“O homem é uma invenção cuja recente arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente”. Michel Foucault
Em Caverna Azul (2024) acompanhamos a viagem de um homem em encontro do amor e da memória. Caverna
Azul (Mavi Mağara), é uma caverna marinha numa pequena baía chamada
Balun (Ball no dialeto local), no lado Leste da ilha Biševo e aproximadamente 4,5 nautical miles (8,3 km) de Komiža, na costa croata do Mar
Adriático. Situa-se na parte central do arquipélago da Dalmácia, a 5 km a Sudoeste
da ilha de Vis. A gruta é uma das atrações naturais mais conhecidas na costa do
Adriático e muito popular pelo “brilho azul-claro refletido em certas horas do
dia”. A Dalmácia é uma região que abrange territórios da Croácia, Bósnia e
Herzegovina (Neum) e Montenegro (Bocas de Cattaro), na costa leste do mar
Adriático, estendendo-se entre a ilha de Pag a noroeste e a baía de Kotor a Sudeste.
A Dalmácia interior (Zagora) ocupa uma faixa até cerca de 50 km do mar, sendo
muito estreita na região mais a sul. Devido a correntes marítimas e ao modo
como os ventos sopram no Adriático, a água do mar é mais limpa e quente na
Dalmácia que no lado italiano. A costa inclui um largo número de reentrâncias e
ilhas, estreitos, baías e praias, tornando-se atrativa para desportos náuticos
e turismo. A Gruta Azul (Modra špilja) é uma gruta marinha
inundada localizada numa pequena baía chamada Balun, no lado Leste da ilha de
Biševo e a cerca de 4,5 milhas náuticas (8,3 km) de Komiža, no Adriático
croata. Situa-se no arquipélago da Dalmácia Central, a 5 km a Sudoeste da ilha
de Vis. A gruta é um dos locais de beleza natural do
Adriático e uma gruta turística popularmente reconhecida devido fenômeno de
irradiação ótica à luz azul brilhante que aparece em determinados horários do
dia.
Descrita e pintada pela
primeira vez pelo Barão Eugen von Ransonet (1838-1926), a gruta era
originalmente acessível apenas por mergulho, pois possuía uma entrada natural
abaixo do nível do mar. Com base em sua sugestão, uma entrada artificial grande
o suficiente para pequenas embarcações foi construído em 1884. A entrada
natural da caverna, localizada em seu lado Sul, assemelha-se a uma abóbada no
teto de uma gruta. É por essa abertura, semelhante à de um submarino, no teto
da caverna, que a luz do Sol penetra e cria um efeito iridescente azulado ao
redor de toda a caverna. É um fenômeno óptico que causa a mudança de cores de
uma superfície conforme o ângulo de visão ou iluminação. Ele ocorre devido à
interferência da luz em microestruturas ou películas finas, fazendo com que a
luz refletida se manifeste em um brilho multicolorido, semelhante a um
arco-íris. Este efeito é comum em materiais como pérolas, asas de insetos,
bolhas de sabão e em certos cristais. Além disso, uma faixa de pedra, que
conecta duas paredes da caverna, é claramente visível logo abaixo da linha d`água,
tanto em fotografias tiradas acima da água quanto em fotos subaquáticas. Dependendo
da estação do ano, o momento ideal para visitar a gruta é entre as 11h e o
meio-dia. Nessa hora do dia, a luz do Sol reflete na água que vem do chão
branco da gruta e banha a gruta em uma luz azul-turquesa, enquanto os
objetos na água parecem ser prateados. A Gruta Azul (em italiano: Grotta
Azzurra) na ilha de Capri, na Itália, também é famosa por esse tipo de
fenômeno.
Dalmácia
é uma região histórica localizada na atual Croácia e Montenegro, na costa Leste
do Mar Adriático. É uma estreita faixa de terra que se estende da ilha de Rab,
ao Norte, até a Baía de Kotor, ao Sul. O interior da Dalmácia varia em largura
de 50 Km ao Norte a apenas alguns quilômetros ao Sul; é em grande parte coberto
pelos Alpes Dináricos. Setenta e nove ilhas (e cerca de 500 ilhotas) correm
paralelas à costa, sendo as maiores na Dalmácia Brač, Page Hvar. A maior cidade
é Split, seguida por Zadar, Šibenik e Dubrovnik. No filme A Caverna Azul
(Mavi Mağara), Cem (Kerem Bürsin) tem como
representação social um oficial da Marinha que, apesar de sua profissão evidentemente
séria e perigosa, é um eterno romântico que procura um grande amor e um lar
estável. Um dia, ele conhece Alara (Devrim Özkan) e os dois se apaixonam. O
destino, porém, guardava algo inesperado e uma tragédia encurta a história de
amor do casal. Cem, então, embarca numa jornada até a Caverna Azul, o
lugar favorito da Alara, para honrar a memória imperfeita e está sujeita a distorções, mas sentir
mais próximo da esposa. Nessa viagem até o sítio arqueológico, Cem, contudo, se
depara com as lembranças e a dor do amor perdido, o que o leva a refletir historicamente
sobre os momentos e os detalhes de seu relacionamento. Ipso facto, ao
olhar mais de perto, sua expedição até a caverna azul se transforma num
percurso real de autodescoberta, nostalgia e o significado da perda.
Eugen
von Ransonnet‑Villez foi um barão, diplomata, pintor, litógrafo, biólogo e
explorador austríaco. Ele era filho de Geheimrat Karl Freiherr von
Ransonnet-Villez, vice-presidente da Instituição Suprema de Auditoria da
Áustria, e de Margarethe, filha do Marechal de Campo-Tenente Franz Ludwig Conde
Bigot de Saint-Quentin. Aos 11 anos, iniciou seus estudos na Academia de Belas
Artes de Viena e, posteriormente, estudou Direito (1855-1858) também em Viena.
Em 1858, ingressou no Ministério Imperial das Relações Exteriores, dando início
à sua carreira diplomática. A carreira diplomática tem suas origens nas
relações entre antigas cidades-Estado, com os primeiros diplomatas atuando como
mensageiros. Contudo, a forma moderna da diplomacia profissionalmente começou a
se desenvolver na Itália renascentista, com a criação de embaixadas permanentes
e a necessidade de representantes com habilidades diplomáticas de negociação e
persuasão permanente. A profissionalização continuou com a necessidade de embaixadores
especializados, e o Congresso de Viena em 1815 estabeleceu regras e o método de
precedência para o corpo diplomático. Em seu tempo livre, Eugen von
Ransonnet‑Villez dedicava-se às ciências naturais, assim como à fotografia, à
pintura e, especialmente, à cromolitografia. Por volta de 1860, ele viajou
extensivamente para a Palestina, Egito, Índia e Japão profissionalmente como
diplomata. Durante esse período, ele desenvolveu um “sino de mergulho” para
esboçar cenas subaquáticas diretamente.
O sino possuía uma vigia, assento, balas de canhão com peso para lastro e uma linha de comunicação de suprimento de ar de um barco. Ele o usou para desenho subaquático em águas relativamente rasas, realizando mergulhos ao largo do Ceilão (atualmente Sri Lanka), do Mar Vermelho, do Golfo de Aqaba, da costa da Dalmácia e do Attersee, na Áustria. Ele foi o primeiro artista subaquático reconhecido. Suas experiências produziram observações sobre como as cores apareciam debaixo d`água, detalhadas em sua publicação: “Sketches of the habits, animal life and vegetation ... of Ceylon ... submarine scenery” (Viena, 1867), incluindo 22 litografias coloridas e 4 litografias coloridas. Entre 1871 e 1873, Ransonnet-Villez construiu uma vila em Nußdorf am Attersee, decorada com plantas exóticas que havia coletado durante suas viagens. Mais tarde, ele ajudou a desenvolver o turismo na região e fundou o Union Yacht Club Attersee em 1886. Sua filha, Eugénie-Caroline, herdou a propriedade e, em 1956, a legou à Diocese de Linz. Funciona como hotel para seminários reconhecido como Grafengut. Uma trilha temática (Ransonnet-Themenweg) com painéis interpretativos comemora seu legado. Sua pintura a óleo subaquática restante, com mais de 5.000 espécimes zoológicos, fora doada ao Museu de História Natural de Viena em 1892.
O nome Dalmácia é derivado da tribo ilíria chamada Dalmatae que viveu na área costeira do mar Adriático oriental no primeiro milênio antes de Cristo. Supõe-se que em algum momento da primeira invasão indo-europeia da Europa, a área adriática, a assim também a Dalmácia, foi ocupada por um grupo de povos afins entre si, os liburnos, os japidos ou japudes e os ístrios na área oriental; os picenos, os japigios na área ocidental, sobre a península Itálica. A área da Dalmácia atual provavelmente era ocupada por tribos de pastores, dedicados ocasionalmente à pesca e à pirataria, os dálmatas (dalmatae). Tal área se encontrava, na parte mais setentrional, nas proximidades do golfo de Quarnero, com a área ocupada com os povos que deram vida à “cultura dos casteleiros”. O centro urbano principal dos dálmatas era Delmínio (em latim: Delminium), isto é, provavelmente na Bósnia e Herzegovina (Duvno), e talvez porque originários dessa cidade, já em 170 a.C. preservarem o nome pelo qual são conhecidos em nossos dias. Provavelmente Delmínio é um termo de origem albanesa que significa “pasto”. Em 153 a.C., os dálmatas eram unidos em uma liga inimiga dos romanos. Públio Cornélio Cipião Násica Córculo os enfrentou pela primeira vez e destruiu Delmínio. Alguns historiadores recordam também as incursões celtas na costa dálmata, que alcançaram Salona (atualmente Solin).
Depois que o Império
Bizantino foi conquistado pelas forças da Quarta Cruzada em 1204, a República
de Veneza acelerou sua ascensão na região, enquanto o Reino da Croácia, aliado
dos bizantinos, tornava-se crescentemente influenciado pelo Reino da Hungria ao
norte, sendo absorvido em 1102. Então estas duas facções tornaram-se dominantes
na Dalmácia, intermitentemente controlando-a. Um consistente período de domínio
húngaro na Dalmácia terminou com a invasão mongol da Hungria em 1241. Os
mongóis atacaram severamente o estado feudal, de tal forma que no mesmo ano o
rei Béla IV teve que refugiar-se na Dalmácia, na fortaleza de Klis, bem ao Sul.
Os mongóis atacaram as cidades da Dalmácia, mas depois retiram-se sem muito
sucesso. Em 1389, Tordácato I, o fundador do reino da Bósnia e Herzegovina,
conseguiu controlar o litoral adriático entre Cotor e Šibenik e até mesmo a
reivindicar controle sobre a costa Norte até Fiume (Rijeka), e seu aliado
independente, a República de Ragusa (Dubrovnik). Isto foi temporário, já que os
húngaros e venezianos continuaram sua luta sobre a Dalmácia depois da morte da
morte de Tordácato em 1391. Nessa época os reinos húngaro e croata enfrentavam
dificuldades internas, como os 22 de guerra civil entre a Casa de Anjou do
Reino de Nápoles e o rei Sigismundo da Casa de Luxemburgo.
Argumentava com razão o
historiador Perry Anderson (1984), que os teóricos marxistas, persuadidos da
universalidade das sucessivas fases do desenvolvimento socioeconômico
registradas na Europa, têm afirmado, pelo contrário, que o feudalismo foi um
fenômeno de proporções mundiais, que abrangeu os Estados africanos e de países
asiáticos tanto quanto os europeus. Distinguiu-se e estudou-se o feudalismo
otomano, egípcio, marroquino, persa, indiano, mongol ou chinês. A reação
política contra a superioridade das ideologias europeias conduziu a uma
extensão intelectual dos conceitos historiográficos consequentemente derivados
do passado de um continente para explicar a evolução per se análoga dos outros
Estados. Nenhum outro termo sofreu uma difusão tão lata e indiscriminada como
“feudalismo” o qual foi muitas vezes aplicado na prática a qualquer formação
social situada entre os polos de identidade tribal e capitalista, não marcada
pelo escravagismo. O modo de produção feudal, é assim definido como a
combinação da grande propriedade com a pequena produção camponesa, em que a
classe exploradora extrai um excedente ao produtor imediato pelas habituais
formas extraeconômicas de coerção como as corveias, prestações em espécie, ou
em numerário em que a troca de mercadorias e a mobilidade são assim
restritas. Nesta perspectiva teórica e
histórica, o tipo de propriedade agrária, a natureza da classe possuidora e a
matriz do Estado podem variar enormemente, sobre uma ordem rural comum que
constitui a base de toda a formação social. Em particular, a soberania
parcelarizada, a hierarquia vassálica e o sistema de feudo da Europa medieval
deixam de ser, sob qualquer aspecto, características essenciais ou originais do
feudalismo.
A sua completa ausência
é compatível com a presença de uma formação feudal, desde que se verifique a
combinação de exploração agrária em grande escala com a produção camponesa,
baseada em relações extraeconômicas de coerção e dependência. Assim, a China
dos Ming, a Turquia seldjúcida, a Mongólia de Gengis Khan (1162-1227), a Pérsia
dos Safávidas, a Índia dos Mogols, e Egito dos Telúnidas, o Marrocos almorávida
e a Arábia wahhabita, todos são igualmente susceptíveis de serem classificados em
categorias feudais, a par da França de Hugo Capeto (cf. Duby, 1992), da
Inglaterra normanda ou da Alemanha Hohenstaufen. As confederações nômadas dos
Tártaros, o império bizantino e o sultanato otomano foram designados Estados
feudais por teóricos qualificados na história respectiva, com o argumento de
que as divergências superestruturais (jurídico-político-ideológico), evidentes
em relação às normas ocidentais, ocultam uma convergência subjacente de
relações de produção infraestruturais. O privilégio do desenvolvimento
ocidental tende a desaparecer, no processo multiforme da história do mundo
secretamente una à partida. Na historiografia materialista, o feudalismo
torna-se um oceano de absolvição no qual quase todas as sociedades podem
receber o batismo. A invalidade
científica deste “ecumenismo teórico” na análise crítica marxista de Perry
Anderson (1984) fica demonstrada pelo paradoxo lógico que dele resulta. Isto é,
se o conceito de modo de produção feudal pode definir-se.
Independentemente das várias superestruturas jurídicas e políticas que o acompanham, de tal modo que a sua presença pode registrar-se em todo o globo, onde quer que as formações sociais primitivas e tribais foram superadas, põe-se o problema: como explicar esse dinamismo único no teatro europeu do feudalismo internacional? Ao que parece nenhum historiador afirmou que o capitalismo industrial se desenvolveu espontaneamente em qualquer região exterior à Europa e sua extensão americana, que precisamente então conquistava o resto do mundo em virtude do seu primado econômico que bloqueava um implantava o modo de produção capitalista noutros países, segundo as necessidades e tendências do seu sistema imperial. Se existia uma base econômica comum ao feudalismo de toda essa massa territorial desde o Atlântico até ao Pacífico, apenas interrompida por formas jurídicas, e no entanto, só uma zona produziu a revolução industrial que levaria à transformação das sociedades do mundo, há que procurar a determinante deste sucesso nas superestruturas políticas e jurídicas, únicas que as diferenciam socialmente. Um modo de produção pré-capitalista só pode ser definido por via das suas superestruturas políticas, jurídicas e ideológicas, uma vez que são estas que condicionam o tipo social de coerção extraeconômica que lhes é específico.
As formas jurídicas
exatas de dependência, de propriedade e de soberania que caracterizam uma
formação social pré-capitalista, longe de serem apenas epifenômenos acessórios
ou contingentes, constituem pelo contrário os índices principais do modo de
produção determinado que nelas domina. Uma taxonomia escrupulosa e exata é um
pressuposto para a elaboração de uma exaustiva tipologia dos modos de produção
pré-capitalista. É evidente que a complexa imbricação de exploração econômica
com instituições e ideologias extraeconômicas cria modos de produção possíveis
antes do capitalismo do que pode deduzir-se da generalidade relativamente
simples e massiva do próprio modo de produção capitalista, que acabou por ser,
com a época do imperialismo industrial, o seu terminus ad quem comum e
involuntário. Neste sentido, as condições e possibilidades de uma pluralidade
de modos de produção pré-capitalistas posteriores ao tribalismo e ao
escravagismo é inerente ao seu mecanismo de extração de excedentes. Não é por
acaso, afirma Anderson (1984: 474), a uma profunda análise das formas de
propriedade agrária em modos de produção contemporâneos na Europa, na Ásia e na
América refere-se a mudança social no caráter e na posição de propriedade e as
suas relações interligadas com os sistemas políticos, do tribalismo primitivo
ao capitalismo.
Como categoria
analítica social e histórica, o feudalismo foi cunhado pelas Luzes. Mas não
restam dúvidas que Montesquieu, dotado de um sentido histórico muito mais
profundo, andava mais perto da verdade. A investigação moderna descobriu apenas
uma grande região do mundo onde vingou inegavelmente um modo de produção
comparável ao da Europa. No outro extremo da massa continental eurasiana, para
além dos impérios orientais familiares ao Iluminismo, as ilhas do Japão haviam
de revelar um panorama social vivamente evocador do passado medieval para os
viajantes e observadores europeus do final do século XIX, depois que a chegada
do comodoro Perry à baía de Yokoama, em 853, por fim ao seu longo isolamento do
mundo exterior. Pouco mais de uma década passada, é o próprio Marx que comenta
em O Capital, publicado ante da restauração Meiji: - “O Japão, com sua
organização puramente feudal de propriedade fundiária, e a sua petite culture
desenvolvida, dá-nos um retrato mais fiel da Idade Média europeia do que todos
os nossos livros de história”. A opinião sociológica dos teóricos concorda
quase que unanimemente em considerar que o Japão foi lugar histórico de um
autêntico feudalismo. O interesse feudal do Extremo Oriente reside na análise
comparativa desde a sua distinta combinação de similaridades estruturais e
divergências relativamente à evolução em conjunto da sociedade europeia.
O feudalismo japonês, que surgiu como um modo de produção desenvolvido a partir do século XIX-XV e após um longo período de incubação, caracterizava-se essencialmente pela mesma conexão fundamental do feudalismo europeu: a fusão de vassalagem, benfeitoria e imunidade num sistema de feudo que constituía a estrutura político-jurídica de base que permitia a extração ao produtor direto de um sobre-trabalho. As relações sociais entre serviço militar, propriedade fundiária condicional e jurisdicional senhorial reproduziram-se fielmente no Japão. Igualmente perante a hierarquia escalonada entre senhor, vassalo e sub-vassalo, constituindo uma cadeia de suserania e dependência. A classe dirigente hereditária, era formada por uma aristocracia de cavaleiros; o campesinato encontrava-se juridicamente vinculado ao solo, numa réplica próxima da servidão da gleba. O feudalismo japonês possuía características próprias locais, que contrastavam com o feudalismo europeu. As condições técnicas da cultura do arroz ditavam uma estrutura diferente das aldeias, de que era ausente o sistema se assolamento trienal. Por sua vez, o domínio senhorial japonês raramente continha uma reserva ou residência. O pacto feudal era menos contratual e específico do que na Europa: os deveres do vassalo eram mais imperativos. Dentro do equilíbrio entre honra e subordinação, reciprocidade e desigualdade, que marcava a ligação feudal, a variante japonesa pendia acentuadamente para o segundo termo.
Embora a organização clânica estivesse ultrapassada, como em todas as verdadeiras formações sociais feudais, o expressivo “código” da relação senhor-vassalo era ditado pela linguagem de parentesco, mais do que por elementos da lei: a autoridade do senhor sobre o seu subalterno era mais patriarcal e indiscutível do que na Europa. Era-lhe estranho o conceito de felonia senhorial; não havia tribunais de vassalos; e o sistema jurídico manteve-se de uma maneira geral, muito limitado. A mais importante das consequências gerais do maior autoritarismo e do conteúdo assimétrico das relações hierárquicas entre os senhores no Japão foi a ausência de um sistema de cortes, quer a nível regional, que a nível nacional. Esta é sem dúvida a mais importante linha divisória ente os feudalismos japonês e europeus, considerados enquanto estruturas fechadas. Na realidade, essa parcelarização da soberania atingiu no Japão Tokugawa uma forma mais organizada, estável e sistemática do que jamais conheceu qualquer país da Europa; e a propriedade privada escalonada da terra foi universal no Japão do que na Europa medieval, já que o Japão rural desconhecia os alódios. O paralelismo de base entre as duas grandes experiências, nos extremos opostos do continente eurasiano, havia de receber a confirmação mais convincente do destino de cada uma delas. Os caracteres históricos e sociais que compõem o nome Japão significam “Origem do Sol”, razão pela qual o Japão é muitas vezes identificado como a “Terra do Sol Nascente”. O nome japonês Nippon é usado de forma oficial tradicional, inclusive no dinheiro japonês, selos postais e para muitos eventos esportivos internacionais. Nihon é um termo percebido senso mais casual e mais frequentemente utilizados no discurso contemporâneo.
Tanto Nippon quanto
Nihon, significam “origem do Sol” e muitas vezes são traduzidos como a “Terra
do Sol Nascente”. Esta nomenclatura vem das missões do Império com a dinastia
chinesa Sui e refere-se à posição a Leste do Japão em relação à China. Foi durante
o século XVI que comerciantes e missionários portugueses chegaram ao Japão pela
primeira vez, dando início a um intenso período de trocas linguísticas,
culturais e comerciais. No Japão, os portugueses praticaram pari passu o
comércio e a evangelização. Os missionários, principalmente os sacerdotes da
Companhia de Jesus, levaram a cabo um intenso trabalho disciplinar de missão em
cerca de 100 anos de presença portuguesa no Japão. Em 1582 a comunidade cristã
no país chegou a ascender a 150 mil cristãos no Japão e 200 igrejas. Toyotomi
Hideyoshi deu continuidade ao governo de Oda Nobunaga e unificou o país em
1590. Depois da morte de Hideyoshi, o regente Tokugawa Ieyasu aproveitou-se de
sua posição para ganhar apoio político e militar. Quando a oposição deu início
a uma guerra, ele a venceu em 1603 na Batalha de Sekigahara. Tokugawa fundou um
novo xogunato, um sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867, com
capital em Edo e expulsou os portugueses e restantes estrangeiros, dando início
à perseguição dos católicos no país, tidos como subversivos, com uma política
reconhecida como sakoku, a política externa isolacionista japonesa. A
perseguição aos cristãos japoneses fez parte desta política, levando esta
comunidade à conversão forçada ou mesmo à morte, como é o caso dos 26 Mártires
do Japão. O Japão era uma sociedade feudal bem desenvolvida com tecnologia
pré-industrial. Era mais povoado do que qualquer país ocidental e tinha no
século XVI 26 milhões de habitantes.
Um fato social ainda
mais revelador, é que o Japão do fim do feudalismo reconheceu um nível de
urbanização sem equivalente, exceto na Europa contemporânea: no princípio do
século XVIII, a sua capital, Edo, era maior do que Londres ou Paris, e talvez
um em cada dez japoneses vivia em cidades de mais de 10 mil habitantes. E há
que notar também que o esforço educacional do país suportava bem a comparação
com as mais desenvolvidas nações da Europa ocidental: no limiar da “abertura”
japonesa ao Ocidente, cerca de 40% a 50% da população masculina adulta estava
alfabetizada. O êxito e a rapidez impressionantes com que o capitalismo
industrial foi implantado no Japão pela restauração Meiji tiveram os seus
pressupostos históricos determinados no avanço ímpar da sociedade que foi
herdeira do feudalismo de Tokugawa. Quando a esquadra da Perry aportou a
Yokohama, em, 1853, o fosso histórico entre o Japão e as potências
euro-americanas que o ameaçavam era, apesar de tudo, enorme. A agricultura
japonesa encontrava-se notavelmente comercializada ao nível da distribuição,
mas muito menos ao nível da própria produção. Os tributos feudais, coletados em
espécie, contavam ainda para o total do sobre-produto, embora acabassem por ser
convertidos em moeda: a produção agrícola direta para o mercado era subsidiária
dentro da economia. sistema de governo predominante no Japão de 1192 a 1867,
baseado na crescente autoridade do xógum, supremo líder militar, que terminaria
por submeter até mesmo a autoridade do imperador. A retomada do poder imperial
determinou o encerramento do feudalismo, xogunato, a abertura do país
ao exterior e o início de sua ocidentalização.
Em outras palavras,
nada de comparável ao Renascimento tocar em terra japonesa. É lógico que
a estrutura do Estado tivesse uma forma rígida e fragmentária. O Japão teve uma
longa e rica experiência de feudalismo, mas nunca produziu um absolutismo no
sentido conceitual. O shogunato Tokugawa, que governou as ilhas durante os
últimos duzentos e cinquenta anos da sua existência, até a intrusão do ocidente
industrializado, assegurou uma paz prolongada e manteve uma ordem disciplinar
rigorosa: o seu regime era, porém, a negação do Estado absolutista. O shogunato
não mantinha monopólios coercivos no Japão: os senhores regionais mantinham os
seus próprios exércitos, cujo total era superior aos das tropas da casa
Tokugawa. Não impunha uma legislação uniforme, os seus decretos cobriam apenas
um quinto ou um quarto do território. Não possuía uma administração competente
para o total da sua área de suserania: todos os feudos importantes tinham as
suas próprias administrações separadas e autônomas. Não coletava impostos nacionais,
estando três quartos do território fora do seu alcance fiscal. Não tinha
diplomacia, pois o isolamento oficial e social impedia o estabelecimento de
relações com o mundo exterior. Exército, fisco, administração, direito,
diplomacia, comparados, faltavam no Japão todos esses complexos institucionais
que são chave explicativa e processual do contexto do absolutismo europeu. A
distância neste aspecto histórico e social entre o Japão e o continente europeu
as duas pátrias do feudalismo, manifestava e simbolizava a profunda divergência
nas suas evoluções históricas. Torna-se necessária e instrutiva uma comparação
teórica e histórica não da “natureza”, mas da “posição” do feudalismo em cada
uma destas trajetórias sociais e políticas.
Durante a guerra, o perdedor Ladislau de Nápoles vendeu seu “direito” sobre a Dalmácia à República de Veneza por 100.000 ducados. A república de Veneza, mais centralizada, assumiu em 1420 o controle da Dalmácia, que permaneceu sob domínio veneziano por 377 anos. A República de Veneza controlou a maior parte da Dalmácia de 1420 a 1797, sendo o enclave mais ao Sul chamado de “Albânia Vêneta”. A língua vêneta foi a língua franca no mar Mediterrâneo naquela época e influenciou fortemente a língua dálmata e, num menor grau, o croata e o albanês. Em 1481, Veneza mudou sua aliança para o Império Otomano. Isto deu a seus mercadores vantagens tais como o acesso ao mar Negro, e a República de Ragusa foi o mais feroz competidor dos mercadores venezianos nos séculos XV e XVI. A República de Veneza foi também um dos poderes mais hostis à expansão do Império Otomano e participou de muitas guerras contra ele. À medida que os turcos assumiam o controle do interior, muitos cristãos buscaram refúgio nas cidades costeiras da Dalmácia. Depois da Grande Guerra Turca, tempos mais pacíficos fizeram a Dalmácia experimentar um período de certo crescimento econômico e cultural no século XVIII. A cidade de Ragusa (Dubrovnik) tornou-se de fato independente em 1358 pelo Tratado de Zara, quando Veneza recuperou sua suserania de Luís I da Hungria. Este período encerrou-se abruptamente com a queda da República de Veneza em 1797.
As tropas de Napoleão Bonaparte (1769-1821) invadiram a região e terminaram também a Independência da República de Ragusa, mas evitaram sua ocupação pelo Império Russo e Montenegro. Em 1797, a República de Veneza, que havia dominado por quase quatro séculos a costa adriática oriental foi derrubada por Napoleão Bonaparte. Também a Dalmácia entrou nos planos de anexação de Napoleão. Depois de um breve período em que as cidades dálmatas venezianas foram cedidas à Áustria por Napoleão com o tratado de Campoformio, essas terminaram sob controle francês que primeiro decide pela anexação ao reino napoleônico da Itália e, depois, em 1809, instituiu o governo das províncias Ilíricas, com a Ístria, a Carniola, a Krajina (com fim militar dos Habsburgo), os condados de Gradisca, Gorizia, Trieste e parte da Caríntia, das quais a capital foi Liubliana, a capital e a maior cidade da Eslovénia. É reconhecida pela sua notável população acadêmica e pelos espaços verdes, incluindo o extenso Parque Tivoli. Com a restauração em 1815, as cidades de Gorizia, Trieste, Pola (Pula) e Fiume (Rijeka), da Veneza-Júlia, com as terras a Oeste dos Alpes Julianos, reobtiveram, no âmbito do Império Habsburgo, a separação da Ilíria e o governo desta foi dado ao império Habsburgo, que, por um breve período da história política nacional, constituiu o termo “reino da Ilíria” para referir-se a duas entidades históricas distintas: o reino ilírio antigo, formado por várias tribos nos Bálcãs, e o Reino da Ilíria (1816–1849), uma terra da coroa do Império Austríaco e, depois, definitivamente, o reino da Dalmácia, com capital em Zara (Zadar). Em 1816, época da restauração, a comunidade italiana representava a quinta parte do total da região, concentrando-se, porém, do ponto de vista urbano nas cidades e no litoral, enquanto a etnia servo-croata predominava no interior.
Na primeira metade do século XIX, começou a difundir-se na Dalmácia o movimento chamado Ilírico, apoiado pela maioria croata e liderado por um representante deste grupo étnico, Ljudevit Gaj (1809-1872). Este movimento social tinha como objetivo a criação de uma única cultura e consciência dos eslavos do Sul. A etnia majoritária da Dalmácia parecia assim ser naquele período a eslava, mas não são bem claros os dados sobre a população de etnia italiana. Depois da Primeira Guerra Mundial, com base no Tratado de Londres, a Itália obteve a Dalmácia setentrional, inclusive as cidades de Zara (Zadar), Sebenico (Šibenik) e Tenin (Knin). À anexação, opôs-se o recém-criado Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, apoiado por Woodrow Wilson e a Dalmácia foi finalmente entregue ao estado eslavo do Sul, com a exceção de Zara (de maioria italiana), da ilha de Lagosta (Lastovo) e Cazza (Sušac) e as carnerinas Cherso (Cres), Lussino (Lošinj), Unie (Unije), Sansego (Susak) e Asinello, que se tornaram italianas. No ordenamento regional do reino iugoslavo, a Dalmácia fazia parte da Banovina do litoral com parte da Herzegovina. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia foi invadida pelo Eixo e desmembrada. A Dalmácia foi repartida entre a Itália, que ficou com Zaravecchia, Sebenico (Šibenik), Traù (Trogir), Spalato (atual Split) e Bocas de Kotor (atual Kotor); e o Estado Independente da Croácia, que anexou Ragusa (Dubrovnik) e Morlacchia, embora na região estivessem acantonadas tropas italianas.
Apesar da turbulência causada pela guerrilha contra o Eixo, anexada à Itália tornou-se refúgio para a população do interior que fugia dos Ustaše. Com a derrota italiana em 8 de setembro de 1943, o Estado Independente da Croácia atacou a região anexada pela Itália e fez as fronteiras recuarem aos limites de 1941, enquanto as Bocas de Cattaro passavam à administração militar alemã, assim como a cidade de Zara, que desta forma consegue temporariamente evitar a anexação à Croácia. Porém Zara sofreu pesados bombardeios que a destruíram quase completamente. Em dezembro de 1944, toda a Dalmácia estava sob domínio dos partisans de Josip Broz Tito (1892-1980), inclusive o que restou de Zara. No fim do conflito toda a costa adriática oriental, inclusive Zara e as ilhas anteriormente italianas, terminam sob a nova República Socialista Federativa da Iugoslávia que administrou estas áreas até a sua dissolução em 1991. Nesse ano, a Dalmácia tornou-se parte do território da Croácia e, em parte, da Sérvia e Montenegro (Kotor), enquanto a foz do rio Neretva ficou com a Bósnia e Herzegovina. Nas regiões banhadas pelo mar Adriático, os mariscos, os camarões, as amêijoas, além de queijos e presuntos defumados dominam o cardápio. Entre as especialidades estão o peixe grelhado, a sopa e salada de frutos do mar, o presunto defumado em vinho branco e o peixe guisado com arroz. No interior é comum o consumo de galinha ou patos servidos com salsichas defumadas, pernas de porco, além das costeletas preparadas ao ar livre, acompanhadas de batatas assadas. Outra iguaria originalmente do país é a sopa fresca de milho com feijão é o strukle (rolos de queijo caseiro). Vale a pena experimentar e fazer em casa o sarma, repolhos recheados com carne moída, bacon e presunto. Entre as sobremesas mais populares está o palacinke (crepe) e a maçã com strudel de queijo.
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