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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Segurança Pública – Problema Risível & Irreversível das Nações.

Em literatura, o meio mais seguro de ter razão é estar morto”. Victor Hugo


           Em primeiro lugar, Nação, do latim Natio, oriundo de Natus (nascido), representa uma comunidade instável, historicamente constituída por vontade própria de um agregado de indivíduos, com base num território, numa língua, e com aspirações materiais e espirituais quase sempre comuns. Segundo Orlando Vitorino é “o conjunto das gerações ‑ passadas, presentes e futuras - que exprime‑se, existe e perdura na língua, na arte e na história”. Mas, a rigor, os elementos território, língua, religião, costumes e tradição, por si sós, não constituem o caráter da nação. São requisitos secundários, que se integram na sua formação. O elemento dominante, que se mostra condição subjetiva para a evidência de uma nação assenta no vínculo que une estes indivíduos, determinando entre eles a convicção de um querer viver coletivo. É, assim, a consciência de sua nacionalidade, em virtude da qual se sentem constituindo um organismo ou um agrupamento, distinto de qualquer outro, com vida própria, interesses especiais e necessidades peculiares. Em segundo lugar, o significado e o sentido de nação, não se anula porque seja esta fracionada entre vários Estados, ou porque várias nações se unam para a formação de um Estado, ou ainda porque representem culturalmente, um conjunto de práticas e sabres sociais. O Estado é uma forma política, adotada por um povo com vontade política, que constitui uma nação, ou por vários povos de nacionalidades distintas, para que se submetam a um poder público soberano, espelhado da sua própria vontade de saber, que lhes vem dar unidade política. 

       A nação preexiste sem qualquer espécie de organização legal. E mesmo que, habitualmente, seja utilizada em sinonímia de Estado, em realidade significa a substância humana que o forma, atuando aquele em seu nome e no seu próprio interesse, isto é, pelo seu bem-estar, por sua honra, por sua independência e por sua prosperidade. Durante o Século XIX, as organizações humanas discutiram vários modelos de organização em todo o mundo e na Europa se fortaleceram Estados que mais tarde seriam consideradas as nações de origem de várias colônias pelo mundo tais como França e Inglaterra. A Alemanha e a Itália passaram por diversas reformas e conflitos internos de Unificação Alemã e Risorgimento na questão da Itália, que resultariam em organizações políticas e territoriais com poder centralizador e uma organização do Estado unido pelo idioma e pela luta pela conquista de mercados e unificações monetárias. Ao final do século XIX-XX, houve a expansão do Imperialismo que culminou com a chamada 1ª guerra mundial (1914-1918). Este momento histórico foi de grande apreensão sobre o que é o sentimento nacional, o nacionalismo que levou a morte milhões de pessoas e vários intelectuais publicaram estudos sobre o tema, tais como Lord Acton, Ernest Renan e Otto Bauer. Os países vitoriosos da guerra tentaram criar a Liga das Nações o que futuramente, após novo massacre na 2ª guerra mundial (1939-45), resultaria na Organização das Nações Unidas, a principal legitimadora dos Estados-Nacionais, a organização foi estabelecida em 24 de outubro de 1945.

            Este período histórico representou um conflito militar global que durou de 1939 a 1945, envolvendo a maioria das nações do mundo, incluindo as grandes potências organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Foi a guerra mais abrangente da história, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Em estado de “guerra total”, ou de “mobilização total” na expressão, de Ernest Junger (2004), os principais envolvidos dedicaram toda sua capacidade econômica, industrial e científica a serviço dos esforços de guerra, deixando de lado a distinção entre recursos civis e militares. Marcado por um número significante de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 a mais de 70 milhões de mortes. Considera-se o ponto inicial da guerra como sendo a invasão da Polônia pela Alemanha em 1º de setembro de 1939 e subsequentes declarações de guerra contra a Alemanha pela França e pela maioria dos países do Império Britânico e da Commonwealth, uma organização intergovernamental composta por 53 países membros independentes. 

        Todas as nações membros da organização, com exceção de Moçambique, antiga colônia do Império Português, e Ruanda, antiga colônia dos impérios Alemão e Belga, faziam parte do Império Britânico, do qual politicamente se separaram.  A segurança é o estado aparente de normalidade que permite o usufruto de direitos civis e o cumprimento de deveres. Pode ser interpretada como a manutenção da ordem pública, isto é, de conjunto de valores e práticas sociais, de princípios ético-políticos e de normas que se pretende ser observados numa sociedade determinada. Sua alteração ilegítima constitui uma violação de direitos, geralmente acompanhada de violência simbólica e física, que produz eventos de insegurança e criminalidade. É um processo social e político, uma sequência contínua de operações que apresentam certa unidade de tempo e espaço ou que se reproduzem com certa regularidade, que compartilha uma visão tática e estratégica em componentes preventivos, repressivos, judiciais e paramilitares. É um processo sistêmico, irradiado pela necessidade da integração de um conjunto de conhecimentos e de planejamentos estatais que devem interagir idêntica visão de mundo, de objetivos e compromissos. Deve ser assim disciplinado, pois dependem de decisões rápidas, calculadas cirurgicamente, medidas saneadoras e resultados imediatos. 

Sendo a ordem pública um estado de serenidade, apaziguamento e tranquilidade pública, em consonância com as leis, os preceitos e os costumes que regulam a convivência em sociedade, a preservação deste direito do cidadão só será amplo se o conceito de segurança pública for de fato e de direito aplicado. Isto implica uma disposição ideal dos elementos que nela interagem, de modo a permitir-lhe um funcionamento regular e estável, assecuratório da liberdade coletiva e individual. A segurança pública não pode ser tratada apenas como medidas de vigilância e repressão, mas como um sistema integrado e otimizado envolvendo instrumentos de prevenção, coação, justiça, defesa dos direitos, de saúde e social. O processo de segurança pública do ponto de vista do processo de trabalho, se inicia pela prevenção e finda na reparação do dano, no tratamento das causas e consequências, ipso facto na reinclusão (cf. Nogueira, (2019) nas sociedades dos sujeitos. As revelações da vigilância global referem-se à divulgação, tendo como marco ideológico de controle político a partir de 2013, de informações sobre fatos e organizações relacionados com a prática de espionagem e vigilância globalizada, isto é, as fronteiras internacionais e com capacidade de invasão nos meios e redes de comunicações do mundo.

O filme Segurança (2021), baseado no livro homônimo de Stephen Amidon, tem como escopo criar um profundo debate na esfera pública em torno dos limites da segurança e suas consequências sociais. Amidon nasceu em Chicago, cresceu na costa leste dos Estados Unidos da América, incluindo uma passagem por Columbia, Maryland, que serviu de inspiração para seu quarto romance, The New City. Frequentou a Wake Forest University como Guy T. Carswell Scholar, com especialização em filosofia. Ele se mudou para Londres, em 1987, onde recebeu seu primeiro trabalho como crítico de Auberon Waugh, que o convidou para fazer uma crítica de um romance para a The Literary Review. Em 1999 ele voltou para os Estados Unidos da América. Não por acaso sua crítica literária e ensaios apareceram em muitas publicações na América do Norte e no Reino Unido e ele também trabalhou como analista crítico de cinema para o Financial Times e o Sunday Times. Em 2013, fez parte do júri do 31º Festival de Cinema de Torino (Torino Film Festival). Escreveu livros de não ficção The Sublime Engine (2012), com seu irmão Tom, um cardiologista, e Something Like the Gods (2012), que é dedicado a seu filho, Alexander, um primeiro time, todos - Wide receiver ACC, para o time de futebol norte-americano do Boston College.

O objetivo é adaptar em grande parte os temas da história social, que envolve questões ligadas a confiança, intimidade, justiça social, segurança pessoal, família, harmonia comunal, entre muitos outros. No entanto, o longa-metragem estrategicamente muda o cenário de Segurança, trocando a cidade colegial Stoneleigh, Massachusetts, Estados Unidos da América, por uma pequena vila na Toscana, Itália. Em junho de 2020, o diretor Peter Cholsom falou sobre a adaptação do livro para os cinemas, em uma entrevista à revista Variety. Segundo Cholsom, o livro sugere questões fundamentais sobre o valor da vida e o preço da segurança, ao mesmo tempo em que lida com os temas mencionados acima. O diretor também foi perguntado se o vilão do longa apresenta traços de alguma pessoa da vida real. - “Um aspecto bastante contemporâneo do filme é o fato de todo mundo fica dividido por suas relações prévias com o praticante do crime. No caso de ricaços de Nova York, falamos principalmente sobre Harvey Weinstein ou Jeffrey Epstein”, comentou o diretor. Harvey Weinstein é o infame produtor de Hollywood condenado por assédio e abuso sexual de diversas atrizes. Já Jeffrey Epstein era um milionário americano acusado de pedofilia e abuso sexual. A Netflix conta com um ótimo documentário sobre seus crimes e sua misteriosa morte na prisão. De acordo com as palavras do próprio diretor, Segurança funciona como uma estratégia e pari passu uma espécie de espelho para a realidade, abordando questões que normalmente causam grandes debates na vida real.

        

Na literatura uma adaptação cinematográfica italiana do romance Il Capitale Umano, dirigido por Paolo Virzì, ganhou o prêmio de melhor filme nos prêmios David di Donatello, Nastro d`Argento e Globi D`Oro 2014. O filme estreou nos Estados Unidos da América no Tribeca Film Festival de 2014, e representou a entrada da Itália na categoria de melhor filme em língua estrangeira no Oscar de 2015. Em fevereiro de 2015, o Teatro Stabile di Torino estreou Bianca, um drama em série, escrito por Stephen Amidon e dirigido por Serena Sinigaglia. Em seguida com The Leisure Seeker, que Amidon adaptou o roteiro com Virzì, Francesca Archibugi e Francesco Piccolo, no Festival de Cinema de Veneza 2017. O filme é estrelado por Helen Mirren e Donald Sutherland, e o roteiro nomeado para o Globo de Ouro italiano, e os prêmios David di Donatello. A versão inglesa de Human Capital, dirigida por Marc Meyers, adaptada por Oren Moverman e estrelada por Liev Schreiber, Alex Wolff, Marisa Tomei e Maya Hawke, no Festival Internacional de Cinema de Toronto ocorrido no ano de 2019. Em janeiro de 2020, as filmagens começaram na Itália em uma adaptação do romance Segurança de Amidon, dirigido por Peter Chelsom e estrelado pelos atores Marco D`Amore, Valeria Biello e Fabrizio Bentivoglio. Foi lançado na Itália em 2021, e demais lugares praticados e espaços estratégicos de consumo cinematográfico em junho pela Netflix tornando-se um sucesso mundial.   

A investigação técnico-metodológica de Santini leva o espectador a reconhecer, de uma forma singular, uma série de histórias circulares que, ao invés de dar mais profundidade à particularidade, tornam o roteiro mais denso, de caráter historicista, acelerando fatalmente o domínio de insegurança na cidade litorânea. Dirigido por Peter Chelsom (Hannah Montana) e inspirado no romance homônimo de Stephen Amidon. No verão, Forte dei Marmi é uma cidade tranquila, um pequeno paraíso para seus cidadãos ricos. No inverno, os dias ficam mais curtos, as noites mais longas e as vilas se transformam em pequenas fortalezas protegidas por sofisticados circuitos de câmeras de segurança. Esta é uma história de inverno, uma história que perturba a vida de seus personagens e os muda para sempre. Quando o medo vive dentro das pessoas, qual é o preço social da segurança pública? Um especialista em segurança e sua família se envolve em uma dramática rede de segredos e mentiras depois que jovem é agredida nesta pequena cidade onde moram. Reconheça o elenco magistral do filme Segurança: 

1. Marco D’Amore, nascido em 1981, é um ator e diretor italiano, reconhecido por seu papel como Ciro Di Marzio na série de televisão Gomorrah e no filme L’immortale (2019). Maya Sansa, nascida em 1975, é uma atriz italiana que se tornou reconhecida pelas minisséries italianas Einstein (2008) e Copperfield (2009). Silvio Muccino, nascido em 1982, é um italiano ator, diretor de cinema e roteirista. Começou sua carreira no cinema italiano geralmente desempenhando papéis principais em filmes dirigidos por seu irmão Gabriele. Estreou-se no filme But Forever in My Mind (1999), depois fez filmes como Remember Me, My Love (2003), Che ne sarà di noi (2004). Depois de começar com o irmão, Muccino apareceu em outros filmes italianos, como The Card Player (2004), Manuale d’amore (2005), Il mio miglior nemico (2005). Em 2008 estreou como diretor com o filme Parlami d’amore. 2. Valeria Bilello, nascida em 1982, é uma atriz e modelo italiana, onde iniciou sua carreira como atriz em 2008, atuando no filme Pai de Giovanna, dirigido por Pupi Avati e apresentado no Festival de Cinema de Veneza. Em 2010, o vencedor do Oscar Gabriele Salvatores escolheu-a para o filme Happy Family, pelo qual foi premiada como melhor atriz no Festival International du film de Boulogne-Billancourt. 3. Ludovica Martino, nascida em 1997, é uma atriz italiana, que iniciou sua carreira em 2015, onde atuou em dramas na TV exibidos na Rai 1, incluindo Che Dio Aiuti, Don Matteo e Everything can be found.

         Desde 2018 ela é a protagonista no papel de Eva Brighi, na série Skam Italia, um “remake” da série norueguesa Skam. Em 2019 com o filme O campeão, dirigido por Leonardo D’Agostini. Em 2020, ele estrelou o filme Sotto il sole di Riccione, distribuído pela Netflix. Também participa da série Night Passengers. 4. Giulio Pranno é um ator italiano reconhecido pelos filmes Comedians (2021), Security (2021) e Tutto my crazy love (2019). 5. Tommaso Ragno, nascido em 1967, é um ator italiano, que durante 2018-2020, interpretou o principal de Fedeli in Baby, uma série da Netflix dirigida por Andrea De Sica, Anna Negri e Letizia Lamartire, inspirada no escândalo do “toque de bebê” de 2013 no bairro de Parioli, em Roma. Em 2020 também fez parte da Fargo, uma série de televisão norte-americana da emissora FX. 6. Beatrice Grannò, nascida em 1993, é uma atriz e musicista italiana. Em 2013, aos 20 anos, estreou-se na televisão com o papel de Valentina na série Don Matteo 9, da Rai Uno, dirigida por Luca Ribuoli. 7. Silvio Muccino, nascido em 1982, é um italiano ator, diretor de cinema e roteirista. Começou sua carreira no cinema italiano geralmente desempenhando papéis principais em filmes dirigidos por seu irmão Gabriele. Estreou-se no filme But Forever in My Mind (1999), depois fez filmes como Remember Me, My Love (2003), Che ne sarà di noi (2004). Com o irmão, Muccino em outros filmes italianos: The Card Player (2004), Manuale d’Amore (2005), Il mio miglior nemico (2005). Em 2008 dirigiu Parlami d’Amore. 

          O filme tem como representação a história social de um especialista em segurança que passa a investigar “acusações de abuso sexual em uma pequena cidade italiana, descobrindo uma rede de segredos e mentiras”. Forte dei Marmi é uma comuna italiana da região da Toscana, província de Lucca, com cerca de 8.280 habitantes. Estende-se por uma área de 9 km², tendo uma densidade populacional de 920 habitantes/km². Faz fronteira com Montignoso (MS), Pietrasanta,  Seravezza. A narrativa cinematográfica se passa em Forte dei Marmi, cidade italiana, em que os habitantes litorâneos vivem em casas cobertas por câmeras de segurança com suas privacidades praticamente anuladas, em nome da proteção contra um suposto inimigo. O personagem principal Roberto Santini (Marco D’Amore) trabalha como segurança particular, responsável por tratar da vigilância dentre as casas de veraneio dos residentes de classe média alta em Forte dei Marmi, mas que habitualmente só viajam para lá em férias programadas e passam o resto do ano vivendo em outros países europeus. O trabalho é tranquilo, embora Roberto sofra de “insônia grave”. Segundo Monti (2000) dentro das alterações do sono, encontram-se os transtornos primários do sono. A etiologia desses últimos não se relaciona sintomaticamente com uma afecção psiquiátrica, uma doença médica ou dependência a um fármaco, o que leva a sugerir que poderia estar ligada a alterações dos mecanismos que regulam o sono e a vigília, que podem ser agravados com frequência por fatores sócio-históricos de condicionamento humano.

As características dos transtornos primários do sono se subdividem, por um lado, em dissonias, que podem ser caracterizadas por produzir sonolência diurna excessiva ou dificuldade para iniciar e/ou manter o sono e, por outro, em parassonias, também caracterizadas pela presença de condutas anormais associadas ao sono, tal como é o caso do sonambulismo e sonilóquia. Distúrbio do sono é um termo genérico utilizado para designar um conjunto de diferentes doenças e condições capazes de afetar o sono dos pacientes, impedindo-o por completo de dormir ou tornando o sono insuficiente, mesmo quando o paciente dorme, ele não consegue se sentir descansado ou mesmo recuperado. Características clínicas da insônia primária dentro das dissonias se encontra a insônia primária, cujas características fundamentais são a dificuldade para iniciar ou manter o sono e a sensação de não ter tido um sono reparador durante período não inferior a 1 mês. O “transtorno do sono” pode dar lugar a um mal-estar clinicamente significativo ou a uma deterioração social no trabalho, ou em outras áreas importantes de atividade do paciente. Frequentemente o paciente com diagnóstico de insônia primária apresenta dificuldade para começar a dormir e acorda seguidamente durante a noite. É menos frequente o paciente se queixar unicamente de não ter um sono reparador, isto é, ter a sensação de que o sono foi inquieto e superficial. Porém, em uma noite qualquer, Roberto Santini (Marco D’Amore), o responsável pela segurança de grande parte da cidade, testemunha um acontecimento misterioso: uma jovem, Maria Spezi (Beatrice Grannò), é encontrada totalmente machucada e em estado de choque. Todos culpam o seu pai, Walter (Tommaso Ragno), alcoólatra, mas Roberto não se convence e começa a investigar.

Os Estados-membros cooperam num quadro de valores e objetivos comuns, conforme descrito na Declaração de Singapura. Estes incluem a promoção da democracia, direitos humanos, boa governança, Estado de Direito, liberdade individual, igualitarismo, livre comércio, multilateralismo e a paz mundial. A Commonwealth não é uma união política, mas uma organização intergovernamental através da qual os países com diversas origens sociais, políticas e econômicas são considerados como iguais em status. As atividades da Commonwealth são realizadas através do permanente Secretariado da Commonwealth, chefiado pelo Secretário-Geral, e por reuniões bienais entre os Chefes de Governo da Commonwealth. O símbolo da sua associação livre é o chefe da Commonwealth, que é uma posição cerimonial atualmente ocupada pela rainha Isabel II,  e também a monarca, separada e independentemente, de 16 membros da Commonwealth, que são reconhecidos como os chamados “reinos da Commonwealth”. O nome original, entretanto, era “Comunidade Britânica”, do inglês: British Commonwealth que finda com o pós-guerra até 1946. Esta fórmula foi inventada em 1950, quando a Índia se tornou uma República, e, embora não reconhecendo Jorge VI como chefe de Estado, a Índia reconhecia-o como “o símbolo da associação livre de nações”. Ela tem historicamente por objetivo promover a integração entre as ex-colónias do Reino Unido, concedendo-lhes benefícios e facilidades comerciais, mas atualmente os seus objetivos incluem a assistência educacional aos países-membros e a aparente harmonização das suas políticas. Economicamente a Comunidade responde por 30% do comércio mundial.

Alguns países já estavam em guerra nesta conjuntura, como Etiópia e Reino da   Itália na Segunda Guerra Ítalo-Etíope e China e Japão na Segunda Guerra Sino-Japonesa. Muitos dos que não se envolveram inicialmente acabaram aderindo ao conflito em resposta a eventos como a invasão da União Soviética pelos alemães e os ataques japoneses contra as forças dos Estados Unidos no Pacífico em Pearl Harbor e em colônias ultramarítimas britânicas, que resultou em declarações de guerra contra o Japão pelos Estados Unidos, Países Baixos e o Commonwealth Britânico. A guerra terminou com a vitória dos Aliados em 1945, alterando significativamente o alinhamento político e a estrutura social e política mundial. Enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) era estabelecida e ratificada para estimular a cooperação global e evitar futuros conflitos armados, a União Soviética e os Estados Unidos emergiam como “superpotências rivais”, preparando o terreno para uma Guerra Fria que se estenderia pelos próximos quarenta e seis anos (1945-1991). Nesse ínterim, a aceitação do princípio de autodeterminação acelerou movimentos de descolonização na Ásia e na África, enquanto a Europa ocidental dava início a um movimento de recuperação econômica e integração política.

Em terceiro lugar, o termo humanidade, do latim humanĭtas, faz referência à natureza humana, ao gênero, ou ao conjunto de todas as pessoas do mundo. A fraqueza própria do ser humano, a clemência, a compaixão perante as desgraças e as adversidades do outro, a afabilidade e a benevolência são outras características que recebem o nome de humanidade, pelo fato de fazerem parte da natureza humana. A humanidade representa o respeito ao outro, onde aprendemos a aceitar e respeitar a opinião daquelas pessoas. Uma pessoa que se caracteriza como alguém “humanizado” não possui em si sentimentos de superioridade quanto ao outro. Mas é tida como humanitária quando realiza obras em prol de outras pessoas, pois, é muito comum ouvirmos o termo “ajuda humanitária”, que define a ajuda em diversos aspectos sociais e políticos para pessoas que se encontram em “situação de risco, causados por desastres naturais ou mesmo que foram causados pela ação do homem. Há milhares de organizações destinadas que visam ajuda. As quais são classificadas como organizações livres de fins lucrativos.

No entanto, para quem deseja realizar um ato de humanidade, pode fazer isso também através de boas ações para com o próximo, tratando bem as pessoas em sua volta, colocando de lado posições sociais, opiniões política e outros. Logo, além de humanidade se referir a um “todo” dos seres humanos, ou seja, a um grupo formado por seres humanos, ela também se refere aos atos mediados por uma ética de solidariedade que são praticados pelos humanos. Existe ainda o conceito de “história da humanidade” que diz respeito as fases em que o ser humano percorreu em sua constituição até chegar ao que é atualmente. Nisso temos períodos como pré-história, história, dentre outros. Sendo que a história ipso facto se divide em Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. A contemporaneidade distingue-se, em geral pelo desenvolvimento próprio e consolidação do capitalismo globalizado no Ocidente e, ainda pelas disputas dentre as potências europeias por territórios, matérias-primas e mercados consumidores. O objetivo do financismo pós-industrial é o oposto do capitalismo industrial reconhecido dos economistas do século XIX. Ele busca riqueza primariamente através da extração de renda econômica, não da formação de capital industrial. Em quarto lugar, a desigualdade social reproduzida através das estruturas de formação da classe social está relacionada estatisticamente ao poder aquisitivo, ao acesso à renda, à posição social, ao nível de escolaridade e ao padrão de vida existente entre as frações da classe dominante que controlam direta ou indiretamente o Estado, através de efeitos de poder político, na educação e trabalho, reproduzindo inexoravelmente uma estrutura social implantada e difundida pelos métodos de trabalho e de produção no âmbito das esferas sociais e de poder dominante. 

A divisão da sociedade em classes é consequência dos diferentes papéis que os grupos sociais têm no processo de produção, ocupado por cada classe que depende o nível de fortuna e de rendimento, o gênero de vida e numerosas características culturais das diferentes classes. Classe social define-se como conjunto de agentes sociais nas mesmas condições no processo de produção e que têm afinidades eletivas políticas e ideológicas. E esse problema não estava relacionado exclusivamente ao trabalho manual e às classes trabalhadoras. Basta pensarmos na referência ao capitão Hawdon, ou Nemo, de A casa abandonada, de Charles Dickens. O personagem era um ex-oficial do Exército que ganhava a vida fazendo trabalhos temporários como jurista. Mas no caso de Marx, lembra Jones (2017: 357), não se tratava de pobreza no sentido comum da palavra. Em 1862, a boa sugestão de Lassale de que uma das filhas de Marx trabalhasse para ganhar dinheiro com a condessa Von Hatzfeldt, sua companheira, foi recebida como um indizível desrespeito ao status social deles e provocou um dos mais repulsivos insultos de Marx. – “Imagine só! Esse sujeito, sabendo do caso americano etc. [a perda dos rendimentos do Tribune], e, portanto, da situação de crise em que me encontro, teve a insolência de perguntar se eu cederia uma das minhas fihas à la Hatzfeldt como “dama de companhia”. Uma justificativa para o comportamento era que isso seria determinado pela necessidade de garantir o futuro das filhas. Em julho de 1865, admitiu: - “É verdade que minha casa está acima de meus meios, e que temos, além disso, vivido melhor este ano do que foi o caso antes. Mas é o único jeito de as meninas se estabelecerem socialmente, com vistas a assegurar o seu futuro”.

Ele achava que Friedrich Engels concordaria com sue argumento de que “mesmo de um ponto de vista meramente financeiro, morar numa casa puramente proletária não seria apropriado nestas circunstâncias, embora não houvesse problema se fôssemos só minha mulher e eu, ou se as meninas fossem meninos”. Pode-se por em dúvida esse último argumento. Nunca houve qualquer plano de morar numa “casa puramente proletária”.  Quando Jenny Marx (1814-1881) chegou a Londres pela primeira vez, a família alugou um apartamento em Chelsea duas vezes mais caro do que o custo posterior de Grafton Terrace. Da mesma forma, em 1854, apesar das dívidas, gastou-se considerável montante com roupas novas para Jenny quando foi visitar a mãe, “uma vez que ela naturalmente não poderia chegar a Trier parecendo uma maltrapilha”. E não era só Jenny que insistia em parecer que vivia – ou mesmo que vivesse de fato – um padrão d vida burguês. Segundo Werner Blumenberg, Karl Marx gostava de das às vistas, especialmente as estrangeiras, a impressão de viver em confortáveis circunstâncias burguesas. Para os seus parentes holandeses, em particular o tio Lion Philips, ele fingia que, apesar das convicções políticas, não mero avesso a apostar ocasionalmente no mercado das ações.

Em quinto lugar, a instituição social nem sempre aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e pretende definir uma universalidade, seja imaginária ou desejável, que lhe permita responder às contradições, impostas pela divisão. Ao contrário, a organização busca gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos polos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais. A questão nevrálgica refere-se à pergunta: Como foi possível passar da universidade como instituição à definição como organização prestadora de serviços? Em primeiro lugar através da passagem da produção de massa e da economia de mercado para as sociedades de conhecimento baseadas na informação e comunicação. Na esfera de ação política é regulação da existência coletiva, poder decisório, luta entre interesses contraditórios, disputa por posições de mundo, confrontos mil entre forças sociais, isto é, violência em última análise. Só que a produção dos processos políticos, baseados em instituições sociais como esfera de poder, em segundo lugar, se diferencia radicalmente da produção econômica porque usam eventualmente suportes materiais, como armas, livros, processos, papéis onde se inscrevem as ordens, os atos de gestão, as sentenças ou as leis, mas não é uma produção material no sentido marxista do termo.

A administração pública e a defesa dos interesses, bens e direitos envolvidos, requerem a reformulação da administração dos negócios, influindo na qualidade e natureza dos serviços e produtos ofertados. Como consequência dessa necessidade nasceu a “blindagem jurídica” para enfrentamento dos desafios na divisão internacional da atividade intelectual articulada aos procedimentos técnicos, visando a segurança econômica, social e jurídica e de interesses pessoais e empresariais. A coerência desta articulação, aliada à teleologia das normas, à jurisprudência e à doutrina, quando sopesadas na efetivação do negócio resulta no tão propalado bom direito e, que deve ser defendido como imprescindível e proficiente, assim, em seu brilhante nascedouro. Esse direito, sob múltiplas influências de suas disciplinas carrega particularidades que devem ser conhecidas e estudadas pelos profissionais que ocupem posições jurídicas e administrativas nas empresas e sociedade para que se realize a blindagem, como processo político de gestão estratégica, indutora de segurança jurídica com prosperidade. A blindagem é muito distinta de qualquer tour de force em busca das brechas da lei para a defesa de direitos civis, contrapondo-se as iniquidades, ou amparados por destaques que possam afrontar o Estado, a moralidade e a tradição consuetudinária. O fato político é que a gestão da universidade é marcada por uma série de desafios, os quais são configurados como compromissos políticos da instituição tanto em termos de pesquisa & desenvolvimento como seu ersatz de comunicação e produção social.

 Para refletir acerca das contribuições de Edward Thompson para a pesquisa no campo da formação abstrata de professores implica explicitar as principais categorias sociais exploradas pelo autor que se referem essencialmente as noções conceituais de experiência, cultura e classe social. Comecemos então, metodologicamente, pelo emprego conceitual de classe, e portanto, no fazer-se, enquanto consciência histórica da classe trabalhadora inglesa. Por “classe”, afirma E. P. Thompson, em seu prefácio da trilogia: A Formação da Classe Operária Inglesa (1987; 204 páginas; 1987; 347 páginas; 1987; 440 páginas) “entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência”. Mas ressalta que é um fenômeno histórico. Distanciando-se no marxismo estruturalista de Louis Althusser (cf. Thompson, 1981), o que nos dispensa comentários, pois não compreende a classe como uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. Ademais, a noção de classe, se já não é um truísmo, desde o pensamento clássico e Marx e Engels, carrega consigo a noção de relação histórica. Como qualquer outra relação, é algo fluido que escapa à análise ao tentarmos imobilizá-la num dado momento e dissecar a estrutura. A primeira crítica veemente ao conceito é a seguinte: - A “rede sociológica” não consegue mais nos oferecer um exemplar puro de classe, como tampouco um do amor ou da submissão. Seu argumento sobre a classe é empírico, de tradição inglesa, pois “a relação precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais”. Além disso, não podemos ter duas classes distintas, cada qual com um ser independente, colocando-as em relação recíproca. A classe acontece quando alguns homens, como resultado de “experiências comuns”, herdadas ou partilhadas, praticamente, sentem e articulam a identidade de interesses, contra homens cujos interesses diferem, e geralmente se opõem dos seus.

A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente. É neste sentido que para Thompson a consciência de classe representa a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais, sendo vistas como “encarnadas em tradições, sistema de valores, ideias e formas institucionais”. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. E neste sentido a particularidade é a seguinte. Podemos entender uma lógica nas reações de grupos profissionais semelhante que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma. Além disso, existe uma tentação generalizada em se supor que “a classe é uma coisa”. Não era esse o significado utilizado por Marx, em seus escritos históricos, ou de análise de conjuntura, mas o erro deturpa muitos textos marxistas contemporâneos. Fora do nível empírico de análise, a classe operária, é tomada como tendo existência real, definida quase matematicamente – uma quantidade de homens que se encontra numa certa proporção com os meios de produção. Esta “classe dirigente” ou classe dominante estava, ela própria, muito dividida em suas frações, e estratificações que de fato só conseguiu maior coesão nesses mesmos anos porque certos antagonismos de classe no sentido estrutural do termo, realmente se dissolveram ou se tornaram insignificantes frente a uma classe operária que estava se originando de forma insurgente no plano das nações.

Uma vez isso assumido torna-se possível deduzir a consciência de classe que “ela” deveria ter (mas raramente tem), se estivesse adequadamente consciente de sua própria posição e interesses reais. Evidentemente, a questão é como o indivíduo veio a ocupar esse “papel social”, na falta de melhor expressão, e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Essas são questões históricas. Se determos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas ao examinarmos esses homens num período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas ideias e instituições. A classe social é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história e, ao final, esta é sua única definição. Thompson observa que entre os anos 1780 e 1832 os trabalhadores ingleses em sua maioria vieram a sentir uma “identidade de interesses entre si”, e contra seus dirigentes e empregadores. A presença operária em 1832, foi o fator histórico e sociológico determinante como nível concreto estrutural e de classe mais significativo da vida política britânica. Na trilogia de E. P. Thompson, “Árvore da liberdade” (I); “Maldição de adão” (II) e sobre “A força dos trabalhadores” (III), assim está a sua forma de exposição. Na Parte I, Thompson faz o resgate das tradições populares vigentes no século XVIII que influenciaram a fundamental agitação jacobina dos anos 1790.

Na Parte II, as experiências de grupos de trabalhadores durante a Revolução Industrial, enfatizando o caráter da nova disciplina industrial do trabalho e da posição, a esse respeito, da Igreja Metodista. Na Parte III, recolhe aspectos da história social e da emergência do “radicalismo plebeu”, levando-a, através do luddismo, até a época heroica no final das guerras imperialistas napoleônicas. Finalmente, Edward Thompson apresenta na exposição, last but not least, alguns aspectos da teoria política e da consciência de classe nos anos 1820 e 1830 que alterou “as atitudes subpolíticas do povo, afetou os alinhamentos de classe e iniciou tradições que se prolongam até o século atual”. O que é válido para divisão do trabalho na oficina vale também para a divisão do trabalho na sociedade. Enquanto artesanato e manufatura constituem a base geral da produção social, a subsunção do produtor a um da produção, a supressão da diversidade original de suas ocupações é um momento necessário do desenvolvimento.

Sobre essa base, ou estrutura econômica, cada ramo particular da produção industrial primordialmente inglesa, encontra empiricamente a configuração técnica que lhe corresponde, aperfeiçoa-a lentamente e, num certo grau de maturidade, cristaliza-a rapidamente. Além dos novos matérias de trabalho fornecidos pelo comércio, a única coisa que provoca modificações aqui e ali é a variação gradual do meio de trabalho. Uma vez alcançada a forma adequada à experiência, também ela se ossifica, como o comprova sua transmissão, muitas vezes milenar, de uma geração a outra. O princípio da “grande indústria”, na expressão de Marx, desenvolvida n`O Capital, de dissolver cada processo de produção em elementos constitutivos, e, antes sem nenhuma consideração para com a mão humana, criou a mais moderna ciência da tecnologia. As formas variegadas, aparentemente desconexas e ossificadas do processo social de produção, no sentido global da industrialização, se dissolveram, de acordo com o efeito útil de trabalho social almejado, nas aplicações conscientemente planificadas e sistematicamente particularizadas no processo hegemônico das ciências naturais. 

O uso da  tecnologia redescobriu as poucas formas fundamentais do movimento, sob as quais transcorre necessariamente, apesar da diversidade de instrumentos utilizados, toda a ação produtiva do corpo humano, exatamente do mesmo modo como a mecânica não deixa que a maior complexidade da maquinaria a faça perder de vista a repetição constante das potências mecânicas simples. A indústria moderna jamais considera nem trata como definitiva a forma de um processo de produção. Sua base técnica é, por isso, revolucionária, ao passo que a todos os modos de produção anteriores era essencialmente conservadora.  A administração pública se define através de um âmbito institucional-legal, baseada na Constituição, leis e regulamentos. Originou-se na França, no fim do século XVIII, mas só se consagrou como ramo autônomo do direito com o desenvolvimento do Estado de Direito. Teve como base os conceitos de serviço público, autoridade, poder público e especialidade de jurisdição. O gestor tem como função gerir, administrar de forma ética, técnica e transparente a administração pública, quer sejam órgãos, departamentos ou políticas públicas visando o bem comum da comunidade a que se destina e em consonância com as normas legais e administrativas vigentes. Na Europa, existem basicamente quatro modelos constitucionais de gestão da administração pública, o modelo nórdico: Dinamarca, Finlândia, Suécia e Países Baixos, o modelo anglo-saxão: Reino Unido e Irlanda, o modelo renano ou continental: Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Luxemburgo: e o modelo mediterrâneo: Grécia, Itália, Portugal e Espanha. Na América Latina a “preferência” é o modelo, a exemplo do Brasil.

Vale lembrar que a nação é um produto cultural, político e social que surge na Europa a partir do fim do século XVIII e que se constitui efetivamente em uma “comunidade política imaginada”. Nesse processo de construção histórica, a relação entre o velho e o novo, o passado e o presente, a tradição e a modernidade, é uma constante e se reveste de importância fundamental, pois, a nação é uma comunidade de sentimento que normalmente tende a produzir um Estado próprio, é preciso invocar antigas tradições reais ou inventadas, como fundamento natural da identidade nacional que está sendo criada. Isso tende a obscurecer o caráter histórico e relativamente recente dos Estados nacionais. Assim, como Estado-nação procura delimitar e zelar por suas fronteiras geopolíticas, ele também se empenha em demarcar suas fronteiras culturalmente, estabelecendo o que faz e o que não faz parte da nação. Através desse processo se constrói uma identidade nacional que procura dar uma imagem à comunidade abrangida por ela. Nesse sentido o processo político de consolidação dos Estados-nações é extremamente recente. Mesmo em sociedades que atualmente parecem ser bem integradas.  

Não queremos perder de vista, sociologicamente, que o accountability (cf. Cordeiro, 2014) é um termo da língua inglesa que pode ser traduzido para o português como “responsabilidade com ética” e remete à obrigação, à transparência, de membros de um órgão administrativo ou representativo de prestar contas a instâncias controladoras ou a seus representados. Também traduzida como prestação de contas, significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por qual motivo faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de autoavaliar a obra permanentemente feita e realizada, com o significado de dar a reconhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou. A obrigação de prestar contas, neste sentido amplo, é tanto maior quanto a função do cargo sendo pública, ou seja, quando se trata do desempenho de cargos “pagos pelo dinheiro dos contribuintes”. Melhor dizendo, accountability é um conceito da esfera de ação social ética com significados variados dependendo de quem delega poder numa situação de sujeito. Frequentemente é usado em circunstâncias que denotam a questão da responsabilidade civil, da noção de imputabilidade, assim como de obrigações e prestação de contas à sociedade. A ocupação de cargos nas instituições, demonstra degradação e desrespeito à atividade intelectual criadora, contrariando a reflexão dialógica de Friedrich Hegel: eles sabem o que fazem. Os meios necessários à compreensão do mundo histórico-social podem ser dessa maneira, tirados da própria experiência psicológica, e a psicologia, deste ponto de vista Diltheyano, “é a primeira e mais elementar das ciências do espírito”. A experiência imediata e “vivida na qualidade de realidade unitária” (Erlebnis) permite a apreensão singular da realidade histórica e humana sob suas formas concreta e viva. 

Nos ensaios: “Estudos sobre os Fundamentos das Ciências do Espírito” e “Teoria das Concepções do Mundo”, Wilhelm Dilthey submete a uma análise rigorosa o conceito de “Erlebnis”. Em “A Essência da Filosofia”, obra de 1907, o hermeneuta afirma curiosamente a “falência da filosofia”, como metafísica. Em verdade ele propõe uma filosofia histórica e relativa que analise os comportamentos humanos e esclareça as estruturas do mundo no qual vive o homem contrapondo-se a uma metafísica que se pretende colocar como imagem da realidade e aos aspectos da realidade a um único princípio absoluto. O contato conceitual de Wilhelm Dilthey com a hermenêutica está relacionado à sua preparação teológica, embora per se a tenha utilizado para responder a seguinte pergunta: - “Como se diferenciam as ciências humanas ou sociais das ciências naturais? A reflexão de Dilthey para estabelecer as relações entre significados e sistemas está presente ao longo de todos os seus escritos principalmente àqueles relacionados sobre as “ciências do espírito”, com oscilações que ensejam a leitura da sua obra tanto no âmbito psicológico quanto de uma perspectiva mais propriamente sociológica. Sem dúvida ele sempre recusou algum caráter de ciência à sociologia, referindo-se às suas variantes positivistas, em sintonia com uma preocupação com os fenômenos históricos em grande escala, nos quais as dimensões decisivas dizem respeito às formas de organização da vida coletiva. Foi o primeiro em aproximar a hermenêutica do terreno das incertezas no conhecimento da história social europeia (cf. Hidalgo e Cruz, 2015).   

A inovação causada por sua teoria foi única e, por isso, ele está na base de muitas correntes de pensamento que articulam com benemerência, no caso exemplar de Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, a relação entre a história e hermenêutica. A hermenêutica tradicional se refere ao estudo teórico da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito. A hermenêutica moderna ou contemporânea engloba não somente textos escritos, mas também tudo que há no processo interpretativo. Isso inclui formas verbais e não verbais de comunicação, assim como aspectos que afetam a comunicação, como proposições, pressupostos, o significado e a filosofia da linguagem e a semiótica. Não tem a pretensão de eternizar o homem, mas possibilitar ao homem se aproximar da vida, por meio de conexões que integram, aproxima e relaciona os homens. A teoria compreensiva tem importância ética para o mundo contemporâneo.  A base para esse nexo em que se dá a relação da vivência é a categoria do significado. Tal categoria corresponde a um apoio sólido que aparece como uma unidade de conjunto onde age o pensamento, os sentimentos e a vontade.

Considerando que há um balanço parte e todo no nexo da vivência, o que garante o equilíbrio para esse balanço é a categoria do significado que para Wilhelm Dilthey, nada mais é do que a integração num todo que nós encontramos junto e nos remete ao significado e sentido contido na relação parte-todo que encontra na vivência e é seu fundamento. É neste sentido que ele considera que vida e a mudança dos seus principais momentos estruturais fazem que a concepção do mundo sempre e em toda a parte se expresse em oposições, embora sobre um fundo comum. Portanto, é na arte, na religião e no pensamento que encarnam os ideais que atuam na existência de um povo. Por conseguinte, toda a mundividência é produto da história. A historicidade revela-se como uma propriedade fundamental da consciência humana. Os sistemas filosóficos não constituem uma exceção. Como as religiões e as obras de arte, contêm uma visão da vida e do mundo, inserida na vitalidade das pessoas que os produziram e em consonância com as épocas em que vieram à luz do dia; traduzem uma determinada atitude afetiva, caracterizam-se pela imprescindível energia lógica, porque o filósofo procura trazer a imagem do mundo à clara consciência e ao mais estrito urdimento cognitivo. Neste aspecto singular da concepção de teoria é esforço de reflexão e de trabalho dos conceitos, que gera uma circunspecção potenciada, que reside o valor prático da atitude filosófica. Como o centro da compreensão está na vida como um “todo estruturado”, mas sempre resultando da relação entre individualidades, é possível perceber a conexão entre a ética e a teoria compreensiva. Em verdade uma concepção da teoria, ao longo de quase meio século, permeado lado a lado, por um motivo básico: uma unidade cuja garantia de existência é a presença do sentido.

Há uma démarche que atravessa o homem, e nesta noção de sentido está a marca de uma concessão fatal a uma metafísica.  Ele desejava evitar tanto quanto o empirismo dos positivistas, desde que fique clara a dimensão de ser criador de significados, que não é simplesmente a noção ampla de vida. Mas sua unidade constitutiva, a vivência, representada em toda experiência humana. Ipso facto, a história é suscetível de conhecimento porque é obra humana; nela o sujeito e objeto do conhecimento formam uma unidade. Nessa direção per se chega-se à formulação final da concepção histórica e pari passu hermenêutica de Wilhelm Dilthey, pois seus elementos são exatamente vivência, expressão e compreensão. A vivência surge nesse ponto, como especificamente social, pela sua dimensão intersubjetiva, e cultural, pela sua dimensão significativa, e subjetiva para além do nível psicológico ou biológico porque guardada na memória. Trata-se de um ato reflexivo de consciência, que propõe e persegue fins num contexto intersubjetivo. As interações sociais ganham corpo nas diversas formas de manifestação de vida e da arte, filosofia, religião, ciência, como expressão desse caráter que a experiência, intersubjetivamente constituída assume.

Sua concepção metodológica articula-se, portanto, em torno do movimento de ir e vir que ocorre entre a vida, como conjunto de vivências e as formas objetivas que seus resultados assumem na sua expressão. A referência às “vivências”, segundo Gabriel Cohn, visa a preservar esse caráter imediato, no qual só é possível compreender aquilo de que o próprio intérprete, pois é de interpretação que se trata, e não de mera observação é também o produtor; os propósitos, os fins e os valores, ainda que ao intérprete caiba mais propriamente reproduzi-los, na sua tarefa de reconstituir o processo da sua produção primeira. A diferenciação das ciências não se realizou por artifício da “inteligência teórica”, em resolver o problema posto pela existência do mundo mediante a análise metódica do objeto de investigação: a própria vida a realizou.              

A montagem do sistema de vigilância global coincide com a construção da hegemonia política norte-americana no século XX. Com a perda do poderio econômico, a Central Intelligence Agency (CIA) e a National Security Agency (NSA), criada em 4 de novembro de 1952 com funções de segurança relacionadas com a “inteligência de sinais”, incluindo interceptação e criptoanálise. Também é um dos órgãos dedicados a proteger as comunicações norte-americanas. A NSA é parte do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América e passaram também a espionar empresas estrangeiras e a repassar informações privilegiadas obtidas pelo Echelon às corporações norte-americanas e aos aliados no monitoramento global, os membros do grupo chamado “Cinco Olhos”. Coincidentemente ao final da década de 1990, e com a proximidade da invasão do Iraque a rede Echelon era capaz de monitorar 90% de todo o tráfego comunicativo da rede Internet. De acordo com a BBC em maio de 2001, o governo dos Estados Unidos da América ainda negava a existência da rede Echelon naquela conjuntura política mundial.   

Em 3 de novembro de 1999 a British Broadcasting Corporation, uma corporação pública de rádio e televisão do Reino Unido fundada em 1922, mas que possui uma boa reputação nacional e internacional, neste caso, confirmou “a existência da rede de espionagem mundial Echelon”. Mas apenas em 2013, através das revelações pelo norte-americano Edward Snowden, o projeto de controle social e político Echelon foi exposto como sendo “um projeto para vigilância global e de espionagem cuja revelação recebeu atenção do público em nível mundial”. Através de milhares de documentos revelados pelos serviços técnicos de Edward Snowden foram reveladas várias atividades políticas de controle de vigilância da NSA incluindo sistemas como o Echelon que até então haviam sido relegados ao “plano especulativo” ou mesmo conspiratório, incluindo a existência e os objetivos do Echelon. Composto por Reino Unido, Estados Unidos da América, Austrália, Canadá e Nova Zelândia, trata-se de estupendo sistema geopolítico de espionagem eletrônica norte-americana, controlado pela NSA. Membro contratado, Edward Snowden descreve a estratégia da Cinco Olhos como uma “organização de inteligência supranacional que não responde às leis de seus próprios países”.

Apesar do impacto social da revelação em 2013 dos documentos de Edward Snowden (cf. Harding, 2014) alguns especialistas na área de “inteligência comunitária” acreditam que o aumento da preocupação global afetará a relação dos países do chamado “Cinco Olhos” que mantem a “maior aliança paramilitar de espionagem” reconhecida na história social e política. Desde o processamento e manutenção de dados que são obtidos de diversas fontes, as formas de compartilhar essas informações não estão restritas a inteligências de sinal, também, envolvem inteligência de defesa e inteligência humana. Como a capacidade de vigilância como um mais-poder continua fulltime a crescer, e se desenvolver com um emprego técnico de metodologias para acompanhar os avanços tecnológicos, um sistema de vigilância global vem sendo gradualmente desenvolvido para capturar comunicações de populações inteiras em todo o planeta. Uma é adicionada à lista através de evidências concretas documentadas com fontes confiáveis, tais como documentos inspecionados ou que tiveram sigilo quebrado, ou contas de delatores, o que demonstra que a pessoa envolvida é, ou era, intencionalmente marcada pela vigilância. 

Em 7 de maio de 2004, Edward Snowden alistou-se no Exército dos Estados Unidos, como um soldado das Forças Especiais, mas não completou o treino “por ter quebrado as duas pernas num acidente de treino”. Ele pretendia lutar na guerra do Iraque, porque “sentiu que tinha a obrigação como ser humano de ajudar a libertar as pessoas da opressão”. O seu emprego seguinte foi como guarda de segurança no Centro de Estudos Avançados de Língua na Universidade de Maryland, mas antes, ele disse ter-se reunido à Agência Central de Inteligência (CIA) para trabalhar “em segurança de TI”, suporte a área relacionada à produção, criação e modernização da Tecnologia da Informação (TI) ou Informática. Em maio de 2006, Snowden escreveu na “Ars Technica”, um site de notícias de tecnologia e informação, que não tinha problemas para conseguir trabalho, porque ele era “gênio da computação”. Em agosto, ele escreveu sobre seu possível encaminhamento para um serviço no governo, talvez envolvendo a China, com uma enorme riqueza cultural, técnica e científica que “simplesmente não parece ser tão divertido como alguns dos outros lugares”. Os conceitos de “segurança em TI” e “segurança da informação” geralmente são confundidos nas empresas, embora tenham denominações que, na prática, são distintas. Até mesmo os profissionais da área podem se equivocar e tratar ambos os termos como sinônimos, mas quando na realidade não o são. Isso leva a equipe de TI a ter dúvidas acerca do que, de fato, se necessita.

A segurança técnica em TI tem um papel estratégico nas organizações, pois é ela a responsável pelos processos de proteção de toda a estrutura da tecnologia de uma empresa. A política de segurança de TI promove garantias de que a confidencialidade, a integridade e a disponibilidade, também reconhecida como “tríade CID”, serão preservadas. Com a política em prática, os colaboradores tem o dever de aplicar todos os princípios citados: 1. Confidencialidade: é a proteção dos ativos, seguindo a ideia de que indivíduos não autorizados devem ser incapazes de obter acesso; 2. Integridade: atesta que qualquer modificação ou atualização só pode ser feita mediante autorização; 3. Disponibilidade: assegura a preservação do sistema e de seus recursos para que pessoas autorizadas tenham o acesso contínuo aos processos ativos. A partir do momento em que a política de segurança é aplicada, o próximo passo é a programação de “soluções robustas” para proteger os servidores que jamais devem estar vulneráveis. Uma maneira que possa contribuir para que a tríade CID seja adotada pelos colaboradores refere-se ao monitoramento e a implantação de um sistema firewall. Por meio do monitoramento é possível, por exemplo, identificar falhas e insistentes tentativas de login, o que pode se configurar “em um ataque ou solicitação de acesso indevido”. O firewall, por sua vez, possibilita à empresa ter controle sobre o acesso e verificar em tempo real todas as portas, além de conceder diferentes privilégios e restrições para cada empregado.      

O conceito de “segurança da informação” é muito mais amplo e, justamente por isso, muitas vezes acaba confundido com a segurança em TI. A segurança da informação não é uma única tecnologia fechada, mas sim um conjunto de ferramentas, estratégias e políticas de segurança que visam proteger a empresa de vários problemas. Em março de 2012, Snowden deixou o Japão e atravessou o Pacífico até o Havaí. Ao mesmo tempo, parece ter feito doações a Ron Paul, seu “herói político”. Segundo Harding (2014), um “Edward Snowden” contribuiu com 250 dólares para a campanha presidencial de Paul dando um endereço em Columbia, Maryland. O registro descreve o doador como um funcionário da Dell. Em maio do mesmo ano, Snowden doou outros 250 dólares, desta vez de sua nova casa no Waipahu, descrevendo-se como um “assessor sênior” para um empregador não declarado. O novo trabalho de Snowden era no Centro Regional de Criptologia da NSA, na ilha principal de Oahu, que fica perto de Honolulu. Ele ainda era um contratado da Dell. O Centro é um dos 13 polos da NSA, fora Fort Meade, dedicados a SIGINT - acrônimo de “signals intelligence”, termo inglês usado para descrever a atividade da coleta de informações ou inteligência através da interceptação de sinais de comunicação entre pessoas ou máquinas, para espionar os chineses em especial.

O logotipo da “NSA/CSS Havaí” mostra duas palmeiras verdes de cada lado de um belo arquipélago. A cor principal é um azul oceânico profundo. Ele chegou à ilha vulcânica no meio do Pacífico com um plano. A National Security Agency representa a agência de segurança dos Estados Unidos da América, criada em 4 de novembro de 1952 com funções relacionadas à “inteligência de sinais”, incluindo interceptação e criptoanálise. Também é um órgão estadunidense dedicados a proteger as comunicações sociais norte-americanas. A NSA é parte do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Durante algum tempo após sua criação era tão secreta que o governo tergiversava; negava sua existência. Em 1982, após vários anos de pesquisas e coleta de informações, o jornalista James Bamford, especialista na história da NSA e no sistema global de vigilância, publicou o livro: “The Puzzle Palace: Inside America`s Most Secret Intelligence Organization” (2009) no qual revelou fontes e documentou pela primeira vez a existência da Agência de Segurança Nacional (NSA). Até então, as atividades da agência e mesmo a existência da agência eram negadas ideologicamente pelo governo norte-americano. Entramos na época do globalismo, crescentemente dinamizado pelas tecnologias eletrônicas, informáticas e cibernéticas, a política se desterritorializa. Realiza-se principalmente na mídia impressa e eletrônica, compreendendo o marketing, o videoclipe, o predomínio da imagem, da multimídia, do espetáculo audiovisual.

É um mundo sistêmico de Auguste Comte. Em 5 de junho de 2013, o jornalista americano Glenn Greenwald, através do The Guardian e juntamente com vários outros jornais incluindo o The New York Times, The Washington Post, Der Spiegel, iniciou a publicação das revelações da vigilância global norte-americana que inclui inúmeros programas de vigilância eletrônica ao redor do mundo, executados pela Agência de Segurança Nacional (NSA). Um dos primeiros programas revelados foi o chamado PRISM. Os programas de vigilância que vieram as claras através dos documentos fornecidos por Edward Joseph Snowden, técnico em redes de computação que nos últimos quatro anos trabalharam em programas da Agência de Segurança Nacional (NSA), como é demonstrado dentre 54 mil funcionários de empresas privadas subcontratadas - como a Booz Allen Hamilton e a Dell Corporation. Os documentos revelados demonstram a existência de inúmeros programas visando a captação de dados, e-mails, ligações telefônicas e tipos de comunicação entre cidadãos a nível mundial.

Em verdade o programa de vigilância (PRISM) é um dos programas do sistema de vigilância global da NSA que foi mantido secreto desde 2007 e até sua revelação na imprensa em 7 de junho de 2013. Sua existência veio a público por meio de publicações feitas pelo jornal britânico The Guardian, com base em documentos fornecidos por Edward Snowden. Os documentos fazem parte de uma apresentação em Power Point datada de abril de 2013 e composta de 41 slides, descrevendo as capacidades do programa. Ela aparentemente se destina ao treinamento de funcionários dos serviços de inteligência das agências participantes do programa. O que os slides da apresentação sobre o programa de vigilância preparado pela NSA, do ponto de vista disciplinar como sugere Foucault, e de seleção de usuários demonstram, “é que o programa PRISM permite aos funcionários da NSA, coletar os vários tipos de dados dos usuários, que estão em poder de serviços de Internet, incluindo histórico de pesquisas, conteúdo de e-mails, transferências de arquivos, vídeos, fotos, chamadas de voz e vídeo, detalhes de redes sociais, logins e quaisquer outros dados em poder das empresas de Internet”.

Este é o contexto político em que florescem paradigmas tecnológicos como se a modernidade estivesse sendo substituída pela pós-modernidade. O descrédito da razão comprometida com a explicação do “por que” e “como” dos fatos tem levado à busca da razão comprometida com a compreensão dos signos. Em lugar das abrangências e dos movimentos, as singularidades e as situações. Em vez de tensões, antagonismos ou antinomias, as identidades, consensos ou complementaridades. Quando se trata de descontinuidades, são inocentes de contradições. Um aspecto da controvérsia sobre dialética e positivismo, envolvendo indução qualitativa e indução quantitativa, já era evidente na década de 1930. Em artigo publicado em 1932, sobre a sociologia norte-americana, Mannheim, por exemplo, já alertava os seus leitores sobre as limitações que o “ascetismo metodológico”, ou “complexo de exatidão”, podia representar para o desenvolvimento das ciências sociais que, fundamentalmente indutivas, sujeito e objeto estão reciprocamente referidos, comprometidos. Mais do que isso, o sujeito pode ser coletivo, em Marx é o próprio objeto. Nessas ciências o processo de conhecimento precisa conhecer o tempo todo que o sujeito e o objeto se conhecem, se reconhecem, mas se constituem em movimento, devir, atravessados por diversidades, desigualdades, antagonismos. Pensam-se e imaginam-se, agem e fabulam, formulam alvos e inventam utopias. Nas ciências sociais as relações entre teoria e realidade não são inocentes, como ordem vigente e devir, há sempre indícios de forte cumplicidade.

O deslocamento imaginário nas práticas de poder, produzido por uma constante busca de mais eficiência e menos entraves, é o que demarca a descontinuidade no plano histórico do século XX sob os aspectos da biopolítica e do biopoder em relação ao dinamismo e a economia inerente ao seu exercício. A regulação dos indivíduos e a administração das populações, característica do exercício da disciplina sobre os corpos, dá lugar a uma nova dinâmica social de normalização eficaz e sutil com a simulação e a virtualização como efeitos de poder na gestão da vida social, condicionada a formação do indivíduo na expressão diferenciada de estratificação social e de classes sociais. A configuração do Eu como condição do indivíduo se dá de maneira ambivalente, seja nas formas de relação consigo mesmo, nos jogos de linguagem ou regras segundo as quais, a proposito de algumas coisas, um sujeito pode dizer algo relevante de discernimento e historicidade ente o falso e o verdadeiro no condicionamento das possibilidades de poder tornar-se um objeto de pensamento e ser problematizado na dinâmica de normalização e de processo de transformação do indivíduo em sujeito como método de agir e pensar.

Desde a questão da produção de poder e domínio sobre o corpo em torno de Michel Foucault, sabemos que na verdade, a passagem de uma criminalidade de sangue para uma criminalidade de fraude faz parte de todo um mecanismo complexo, onde figuram o desenvolvimento da produção, o aumento das riquezas, uma valorização jurídica e moral maior das relações de propriedade, métodos de vigilância mais rigorosos, um policiamento mais estreito da população, técnicas mais bem-ajustadas da descoberta, de captura, de informação: o deslocamento das práticas ilegais é correlato de uma extensão e de um afinamento das práticas punitivas. O que se vai definindo não é tanto um respeito “novo” pela humanidade dos condenados – os suplícios são frequentes, mesmo para crimes leves – quanto uma tendência para uma justiça mais desembaraçada e mais inteligente para uma vigilância penal mais atenta ao corpo social. Um processo circular quando se eleva o limiar da passagem para os crimes violentos, também aumenta a intolerância aos delitos econômicos, os controles ficam mais rígidos, as investigações penais se antecipam e se tornam mais numerosas. O que eles atacam na justiça tradicional, antes de estabelecer os princípios de uma nova penalidade, é mesmo o excesso de castigo, mas um excesso que está mais ligado a irregularidade que a um abuso do poder de punir.

A má economia do poder e não tanto a fraqueza ou a crueldade é o que ressalta da crítica dos reformadores. Poder excessivo nas jurisdições inferiores que podem, ajudadas pela pobreza e pela ignorância dos condenados, negligenciar as apelações de direito e mandar executar sem controle sentenças arbitrárias; poder excessivo do lado de uma acusação á qual são dados quase sem limite meios de prosseguir, enquanto que o acusado está desarmado diante dela, o que leva os juízes a ser, às vezes severos demais, às vezes, por reação, indulgentes demais; poder excessivo para os juízes que podem se contentar com provas fúteis se são “legais” e que dispõem de uma liberdade bastante grande na escolha da pena; poder excessivo dado á “gente do rei”, não só em relação aos acusados, mas também aos outros magistrados; poder excessivo enfim exercido pelo rei, pois ele pode suspender o curso da justiça, modificar suas decisões, cassar os magistrados, revoga-los ou exilá-los, substituí-los por juízes por comissão real. A paralisia da justiça está ligada menos a um enfraquecimento que a uma distribuição mal regulada do poder, a sua concentração em um certo número de pontos e aos conflitos e descontinuidades que daí resultam. A reforma do direito criminal deve ser lida na estratégia para o remanejamento do poder de punir, com modalidades que o tornam regular, mais eficaz, mais constante e mais bem detalhado em seus efeitos; enfim, que aumentem os efeitos diminuindo o custo econômico e seu custo político. Desde o século XVIII assinala monsieur Foucault, “vemos se formar uma nova estratégia para o exercício do poder castigar”.

Bibliografia geral consultada.

THOMPSON, Edward Palmer, Tradición, Revuelta y Consciencia de Clase: Estudios sobre la Crisis de la Sociedad Preindustrial. Barcelona: Editorial Crítica, 1979; LUHMANN, Niklas, Risk: A Sociological Theory. New Brunswick; New Jersey: Translation Publishers, 2009; CORDEIRO, Ivana Oliveira, Accountability e seu Impacto na Qualidade da Atividade Policial na Segurança Pública. Dissertação de Mestrado. Programa de Estudos, Pesquisas e Formação em Políticas e Gestão de Segurança Pública. Faculdade de Direito. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2014; HIDALGO, Yaremis da Trinidade; CRUZ, Yenisey López, “La Hermenéutica en el Pensamiento de Wilhelm Dilthey”. In: Griot - Revista de Filosofia. Santiago de Cuba.  Volume 11, n°1, junho de 2015; LIMA, Humberto Alves de Vasconcelos, Entre o Saber e o Segredo: Uma Leitura Realista da Tolerância da Espionagem Internacional na Era do Medo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Faculdade de Direito. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2017; JONES, Gareth Stedman, Karl Marx: Grandeza e Ilusão. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2017; SANTOS, Fernando Cesar dos, Liberdade, Progresso e Revolução: Concepções Estéticas, Culturais e Historiográficas na Obra Os Miseráveis (1862). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2017; NOGUEIRA, Maria das Dores Pimentel, A Participação da Extensão Universitária no Processo de Descolonização do Pensamento e Valorização dos Saberes na América Latina. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação. Belos Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2019; VASCONCELOS, Fabíola Mendonça de, Mídia e Conservadorismo: O Globo, a Folha de S. Paulo e a Ascensão Política de Bolsonaro e do Bolsonarismo. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2021; FARIA, Renato Maia, Análise Econômica do Direito à Segurança Pública no Brasil. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Escola de Direito. Curitiba: Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 2021; entre outros. 

terça-feira, 16 de março de 2021

E. P. Thompson - Fazer-se Pessoa & Consciência de Classe.


      “A relação precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais”. E. P. Thompson

            Edward Palmer Thompson (1924-1993) foi provavelmente o historiador marxista de maior repercussão nas lutas operárias ocorridas no continente europeu no século XX. Seu livro A Formação da Classe Operária Inglesa é reconhecido como clássico da historiografia marxista. Como humanista foi dedicado ativista da paz, tendo atuado no British Peace Committee e lutado contra as guerras da Coréia, Quênia, Malásia, Chipre e Argélia. Ingressou no Partido Comunista durante a 2ª guerra mundial (1939-1945). Após a revolta na Hungria deixou o Partido e fundou a revista socialista humanista New Reasoner que após fundir-se com outra publicação deu origem ao New Left Review. Em sua démarche para pôr fim a chamada Guerra Fria, Thompson passou uma década como “um embaixador itinerante no circuito internacional da paz”. Thompson nasceu na cidade de Oxford, na Inglaterra, em uma família de missionários metodistas, o que lhe possibilitou o contato social com a religião, a diversidade cultural e a “marginalidade de massa”, as quais podem ter influenciado as suas convicções. Seus anos de formação prática e teórica foram realizados no colégio Corpus Christi, em Cambridge, estabelecido em 1352 pela Guild of Corpus Christi e pela Guild of the Blessed Virgin Mary o que significa que é o sexto College mais antigo em Cambridge, época em que, aos 17 anos de idade se tornou militante, entendido como aquele membro que está em exercício ativo, desempenhando uma atividade dentro do Communist Party of Great Britain (CPGB).

O partido comunista foi criado em 1920 após a fundação da Terceira Internacional (1919), como fruto das tentativas maiores de estabelecer Partidos Comunistas pelo mundo globalizado. O CPGB foi formado pela união de vários partidos marxistas: o Partido Socialista Britânico, o Grupo de Unidade Comunista do Partido Trabalhista Britânico e a Sociedade Socialista Sul-Galesa. Sendo eleito Arthur McManus como primeiro presidente do partido. Após a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas no ano 1991, a última presidente do partido comunista, Nina Claire Temple. Nasceu em Westminster, Londres, filha de Barbara J. (Rainnie) e Landon Roy Temple. Nascida em uma família comunista, seu pai dirigia a Progressive Tours e era membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha, ela se juntou à Young Communist League quando tinha 13 anos, mais tarde protestando em Londres contra a Guerra do Vietnã.  No final dos anos 1970, ela foi secretária geral da Liga dos Jovens Comunistas e se tornou um membro proeminente do agrupamento eurocomunista dentro do partido. Ela se tornou membro do Executivo do CPGB em 1979, e depois membro do Comitê Político em janeiro de 1982. Foi assessora de imprensa e publicidade de janeiro de 1983 a 1989, quando se tornou a última secretária geral do partido em janeiro de 1990, aos 33 anos. Ela prometeu torná-lo “feminista e verde, bem como democraticamente socialista”. Temple tornou-se um dos proponentes da dissolução do PCGB em novembro de 1991 e da fundação de seu sucessor legal, o Democrata. Esquerda.

Edward Palmer Thompson formou-se em história na Universidade de Cambridge, em 1946. No interior da universidade, constituiu um núcleo de pensamento social e estudos em torno dos Marxistas Humanistas, integrado por historiadores notáveis como Christopher Hill, Raymond Willians, Raphael Samuel, John Saville, Eric Hobsbawm, Dorothy Thompson, entre outros. A convivência com esse grupo magnífico de intelectuais despertou nele o interesse social e o desejo real de se tornar um historiador profissional da classe operária. Edward Thompson não fez carreira acadêmica tradicional, mas lecionou como professor convidado em diversas universidades. Aos 24 anos, foi admitido na Universidade de Leeds, onde atuou como docente em cursos “não acadêmicos”, mas que historicamente e de certa forma estes cursos passaram a ser chamados erroneamente “cursos de extensão”, cujas aulas eram frequentadas por homens e mulheres comuns, trabalhadores de diversos ofícios profissionais quando ele teve na educação de trabalhadores adultos a sua forma privilegiada de inserção propriamente educacional. Ele conquistou espaço e lugar para poder lecionar por considerável tempo e espaço singular em diversas Universidades. Mas sua experiência acadêmica mais gratificante ocorreu na Universidade de Leeds, quando se dedicou à elaboração de cursos noturnos especificamente para a formação da classe trabalhadora. A história da Universidade está ligada com o desenvolvimento de Leeds como um centro  de indústria têxtil na Era Vitoriana. Suas raízes remontam ao século XIX, e antes na educação superior, somente quatro universidades: Oxford, Cambridge, London e Durham na Inglaterra.

   

A universidade tem origem em 1824 quando o Instituto de Mecânica de Leeds foi fundado. O instituto mais tarde passou a se chamar Instituto de Ciência, Arte e Literatura de Leeds e em 1927 mudou de nome para Colégio de Tecnologia de Leeds. Em 1970, o colégio se uniu com o Colégio de Comércio de Leeds, fundado em 1845, parte do Colégio de Arte de Leeds, fundado em 1846 e o Colégio de Educação e Economia Doméstica de Yorkshire, fundado em 1874, formando a extraordinária Politécnica de Leeds. Em 1976, o Colégio de James Graham e o Colégio de Educação da Cidade de Leeds, fundado em 1907 como parte do Colégio de Treinamento da Cidade de Leeds, se uniram a Politécnica de Leeds. Em 1987, a Politécnica de Leeds se tornou um dos membros fundadores do Northern Consortium. Após o Further and Higher Education Act passar a valer institucionalmente em 1992, a Politécnica de Leeds se tornou Universidade Metropolitana de Leeds, com o direito de conceder graus acadêmicos. Em 1998, a universidade se reuniu ao Colégio de Harrogate, estabelecendo o campus de Harrogate até 2008, quando o colégio se uniu ao Colégio de Hull. Em 2008, a universidade criou uma petição para mudar para Universidade de Leeds Carnegie; eventualmente desistiram da mudança regimental. Em 2009, uma parceria com a Universidade da Flórida do Norte foi criado um programa de intercâmbio de estudantes. A universidade também tem um Acordo com o Colégio de Bradford para validar graus acadêmicos para o colégio. O nome é recente e adotado em setembro de 2014.

Desta experiência, ao lado de Raymond Williams e Richard Hoggart (cf. Cunha, 2014), nasceram as raízes teóricas dos “estudos culturais” quando faz profunda imersão sobre a natureza da pedagogia, pretendendo, com estas “mediações complexas” sobre a educação, possibilitar a transcendência dos padrões culturais representados pela elite social e política. A transição de uma escola pública frequentada por filhos do operariado para uma grammar school era um sinal de mudança, porque significaria, desde logo, que Hoggart iria frequentar, um dia, uma universidade. O futuro financiamento através de uma bolsa da LEA permitiria que Hoggart viesse a integrar o Departamento de Inglês na Universidade de Leeds, tornando-se aluno de Bonamy Dobrée, amigo pessoal do poeta inglês Thomas S. Eliot. Depois de servir na II Guerra Mundial, no Norte de África e em Itália, onde ensinou os soldados que aguardavam pela desmobilização, Hoggart juntou-se ao Departamento de Extra-Mural Studies da Universidade de Hull, onde permaneceu até 1959, como “tutor de educação para adultos”. O declínio cultural na classe trabalhadora do pós-guerra diagnosticado e criticado na sua obra coloca-o no quadro de pensamento teórico da tradição em torno do tema “Cultura e Sociedade”, cartografada por Raymond Williams que desta parceria multidisciplinar elaborou o mapa dessa tradição, de 1780 a 1950, de Edmund Burke a George Orwell, com base no princípio segundo o qual a ideia moderna de cultura surgiu no pensamento inglês com a Revolução Industrial, e sendo, portanto, classe, cultura, indústria, democracia e arte coordenadas que são inseparáveis. Segundo Patrick Brantlinger, Hoggart encontra-se, no quadro da tradição “cultura & sociedade”, na temporalidade empirista britânica etnográfica, onde se incluem Henry Mayhew, Charles Dickens, Benjamin Disraeli, Elizabeth Gaskell e Friedrich Engels.

            Edward Thompson desejava estabelecer uma rede de interação social profissional entre aprendizes e mestres, e sua subversione contra a ordem social, transformando as metodologias desenvolvidas nas escolas de tradição como o principal meio de aprendizado. Assim, ele destacava o talento individual (teoria) e a vivência da pessoa (prática) como um como um dos elementos essenciais na elaboração de uma didática disciplinar para a formação da consciência. O historiador mantém seu ponto de vista teórico centrado na formação da classe trabalhadora, argumentando que a démarche coletiva desta fração da classe trabalhadora não é empreendida apenas no sentido econômico, mas principalmente na edificação de suas vivências históricas. Thompson lecionou na Universidade de Warwich, de 1965 a 1971. Mas durante a década de 1970 também ministrou aulas e conferências temáticas para as Universidades norte-americanas de Pittsburg, Rutgers, Brown, e Dartmoth College. Na década de 1980 ele se engajou no movimento pacifista antinuclear. Em 1988 retomou a carreira acadêmica, assumindo o magistério no Queen`s University de Kingston, no Canadá.
           Mas retorna à Londres, para lecionar na Universidade de Manchester. Entre 1989 e 1990 ele atuou na Universidade de Rutgers, Universidade Estadual de Nova Jérsei, a maior instituição de ensino superior de Nova Jérsei, Estados Unidos da América. É também a oitava universidade fundada nos Estados Unidos da América, tendo originalmente recebido o nome de Queen`s College em 1766. Thompson morreu aos 69 anos, no dia 28 de agosto de 1993, na cidade inglesa de Worcester,  localizada no condado de Worcestershire, localizada na região de Midlands Ocidental. Uma grande atração na história da religião da cidade e do país é a Catedral de Worcester. oficialmente denominada The Cathedral Church of Christ and the Blessed Virgin Mary, é uma catedral anglicana; situa-se no alto de uma das margens do rio Severn e foi fundada em 680.

Para refletir acerca das contribuições de Edward Thompson para a pesquisa no campo da formação abstrata de professores implica explicitar as principais categorias exploradas pelo autor que se referem essencialmente as noções conceituais de experiência, cultura e classe social. Comecemos então, metodologicamente, pelo emprego conceitual de classe, e portanto, no fazer-se, enquanto consciência histórica da classe trabalhadora inglesa. Por “classe”, afirma E. P. Thompson, em seu prefácio da trilogia: A Formação da Classe Operária Inglesa (1987; 204 páginas; 1987; 347 páginas; 1987; 440 páginas) “entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência”. Mas ressalta que é um fenômeno histórico. Distanciando-se no marxismo estruturalista de Louis Althusser (cf. Thompson, 1981), o que nos dispensa comentários, pois não compreende a classe como uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. Ademais, a noção de classe, se já não é um truísmo, desde o pensamento clássico e Marx e Engels, carrega consigo a noção de relação histórica. Como qualquer outra relação, é algo fluido que escapa à análise ao tentarmos imobilizá-la num dado momento e dissecar a estrutura. A primeira crítica veemente ao conceito é a seguinte: - A mais “rede sociológica” não consegue nos oferecer um exemplar puro de classe, como tampouco um do amor ou da submissão. Seu argumento sobre a classe é empírico, de tradição inglesa, pois “a relação precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais”. Além disso, não podemos ter duas classes distintas, cada qual com um ser independente, colocando-as em relação recíproca. 

        A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (cf. Thompson, 1979; 1998), herdadas ou partilhadas, sentem e articulam a identidade de interesses, contra outros homens cujos interesses diferem, e geralmente se opõem dos seus. experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente.É neste sentido que para Thompson a consciência de classe representa a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais, sendo vistas como “encarnadas em tradições, sistema de valores, ideias e formas institucionais”. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. E neste sentido a particularidade é a seguinte. Podemos entender uma lógica nas reações de grupos profissionais semelhante que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma. Além disso, existe uma tentação generalizada em se supor que “a classe é uma coisa”. Não era esse o significado utilizado por Marx, em seus escritos históricos, ou de análise de conjuntura, mas o erro deturpa muitos textos aparentemente marxistas contemporâneos. Fora do nível empírico de análise, “ela”, a classe operária, é tomada como tendo existência real, capaz de ser definida quase matematicamente – uma quantidade de homens que se encontra numa certa proporção com os meios de produção. 

           Esta “classe dirigente” ou dominante estava, ela própria, muito dividida em suas frações, e de fato só conseguiu maior coesão nesses mesmos anos porque certos antagonismos de classe no sentido estrutural do termo, realmente se dissolveram ou se tornaram insignificantes frente a uma classe operária que estava se originando de forma insurgente no plano das nações. Uma vez isso assumido torna-se possível deduzir a consciência de classe que “ela” deveria ter (mas raramente tem), se estivesse adequadamente consciente de sua própria posição e interesses reais. Evidentemente, a questão é como o indivíduo veio a ocupar esse “papel social”, na falta de melhor expressão, e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Essas são questões históricas. Se determos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas ao examinarmos esses homens num período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas ideias e instituições. A classe social é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história e, ao final, esta é sua única definição. Thompson observa que entre os anos 1780 e 1832 os trabalhadores ingleses em sua maioria vieram a sentir uma “identidade de interesses entre si”, e contra seus dirigentes e empregadores. A presença operária em 1832, foi o fator histórico e sociológico determinante como nível concreto estrutural e de classe mais significativo da vida política britânica. 

        Na trilogia de Edward Palmer Thompson, “Árvore da liberdade” (I); “Maldição de adão” (II) e sobre “A força dos trabalhadores” (III), assim está a sua forma de exposição. Na Parte I, Thompson faz o resgate das tradições populares vigentes no século XVIII que influenciaram a fundamental agitação jacobina dos anos 1790. Na Parte II, as experiências de grupos de trabalhadores durante a Revolução Industrial, enfatizando o caráter da nova disciplina industrial do trabalho e da posição, a esse respeito, da Igreja Metodista. Na Parte III, recolhe aspectos da história social e da emergência do “radicalismo plebeu”, levando-a através do luddismo à época heroica no final das guerras napoleônicas. Finalmente, Edward Thompson apresenta na exposição, last but not least, alguns aspectos da teoria política e da consciência de classe nos anos 1820 e 1830 que alterou “as atitudes subpolíticas do povo, afetou os alinhamentos de classe e iniciou tradições que se prolongam até o século atual”. O que é válido para divisão manufatureira do trabalho na oficina vale também para a divisão do trabalho na sociedade. Enquanto artesanato e manufatura constituem a base geral da produção social, a subsunção do produtor a um ramo exclusivo da produção, a supressão da diversidade original de suas ocupações é um momento necessário do desenvolvimento. Sobre essa base, cada ramo particular da produção encontra empiricamente a configuração técnica que lhe corresponde, aperfeiçoa-a lentamente e, num certo grau de maturidade, cristaliza-a rapidamente. Além dos matérias de trabalho do comércio, a única coisa que provoca modificações aqui e ali é a variação gradual do meio de trabalho. 

Uma vez alcançada a forma adequada à experiência, também ela se ossifica, como o comprova sua transmissão, muitas vezes milenar, de uma geração a outra. O princípio da “grande indústria”, na expressão de Marx, a saber, o de dissolver cada processo de produção em seus elementos constitutivos, e, antes de tudo, fazê-lo sem nenhuma consideração para com a mão humana, criou a mais moderna ciência da tecnologia. As formas variegadas, aparentemente desconexas e ossificadas do processo social de produção se dissolveram, de acordo com o efeito útil almejado, nas aplicações conscientemente planificadas e sistematicamente particularizadas das ciências naturais. Em contraposição com os anos radicais que a precederam e os anos cartistas que a sucederam, a década de 1820 parece estranhamente calma, como diz Thompson, “um planalto mansamente próspero de paz social”. Mas, muitos anos depois, um verdadeiro londrino advertiu Mayhew: - as pessoas imaginam que, quando tudo está quieto, está se estagnando. O propagandismo continua apesar disso. É quando tudo está quieto que a semente cresce, os republicanos e socialistas levam à frente suas doutrinas”. Esses anos calmos formam a luta de Richard Carlile pela liberdade de imprensa; da força sindical e revogação das Leis de Associação; do crescimento do livre pensamento; da experiência cooperativa e da teoria owenista. 

São anos em que grupos sociais e indivíduos tentaram teorizar as experiências gêmeas descritas por Thompson sobre a Revolução Industrial e a experiência do radicalismo popular insurgido e derrotado. E, no final da década, quando a luta entre a Velha Corrupção e a Reforma atingiu o seu clímax, é possível fala de uma nova forma de consciência dos trabalhadores em relação aos seus interesses e à sua situação enquanto classe.  É neste sentido determinado, que Thompson teoriza o que chama de “radicalismo popular daqueles anos como uma cultura intelectual. Isto é, a consciência articulada do autodidata era sobretudo uma consciência política. Representou a primeira metade do século XIX, quando a educação formal de grande parte do povo se resumia a ler, escrever e contar, como havia reiterado Marx. Mas não foi absolutamente um período de atrofia intelectual. As vilas, assim como as aldeias, ressoavam com a energia dos autodidatas. Dadas as técnicas de alfabetização, os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes e mestres-escolas punham-se a aprender por conta própria, individual ou em grupo. E os livros ou instrutores eram os que contavam com a aprovação da opinião reformadora. 

A Partir de sua própria experiência e com o recurso à sua instrução errante e arduamente obtida, os trabalhadores formaram fundamentalmente político da organização da sociedade.  Mas a capacidade de operar com a razão argumentos abstratos e sucessivos não era absolutamente inata; tinha de ser descoberta à custa de dificuldades quase esmagadoras, tendo em vista a falta de tempo livre, o preço das velas (ou dos óculos), além das carências de formação. Nos inícios do movimento radical, às vezes empregavam-se ideias e termos que, evidentemente, tinham um valor mais fetichista do que racional para alguns adeptos fervorosos. Essas evidências relativas à instrução alcançada por operários nas duas primeiras décadas do século servem apenas para mostrar que as generalizações são tolas. O ludismo foi um movimento que ocorreu na Inglaterra durante o século XVIII, onde os luddistas quebravam as máquinas como forma de protesto frente as más condições de trabalho. Na época luddista quando poucos não-operários teriam apoiado suas ações, as mensagens anônimas variam desde autoconscientes sobre a “liberdade com seus Sorridentes Atributos” até pichações quase ilegíveis. Se as Sociedades Bíblicas e da Escola Dominical não foram frequentadas outro bem, observou Sherwin, “pelo menos produziram um efeito benéfico – foram o meio de ensinar muitos milhares de crianças a ler”. 

As cartas de Brandreth e sua mulher, dos conspiradores da Caio Street e outros prisioneiros do Estado dão-nos alguma ideia sobre aquele grande espaço entre as realizações dos artesãos qualificados e as dos semiletrados. Ao que parece, todos os prisioneiros da Caio Street sabiam escrever, de uma ou outra forma. A despeito da repressão a partir de 1819, a tradição de manter salas de notícias, às vezes associadas à loja de um livreiro radical, continuou pelos anos 1820. Em Londres, depois da guerra, houve uma proliferação de cafés, muitos com essa dupla função.  Em 1833, o famoso Café e Sala de Notícias de John Doherty, anexo à sua livraria em Manchester, recebia semanalmente nada menos de noventa e seis jornais, inclusive os ilegais “não-franqueados”. Nas aldeias e vilas menores, os grupos de leitura eram menos formais, mas não menos importantes. Às vezes encontravam-se em estalagens, “bares ilegais” ou casas particulares; às vezes, o periódico era lido e discutido na oficina. O preço alto dos periódicos, durante a época dos “impostos sobre o conhecimento” mais pesados, levou milhares de arranjos ad hoc, em que pequenos grupos faziam uma arrecadação para comprar o jornal escolhido. Esta era a cultura, com suas ávidas disputas em torno das bancas de livros, nas tavernas, oficinas e cafés, que Shelley saudou em sua “Canção aos Homens da Inglaterra”, e onde amadureceu o gênio literário de Charles Dickens. Mas seria um erro vê-la como um único “público leitor” indiferenciado. Podemos dizer que existiam vários “públicos” diferentes que se entrechocavam e se sobrepunham, mas, no entanto, organizados segundo princípios diversos. Entre os mais importantes estavam o público comercial, puro e simples, que podia ser explorado em períodos de excitação radical, mas atendido apenas menos organizados, em torno das Igrejas ou dos Institutos de Artes e Ofícios; o público passivo que as sociedades de aperfeiçoamento tentavam conquistar e redimir; e o público radical ativo que se organizou frente às Seis Leis e os impostos sobre o conhecimento. 

A luta para este último público foi admiravelmente apresentada por W. D. Wichwar, em A Luta pela Liberdade de Imprensa. Segundo Thompson, “talvez não exista nenhum país no mundo onde a disputa pelos direitos da imprensa tenha sido tão áspera, tão enfaticamente vitoriosa e tão particularmente identificada com a causa dos artesãos e diaristas”.  A maioria dos motins em teatros do início do século XIX tinha um certo toque radical, mesmo que expressasse apenas o simples antagonismo entre barracas e deuses. A vitalidade do teatro plebeu não era acompanhada por um correspondente mérito artístico. A influência mais positiva sobre a sensibilidade dos radicais proveio não tanto dos pequenos teatros, e sim da revivescência shakespeariana – Hazlitt, Wooler, Bamford, Cooper e uma série de jornalistas radicais e cartista autodidatas tinham como praxe coroar seus argumentos com citações de Shakespeare. O aprendizado de Wooler fora com a crítica dramática; ao passo que o jornal estritamente sindicalista Trades Newspaper começou, em 1825, com uma seção de crítica teatral e também uma coluna de esportes. Mas houve uma arte popular que, entre 1780 e 1830, atingiu um auge de complexidade e qualidade – o cartum político. A cultura do teatro e da oficina de cartuns foi popular num sentido mais amplo do que a cultura literária dos artesãos radicais. A estrutura do caráter puritano sustenta a seriedade moral e a autodisciplina que permitiram aos homens trabalhar à luz de vela depois de um dia inteiro de labor. Mas podemos fazer duas ressalvas importantes. 

A primeira é que o metodismo foi uma influência fortemente antiintelectual, da qual a cultura popular britânica nunca se recuperou totalmente. O círculo ao qual Wesley restringiria a leitura de metodistas era bastante estreito; o principal de uma biblioteca metodista consistiria de suas próprias obras e sua série pessoal de compilações e resumos. No início do século XIX, os pregadores locais e líderes de classe foram estimulados a ler mais: reedições de Baxter, a hagiografia do movimento ou os “volantes de Missionary Register”. Mas a poesia era suspeita, e a filosofia, a crítica bíblica ou a teoria política eram tabus. Todo o peso do ensinamento metodista recaía sobre o caráter abençoado dos “puros do coração”, independentemente do seu nível ou grau de instrução. Foi o que deu à Igreja seu apelo espiritual igualitário. Mas também alimentou as justificativas filistinas dos semiletrados. Se a investigação intelectual (pesquisa social) foi desestimulada pelos Metodistas, a aquisição de conhecimento útil podia ser considerada piedosa e cheia de mérito. A ênfase, evidentemente, recaia sobre o uso. A disciplina de trabalho, por si só, não bastava; era necessário que a força de trabalho progredisse para níveis de realização mais sofisticados. O velho argumentou oportunistas baconiano – que não pode existir nenhum mal no estudo da natureza, a qual é a evidência visível das leis de Deus - fora agora assimilado dentro da apologia cristã. Daí brotou aquele fenômeno curioso do início da cultura vitoriana, o pastor não-conformista com a mão no Antigo Testamento e o olho no microscópio. Os efeitos dessa conjunção já se fazem sentir na cultura operária da década de 1920. 

As ciências botânica, biologia, geologia, química, matemática e, particularmente, as ciências aplicadas, os metodistas viam-na com negatividade, desde que essas investigações não se misturassem com política ou filosofia especulativa. O mundo sólido, estatístico, intelectual que vinham construindo os utilitaristas era compatível também com a Assembleia Metodista. Também compilavam suas tabelas estatísticas do comparecimento na escola dominical, e Jabez Bunting ficaria feliz se pudesse calcular os graus de graça espiritual com a mesma precisão com que Chadwick calculava a dieta mínima que sustentaria o pobre com força suficiente para trabalhar. Vale lembrar que Chadwick era ligado a Stuart Mill e Jeremy Bentham, e mantinha amplos contatos com os líderes da burguesia liberal de seu tempo, que contavam com um projeto político bastante claro e que passou a incluir uma reforma sanitária. Ainda que não representasse um profissional de saúde, Chadwick era político e administrador, e sua obra e atuação política refletem toda uma maneira de pensar o processo saúde-doença. Por sua orientação filosófica marcadamente positivista, Chadwick e seu grupo viam a determinação social da doença não como fruto das contradições políticas e sociais do capitalismo.

Neste ínterim veio a aliança entre não-conformistas e utilitaristas sobre a prática pedagógica e a divulgação do conhecimento “aperfeiçoador”, ao lado de exortações piedosas. Nesta década está firmemente estabelecido esse tipo de literatura, onde as admoestações morais (e relatos das orgias bêbadas de Tom Paine em seu leito de morte solitário) aparecem ao lado de pequenas notas sobre a flora venezuelana, estatísticas sobre o número de mortes no terremoto de Lisboa, receitas de verduras cozidas e considerações sobre hidráulica. Nos anos pós-guerra, Hunt e Cobbett insistiram mito no apelo à abstinência de todos os artigos taxados, e particularmente nas virtudes da água em comparação ao álcool é à cerveja. A sobriedade dos metodistas foi o primeiro (e único) atributo de sua seita que Cobbett achou louvável: - “considero a embriaguez como a raiz de bem mais da metade dos males, misérias e crimes que afligem a sociedade”. Nem sempre era esse o tom Cobbett; em outras ocasiões, podia lamentar o preço da cerveja para o diarista. Mas, em mitos pontos, encontrar-se-ia uma meticulosa correção moral generalizada. Era, em particular, a ideologia do artesão ou do trabalhador qualificado frente à impetuosa maré não-qualificada. É o que se encontraria no relato de Carlile sobre seus primeiros anos de homem adulto: - sempre detestei a cervejaria (...) achava que um homem (...)   seria tolo se não aplicasse corretamente cada xelim”. Denunciados em sátiras legalistas e púlpitos religiosos como exemplos ignominiosos de todos os vícios, buscavam mostrar-se com um caráter irrepreensível, ao lado de suas opiniões não-ortodoxas. 

Lutaram contra as lendas legalistas da França revolucionária, apresentada como uma cozinha de ladrões sanguinários, cujos Templos da Razão eram bordeias. Eram particularmente sensíveis a qualquer acusação de indecência sexual, má conduta financeira ou falta de apego às virtudes familiares. Carlile publicou em 1830 um livrinho de homilias, O Moralista, ao passo que o Conselho aos Jovens de Cobbett , comparativamente, não passava de um ensaio, talvez  mais entusiástico, e de leitura mais amena, sobre os mesmos temas da industriosidade, perseverança e independência. Dorothy Thompson foi uma importante historiadora especialista no movimento cartista. Nascida em Greenwich, sudeste de Londres, Dotothy ingressou no Girton College, Cambridge, em 1942. Durante a guerra, seu trabalho como desenhista industrial para a Royal Dutch Shell interrompeu sua educação formal. Ipso facto, ela continuou a seguir carreira na história social e era politicamente ativa. Ela se juntou aos Jovens Comunistas, casou-se com o historiador Edward Thompson em 1948 e mudou-se para Halifax, onde Edward trabalhou na educação de adultos e ambos eram ativos no movimento pela paz. Com o marido EP Thompson, ela fazia parte do grupo dissidente do Partido Comunista da Grã-Bretanha, que em 1956-7 fundou o jornal humanista socialista New Reasoner, onde sua competência significava que seu papel principal era uma espécie de “gerente de negócios”. Embora tenha achado o rompimento com o Partido Comunista certamente doloroso, ela se inspirou trabalhando com escritores, artistas, historiadores e sindicalistas na formação de novos clubes de esquerda em muitas cidades irradiadas; ela admirava figuras como o campeão dos mineiros escoceses Lawrence Daly e a operária Gertie Roche.

Em 1970, Dorothy foi nomeada professora da Escola de História da Universidade de Birmingham, onde permaneceu até 1988. Ela também foi bolsista visitante em várias ocasiões em universidades nos Estados Unidos da América, bem como no Canadá, China e Japão. The Early Chartists (1971) foi uma coleção de documentos inovadora. The Chartists (1984) expôs todas as maneiras pelas quais Dorothy Thompson procurou revisar como o cartismo era visto - desde os líderes irlandeses até a contribuição vital das mulheres. Em janeiro de 1995, Thompson foi presenteado com um comemorativo, The Duty of Discontent. Editado por Owen Ashton, Stephen Roberts, ambos seus ex-alunos, e Robert Fyson, o volume consiste em 12 ensaios abrangendo toda a gama principal da história social britânica dos séculos XIX e XX. O título foi tirado de uma palestra do poeta cartista Thomas Cooper. Seu trabalho, como o do marido, sempre foi marcado por um radicalismo apaixonado e uma profunda simpatia pelos trabalhadores oprimidos. A posição crítica de Thompson como historiadora mais influente do cartismo foi reforçada por dois volumes de ensaios: Outsiders (1993) e The Dignity of Chartism (2015). Ela era um dos principais membros do Grupo de Historiadores do Partido Comunista. Ela nasceu Dorothy Towers em Greenwich, Sudeste da extraordinária capital Londres. A partir de 1942, estudou história no Girton College, Cambridge, onde foi muito ativa no Partido Comunista e participou de reuniões do grupo de historiadores do Partido Comunista. 

Em 1945, ela começou uma história de amor no longo decorrer da vida com o colega historiador, Edward Palmer Thompson. Depois de ajudar a construir a ferrovia na Iugoslávia de Tito, eles se casaram e se estabeleceram em Halifax, West Yorkshire, onde lecionaram em educação extramuros para adultos. O primeiro esforço organizacional de Dorothy foi promover uma campanha para manter abertos os viveiros de guerra no final dos anos 1940. A historiadora Dorothy Thompson, que morreu aos 87 anos, era reconhecida por seus escritos sobre os aspectos sociais e culturais do movimento cartista do século XIX. Seu interesse pela luta dos trabalhadores e mulheres pelos direitos foi despertado durante seus dias de escola no subúrbio de Bromley, Kent, quando ela era ativa em um grupo de jovens comunistas, e foi aprofundado por seu longo envolvimento na política radical. Como resultado, ela trouxe uma compreensão complexa do processo de organização para seu trabalho histórico. Sempre alerta, Dorothy sondou sob a superfície externa das evidências. Os resultados foram inovadores. Os documentos que editou em The Early Chartists (1971) trouxeram à vida social o intenso e perigoso mundo interior das reuniões da classe trabalhadora, convenções e jornais, enquanto The Chartists (1984) revelou áreas muito negligenciadas, como o envolvimento da classe média, o papel das mulheres e esquemas de assentamento de terras. Sua coletânea intitulada Outsiders: Class, Gender and Nation (1993) demonstrou uma compreensão bem articulada de erudição exigente e clareza conceitual que a levou a ser admirada por especialistas e também por alunos gratos de história de nível A.

Em 1956, ela fez parte do grupo dissidente do Partido Comunista que criou o jornal socialista humanista New Reasoner. Caracteristicamente, sua competência significava que ela era designada “gerente de negócios”, embora também lesse os manuscritos enviados. A ruptura com o Partido Comunista foi dolorosa, mas também trouxe esperança na criação de uma nova esquerda. Dorothy trabalhou com escritores, artistas, historiadores e sindicalistas que estavam formando os novos clubes de esquerda em muitas cidades. Entre os que ela admirava estavam o campeão dos mineiros escoceses Lawrence Daly e a operária Gertie Roche. - Conheci Dorothy no início da década dos anos 1960. Discutir história e ideias com ela me influenciou profundamente e fiquei intrigado em conhecer uma mulher que era mãe, além de ativista e intelectual. Ela havia deixado de lado seus escritos históricos porque tinha três filhos, mas continuou a dar aulas na educação de adultos e era ativa na Campanha pelo Desarmamento Nuclear. Recusando-se a desistir da possibilidade de uma nova rede de esquerda, ela ajudou a redigir o Manifesto do Dia de Maio, publicado pela Penguin em 1968. Em 1980, ela propôs mais uma tentativa de unir a esquerda, o Leeds conferência de movimentos populares que se reuniu após a publicação de Beyond the Fragments. Em 1982, editou a coleção Sobre Nossos Corpos Mortos: Mulheres Contra a Bomba, que surgiu de seu ativismo no movimento pelo desarmamento nuclear europeu. Seu ensaio no livro Defend Us Against Our Defenders ecoou  um apelo urgente por democracia e tolerância, e ela insistia: - “Cada um de nós está envolvido”.

A partir de 1968, Dorothy trabalhou no departamento de história da Universidade de Birmingham; uma professora popular, cuidadosa e exigente, ela inspirou um grupo impressionante de graduados. Alguns contribuiriam para uma coleção de ensaios em sua homenagem, The Duty of Discontent, em 1995. O título foi tirado de uma palestra do poeta cartista Thomas Cooper. Ele também estava escrevendo depois de ver frustradas suas esperanças anteriores de uma mudança radical e isso resumia não apenas a abordagem de Dorothy Thompson à história, mas seu engajamento político concreto e crítico. Acostumada à resistência contra todas as probabilidades, à medida que crescia, ela continuou obstinadamente a buscar maneiras de encorajar a democracia, a igualdade e a livre investigação em todos os aspectos da vida política e cultural. Indomável, intelectualmente forte, forte na oposição, se Dorothy podia ser feroz, ela era em igual medida desordenadamente gentil. Ela sempre foi aberta a novas pessoas e irrestrita em dar seu tempo aos outros. Muitos convidados de todo o mundo foram recebidos por ela, primeiro na casa dos Thompsons em Halifax, e depois em Leamington e Worcester. Sua inteligência e travessura tornavam a conversa com ela fascinante e divertida. Para Dorothy, o dever de descontentamento sempre foi sustentado por seu gosto pela vida e pela comunhão com os outros. Aos 80 anos ainda escrevia e dava palestras, mantinha contato com uma vasta rede de amigos, conversava sobre política e era uma avó ativa.

Foi Cobbett quem criou essa cultura intelectual radical, não porque tenha oferecido a elas as ideias mais originais, mas por ter encontrado o tom, o estilo e os argumentos que uniriam num discurso comum o tecelão, o mestre-escola e o operário dos estaleiros. Da diversidade das injustiças e interesses, ele extraiu um “consenso radical”. Seus Political Registers foram como que um meio de articulação, que fornecia um instrumento comum do intercâmbio entre as experiências de homens com realizações muitíssimo diferenciadas. Isto é visível se olharmos não tanto para as suas ideias, mas para o seu tom. E uma forma de fazê-lo é comparar suas maneiras com as de Hazlitt, o mais “jacobino” dos radicais de classe média e o único que ao longo dos anos mais se aproximou do ritmo de trabalho e forma de pensar dos artesãos. Hazlitt tinha uma sensibilidade complexa e admirável. Foi um dos poucos intelectuais que receberam o pleno impacto da Revolução Francesa e, embora rejeitasse as ingenuidades do Iluminismo, reafirmou as tradições da liberté e égalité. Seu estilo revela que não só estava se medindo contra o conservadorismo de Burke, Coleridge e Worsworth, e, de modo mais imediato, contra Blackwood e a Quaterly Review, mas que tinha consciência plena da força de algumas posições deles, e dividiu algumas de suas reações. Enfim, Hazlitt tinha tamanha amplitude de referências e um senso de compromisso com um conflito europeu de significado histórico que os radicais plebeus parecem provincianos aos seu olhos, tanto em termos espaciais como temporais. É uma questão de papéis. Mas também é uma questão de tom; e mesmo assim, no tom, encontra-se pelo menos metade do sentido político de Cobbett. O estio de Hazlitt, com seus ritmos sustentados e controlados, seu movimento antitético, pertence à cultura polida do ensaísta. E apesar dos Passeios Rurais, não se consegue pensar facilmente em Cobbett como um ensaísta. Ainda sobre a questão do método de exposição “é antes um conjunto de estudos sobre temas correlatos do que uma narrativa sequenciada”.

Ao selecionar os temas de pesquisa Thompson estava ciente de, por vezes, escrever contra o peso de ortodoxias predominantes: 1) A ortodoxia Fabiana, onde os trabalhadores em sua grande maioria são vistos “como vítimas passivas do laissez-faire, com a exceção de organizadores com uma cosmovisão de longo alcance histórico, especialmente o ativista Francis Place (1771-1854), representando um ativismo social e reformista/moralista inglês. 2) A ortodoxia dos historiadores econômicos empíricos, onde os trabalhadores são vistos como força de trabalho, migrantes ou dados de séries estatísticas. 3) A ortodoxia do Progresso Peregrino, onde aquele período é esquadrinhado em busca de pioneiros precursores do Estado do Bem-Estar Social, progenitores de uma Comunidade Socialista ou recente precoces exemplares de relações industriais racionais. Seu interesse está na tentativa de resgate do pobre tecelão de malhas, o meeiro luddita, o tecelão manual, o artesão utópico e mesmo o iludido seguidor de Joanna Southcott, reconhecida como uma profetisa religiosa autodescrita de Devon, no âmbito do movimento sul-ottiano e do conceito ottiano acerca dos elementos racionais do sagrado, continuou de várias formas após sua morte, dos imensos ares superiores de condescendência da posteridade. 

O fato é que: 4) seus ofícios e tradições podiam estar desaparecendo. 5) Sua hostilidade frente ao novo industrialismo podia ser retrógrada. 6) Seus ideais comunitários podiam ser fantasiosos. 7) Suas conspirações insurrecionais poderiam ser temerárias. Mas viveram nesses tempos de aguda perturbação social. Suas aspirações eram válidas nos termos da própria experiência; mas “se foram vítimas acidentais da história, continuam a ser condenados em vida, vítimas acidentais”. Finalmente, E. P. Thompson se desculpa aos leitores escoceses e galeses (cf. Renk, 1996), afirmando que “negligenciou essas histórias, não por chauvinismo, mas por respeito”. Visto que a classe é uma formação tanto cultural como econômica, teve o cuidado de evitar generalizações para além da experiência inglesa, pois tratou dos irlandeses não na Irlanda, mas enquanto imigrantes na Inglaterra. O registro escocês, em particular, é tão dramático e atormentado como o inglês. A agitação jacobina escocesa foi mais intensa e mais heroica. Mas a história escocesa é significativamente diferente. O calvinismo não foi o mesmo que o metodismo. É possível, comparativamente, pelo menos até os anos 1820, considerar como distintas as experiências inglesa e escocesa, visto que os laços sindicais e políticos eram inconstantes e imaturos. O material coligido foi redigido em Yorkshire, o maior condado histórico da Inglaterra, cobrindo aproximadamente 15 000 km², por vezes tingidos pelas fontes de West Riding. Ao contrário dos condados na Inglaterra, que foram divididos em Hundreds, Yorkshire foi dividido em “Thrydings”, que significa “Terços” em norueguês antigo, que foram os três Ridings históricos, e então em wapentakes. 

O notável pedagogo e historiador agradece á Universidade de Leeds, uma das maiores do Reino Unido, em 1967, havia 160 mil jovens matriculados, atualmente com mais de 32.000 estudantes, e em particular ao professor Sidney Griffith Raybould pelo apoio e aos membros da Fundação Lever Hulme pela concessão de uma bolsa de pesquisa, como é corrente em universidades de prestígio fora do Brasil e que lhe permitiu autonomia e responsabilidade para poder concluir a obra. O fazer-se da classe operária é um fato tanto da história política e cultural quanto da econômica. Ela não foi gerada espontaneamente pelo sistema fabril. Nem devemos imaginar alguma “força exterior” atuando sobre algum material bruto, indiferenciado e indefinível de humanidade, transformando-o em seu outro extremo, uma “vigorosa raça de seres”, pois as mutáveis relações de produção e as condições de trabalho mutável não foram impostas sobre um material bruto, mas sobre homens livres ingleses, mas livres como Paine os legou ou como os metodistas os moldaram. O operário ou o tecedor de meias eram também herdeiros de Bunyan, dos direitos tradicionais nas vilas, das noções de igualdade diante da lei, das tradições artesanais. Eles foram objeto de doutrinação religiosa maciça e criadores de tradições políticas. A classe operária, segundo E. P. Thompson “formou a si própria tanto quando foi formada”. Esta tese é importante, pois encarar a classe operária dessa forma significa defender outra visão contra a inclinação predominante nas escolas de história econômica e de sociologia. Antes demarcado e explorado por Marx, Arnold Toynbee, os Webbs e os Hammonds, assemelha-se agora a um “campo de batalha acadêmico”. 

E todos sabem que este “campo” com seus truques sujos e fraudulentos está em toda parte. A clássica ortodoxia catastrófica foi substituída por uma nova ortodoxia anticatastrófica, que se distingue mais claramente por sua cautela empírica e, entre seus mais notáveis expoentes, por uma censura adstringente ao relaxamento de certos números de escolas antigas. Os estudos da nova ortodoxia enriqueceram nosso conhecimento histórico, modificando e revisando em aspectos importantes o trabalho da escola clássica. Os sucessores dos grandes empiristas sempre exibem com demasiada frequência uma complacência moral, uma estreiteza de referência e uma familiaridade insuficiente com os movimentos reais da população trabalhadora desse período. Eles estão mais conscientes das posturas empiristas ortodoxas do que das mudanças nas relações sociais e nos hábitos culturais que a Revolução Industrial impôs. Perdeu-se o sentido global do processo – o contexto político e social global do período. O que representou praticamente uma modificação valiosa que se converteu, através de estágios imperceptíveis, em novas generalizações, raramente sustentadas pelas evidências, e das generalizações se passou a uma atitude normativa. A ortodoxia empirista é frequentemente definida a partir de uma crítica apressada em análises que se mostraram muito propensos a moralizarem a história e a organizarem o material em termos de “emoção excessiva”. Mas isto decorre de pelo menos três grandes influências simultâneas sobre o trabalho, de ordem demográfica, tecnológica e política. 

Isto é, houve o tremendo aumento da população na Grã-Bretanha, de 10, 5 milhões em 1801, passou a 18, 1 milhões em 1841, observando-se uma maior taxa de crescimento entre 1811-21 e, finalmente a contrarrevolução política, entre 1792-1832.  Mesmo em 1792, quando industriais e profissionais tinham uma posição destacada no movimento reformista, este ainda era o equilíbrio das forças sociais e políticas. Mas, após o êxito dos Direitos do Homem, a radicalização ao terror da Revolução Francesa e a repressão de William Pitt, a plebeia Sociedade de Correspondência resistiu sozinho às guerras contrarrevolucionárias. Esses grupos plebeus, apesar de pequenos em 1796, criaram uma tradição aparentemente subterrânea que persistiu até o final das Guerras. Alarmados com o exemplo clássico francês, e envolvidos pelo fervor patriótico da guerra, a aristocracia e os industriais buscaram uma causa comum. O ancien régime inglês recebeu novo impulso vital não apenas nos negócios nacionais, mas também na perpetuação de corporações arcaicas que desenvolveram as cidades industriais notadamente em expansão. Os industriais, em compensação, receberam importantes concessões, principalmente a abolição ou revogação da legislação paternalista relativa ao aprendizado, regulamentação de salários, ou às condições de trabalho na indústria. A aristocracia estava interessada em reprimir as conspirações jacobinas populares, e os industriais buscavam derrotar as conspirações pelo aumento dos salários: os Decretos sobre as Associações serviram aos dois propósitos. 

Os trabalhadores foram, portanto, forçados a se sujeitarem a um apartheid político e social durante as Guerras. A novidade era a coincidência com uma revolução espetacular, com uma crescente autoconsciência e aspirações mais ambiciosas, com o aumento da população que, em valor absoluto, tanto em Londres quanto comparada em outros distritos industriais, se tornava mais impressionante, ano após ano e com formas de exploração econômica mais intensas, ou mais transparentes. Na agricultura, os anos entre 1760 e 1820 representaram a época de intensificação dos cercamentos, em que os direitos ao uso da terra comunal foram perdidos crescentemente; os destituídos/condenados de terras e, no sul, os camponeses empobrecidos são abandonados às expensas dos granjeiros, dos proprietários de terras e dos dízimos da Igreja. A relação de exploração é muito mais do que a mera soma de injustiças sociais e antagonismos mútuos. É uma relação social que pode ser encontrada em diferentes contextos sob formas distintas, que estão relacionadas a formas correspondentes de propriedades e poder estatal. O antagonismo é aceito como intrínseco às relações de produção. Funções de gerência ou supervisão demandam a repressão de todos os atributos, à exceção daqueles que promovam a expropriação ao máximo de mais-valia do trabalho. 

Esta é a economia política que Marx habilmente analisou nos primeiros volumes d`O Capital, percebendo que o processo de industrialização trouxe o sofrimento e a destruição de modos de vida estimados e mais antigos, em qualquer contexto social depreendido das relações entre capital e trabalho. Adverte E. P. Thompson, a objeção à ortodoxia acadêmica reinante neste período não diz respeito aos estudos empíricos per se, mas à compreensão fragmentária do processo histórico global. Em primeiro lugar, o empirista segrega certos eventos do seu processo e os analisa isoladamente. Aceitas as condições que geraram esses eventos, eles não só parecerão explicáveis por si próprios, mas também inevitáveis. Aos fatos da economia política ortodoxa, opuseram seus próprios fatos sociais e sua aritmética. Caso os que estivessem empregados trabalhassem menos e o trabalho das crianças, denunciado por Marx no processo mecanizado fabril, fosse restringido, haveria “mais trabalho” para os trabalhadores manuais, e os desempregados poderiam se empregar e comercializar sua produção diretamente sem as diabruras do mercado global capitalista.   A história dos tecelões no século XIX está permeada por um passado melhor. As lembranças eram mais intensas em Lancashire e Yorkshire, mas estiveram presentes na maior parte da Inglaterra e em diversos setores da indústria têxtil. O mestre fabricante de tecidos foi o camponês, ou o pequeno Kulak, da Revolução Industrial. Os homens de Yorkshire deviam a ele a sua fama de independência. Na indústria de algodão, a história era diferente. 

A unidade média de produção era maior, e, já no final do século XVIII, existiam relações de produção similares às de Norwich e do oeste da Inglaterra. Na década de 1750, os tecelões de aviamentos e tecidos axadrezados de Manchester dispunham de Sindicatos de ofício extremamente organizados que tentavam conservar seu status e resistir ao afluxo de mão-de-obra sem aprendizado. Os trabalhadores “ilegais” estavam “multiplicando-se tão rapidamente que se aglomeravam um junto à casa do outro”.  Quando os tecelões de tecidos axadrezados de Olaham tentaram, em 1759, defender as sanções legais a respeito das restrições ao aprendizado, o juiz (sempre um juiz) do condado proferiu uma sentença hostil em que as leis locais foram preteridas em favor das doutrinas que ainda não se encontravam formuladas por Adam Smith. Essa sentença antecipou a revogação efetiva do Estatuto dos Artífices em mais de meio século. Embora suas organizações não tenham sido totalmente extintas, ficaram sem qualquer proteção legal quando o enorme incremento na produção de fio nas primeiras indústrias algodoeiras provocou a surpreendente expansão da tecelagem por todo o sudoeste de Lancashire. É bem conhecido o relato etnográfico de William Radcliffe a esse respeito da região montanhosa de Pennine, durante esses anos, quando foram reparadas, abrindo-se janelas nas paredes e preparando-se estes locais para a instalação de novos teares. Os imigrantes que chegavam aos milhares não foram atraídos pelas indústrias algodoeiras, mas pelo tear. A partir da década de 1770, começou a grande ocupação da região montanhosa: Middleton, Oldham, Mottram e Rochdale. 

A população de Bolton “saltou” de 5. 339 habitantes, em 1773, para 11. 739, em 1789. Pequenos fazendeiros tornaram-se tecelões, enquanto os trabalhadores agrícolas e os artesãos imigrantes também entraram para o ofício. Os quinze anos compreendidos entre 1788 e 1803 forma descritos por Radcliffe como “a idade de ouro deste grande ofício”.  Contudo, durante a chamada “idade de ouro”, o artesão e o oficial-tecelão converteram-se no genérico “tecelão-manual”, exceto em alguns setores especializados. Reduzidos á completa dependência das fiações ou dos intermediários que levaram o fio até a sua região, os tecelões ficaram expostos a sucessivas reduções salariais. A diminuição do salário foi endossada, não só pela ganância dos patrões, mas também por uma teoria muito bem difundida de que “a pobreza era um estímulo essencial para a indústria”. Essa teoria foi defendida, quase universalmente, pelos patrões, pelos magistrados e pelo clero. A prosperidade dos tecelões despertava um grande temor na mente gananciosa de mestres e magistrados. Ainda assim, embora os salários se achatassem, o número de tecelões continuou a crescer durante as três primeiras décadas do século XIX, pois a tecelagem representava o último recurso dos desempregados do norte, antes da subsunção global do trabalho não-especializado.  O modo de vida das comunidades têxteis de Yorkshire ou de Lancashire compunha-se de uma mescla singular de conservadorismo social, orgulho local e tradições culturais. Em certo sentido, essas comunidades estavam realmente “atrasadas”, segundo Thompson (1978: 145), “pelo seu apego aos dialetos e aos costumes regionais, pela enorme ignorância médica e pelas superstições”. 

Porém, quanto mais examinarmos seu modo de vida, mais inadequadas parecem certas noções como as de progresso econômico e de “atraso”. Sem sobra de dúvida, entre os tecelões do norte desenvolveram-se um grupo de homens autodidatas e distintos, de consideráveis conhecimentos. Todos os distritos têxteis possuíam tecelões-poetas, biólogos, matemáticos, músicos, geólogos e botânicos; o velho tecelão que aparece em Mary Barton foi certamente inspirado na vida real. Existem museus e sociedades de história natural, no norte, que ainda possuem registros e coleções de lepdópteros organizados por tecelões. Contam-se histórias de tecelões de aldeias isoladas que aprenderam geometria sozinhos, escrevendo com giz sobre lajes, e que discutiam avidamente problemas de cálculo diferencial. Em algumas atividades mais simples, em que utilizavam fios fortes, havia aqueles que apoiavam um livro no tear, lendo durante o trabalho. Existem também a poesia do tecelão, algumas mais tradicionais, outras mais sofisticadas. As baladas de “Jone o`Grinfilt`, de Lancashire, atravessaram o ciclo patriótico do início das guerras, prosseguindo pela época cartista, até à Guerra da Criméia. A mais comovente chama-se “Jone o`Grinfilt Junior”, cantada no final das guerras. O outro tipo de poeta-tecelão é autodidata. Um exemplo notável foi Samuel Law, tecelão de Todmorden, que publicou, em 1722, um poema inspirado em Seasons, de Thompson. O poema tem poucos méritos literários, mas revela, também seus conhecimentos nada menos que sobre Virgílio, Ovídio e Homero (no original), e sobre biologia e astronomia. Entrementes, o debate sobre a dieta popular durante a Revolução Industrial, remete-nos principalmente para o consumo de cereais, carne, batatas, cerveja, açúcar e chá.

 O consumo per capita de trigo declinou provavelmente desde o final do século XVIII, estendendo-se durante as primeiras quatro década do século XIX. A controvérsia a respeito do padrão de vida durante a Revolução Industrial adquiriu, talvez, grande significado, quando se abandonou a tentativa um tanto irreal de determinar o salário do trabalhador hipoteticamente “médio, dirigindo-se a atenção para os artigos de consumo tais como: alimentação, vestuário, habitação, e, por outro lado, a saúde e a mortalidade. Se considerarmos grandezas mensuráveis, parece claro que, no período entre 1790 e 1840, o produto nacional cresceu mais rapidamente que a população. Porém, é extremamente difícil avaliar como se distribuiu esse produto. Redcliffe Nathan Salaman, o historiador da batata, apresentou um minucioso e convincente relato sobre a “batalha do pão”, na qual os latifundiários, fazendeiros, párocos, manufatureiros e o próprio governo tentaram “forçar os trabalhadores a abandonarem a dieta do pão pela batata”. O ano crítico foi 1795. Posteriormente, as necessidades de guerra colocaram em segundo plano os argumentos sobre os benefícios em se reduzir o custo da dieta para os trabalhadores pobres. 

A substituição do pão e da farinha de aveia pela batata era considerada uma degradação social. A carne, como o trigo, envolvia uma questão de status que suplantava seu simples valor alimentar. O Roast Beef na velha Inglaterra era o orgulho dos artesãos e a aspiração do trabalhador.  Também neste caso o consumo per capita provavelmente decresceu entre 1790 e 1840, mas há controvérsias sobre as cifras. A discussão gira em torno do número e do peso dos animais sacrificados nos açougues londrinos. A carne certamente serve como um sensível indicador dos padrões materiais, pois seu consumo seria um dos primeiros a crescer quando houvesse qualquer aumento real dos salários. Os trabalhadores sazonais não podiam planejar meticulosamente, como observa E. P. Thompson, seus jantares durante os cinquenta e dois domingos do ano: ao contrário, gastavam seu dinheiro no período de emprego e consumiam o que pudessem, durante o resto do ano.  Não era novidade que os habitantes das cidades estivessem sujeitos a consumirem alimentos impuros ou adulterados, mas, à medida em que crescia o número de trabalhadores urbanos, o problema tonava-se mais grave. Não há dúvidas de que o consumo per capita de cerveja decaiu entre 1800 e 1830, enquanto o de chá e de açúcar cresceu. Entre 1820 e 1840, houve acentuado aumento no consumo de gim e de uísque. Mais uma vez, tratava-se de uma questão tanto cultural quanto dietética. Os trabalhadores agrícolas, os carregadores de carvão e os mineiros consideravam a cerveja essencial para o desempenho de qualquer trabalho pesado, “para repor o suor”. A preparação caseira de cerveja suave era tão essencial para a economia doméstica que “se uma moça soubesse preparar um bolo de aveia e uma boa cerveja, seguramente daria uma boa esposa”; por outro lado, “alguns líderes de grupo metodistas afirmavam que não podiam conduzir suas turmas sem antes tomar uma ´caneca` de bebida”. O declínio do consumo foi atribuído diretamente ao imposto sobre o malte, tão impopular, que contemporâneos consideravam-no “uma incitação à revolução”.

A deterioração do ambiente urbano parece-nos uma das mais desastrosas consequências da Revolução Industrial, sob vários pontos de vista: a estética, as comodidades da população, o saneamento e a densidade demográfica. Além disso, ela ocorreu com maior intensidade em algumas regiões de altos salários, onde as evidências “otimistas” sobre a melhoria do padrão de vida estão melhor fundamentadas. De acordo com o senso comum, deveríamos considerar simultaneamente os dois conjuntos de evidências; mas, na verdade, diversos argumentos concorreram para mitigar o impacto de uma delas. Foram descobertos, por exemplo, alguns prósperos industriais que se preocupavam com as condições de moradia dos seus empregados. Além disso, a maioria das experiências importantes em comunidades-modelo ocorreu a partir de 1840, depois da opinião pública te sido alertada pelas investigações sobre as condições sanitárias das classes trabalhadoras (1842) e sobre a saúde das cidades (1844), e pelas epidemias de cólera de 1831 e 1848. As experiências dessa natureza realizadas antes de 1840, como a de Ashworths em Turton, ocorreram em vilas industriais auto-suficientes. As condições do Extremo Leste eram tão repugnantes que os médicos e os funcionários paroquiais corriam um alto risco de vida, ao exercerem seus deveres. Conforme assinalaram os Hammond, as piores condições foram observadas nas cidades que se expandiram mais repentinamente durante a Revolução Industrial: “o penoso processo pelo qual Londres passou durante a Revolução comercial, ocorreu em Lancashire no final do século XVIII e no século XIX. Nos distritos têxteis e nas cidades mais procuradas pelos imigrantes irlandeses – Liverpool, Manchester, Leeds, Preston, Bolton e Bradford – encontravam-se os mais atrozes indícios da deterioração – superlotação, moradias em porões e uma imundície indescritível.

Em 1787, Robert Peel escreveu: “deixei a maioria de meus negócios em Lancashire sob a direção dos metodistas e eles me serviram muito bem. Quanto a isso, E. P. Thompson observa que tanto Max Weber em seu estudo decisivo sobre a ética disciplina religiosa, tanto quanto Richard Henry Tawney, crítico social e socialista cristão inglês, além de um proponente importante da educação de adultos, “dissecaram minuciosamente a interpretação do modo de produção capitalista e da ética puritana que aparentemente há pouco a acrescentar. O Metodismo pode ser visto como uma simples extensão desta ética num meio social em processo de mudança. Além disso, tomando-se por base o fato de que o Metodismo, na época de Jabez Bunting, ao contrário de Lutero, jamais admitiria a ideia de que “a turba pudesse alguma vez estar com a razão, devido à valorização da disciplina e da ordem e à opacidade moral que beneficiavam os industriais self-made, os manufatureiros, os contramestres, os capatazes e outros grupos sociais de subdireção, elaborou-se uma tese economicista segundo a qual o Metodismo serviu como autojustificação ideológica para os patrões-manufatureiros e seus auxiliares, o que representa uma parcela importante da verdade.  John Wesley em passagem frequentemente citada, previu e deplorou esta análise: a religião deve necessariamente incentivar o trabalho e a frugalidade, o que não gera nada além de riquezas. Mas à medida em que as riquezas crescem, aumenta o orgulho, a soberba e o apego ao mundo (...). Como, então, é possível que o Metodismo, uma religião do coração, embora tenha florescido recentemente como um loureiro, continue neste estado? Os Metodistas na Europa e Estados Unidos, tornam-se diligentes e frugais e, consequentemente, aumentam seus bens.

Max Weber e Richard Tawney aduziram fortes razões pragmáticas, do ponto de vista dos patrões, para a propagação dos valores puritanos na classe operária. Tawney analisou o “Novo Remédio para a Pobreza”, onde se denunciava a indolência e a imprudência do trabalhador e se defendia a ideia de que, se o sucesso correspondia a um sinal da predestinação, a pobreza era em si própria um sintoma de torpeza espiritual. Max Weber enfatizou uma questão crucial para a classe operária: a disciplina do trabalho. Ipso facto, o trabalhador deve transforma-se “no seu próprio feitor”. Na indústria laneira do oeste da Inglaterra, mais exatamente em Kidderminster, ocorreu uma mudança notável nas relações de trabalho em virtude da ação de um teólogo presbiteriano, Richard Baxter, citado por Weber na Ética protestante etc. Muitos dos elementos da disciplina no trabalho defendidos pelos metodistas já se encontravam formulados no seu Christian Directory de 1673. Diversos proletários de minas e industriais no setor de lá e algodão do norte enfrentaram dificuldades similares durante todo o século XVIII. O tecelão que possuía uma pequena propriedade era conhecido pelo hábito de abandonar seu trabalho ante qualquer emergência na lavoura. A maioria dos trabalhadores deixava com satisfação o seu emprego por um mês de trabalho na colheita. Muitos dos operários adultos das primeiras tecelagens tinham “hábitos errantes e negligentes, e raramente permaneciam por muito tempo num mesmo estabelecimento”. Enquanto “religião do coração”, talvez numa aproximação conceitual com Blaise Pascal, e não do intelecto, dava aos mais humildes e a esperança de atingir a graça. 

A esse respeito, o Metodismo derrubou todas as barreiras doutrinárias e abriu suas portas à classe operária. Recorda-nos, segundo E. P. Thompson, de que “o Luteranismo também foi uma religião dos pobres e que como Munzer apregoou e Lutero aprendeu às suas custas, o igualitarismo espiritual tende a transbordar de suas margens e inundar campos mundanos, tendo trazido ao credo luterano uma perpétua tensão que também se reproduziu no Metodismo”. O Metodismo do século XVII assumiu a melancolia do Calvinismo e dos teólogos puritanos ingleses: uma disciplina de vida metódica “combinada com a estrita repressão a todas as alegrias espontâneas”. Destas duas fontes, derivou-se um sentimento de culpa quase maniqueísta em relação á depravação humana. Além disso, os wesleyanos absorveram e incorporaram desnecessariamente a seus hinos e escritos o estranho fenômeno da necrofilia do início do século XVIII e das fantasias pervertidas que representavam o lado menos agradável da tradição moraviana. Max Weber ressaltou a relação existente entre a repressão sexual e a disciplina de trabalho nos ensinamentos de teólogos como Baxter. O Metodismo está permeado por ensinamentos relativos ao caráter pecaminoso da sexualidade e principalmente dos órgãos sexuais. O erotismo pervertido das imagens utilizadas pelos metodistas revela sua preocupação obsessiva com a questão da sexualidade. 

A associação de Cristo a imagens sexuais femininas é ainda mais surpreendente e desagradável. Cristo, personificação do “Amor”, a quem se dirige a grande massa de hinos wesleyanos, assume sucessivamente a imagem maternal, edipiana, sexual e sadomasoquista. A extraordinária assimilação das chagas e das imagens sexuais na tradição moraviana tem sido frequentemente citada. A Revolução Industrial produziu a figura do Rev. Jabez Branderham, tomando Jabez Bunting como modelo que aparece no horrível pesadelo de Lookwood, no início do clássico Wuthering Heights: “Meu Deus, que sermão! Dividido em quatrocentas e noventa partes... e cada uma analisando um pecado diferente!”. A utilidade do Metodismo enquanto disciplina de trabalho é evidente: a doutrinação direta, o sentido comunitário do metodismo e as consequências psíquicas da contra-revolução. A primeira motivação, típica de toda doutrinação, não deve ser exagerada. As escolas dominicais evangélicas estiveram sempre ativas, ainda que pareça difícil estabelecer até que ponto suas atividades possam ser designadas como “educacionais”. Uma história social moralizadora característica de seu tempo servirá para exemplificar a tendência geral desse “ensinamento”.  Na maioria dos livros-texto sobre as “iniciativas educacionais”, as escolas dominicais foram um fator de mudança terrível, até mesmo para as escolas femininas das vilas. 

Durante os anos contra-revolucionários, essa orientação foi corrompida pela atitude dominante dos evangélicos, para os quais a finalidade da educação começava e terminava na “recuperação moral” daquelas crianças pobres. Não só se desencorajou o ensino da escrita, como também muitas crianças deixaram as escolas dominicais sem saberem ler – o que era uma benção, tendo em vista as partes do Antigo Testamento consideradas edificantes. Outras aprendiam para mais do que o relato etnográfico da menina aos Comissários para o Trabalho das Crianças na Minas: - “seu eu morresse sendo uma boa menina, iria para o céu; se fosse má, seria queimada em enxofre e fogo. Não sabia disso antes que o ouvisse ontem, na escola”.  Muito antes da puberdade, as crianças eram submetidas na escola dominical e em casa (se pais fossem devotos), à pior artimanha a fim de confessarem os pecados e se prepararem para a salvação.  Muitos, como o jovem Thomas Cooper, iam “vinte vezes ao dia a lugares secretos para pedir perdão”.   A publicação da Defesa do Trabalho e sua aceitação no Trades Newspaper representam o primeiro ponto claro de conexão entre os “economistas do trabalho” ou owenistas e uma parcela do movimento operário. Robert Owen é o dono da fábrica paternalista e self-made man exemplar que apresentava solicitações a realezas, cortesãos e governos da Europa para suas propostas filantrópicas. 

A exasperação crescente do tom de Owen à medida que se deparava com aplausos corteses e desestímulos práticos; sua propaganda para todas as classes e sua proclamação da vinda do milênio; o interesse crescente pelas sua ideias e promessas entre alguns setores de trabalhadores; a ascensão e queda das primeiras comunidades experimentais, em especial Orbiston. A partida de Owen para os Estados Unidos  para outros experimentos de formação de comunidades (1824-29); a crescente adesão ao owenismo durante sua ausência, o enriquecimento de sua teoria por Thompson, Gray e outros, e a doção de uma espécie de owenismo por alguns sindicalistas; a iniciativa do dr. King em Brighton, com seu Cooperator (1820-30) e os experimentos amplamente disseminados de comércio cooperativo; a iniciativa de alguns artesãos londrinos, entre os quais se destacava Lovett, em promover propaganda nacional segundo princípios cooperativos em 1829-30; a maré ascendente depois da volta de Owen, quando se viu, quase que a contragosto, na liderança, de um movimento social trabalhista que levou ao Grande Sindicato Nacional Consolidado. É tradição paternalista que corresponde á carreira usual da experiência do novo dono da fábrica ou do mestre de fundição. 

O problema era doutrinar o jovem em “hábitos de atenção, rapidez e ordem”. Ainda assim, é um grande mérito que Owen não tenha escolhido “nem os terrores psíquicos do metodismo, nem a disciplina do supervisor e das multas, para atingir fins”. Mas em termos políticos temos que compreender que o socialismo posterior de Owen sempre guardou as marcas de sua origem. Desempenhava o papel de bondoso “Papai do Socialismo”, o filantropo, que tinha entrée na Corte e na Sala do Gabinete nos anos pós-guerra até dar seu faux pas ao descartar, com afável tolerância, todas e quaisquer religiões reveladas como formas nocivas de irracionalismo surge, sem nenhum senso de crise, como “o benevolente Sr. Owen”, que recebia e lançava acenos às classes trabalhadoras. Esse tom – afirma E. P. Thompson – representava uma barreira entre Owen e o movimento radical popular e, ainda, o sindical. Enfim, quando Owen tentou atrair a atenção dos radicais para suas propostas, numa reunião numerosa na Taverna Cidade de Londres, os líderes radicais, um após outro, Cartwright, Wooler, Alderman Waithman, opuseram-se em termos semelhantes. Quando Gale Jones propôs que o plano merecia ao menos um exame, foi silenciado aos gritos e acusado de apostasia. A fraqueza deles, por outro lado, consistia numa falta de qualquer teoria social construtiva, cujo lugar era ocupado por uma retórica onde os males eram atribuídos à tributação e à sinecura, que remediariam a Reforma.  

Bibliografia geral consultada.

THOMPSON, Edward Palmer, Tradición, Revuelta y Consciencia de Clase: Estudios sobre la Crisis de la Sociedad Preindustrial. Barcelona: Editorial Crítica, 1979; Idem, A Formação da Classe Operária. III – A Força dos Trabalhadores. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1987; Idem, Costumes em Comum. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1998; MÜLLER, Ricardo Gaspar, Razão e Utopia: Thompson e a História. Tese de Doutorado em História Social. Departamento de História Social. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2002; KRIEGER, Cesar Amorim, A Consolidação do Direito Internacional Humanitário: Precedente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e a Contribuição Definitiva da Convenção de Roma de 1998. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Direito. Centro de Ciências Jurídicas. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2002; CUNHA, Diego da Silva, “Usos e Abusos da Cultura. Richard Hoggart e a Cultura Vivida da Classe Trabalhadora”. In: Revista Comunicação Pública, vol. 9, nº 16, 2014; TODOROV, Tzvetan, A Vida em Comum. Ensaio de Antropologia Geral. São Paulo: Editora da Unesp, 2014; RAMOS, Igor Guedes, Genealogia de uma Operação Historiográfica: As Apropriações dos Pensamentos de Edward Palmer Thompson e de Michel Foucault pelos Historiadores Brasileiros na Década de 1980. Tese de Doutorado em História. Faculdade de Ciências e Letras. Assis: Universidade Estadual Paulista, 2015; MARTÍN, Pedro Benítez, “Thompson Versus Althusser”. In: Revista Crítica Marxista, nº39, pp.129-139, 2014; MONTEIRO, Daniel Lago, William Hazlitt, um Ensaísta ao Rés-do-chão: Ensaio e Crítica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016; AGRELA, Raul Victor Vieira Ávila de, Eu Conspirei com Poetas e Fingi ser um Deles: A Experiência Poética de E. P. Thompson. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2019; MACEDO, Francisco Barbosa de, O (Re)fazer-se da Historiografia: A Obra de E. P. Thompson na Produção Discente do Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp (1982-2002). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História Econômica da Universidade de Campinas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; Idem, A História Social Sul-africana dos Anos 1980 e a Obra de E. P. Thompson: O Caso Wits History Wokshop. In: Revista Mundos do Trabalho. Florianópolis. Vol. 13, pp. 1-23, 2021; TIRIBA, Lia, Modo (s) de Vida e Modos de Produção da Existência Humana: Ensaio Teórico-Metodológico. In: Germinal - Marxismo e Educação em Debate. Vol. 13, nº 2, agosto de 2021; entre outros.