domingo, 7 de janeiro de 2024

Os Colonos – Política, Revisionismo & Cinema de Mestiços Chilenos.

                                A poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem”. Pablo Neruda           

        The Settlers (Los Colonos, 2023) tem como representação um filme de drama ocidental revisionista, dirigido por Felipe Gálvez Haberle em sua estreia na direção, que co-escreveu o roteiro com Antonia Girardi em colaboração com Mariano Llinás. O filme é estrelado por Mark Stanley, Camilo Arancibia, Benjamin Westfall, Alfredo Castro, Mishell Guaña, Sam Spruell, Marcelo Alonso e Adriana Stuven. É uma coprodução entre Chile, Argentina, Reino Unido, Taiwan, França, Dinamarca, Suécia e Alemanha. No cinema & televisão, o drama é uma categoria ou gênero de ficção narrativa (ou semificção) que pretende ser mais sério dramaticamente do que humorístico em tom. O drama desse tipo social geralmente qualificado com termos adicionais que especificam seu supergênero, macrogênero ou microgênero específico, como novela, drama policial, drama político, drama jurídico, drama histórico, drama doméstico drama adolescente e drama de comédia (dramédia). Esses termos tendem a indicar um cenário histórico e pontual ou assunto específico, ou combinam a questão da interpretação da realidade de um drama com elementos que encorajam uma gama mais ampla de estados de espírito.  Para esses fins, um elemento primário em um drama é a ocorrência de conflito emocional, social ou politicamente e sua resolução no decorrer do enredo.  

Todas as formas de cinema ou televisão que envolvem histórias de ficção são formas de drama no sentido mais amplo se sua narrativa for alcançada por meio de atores que representam (mimese) personagens. Nesse sentido mais amplo, o drama é um modo distinto de romances, contos e poesia narrativa ou canções. Na Era Moderna, antes do nascimento do cinema ou da televisão, o drama dentro do teatro representava um tipo de peça que não era nem uma comédia nem uma tragédia. É esse sentido mais restrito que as indústrias de cinema e televisão, também chamadas culturais, juntamente com os estudos de cinema, adotaram. Radiodrama tem sua utilidade de uso em ambos os sentidos, mas objetivando e transmitido em uma apresentação ao vivo, também tem sido usado para descrever o lado mais intelectual e cognitivo da produção dramática do rádio. O fato social provoca uma série de mudanças nos hábitos dos moradores e também uma divisão heteróclita de ânimos: enquanto alguns ficam felizes com a TV, outros, mais pessimistas, temem uma invasão inoportuna que vai desestabilizar a vida de seus moradores. Em meio a uma série de conflitos e superstições, manter a calma e se adaptar às mudanças parece ser a solução adequada, mas sem antes causar um certo alvoroço.

A história da televisão começou no início do século XX por meio de experimentos realizados por diferentes inventores sociais. Seu desenvolvimento se deu graças a uma série de outros avanços tecnológicos que se estendiam desde o século XIX. Na véspera da 1ª grande guerra (1914-1918) foi prometido ao patriarca Shimun XIX Benyamin (1887-1918) um “tratamento preferencial em antecipação à guerra”. Pouco depois do início da guerra, no entanto, assentamentos assírios e armênios ao Norte de Hakkari foram atacados e saqueados por irregulares guerrilheiros curdos aliados ao exército otomano no genocídio assírio. Outros foram forçados a trabalhar em batalhões e posteriormente executados. O ponto de virada foi quando o irmão do patriarca foi feito prisioneiro enquanto estudava em Constantinopla, famosa por suas defesas maciças e complexas. O primeiro muro da cidade foi erguido por Constantino e cercava a cidade por todos os lados. Os otomanos exigiram a neutralidade assíria e o executaram como advertência. Em troca, o patriarca declarou guerra aos otomanos em 10 de abril de 1915. Os assírios foram atacados por curdos apoiados pelos otomanos, levando a maioria dos Hakkarianos aos cumes das montanhas, pois os que ficaram nas aldeias foram mortos. Shimun Benjamin conseguiu mover-se para Urmia, e tentou persuadi-los a enviar uma força aos assírios sitiados. Mar Benyamin Shimun, nasceu em Qudchanis em 1887.         

O transistor revolucionou o campo da eletrônica e abriu caminho para rádios, calculadoras e computadores menores e mais baratos, entre outras coisas. Transistor é um dispositivo semicondutor usado para amplificar ou trocar sinais eletrônicos e potência elétrica. É composto de material semicondutor com pelo menos três terminais para conexão a um circuito externo. Uma tensão ou corrente aplicada a um par de terminais do transistor controla a corrente através de outro par de terminais. Alguns transistores são embalados individualmente, outros são embutidos em circuitos integrados. Provém de transfer varistor como é chamado pelos seus inventores. O transistor é o bloco de construção fundamental dos dispositivos eletrônicos modernos e é onipresente nos sistemas. Julius Edgar Lilienfeld (1882-1963) patenteou um transistor de efeito de campo em 1926, mas não foi possível construir um dispositivo de trabalho naquele momento. O primeiro dispositivo praticamente implementado foi um transistor de contato pontual inventado em 1947 pelos físicos norte-americanos John Bardeen (1908-1991), Walter Brattain (1902-1987) e William Shockley (1910-1989). O transistor está na lista de marcos do IEEE, sigla para Instituto de Engenheiros Eletrônicos e Eletricistas, a maior organização técnica e profissional do mundo em eletrônica, e Bardeen, Brattain e Shockley dividiram o Prêmio Nobel de Física (1956) pela criação inovadoramente tanto científica quanto de utilidade de uso ordinário. A maioria dos transistores é de silício puro, ou germânio, elementos que têm propriedades semelhantes que semicondutores e podem ser usados do ponto de vista técnico e socialmente.   

Do ponto de vista técnico-metodológico um transistor pode ter apenas um tipo de portador de carga, em um transistor de efeito de campo, ou pode ter dois tipos de portadores de carga em dispositivos de transistor de junção bipolar. Comparado com válvula termiônica, eles são menores e requerem menos energia para operar. Certos tubos de vácuo têm vantagens sobre os transistores em frequências de operação muito altas ou altas tensões operacionais. alguns transistores são feitos para especificações padronizadas por vários fabricantes. O tríodo termiônico é um tubo a vácuo inventado em 1906, que possibilitou a amplificação da tecnologia de rádio e a telefonia típica de longa distância. O tríodo, no entanto, era um dispositivo frágil que consumia uma quantidade substancial de energia. Em 1909, o físico William Eccles (1875-1966) descobriu o oscilador de diodo de cristal. O físico Julius Edgar Lilienfeld depositou uma patente para um field effect transistor (FET) no Canadá em 1925, que foi planejado para ser um substituto de estado sólido para o tríodo. O físico também apresentou patentes idênticas nos Estados Unidos da América em 1926 e 1928. No entanto, não publicou nenhum artigo sobre seus dispositivos, nem suas patentes citam exemplos específicos de algum protótipo funcional. Como a produção de materiais semicondutores de qualidade estava caminhando a décadas de distância, as ideias de amplificadores de estado sólido não teriam encontrado utilidade de uso nas economias nascentes nas décadas de 1920 e 1930, mesmo se tal dispositivo tivesse sido construído para o capital globalizado.

Em 1934, o inventor alemão Oskar Heil patenteou um dispositivo similar na Europa. Oskar Heil (1908-1994) foi um engenheiro elétrico e inventor alemão. Ele estudou multidisciplinarmente física, química, matemática e música na Universidade Georg-August de Göttingen e obteve seu doutorado em 1933, por seu trabalho em espectroscopia molecular. Na universidade Oskar Heil conheceu Agnesa Arsenjewa (1901-1991), uma promissora jovem física russa que também obteve seu doutorado na mesma universidade. Eles se casaram na cidade de Leningrado, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1934. Juntos eles se mudaram para o Reino Unido para trabalhar no Laboratório Cavendish, da Universidade de Cambridge. Durante uma viagem à Itália, eles co-escreveram um artigo pioneiro sobre a geração de micro-ondas que foi publicado na Alemanha no Zeitschrift für Physik em 1935. Agnesa retornou à Rússia para prosseguir trabalhando no Instituto Físico-Químico de Leningrado com o marido. Ele retornou ao Reino Unido; Agnesa, enquanto mulher em condições e possibilidades trabalho se tornou assunto sensível, mas seu ersatz não teve permissão para sair. De volta à Grã-Bretanha trabalhou para a Standard Telephones and Cables. De 17 de novembro de 1947 a 23 de dezembro de 1947, John Bardeen e Walter Brattain da Bell Labs da AT&T em Murray Hill, Nova Jersey, nos Estados Unidos, realizaram experimentos e observaram quando dois pontos de ouro eram aplicados a um cristal de germânio, um sinal foi produzido com a potência de saída maior que a entrada.

O líder do Grupo de Física do Estado Sólido, William Shockley, viu o potencial nos meses subsequentes trabalhando para ampliar o reconhecimento sobre semicondutores. O termo transistor foi cunhado por John Robinson Pierce (1910-2002) como uma contração do termo transresistência. De acordo com Lillian Hoddeson e Vicki Daitch, autores de uma biografia de John Bardeen, Shockley propôs que a primeira patente do Bell Labs para um transistor deveria ser baseada no efeito de campo e que ele fosse nomeado como o inventor. Tendo desenterrado as patentes de Lilienfeld que entraram na obscuridade alguns anos antes, os advogados da Bell Labs desaconselharam a proposta de Shockley porque a ideia de um “transistor de efeito de campo” que usasse um campo elétrico como “grade” não era nova. Em vez disso, o que o trio da transresistência Bardeen, Brattain e Shockley inventaram em 1947 foi o primeiro transistor de contato pontualmente. Em 1948, o transistor de “ponto de contato” foi inventado independentemente pelos físicos alemães Herbert Mataré (1912-2011) e Heinrich Welker (1912-1981) enquanto trabalhavam na Compagnie des Freins et Signaux, uma subsidiária da Westinghouse localizada em Paris. Em reconhecimento a essa conquista reveladora científica, William Shockley, John Bardeen e Brattain receberam o Prêmio Nobel de Física de 1956 com a invenção “por suas pesquisas sobre semicondutores e sua descoberta do efeito do transistor”. O último Prêmio Nobel de Literatura foi concedido a Jon Fosse em 2023.

Herbert Mataré tinha experiência anterior no desenvolvimento de retificadores de cristal de silício e germânio no esforço de radar alemão durante a 2ª guerra mundial (1939-1945). Usando esse conhecimento, ele começou a pesquisar o fenômeno da “interferência” em 1947. Em junho de 1948, testemunhando correntes fluindo através de pontos de contato, Mataré produziu resultados consistentes usando amostras de germânio produzidas por Welker, semelhante ao que Bardeen e Walter Brattain haviam realizado antes, em dezembro de 1947. Percebendo que os cientistas da Bell Labs já haviam inventado o transistor antes deles, a empresa colocou seu “transístor” em produção para utilidade de uso comercialmente na rede de telefonia da França. Os primeiros transistores de junção bipolar foram inventados por William Shockley (1910-1989), da empresa industrial e de pesquisa Bell Labs, que solicitou registro da patente em 26 de junho de 1948. Em 12 de abril de 1950, os químicos Gordon Teal (1907-2003) e Morgan Sparks (1916-2008), da Bell Labs, produziram com sucesso uma junção NPN bipolar que amplificava o transistor de germânio. A Bell Labs anunciou a descoberta deste novo transistor “sanduíche” em um comunicado de imprensa em 4 de julho de 1951.

A televisão na Turquia foi introduzida em 1964 pelo provedor de mídia do governo TRT. O primeiro canal de televisão turco, ITU TV, foi lançado em 1952. A primeira televisão nacional é o TRT 1. A televisão colorida foi introduzida em 1981. Naquela época o único canal com o nome de TRT 1, e transmitia em vários momentos da linha de dados. O primeiro canal privado de televisão da Turquia, Star, começou a ser transmitido em 26 de maio de 1989. Até a década de 1990, havia apenas um canal de televisão controlado pelo Estado, mas com a onda de liberalização, a transmissão de propriedade privada começou. O mercado de televisão da Turquia é definido por uma quantidade de grandes canais, liderados pelo Kanal D, ATV e Show TV, respectivamente com 14%, 10% e 9,6% de participação econômica concentrada de mercado. As plataformas de recepção são simultaneamente terrestres e de satélite, com quase 50% das casas usando satélite, 15% eram serviços pagos em 2009. Três serviços dominam o mercado multicanal: as plataformas de satélite Digitürk e D-Smart e o serviço de TV a cabo Türksat. Não queremos perder de vista que o extraordinário filme Vizontele representa uma produção cinematográfica baseada nas memórias fantásticas do próprio diretor.

            Os homens, lembram-nos Nietzsche (2008) que têm falado em suma do amor com tanta ênfase e idolatria porque nunca o tiveram em demasia e porque nunca podiam ficar saciados com esse alimento: é assim que acaba por se tornar para eles “alimento divino”. Se um poeta quisesse mostrar a imagem realizada da utopia do amor universal dos homens, certamente deveria descrever um estado atroz e ridículo de que nunca se viu igual na terra – cada um seria assediado, importunado, e desejado, não por um só amante, mas por milhares e mesmo por todos, graças a uma tendência irresistível que será insultado, que será amaldiçoado como o fez a humanidade antiga com o egoísmo; e os poetas dessa nova época, se lhe deixarem o tempo compor obras, sonharão apenas com o feliz passado sem amor, com o divino egoísmo, com a solidão de outrora ainda era possível na terra, com a tranquilidade, com o estado de antipatia, de ódio, de desprezo e quaisquer que sejam os nomes da cara animalidade que vivemos. Em questões intelectuais sobre costumes, agir uma única vez que seja ao encontro daquilo que reputamos preferível; ceder aqui, na prática do dia, conservando, contudo, a liberdade intelectual.

            Em 1893, Segundo, um mestiço chileno, Alexander MacLennan, um veterano escocês, e Bill, um mercenário americano, embarcam em uma expedição a cavalo para delimitar e recuperar as terras que o Estado concedeu a José Menéndez. O que parece ser uma expedição administrativa se transforma em uma caçada violenta aos Onas, os nativos do arquipélago da Terra do Fogo. O genocídio Selknam está no centro do filme. Graças às suas excelentes habilidades de tiro, Segundo é inicialmente escolhido como o único homem a acompanhar MacLennan em sua missão. No entanto, no dia da partida, José Menéndez informa MacLennan que um homem de sua escolha, um mercenário chamado Bill, se juntará a eles. MacLennan ostenta uma jaqueta vermelha característica e acredita-se que tenha servido como tenente no exército britânico. Quando estão sozinhos, Bill compartilha suas dúvidas sobre a confiabilidade de Segundo com MacLennan e questiona por que, como tenente, ele não tem mais homens o seguindo, ao que MacLennan responde que Segundo é disciplinado e que um homem disciplinado é melhor do que dez indisciplinados. Após vários dias de viagem sem ver ninguém, o trio encontra um grupo de soldados na fronteira argentina acompanhando um cientista encarregado de mapear a fronteira argentina. O trio participa de várias competições com os soldados, incluindo tiro, queda de braço e boxe. À noite, o cientista reflete sobre os perigos de deixar um militar entediado e demonstra um interesse perverso pelos nativos americanos. MacLennan questiona se o cientista sabe a localização de mais nativos.

Depois de deixar os soldados e o cientista em seu acampamento, o trio continua até encontrar um grupo de nativos americanos. MacLennan e Bill trabalham juntos para massacrar a maioria das pessoas ali, enquanto Segundo não consegue matar nenhum deles, embora considere atirar em Bill, mas acaba desistindo. Após o massacre, MacLennan e Bill se revezam estuprando uma jovem sobrevivente. Quando Segundo se recusa a se juntar a eles, MacLennan ameaça matá-lo se ele não o fizer. Como a vítima está caída fora da vista dos outros, Segundo finge concordar com o pedido de MacLennan, mas em vez disso mata a jovem ao alcançá-la, presumivelmente para poupá-la de mais sofrimento. Em seguida, o trio se depara com um grupo de soldados ingleses, cujo líder revela, durante um jantar compartilhado, que MacLennan não é tenente, mas apenas um soldado disfarçado de tenente. Bill demonstra surpresa por um oficial estar disposto a compartilhar uma refeição com um soldado raso, momento em que o oficial inglês atira e mata Bill, enojado. O oficial oferece a MacLennan uma mulher indígena americana como substituta de Bill, que MacLennan aceita. O oficial estupra MacLennan. Segundo, MacLennan e a mulher partem juntos na manhã seguinte.

Sete anos depois, José Menéndez está morando em uma bela mansão chilena em Punta Arenas e é acompanhado por sua filha e um clérigo quando recebem a visita de um homem chamado Marcial Vicuña, enviado da capital para avaliar o que pode ser feito pelo povo do Chile em comemoração ao seu centenário. Menéndez afirma que muitos homens já visitaram esta área antes e se concentraram apenas nos aspectos negativos, sem realmente ajudar. Vicuña pergunta se os aspectos negativos aos quais ele se refere incluem os feitos de homens como Alexander MacLennan, apelidado de O Porco Vermelho. Menéndez revela que MacLennan já morreu, mas trabalhou para ele por muitos anos e Vicuña conta uma história que leu, na qual afirmava que MacLennan e seus homens envenenaram uma baleia encalhada, resultando na morte de cem nativos americanos. Menéndez defende seu ex-funcionário, referindo-se a ele como Tenente MacLennan, e sua filha e o clérigo também defendem as ações tomadas contra os nativos. Quando não se consegue chegar a um acordo entre os quatro, Menéndez leva Vicuña para um escritório no andar de cima para que os dois possam "conversar seriamente". Vicuña explica que o governo de Santiago acredita que todos os grupos sociais devem viver e trabalhar juntos para alcançar a paz, ao que Menéndez diz que eles já vivem em paz nesta parte do Chile.

Vicuña afirma que um acordo foi alcançado com os Mapuche e agora deseja falar com os Onas para firmar um com eles. No entanto, ele afirma que seu principal objetivo é enterrar alguns dos aspectos mais violentos de como Menéndez chegou a possuir tantas terras. Marcial Vicuña viaja então para a Ilha de Chiloé para tentar encontrar Segundo, onde é recebido por uma indígena americana chamada Rosa, esposa de Segundo. Ela diz a Vicuña, cuja autoridade ela desrespeita, que Segundo está no mar e não tem certeza de quando ele voltará. No entanto, essa declaração é interrompida por Segundo saindo de casa, momento em que Vicuña pressiona Rosa para deixá-lo falar com Segundo. Uma vez dentro de casa, Vicuña explica a Segundo que deseja relatar detalhes dos crimes violentos que Menéndez o fez cometer. Ele pergunta como Segundo e Rosa se conheceram, e Segundo explica que Menéndez nomeou MacLennan como Juiz de Paz e que Rosa deveria ajudar a traduzir as discussões entre MacLennan e os nativos. No entanto, Segundo conta que MacLennan ofereceu um grande banquete à beira-mar para mais de trezentos nativos americanos. Assim que todos os presentes estavam bêbados, MacLennan, Segundo e outros pegaram rifles e começaram a matar todos os nativos, jogando-os no mar e estrangulando-os quando necessário. Vicuña então acomoda o casal em uma mesa do lado de fora da casa, com um jogo de chá à frente. Ele pede para sua assistente, Laura, encher as xícaras e, em seguida, instrui cada um a beber o chá enquanto ele os filma. Segundo o faz quase imediatamente, mas Rosa não, apesar das exigências e da insistência de Vicuña precisa fazer se quiser “fazer parte desta nação”.

O filme Os Colonos teve sua estreia mundial em 22 de maio de 2023, no 76º Festival de Cinema de Cannes, um festival de cinema criado em 1946, conforme concepção de Jean Zay, e até 2002 chamado Festival International du Film, é um dos mais prestigiados e famosos festivais de cinema do mundo. Acontece todos os anos, no mês de maio, na cidade francesa de Cannes. O “mercado do filme” (marché du film) acontece paralelamente ao festival. Depois foi exibido em 12 de agosto de 2023, na seção Competição de Ficção do 27º Festival de Cinema de Lima e logo em 7 de setembro de 2023, na seção Peça Central do 48º Festival Internacional de Cinema de Toronto. A MUBI anunciou que adquiriu os direitos de distribuição para vários territórios, incluindo América do Norte, América Latina, Reino Unido, Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Turquia, Índia e Benelux. Eles planejam lançar o filme nos cinemas do Reino Unido, formado por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, é uma nação insular situada no Noroeste da Europa. A Inglaterra, local de nascimento de William Shakespeare e dos trabalhadores revolucionários The Beatles, abrigam a capital, Londres, um centro financeiro e cultural globalmente influente. Também na Inglaterra, ficam o neolítico Stonehenge, as termas romanas de Bath e as centenárias universidades de Oxford e Cambridge e dos Estados Unidos da América. No site de críticas Rotten Tomatoes, 93% das 55 avaliações dos críticos são positivas, com uma classificação média de 7,5/10. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao filme uma pontuação de 82 em 100, com base em 7 críticos, indicando “aclamação universal”.

Isto é, comportar-se como todos e manifestar assim, a todos, uma amabilidade e uma bondade para compensá-los de alguma forma das divergências de nossas opiniões: - tudo isso é considerado, entre os homens um pouco independentes, não somente como admissível, mas também como honesto, humano, tolerante, nada pedante e quaisquer que sejam os termos que se usa para adormecer a consciência intelectual: e é assim que tal faz batizar cristãmente seu filho apesar de ser ateu, outro cumpre seu serviço militar como todos, embora condene severamente o ódio, e um terceiro se apresenta à igreja com uma mulher porque ela “é de piedosa família e faz promessas diante de um padre sem sentir vergonha de sua inconsequência”.  A intolerância, por outro lado, é um filme mudo norte-americano considerado uma das obras-primas do cinema mudo.  Nos filmes mudos, o diálogo é transmitido através de gestos suaves, mímica e letreiros explicativos. A ideia de combinar filmes com sons gravados é quase tão antiga quanto o próprio cinema, mas antes do fim dos anos 1920, os filmes eram mudos em sua maior parte, devido à inexistência de tecnologia para tornar isso possível. Os anos anteriores à chegada do som ao cinema são reconhecidos como a chamada “era muda”, ou, a chamada “era silenciosa” entre os estudiosos do tema e historiadores. Considera-se que a arte cinematográfica atingiu a maturidade plena antes da substituição dos filmes mudos para a passagem de “filmes sonoros” e alguns cinéfilos defendem que a qualidade dos filmes baixou durante alguns anos, até que o novo meio sonoro estivesse totalmente adaptado ao cinema.

A América Latina está localizada na totalidade no hemisfério ocidental, cujas linhas imaginárias que atravessam são: o Trópico de Câncer, pelo qual é cortado o centro do México; o Equador, linha imaginária passada no Brasil, Colômbia, Equador e pelo qual perpassa o norte do Peru e o Trópico de Capricórnio, pelo qual são atravessados o Brasil, o Paraguai, a Argentina e o Chile. A América Latina é um complexo cultural das Américas a qual é distribuída irregularmente pelos hemisférios norte e sul, porque a maioria de suas terras é estendida ao sul da Linha do Equador. Na América Latina são comportadas diversas culturas, porque estão misturados línguas, etnias e costumes. Há predomínio do espanhol como língua dos países da América Latina, com a invasão e conquista das ilhas do Caribe em 1492, se estendeu rapidamente através da América com os colonos procedentes principalmente de Andaluzia e Extremadura, mas também de outras partes da Espanha, que se estabeleceram ali nos séculos XVI e XVII constituindo-se ao redor de 200 mil pessoas nesses séculos. É falado por mais de 370 milhões de latino-americanos, mas também o português, francês e, em certas regiões ao norte do continente, inglês e neerlandês. Há muitas e várias línguas nativas, merecendo destaque o quíchua, legado dos Incas e idioma que se fala no Peru, Equador, Bolívia e Argentina.

Línguas românicas oficiais na América Latina: português em laranja; espanhol em verde e francês em azul. A etnia dos habitantes da América Latina tem grande variação de país a país. Apesar da intensidade de mestiços, existem algumas nações em que a maior parte dos habitantes é branca como a Argentina e Uruguai, outras, ungidas no âmbito do processo civilizatório, onde quase todos os habitantes são de origem negra, como ocorre no Haiti, República Dominicana, Granada, Bahamas e Barbados e outras, onde está fortemente presente na origem continental o índio: Peru, Bolívia, México, Equador e Paraguai. Existem países mestiços de verdade: Colômbia e Venezuela e demais como o Brasil, no qual são existentes regiões de população com pequeno predomínio de brancos e demais onde é apresentada maior parte de negros, mestiços, mulatos ou índios. O Partido Democrata Cristão do Chile, também de Democracia Cristã, é um partido político chileno fundado em 28 de julho de 1957, através de diversos grupos sociais-cristãos. Participaram de sua criação a Falange Nacional e o Partido Conservador Social Cristão, grupos sectários do Partido Conservador, e que formavam a Federação Social Cristã. É integrante da Internacional Democrata Cristã. Atualmente, ele é o maior partido em termos de número de militantes com pouco mais de 113 mil membros. O PDC adere ao humanismo cristão surgido nos ensinamentos da encíclica social Rerum Novarum, ditada pelo papa Leão XII em 1891, e as posteriores, que buscam entregar diretrizes nas vidas socalmente das pessoas para poder criar uma sociedade mais justa contemporaneamente e que resolva os graves problemas sociais, provocados pela Revolução Industrial e as duras práticas egoístas do liberalismo.

Na história social do século XX no Chile, o PDC teve uma posição de centro democrática. Suas principais medidas na história do Chile são a Reforma Agrária, a Nacionalização do Cobre, oposição ao governo de Unidade Popular, sua participação na recuperação democrática, a defesa dos direitos humanos, violentados durante o Governo Militar que regeu o país sob comando de Augusto Pinochet (1973-1990) e a modernização do país nos últimos 15 anos, com sua participação nos governos da Concertación. O período da República Presidencialista, da Constituição de 1925 até o golpe de Estado de 1973, marcou uma mudança nas instituições do país. Três partidos passaram a dominar a política: o Partido Radical, o Partido Democrata Cristão do Chile e os Partido Socialista do Chile. Muitas empresas públicas foram criadas neste período. Seu final foi marcado pelo triunfo das ideias políticas de esquerda e socialistas. Entretanto, após o Golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 que derrubou o presidente democraticamente eleito Salvador Allende (1908-1973), um regime militar ditatorial tomou o poder violentados durante o Governo que regeu o país sob comando de Augusto Pinochet (1973-1990) a modernização nos últimos 15 anos, com sua participação nos governos da Concertación. Dezenas de milhares de apoiantes da oposição foram presos, torturados ou mortos, inclusive no exterior, outros deportados ou condenados ao exílio.

O cinema latino-americano sofreu com o problema do isolamento econômico entre os diferentes países, o que impediu a criação de um mercado latino-americano de cinema. Desse modo, a maior parte de sua produção depende da capacidade econômica de cada país e do tamanho de seus mercados internos. Desde a origem do cinema sonoro em 1930, até 1996, 89% da produção total cinematográfica se concentrou somente em três países: Argentina, Brasil e México. Até meados do século XX, o cinema mexicano e, em menor medida, igualmente o argentino, tiveram considerável presença latino-americana, com expoentes como Cantinflas ou Libertad Lamarque. No entanto, com o decorrer da década de 1960, praticamente a presença internacional do cinema mexicano e argentino desapareceu. O início veio como o Festival do Cinema Latino-americano de Pesaro na década de 1960, porém o momento-chave foi o Encontro de Cinema Latino-americano de 1967, seu ersatz no motor no chileno Aldo Francia do Cine Club de Viña del Mar, no cubano Alfredo Guevara do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica e no argentino Edgardo Pallero. Foi a primeira vez que se reuniram homens e mulheres do cinema de quase todos os países latino-americanos. Até o final da década surge uma geração de cineastas de grande importância, como os brasileiros Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, os argentinos Fernando Solanas e Leonardo Favio, os cubanos Tomás Gutiérrez-Alea e Santiago Alvarez, e os chilenos Raúl Ruíz, Miguel Littin e Lautaro Murúa, um movimento de “Novo Cinema Latino-americano”.

A década de 1960 foi demarcada pelo expressivo posicionamento social da população, o engajamento político e o reflexo da política nas artes, não foi diferente com o cinema. No círculo das artes é possível salientar as vozes de protesto que se dá através da música, do teatro, cinema e artes plásticas. Na música, o tropicalismo brasileiro se direcionava a problemática social em contexto latino-americano nos palcos, como: Arena conta Zumbi, Opinião, Barrela e Roda Vida, as adversidades da realidade do país. O cinema, se tornava algo diferente, sendo chamado em geral de Novo Cinema Latino-Americano, onde se era redefinindo sua poética, os diretores retrataram a seu modo, os sinais de um país em crise. Começa a ser transido a presença do pop e do novo realismo francês, com o disparo criativo dos artistas jovens da exposição que ficou conhecida como Opinião 65. Seguindo o espírito político contestador que percorreu por toda década, os movimentos cinematográficos dos anos 1960 são marcados pelo seu aspecto original, valorizando a criação de estilos próprio, no caso da América Latina. O Novo Cinema Latino-americano diferenciou-se notavelmente do cinema nacional do período 1930-1960, por orientar-se muito mais o cinema independente e relativamente afastado dos mecanismos comerciais relacionados com os sistemas globais de entretenimento.

A retomada do cinema latino-americano foi o período em que os países do cone-sul voltaram aos poucos ao antigo ritmo de produções cinematográficas de antes dos períodos de repressão. A partir da segunda metade da década de 1990, o número de produções aumentou e surgiu um novo gênero, os filmes que retratavam as ditaduras, como por exemplo: O que é isso, Companheiro? é um filme de 1997, dirigido por Bruno Barreto, com roteiro parcialmente baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, escrito em 1979. Em 1970, Gabeira foi preso na cidade de São Paulo. Resistiu à prisão e tentou fugir em direção a um matagal que existia por perto. Vários tiros foram disparados e um deles atingiu suas costas, perfurando rim, estômago e fígado. Encarcerado, recebeu a liberdade em junho do mesmo ano, tendo sido trocado com outros 39 presos pelo embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, que também havia sido sequestrado. O episódio foi justificado pelos sequestradores como uma tentativa de pressionar o regime militar a libertar quinze presos políticos ligados às organizações da esquerda política consideradas clandestinas naquele momento histórico. A ação teve sucesso em seus objetivos, uma vez que tais presos foram de fato libertados e exilados do país, porém pelo menos dois dos sequestradores não resistiram à tortura após serem capturados, enquanto outros foram obrigados a deixar o país. Ao longo de quase uma década, esteve em vários países dentre os quais o Chile, a Suécia e a Itália. Na Suécia, onde passou a maior parte do exílio, formou-se em Antropologia na Universidade de Estocolmo e a profissão de repórter até a função de condutor de metrô em Estocolmo.

Alguns nomes dos personagens ligados à guerra de guerrilha foram trocados em relação aos verdadeiros, tanto no livro como na vida real. O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) foi uma organização política marxista que participou da luta armada contra a ditadura militar brasileira. Surgiu em 1964, no meio universitário da cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, com o nome de Dissidência do Rio de Janeiro (DI-RJ). Depois foi rebatizada em memória do dia em que Ernesto Che Guevara foi capturado, na Bolívia, em 8 de outubro de 1967. Atualmente o grupo de orientação política marxista dedica-se a participar do movimento social e político popular e a editar o jornal Hora do Povo. Também é responsável pelo Partido Pátria Livre, fundado em 2009, e fundido ao Partido Comunista do Brasil em 2019. Na década de 2000 o cinema nacional nos países latino-americanos comparativamente cresceu, retomando o fôlego inicial. Os principais países produtores de cinema são o Brasil e a Argentina, sendo que a Argentina possui uma maior percentagem de público consumidor do cinema nacional, porém isso vem mudando no Brasil. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), órgão oficial do governo federal, constituída como agência reguladora, com sede na cidade de Brasília, cujo objetivo é fomentar, regular e fiscalizar a indústria cultural cinematográfica e videofonográfica nacional, o público que assistiu a filmes nacionais em 2017, dobrou com relação a 2012, indo de dados estatísticos concretos em torno de 15 milhões para 30 milhões de telespectadores. Argentina, Brasil e México lideram a produção, com o ingresso de uma considerável cinematografia singular de Cuba, e nahuatl nas sociedades latino-americanas da Colômbia, Chile, Bolívia, Peru e Venezuela.

Bibliografia Geral Consultada.

STAVENHAGEN, Rodolfo, “Siete Tesis Equivocadas sobre a América Latina”. In: Desarrollo Indoamericano, 1 (1966); RIBEIRO, Darcy, Os Índios e a Civilização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970; STEIN, Stanley, The Colonial Heritage of Latin America. Essays on Economic Dependence in Perspective. Oxford University Press, 1970; MARIÁTEGUI, José Carlos, Defensa del Marxismo. 6ª edición. Lima: Biblioteca Amauta, 1974; ARGUEDAS, José María, Señores e Indios: Acerca de la Cultura Quéchua. São Paulo: Editora Arca, 1976; MONTALBÁN, Manoel Vásquez, História y Comunicación Social. Madrid: Editorial Alianza, 1985; SILVA, Carlos Eduardo Lins da, O Adiantado da Hora. A Influência Americana sobre o Jornalismo Brasileiro. Tese de Doutorado. São Paulo: Editora Summus, 1991; SODRÉ, Muniz, A Comunicação do Grotesco. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1991; SQUIRRA, Sebastião Carlos de Morais, Boris Casoy: O Âncora no Telejornalismo Brasileiro. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 1993; CAMLONG, André, “La Technê Rhetorikê”. In: Diacrítica, nº 15, pp. 3-53; 2000; MENEZES, José Eugênio de Oliveira (Organizador), Os Meios da Incomunicação. São Paulo: Editora Annablume; Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 2005; BAPTISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando (Organizadores), Cinema Mundial Contemporâneo. Campinas: Papirus Editora, 2008; PEÑA, Gonzalo Barroso, La Dictadura de Pinochet a Través del Cine Documental: 1973-2014. Tese de Doutorado em História. Madri: Universidad Nacional de Educación a Distancia, 2017; LE BRETON, David, Antropologia das Emoções. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2019; BUENO, Samuel Torres, “O Exílio Chileno pelas Lentes do Cinema (1973-1983)”. In: Temporalidades – Revista de História. Edição 37, Volume 14, n° 1 (jan./ago. 2022); SILVA, Licene Maria Batista Garcia da, Da Solidão ao Exílio: O Amor como Laço. Dissertação de Mestrado. Instituto de Psicologia. Centro de Educação e Humanidades. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2024; LEONE, Daniela de Almeida, A Tradução Parcial Comentada de Sexe et Mensonges, de Leïla Slimani: Vozes Atravessadas pela Violência e pelo Patriarcado. Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos. Instituto de Biociências Letras e Ciências Exatas. São José do Rio Preto: Universidade Estadual Paulista, 2025; entre outros.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Anora – Dançarina, Existência & Exoterismo de Romance Conturbado.

                                                              Quod enim est erit semper”. Hermes Trismegisto

A dança representa a arte de fazer movimentos ritmados com o corpo. É uma expressão artística e cênica que envolvem os movimentos corporais em sua relação com diferentes estilos musicais. É a utilidade de uso do corpo seguindo movimentos previamente estabelecidos (coreografia) ou improvisados (dança livre), com passos ritmados ao som e compasso de uma música, A dança é praticada desde os tempos pré-históricos, e por isso geralmente se diz que ela é uma expressão cultural que acompanha a humanidade. É uma das três principais artes cênicas da Antiguidade, ao lado do teatro e da música, pois no antigo Egito existia danças astro-teológicas e na Grécia era frequentemente vinculada aos jogos. A dança é formada por três elementos essenciais: movimento corporal, espaço e, tempo. A dança pode existir como manifestação social artística ou como forma de divertimento ou cerimônia. Atualmente, a dança manifesta-se nas ruas, nos bairros, nos clubes, em eventos como videoclipe ou em qualquer outro ambiente em que for contextualizado o propósito artístico. Sendo a dança uma das três principais artes cênicas da antiguidade, ao lado do teatro e da música. No Egito se realizavam as danças astro-teológicas em homenagem a Osíris, um deus da mitologia egípcia, associado à morte, ao pós-vida, à ressurreição e à vegetação. 

Ele também é reconhecido como o juiz dos mortos e governante do submundo. Na Grécia, a dança era representada frequentemente e vinculada aos jogos, em especial aos olímpicos. A história da dança cênica representa uma mudança estrutural de significação dos propósitos através da regularidade do tempo. Com o Balé Clássico (século XV), as narrativas e ambientes ilusórios é que guiavam a cena. Com as transformações sociais da época moderna, começou-se a questionar certos virtuosismos presentes no balé e começaram a aparecer diferentes movimentos de Dança Moderna, emergida nos últimos anos do século XIX e firmada nos primeiros anos do século XX, tem raízes e intenções bem distintas. Os bailarinos dançam descalços, trabalham com contrações, torções, desencaixes, em movimentos mais livres, embora ainda respeitem uma técnica organizada. É importante notar que nesse momento, o contexto social inferia muito nas realizações artísticas, fazendo com que a Dança Moderna Americana acabasse por se tornar diferente da Dança Moderna Europeia, mesmo que tendo alguns elementos em comum. A dança contemporânea como nova manifestação artística, sofrendo influências tanto de todos os movimentos passados, como das novas possibilidades tecnológicas. Foi essa também muito influenciada pelas novas condições de tempo e espaço - individualismo, urbanização, propagação e importâncias da mídia, fazendo surgir propostas de arte, provocando fusões com outras áreas artísticas como o teatro.

Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado. O Homem do renascimento passou a apoiar a competição e a desenvolver uma crença baseada em que o homem poderia tudo, desde que tivesse vontade, talento e capacidade de ação individual. O individualismo, em princípio, opõe-se à toda forma de autoridade ou controle coercitivo sobre os indivíduos e coloca-se em total oposição ao coletivismo, no que concerne à propriedade. O individualista pode permanecer dentro da sociedade e de organizações que tenham o indivíduo como valor básico, embora as organizações e as sociedades, contraditoriamente, carreguem valores universais, não necessariamente individualistas, o que cria um estado de permanente tensão entre o indivíduo e essas instâncias ou níveis de análise da vida social. Segundo Jean-Paul Sartre (1905-1980), mesmo dentro do maior constrangimento político, econômico, educacional ou outro, existe um espaço, maior ou menor, para o exercício da liberdade individualmente, o que faz com que as pessoas possam se distinguir uma das outras, através das suas escolhas. Mas o exercício da liberdade individual implica escolhas nas sociedades contemporâneas, frequentemente associadas a determinado projeto individual (sonho) e coletivo (os mitos, os ritos, os símbolos). Indivíduos desenvolvem projetos dentro de um campo de possibilidades reais e um certo repertório que inclui ideologias, concepções de mundo e luta de classe, grupos, ethos, experiências nas quais o indivíduo se insere.          

A sinceridade é uma virtude valorizada em circunstâncias onde as divisórias entre “amigo” e “inimigo” eram geralmente distintas e tensas. A vasta extensão de sistemas sociais abstratos associada à modernidade transforma a natureza da amizade. Não por acaso o sociólogo inglês percebe que a amizade é com frequência um modo do que ele chama de reencaixe, mas ela não está diretamente envolvida nos próprios sistemas abstratos, que superam explicitamente a dependência ligada a laços pessoais. O oposto de “amigo”, discursivamente enquanto categoria social já não é mais “inimigo”, nem mesmo “estranho”; ao invés disto é “conhecido”, “colega”, ou “alguém que não conheço”. Acompanhando esta transição, a honra é substituída pela lealdade que não tem outro apoio a não ser o afeto pessoal, e a sinceridade substituída pelo que podemos chamar de autenticidade: a exigência de que o outro seja aberto e bem intencionado. Embora estas conexões sociais possam envolver “intimidade emocional”, isto não é uma condição da manutenção da confiança pessoal. Laços pessoais institucionalizados e códigos de sinceridade e honra informais ou informalizados fornecem estruturas de confiança. É bastante errôneo, contudo, realçar a impessoalidade dos sistemas abstratos contra as intimidades da vida pessoal como a maior parte das explicações sociológicas correntes tendem a fazer. A vida pessoal e os laços sociais que ela envolve estão entrelaçados com sistemas abstratos de mais longo alcance como ocorre com o partido. O termo “confiança” aflora com frequência na linguagem cotidiana. A questão para Giddens é: como estas mudanças afetaram as relações de intimidade pessoal e sexual? 

Pois estas não são apenas simples extensões da organização da comunidade ou do parentesco. A amizade, por exemplo, desde Georg Simmel (1858-1918) ou Friedrich Nietzsche (1844-1900), foi pouco estudada pelos sociólogos, mesmo se considerarmos a intuição de Alain Touraine a respeito, mas ela proporciona uma pista sociológica importante para fatores de amplo alcance que influenciam a vida pessoal. Os escritos de Georg Simmel sobre vitalismo ou filosofia de vida, quase no final de sua vida, dimensionam não tanto a tragédia da cultura (cf. Simmel, 1988), mas a ambivalência do sujeito frente à cultura: o conflito da cultura. Entende Simmel que, ainda que as formas culturais na sociedade mercantil tornem difícil ao homem exprimir criatividade, o mesmo não consegue viver sem elas. A comodidade, as formas de simbolização e informação, as novas normas legais, a liberação da sexualidade, dentre outras, são manifestações de vidas de uma espécie de outro lado da modernidade. Não obstante, essa percepção sensível de um maior avanço da cultura subjetiva não foi suficiente para alterar o “nó duro” de sua análise. A imaginação se desenvolve em torno da crítica da dimensão de massa dos bens culturais, os quais deixam os homens deprimidos por não poder assimilá-los todos no mesmo momento em que não podem excluí-los, pela fragmentação da existência em razão da separação crescente das esferas da vida e a erosão da cultura pessoalmente em correspondência com o avanço dos multivariados objetos os quais ganham e exigem conotação claramente cultural. Temos de compreender o caráter da amizade em contextos pré-modernos precisamente em associação com a estruturação da comunidade local e o próprio parentesco.

Os processos qualitativos, no entanto, que assumiam tais formas também deveriam ser estudados pela sociologia geral, subproduto da sociologia formal, como a concebia o filósofo Georg Simmel. Estudando o conflito, o autor não conferia aos grupos unidades hipostasiadas, supervalorizadas com relação ao indivíduo, como ocorre comumente no jornalismo de guerra. Antes via neste o fundamento dos grupos, daí que as “formas”, constituem-se em um processo de interação entre tais indivíduos, seja por aproximação, seja pelo distanciamento, competição, subordinação, e assim por diante no âmbito do conflito. Melhor dizendo, a investigação entre o número de indivíduos no seio das formas de vida coletiva. O modo como o aspecto quantitativo afeta o tipo de relação social existente. Simmel analisa uma relação exclusiva entre duas pessoas e, por fim, entre três, produz diferentes tipos de interação entre as pessoas. Se as relações de poder não são unilaterais é preciso explicar como as formas de comando e obediência estão relacionadas, como a obediência do grupo a um indivíduo, a dominação do grupo ou a dominação de regras impessoais. Segundo a interpretação sociológica de Simmel (1988), “traduz claramente o papel social desse modo de casamento eminentemente pouco individual”. Em sua análise a humanidade sempre atravessa estágios em que: a) opressão da individualidade é o ponto de passagem obrigatório de seu livre desabrochar superior, em que a pura exterioridade das condições de vida se torna a escola da interioridade, b) em que a violência da modelagem produz uma acumulação de energia, destinada, em seguida, a gerar toda a especificidade pessoal. Do alto desse ideal é que, c) a individualidade desenvolvida, tais períodos parecerão, é claro, grosseiros e indignos.

Mas, para dizer a verdade, atenta Georg Simmel que, além de semear os germes positivos do progresso vindouro, já é em si uma manifestação do espírito exercendo uma dominação organizadora sobre a matéria-prima das impressões flutuantes, uma aplicação das personalidades especificamente humanas, procurando-as fixar suas normas de vida - do modo mais brutal, exterior ou, mesmo, estúpido que seja -, em vez de recebê-las das simples forças da natureza. A horda “não protege mais a moça e rompe suas relações com ela, porque nenhuma contrapartida foi obtida por sua pessoa”.  Desnecessário dizer que o desvio às normas sociais ou normas morais dominantes de uma sociedade implica “coragem e determinação”. Contudo é frequentemente um processo social para garantir as mudanças políticas que mais tarde vêm a ser consideradas como sendo de interesse geral. Uma sociedade tolerante em relação ao comportamento desviante não sofrerá necessariamente uma ruptura social. O conceito sociológico de desvio aplica-se às condutas individuais ou coletivas que transgride as normas de uma dada sociedade, ou de um grupo. Refere-se à ausência ou falha de conformidade face às normas ou obrigações sociais. Um comportamento só pode ser qualificado de desviante por referência à sociedade em que surge. Pode, ser “como um atentado à ordem social”. Tal como na arte, a ideologia pode se expressar na ética de maneiras muito distintas. 

Pode, por exemplo, representar as manifestações de vida individual e coletiva na disposição subjetiva, como indicamos pistas na concepção de Georg Simmel, implícita ou explícita, no sentido de abandonar o envolvimento com a comunidade. E mesmo decorrente no sentido de cancelar qualquer compromisso com ela. Como a comunidade representa socialmente a matriz dos valores, basta lembrarmos historicamente que “ethos”, comparativamente, em grego, e “mores” em Latim, significam costumes; normas de conduta estabelecidas pela comunidade, onde os indivíduos que negam o vínculo que os liga à comunidade são, de fato, pessoas que renegam por assim dizer a ética. É neste sentido que este tipo de distorção se liga a formas extremas de egoísmo, que ultrapassam amplamente o chamado “egoísmo saudável”, ligado à autopreservação e à afirmação pessoal de si mesmo. Os indivíduos cuja vida interior se enriquece em diálogo constante dialeticamente com os outros, não se resignam a ser apenas aquilo que já se tornaram, e querem ser mais do que estão sendo pelo fato de poder pensar juntos. Cultivam, um lado deles que os impele na direção de uma busca de universalização e sentido da vida. A confiança nos amigos era frequentemente de importância central. Nas culturas tradicionais, com a exceção parcial de algumas vizinhanças citadinas em Estados agrários, havia uma divisão do trabalho social bem clara entre membros reconhecidos historicamente como “os de dentro e os de fora ou estranhos”. As amplas arenas de interação social não hostil com outros anônimos, característica da atividade social moderna, claramente não existia.

Nestas circunstâncias sociais, a amizade era institucionalizada e vista como meio social objetivando criar alianças mais ou menos duradouras com outros contragrupos potencialmente hostis. Amizades institucionalizadas eram formas de camaradagem, assim como mormente ocorrem nas reconhecidas “fraternidades de sangue”, socialmente, ou dentre “companheiros de armas”. Institucionalizada ou não, a amizade era em geral baseada em valores de sinceridade e honra. Alguns sentidos do termo, embora compartilhem amplas afinidades eletivas como é recorrente na literatura de Johann von Goethe e Max Weber, com outras utilidades de uso, são de implicação relativamente desimportante. Quer dizer, alguém que diz: “confio que você esteja bem”, normalmente quer dizer algo mais com esta fórmula de polidez do que “espero que você esteja com boa saúde” – embora mesmo aqui “confio” tenha uma conotação algo mais forte que “espero”, implicando algo mais próximo a “espero não ter motivos para duvidar”. A atitude de crença ou credulidade que entra em confiança em alguns contextos mais significativos já se encontra aqui. Quando alguém diz: “confio em que X se comportará desta maneira”, esta implicação social é mais evidente, embora não muito além do nível do “conhecimento indutivo fraco”. É reconhecido que se conta com X para produzir o comportamento, dadas as circunstâncias normais apropriadas.

Uma forma de atividade generalizada que tomou lugar na vida social não pode, evidentemente, permanecer tão desregulamentada, em seu desempenho e atividade, sem que disso resulte os impactos sociais sobre a divisão do trabalho e as mais profundas perturbações. Mas sofrer no trabalho não é uma fatalidade. É, como decorre e testemunhamos, uma fonte de desmoralização geral real. Pois, precisamente porque as funções econômicas absorvem o maior número de cidadãos, para o pleno desenvolvimento da vida social, há uma multidão de indivíduos, como dizia Freud, cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial; a decorrência disso é que, como tal meio é pouco marcado pela moralidade, a maior parte da existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. A tese funcionalista expressa na pena de Émile Durkheim, como uma espécie de antídoto da civilização, e que o sentimento do dever cumprido se fixe fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos permanentemente desperto. A atividade de uma profissão só pode ser regulamentada eficazmente por “um grupo próximo o bastante dessa mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas necessidades e poder seguir todas as variações destas”. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma condição reunidos num mesmo corpo. E que a sociologia durkheimiana conceitua de corporação ou grupo profissional. É na ordem econômica que o grupo profissional existe tanto quanto a moral profissional. Desde que, com a supressão das antigas corporações, não se fizeram mais do que tentativas fragmentárias e incompletas para reconstituí-las em novas bases sociais.

O que poderia ser mais objetivo do que o funcionamento da ideologia? Embora se constitua uma surpresa para muitos, a verdade é que em nossa cultura liberal-conservadora, quer a percebamos ou não, o sistema ideológico socialmente estabelecido e dominante funciona de modo a representar ou desvirtuar suas próprias regras sociais de seletividade, preconceito, discriminação e distorção sistemática como as noções sobre normalidade, objetividade e a tênue imparcialidade científica presente nas universidades. Compreensivelmente, a ideologia dominante tem uma grande vantagem na determinação do que pode ser considerado per se um critério legítimo de avaliação do conflito, já que controlam efetivamente as instituições culturais e políticas da sociedade, o sistema tem dois pesos e duas medidas, movidos pela ideologia e viciosamente tendencioso, é evidente em toda parte: mesmo entre aqueles que se orgulham em dizer que representam a nossa (sua) qualidade de vida capaz de medir as condições de sociais e políticas  de um ser humano representando as condições que contribuem para o bem físico e espiritual dos indivíduos em sociedade. Nas últimas décadas, os intelectuais se intimidaram em admitir a essência de classe em suas teorias e posturas ideológicas. A ideologia não é simplesmente ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada.

Não basta afirmar sua relação mútua, é preciso explicitar estruturas ontológicas gerais que subjazem de igual modo à natureza e à inteligência. Em segundo lugar, somente desse modo se pode tornar plausível a dependência da natureza em relação a uma esfera ideal. E, em terceiro lugar, uma filosofia natural e uma filosofia transcendental apriorísticas são inconcebíveis sem essa esfera abrangente, pois a partir de que deveriam ser fundamentadas as primeiras suposições de ambas as filosofias da realidade? Depois de se desfazer do “resto de fichteanismo”, ainda reconhecível sobretudo na execução do Sistema do idealismo transcendental, Friedrich von Schelling (1775-1854) introduziu na Apresentação, como base destas duas ciências, o Absoluto, e o definiu como identidade de subjetividade e objetividade. No entanto, não se pode deixar de ver um limite na doutrina schellinguiana do absoluto que representa um retrocesso, ficando, no mínimo, aquém de Fichte e, em certo sentido, até mesmo aquém de Immanuel Kant: as categorias analíticas que Schelling utiliza para a caracterização do Absoluto são catadas e, de modo algum deduzidas do próprio Absoluto. Unidade, identidade, infinitude são determinações que Schelling toma da tradição e que, em primeiro lugar, ele não legitima em si e por si – ele apenas mostra que em sua utilização de mera identidade, antes elas que seu contrário conviria ao absoluto, o qual é entendido como unidade de subjetividade e objetividade, e que em segundo lugar, ele nem sequer põe em um nexo causal de fato ordenado.

Simplificadamente, segundo Vittorio Hösle (2007), o sistema pensamento de Hegel pode ser representado da seguinte forma: 1) o princípio supremo da filosofia transcendental tem de ser, com Johann Gottlieb Fichte, uma estrutura iniludível e que  fundamente a si mesma reflexivamente. 2) no entanto, esse princípio não pode ter nada perante si, se quer ser absoluto; sendo determinado como subjetividade, ele não pode, portanto, ser subjetividade finita, mas tem de ser com Schelling, unidade de subjetividade e objetividade ou, em terminologia hegeliana, ideia. 3) com o reconhecimento, porém, de que o Absoluto é unidade de subjetividade e objetividade, a filosofia ainda não está concluída. Antes, trata-se decisivamente de explodir o caráter pontual desse conhecimento, por quatro motivos, a saber: a) a estrutura absoluta não pode ser posta imediatamente, pois então ela mesma seria, na verdade, uma mera abstração, da qual nada decorreria; b) apenas assim pode-se alcançar uma prova da absolutidade dessa estrutura. Mas então é necessária uma prova, mas de um modo necessariamente diferente de como elas mesmas são pressupostas pela ideia absoluta, se é que o círculo deve ser evitado; c) a determinação da exata relação entre “lógica” e “metafísica”, isto e´, entre a doutrina das categorias finitas e a ciência do princípio absoluto, é o problema  para o qual em Jena, pelo fim de sua temporada Friedrich Hegel, conseguiu encontrar uma solução que o satisfizesse até o final de sua vida, enquanto, para a maior parte das demais estruturas fundamentais de sua filosofia , ele chegou bem mais cedo a respostas que sustentou até a Enciclopédia. A ideia Absoluta origina, não apenas as categorias lógicas anteriores a ela, por meio das quais ela mesma é constituída, sem abdicar da centralidade de seu sistema, ela mesma é constituída em termos de origem assimétrica. Para resolver esse problema, oferece-se propriamente apenas um caminho. O espírito assim, reconhece Hegel já cedo contra Friedrich Schelling - tem de estar acima da natureza, a qual tem de corresponder às categorias deficientes da Ciência da Lógica, mas que não trataremos agora.     

Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. Ou seja, a Fenomenologia vem a ser, como já se disse alhures, uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender da obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para a transformação da representação numa noção clara e exata.

Assim, temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferençasujeito e objetofinito e infinito, é a alma vivente de todas as coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno. Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade.  

A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre inicialmente em relação simples com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo assim a distinção entre sujeito e objeto, chegando assim à Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. A possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto.

É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim chega para ele e para si mesmo. A história para Hegel, é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os pensamentos. O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade.

O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta deve ser tal que o outro, o que resulta, é idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.

 Como tal, não pode ser superada exclusivamente nas sociedades de classes. Sua persistência se deve ao fato social dela ser constituída objetivamente e constantemente reconstituída como consciência prática inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos. Mas que se entrelaçam conflituosamente e se manifestam no plano da consciência, na grande diversidade de discursos ideológicos relativamente autônomos, que exercem influência sobre os processos materiais mais tangíveis. O metabolismo social é um dado utilizado para a compreensão dos processos sociais e se nesse dado momento houve a existência de sustentabilidade. Esse conflito tampouco será resolvido no domínio legislativo da “razão teórica” isolada, independentemente do nome da moda sociológica que lhe seja dado. É por isso que o estruturalmente mais importante conflito social – cujo objetivo é manter ou, ao contrário, negar o modo dominante de controle sobre o metabolismo social dentro dos limites das relações técnicas e sociais de produção estabelecidas em que os homens se tornam conscientes desse conflito e o resolvem pela luta. Em outras palavras, as diferentes formas ideológicas de consciência têm implicações práticas de longo alcance.

Em todas as suas variedades como na arte e na literatura, assim como na filosofia e na teoria social, independentemente de sua vinculação sociopolítica a posições progressistas ou conservadoras. É esta orientação prática que define também o tipo social de racionalidade apropriado ao discurso ideológico e inscreve, por assim dizer, a questão da racionalidade ideológica como inseparável do reconhecimento das limitações objetivas dentro das quais são formuladas as estratégias alternativas a favor ou contra a reprodução de determinada ordem social. Não é questão de conformidade ou não conformidade a algum conjunto de regras predeterminado de normas lógicas. As ideologias são determinadas pela época em dois sentidos. Primeiro, enquanto a orientação conflituosa das várias formas de consciência social prática permanecer a característica mais proeminente dessas formas de consciência, na medida em que as sociedades forem divididas em classes. Em outras palavras, a consciência social prática de tais sociedades não podem deixar de ser ideológica – isto é, idêntica à ideologia – em virtude do caráter insuperavelmente antagônico de suas estruturas sociais. Segundo, na medida em que o caráter específico do conflito social fundamental, que deixa sua marca indelével nas ideologias conflitantes em diferentes períodos históricos, surge do caráter historicamente mutável – e não em curto prazo – das práticas produtivas e distributivas da sociedade e da necessidade correspondente de se questionar radicalmente a continuidade da imposição das relações socioeconômicas e políticas que, anteriormente viáveis, tornam-se cada vez menos eficazes no curso do desenvolvimento histórico.

Desse modo, os limites de tal questionamento são determinados pela época, historicamente colocando em primeiro plano as novas formas de desafio ideológico em íntima ligação com o surgimento de meios de satisfação das exigências fundamentais sociais. Sem se reconhecer a determinação das ideologias como a consciência prática das sociedades de classe, a estrutura interna permanece completamente ininteligível. A “consciência prática” envolve um processo de reflexão contínua sobre as ações e suas consequências, tanto para si mesmo quanto para o ambiente. Essa tomada de consciência pode ser desenvolvida por meio da prática e da reflexão sobre as experiências vividas, em que devemos diferenciar três posições ideológicas fundamentais distintas, com sérias consequências para os tipos sociais de conhecimento compatíveis com cada uma delas. A primeira apoia a ordem estabelecida com uma atitude geralmente acrítica, adotando e exaltando a forma vigente do sistema social dominante, por mais que seja problemático e repleto de contradições como o horizonte absoluto da própria vida social.

A segunda, exemplificada por pensadores radicais como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), revela acertadamente as irracionalidades da forma específica de uma anacrônica sociedade de classes que ela rejeita a partir de um ponto de vista. Mas sua crítica é viciada pelas próprias contradições de sua própria posição social – igualmente determinada pela classe, ainda que seja historicamente evoluída. E a terceira, contrapondo-se às duas posições sociais anteriores, questiona a viabilidade histórica da própria sociedade de classe, propondo, como objetivo central de sua intervenção prática consciente, a superação de todas as formas de antagonismo de classe. Apenas o terceiro tipo de ideologia pode tentar superar as restrições associadas com o conhecimento prático dentro do horizonte da consciência dividida, sob as condições da sociedade dividida em classes. A questão prática, permanece a mesma. Mas sugere como “resolver pela luta” o conflito fundamental relativo ao direito estrutural de controlar o “metabolismo social” como um todo. O quadro categorial das discussões teóricas, de acordo com a história social e não pode ser determinado por meio de escolhas arbitrárias.

Anora tem como representação social um filme de comédia dramática norte-americano de 2024 escrito, dirigido por Sean Baker. Graduado pela Universidade de Nova Iorque, uma das maiores universidades privadas dos Estados Unidos em matrículas, com um total de 51.848 alunos matriculados em 2021, é um dos grandes destaques do cinema Independente atual, reconhecido pela realização de The Florida Project (2017), Red Rocket (2021), Tangerine (2015) e Anora (2024) É estrelado por Mikey Madison no papel-título de uma dançarina exótica e acompanha o romance conturbado dessa com o filho de um oligarca russo. Também é estrelado por Mark Eydelshteyn, Yura Borisov, Karren Karagulian e Vache Tovmasyan. O filme estreou em 21 de maio de 2024, em competição no 77º Festival de Cinema de Cannes e foi lançado nos Estados Unidos pela Neon no dia 18 de outubro de 2024. Anora recebeu inúmeros elogios e premiações. No 97º Oscar, o filme venceu cinco prêmios principais: Melhor Filme, Melhor Atriz para Madison, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Direção, com Sean Baker fazendo história ao ganhar o maior número de prêmios da Academia em uma única cerimônia, igualando o recorde de Walt Disney. É o quarto filme a vencedor da Palma de Ouro e Oscar de Melhor Filme. Foi nomeado um dos dez melhores filmes de 2024 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute.

 Anora Mikheeva, uma stripper de 23 anos, mora em Brighton Beach, um bairro russo-americano no Brooklyn, cidade de Nova York. Também reconhecido como Little Odessa, devido às suas comunidades russas e do Leste europeu, no Brooklyn, é um bairro animado, com muitos prédios residenciais altos. Restaurantes étnicos tradicionais e mercados de alimentos se multiplicam pela Brighton Beach Avenue. A praia e o calçadão do bairro são mais descontraídos do que em Coney Island, nas proximidades, atendendo em grande parte aos moradores locais. Casas noturnas atraem baladeiros à noite. Seu chefe a apresenta a Ivan Vanya Zakharov, o filho mais novo do oligarca russo Nikolai Zakharov, que solicita alguém fluente em russo para seu filho. Embora Vanya esteja nos Estados Unidos para estudar, ele passa a maior parte do tempo festejando em clubes e na mansão de sua família no Brooklyn. Vanya contrata Ani para vários encontros sexuais e oferece a ela US$ 15.000 para ficar com ele por uma semana. Durante uma viagem a Las Vegas, ele expressa desdém por seus pais e pela Rússia e pede Ani em casamento. Apesar de seu aparentemente ceticismo, Ani concorda, e eles fogem para uma capela estruturada para recepção de casamento. Ela pede demissão da boate onde trabalha e se muda para a mansão de Vanya. Quando a notícia do casamento chega à Rússia, a mãe de Vanya, Galina, ordena que seu padrinho armênio, Toros, os encontre e providencie uma anulação de casamento enquanto ela e Nikolai voam para os Estados Unidos da América. Toros envia seus capangas, Garnik e Igor, para a casa.

Eles informam Vanya que seus pais o estão levando de volta para a Rússia e enfurecem Ani chamando-a de prostituta e sugerindo que Vanya só se casou com ela por um Green card. Vanya escapa, e Ani luta contra Garnik e Igor antes que eles a subjuguem e a contenham. Quando Toros chega, ele dá um sermão em Ani sobre a imaturidade de Vanya e a dependência financeira de seu pai, depois ele confisca a aliança de casamento dela, amordaça-a e oferece a ela US$ 10.000 pela anulação do matrimônio. Ani insiste que ela e Vanya estão apaixonados, mas finalmente concorda em ajudar Toros a encontrá-lo. Naquela noite, Ani, Toros, Garnik e Igor procuram Vanya no Brooklyn. Ani descobre por amigos que Vanya está em seu antigo clube de strip-tease, sendo entretido por outra dançarina. Eles o encontram bêbado demais para argumentar e o forçam a esperar do lado de fora do tribunal até de manhã. A anulação é rejeitada, pois o casamento ocorreu em Nevada. No aeroporto, Ani se apresenta a Nikolai e Galina em russo, mas Galina a rejeita imediatamente. Vanya, cedendo aos pais, diz a Ani que o casamento deles é impossível, e Galina ordena que embarquem avião para Las Vegas.

Não tendo assinado um Acordo pré-nupcial, também reconhecido como pacto antenupcial, é um contrato celebrado entre duas pessoas antes do casamento para definir como os bens serão gerenciados e divididos em caso de divórcio ou falecimento. Ele serve para estabelecer o regime de bens, proteger o patrimônio individual e evitar conflitos futuros relacionados a questões financeiras. Ani ameaça pedir um acordo de divórcio, mas Galina a ameaça com ruína financeira total. Percebendo a fraqueza de Vanya diante de seus pais e do poder de sua família, Ani concorda com a anulação. Depois de assinar os papéis, Igor sugere que Vanya peça desculpas, mas Galina se recusa. Ani insulta os dois antes de ir embora, dizendo a Galina que a principal motivação de Vanya para se casar com ela era irritar sua mãe. Igor leva Ani de volta a Nova York para pegar seus pertences. Passando a última noite na mansão, ela confronta Igor sobre seu encontro anterior, acusando-o de agressão e dizendo que ele a teria estuprado se estivessem sozinhos — acusação que ele nega. De manhã, Igor dá a Ani o dinheiro prometido e a leva para casa. No carro, ele devolve sua aliança de casamento como um gesto presumivelmene de educação e de boa vontade. Ani inicia o sexo com ele, mas para quando tenta beijá-la. Ela desaba, soluçando em seus braços.

Exoterismo se refere ao conhecimento que está fora e independente da experiência de uma pessoa e pode ser verificado por qualquer pessoa relacionado ao bom senso. Existe em oposição ao termo esotérico, oculto, aquilo que é entendido somente pelos iniciados. A palavra exotérico é derivada da forma comparativa do grego eksô, de fora, melhor dizendo, tem como significado tudo o que é público, sem limites ou universal. É distinto do conhecimento esotérico interno. Isto é, exotérico se relaciona com a realidade externa em oposição aos pensamentos ou sentimentos ternos de uma pessoa. É o conhecimento público e não secreto ou mesmo cabalístico. Não é necessário que o conhecimento exotérico venha fácil, ou automaticamente, mas deve ser referenciável ou reproduzível. No contexto da filosofia da Grécia Antiga, os termos esotérico e exotérico são utilizados por acadêmicos contemporâneos não para denotar que havia segredo, mas para distinguir dois procedimentos de pesquisa e educação: o primeiro reservado aos ensinos que eram desenvolvidos “dentro das paredes” da escola filosófica, dentre um círculo de pensadores;  “eso- indicando recôndito, como nas aulas internas à instituição, em oposição comparativamente daqueles que eram divulgados ao público em discursos efcientes e em obras publicadas; exo- fora.

É implícito o significado inicial desta última palavra quando Aristóteles cunhou o termo “falas exotéricas” (ἐξωτερικοὶ λόγοι) talvez para se referir àquelas que ele realizou fora de sua escola. Apesar disso, ele nunca empregou o termo esotérico e não há evidências de que fez tratados especializados secretos; há um relato duvidoso por Aulo Gélio, segundo o qual Aristóteles divulgava de tarde os assuntos exotéricos de política, retórica e ética ao público em geral, enquanto reservava a parte da manhã em caminhada com seus discípulos do Liceu para os ensinos do tipo akroatika (acroamáticos), referentes a filosofia natural e lógica. Além do mais, o termo exotérico para Aristóteles poderia ter outro sentido, hipoteticamente referindo-se também a um conteúdo concernente a uma realidade extracósmica, ta exo, superior e além da imaginação do que chamamos cotidianamente de Céu, exigindo abstração e lógica, em contraste com o que chamou de enkyklioi logoi, reconhecimentos “de dentro do círculo”, envolvendo a physis intracósmica que circunda o cotidiano. Há um relato etnográfico dito por Estrabão e Plutarco, porém, que afirma que textos escolares do Liceu tinham veiculação interna e sua publicação era mais controlada, em contraste com os exotéricos, e que esses textos esotéricos teriam sido redescobertos e compilados apenas com Andrônico de Rodes.

 

Platão teria transmitido oralmente ensinos intramurais a seus discípulos, cujo suposto conteúdo esotérico sobre os Primeiros Princípios é particularmente realçado pela Escola de Tübingen como distinto dos ensinos escritos aparentes e veiculados em livros ou palestras públicas. Mesmo Friedrich Hegel posteriormente teria comentado sobre a análise dessa distinção na hermenêutica moderna de Platão e Aristóteles. - “Para expressar um objeto externo não é necessário muito, mas para comunicar uma ideia uma capacidade deve estar presente, e isso sempre permanece algo esotérico, de modo que nunca houve nada puramente exotérico sobre o que os filósofos dizem”. Provavelmente a partir da dicotomia “exôtikos/esôtikos”, o mundo helenístico desenvolveu a distinção clássica entre exotérico/esotérico, estimulada pelo criticismo das diversas correntes como pela Patrística,  que foram líderes cristãos importantes nos primeiros séculos do cristianismo. Conforme exemplos do par conceitual em Luciano, Galeno e Clemente de Alexandria, naquela época era considerada uma prática comum entre os filósofos guardarem-se escritos e ensinos secretos, e um paralelo de sigilo e elite reservada também se encontrava no ambiente contemporâneo do gnosticismo. Depois, Jâmblico em sentido próximo ao moderno, distinguia os pitagóricos antigos entre os matemáticos exotéricos e acusmáticos esotéricos, e que proferiam ensinamentos enigmáticos e alegóricos ocultos.

Da forma que o termo esotérico é frequentemente associado à espiritualidade esotérica, o termo exotérico é usado principalmente em discussões sobre religião e espiritualidade, como quando os ensinamentos mudam o nível de escopo do crente de uma exploração do Eu interior para uma adesão a regras, leis e um Deus individual. O termo exotérico também pode refletir a noção de uma identidade divina que está fora e diferente da identidade humana, enquanto a noção esotérica afirma que o divino deve ser descoberto dentro da identidade humana. Indo um passo adiante, a noção panteísta sugere que o mundo divino e o mundo material são um e o mesmo. A interpretação ismaelita do islamismo xiita opera na estrutura de uma coexistência entre a forma exotérica (zahir) e a essência esotérica (batin). Sem a compreensão do esotérico, o exotérico é como uma miragem ou ilusão sem lugar na realidade. A forma exotérica na esfera as relações políticas de governo é aquela em que todas as ações tomadas pelo governo devem ser divulgadas publicamente e ratificadas pelo público. Isso costuma ser chamado de transparência da governança. Muitas sociedades são divididas em duas seções segmentárias - a exotérica ou face pública e a esotérica ou à porta fechada. Essas são muitas organizações fraternas, como ocorre a Maçonaria, que é uma sociedade discreta e internacional que realmente promove princípios de liberdade, igualdade e fraternidade e que em algum nível são acessíveis aos não iniciados, mas que têm níveis cada vez mais altos de iniciação conforme a pessoa progride.

Bibliografia Geral Consulta.

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