terça-feira, 1 de setembro de 2026

Huiquan - 200 Mil Banhistas & Balneabilidade na China.

            “Estou impressionado. A cidade é um verdadeiro modelo para o futuro da China”. Sun Yat-sem (1866-1925)

            A história social da China começa logo após a invenção da escrita, em torno do ano de 1300, com o surgimento das primeiras cidades. A escrita era inicialmente rara e só se tornou generalizada durante o primeiro milênio. A civilização chinesa desenvolveu-se ao longo dos séculos, evoluindo gradualmente de ritos ancestrais de tipo xamânico para o taoísmo e o budismo, incorporando também a filosofia confucionista. O sistema de escrita chinês não fonético, compartilhado por várias línguas que usam os mesmos caracteres, mas os pronunciam de maneira diferente, possibilitou a inteligibilidade mútua na escrita entre falantes cultos de diferentes línguas. Quando a China foi conquistada repetidamente por tribos nômades do Norte ou do Oeste, como os mongóis no século XIII (cf. Nicolle, 1990), os invasores adotaram os costumes chineses e usaram o sistema administrativo existente para governar o império chinês em seu próprio benefício cultural e político. A China foi governada por duas dinastias independentes, uma no Norte e outra no Sul. A efêmera dinastia Sui conseguiu unificar o país em 589, após quase trezentos anos de separação. Os primeiros dicionários de chinês com indicação de pronúncia datam desse período. O idioma dessa época é o chinês medieval. Em 618, a dinastia Tang ascendeu ao poder, dando início a uma nova era de prosperidade. O budismo, que havia sido introduzido gradualmente na China no século I, tornou-se a religião predominante e foi amplamente adotado pela família real. Chang`an, a capital era considerada a maior cidade do mundo. Contudo, a dinastia Tang acabou por declinar, e outro período de caos se seguiu: o período das Cinco Dinastias e Dez Reinos.

Em 960, a dinastia Song assumiu o poder em grande parte da China e estabeleceu sua capital em Kaifeng, enquanto a dinastia Liao governava a atual Manchúria e parte da Mongólia. Em 1115, a segunda dinastia Jin ascendeu ao poder. Ela derrotou a dinastia Liao em dez anos, e a própria dinastia Song perdeu o norte da China e transferiu sua capital para Hangzhou. A dinastia Song também foi forçada a reconhecer a supremacia da dinastia Jin. Nos anos que se seguiram, a China ficou dividida entre a dinastia Song, a dinastia Jin e a dinastia Xia Ocidental, governada pelos Tangutes. Esse período testemunhou avanços tecnológicos significativos no sul da China, em parte devido à pressão militar do Norte. Durante esse período histórico, a dinastia Yuan (1279-1368) e, posteriormente, a dinastia Ming (1368-1644) governaram a China. Os mongóis derrotaram a dinastia Jin e, posteriormente, a dinastia Song do Sul, após uma longa e sangrenta guerra — a primeira em que as armas de fogo desempenharam um papel significativo. Seguiu-se um período de paz em grande parte da Ásia, reconhecido como Pax Mongolica. Aventureiros ocidentais, como Marco Polo, puderam então viajar pela China e trazer os primeiros relatos aos seus incrédulos compatriotas. Na China, os mongóis estavam divididos entre aqueles que desejavam permanecer nas estepes e aqueles que queriam adotar os costumes dos povos conquistados. Kublai Khan pertencia ao último grupo. Em 1271, ele estabeleceu a dinastia Yuan, a primeira a governar todo o país, com Pequim como sua capital assim como a dinastia Jin. 

O ressentimento da população acabou por levar a uma revolta que marcou o início da dinastia Ming em 1368. Essa dinastia ascendeu ao poder durante um período de renascimento cultural e econômico. O exército regular contava com um milhão de homens. O norte da China produzia mais de cem mil toneladas de ferro anualmente. Muitos livros eram impressos utilizando tipos móveis. Nessa época, a China podia reivindicar o status de país mais avançado do mundo. Hongwu, o fundador da dinastia, lançou as bases para um Estado mais interessado na receita agrícola do que no comércio. Talvez devido à origem camponesa de Hongwu, o sistema econômico Ming enfatizou a agricultura. Em contraste, a dinastia Song dependia de mercadores e comerciantes para sua renda. O sistema feudal de posse de terras das dinastias Yuan e Song tardia terminou com o estabelecimento da dinastia Ming. Grandes territórios foram confiscados, fragmentados e arrendados; a escravidão privada foi proibida. Consequentemente, após a morte do Imperador Yongle em 1424, o pequeno agricultor tornou-se a figura dominante na agricultura chinesa. Essas leis podem ser consideradas como tendo pavimentado o caminho para a harmonia social e eliminado o pior da pobreza da era mongol. As leis contra os comerciantes e as restrições ao trabalho dos artesãos permanecem essencialmente as mesmas da dinastia Song, mas agora os comerciantes estrangeiros do período mongol também estão sujeitos a essas leis e sua influência está diminuindo rapidamente. O papel sócio-político do imperador tornou-se ainda mais autocrático, embora Hongwu mantivesse, por necessidade historicamente, a assistência de secretários de alto escalão para lidar com a imensa quantidade de burocracia.                                        

Isso incluía petições e recomendações ao trono, decretos imperiais em resposta, diversos relatórios e registros fiscais. Sob o domínio mongol, a população diminuiu em 40%, chegando a aproximadamente sessenta milhões. Dois séculos depois, havia dobrado. A urbanização, portanto, progrediu, ainda que em pequena escala, à medida que a população crescia e a divisão do trabalho se tornava mais complexa. Grandes centros urbanos, como Nanjing e Pequim, também contribuíram para o crescimento da indústria privada. Em particular, pequenas empresas frequentemente se especializavam em papel, seda, algodão e porcelana. Em muitas regiões, no entanto, houve uma proliferação de pequenos centros urbanos com mercados, em vez do crescimento de algumas grandes cidades. Esses mercados urbanos vendiam principalmente alimentos, juntamente com alguns itens essenciais, como óleo e alfinetes. Este período corresponde a uma expansão da esfera de influência da dinastia Ming. Sob o imperador Yongle, expedições chinesas exploraram terras desconhecidas e, sobretudo, mares inexplorados. O ápice dessa era exploratória foi a viagem épica de Zheng He, um eunuco chinês que se aventurou até a África. Sua frota, segundo Gavin Menzies, tentou explorar o globo, chegando à Austrália e às Américas. Os chineses, ao incentivarem embaixadores de outros países a pagar tributo e ao serem extremamente generosos com todos os estados dentro de sua esfera de influência, não buscaram obter ganhos materiais com essas viagens, diferentemente dos europeus que começaram a explorar a costa oeste da África algumas décadas depois.

No final do século XV, a China imperial proibiu seus súditos de construírem navios oceânicos e de deixarem o país. Os historiadores contemporâneos geralmente concordam que essa medida foi uma resposta à pirataria. As restrições à emigração e à construção naval foram amplamente suspensas em meados do século XVII. A missão jesuíta na China começou em 1582, quando os primeiros sacerdotes da Companhia de Jesus chegaram ao país. A última dinastia foi estabelecida em 1644, quando nômades manchus, incorporados ao exército, derrubaram a dinastia nacional Ming e fundaram a dinastia Qing, com Pequim como sua capital. Ao longo do meio século seguinte, os manchus expandiram seu poder para regiões anteriormente sob controle Ming, como Yunnan, e além, conquistando Xinjiang (Turquestão Chinês), Tibete, Taiwan e Mongólia, a um custo riqueza e derramamento de sangue. Os primeiros sucessos da dinastia Qing se devem a combinação da proeza militar manchu e da eficiência da administração chinesa. Para alguns historiadores, o declínio iniciado sob a dinastia Ming continuou sob a dinastia Qing, e para outros, os séculos XVII e XVIII da dinastia Qing foram um período de progresso, com o declínio ocorrendo posteriormente. O Imperador Kangxi encomendou o dicionário de caracteres chineses mais abrangente já compilado, e sob o Imperador Qianlong, foi elaborado um catálogo de todas as obras importantes da cultura chinesa.

O período Qing também testemunhou o desenvolvimento contínuo da literatura popular, com obras como “O Sonho da Câmara Vermelha” (Hóng Lóu Mèng), um dos maiores romances chineses, e especialmente avanços agrícolas, como a tripla colheita anual de arroz, que permitiu que a população aumentasse de 180 milhões para 400 milhões XVIII século durante o Cantão, particularmente nas áreas de armas e navios, nem à sua crescente presença no Oceano Índico. É verdade que os europeus ainda não acreditavam que pudessem competir com a China. Durante o século XIX, o poder da dinastia Qing enfraqueceu e a prosperidade declinou. A China vivenciou significativa agitação social, estagnação econômica, crescimento populacional explosivo e crescente interferência das potências ocidentais. Os esforços britânicos para abrir o comércio, particularmente para continuar suas exportações de ópio, analisadas por Marx (1973), que haviam sido proibidas por decretos imperiais, levaram à Primeira Guerra do Ópio (1839-1842) e a uma derrota chinesa. O Reino Unido obteve a cessão de Hong Kong no Tratado de Nanquim em 1842, juntamente com a abertura de outros portos ao comércio europeu. O Reino Unido e potências ocidentais, incluindo os Estados Unidos e, mais tarde, o Japão, obtiveram “concessões”, pequenos territórios, geralmente costeiros, sob seu controle, bem como influência em vastas regiões circundantes e privilégios comerciais. Durante a Segunda Guerra do Ópio (1856-1860), tropas franco-britânicas marcharam sobre Pequim, saquearam e incendiaram o Palácio de Verão.

A Rebelião Taiping (1851–1864) foi uma das maiores guerras civis da história da humanidade: causou a morte de 20 a 30 milhões de pessoas e despovoou províncias inteiras. Só foi derrotada com o apoio ocidental. A Rebelião Nian e a agitação alimentada pela Rússia nas províncias fronteiriças de Xinjiang e Mongólia empobreceram ainda mais a China e quase levaram ao fim da dinastia. A Rebelião Taiping teve origem no sofrimento suportado pelo campesinato devido ao declínio do Império Manchu, agravado pela interferência estrangeira. As condições tornaram-se insuportáveis, particularmente nas regiões montanhosas e inférteis das fronteiras entre as províncias. Os camponeses uniram-se a grupos religiosos e insurgiram-se contra seus governantes. O movimento pregava a estrita igualdade entre todos, a partilha da terra e a abolição das distinções sociais, incluindo a subjugação das mulheres aos homens. Seus seguidores possuíam um forte senso de dever e disciplina que lhes permitiu ganhar popularidade e, por fim, derrotar os exércitos imperiais enviados para esmagá-los. Em 1853, a antiga capital Nanquim, caiu;  40% da China estava então sob o controle dos rebeldes. Contudo, as condições de vida pouco melhoraram nas regiões ainda assoladas pela fome, e os ideais igualitários foram implementados apenas moderadamente. Um exército imperial reorganizado, financiado por comerciantes chineses, equipado com armas modernas da Grã-Bretanha e da França e auxiliado sob o comando do Major Gordon, marchou em direção a Nanquim. Foi recapturada após uma batalha que deixou 100.000 mortos. As esferas de poder relutavam em admitir o comércio ocidental, particular o de ópio. O Ocidente, portanto, contentava-se em estabelecer “esferas de influência” na região.

 Ao contrário da África subsaariana, por exemplo, era possível acessar o mercado chinês sem estabelecer controle político formal. Após a Primeira Guerra do Ópio, o comércio britânico e, posteriormente, o investimento de capital de outros países industrializados, tornaram-se possíveis com menos controle ocidental direto do que na África, no Sudeste Asiático ou no Pacífico. Em muitos aspectos, a China era uma colônia e o destino de grandes investimentos ocidentais (os primeiros na virada do século). As potências ocidentais (às vezes incluindo o Japão) intervieram militarmente para manter a ordem, notadamente pondo fim à Rebelião Taiping e à Rebelião dos Boxers. O general britânico Charles Gordon, posteriormente um defensor malfadado de Cartum, é frequentemente creditado por salvar a dinastia Manchu da Rebelião Taiping. A partir da década de 1860, a dinastia Qing, controlada pela conservadora Imperatriz Viúva Cixi que governou de 1860 a 1908, após triunfar na guerra civil contra a Rebelião Taiping graças ao apoio de milícias organizadas pela aristocracia, iniciou a modernização do país. No entanto, os novos exércitos foram derrotados pela França (Guerra Sino-Japonesa pelo controle da Indochina, 1881-1885) e, posteriormente, pelo Japão (Primeira Guerra Sino-Japonesa pelo controle da Coreia, 1894-1895). Reformas mais profundas tornaram -se então necessárias. No início do século XX, a dinastia Qing enfrentou um dilema: continuar as reformas e desagradar uma aristocracia ociosa, ou pôr um fim a elas e fortalecer os revolucionários que previam o fim do regime. Optou por um meio-termo e alienou a todos, principalmente ao apoiar a Revolta dos Boxers.

Frustrados com a resistência da corte imperial às reformas, jovens funcionários, oficiais e estudantes, inspirados pelas ideias revolucionárias de Sun Yat-sen, começaram a considerar a derrubada da dinastia Qing em favor de uma República. Uma revolta militar, a Revolta de Wuchang, em 10 de outubro de 1911. Em Wuhan, eclodiu a Revolução Xinhai, que levou à abdicação do último imperador Qing, Aixinjueluo Puyi. Um governo provisório foi formado em Nanjing em 12 de março de 1912. A República da China foi proclamada, sob a presidência de Sun Yat-sen. Entretanto, nesse processo Sun Yat-sen foi forçado a ceder o poder ao General Yuan Shikai, comandante do Exército Beiyang. Devido à influência de facções militares, o novo governo chinês ficou reconhecido como Governo Beiyang. Em poucos anos, Yuan Shikai aboliu as assembleias nacionais e provinciais. Os líderes republicanos foram forçados ao exílio, com Sun Yat-sen refugiando-se no Japão. Yuan Shikai proclamou-se imperador no final de 1915. Suas ambições imperiais encontraram forte oposição de seus subordinados militares e, arriscando uma rebelião, ele foi forçado a renunciar a elas. Ele morreu pouco depois, em junho de 1916, deixando a presidência vaga. O governo republicano desintegrou-se e começou uma Era chamada de “senhores da guerra”, durante a qual a China foi devastada por lutas entre coligações instáveis ​​de líderes militares provinciais.

Em maio de 1917, após um desentendimento entre o primeiro-ministro chinês Duan Qirui e o presidente Li Yuanhong sobre a quem apoiar durante a 1ª guerra mundial (1914-1918), o general Zhang Xun aproveitou a situação para lançar uma ofensiva contra Pequim, resultando na restauração manchu de 1917, que durou apenas 12 dias antes de ser derrubada pelas forças republicanas. A China finalmente rompe relações com a Alemanha em 14 de março de 1917 e declarou guerra em agosto do mesmo ano. Sua participação foi principalmente no esforço de guerra: envio de matérias-primas, alimentos e trabalhadores voluntários. Estes últimos somariam quase 140.000. Em 1919, o Japão obteve a anexação das antigas colônias alemãs na China através do Tratado de Versalhes. O Reino Unido, a França e o Japão já controlavam a rede ferroviária, os portos, os rios, os canais e as concessões nas principais cidades, apropriando-se também da maior parte das receitas fiscais e alfandegárias. Consequentemente, os movimentos nacionalistas e influenciados pelo marxismo ganharam força. Em 1922, uma série de greves varreu o país. Uma greve iniciada por 2.000 marinheiros em Hong Kong, apesar da proclamação da lei marcial, transformou-se numa greve geral que mobilizou 120.000 pessoas, garantindo concessões por parte dos empregadores. No norte da China, uma greve de 50.000 mineiros na empresa britânica KMAS foi violentamente reprimida pela polícia privada da mina e por tropas leais a senhores da guerra. Na cidade de Hankou, os confrontos entre a polícia britânica e os trabalhadores atingiram o auge quando um senhor da guerra interveio, matando 35 trabalhadores ferroviários em greve e um secretário sindical que se recusou a apelar ao regresso ao trabalho. Na década de 1920, Sun Yat-sen estabeleceu a base revolucionária no Sul e começou a reunificar a nação. Recebendo assistência dos soviéticos, ele se aliou ao recém-formado Partido Comunista Chinês.

Os Voluntários Mercantes, uma milícia de 100.000 combatentes financiada por comerciantes cujos interesses estavam alinhados com os dos britânicos, tentaram derrubar o governo de Sun Yat-sen. A Conferência de Delegados Operários, liderada pelos comunistas, veio em seu auxílio, e seu Exército de Organizações Trabalhistas ajudou a quebrar o domínio dos Voluntários Mercantes. Após a morte de Sun Yat-sen em 1925, um de seus tenentes, Chiang Kai-shek, assumiu o controle de seu partido, o Kuomintang, e conseguiu controlar a maior parte do Sul e do centro da China por meio de uma campanha militar reconhecida como Expedição do Norte. Tendo derrotado os senhores da guerra do Sul e do Centro, ele obteve a lealdade formal dos do Norte. A partir de 1927, voltou-se contra os comunistas, atacando seus líderes e tropas em suas bases no Sul e no Leste, desencadeando assim a Guerra Civil Chinesa. Em 1931, uma nova frente se abriu na China com a invasão japonesa da Manchúria. Em 1934, derrotados pelos nacionalistas e expulsos de seus redutos nas montanhas, os comunistas embarcaram na Longa Marcha, atravessando as regiões mais desoladas do país em direção ao Noroeste. Estabeleceram sua nova base de guerrilha em Yan`an, na província de Shaanxi. Durante a Longa Marcha, os comunistas se reorganizaram em torno de Mao Tsé-Tung. Seu progresso foi acompanhado por uma redistribuição de terras. A feroz luta entre o Kuomintang (KMT) e o Partido Comunista Chinês (PCC) continuou, às vezes abertamente, às vezes secretamente, ao longo dos quatorze longos anos da invasão japonesa, de 1931 a 1945, embora os dois partidos tivessem se aliado formalmente contra os invasores durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa. O novo conflito contra os japoneses, desencadeado em 1937 pela incursão do Exército Imperial Japonês no restante do território chinês, tornou-se parte do teatro asiático da Segunda Guerra Mundial a partir de 1941.

Com a proclamação da República Popular da China em Pequim em 1° de outubro de 1949 a China se viu com dois governos: a República Popular da China no continente e a República da China na ilha de Taiwan, cada um reivindicando ser o governo chinês legítimo. A guerra civil recomeçou após a derrota japonesa de 1945. Em 1949, o PCC ocupava a maior parte do país. Chiang Kai-shek refugiou-se na ilha de Taiwan com os remanescentes do governo e das forças armadas do Kuomintang e proclamou Taipei a capital provisória da República da China, até a reconquista do continente. Os maoístas controlavam todo o continente em 1949 e proclamaram a República Popular da China em Pequim em 1° de outubro de 1949. Em breve, os nacionalistas controlaram apenas Hainane, Taiwan, depois apenas o arquipélago de Taiwan. Para a China continental, o período de 1949 a 1954 foi marcado pelo estabelecimento do Estado comunista. O vitorioso Partido Comunista Chinês monopolizou posições-chave, mantendo a aparência multipartidária. A Assembleia adotou a Constituição Chinesa de 1954. Entre as primeiras leis aprovadas estava a Lei do Casamento de junho de 1950, que visava abolir o modelo patriarcal, legalizar o divórcio e estabelecer a igualdade entre homens e mulheres. A proibição do “enfaixamento dos pés”, uma medida adotada em 1912 tornou-se verdadeiramente efetiva. A reforma agrária levou à distribuição de 47 milhões de hectares, divididos em parcelas pequenas devido à pressão populacional, a agricultores pobres.

Um primeiro plano quinquenal foi lançado, o qual pareceu um sucesso e encorajou Mao Tsé-Tung a lançar seu Grande Salto Adiante em 1958. Mas os esforços frenéticos dos camponeses na indústria siderúrgica acabaram se provando desastrosos. A ideia teve que ser abandonada extraoficialmente por volta de 1960 e oficialmente em 1962. Vinte a trinta milhões de chineses morreram na fome que se seguiu. De 1960 a 1966, a China continental viveu um período de relativa calma, pontuado por ocasionais repressões contra dissidentes. O sistema produtivo estava se recuperando e retomando gradualmente suas atividades. Em 1966, teve início a Revolução Cultural. Os estudantes foram incitados a expurgar a China dos “novos capitalistas” e se tornaram a Guarda Vermelha da revolução, defendendo os ideais comunistas e organizando expedições punitivas por toda a China. Jiang Qing, esposa de Mao Tsé-Tung, e a Gangue dos Quatro incitaram o movimento contra os grilhões culturais do passado: inúmeras obras antigas livros, esculturas, edifícios, etc. — foram destruídas. Intelectuais foram atacados. A China ficou aterrorizada com as ações arbitrárias e imprudentes desses Guardas Vermelhos. O exército e seu líder, Lin Biao, leal a Mao Tsé-Tung, tornaram-se novamente atores-chave. Em agosto de 1966, os moderados Liu Shaoqi, Deng Xiaoping e Peng Zhen foram rebaixados. No final de 1967, o exército decidiu suprimir o movimento. Lin Biao e Mao Tsé-Tung emergiram fortalecidos; com os Guardas Vermelhos, eles contornaram o aparato estatal. O partido foi abalado, abrindo caminho para a construção de um acordo com os desejos de Mao Tsé-Tung. Mas a morte de Mao Tsé-Tung, em 9 de setembro de 1976 dá início à luta pela sucessão.               

A Camarilha dos Quatro é presa em outubro. Hua Guofeng passa a liderar a China com maior pragmatismo, mas é sobretudo a chegada de Deng Xiaoping que dá início à fase de reformas. Ele legitima a busca por bens materiais como uma fase de transição antes do comunismo, abre a China ao investimento estrangeiro, cria “zonas econômicas especiais” e propõe a ideia de “um país, dois sistemas “(socialista e capitalista) como perfeitamente compatíveis. A partir de 1979, a economia da República Popular da China foi definida como uma economia de mercado socialista. A China então experimentou gradualmente uma fase de forte crescimento. Em 1984, as regiões chinesas ganharam maior autonomia e ficaram livres para fazer seus próprios investimentos. Em 1989, estudantes em Pequim se mobilizaram e ocuparam a Praça Tiananmen para protestar a favor de reformas democráticas. No entanto, o movimento foi reprimido e tanques acabaram atropelando os estudantes, matando mais de dez mil. Desde o início da década de 1990, relações pacíficas foram estabelecidas entre os dois lados, embora permaneçam tensas. Alguns partidos taiwaneses defendem a Independência da ilha, o que significa uma transição de um governo chinês “rebelde” controlando apenas Taiwan para o governo de um Taiwan independente. Essa opção ainda não foi adotada por nenhum governo taiwanês, pois Pequim deixou claro que uma declaração de independência seria motivo para intervenção armada. Desde as décadas de 1990 e 2000, a economia da China tem experimentado um crescimento mais rápido, ultrapassando 8-9% ao ano, devido aos baixos custos de mão de obra e às oportunidades comerciais oferecidas pela tecnologia.

Chen Shui-bian, presidente de Taiwan de 2000 a 2008, defendeu a soberania da República da China em relação a Pequim. Em maio de 2005, o Kuomintang (Guomindang), então um partido de oposição, assinou acordos com o Partido Comunista Chinês (PCC), reconhecendo a soberania deste sobre a China e concedendo poder aos partidos taiwaneses sobre a província de Taiwan. Este acordo foi em grande parte simbólico, visto que o Kuomintang, na oposição a Taiwan, não tinha mandato para assinar um tratado com o governo de Pequim. O Kuomintang retornou ao poder em Taiwan em 2008 com a eleição de Ma Ying-jeou como presidente da república, que declarou que queria melhorar as relações com a República Popular da China, ao mesmo tempo que prometia o status quo, sem independência formal de Taiwan, nem reunificação. Em 2010, a China se tornou a segunda maior economia do mundo e aproveitou a crise econômica para investir no exterior por meio de sua política de “Internacionalização”. No entanto, ele é criticado por ceder demais às exigências da República Popular da China e é substituído em 2016 por Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, que, sem defender a Independência, promete mais firmeza em relação à reunificação de Pequim.

Escólio: A natação nas praias chinesas é praticada sobretudo quando a temperatura da água permite conforto e segurança: no Norte, costuma ser restrita aos meses de verão, porque no resto do ano a água é demasiado fria ou mesmo congelada; no Leste, a janela prática vai da primavera tardia ao início do outono; no Sul, muitos locais permitem banho praticamente o ano todo, dado que a água raramente fica fria. Além da temperatura, a autorização e a segurança dependem da qualidade da água, da presença de salva-vidas, de condições de corrente e de eventuais proliferações de água-viva, pelo que praias oficiais com serviços e monitoramento são as mais indicadas para nadar. A China tem uma costa extensa com variações térmicas significativas entre norte, leste e sul. No litoral Norte, particularmente  no Mar de Bohai e Mar Amarelo as temperaturas da água vão de cerca de -1 °C a 5 °C no inverno e sobem para 20 °C a 24 °C no pico do verão; na primavera e outono ficam tipicamente entre 5 °C e 15 °C. No litoral Leste, o Mar da China Oriental, próximo a Xangai e Zhejiang os valores invernais rondam 6 °C a 12 °C e no verão atingem 24 °C a 28 °C, com transição primaveril e outonal entre 12 °C e 22 °C. No extremo Sul, no Mar da China Meridional (Guangdong e Hainan), a água é considerada muito mais quente: no inverno costuma estar entre 20 °C e 25 °C e no verão sobe para 27 °C a 30 °C ou mais, mantendo-se geralmente acima de 20 °C durante a maior parte do ano.       

Praia, do latim tardio plagia, tem como representação social uma formação geológica composta por partículas soltas de mineral ou rocha na forma de areia, cascalho, seixo ou calhaus ao longo da margem de um corpo de água (rio ou oceano), seja uma costa ou praia fluvial. Também é reconhecida como fralda do mar ou pancada do mar. As praias arenosas oceânicas sofrem grandes influências das marés e das ondas. Nestas praias, podem distinguir-se as zonas abaixo descritas: Zona de Arrebentação - é a parte da praia onde as ondas “arrebentam” ou se “quebram”. Se houver bancos de areia afastados da praia, podem ocorrer outras zonas de arrebentação sobre estes. Zona de Varrido - é a parte da praia “varrida” pelas ondas periodicamente. Está entre os limites máximo e o mínimo da excursão das ondas sobre a praia. Logo após esta zona, pode ocorrer uma parte onde se acumulam sedimentos, isto é, a berma. Devido às marés e às tempestades e ressacas, esta parte da praia pode avançar e regredir. As praias oceânicas costumam ser divididas da seguinte maneira: Rasas: São planas e têm areia fina, firme e geralmente escura. As ondas quebram longe da faixa de areia e a profundidade vai aumentando, gradualmente, conforme vai se afastando no sentido de mar adentro.  

Qingdao, arcaicamente reconhecida como Tsingtao, é uma cidade de nível de prefeitura na província de Shandong, no Leste da China. Situada na península de Shandong e com vista para o Mar Amarelo, faz fronteira com as cidades de nível de prefeitura de Yantai a Nordeste, Weifang a Oeste e Rizhao a Sudoeste. A Ponte da Baía de Jiaozhou liga a principal área comercial urbana de Qingdao ao distrito de Huangdao, atravessando as áreas marítimas da Baía de Jiaozhou. Qingdao era uma fortaleza importante, e atualmente é um importante porto marítimo e base naval, bem como um centro comercial e financeiro. É uma importante cidade-nó da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) que conecta a Ásia Continental e a Oriental com a Europa. Administrada em nível subprovincial, Qingdao tem jurisdição sobre sete distritos e três cidades de nível distrital (Jiaozhou, Pingdu, Laixi). De acordo com o censo de 2020, a área construída (ou metropolitana) de Qingdao, composta pelos sete distritos urbanos (Shinan, Shibei, Huangdao, Laoshan, Licang, Chengyang e Jimo), abrigava 7.172.451 habitantes, tornando-a a 15ª maior cidade da China em população. Possui o maior PIB de qualquer cidade da província. Em 1897, a cidade foi cedida à Alemanha. Para os alemães, Qingdao era um centro comercial estratégico, porto e base para seu Esquadrão da Ásia Oriental, permitindo que a marinha alemã projetasse domínio no Pacífico. Em 1914, após o início da 1ª guerra mundial (1914-1918), o Japão ocupou a cidade e a província circundante durante o Cerco de Tsingtao. Em 1915, a China concordou em reconhecer a posição especial do Japão no território por meio do que ficou conhecido como as Vinte e Uma Demandas. Em 1918, o governo chinês, sob o controle do senhor da guerra Duan Qirui, concordou secretamente com os termos japoneses em troca de um empréstimo.

Após a 1ª guerra mundial, durante a Conferência de Paz de Paris, aberta em 18 de janeiro de 1919 com a presença de 70 delegados representando 25 países, politicamente dominada pelos chamados “quatro grandes”, Estados Unidos da América, Reino Unido, França e Itália, o Japão garantiu Acordos com as potências aliadas para reconhecer sua reivindicação sobre as áreas em Shandong, que incluíam Qingdao, anteriormente ocupadas pela Alemanha. Em 1922, Shandong retornou ao controle chinês após a mediação dos Estados Unidos durante a Conferência Naval de Washington. Economicamente Qingdao abriga multinacionais de eletrônicos como Haier e Hisense. Dados da Administração Geral das Alfândegas da China demonstram que, entre janeiro e novembro de 2024, o país exportou pouco mais de 4 bilhões de eletrodomésticos, um aumento de 21,3% em relação ao mesmo período. Sua arquitetura histórica de estilo alemão e a Cervejaria Tsingtao, a segunda maior cervejaria da China, são legados da ocupação alemã (1898–1914). Qingdao é classificada como uma Metrópole de Grande Porte. Em 2007, Qingdao foi nomeada uma das dez melhores cidades da China pelo Relatório de Valor da Marca das Cidades Chinesas. Em 2009, Qingdao foi nomeada a cidade mais habitável da China pelo Instituto Chinês de Competitividade Urbana. Em 2018, Qingdao sediou na política a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai. No Índice de Centros Financeiros Globais de 2024, Qingdao ficou em 31º lugar. Em 2024, Qingdao foi classificada como uma cidade global de nível Beta pela Rede de Pesquisa sobre Globalização e Cidades Mundiais. Qingdao também é uma das 35 principais cidades do mundo para pesquisa científica global, de acordo com o Nature Index. A indústria eletrônica é o setor da economia que produz aparelhos eletrônicos. Emergiu no século XX e é hoje uma das maiores indústrias globais. A sociedade contemporânea utiliza um vasto arranjo de aparelhos eletrônicos construídos em fábricas automatizadas ou semiautomatizadas operadas pela indústria. Os produtos são primariamente montados de transistores metal-óxido-semicondutor e circuitos integrados, sendo este último feito por fotolitografia e frequentemente em circuitos impressos.   

O tamanho da indústria, seu uso de metais tóxicos, e a dificuldade de reciclagem tem levado à uma série de problemas relativos ao lixo eletrônico. Regulações internacionais e legislações ambientais tem sido desenvolvida para responder a essas problemáticas. A indústria dos eletrônicos consiste de vários setores. A força central por trás da indústria inteira é o setor dos semicondutores, que possui um montante de vendas anuais ultrapassando os US$ 481 bilhões em 2018. O maior setor da indústria é o e-commerce, que gerou mais de US$ 29 trilhões em 2017. O dispositivo eletrônico mais manufaturado são os transistores metal-óxido-semicondutor, inventados em 1959, que são a impulsionador da indústria eletrônica. Os eletrodomésticos são aparelhos elétricos usados para facilitar várias tarefas domésticas, tais como cozinhar e conservar os alimentos, limpar a casa, tratar da roupa, no banheiro e nos cuidados de beleza e também como formas de entretenimento. A eletrônica de consumo é a designação dada a equipamentos eletrônicos para uso pessoal, em contraste com o uso industrial, com aplicações no entretenimento, comunicação e, na produtividade no escritório. Algumas subcategorias deste tipo de produto são os celulares, computadores, equipamentos de áudio, televisores e consoles de jogos eletrônicos. O aparelho eletrônico de uso doméstico para informação ou entretenimento é chamado internacionalmente de “produto castanho” ou “produto da linha marrom”. Esta categorização inclui normalmente aparelhos que estão em uso na sala de estar, como: televisores, gravadores de vídeo, videocâmeras, produtos de áudio. 

Os equipamentos eletrônicos domésticos são classificados em: linha branca (eletrônicos de médio e grande porte), linha marrom (eletrônicos de uso na sala), linha azul (eletroportáteis), linha verde (resíduos de informática). A cidade também foi classificada em 20º lugar globalmente no ranking “100 Principais Cidades com Clusters de Ciência e Tecnologia Globais” em 2024. Ela abriga diversas universidades notáveis, incluindo a Universidade Oceânica da China, a Universidade de Petróleo da China, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Shandong, a Universidade de Qingdao, a Universidade de Ciência e Tecnologia de Qingdao, a Universidade de Tecnologia de Qingdao e a Universidade Agrícola de Qingdao. Após um pequeno ataque naval britânico à concessão alemã em Shandong em 1914, as tropas japonesas ocuparam a cidade e a província circundante durante o Cerco de Tsingtao (Qingdao), após a declaração de guerra do Japão contra a Alemanha, em conformidade com a Aliança Anglo-Japonesa. A China protestou contra a violação da sua neutralidade por parte do Japão, mas não conseguiu interferir nas operações militares. A decisão da Conferência de Paz de Paris e das negociações do Tratado de Versalhes de não restaurar o domínio chinês sobre as concessões estrangeiras anteriores em Qingdao, após a Grande Guerra, desencadeou o Movimento Quatro de Maio (4 de maio de 1919), de anti-imperialismo, nacionalismo e identidade cultural na China. A cidade ficou sob domínio chinês em dezembro de 1922, sob o controle da República da China (ROC), estabelecida em 1912 após a Revolução de 1911, no ano anterior. No entanto, o Japão manteve seu domínio econômico sobre a ferrovia e a província como um todo. A cidade tornou -se um município diretamente controlado pelo Governo da ROC em julho de 1929.

O Japão reocupou Qingdao em 1938, um ano depois de expandir a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), um prenúncio da 2ª guerra mundial (1939-1945), com seus planos de expansão territorial para o litoral da China. As forças nacionalistas (Kuomintang) da República da China retornaram após a rendição japonesa em setembro de 1945. Em 2 de junho de 1949, durante a Guerra Civil Chinesa e pouco antes da fundação da República Popular da China comunista em 1º de outubro de 1949, a cidade foi tomada pelo presidente Mao Tsé-Tung e suas tropas. O desenvolvimento do espaço urbano de Qingdao durante a ocupação alemã (1898–1914) teve origem no porto. A construção urbana em massa começou em 1898 com a realocação de moradores chineses ao longo da costa. Com a conclusão de uma série de projetos de construção em massa, como cais, a linha ferroviária Tsingtao-Jinan, a estação ferroviária de Tsingtao e fábricas de locomotivas, uma cidade começou a tomar forma. A área tinha a maior densidade escolar e a maior taxa de matrícula per capita de alunos em toda a China, com escolas primárias, secundárias e profissionalizantes financiadas pelo tesouro de Berlim, bem como missões protestantes e católicas romanas. Em 1910, os alemães elaboraram pela segunda vez o plano urbano de Tsingtao (Warner 2001). A antiga área urbana foi quadruplicada, destacando-se a ênfase no desenvolvimento do comércio. Sun Yat-sen (1866–1925), líder da Revolução de 1911 e posteriormente primeiro presidente da República da China, visitou a área urbana de Tsingtao e declarou em 1912: “Estou impressionado. A cidade é um verdadeiro modelo para o futuro da China”. O desenvolvimento do espaço urbano de Tsingtao continuou durante o período de ocupação japonesa (1914-1922). Em 1914, Tsingtao foi tomada pelos japoneses e serviu como base para a exploração dos recursos naturais de Shandong e do norte da China.

Com o desenvolvimento da indústria e do comércio, um “Novo Distrito Urbano” foi estabelecido para fornecer aos colonos japoneses áreas comerciais e residências, o que representava um contraste marcante com as casas precárias das zonas chinesas locais (Li 2007). Nesse ínterim, diversas escolas, hospitais e edifícios públicos foram construídos, seguidos por ruas urbanas e rodovias interurbanas. O planejamento espacial urbano continuou a se expandir para o norte ao longo da área da baía Leste. O desenvolvimento do espaço urbano de Tsingtao durante o período de domínio da República da China (1922–1938). Este período testemunhou um progresso substancial no desenvolvimento urbano de Tsingtao. O governo empenhou-se em obras de construção em massa que deram origem a bairros de vilas à beira-mar e a conjuntos habitacionais no centro da cidade. Numerosos edifícios públicos e instalações para entretenimento e esportes foram concluídos. Em 1937, a população urbana atingiu 385.000 habitantes (Lu 2001). Consequentemente, Tsingtao se destacou como um importante destino turístico e refúgio de verão. O desenvolvimento do espaço urbano de Tsingtao continuou durante o segundo período de ocupação japonesa (1938-1945). As forças armadas japonesas retornaram a Tsingtao em 1938 e começaram a se empenhar na construção da Grande Tsingtao em junho do ano seguinte. Assim, elaboraram o planejamento urbano da Grande Tsingtao e o planejamento urbano da Cidade-Mãe (Cidade de Tsingtao propriamente dita), embora não tivessem tido a oportunidade de concretizá-los. O período em questão não testemunhou muito progresso urbano, exceto pela construção lógica do Cais nº 6, algumas residências japonesas e um pequeno número de ruas e estradas (Lu 2001). Após a 2ª guerra mundial (1939-1945), o Kuomintang (KMT) permitiu que Qingdao servisse como sede da Frota do Pacífico Ocidental da Marinha dos EUA em 1945; no entanto, sua sede foi transferida para as Filipinas no final de 1948.  Em 2 de junho de 1949, o Exército Vermelho, liderado pelo Partido Comunista Chinês (PCC), entrou em Qingdao, e a cidade e a província estão sob controle da República Popular da China desde então. 

Desde a implementação da política de abertura da China ao comércio e investimento estrangeiros em 1984, Qingdao se desenvolveu rapidamente, tornando-se uma cidade portuária ultramoderna. Atualmente, é a sede da frota do norte da Marinha chinesa. Um dos primeiros exemplos dessa política ocorreu em 5 de novembro de 1984, quando três navios da Marinha dos Estados Unidos visitaram Qingdao. Essa foi a primeira escala de um porto americano na China em mais de 37 anos. Os navios USS Rentz, USS Reeves e USS Oldendorf, juntamente com suas tripulações, foram oficialmente recebidos pela Marinha do Exército de Libertação Popular da China (PLAN). A região Norte de Qingdao, particularmente os distritos de Shibei, Licang e Chengyang, são hoje importantes centros industriais. A cidade vivenciou recentemente um forte período de crescimento, com a criação de um novo distrito comercial central a leste do antigo distrito comercial. Fora do centro da cidade, existe uma grande zona industrial, que inclui processamento químico, borracha e manufatura pesada, além de uma crescente área de alta tecnologia. Numerosas empresas de serviços locais e nacionais, em vez de fabricantes, estão sediadas na região Sul da cidade. A cidade subprovincial de Qingdao possui sete distritos (; qū) e três cidades de nível distrital (; shì): Qingdao, localizada na província de Shandong, China, é uma cidade de nível de prefeitura com vários apelidos, incluindo “Cidade Ilha” e “Baía de Jiaozhou”. Qingdao é uma cidade de nível vice-provincial, é listada separadamente e reconhecida como uma cidade importante. De acordo com a aprovação do Conselho de Estado, Qingdao foi designada como uma importante cidade centro costeiro e uma cidade turística litorânea na China, além de uma cidade portuária internacional. A cidade de Qingdao administra 7 distritos e 3 cidades de nível distrital. Esses distritos incluem o Distrito de Shinan, o Distrito de Shibei, o Distrito de Huangdao, o Distrito de Laoshan, o Distrito de Licang, o Distrito de Chengyang e o Distrito de Jimo, enquanto as cidades de nível distrital são a Cidade de Jiaozhou, a Cidade de Pingdu e a Cidade de Laixi.

Bibliografia Geral Consultada.

NICOLLE, David, The Mongol Warlords: Genghis Khan, Kublai Khan, Hulegu, Tamerlane. London: Editor Firebrand Books, 1990; ELÍAS, Norbert, El Proceso de la Civilización. Investigaciones Sociogenéticas Y Psicogenéticas. México: Editor Fondo de Cultura Económica, 1989; Idem, A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994 BARBERIS, Julio Alberto, El Território del Estado y la Soberania Territorial. Buenos Aires: Editorial Ábaco de Rodolfo Depalma, 2003; FAIRBABK, John King & GOLDMAN, Merle, China: Uma Nova História. Porto Alegre: LP&M Editores, 2006; EBREY, Patricia Buckley, China: A Cultural, Social, and Political History. Boston: Houghton Mifflin Company, 2006; ALIER, Joan Martínez, O Ecologismo dos Pobres. 2ª edição. São Paulo: Editora Contexto, 2007; TOURVILLE, Henri de, Histoire de la Formation Particulariste, L`Origine des Grands Peuples Actueles. Paris: Librairie Firmin-Didot et Cie, 2008; CHENG, Anne, História do Pensamento Chinês. 1ª edição. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2008; CARVALHO, Miguel Henriques, A Economia Política do Sistema Financeiro Chinês (1978-2008). Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013; SILVA, Athos Munhoz Moreira da, A Ascensão da China e os Seus Impactos para o Leste Asiático. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais. Faculdade de Ciências Econômicas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015; MACEDO, Emiliano Unzer, História da Ásia: Uma Introdução à Sua História Moderna e Contemporânea. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo; Secretaria de Ensino a Distância, 2016; MUSSE, Ricardo (Org.), China Contemporânea, Seis Interpretações. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2021; POLO, Marco, As Viagens. 1ª edição. São Paulo: Editor Martin Claret, 2022; BARBOSA, Danilo Caporalli, Os Ambientalismos Chineses e Suas Paisagens. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Escola de Arquitetura. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2023; REIS, Rodrigo Lastra Cid (Organizador), Textos Selecionados de Filosofia da Vida e da Morte. Pelotas: NEPFIL Online, 2026; entre outros.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Parker – Ladrão Profissional, Regra Social & Ética de Compromisso.

                                                       Regra é, em primeiro lugar, gestão da vida quotidiana”. Max Weber  (1864-1920)   

                             

          Max Weber havia resumido sob a expressão racionalidade formal as condições ideal-típicas que torna possível a ponderabilidade das ações sociais sob o aspecto instrumental, a eficácia dos meios disponíveis; e sob o aspecto estratégico e de probabilidade em termos de legitimidade no acerto da escolha dos meios segundo preferência, meios e condições periféricas dadas. A denominação “formal” destina-se em especial a esse segundo aspecto da “racionalidade eletiva”, que por isso diferencia então do julgamento material dos próprios valores subjacentes às preferências dos sujeitos. Ele aplica esse conceito como sinônimo de “racionalidade teleológica”. Trata-se da estrutura de orientações da ação determinada pela racionalidade cognitivo-instrumental, mediante a desconsideração de parâmetros de uma racionalidade moral-prática ou estético-prática. Cadeias prolongadas de ações podem ser julgadas de maneira sistemática sob o aspecto da validade da verdade e da eficácia de sua interpretação, mas que podem ser bem como calculadas e melhoradas no sentido da racionalidade formal. A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é o seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e de sua esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América. 

Analisando o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, em especial, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Lutero, surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário. A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo. No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? 

Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith, Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014). No entanto, diferente da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas. Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Dentre estes existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as origens do termo, considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente. Na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance.                                     

   

No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão sociológica não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”. A contribuição social é a de José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992). O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno, se o enxofre se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724), Hermannus Boerhaave explica que “particulae solventes et solutae se affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se” numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês Traité des affinités chimiques ou Attractions électives (1788). Na tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi traduzido por Wahlverwandtschaft (afinidade eletiva). Foi dessa versão alemã do livro de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez anos” por um de seus personagens.

O termo se torna na verdade uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas. Essa transposição de Goethe faz do conceito químico para a o terreno social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários alquimistas, como Boerhaave, por exemplo, o termo já era carregado de metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois elementos “procuram-se, unem -se e encontram-se” – é impressionante, e não excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista holandês. Com o romance de Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na cultura alemã como designação de um tipo de ligação particular entre duas almas. Foi na Alemanha, portanto, que ele passou por sua terceira metamorfose: a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max Weber, em conceito de representação puramente de encarnação sociológico.  Da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece desaparecer.

O conceito ocupa um lugar importante em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, precisamente por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para Weber, trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”.  Com isso, são especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em consequência de tais afinidades eletivas, o movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material. A afinidade eletiva é talvez um meio para uma busca causal “num segundo momento”, mas isso não significa que ela própria seja uma relação causal. As formulações são suficientemente flexíveis para podemos admitir diferentes leituras de interpretação. O que sociologicamente Weber tenta demonstrar em sua análise com o conceito de Wahlverwandtschaft é, segundo Michael Löwy, em primeiro lugar a coexistência de elementos convergentes e análogos entre uma ética religiosa e um comportamento econômico: o ascetismo puritano e a economia do capital, a ética protestante do trabalho e a disciplina burguesa do trabalho, a valorização calvinista do ofício virtuosos e o ethos do empreendimento burguês racional, a concepção ascética do uso utilitário das riquezas e acumulação produtiva do capital, a exigência puritana da vida metódica e sistemática e a busca racional do lucro capitalista.

É a partir dessas analogias profundas, histórico-sociais desses “parentescos íntimos”, que na Holanda, na Inglaterra e nos Estados Unidos do século XVII ao XIX, vai se desenvolver uma relação de afinidade eletiva entre a ética protestante e o espírito do capitalismo, graças a qual a concepção puritana da existência favorece a tendência a uma vida burguesa economicamente racional e vice-versa. Sociologicamnte falando, não surpreende que a expressão “afinidade eletiva” não tenha sido compreendida pela recepção anglo-saxã historicista positivista de Max Weber.  O próprio autor utiliza o conceito apenas três vezes em A Ética Protestante, mas ela aparece também em outros escritos, na maioria das vezes em ensaios de sociologia das religiões. 1. No nível de análise religioso: trata-se da relação da afinidade eletiva em diversas formas religiosas; entre o ritualismo e a graça sacramental ou entre a profecia de missão e “determinada concepção do divino: a de um Deus criador, transcendente, pessoal, fulminante, que perdoa, ama, exige, castiga”, em oposição à divindade impessoal e contemplativa da profecia exemplar. 2. No nível econômico: entre o “espírito” do capitalismo e as formas de organização econômicas capitalistas. Isso pode parecer redundante, mas Weber insiste no fato de que, do mesmo modo que uma organização sindical nem sempre é movida por um espírito sindicalista ou um império colonial, pelo espírito do imperialismo, uma economia capitalista não é necessariamente movida pelo “espírito do capitalismo”. Conforme o caso, o “espírito” encontra-se, num grau ou noutro, em adequação e, eventualmente, em “relação de afinidade eletiva” com a “forma”. 

3. No campo cultural: esse é um exemplo curioso, pois Weber opõe a formação patrimonial que, ao racionalizar-se conduz à burocracia moderna (especialização, profissionalização) – a formação (Bildung) feudal, “com seus traços lúdicos e sua afinidade eletiva com a atividade artística. Max Weber tem em mente a educação da aristocracia, mas os traços comuns com a prática da arte não são explicitados. Para sermos breves, a partir do uso weberiano do termo, Michael Löwy propõe a seguinte definição: a afinidade eletiva representa o processo pelo qual a) duas formas culturais/religiosas, intelectuais, políticas ou econômicas ou b) uma forma cultural e o estilo de vida e/ou os interesses de um grupo social entram, a partir de certas analogias significativas, parentescos íntimos ou afinidades de sentido, numa relação de atração e influência recíprocas, de escolha ativa, convergência e de reforço mútuo. Essa definição leva em consideração os diversos níveis ou graus de afinidade eletiva, a começar pela finidade simples, o parentesco espiritual, a congruência, a adequação interna. É importante frisar que esta última é ainda estática, cria a possibilidade, mas não a necessidade, de uma convergência ativa, de uma atração eletiva. A transformação dessa potência em ato, sua dinamização, depende de condições históricas e sociais concretas. Assim, Weber constata, por exemplo, “certo parentesco (Verwandtschaft)” entre o confucionismo e o racionalismo puritano. Isso não é o suficiente para criar entre eles uma relação efetiva de convergência.  Naturalmente, a afinidade eletiva depende do grau de “adequação” ou mesmo de “parentesco” entre as duas formas, mas depende também de outros fatores sociais, pois ela é favorecida ou entravada por certas condições históricas. Em outras palavras, é preciso haver certa “constelação” de fatores históricos, sociais e culturais para que ocorra um processo de attractio electiva, de seleção recíproca, de esforço mútuo e até, em certos casos, de “simbiose” de duas figuras espirituais. Esse aspecto está presente em Max Weber, mas é raramente desenvolvido na interpretação da realidade.  

          EscólioParker é um filme norte-americano dirigido por Taylor Hackford e lançado em 2013. É uma adaptação do romance Flashfire, de Donald E. Westlake, sob o pseudônimo de Richard Stark (2000). Jason Statham interpreta Parker, um personagem que já apareceu em termos de sodalidade em diversos romances e logo em filmes. O filme recebeu críticas mistas após seu lançamento e não foi um sucesso comercial. Parker (Jason Statham) é um ladrão profissional. Seu mentor, Hurley (Nick Nolte), pede que ele aceite um trabalho com uma equipe que ele não conhece, composta por Melander (Michael Chiklis), Carlson (Wendell Pierce), Ross (Clifton Collins Jr.) e Hardwicke (Kirk Baltz). Eles roubam com sucesso a Feira Estadual de Ohio, mas Hardwicke altera parte do plano de Parker, resultando per se em uma morte desnecessária. Enfurecido com o assassinato, Parker se recusa a participar do roubo de joias proposto. Precisando de sua parte do saque em Ohio para financiar o plano maior, Melander ordena que Hardwicke mate Parker, e eles o abandonam em um rio à beira da estrada. Ele sobrevive e é resgatado por fazendeiros. Após fugir do hospital, ele é levado por Hurley para Nova Orleans, onde o irmão de Hardwicke lhe diz que a quadrilha está em Palm Beach, na Flórida. Hurley tenta convencer Parker a ficar com seu próprio dinheiro e deixar o assunto para lá, a fim de proteger a si mesmo e sua filha Claire que também é namorada de Parker de represálias do tio de Hardwicke, Danzinger, um chefão da máfia de Chicago. Parker se recusa. O assassino de aluguel de Danzinger tenta capturar Claire, mas ela escapa. Parker viaja para Palm Beach e se passa por um rico magnata do petróleo do Texas chamado Parmitt, em busca de uma casa luxuosa.

         A corretora de imóveis Leslie Rodgers (Jennifer Lopez) lhe mostra uma casa supostamente vazia, comprada por um homem chamado Rodrigo, o que desperta seu interesse. Leslie, uma divorciada com dificuldades financeiras, convida Parker (Parmitt) para sair, mas ele recusa. Ao verificar seu crédito, ela descobre que sua identidade (obtida de um conhecido de Hurley) é falsa. Desesperada por dinheiro e para sair do apartamento da mãe, ela oferece sua ajuda. Quando Parker lhe conta que o próximo trabalho é um roubo de joias, Leslie sugere que haja um leilão de joias nas proximidades. O assassino encontra Parker e o ataca em seu hotel, mas Parker o joga da sacada do prédio e escapa. Um policial vai até o apartamento de Leslie para interrogar Parmitt sobre a briga já que ela o havia mostrado algumas casas e, durante a conversa, ela encontra Parker extraordinariamente sangrando muito na varanda. Ela convence o policial a ir embora e começa a trabalhar. Ela fica arrasada ao retornar e encontrar Claire cuidando dos ferimentos de Parker. Apesar dos ferimentos, ele insiste em se vingar da gangue de Melander naquela noite. Melander e sua equipe se infiltram na casa de leilões para instalar alto-falantes adulterados, com a intenção de explodi-los. Mais tarde, eles se disfarçam de bombeiros e roubam as joias, escapando pela água. Parker os espera em casa; antes, ele havia invadido o local, plantado rifles e danificado os percutores das armas. 

         Quando eles retornam, ele se prepara para atacar, mas Leslie é capturada por Melander. Usando uma das pistolas escondidas e os percutores danificados, Leslie e Parker conseguem matar a equipe. Parker entrega as joias a Leslie, pede que ela as guarde em um lugar seguro e diz que encontrará um jeito de conseguir o valor equivalente. Em seguida, ele mata Danzinger em Chicago, envia a parte dela para Leslie um ano e meio depois e manda dinheiro para os fazendeiros que o salvaram. Escólio: A semelhança comporta uma única asserção, sempre a mesma. A similitude as afirmações diferentes, que dançam juntas, apoiando-se e caindo umas em cima das outras. Expulsa do espaço do quadro, excluída da relação entre as coisas que reenviam uma à outa, a semelhança desaparece. Mas não era para reinar em outro lugar, onde estaria liberta do jogo indefinido da similitude. Não cabe à semelhança ser a soberania que faz surgir. A semelhança, que não é uma propriedade das coisas, não é própria ao pensamento? “Só ao pensamento”, diz Magritte, “é dado ser semelhante; ele assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece; torna-se o que o mundo oferece”. O pensamento assemelha sem similitude, tornando-se ele próprio essas coisas cuja similitude entre si exclui a semelhança. A pintura é esse ponto onde está na vertical um pensamento que está sob o modo da semelhança e das coisas que estão nas relações de similitude. Isto não é um cachimbo é suficiente para a questão: quem fala a enunciação? Ou antes, de fazer falar, os elementos dispostos, seja deles mesmo: “Isto não é um cachimbo”. Ela inaugura um jogo de transferências que correm, proliferam, se propagam, se respondem, no plano do quadro sem nada afirmar, nem representar nesses jogos da similitude. Em Les Liaisons Dangereuses uma mulher nua mantém diante de si um espelho que a esconde quase inteiramente: tem os dois olhos quase fechados, baixa a cabeça, que volta para a esquerda como se quisesse não ser vista e não ver que é vista.                

           Esse espelho, que se encontra exatamente no plano do quadro e de frente para o espectador, envia a imagem da própria mulher que se esconde: a face refletidora do espelho faz ver essa parte do corpo (dos ombros às coxas) que a face cega esconde. O espelho funciona um pouco ao modo de uma tela radioscópica. Mas com todo um jogo de diferenças. A mulher é ali vista de perfil, inteiramente voltada para a direita, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, o braço não estendido para carregar o espelho pesado, mas dobrado sobre os seios; a longa cabeleira que deve mergulhar por trás do espelho, à direita, escorre, na imagem do espelho, à esquerda, ligeiramente interrompida pela moldura do espelho, no momento desse ângulo brusco. A imagem é notavelmente menor do que a própria mulher, indicando assim, entre o espelho e o que ele reflete, uma certa distância que a atitude da mulher contesta, ou é por ela contestada, apertando o espelho contra seu próprio corpo para melhor escondê-lo. Esse pouco de distância por trás do espelho é manifestado ainda pela extrema proximidade da parede. Entre a parede e o espalho, o corpo escondido foi eliminado e a superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada. Em todos esses planos, escorregam-se similitudes que nenhuma referência vem fixar; translações sem ponto de partida nem suporte. 

            Dia virá no qual a própria imagem, com o nome que traz, é que será desidentificada pela relação social de similitude indefinidamente transferida numa série. Isto quer dizer que o objeto abstrato: “Isto não é um cachimbo”, silenciosamente escondido na representação semelhante, tornou-se o “Isto não é um cachimbo” das similitudes em circulação. Michel Foucault com o único fim de estabelecer os efeitos sociais a partir de tais relações sociais e políticas desloca-se deste ponto de vista para trabalhar com algumas séries de noções: “formações discursivas”, “positividade”, “arquivo”, definindo um domínio. Os enunciados, o campo enunciativo, as práticas discursivas, revelam a especificidade de um método de análise filosófico que não seria “nem formalizador, nem interpretativo”, pois já existem muitos métodos capazes de descrever e analisar a linguagem, para que não seja presunção querer acrescentar-lhes outro. Ele já havia mantido “sob suspeita”, expressão que utiliza hic et nunc, em unidades de discurso como o livro ou a obra porque desconfiava que não fosse tão imediata e evidente quanto pareciam: será razoável opor-lhes unidades estabelecidas à custa de tal esforço, depois de tantas hesitações e segundo princípios tão obscuros que foram necessárias centenas de páginas para elucidá-los? O que pode oferecer essa arqueologia? Qual é a recompensa de tão árdua empresa? A arqueologia em termos de método procura ordenar, classificar, averiguar e compreender os fatos sociais e históricos ocorridos.       

Entre análise arqueológica e história das ideias, os pontos de separação são numerosos, mas que simplificadamente, para o filósofo, da analítica do poder apresentam quatro distinções: 1ª) A arqueologia busca definir não os pensamentos, de fato social, as representações, as imagens, os temas, as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos; mas os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras sociais. Ela não trata o discurso como documento, mas onde se mantém a parte, a profundidade do essencial; ela se dirige ao discurso em seu volume próprio, na qualidade de monumento. Não busca um “outro discurso” mais oculto. Recusa-se a ser “alegórica”; 2ª) A arqueologia não procura encontrar a transição contínua e insensível que liga, em declive suave, os discursos ao que os precede, envolve ou segue. O problema dela é, pelo contrário, definir a tópica dos discursos em sua especificidade, sintoma e precariedade dada.  Mostrando em que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor salientá-los. Ela não vai à progressão lenta do campo do confuso da opinião à singularidade do sistema ou à estabilidade definitiva da ciência; não é uma “doxologia”, mas uma análise diferencial das modalidades de discurso; 3ª) A arqueologia não é ordenada pela figura soberana da obra; não busca compreender o momento em que esta intuição se destacou no horizonte anônimo. Não quer reencontrar o ponto enigmático em que o individual e o social se invertem um no outro.

Ela não é nem psicologia, nem sociologia, nem, num sentido mais geral, a ideia de “antropologia da criação”. A obra não é para ele um recorte metodológico acadêmico pertinente, mesmo se se tratasse de recolocá-la em seu contexto mais global, ou na rede das causalidades positivistas que a sustentam. Ela define tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais. Embora muitas vezes as comandasse inteiramente e as dominam sem que nada lhes escape, no sentido panoptista. Mas sem dúvida em outras vezes, que só lhes rege uma parte referida à instância do sujeito e princípio de sua unidade que ao que parece lhes são estranhas. Mas Michel Foucault entende que a arqueologia não procura reconstituir o que pôde ser pensado, desejado, visado, experimentado, almejado pelos homens no próprio instante em que proferiam o discurso. Ela não se propõe a recolher esse núcleo aparente e fugidio onde Autor e obra trocam de identidade. Onde o pensamento permanece ainda o mais próximo de si, na forma ainda não alterada do mesmo, e onde a linguagem não se desenvolveu ainda na dispersão espacial sucessiva do discurso. Não tenta repetir o que parece que foi dito, reencontrando-o em sua própria identidade. Não se pretende apagar na modéstia ambígua de uma leitura que deixaria voltar, em sua pureza, a luz longínqua, precária, quase extinta da origem. Menos que nada e diferente de uma “reescrita”. É na forma mantida da exterioridade, uma transformação regulada do que já foi escrito. Não é o retorno ao próprio segredo da origem; é descrição de um discurso-objeto. É neste sentido que no livro: As Palavras e as Coisas (2016), a arqueologia indica-nos pistas e propõe metodologicamente uma forma peculiar de descrever a imagem, sobre a técnica de interpretação através da pintura do quadro Las Meninas, de 1656 de Diego Velásquez, o principal artista do século de ouro espanhol havendo sido reconhecida como uma das pinturas mais importantes na história da arte ocidental. 

Não por acaso o pintor barroco Luca Giordano afirmou que ela representa a “teologia da pintura”, com o presidente da Academia Real Inglesa ou Royal Academy School of Arts: Sir Thomas Lawrence (1769-1830) descrevendo a obra em 1827 para David Wilkie refere-se a ela como “a verdadeira filosofia da arte”. Seguindo esta direção interpretativa a obra foi descrita magistralmente ainda como a “realização suprema de Velásquez, uma demonstração bem consciente e calculada sobre o que uma pintura pode alcançar”. Artista celebrado e prolífico, tinha o cognome de Luca Fapresto pelos seus contemporâneos pela inusitada rapidez com que pintava. Uma tela da igreja de Santa Maria do Pranto, Nápoles, teria sido pintada em 48 horas. O número de obras a ele atribuído ascende à casa dos cinco mil títulos, mas a maioria de nível medíocre. Na análise o pintor está ligeiramente afastado do quadro, com um olhar em direção ao modelo e acrescentar um último toque, mas é possível também que o primeiro traço não tenha ainda sido aplicado. O braço que segura o pincel está dobrado para a esquerda, na direção da palheta; permanece imóvel, por um instante, entre a tela e as cores. Essa mão hábil particular do ofício de pintor está pendente do olhar; e o olhar, em troca, repousa sobre o gesto suspenso. Entre a fina ponta do pincel e o gume do olhar, o espetáculo vai liberar seu volume. Não sem um sistema sutil de evasivas. Distanciando-se o pintor colocou-se ao lado da obra na qual trabalha. 

Isso quer dizer que para o espectador que olha, ele está à direita de seu quadro, o qual ocupa toda a extremidade esquerda. A esse mesmo espectador o quadro volta às costas: dele só se pode perceber o reverso, com a imensa armação que o sustenta como se fosse um arco da representação e captura da imagem. É perfeitamente visível em toda a sua estatura. Mas, de todo modo, ele não está encoberto pela alta tela que, talvez, irá absorvê-lo logo em seguida, quando, dando um passo em sua direção, se entregará novamente a seu trabalho; mas, nesse mesmo instante, ele acaba de aparecer aos olhos do espectador, surgindo dessa espécie de grande gaiola virtual que a superfície que ele está pintando projeta para trás. Podemos vê-lo agora, num instante de pausa, no centro neutro dessa oscilação. Jennifer Lopez foi escalada como protagonista feminina do filme chamada Leslie,   uma fonte que ajuda Parker durante um assalto. Seu talhe escuro, seu rosto claro são meios-termos entre o visível e o invisível: saindo dessa tela que nos escapa, ele emerge aos nossos olhos; mas quando, dentro em pouco, der um passo para a direita, furtando-se aos nossos olhares, achar-se-á colocado bem em face da tela que está pintando; entrará nessa região onde seu quadro, negligenciado por um instante, se lhe vai tornar-se de novo visível, sem sombra nem reticência por que se trata de imiscuir na realidade. Como se o pintor não pudesse ser ao mesmo tempo visto, no quadro em que está representado, e ver, aquele em que se aplica representar, ele reina no limiar dessas duas visibilidades incompatíveis. 

Quando se colocam o espectador no campo de seu olhar, os olhos do pintor captam-no, constrangem-no a entrar no quadro, designam-lhe um lugar-tempo privilegiado, obrigatório, apropriam-se da espécie e projetam a superfície inacessível da tela virada. Ele vê sua invisibilidade tornada visível ao pintor e transposta em uma imagem definitivamente invisível a ele próprio. Surpresa que é multiplicada e tornada ainda mais inevitável por um estratagema marginal. Pensando bem, ele não faz ver nada do que o próprio quadro representa. Seu olhar imóvel vai captar à frente do quadro, nessa região necessariamente invisível que forma sua face exterior, as personagens que ali estão dispostas. Em vez de girar em torno de objetos visíveis, esse espelho atravessa todo o campo da representação, negligenciando o que aí poderia captar, e restitui a visibilidade ao que permanece fora do olhar. As significações são armadilhas inevitáveis. Como podermos nos portar diante delas? Talvez como leitores e expectadores deslumbrados pelo universo dos discursos. Parker tem como representação social um filme norte-americano dirigido por Taylor Hackford e lançado em 2013. É um diretor e produtor, nascido em 31 de dezembro de 1944. 

Após estudar Ciência Política e servir por dois anos como voluntário do Corpo da Paz na Bolívia, na década de 1960, Taylor Hackford dedicou-se à produção de documentários, criando inúmeros documentários e reportagens investigativas para a emissora de televisão californiana pública americana KCET, localizada em Los Angeles, Califórnia, e afiliada à Public Broadcasting Service. É uma rede de televisão pública sem fins lucrativos com mais de 330 estações de televisão afiliadas nos Estados Unidos que a detêm coletivamente. Seu trabalho, reconhecido em Hollywood e que lhe rendeu dois prêmios Emmy, permitiu-lhe diversificar sua carreira. Ele se tornou produtor e fundou sua própria empresa, a New Visions Pictures. Em 1978, Teenage Father, que ele escreveu, produziu e dirigiu, ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action. Com base nesse sucesso, ele dirigiu seu primeiro longa-metragem dois anos depois, The Age of Rock and Roll. Mas foi An Officer and a Gentleman, estrelado por Richard Gere, em 1982, um sucesso comercial e de crítica, que realmente o trouxe à atenção do público em geral e de toda a indústria cinematográfica, rendendo-lhe dois Oscars: Melhor Canção Original por “Up Where We Belong” e Melhor Ator Coadjuvante para Louis Gossett Jr. Em 1996, ele produziu o documentário “When We Were Kings”, sobre a luta entre o boxeador Muhammad Ali (1942-2016) e o boxeador George Foreman (1949-2025) em 1974 em Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo. É o principal centro econômico e político, das indústrias, incluindo manufatura, telecomunicações, bancos etc., dirigido por Leon Gast com o Oscar de melhor documentário. 

Em 2004, ele dirigiu o filme Ray, sobre a vida do cantor Ray Charles (1930-2004), estrelado pelo ator Jamie Foxx, com uma indicação ao Oscar de melhor diretor. O filme é uma adaptação do romance Flashfire, de Donald E. Westlake, sob o pseudônimo de Richard Stark, publicado em 2000. Jason Statham interpreta Parker, um personagem que já apareceu em diversos romances e filmes. Parker é um personagem fictício criado por Donald E. Westlake que aparece em seus romances sob o pseudônimo de Richard Stark. Westlake escolheu esse pseudônimo como uma homenagem a Richard Widmark, “um ator magnífico, fantástico em papéis ameaçadores”. Parker é um ladrão de bancos independente que age friamente, guiado unicamente pelo interesse próprio. O personagem já apareceu em diversos filmes. O próprio Westlake criou uma versão cômica com o personagem Dortmunder. Desde o primeiro livro, a característica que define Parker é a sua completa ausência de emoção na sociedade. Ele é o ladrão profissional por excelência, agindo com frio distanciamento. A intenção de Stark/Westlake era suprimir quaisquer sentimentos pelo seu personagem principal, mesmo quando o submete a enormes provações: a traição dos seus cúmplices e da sua esposa, o confronto com a máfia no primeiro romance. O primeiro nome de Parker nunca é mencionado nos romances, e muitos detalhes sobre ele permanecem envoltos em torno do mistério. Suas principais características são “sua natureza taciturna e seu hábito de esperar pelas pessoas sentado em um sofá em um quarto escuro”. Parker é assustador não apenas por ser frio, metódico e eficiente, mas também porque Westlake conseguiu torná-lo extremamente verossímil. Parker não se envolve em feitos espetaculares, o que o tornaria irreal, mas age de forma realista, optando pelo caminho mais direto em suas ações. 

O primeiro romance da série Parker é “O Caçador”, adaptado duas vezes para o cinema “À Queima-Roupa” e “O Golpe”, no qual ele persegue seu parceiro e sua ex-esposa, que o traíram durante um assalto e o deixaram para morrer. Após uma breve passagem pela prisão, ele os encontra e os elimina, voltando então sua atenção para a Organização, para quem seu parceiro havia entregado sua parte do roubo para quitar uma dívida. No final deste primeiro romance, Parker foi preso pela polícia. O editor, no entanto, perguntou a Westlake se havia alguma maneira de Parker escapar. Sua intenção era publicar dois ou três livros ano com esse personagem. Westlake concordou prontamente, considerando Parker “bem melhor” do que a polícia. Após essa primeira aventura, ele orquestra roubos e assaltos à mão armada com cúmplices escolhidos a dedo ou que encontra por acaso, como o assalto a uma cidade inteira En coupe règle, ou a uma base da Força Aérea em Le Divan Indiscret (1968). Ele é conhecido no submundo do crime por planejar meticulosamente roubos. Mas seus planos são regularmente frustrados, pela incompetência ou ganância de um parceiro. Esse padrão geralmente leva a um infeliz final sangrento. Jean-Patrick Manchette (1942-1995) mostrou como esse padrão pode ser decomposto em “figuras impostas”: o primeiro plano de ação é falho, então Parker impõe outro.

Ele se impõe como líder, geralmente sem entusiasmo, mas porque precisa de dinheiro. Algumas características definem a equipe de executores. Financiamento, preparação de equipamentos e logística constituem outras sequências. Parker cerca-se de cúmplices para realizar seus roubos. Alguns deles são personagens recorrentes. O mais próximo deles é um ator chamado Alan Grofield, que Richard Stark também apresenta em outros quatro romances nos quais Parker não aparece. John Sheer, Handy McKay, Ed e Brenda Mackey aparecem em vários livros da série. Em “Piecework”, o nono romance da série, Parker conhece Claire Carroll, que se torna sua parceira e com quem ele vive nos períodos em que não está ocupado planejando ou executando seus roubos. Claire não deseja se envolver nas atividades ilícitas de seu parceiro, mas ocasionalmente se vê involuntariamente arrastada para episódios de violência. O casal vive grande parte do ano em uma casa à beira de um lago em Nova Jersey, mas passa o verão em Miami. Entre 1962 e 1974, Westlake publicou dezesseis romances com Parker como protagonista. Vinte e quatro anos depois, Parker reapareceu em mais dez romances. Parker foi retratado no cinema: Lee Marvin (Walker em Point Blank), Jim Brown (McClain em The Split), Michel Constantin (Georges em Mise à sac), Robert Duvall (Earl Macklin em The Outfit), Peter Coyote (Stone em Slayground), Mel Gibson (Porter em Payback) e Jason Statham, sob seu próprio nome, em Parker. A atuação de Lee Marvin em Point Blank impressionou tanto Westlake que influenciou a representação de Parker em seus romances posteriores. Em 2025, Parker é assumido por dois autores franceses: o ilustrador Kieran e o escritor Doug Headline. A obra serve para lançar uma nova coleção da editora Dupuis chamada “Aire noire”. A Presa, 2025, adaptação de Um Pouco de Vinagre, publicado em 1969.

Bibliografia Geral Consultada.

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