. Dissertação de Mestrado. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo, 2015; COURTINE, Jean-Jacques, História do Rosto: Exprimir e Calar as Emoções (do século 16 ao começo do século 19). Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; LE BRETON, David, Antropologia das Emoções. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2019; LEPORE, Jill, Estas Verdades: A História da Formação dos Estados Unidos. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2020; Artigo: “Célébrités Âgées Aujourd’hui: Découvrez Comment Elles Vivent Leur Vie”. Disponível em: https://www.tipgalore.com/10/21/2025; GUERRA, Gustavo Tatis, “La Invisible Maravilla”. In: El Diário Madrid, 11 de março de 2026; entre outros.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Pantanal – Telenovela, Biomas & Maior Planície Alagada do Mundo.

                                          Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios”. Manoel de Barros 

            

      Um dos domínios sociais, mas particularmente, simbólicos mais intrigantes na circunscrição das relações de gênero diz respeito às conexões entre corpo, de marca nome e renome. De acordo com a literatura antropológica disponível sobre o assunto, o processo de renomeação, quase sempre associado a situações rituais (cf. Gennep, 1978), é um dos marcadores sociais por excelência da aquisição de prestígio e de status nas sociedades não ocidentais. Essa conexão entre corpo, gênero e marca tem suscitado interpretações distintas a respeito dos significados envolvidos nos rituais que a enfeixam: ritos de passagem, na acepção de Arnold Van Gennep (1873-1957), ou de instituição, para Pierre Bourdieu (1930-2002), interpelados pela exclusão e violência simbólica, eles visam a separar aqueles que já passaram por eles, daqueles que ainda não o fizeram e, assim, instituir uma diferença duradoura entre os que foram e os que ainda não foram afetados. No extraordinário ritual cabila de circuncisão, por exemplo, ele separa o rapaz das mulheres e do mundo feminino, ao mesmo tempo em que converte o mais efeminado dos homens num homem na plena acepção da condição de homem, separado por uma diferença de natureza, de essência, mesmo da mais masculina, da maior e da mais forte das mulheres. Os estudos etnográficos produzidos no âmbito da história socialmente das artes e da presente sociologia da cultura, ou sociologia das emoções, hic et nunc, têm trazido contribuições socioculturais fundamentais para repensarmos a equação parental.

É histórica entre nome, status e posição de prestígio estamental a partir de sua articulação com o problema da autoria e da autoridade na sociedade contemporânea. As convicções políticas parecem seguir o mesmo caminho. Alguém seria socialista por que foi socialista, sem ir às manifestações, sem reunião, sem palavra e sem contribuição financeira, em suma, sem nada pagar. Mas reverencial que identificatória, a pertença só se marcaria por aquilo que se chama uma voz. Este resto de palavra, como o voto encanzinado de quatro em quatro anos. Uma técnica bastante simples manteria o teatro de operações desse crédito. Basta que as sondagens abordem outro ponto que não aquilo que liga diretamente os adeptos ao partido, mas aquilo que não os engaja alhures, não a energia das convicções, mas a sua inércia. Os resultados da operação contam então com restos da adesão. Fazem cálculos até mesmo com o desgaste de toda convicção. Pois esses restos, esses cacos, como insinua Leonardo Boff, indicam ao mesmo tempo o refluxo daquilo em que os interrogados creram na ausência de uma credibilidade mais forte que os leva para outro lugar. A capacidade de crer parece estar em recessão em todo o campo político. A tática é a arte do fraco. O poder se acha amarrado à sua visibilidade. Mas a vontade de “fazer crer”, de que vive a instituição, fornecia nos dois casos um fiador a busca de amor e/ou de identidade. Importa interrogar-se sobre os avatares do crer em nossas sociedades e sobre práticas originadas desses deslocamentos. Em séculos, supunha-se indefinidas as reservas de crença.

            Pantanal narra a história social de Zé Leôncio (Paulo Gorgulho/Cláudio Marzo), um peão de comitiva que chegou com o pai, Joventino (Cláudio Marzo) ao Pantanal, onde compraram uma fazenda e começaram a criar gado de corte. José Leôncio e seu pai caçavam marruás, um tipo de boi selvagem que vivia solto pelas matas da região, aumentando, assim, o rebanho na fazenda. Um certo dia, Zé Leôncio viajou com os peões em comitiva e pediu a que seu pai não fosse caçar marruá sozinho. Entretanto, o velho Joventino acabou por ir caçar e desapareceu na imensidão do Pantanal. Zé Leôncio voltou de viagem e procurou pelo pai sem sucesso. Nesse dia, prometeu que ia trazer um marruá no laço todos os dias, só para ter a esperança de encontrar o pai. Passado algum tempo, Zé Leôncio, já um fazendeiro rico, vai ao Rio de Janeiro cobrar uma dívida e conhece a fútil e mimada Madeleine (Ingra Lyberato/ Ittala Nandi). A família de Madeleine era da classe alta carioca (RJ), porém seu pai, Antero (Sérgio Britto) é viciado em jogo, acabando aos poucos com o status da família e deixando-os perto da falência. Antero acaba aceitando que Zé Leôncio se case com sua filha, recebendo dele um bom dinheiro para tentar resgatar o que perdeu, enquanto Zé a leva ao Pantanal e a engravida. Mulher da cidade grande, Madeleine não se adapta ao mundo rural, à rude vida pantaneira e à rotina de peão do marido. Durante uma das viagens de Zé Leôncio em comitiva, levando gado à venda, ela foge com o amigo Gustavo (José de Abreu), que a vai buscar no Pantanal, e o filho de poucos dias para o Rio de Janeiro.  

Amargurado, Zé Leôncio tenta em vão recuperar o menino, que acabara de nascer, mas acaba concordando em deixá-lo com a mãe na cidade grande. Passa a viver então com Filó (Tânia Alves/Jussara Freire), sua empregada, que já tinha um filho, Tadeu (Marcos Palmeira). Ele reconhece Tadeu como seu afilhado, considerando-o seu filho. Vinte anos depois, o filho legítimo, Joventino Neto (Marcos Winter), o Jove, finalmente decide por ir conhecer o pai. Mas o choque cultural é grande e os dois têm sérias dificuldades para se entender. Sentindo-se rejeitado pelo pai, que acha que o filho é afeminado, e ridicularizado pelos peões por causa de seu jeito de moço da cidade, Jove decide retornar ao Rio, mas leva consigo Juma Marruá (Cristiana Oliveira), moça criada como selvagem pela mãe (Cássia Kis) até a morte dessa, assassinada por encomenda numa trama paralela de vingança entre posseiros de terras e vítimas de grilagem, fatos esses ocorridos no início da novela na cidade de Sarandi, no estado do Paraná. Tal como a mãe, comenta-se que a menina Juma se transforma em onça-pintada quando ameaçada. Passado um tempo no Rio, onde o choque cultural é sofrido por Juma, Jove retorna para não se separar da “onça”.                     

Cristiana Barbosa da Silva de Oliveira nascida no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1963, é uma atriz e ex-modelo brasileira. Reconhecida por seus papéis em telenovelas desde o final da década de 1980, ganhou maior notoriedade ao interpretar Juma em Pantanal. Ela é ganhadora de vários prêmios, incluindo um Prêmio APCA e um Troféu Imprensa, além de ter recebido indicação para um Prêmio Extra. Nascida e criada em Ipanema, Cristiana começou sua carreira de atriz na novela Kananga do Japão, da TV Manchete, no núcleo principal, após ter ficado conhecida por seu trabalho como modelo. Ela foi eleita como a revelação feminina do ano pelo Prêmio APCA por esse trabalho. Mas alcançou seu sucesso em 1990 como Juma Marruá em Pantanal. A novela tornou-se um marco na teledramaturgia brasileira devido à sua enorme repercussão popular e esse se tornou o trabalho mais memorável de sua carreira, pelo qual recebeu o Troféu Imprensa. Devido ao sucesso desta trama, foi encomenda uma novela de temática semelhante, Amazônia (1991), e Cristiana foi novamente escolhida para interpretar a protagonista. No ano seguinte, foi contratada pela TV Globo para estrear como protagonista da novela do horário nobre De Corpo e Alma. Nos anos sequentes da década de 1990, Cristiana tornou-se uma das atrizes mais populares da televisão, interpretando uma série de protagonistas, como a vingativa Tati de Quatro por Quatro (1994), a interesseira Adriana em Salsa e Merengue (1996), a forte Selena de Corpo Dourado (1998) e Pilar em Vila Madalena (1999).

Em 2001 se destacou como a dissimulada Alicinha em O Clone, sendo a principal vilã da trama. Cristiana foi elogiada por sua atuação com uma personagem diferente do habitual em sua carreira, sendo indicada ao Prêmio Contigo! de TV na categoria de Melhor Vilã. Em seguida estreou na televisão de Portugal atuando em O Olhar da Serpente (2002). Por seu trabalho como a presidiária Araci em Insensato Coração (2011), ela foi indicada ao Prêmio Extra de Melhor Atriz Coadjuvante. Filha de Oscar de Oliveira e Eugênia Barbosa da Silva de Oliveira, é a caçula de nove filhos (dois homens e sete mulheres). Nascida e criada em Ipanema, para ajudar nas despesas familiares, começou a trabalhar com 10 anos de idade, numa floricultura próxima de sua residência. Enfrentando depressão na adolescência, abandonou os estudos e fugiu da casa dos pais para morar com sua melhor amiga, que havia se mudado há poucos meses para São Paulo, onde passou a trabalhar como caixa de supermercado. Ficou 1 mês desaparecida, e só depois desse tempo comunicou aos pais que estava bem e trabalhando, e eles entenderam o que ela estava passando, e pediram para ela voltar. Nessa época, após voltar para casa, voltou a estudar e começou a trabalhar como divulgadora, fazendo assessoria de imprensa para teatro junto a sua irmã Marió. Em 1983, aos 20 anos, Cristiana estreou como modelo ao participar de um concurso de beleza do Jornal do Brasil que promovia uma marca de óculos, no qual foi vencedora.

A jovem chamou atenção de diversos produtores de moda, passando a realizar desfiles e fotografar para editoriais de moda. O grande destaque veio no ano seguinte, 1984, quando assinou com o empresário de moda Eli Hadid Wahbe – que dois anos depois fundaria a Class Modelos – e passou a morar na Europa, trabalhando na Alemanha e Espanha. Em 1989 chamou a atenção do diretor Walter Salles Jr. por sua desenvoltura diante das câmeras durante a gravação de um comercial produzido por ele, que a indicou para Jayme Monjardim para realizar um teste na Rede Manchete para apresentar o programa de videoclipes Shock, que estava vago com a saída de Carolina Ferraz. Cristiana passou no teste, porém não chegou a estrear no programa, uma vez que Jayme convidou-a para realizar novos testes para a novela Kananga do Japão, acreditando que ela poderia se tornar atriz. Na época Bia Seidl havia desistido do papel de Hannah e Cristiana ficou com o papel, estreando como atriz no núcleo principal da trama. Com esta novela ganhou o prêmio por unanimidade de atriz revelação pela APCA. Em 1990 Cristiana interpretou seu personagem de maior destaque, a protagonista Juma em Pantanal, que inicialmente seria para a atriz Glória Pires. A novela foi um grande sucesso, derrubando a audiência da TV Globo e virando um marco na teledramaturgia brasileira. Cristiana, com este trabalho, ganhou o Troféu Imprensa de “Revelação do ano”.

Em 1991, fez a sua estreia no cinema, com o longa-metragem Os Trapalhões e a Árvore da Juventude. Nesse mesmo ano, Cristiana participou de um episódio do programa Fronteiras do Desconhecido e protagonizou a novela Amazônia. Em 1992, visando a repercussão de seus trabalhos na Rede Manchete, a Rede Globo contratou Cristiana sob um salário duas vezes maior para viver a protagonista da minissérie Agosto, papel que veio a ser interpretado por Vera Fischer, já que foi decidido pela cúpula da emissora que Cristiana seria a protagonista, junto com Tarcísio Meira, da novela De Corpo e Alma. Em fevereiro daquele ano, posou nua para a edição brasileira da revista Playboy, numa das poucas ocasiões em que o ensaio foi apresentado em um encarte especial. Em 1993, estreou no teatro com o espetáculo Bate Outra Vez, de Eduardo Wotzik. Ainda nesse ano, atuaria na peça Troia, sucesso estrondoso de crítica. Em 1994, participou da minissérie Memorial de Maria Moura e, depois, protagonizou a novela Quatro por Quatro, ao lado das atrizes Letícia Spiller, Elizabeth Savalla e Betty Lago. Pela primeira vez em sua carreira televisiva, a atriz faria um papel cômico. Após o fim da novela, foi morar em Nova Yorque a fim de se aprimorar no inglês. Em 1996, atuou em Salsa e Merengue, como a vilã Adriana. Posteriormente, emendaria trabalhos, e logo voltaria ao ar como a protagonista da novela Corpo Dourado, em 1998, na pele da batalhadora e rude Selena, uma mulher da roça, sem vaidade e guerreira. Em 1999 faria uma mocinha, interpretando a determinada e apaixonada Pilar, formando um triângulo amoroso, em Vila Madalena, composto também por Edson Celulari e Maitê Proença. Em 2001, participou da primeira fase da novela Porto dos Milagres

No mesmo ano, esteve na segunda fase da novela O Clone, como a pérfida Alicinha, uma mulher dissimulada e extremamente ambiciosa, que manipula todos ao seu redor por dinheiro e poder, sendo a principal vilã do folhetim. Também em 2002 apresentou a peça Pequeno Dicionário Amoroso, de Jorge Fernando, marcando a sua volta aos palcos e foi cedida à SIC, de Portugal, cujas transmissões tiveram início a 6 de outubro de 1992, foi o primeiro canal de televisão privado a operar em Portugal, para atuar na novela O Olhar da SerpenteCristina ficou então cerca de três anos limitando-se a pequenas aparições no vídeo, quando, em 2005, retornou como a dona de casa Rita na temporada daquele ano da novela Malhação. Em 2006, filmou o longa-metragem Gatão de Meia Idade, onde interpretou uma “motoqueira masculinizada”, que na verdade sonha em casar-se e ter filhos. Em 2007, integrou o elenco da minissérie Amazônia, de Galvez a Chico Mendes, e participou de últimos capítulos da novela Sete Pecados, como a. advogada Margareth, e filmou o longa-metragem Nossa Senhora de Caravaggio, em que viveu uma mulher simples e sofrida, vítima dos maus tratos do marido, que busca na fé para sua dor. Em 2009, despontou no remake de Paraíso, como a moderna Zuleika, par romântico do cantor Daniel. Em 2010, Cristiana retorna ao teatro interpretando Maria em Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Em 2011, interpretou uma elogiada participação especial da crítica e do público em Insensato Coração, no papel da presidiária lésbica e traficante de drogas, chamada Araci Laranjeira. Em 2012, interpretou a fútil e bem humorada Yolanda em Salve Jorge. Em 2014, volta à TV na série do GNT, Animal, no papel da ex-delegada e prefeita Mariana Gomes.

Ele está disposto a se adaptar ao estilo de vida local. Jove começa a se acertar com o pai e com a menina Juma e vai aos poucos transformando-se num autêntico peão pantaneiro, surpreendendo a todos continuamente no âmbito da vida social. A história social tem ainda um lado sobrenatural, baseado no fascinante folclore da região pantaneira: os principais personagens, com exceção de Zé Leôncio, frequentemente se deparam com uma figura reconhecida como “O Velho do Rio”, um curandeiro idoso que cuida das pessoas atacadas pela jararaca boca-de-sapo, uma cobra venenosa, ou que simplesmente se perdem na extensão extraorinária do Pantanal. Todos comentam que o Velho é o pai das sucuris, que ele se transforma em sucuri, também sendo ele a maior de todas. O povo acredita que “O Velho do Rio” seja o pai de Zé Leôncio, o desaparecido peão Joventino, de quem o neto, Jove, herdou o nome. Além do Velho do Rio e da história da menina Juma, uma terceira trama sobrenatural enriquece a novela: a figura do misterioso peão Trindade (Almir Sater), que teria um pacto com o diabo, ou seria ele próprio a encarnação do diabo. Há ainda a história de Maria Rute (Andréa Richa), que chegou às terras do Pantanal para vingar a morte do pai, assassinado pelo pai de Juma. Fazendo-se passar por muda e apelido, ela vai conquistando a confiança de Juma e passa a morar com ela na tapera dos Marruá,  dividida em vingança e a amizade que passa a nutrir pela “onça”.   A Muda acaba conquistando o coração do peão Tibério (Sérgio Reis), braço direito de Zé Leôncio, mas também o de Levi (Rômulo Arantes), peão mau-caráter e obcecado por ela.

                

No decorrer da trama, Zé Leôncio descobre a existência dum terceiro filho seu, na verdade o primeiro dos três: o caminhoneiro José Lucas de Nada (Paulo Gorgulho), fruto de sua primeira experiência sexual, tida com a prostituta Generosa (Kátia D`Angelo) num prostíbulo de Goiás, aonde fora levado pelo pai ao completar quinze anos de idade a fim de “mostrar que era macho”. O sobrenome de Zé Lucas é De Nada, pois o mesmo não tinha pai para dar-lhe um sobrenome. Assim que Zé Leôncio o reconhece como filho, passa a chamar-se José Lucas Leôncio. A saga da família Leôncio inclui, finalmente, o complicado relacionamento com o fazendeiro vizinho, Tenório (Antônio Petrin). Casado com a submissa Maria (Ângela Leal), a quem apelidou pejorativamente de “Maria Bruaca” e com quem teve uma filha, a despudorada Guta (Luciene Adami) – que adora desafiar as ordens do pai –, seu passado como grileiro de terras liga-o às tragédias familiares de Juma e Muda. O mau-caratismo deste e sua inclinação a vinganças covardes colocarão em risco em diversas circunstâncias a família de Zé Leôncio. O vilão possui uma outra família na cidade de São Paulo, formada por Zuleika (Rosamaria Murtinho) e seus filhos Marcelo (Tarcísio Filho), Renato (Ernesto Piccolo) e Roberto (Eduardo Cardoso). Após descobrir esse fato, Maria passa a desafiar o marido e inicia um tórrido caso de amor com o peão Alcides (Ângelo Antônio), empregado da fazenda e uma das muitas pessoas que querem vingança contra Tenório. Quem também sofre ao descobrir a segunda família do pai é a sensual Guta, que após se envolver com Jove e Tadeu, apaixonou-se por Marcelo, sofrendo ao descobrir que se envolveu com provável irmão.

As origens da novela, conceitualmente como gênero literário, remontam aos primórdios do Renascimento, designadamente a Giovanni Boccaccio (1313-1375) e a sua grande obra, o Decameron, que, sobretudo por seu aspecto realista, rompeu com a tradição literária medieval. Trata-se de uma compilação de cem histórias contadas por dez pessoas refugiadas numa casa de campo para escaparem dos horrores da Peste Negra, a qual é objeto de uma vívida descrição no preâmbulo da obra.  Ao longo de dez dias (daí o nome decameron, do grego deca: dez), sete mulheres e três homens, para ocuparem as longas horas de ócio do seu autoimposto isolamento, combinam que todos os dias cada um conte uma história, geralmente subordinada a um tema designado por um deles. Refira-se ainda outra obra, escrita em francês, com o mesmo tipo de estruturação: o Heptameron, da autoria de Margarida de Navarra (1492-1549), rainha consorte de Henrique II de Navarra. Nessa, são dez viajantes que se abrigam de uma violenta tempestade numa abadia. Impossibilitados de comunicarem com o exterior, todos os dias cada um conta uma história, real ou inventada. Em forma de epílogo, cada uma é concluída com comentários dos participantes, em ameno diálogo. Era intenção da autora que, à semelhança do Decamerão, a obra compreendesse cem histórias, porém a morte impediu-a de realizar o seu intento, não indo além da segunda história do oitavo dia, num total de 72 relatos etnográficos. Será também a morte prematura que poderá explicar uma certa pobreza de estilo, contrabalançada, porém, por uma grande perspicácia psicológica.

         As origens da forma discursiva novela como gênero literário remontam aos primórdios do Renascimento, designadamente a Giovanni Boccaccio, um importante escritor e poeta italiano do século XIV. Sua principal obra é Decameron, um conjunto de histórias curtas, em realidade, contos. Trata-se de uma compilação de cem histórias narrada por dez pessoas, refugiadas numa casa de campo para escaparem aos horrores da Peste Negra (cf. Gottfried, 1983) a qual é objeto de vívida descrição no preâmbulo da obra. O nome pela qual ficou conhecida representa uma das mais devastadoras pandemias na história humana, resultando na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Eurásia que forma em conjunto a relação espacial e demográfica entre a Europa e a Ásia, com várias regiões costeiras distintas: o Oriente Médio, Sul da Ásia, Ásia Oriental, Sudeste Asiático e Europa, ligado a massa interior da estepe eurasiana da Ásia Central e Europa Oriental. Embora geograficamente em um continente separado, o norte da África, histórica e culturalmente, tem sido integrado na história da Eurásia. Somente no continente europeu, estima-se que tenha vitimado pelo menos um terço da população em geral, sendo o auge da peste entre os anos de 1346 e 1353.

              Filho de um mercador, Boccaccio não se dedicou ao comércio como era o desejo de seu pai, preferindo cultivar o talento literário que se manifestou desde muito cedo. Foi um importante humanista, autor de um número notável de obras, incluindo Decameron, e o poema alegórico, Amorosa Visione (Visão Amorosa) e De Claris Mulieribus, uma série de biografias de mulheres ilustres. O livro apresenta as mulheres, até então relegadas ao segundo plano, equiparadas aos homens, com os mesmos direitos de usufruir os prazeres da vida, como o amor, a liberdade e as aventuras. Mas o que mais perturbou a sociedade na época foram o realismo e a sensualidade da narrativa. Nada até então havia sido tão chocante como os termos explícitos de Decameron que ocasionaram as mais duras críticas e todo o tipo de censura das autoridades religiosas. O Decameron representa o primeiro grande realista da literatura universal. Ao longo de dez dias, sete mulheres e três homens, para ocuparem as longas horas de ócio do seu isolamento, combinam que todos os dias cada um narraria uma história, subordinada a um tema designado por um deles. Boccaccio é considerado, por muitos estudiosos, como um dos precursores do humanismo, que foi de extrema importância no Renascimento Italiano na literatura e nas artes plásticas. É também considerado um dos maiores contadores de histórias apresentando uma narrativa singular na Europa do século XIV. Refira-se a analogia noutra obra escrita em francês, com o mesmo tipo de estruturação: Heptameron, da autoria de Margarida de Navarra (1492-1549), rainha consorte de Henrique II de Navarra (1503-1555). 

Neste caso, são dez viajantes que se abrigam de uma violenta tempestade numa abadia. Impossibilitados de comunicarem com o exterior, todos os dias cada um narra uma história, real ou inventada. Em jeito de epílogo, cada uma é concluída com comentários dos participantes, em ameno diálogo. Era intenção da autora que, à semelhança do Decameron, a obra compreendesse cem histórias, porém a morte impediu-a de realizar o seu intento, não indo além da segunda história do oitavo dia, num total de 72 relatos. Será também a morte prematura que poderá explicar certa pobreza de estilo, contrabalançada, porém por uma grande perspicácia psicológica. Os estudos de gênero da literatura de língua portuguesa classificam, grosso modo, uma narrativa em romance, novela ou conto. É comum dividirmos romance, novela e conto pelo número de páginas. Em média, a novela tem entre 50 e 100 páginas, com uso técnico-metodológico de 20 mil a 40 mil palavras. Entretanto, o romance tem diferenças importantes em relação ao gênero novela, e convém notar a diferença dos termos em diferentes línguas. Os equivalentes de novela em inglês, francês e espanhol são: novella, nouvelle e “novela corta” ou novele, respectivamente, enquanto o romance é chamado novel, em inglês, roman, em francês, e novela, em espanhol. Efetivamente, tradição, educação, linguagem são os componentes nucleares da cultura e formam os ídolos da sociedade na perspectiva de poder dizer sua palavra. A sociologia é um poderoso conhecimento que, nas suas origens e limitações históricas inevitáveis permitem uma relativa emancipação.

        Se a cultura contém um saber coletivo acumulada em memória social, se é portadora de princípios, modelos, esquemas de conhecimento, se gera uma visão de mundo, se a linguagem e o mito são partes constitutivas da cultura, então a cultura, segundo Edgar Morin (2008), não comporta somente uma dimensão cognitiva; é por assim dizer, uma “máquina cognitiva cuja práxis é cognitiva”. Nesse sentido, podemos dizer metaforicamente que a cultura de uma sociedade determinada funciona como uma espécie de “megacomputador complexo”. Que memoriza todos os seus dados cognitivos e, portadora dessa memória coletiva, prescreve as normas práticas, éticas, políticas dessa sociedade complexa. Mas uma cultura abre e fecha as suas potencialidades bioantropológicas do conhecimento. Ela as abre e atualiza fornecendo aos indivíduos o seu saber acumulado, a sua linguagem, os seus paradigmas, a sua lógica, ipso facto seus esquemas de domínio, os seus métodos de aprendizagem, investigação, de verificação, mas ao mesmo tempo em que ela as fecha. Inibe com as suas normas técnicas, regras, proibições, tabus do corpo, o seu etnocentrismo, a sua sacralização, a sua “ignorância de sua ignorância”, na expressão de Morin sendo que o que abre o conhecimento é o per se que fecha o conhecimento.

Mas alimentam-se de memória biológica e de memória cultural, simultaneamente associadas em sua própria memória, que obedece a várias entidades de referência social, diversamente presentes nela. A percepção das formas e das cores e a identificação dos objetos e dos seres obedecem à conjunção de esquemas inatos e de seus esquemas culturais de reconhecimento. Tudo o que é linguagem, lógica, consciência, no sentido hegeliano, tudo o que é espírito e pensamento, constitui-se na encruzilhada dessa “máquina cerebral” que se movimenta entre dois princípios de tradução, um contínuo análogo, o outro descontínuo, digital, binário. As culturas modernas justapõem, alternam, opõem, complementam uma enorme diversidade de princípios, regras, métodos de conhecimento expressos através dos meios distintos de vária interpretação: racionalistas, empiristas, místicos, poéticos, proféticos, religiosos. Assim, descobrimos a complexidade genérica do conhecimento humano. Mas não é somente o reconhecimento egocêntrico de um sujeito sobre um objeto. Mas o conhecimento de um sujeito portador de vários centros-sujeitos de referência. A cultura está nos espíritos, vive neles os quais estão na cultura não obstante o reconhecimento de temores e horrores, mas o seu aprendizado. Em análise comparativa ao romance, pode-se dizer que a novela apresenta uma maior economia linguística de recursos narrativos; em relação ao conto, há um maior desenvolvimento de enredo e de personagens. 

A novela é, então, uma forma intermediária entre o conto e o romance, caracterizada, em geral, por uma narrativa de extensão média, na qual toda a ação acompanha a trajetória de poucos personagens, enquanto o romance apresenta diversas tramas e linhas narrativas. O romance, gênero maior, possui diversos personagens, a narrativa é desenvolvida por meio de enredos e os fatos são desencadeados gradualmente, sendo todos bem detalhados. A novela, no entanto, possui menos personagens e os fatos são desenvolvidos de forma rápida, sem tantos detalhes em relação ao romance. O conto, por sua vez, é mais instantâneo, mais rápido que a novela; nele, os fatos são desenvolvidos em poucas palavras, constituindo o gênero mais curto entre os três. Em ambos os gêneros narrativas são construídas, mas de maneira singular em cada um. Os três gêneros diferem em extensão, na quantidade de personagens, na economia de informações, no narrar e em diversos fatores. A novela literária corresponde a uma narração que gira em torno das ações dos personagens. Para Soares (2007), na novela “faz-se predominar a ação sobre as análises e as descrições e são selecionados os momentos de crise, aqueles que impulsionam rapidamente a diegese para o final”. A telenovela, por sua vez, é uma história de ficção, desenvolvida na televisão, na qual atores e atrizes desenvolvem os papéis de personagens. É dividida em capítulos sendo exibidos em número médio de 100 capítulos. Algumas vezes, as telenovelas são resultadas de adaptações de romances e novelas. Entretanto, não se pode confundir novela literária com telenovela, mesmo que a telenovela seja chamada, costumeiramente, de novela.

         

 Pantanal tem como representação socia uma telenovela brasileira exibida pela Rede Manchete de 27 de março a 11 de dezembro de 1990 em 216 capítulos. Sucedeu Kananga do Japão (1989) e antecedeu A História de Ana Raio e Zé Trovão (1990). Escrita por Benedito Ruy Barbosa, tem direção de Carlos Magalhães, Roberto Naar e Marcelo de Barreto e direção geral de Jayme Monjardim. Nascido na Gália, 17 de abril de 1931, o escritor é autor de telenovelas, dramaturgo, jornalista e publicitário brasileiro. Chegou à dramaturgia com a peça Fogo Frio, encenada pelo Teatro de Arena de São Paulo. A estreia como autor de telenovelas se deu como Somos Todos Irmãos (1966), na TV Tupi, uma livre adaptação de A Vingança do Judeu, romance mediúnico da russa Vera Krijanóvscaia (1861–1924) atribuído ao espírito de John Wilmot, Segundo Conde de Rochester (1647–1680). Em seguida foi ao ar outra novela de sua autoria, O Anjo e o Vagabundo, um grande sucesso. O tema mais constante nas novelas é a abordagem da vida rural e interiorana e cultura dos caboclos, bem como a imigração portuguesa no Brasil e a imigração italiana no Brasil, abordada em Os Imigrantes (1981), Vida Nova (1988), Terra Nostra (1999) e Esperança (2002), onde foi substituído pelo extraordinário autor Walcyr Carrasco por problemas de saúde. 

Outro grande sucesso foi exibido em 1990 na Rede Manchete, Pantanal, cuja sinopse havia sido recusada pela TV Globo, feito este que ocorreu também com Os Imigrantes, que acabou indo “ao ar” televisivo na Rede Bandeirantes. Até então, Benedito só havia escrito novelas para o horário das seis na emissora, à qual retornou três anos depois para escrever outro grande sucesso: Renascer (1993), que marcava a estreia do autor no horário nobre, abordando a crendice popular, realizada também em Paraíso (1982), e a saga da história de uma família nos dias antigos e atuais, com O Rei do Gado (1996). Em 1983 sua novela Algemas de Ouro foi adaptada pela Televisão Nacional do Chile com o título de El Juego de la Vida; dirigida por Herval Rossano e protagonizada pela atriz brasileira Nívea Maria. Seis antigos sucessos ganharam uma segunda versão: Cabocla (2004); baseada no romance homônimo de Ribeiro Couto; Sinhá Moça (2006); ambientada no século XIX adaptada do livro homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes; Paraíso (2009), as três adaptadas pelas filhas Edmara e Edilene Barbosa; Meu Pedacinho de Chão (2014), adaptada pelo próprio Benedito; e Pantanal (2022) e, Renascer (2024), as duas adaptadas pelo neto Bruno Luperi. Os remakes Cabocla (2004) e Sinhá Moça (2006) estão entre os maiores sucessos do horário das 18:00 em nossa década, tendo atingido, ambas, uma média final superior a 36 pontos no Ibope. Cabe lembrar que o “trilho” do horário era de 30 pontos e atualmente é de 25 pontos e que muitas novelas do horário não conseguem atingir esse patamar. Em 2014, ao término de Meu Pedacinho de Chão, Benedito entrega à direção da Rede Globo, quatro projetos inéditos, na qual consta, uma minissérie sobre Castro Alves.

Outra novela sobre o cangaço, intitulada O Cerco, na qual o autor pretendia contar com a parceria do diretor Luiz Fernando Carvalho, tentou emplacar a novela E Se Ele Voltar?, onde um grupo de pessoas viviam a expectativa – ou a realidade – da volta de Jesus Cristo à Terra, que retornaria à Terra e conviveria com as pessoas como um homem comum, com todos os defeitos próprios de um cidadão moderno, e a telenovela ambientada no Rio São Francisco intitulada Velho Chico, com Eriberto Leão cotado para o papel de protagonista. Algum tempo depois, sua telenovela Velho Chico é aprovada e a Globo decide exibi-la no horário das 21h, em substituição à telenovela A Regra do Jogo, para tentar recuperar audiência perdida por ela e sua antecessora, Babilônia. Maria Adelaide Amaral já havia escrito uma sinopse intitulada Sagrada Família, que depois ganhou o título de A Lei do Amor, e foi adiada para após o término de Velho Chico. Em 2016, a revista Veja elegeu Pantanal a quarta melhor novela da televisão brasileira, atrás de Roque Santeiro (1985–86), na terceira posição, e de Vale Tudo (1988–89) e Avenida Brasil (2012), em primeiro lugar. Conta com as atuações de Cláudio Marzo, Marcos Winter, Cristiana Oliveira, Jussara Freire, Marcos Palmeira, Luciene Adami, Ângela Leal, Ângelo Antônio, Giovanna Gold, Antônio Petrin e Paulo Gorgulho nos papéis principais. Complexo do Pantanal, ou simplesmente Pantanal, é um bioma constituído principalmente por uma savana estépica, alagada em sua maior parte, com 250 000 km² de extensão e altitude média de 100 metros.

 Devido às dificuldades de mensurar o tamanho do Pantanal, é possível encontrar referências de sua área em 210 000 km². Está situado no Sul do estado do Mato Grosso, e no Noroeste de Mato Grosso do Sul, além de partes do Norte do Paraguai e do Leste da Bolívia onde é chamado de chaco boliviano. O Pantanal é a maior planície alagada contínua do mundo, com 140 000 km² em território brasileiro. De acordo com o Instituto SOS Pantanal, do total de 195 000 km² considerados do Pantanal, 151 000 km² se encontram no Brasil e os restantes 44 000 km² estão divididos entre Bolívia e Paraguai. O Pantanal Boliviano possui 31 898 km². A região considerada pela United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization como Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera na região do Parque Nacional do Pantanal. Em que pese o nome, há um reduzido número de áreas pantanosas na região pantaneira. O Pantanal é uma das maiores extensões alagadas contínuas do planeta e está localizado no centro da América do Sul, na bacia hidrográfica do Alto Paraguai. Sua área é de 210 000 km², com 65% de seu território no estado de Mato Grosso do Sul e 35% no Mato Grosso. A região se encontra entre as microrregiões do Alto Pantanal (em Mato Grosso) e microrregião do Baixo Pantanal e Microrregião de Aquidauana (em Mato Grosso do Sul).

Do ponto de vista da fisiografia e geomorfologia, o Pantanal é definido como uma “grande e relativamente complexa planície de coalescência detrítico-aluvial”. Silva & Abdon (1998), usando como critério a inundação e o relevo, dividem a área em onze sub-regiões: Cáceres, Poconé, Barão de Melgaço, Paraguai, Paiaguás, Nhecolândia, Abobral, Aquidauana, Miranda, Nabileque, Porto Murtinho. A origem do Pantanal não é, como se pensava, resultado da separação do oceano há milhões de anos. Todos os geólogos concordam que não há ali indícios da presença do mar, e um dos que melhor conhecem a região, Fernando Flavio Marques de Almeida, diz que ele representa uma área que se abateu por falhamentos de blocos durante o período Terciário. O rio Paraguai passa pela cidade de Cáceres, Mato Grosso, onde é reconhecida como Princesinha do Rio Paraguai e seus afluentes percorrem o Pantanal, formando extensas áreas inundadas que servem de abrigo para muitos peixes, como o pintado, o dourado, o pacu, e também para outros animais, como os jacarés, as capivaras e ariranhas, entre outras espécies. Muitos animais ameaçados de extinção em outras partes do Brasil ainda possuem populações vigorosas na região pantaneira, como o cervo-do-pantanal, a capivara, o tuiuiú e o jacaré.

Devido à baixa declividade desta planície no sentido Norte-Sul e Leste-Oeste, a água que cai nas cabeceiras do rio Paraguai chega a gastar quatro meses ou mais para atravessar todo o Pantanal. Os ecossistemas são caracterizados por cerrados e cerradões sem alagamento periódico, campos inundáveis e ambientes aquáticos, como lagoas de água doce ou salobra, rios, vazantes e corixos. Animais que estão presentes no mar também existem no pantanal, formando o que se pode chamar de mar interior. A área alagada do pantanal se deve a lentidão de drenagem das águas que fluem lentamente, pela região do médio Paraguai, num local chamado de Fecho dos Morros do Sul. O clima do Pantanal é quente e úmido, no verão, e embora seja relativamente mais frio no inverno, continua apresentando grande umidade do ar devido à evapotranspiração associada à água acumulada no solo no horizonte das raízes durante o período de cheia. A maior parte dos solos do Pantanal é arenosa e suporta pastagens nativas utilizadas pelos herbívoros nativos e pelo gado bovino, introduzido pelos colonizadores da região. Uma parcela pequena da pastagem original foi substituída por forrageiras exóticas, como a Braquiária (4,5% em 2006). A vegetação do Pantanal conta com um mosaico de matas, cerradões e savanas, isto por que, tem influência direta de outros três importantes biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, com espécies como cambará-lixeira, canjiqueira e carandá, que são plantas que se estabelecem em campos inundáveis de diversos tipos.

O balanço de energia superficial, i.e., a troca de energia entre a superfície e a atmosfera, é muito influenciada pela presença corrente de lâminas de água, que cobrem parcialmente o terreno a cada verão, e as características particulares dos balanços hídrico e de energia acabam por influir no desenvolvimento da Camada Limite Atmosférica regional. A Planície do Pantanal possui aproximadamente, no Brasil, 150 000 km², medida estimada pelos estudiosos que explicam que dificilmente pode ser estabelecido um cálculo exato de suas dimensões, pois a cada fechamento de ciclo de estações de seca e de águas o Pantanal se modifica. Sua área total é de 210 000 km², esta área inclui partes do Brasil, Bolívia e Paraguai, com a maior parte situada no Brasil. Na Bolívia é conhecido também como Pantanal Boliviano ou ainda Gran Pantanal. O Pantanal vive sob o desígnio das águas: ali, a chuva divide a vida em dois períodos bem distintos. Durante os meses da seca de maio a setembro, aproximadamente, a natureza sofre mudanças radicais: no baixar das águas, são descobertos campos, bancos de areia, ilhas e os rios retomam seus leitos naturais, mas nem sempre seguindo o curso do período anterior.

As águas escorrem pelas depressões do terreno, formando os corixos, i.e., canais que ligam as águas de baías, lagoas, alagados etc. com os rios próximos. Nos campos extensos cobertos predominantemente por gramíneas e vegetação de cerrado, a água de superfície chega a escassear, restringindo-se aos rios perenes, com leito definido, a grandes lagoas próximas a esses rios, chamadas de baías, e a algumas lagoas menores e banhados em áreas mais baixas da planície. Em muitos locais, torna-se necessário recorrer a águas subterrâneas, do lençol freático ou aquíferos, utilizando as bombas manuais e ou tocadas por moinhos de vento para garantir o fornecimento às moradias e bebedouros de animais domésticos. As primeiras chuvas da estação caem sobre um solo seco e poroso e são facilmente absorvidas. De outubro a abril as chuvas caem torrenciais nas cabeceiras dos rios da Bacia do Paraguai, ao Norte. Com o constante umedecimento da terra, a planície rapidamente se torna verde devido à rebrotação de inúmeras espécies resistentes à falta d`água dos meses precedentes.

 Esse grande aumento periódico da rede hídrica no Pantanal, a baixa declividade da planície e a dificuldade de escoamento das águas pelo alagamento do solo, são responsáveis por inundações nas áreas mais baixas, formando baías de centenas de km², o que confere à região um aspecto de imenso mar interior.  O aguaceiro eleva o nível das baías permanentes, cria outras, transborda os rios e alaga os campos no entorno, e morros isolados sobressaem como verdadeiras ilhas cobertas de vegetação, em que os agrupamentos dessas ilhas são chamados de cordilheiras pelos pantaneiros, nas ilhas e cordilheiras os animais se refugiam à procura de abrigo contra a subida das águas. Com a subida das águas, grande quantidade de matéria orgânica é carregada pela correnteza e transportada a distâncias consideráveis. Representados, principalmente, por massas de vegetação flutuante e marginal e por animais mortos na enchente, esses restos, durante a vazante, são depositados nas margens e praias dos rios, lagoas e banhados e, após rápida decomposição, passam a constituir o elemento fertilizador do solo, capaz de garantir a enorme diversidade de tipos vegetais lá existentes. Por entre a vegetação variada encontram-se inúmeras espécies de animais, adaptados a essa região de aspectos tão contraditórios. Essa imensa variedade de vida, traduzida em constante movimento de formas, cores e sons é um dos mais belos espetáculos da Terra. 

Por causa dessa alternância entre períodos secos e úmidos, a paisagem pantaneira nunca é a mesma, mudando todos os anos: leitos dos rios mudam seus traçados; as grandes baías alteram seus desenhos. A fauna pantaneira extraordinariamente rica. Foram catalogadas cientificamente 656 espécies de aves que no Brasil inteiro estão catalogadas cerca de 1800. A mais espetacular é a arara-azul-grande, uma espécie ameaçada de extinção. Há ainda tuiuiús, a ave símbolo do Pantanal, tucanos, periquitos, garças-brancas, beija-flores, os menores chegam a pesar dois gramas, socós, espécie de garça de coloração castanha, jaçanãs, emas, seriemas, papagaios, colhereiros, gaviões, carcarás e curicacas. No Pantanal foram catalogadas mais de 1 032 espécies de borboletas. Contam-se mais de 124 espécies de mamíferos, os principais a onça-pintada que atinge a 1,2 m de comprimento, 0,85 cm de altura e pesa até 150 kg, capivara, veado-campeiro, veado-catingueiro, lobo-guará, macaco-prego, cervo-do-pantanal, bugio-do-pantanal, macaco que produz um ruído ao amanhecer, caititu, queixada, tamanduá-bandeira, cachorro-do-mato, anta, bicho-preguiça, ariranha, onça-parda, quati, tatu etc. A região também é extremamente piscosa, já tendo sido catalogadas 263 espécies de peixes. Algumas espécies encontradas são: piranha, carnívoro e voraz, pacu, pintado, dourado, cachara, curimbatá, piraputanga, jaú e piau. 

Foram identificadas 93 espécies de répteis. Dentre eles estão o jacaré (jacaré-do-pantanal e jacaré-coroa), cobra boca-de-sapo (Jararaca), sucuri, Jiboia-constritora, Cobra-d'água e outras, lagartos (iguana, calango-verde) e quelônios (jabuti e cágado). A vegetação pantaneira é um mosaico de cinco regiões distintas: Floresta Amazônica, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Chaco (paraguaio, argentino e boliviano). Durante a seca, os campos se tornam amarelados e constantemente a temperatura desce a níveis abaixo de 0 °C, e registra geadas, influenciada pelos ventos que chegam do sul do continente. A vegetação do Pantanal não é homogênea e há um padrão diferente de flora de acordo com o solo e a altitude. Nas partes mais baixas, predominam as gramíneas, que são áreas de pastagens naturais para o gado — a pecuária é a principal atividade econômica do Pantanal. A vegetação de cerrado, com árvores de porte médio entremeadas de arbustos e plantas rasteiras, aparece nas alturas médias. Poucos metros acima das áreas inundáveis, ficam os capões de mato, com árvores maiores. Em altitudes maiores, o clima árido e seco torna-a parecida com a da caatinga, com espécies típicas como o mandacaru, plantas aquáticas, piúvas (da família dos ipês com flores róseas e amarelas), palmeiras, orquídeas, figueiras e aroeiras. 

O pantanal possui uma vegetação rica e variada, que inclui a fauna típica de outros biomas brasileiros, como o cerrado, a caatinga e a região amazônica. A camada de lodo nutritivo que fica no solo após as inundações permite o desenvolvimento de uma rica flora. Em áreas em que as inundações dominam, mas que com a mudança climática ficam secas durante o inverno, ocorrem tipos de vegetações como a palmeira carandá e o paratudal. Durante a seca, os campos são cobertos predominantemente por gramíneas e vegetação de cerrado. Essa vegetação também está presente nos pontos mais elevados, onde não ocorre inundação. Nos pontos ainda mais altos, como os picos dos morros, há vegetação semelhante à da caatinga, com barrigudas, gravatás e mandacarus. Ainda há a ocorrência de vitória-régia, planta típica da Amazônia. Entre as poucas espécies endêmicas está a carandá, semelhante à carnaúba. A vegetação aquática é fundamental para a vida pantaneira: imensas áreas são cobertas por batume, plantas flutuantes como o aguapé e a salvínia. Essas plantas são carregadas pelas águas dos rios e juntas formam “ilhas verdes”, que na região recebem o nome de camalotes. Há ainda no Pantanal áreas com mata densa e sombria. Em torno das margens mais elevadas dos rios ocorre a palmeira acuri, que forma uma floresta de galerias com outras árvores, como o pau-de-novato, a embaúba, o jenipapo e as figueiras.

Bibliografia Geral Consultada.

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