“Se a libertação da minha terra é chamada terrorismo, então isso é uma grande honra para mim”. Bin Laden
A família Bin Laden é abastada e intimamente ligada com os círculos mais internos da família real saudita. A família foi posta sob os holofotes da mídia em decorrência das atividades terroristas do mais reconhecido de seus membros, Osama bin Laden, líder da Al Qaeda, o grupo terrorista responsável pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 contra edifícios comerciais e do governo dos Estados Unidos. Os interesses financeiros da família Bin Laden são representados pela Saudi Binladin Group, um conglomerado global de petróleo e gestão de patrimônio arrecadando US $ 2 bilhões por ano, sendo a maior empresa de construção civil do mundo, com escritórios em Londres, Dubai e Genebra. A família tem suas origens em um pobre e ignorante hadramita (cf. Knysh, 1999: 215-222) chamado bin Laden, membro de uma tribo Kendah, com cerca de 100 mil membros da aldeia de Al Rubat em Wadi Doan no Vale de Tarim, província de Hadramaut,falecido em 1919. A tribo se originara no Najad do reino, migrara para o Hadramaut, no Iêmen (árabes), mas há minoria persa no litoral Norte.
Seu filho foi o xeque Muhammed bin Awad bin Laden, falecido em 1967. Muhammed bin Laden era um Shafi'i (sunita) nativo da costa sul do Iêmen, e emigrou para a Arábia Saudita antes da Primeira Guerra Mundial. Ele montou uma empresa de construção civil e chamou a atenção do Rei Abdul Aziz ibn Saud, através de projetos de construção, fazendo posteriormente contratos relativos a grandes obras de reforma em Meca, onde ele fez sua fortuna inicialmente através de direitos exclusivos sob a construção e reforma de todas as mesquitas e outros edifícios religiosos, não só na Arábia Saudita, mas até onde alcançava a influência de Ibn Saud. Até sua morte, Mohammed bin Awad bin Laden tinha controle exclusivo sobre as restaurações na mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém. Logo a rede dos Bin Laden se estendeu para muito além das empresas locais de construção. A intimidade que Muhammed Awad bin Laden tinha com a monarquia foi herdada pela geração mais jovem dos bin Laden.
Na
tradição muçulmana, Maomé (c 570 - 8 de junho de 632) é visto como o último de
uma série de profetas principais. Durante os últimos 22 anos de sua vida,
começando aos 40 anos, em 610, de acordo para as primeiras biografias
restantes, Maomé narrou revelações que ele acreditava serem de Deus,
transmitidas a ele através do Arcanjo Gabriel (Jibril). O conteúdo
dessas revelações, reconhecido como o Alcorão, foi memorizado e gravado por
seus companheiros. Durante esta época, Maomé pregava ao povo na cidade de Meca,
implorando-os a abandonar o politeísmo e adorar um Deus. Embora alguns tenham se convertido ao Islão,
Maomé e seus seguidores foram perseguidos pelas autoridades de Meca. Isso
resultou na migração para a Abissínia de alguns muçulmanos ao Império Axumita.
Muitos dos primeiros convertidos ao Islã eram pobres ex-escravos como
Bilāl ibn Rabāḥ, (580-640 d.C.) um dos Sahabah mais confiáveis e leais
do profeta islâmico. A elite religiosa de Meca acreditava que Maomé iria
desestabilizar a ordem através da pregação de uma religião monoteísta, da
igualdade racial e do processo de dar ideias aos pobres e seus escravos. Depois
de 12 anos de perseguição de muçulmanos pelos habitantes de Meca, Maomé, sua
família e os muçulmanos realizaram a Hégira (“emigração”) para
a cidade de Medina, reconhecida Iatrebe em 622. Com os
convertidos de Medina (Ansar) e os migrantes de Meca (muhajirun), Maomé
estabeleceu sua autoridade política e religiosa. Um Estado foi estabelecido em
conformidade com a jurisprudência econômica islâmica.
Os filhos de Muhammed foram estudar no Victoria College de Alexandria, no Egito. Seus colegas incluíram o rei Hussein da Jordânia, Zaid Al Rifai, os irmãos Kashoggi (cujo pai era um dos médicos do rei), Kamal Adham (que dirigia a Direção-Geral de Inteligência sob o Rei Faisal), os atuais empreiteiros Mohammed Al Attas, Fahd Shobokshi e Ghassan Sakr e o ator Omar Sharif. Quando Muhammed bin Laden morreu em 1967, seu filho Salem bin Laden assumiu aos empreendimentos familiares, até sua própria morte acidental em 1988. Salem foi um dos 54 filhos que Muhamed teve com várias esposas. O milionário saudita Osama Bin Laden, que nasceu em 30 de junho de 1957 em Riad, oriundo de uma rica e influente família saudita, que enriquecera por meio da atividade da construção civil. Na faculdade de Economia da Universidade de Jedá, Universidade Rei Abdulaziz, Bin Laden (1957-2011) iniciou seus contatos disciplinares com as ideias islâmicas, onde frequentou estudos islâmicos lecionados por Muhammad Qutb (1919-2014), estudioso e professor islamista e irmão mais novo do pensador islamista egípcio Sayyid Qutb (1906-1966), irmão de Muhammad Qutb, e por Abdullah Azzam (1941-1989), tendo exercido sobre ele grande influência política.
No início dos anos 1980 Bin Laden parte para o Paquistão, a fim de participar do processo de gerenciamento da luta afegã. Juntamente com o seu ex-professor Azzam, Bin Laden funda em 1984 o “Maktab al Kidmay lil Mujahidin al-Arab” (MAK), que tinha como objetivo recrutar, doutrinar e treinar milhares de jovens árabes e muçulmanos de toda parte do mundo, que se voluntariavam para tomar parte ideológica no conflito afegão. No MAK, Azzam desenvolveu suas ideias de jihad e de movimento vanguardista do Islamismo, que posteriormente serviriam de base para o Al-Qaeda. Na obra “Join the Caravan”, Azzam apresenta conceitos que futuramente guiarão o pensamento de Bin Laden e da Al-Qaeda, como o da obrigatoriedade do jihad e da necessidade de obediência ao líder. O surgimento da rede Al-Qaeda está intimamente articulado a duas questões primordiais. A primeira refere-se à influência da doutrina islâmica radical sob o pensamento daqueles que são considerados os fundadores da organização: o palestino Abdullah Azzam e o saudita Osama bin Laden.
A segunda diz respeito aos principais acontecimentos geopolíticos do Oriente Médio e do Afeganistão, que ocorreram entre o final da década de 1970 e o início da década de 1990, sobretudo a invasão soviética ao Afeganistão (1979-1989) e a Guerra do Iraque (1991). Os líderes da Al-Qaeda se mudaram para o Irã após a queda do regime Talibã no Afeganistão. Havia indícios de que eles viviam em Chalus, no norte do Irá, no Mar Cáspio. Em 2002, uma invasão Seal a Chalus foi planejada e ensaiada nas proximidades da Costa do Golfo dos Estados Unidos da América para a pesquisa. A Joint SpecialOperations Command (JSOC), é uma unidade militar estadunidense de comando pertencente ao United States Special Operations Command, e é encarregada de estudar requerimentos e técnicas de operações especiais para assegurar a interoperabilidade e a padronização de equipamento, planejamento e conduta em operações especiais. A unidade foi criada em 1980 seguindo uma recomendação do coronel Charles Alvin Beckwith, logo após a constatação empírica sobre a falha da chamada “Operação Eagle Claw” durante a Crise do Irã, coordenada pelo presidente Jimmy Carter com o objetivo de tentar pôr fim à crise de reféns no Irã pelo resgate de 52 norte-americanos mantidos em cativeiro na embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em 24 de abril de 1980. O seu fracasso, e a humilhação pública que se seguiu, danificou o prestígio americano em todo o mundo e é considerado por muitos, incluindo o próprio Carter, como um dos motivos de sua derrota na eleição presidencial de 1980.
Os
crimes de guerra dos Estados Unidos são violações de leis da guerra que
desrespeitam princípios básicos da proteção aos direitos humanos previstos no
direito internacional. O termo engloba crimes perpetrados pelas Forças Armadas,
pela Guarda Nacional ou por outras forças de segurança e serviços de
inteligência dos Estados Unidos contra sua própria população ou contra
cidadãos de países signatários das Convenções de Haia de 1899 e 1907, bem como
as violações análogas à definição de crime de guerra acordada durante as
Convenções de Genebra. Tipificam-se como crimes de guerra, entre outros, o
genocídio, as execuções sumárias de combatentes inimigos capturados,
maus-tratos de prisioneiros durante interrogatórios, estupros, tortura e uso de
violência contra populações civis e não-combatentes. Consideram-se crimes de
guerra de responsabilidade dos Estados Unidos aqueles ocorridos após a
independência do país em 1776. Os primeiros registros historiográficos de
violações análogas a crimes de guerra cometidos por militares norte-americanos
remontam ao século XVIII.
Ao
longo do século XIX, vários crimes foram perpetrados contra combatentes, civis
e nativo-americanos no contexto da Guerra de Secessão, da Marcha para o Oeste e
da Doutrina do destino manifesto. A partir do século XX, com a consolidação de
uma política intervencionista, recrudescimento do belicismo e o desenvolvimento
do complexo militar-industrial, os Estados Unidos tornam-se protagonistas de
uma série de conflitos internacionais marcados pela ocorrência de atrocidades e
violações das leis da guerra. É nesse contexto que surgem as acusações sobre o
genocídio filipino, durante a Guerra Filipino-Americana e sobre crimes de
guerra ocorridos na Segunda Guerra Mundial, incluindo-se o debate sobre os
bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki com armas nucleares, na Guerra Fria, abusos ocorridos durante as operações de
mudança de regime na América Latina e massacres de civis na Guerra do Vietnã (1955-1975) e
na Guerra da Coreia (1950-1953), e nas intervenções norte-americanas no Oriente Médio: vide
as alegações de estupro e execuções extrajudiciais na Guerra do Golfo e na
Guerra do Iraque, entre outros.
A JSOC foi creditada pela morte de Osama bin Laden em 1 de maio de 2011, numa operação autorizada pelo então presidente dos Estados Unidos da América, o negro Barack Obama com apoio da CIA. Três anos mais tarde a CIA e JSOC rastreavam o terceiro na linha de comando da Al-Qaeda, Abu Faraj al-Libi, que rodava pelas regiões tribais do Paquistão numa motocicleta vermelha peculiar. Pistas indicavam que Libi estaria num pequeno complexo em uma área tribal ao norte, próxima à fronteira com o Afeganistão, possivelmente reunido com Ayman al-Zawahiri. Um plano foi elaborado para levar trinta Seals até o complexo e efetuar o ataque. McChrystal e o diretor da CIA Porter Goss apoiaram o plano, mas o Pentágono preocupou-se com a extração dos Seals, e queriam obter mais poder e incluir 150 Army Rangers. O exame da operação parecia cada vez mais com uma invasão do Paquistão, o que seria danoso politicamente para o general Pervez Musharraf, o presidente paquistanês.
Os homens sob o comando de McChrystal estavam cada vez mais frustrados com os impedimentos políticos que os impediam de cruzar a fronteira do Paquistão onde os líderes da Al-Qaeda estavam escondidos. Em 2006, Frances Townsend, o principal consultor de antiterrorismo de Bush, aceitou o convite de McChrystal para se reunir com seus oficiais e principais operativos de campo em Ft. Bragg. Eles se sentaram ao redor de uma mesa em “U” Townsend disse ao grupo: - “Vocês não vão me melindrar. Eu sou de Nova York, eu sou durão. Portanto, essa viagem só vai valer a pena se vocês me disserem o que os incomoda”. As frustrações foram despejadas. A impossibilidade de cruzar a fronteira, a falta de boa inteligência em nível tático sobre os líderes da Al-Qaeda e, mais fundamentalmente, a grande questão: - “Quem é que está no comando da caça de Bin Laden?”. Townsend disse a eles que fora do tetro da guerra, era a CIA, mas na zona de guerra, o JSOC teria necessariamente que assumir o controle.
Em 11 de agosto de 2006, os comandantes do Talibã e da Al-Qaeda se reuniram para discutir o aumento no ritmo das operações no leste do Afeganistão, em particular as missões conjuntas no ano seguinte, na província de Nangarhar. Em julho de 2007, o JSOC recebeu inteligência de que o próprio Bin Laden poderia cruzar a fronteira do Paquistão para o Afeganistão, para comparecer a uma reunião d cúpula de militantes em Nangarhar, no velho reconhecido território de Tora Bora. A CIA detectou um acúmulo significativo de forças da Al-Qaeda e do Talibã ali. O Pentágono planejou um ataque envolvendo bombardeiros de longo alcance, mas quando os bombardeiros invisíveis B-2 estavam em pleno voo, os comandantes ordenaram seu retorno, em vista de dúvidas sobre a precisão das informações sobre Bin Laden e as possíveis baixas civis num bombardeio em grande escala. Em substituição, o JSOC organizou uma operação menor que durante três ou quatro dias matou dezenas de militantes da Tora Bora. Exatamente como no inverno de 2001, Bin Laden parecia ter desparecido do mapa do Afeganistão.
Em dezembro de 2010, o diretor da CIA, Leon Panetta, voltou a informar o presidente Barack Obama sobre o esforço de pesquisa em Abbottabad, apresentando vídeos do complexo e os relatos etnográficos de quem já vivia no lugar. Embora ainda houvesse dúvidas sobre quem estaria morando no complexo – em certo momento, Obama chegou a dizer: - ”Até onde sabemos, talvez seja só um xeque tentando se esconder de uma de suas esposas” -, o interesse do presidente pelo caso havia chegado ao ápice. Obama disse: - “Quero novas informações assim que eu voltar de viagem, diretor Panetta. Vamos resolver isso o mais rápido possível. Caso ele esteja lá, temos pouco tempo para agir”. Obama se recorda de ter pedido uma análise ainda mais precisa sobre o que acontecia e quem morava no complexo em Abbottabad: - “Se fôssemos preparar qualquer tipo de ataque a esse complexo... precisávamos ter certeza absoluta do que estávamos fazendo”. No final, Bin Laden conseguiu a carnificina que esperava desencadear. Quase três mil norte-americanos morreram no “11 de setembro”.
Desde então, 6.022 militares foram mortos no Iraque e no Afeganistão, e mais de 42 mil feridos. Mais de três mil soldados aliados morreram, além de 1.200 empreiteiros, trabalhadores assistenciais e jornalistas. A maioria das mortes não ocorreu em batalhas - foi na métrica suja de homens-bomba, esquadrões da morte, assassinatos em pontos de inspeção, câmaras de tortura e dispositivos explosivos improvisados. Civis a caminho do trabalho ou soldados dirigindo em círculos, procurando um inimigo que raramente conseguiam encontrar. Talvez nunca saibamos quantos civis inocentes foram mortos no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão, mas estimativas sugerem que 160 mil morreram até agora. Al-Qaeda, por sua vez, perdeu poucos operativos na conflagração mundial - talvez apenas pontos, como disse o ex-presidente Barack Obama. Na verdade, a Al-Qaeda nunca teve muitos membros. No final de 2011, oficiais da CIA ficaram surpresos ao descobrir que um militante indonésio chamado Umar Patek, um dos conspiradores do atentado a bomba de 2002, em Bali, havia visitado recentemente Abbottabad, onde foi preso por agentes do serviço de segurança política paquistanês.
O analista da CIA que dizia já há algum tempo ter certeza quase absoluta de que Bin Laden estava no complexo, concluiu que os serviços de inteligência já haviam feito todo o possível para confirmar a suspeita. Ele procurou Panetta e disse: - “Temos que agir agora. Abu Ahmedal-Kuwaiti pode não estar mais lá no mês que vem. Não vamos conseguir informações melhores do que as que já temos”. Panetta, por sua vez, procurou o presidente e repassou a ele o que ouviu de um dos seus principais agentes responsáveis pela “caça” a Bin Laden: - “Ou entramos em ação agora, ou o que sabemos poderá se perder”. Obama respondeu: - “Quero ter opções para atacar esse complexo”. Em seguida, a Agência Nacional de Informações Geoespaciais usou seus detalhados dados telemáticos de reconhecimento do complexo para reproduzir e interpretar um desenho assistido por computador (“computer aided design”). Com base nesses dados uma maquete de 1, 20 x 1, 25 m do complexo onde Bin Laden estaria foi construída com toda a precisão, detalhe por detalhe. O modelo incluía até dois carrinhos de brinquedo para representar o jipe branco com um pneu reserva e o furgão vermelho que o Kuaitiano e seu irmão usavam. Essa maquete se tornou uma peça chave para as discussões da CIA e, mais tarde, para debater o planejamento de várias opções militares.
Obama pediu à CIA para planejar algumas opções conceituais para abordar o complexo em Abbottabad. Agora, segundo Peter Bergen (2012), com a possibilidade de uma ação militar na mesa. Panetta e o veterano oficial do Pentágono Michael Vickers decidiram envolver outra pessoa na operação secreta. No fim de janeiro, Vickers entrou em contato com o vice-almirante William McRaven, no Afeganistãso, que durante os três anos anteriores vinham comandando o JSOC. Vickers e McRaven já se conheciam há três décadas e vinham trabalhando intensamente em conjunto nos últimos quatro anos, já que Vickers atuava como supervisor civil do JSOC. No Iraque, McRaven havia capitaneado a obscura Força-Tarefa 121, que encontrou Saddam Hussein em dezembro de 2003. Muito do crédito público pela captura da imagem-totem de Saddam Hussein (cf. Rosa, 2012) acabou indo para as unidades militares convencionais, mas, na verdade, forma as Força de Operações Especiais, sob o comando de William MacRaven, as maiores responsáveis pelo esforço paramilitar para encontrar o que a mídia global disseminava como ex-ditador iraquiano. William
Harry McRaven é um almirante quatro estrelas aposentado da Marinha dos Estados
Unidos que serviu pela última vez como o nono comandante do Comando de
Operações Especiais dos Estados Unidos de 8 de agosto de 2011 a 28 de
agosto de 2014. De 2015 a 2018, ele foi o chanceler da Universidade do Texas.
Durante o comando de McRaven no JSOC, a taxa de sucesso disparou de 35% para mais de 80%. A proporção do impacto causado pelo JSOC ao Talibã pode ser dimensionada pelo fato de a medida de idade entre os comandantes talibãs no Afeganistão terem caído de 35 para 25 anos durante esse período. McRaven é um texano robusto, de cabelos escuros e olhos azuis. Em pessoa, enquanto toma um “Rip It”, uma bebida altamente cafeinada popular entre os soldados norte-americanos no Afeganistão, ele costuma falar de forma muito ponderada, maviosa, mas também salpica seus discursos com um ou outro “maldito seja”, além de alguns impropérios mais fortes. Um colega veterano chegou a fazer análise comparada que sua figura lembrava a do super-herói dos quadrinhos norte-americanos Capitão América, enquanto outro disse que ele “é conhecido como o Seal mais inteligente da história. Ele é fisicamente forte, bondoso, mas capaz de enfiar uma faca entre as suas costelas em um nanossegundo”. Mesmo sendo um almirante de três estrelas, McRaven costumava sair com suas equipes em campo para missões de busca mais ou menos uma vez por mês no Afeganistão.
No século XXI, a Marinha dos Estados Unidos mantém uma presença global considerável, com operações navais em áreas como a Ásia Oriental, Mediterrâneo e Oriente Médio. É uma marinha de águas azuis, com a capacidade de projetar poder sobre as regiões litorâneas do mundo, engajar-se em áreas remotas em tempo de paz, e responder rapidamente a crises regionais e globais, tornando-se um jogador ativo na política externa e de defesa norte-americana. Historicamente a Marinha dos Estados Unidos continua a ser um importante suporte aos interesses dos EUA no século XXI. Desde o fim da Guerra Fria, ela mudou seu escopo de preparativos para guerra em larga escala com a União Soviética para operações especiais e missões de ataque em conflitos regionais. A Marinha participou da “Operação Liberdade Duradoura”, a “Operação Liberdade do Iraque”, e é um participante importante na guerra em curso contra o terror. O desenvolvimento continua em novos navios e sistemas de armas, incluindo os porta-aviões Classe Gerald R. Ford e os navios de combate litorâneos (LCS). Devido ao seu tamanho, armas, tecnologia e capacidade de projetar força além da costa norte-americana, a Marinha continua a ser um trunfo poderoso para o norte-americano. O complexo militar opera com 430 navios, 3.700 aeronaves, 50.000 veículos, possuindo 75.200 edifícios militares em 3.300.000 acres com aproximadamente 13. 400 km².
McRaven sugeriu alguns nomes para capitanear a operação em terra. Sobre um comandante Seal do qual gostava em especial afirmou: - “Ele é um operador experiente. Chegando ao complexo, algo pode dar errado, e eles precisam saber como improvisar, mudar de estratégia, partir para um plano B, ou escapar de uma situação complicada”. O planejamento ficou por conta da CIA, organizada com uma cadeia hierárquica que partia do presidente, passava por Panetta e então por McRaven, em vez de uma operação militar de estrutura mais convencional. Os oficiais da CIA passavam a usar o codinome “Atlantic City” para se referir ao CAI, em uma alusão ao fato de que toda a operação seria uma grande aposta. Enquanto McRevan formulava o ataque ao complexo de Abbottabad, seu planejamento foi profundamente influenciado pelos princípios fundamentais detalhados em Spec Ops, um jogo eletrônico de tiro na terceira pessoa produzido pela Yager Development. É o nono capítulo da longa série “Spec Ops” e foi lançado em junho de 2012. Tratava-se de um plano operacional muito simples, mas disciplinarmente mantido secretamente, em “alto sigilo”, ipso facto ensaiado repetidas vezes e que deveria ser executado sempre de surpresas, com rapidez e propósito.
A operação poderia contar com algum tipo de envolvimento paquistanês? Já no final de fevereiro, enquanto todas essas opções eram discutidas, Vickers decidiu que havia chegado a hora de envolver a maior estrategista política do Pentágono, Michèle Flournoy, pois cada opção militar trazia consigo uma série de implicações políticas, muitas delas invariavelmente complicadas. Como subsecretária de Políticas de Defesa, Flournoy era então a mulher de mais alta patente em serviço na história do Pentágono, e era vista por muitos analistas como uma possível candidata a primeira mulher a chegarão cargo de secretária de Defesa Nacional. Mãe de três filhos, formada em relações internacionais pela Balliol College, de Oxford, e detentora de um extenso histórico de trabalho em questões de segurança nacional de máxima relevância, como o Relatório Quadrienal de Defesa do Pentágono, Flournoy é uma mulher imponente, sempre com seus colares de pérolas e terninhos sob sua medida. Ela costuma se expressar com firmeza, sem traço de soberba, e sempre evitando qualquer drama, “como o tipo clássico de oficial que Barack Obama adorava ter ao seu lado”. Michèle Angelique Flournoy foi subsecretária de Defesa para Política, sétimo funcionário do Departamento de Defesa dos EUA, e atuou como principal conselheiro dos Secretários de Defesa, Robert Gates e Leon Panetta, de fevereiro de 2009 a fevereiro de 2012.
O jornalista Seymour Hersh, que recebeu o Prêmio Pulitzer em 1970, afirmou que os Estados Unidos mentiram sobre a operação que matou Osama Bin Laden em Abbottabad, no Paquistão, em 2011. Citando uma fonte anônima – “um aposentado oficial da inteligência” –, Hersh afirmou na revista “London Review of Books” que, ao contrário do divulgado politicamente pelo presidente Barack Obama, Osama Bin Laden já era um prisioneiro “inválido” das forças paquistanesas desde 2006, tendo sido mantido refém para forçar a interrupção das atividades políticas dos extremistas no Paquistão e no Afeganistão. Os agentes teriam contado para os norte-americanos sobre o paradeiro de Bin Laden em troca de parte da premiação de US$ 25 milhões pela captura do líder da Al-Qaeda e fecharam um acordo para que encobrir a história. Segundo o jornalista, os oficiais paquistaneses também receberam a garantia de que manteriam “boas relações” com os Estados Unidos. Hersh alega que os paquistaneses ainda colaboraram com a missão norte-americana ao cortar a energia do local. De acordo com a versão oficial da Casa Branca, Bin Laden foi descoberto pela intelligentsia e morreu em missão secreta. Não era de conhecimento dos paquistaneses. Escola inaugura biblioteca em homenagem a Osama Bin Laden.
Enquanto as informações sobre o complexo em Abbottabad se consolidavam, o problemático histórico entre Estados Unidos e Paquistão sofreu pioras significativas quando Raymond Davis, um cidadão norte-americano, matou dois paquistaneses na agitada cidade de Lahore, em 25 de janeiro de 2011. O caso parecia confirmar todas as teorias conspiratórias paquistanesas de que o país estava infestado de espiões da Central Intelligence Agency (CIA), e muitos paquistaneses, incluindo alguns políticos, clamaram pela execução de Davis. Após o incidente, a grande tensão entre os dois países reduziu as chances já diminutas de o governo dos Estados Unidos vir a informar qualquer elemento do governo ou do exército paquistanês sobre as recentes descobertas do possível paradeiro do líder da Al-Qaeda. Outro fator a ser levado em conta era que o esforço de guerra norte-americano no Afeganistão, um país sem saídas para o mar, era altamente dependente de suprimentos que chegavam através do Paquistão; no início de 2011, por volta de três quartos de todos os suprimentos da OTAN e da América do Norte, incluindo alimentos, combustível e equipamentos, tiveram que passar por revistas necessariamente pelas fronteiras paquistanesas. O Paquistão permitia igualmente que seu espaço aéreo fosse utilizado proporcionalmente de 300 a 400 vezes dia para que aviões americanos chegassem ao Afeganistão para suprir 100 mil soldados em campo no país.
Em 14 de março de 2011, o conselho de guerra de Obama se reuniu na Casa Branca para uma reunião com o presidente. As linhas de ação apresentadas a Obama oralmente e também em memorandos e gráficos incluíam um bombardeio com um avião B-2, um ataque com uma aeronave não tripulada, a incursão de agentes especiais e algum tipo de operação bilateral com os paquistaneses. No entanto, essa opção também tinha seus problemas. Para destruir o complexo, com seu quase meio hectare, seria necessário um imenso carregamento de bombas. O general Cartwright explicou que o bombardeio causaria um impacto similar ao de um terremoto na área. O uso de tamanha força certamente causaria baixas civis, e não apenas entre as mulheres e crianças que eles sabiam habitar o complexo, mas também de moradores das casas vizinhas. E é claro, não restaria qualquer prova da morte de Bin Laden, já que qualquer possível amostra de DNA seria vaporizada pelo ataque, levando consigo qualquer evidência empírica de que ele de fato estava morando naquele local. A opção de usar um bombardeio B-2 provocou um amplo debate. Segundo Tony Blinken, “algumas pessoas disseram que as provas de DNA não eram o mais importante”. Se Bin Laden estava lá, e nós sabíamos disso, podíamos fazer alguma coisa, retirá-lo de cena de uma vez por todas era o que realmente contava. – “No entanto, outros acreditavam que mais da metade do sucesso da operação estaria ligada ao fato de o mundo inteiro ficar sabendo que Bin Laden havia sido morto, e nós precisaríamos comprovar isso, ou pelo menos ter provas suficientes para dispensar qualquer dúvida ou teoria de conspiração”.
Além disso, como a CIA não tinha como vistoriar o complexo, existia também achance de que Bin Laden pudesse se abrigar em algum bunker escondido no interior do prédio, ou mesmo escapar por algum túnel. Usando imagens termográficas, a Agência Nacional de Informações Geoespaciais concluiu que os lençóis freáticos em volta do complexo em Abbottabad eram pouco profundos. Dado o nível dos lençóis freáticos, os analistas descartaram a ideia de que Bin Laden pudesse escapar por algum túnel, mas ainda restava a chance de haver algum tipo de cofre ou sala blindada em sua casa. Os defensores da incursão por terra, qua incluíam Panetta, argumentaram que embora fosse arriscado usar os Seals, caso eles invadissem o complexo e Bin Laden não fosse encontrado, ainda havia uma chance razoável de que eles pudessem ir embora sem que ninguém jamais soubesse da operação. Um ataque aéreo usando um helicóptero de Operações Especiais que não capturasse Bin Laden não violaria o domínio paquistanês porque jamais viria à tona, enquanto um bombardeio resultaria em um espetáculo público, eliminando qualquer chance de negar a operação posteriormente.
Outra opção seria usar uma aeronave não tripulada Predator ou Reaper para sobrevoar a suposta residência de Bin Laden e lançar um míssil ou uma pequena bomba contra o complexo. Cartwright, o general favorito de Obama, defendeu essa abordagem. A ideia seria usar um projétil bem pequeno para acertar o “conta-passos” que os satélites americanos vinham registrando durante seus passeios diários. Um ataque como esse exigiria um altíssimo grau de precisão, e existiria o risco de que o avião simplesmente errasse o alvo, como já havia acontecido em outras missões contra alvos de alto valor desse tipo. No entanto, o risco de baixas civis seria muito menor, e a reação paquistanesa provavelmente seria mais amena do que a esperada contra um ataque aéreo convencional. Comprovar a morte de Bin Laden seria um desafio, mas haveria rumores em relação ao martírio de Bin Laden entre os líderes da Al-Qaeda após o ataque, que poderiam ser detectados pelos satélites americanos. Al-Qaeda quase sempre acaba confirmando a morte de seus líderes políticos em comunicados, pois se orgulha de anunciar a morte de seus mártires.
Vale lembrar que Michèle Flournoy defendeu a incursão: - a certa altura, as provas circunstâncias se tornaram tão abundantes que ficaria difícil explicar a existência do complexo e a presença de certos indivíduos ali sem que Bin Laden estivesse no local. Simplesmente não fazia nenhum sentido. Em segundo lugar, do ponto de vista tanto simbólico quanto estratégico, capturar ou abater Osama bin Laden causaria um impacto muito forte na Al-Qaeda, além de todas as perdas que eles já haviam sofrido. Em terceiro, ajudaria a entender melhor essa rede de terrorista e a criar novas oportunidades para agir contra os principais líderes do grupo caso invadissem o complexo. Na reunião de 14 de março, o almirante McRaven detalhou como seria a incursão, dizendo diretamente a Obama: - “Senhor presidente, nós ainda não testamos todas as possibilidades a fundo e não sabemos se essa opção seria possível, m as assim que terminarmos os estudos, comprometo-me a avisa-lo imediatamente”. O que ainda restava era a ideia de um ataque cirúrgico com uma arma de enfrentamento, uma aeronave não tripulada; a opção de um ataque com helicópteros e a estratégia do “esperar para ver”, que se resumia a tentar reunir informações mais conclusivas.
Naquele momento, passadas mais de três décadas, outro presidente democrata norte-americano estava considerando por sua presidência em jogo com um ataque de helicóptero no outro lado do planeta, como ocorrera no fracasso da guerra contra o Vietnã, chamada no Vietnã de “Guerra de Resistência contra a América”, em mais um país que muitos na Casa Branca viam, na melhor das hipóteses, como um aliado ambíguo. Segundo Flournoy, conforme a ideia de uma equipe Seal lançada por helicópteros parecia cada vez mais plausível, a hipótese de alertar os paquistaneses sobr a operação foi se tornando cada vez mais remota: - “Embora os dois planos tivessem muitos interesses na captura de Bin Laden, nosso receio – afirma – era que a ideia de ver soldados americanos cruzando as fronteiras paquistanesas para uma incursão como aquela poderia causar ambivalência demais e impedir que nós tivéssemos o apoio desejado. No final das contas nós concluímos que nosso objetivo era tão crucial e havia tantos interesses vitais em jogo que o risco de os paquistaneses vazarem nossas informações ou decidirem se opor por questões de soberania era alta demais”. Foi decidido que iriam realizar a operação unilateral, mas avisá-los assim que fosse possível. Para o caso dos agentes serem cercados no complexo em Abbottabad por tropas hostis, a equipe de segurança nacional de Obama discutiu que seria a melhor pessoa para entrar em contato explicando a situação ao homem mais poderoso do Paquistão, o chefe do exército, general Ashfaq Parvez Kayani. Obama não entrou em detalhes táticos, como deveriam estar os helicópteros Chinook com tropas de apoio, nem quantos Seals a mais seriam necessários para completar a equipe de ataque; ele apenas disse a McRaven que o grupo precisaria ser capaz de lutar para escapar. Portanto, refez seus planos e voltou com uma série de saídas para proteger a equipe de ataque, em especial uma opção que contaria com uma força de reação rápida a postos já em solo paquistanês, em vez de depender de helicópteros na fronteira afegã-paquistanesa, como no pano anterior. – “Foi Obama quem sugeriu usar os Chinook-47. Foi ele quem insistiu na necessidade de mais reforços”. A incursão usaria os helicópteros “invisíveis” sugeridos por Cartwright, o que os ajudaria a evitar os radares.
Ao longo da década seguinte aos atentados consagrados de 11deSetembro às torres gêmeas, os agentes Seal realizaram centenas de invasões a prédios em ambientes hostis e encontraram praticamente todos os tipos de surpresa possíveis: mulheres armadas, pessoas com coletes-bomba sob seus pijamas, insurgentes escondidos em “tocas de aranha” e até prédios inteiros armados com explosivos. Os agentes precisavam estar preparados para encontrar qualquer uma dessas ameaças no complexo em Abbottabad. As equipes Seal ainda ensaiaram por mais uma semana no meio de abril no deserto de Nevada. A intenção era replicar as prováveis condições climáticas e de altitude de Abbottabad, situada a mais de 1. 200 metros acima do nível do mar. Mais uma vez, Olson, McRaven, Vickers e Bash observaram o ensaio, desta vez ao lado do almirante Mullen. As equipes Seal saíram então para um voo de cerca de uma hoira em seus helicópteros. Durante esse novo ensaio, as condições do vento forçaram os helicópteros a se aproximarem de seu alvo por uma direção não planejada. Enfim, após assistir os ensaios, McRaven foi à Casa Branca para dar a Obama e a seus principais conselheiros de segurança sua opinião sobre a viabilidade da operação letal.
Conforme o planejamento da incursão se consolidava, os oficiais da Casa Branca precisaram pensar no que aconteceria caso Bin Laden fosse pego. Como Bin Laden já havia dito várias vezes que preferia morrer como um mártir sendo capturado pelos Estados Unidos, as chances de prendê-lo foram descartadas como muito pouco prováveis. Vale lembrar que em 2004, Abu Jandal, um ex-guarda-costas de Bin Laden, disse ao jornal Al-Quds Al-Arabi: - “O xeque Osama me deu uma pistola... e ela só tinha duas balas, para que eu pudesse mata-lo caso fossemos cercados ou ele estivesse prestes a cair nas mãos do inimigo, evitando que ele fosse capturado vivo... Ele preferia se tornar um mártir a ser preso, e seu sangue se tornaria uma bandeira para conclamar o zelo e a determinação de todos os seus seguidores”. Para tal cenário dramático, foi preparada uma equipe de interrogatório para detentos de alto valor, composta por advogados, intérpretes e interrogadores experientes, todos a postos na Base Aérea de Bagram, no Afeganistão. Junto com Bin Laden, essa equipe seria levada ao porta-aviões USS Carl Vinson, que estaria deixando o litoral paquistanês pelo mar da Arábia, onde provavelmente o líder da Al-Qaeda seria capturado e interrogado por um tempo indeterminado. Em 11 de setembro de 2001, Ben Rhodes, trabalhava no Brooklin e pode ver perfeitamente as torres do World Trade Center desabando.
Ele se recorda do momento em que Brennan o informou sobre o caso Bin Laden: - “Eu senti o imenso peso da informação que estava recebendo. No meu trabalho, é comum estar por dentro de muitos segredos, mas aquilo foi diferente. Afinal, era Osama bin Laden, e é claro que você fica ansioso, empolgado e nervoso. Nosso primeiro impulso é querer falar com todo mundo, mas é preciso cuidado para proteger essas informações”. Brennan, Rasmussen, do Conselho de Segurança Nacional, e McDonough, vice-assessor de segurança nacional de Obama, desenvolveram um manual para diversos cenários de guerra que poderiam acontecer durante e após a missão. Eles começaram a preparar o texto semanas antes de o presidente tomar sua decisão final sobre o que fazer em Abbottabad, porque durante o tempo todo, ele lhes disse: - “Continuem se preparando. Ainda não me decidi, mas continuem trabalhando em todas as opções. E quero tudo planejado até os últimos detalhes”. Eles pediram a Rhodes para ajuda-los a formular as diversas mensagens jornalísticas que seriam divulgadas em cada desfecho. George Little foi o único outro a ser informado sobre a missão, para preparar uma versão pública (ideológica) do caso Bin Laden que pudesse ser oferecida à imprensa e ao público, caso a operação em Abbottabad fosse exposta. PhD em relações internacionais preparou um documento de 66 páginas com diagramas do complexo.
A Operação Lança de Netuno estava prestes a acontecer. O nome representava uma alusão ao tridente empunhado por Netuno, o deus mitológico dos mares que aparece no distintivo dado a todos aqueles que entram para os Seals. O sigilo em torno da missão Bin Laden foi tão rigoroso que, de todos os 150 mil soldados dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganistão, o único que sabia da operação era seu comandante geral, o general David Petraeus, que havia sido informado três dias antes. Como era comum no Afeganistão, dezenas de operações das Forças Especiais seriam realizadas naquela mesma noite do ataque para capturar ou matar líderes militantes. A incursão Bin Laden era diferente não apenas pelo seu alvo, mas também por acontecer em um país supostamente aliado dos Estados Unidos da América, por mais que suas autoridades não tivessem sido notificadas da operação. Caso fosse necessário, Petraeus estava pronto para despachar aeronaves ao Afeganistão contra jatos paquistaneses que tentassem interceptar ou mesmo atacar os helicópteros que agora entravam em seu espaço aéreo.
Embora
não tenham sido formalmente fundados até 1962, os modernos SEALs da Marinha dos
EUA têm suas raízes na 2ª guerra mundial. As Forças Armadas dos Estados Unidos da
América perceberam a necessidade do reconhecimento secreto das praias de
desembarque e das defesas costeiras. Como resultado, a Amphibious Scout and
Raider School, do Corpo de Fuzileiros Navais e da Marinha foi fundada em
1942 em Fort Pierce, Flórida. Os Scouts and Raiders foram formados em setembro
daquele ano, apenas nove meses após o ataque a Pearl Harbor, pelo Observer
Group, uma unidade conjunta do Exército, Corpo de Fuzileiros Navais e a
Marinha dos Estados Unidos. Um seleto grupo de pessoal do Exército e da Marinha
reuniu-se na Base de Treinamento Anfíbio Little Creek, Virgínia, em 15
de agosto de 1942, para iniciar o treinamento de Amphibious Scouts and Raiders.
Sua missão era identificar e reconhecer a praia objetivo, manter uma posição na
praia designada antes do desembarque e guiar as ondas de assalto até a praia de
desembarque. A unidade foi liderada pelo 1º Tenente do Exército Lloyd Peddicord
como oficial comandante e pelo Alferes da Marinha John Bell como oficial
executivo.
Os
suboficiais e marinheiros da Marinha vieram do grupo de barcos da Base de
Treinamento Anfíbio Naval dos EUA situada em Solomons, Maryland, e o pessoal do
Army Raider veio da 3ª e 9ª Divisões de Infantaria. Eles treinaram em Little
Creek até embarcarem para a campanha do Norte da África em novembro seguinte. A
Operação Tocha foi lançada em novembro de 1942 na costa atlântica do
Marrocos francês, no Norte da África. O primeiro grupo incluía Phil H. Bucklew,
o “pai da guerra especial naval”, que dá nome ao edifício do Centro de Guerra
Especial Naval. Comissionado em outubro de 1942, este grupo entrou em combate
em novembro de 1942 durante a Operação Tocha na Costa Norte da África. Scouts
and Raiders também apoiaram desembarques na Sicília, Salerno, Anzio, Normandia
e Sul da França. O segundo grupo de Scouts and Raiders, codinome Special
Service Unit No. 1, foi estabelecido em 7 de julho de 1943, como uma força
de operações conjuntas e combinadas. A primeira missão, em setembro de 1943,
foi em Finschhafen, na Papua-Nova Guiné. As operações posteriores ocorreram em
Gasmata, Arawe, Cabo Gloucester e nas costas Leste e Sul da Nova Grã-Bretanha,
todas sem qualquer perda de pessoal. Surgiram conflitos sobre questões
operacionais e todo o pessoal não pertencente à Marinha foi realocado.
A
unidade, renomeada como 7º Amphibious Scouts, recebeu uma nova missão:
desembarcar com os barcos de assalto, criar canais de boia, erguer marcadores
para as embarcações que chegam, lidar com vítimas, fazer sondagens offshore,
limpar obstáculos na praia e manter comunicações de voz ligando as tropas em
terra, barcos que chegam e navios próximos. Os 7º Amphibious Scouts
conduziram operações no Pacífico durante o conflito, participando de mais de 40
desembarques. A terceira e última organização de Scouts and Raiders
operou na China. Eles foram destacados para lutar com a Sino-American
Cooperative Organization. Para ajudar a reforçar o trabalho, o almirante Ernest
King ordenou que 120 oficiais e 900 homens fossem treinados para Amphibious
Raider na escola Scout and Raider em Fort Pierce, Flórida. Eles formaram o
núcleo de intelligentsia do que foi concebido como uma etapa da “organização
guerrilheira anfíbia de americanos e chineses operando em águas costeiras,
lagos e rios, empregando pequenos barcos a vapor e sampanas”. Embora a maioria
das forças dos invasores anfíbios permanecessem em Camp Knox, em Calcutá, Índia,
três dos grupos militares prestaram serviço ativo. Eles realizaram um
levantamento de parte do rio Yangtzé em 1945 e,
disfarçados de Coolies, conduziram um levantamento detalhado de três meses da
costa chinesa, de Xangai a Kitchioh Wan, perto de Hong Kong.
É notoriamente difícil se tornar um Seal. Em primeiro, você precisa sobreviver ao que é considerado “o mais árduo treinamento do mundo”. Semana do Inferno é o adequado apelido pelo qual é conhecido o clímax do brutal processo de seleção, que envolve correr, fazer flexões, mover troncos maciços em equipes, nadar distâncias consideráveis no mar gelado e dormir apenas algumas horas durante a semana toda. Outros testes incluem nadar submersos por 45 metros com as mãos amarradas atrás do corpo e os pés atados. O índice de desistência do programa é de 90%. Durante esta prova, os que passam precisam permanecer calmos e descobrir como restabelecer o suprimento reserva de oxigênio enquanto os corpos estão desesperados por ar.Se já é bastante desafiador se tornar um Seal, um desafio ainda maior é ser selecionado para a força principal de antiterrorismo dos Seals que recebeu o nome de “Grupo para o Desenvolvimento de Operações Especiais da Marinha”, baseado em Dam Neck, Virgínia, próximo ao movimentado balneário de Virgínia Beach. É reconhecido no métier militar como DevGru - popularmente, Equipe dos Seis Seals -, e é considerado a tropa de elite dos Seals. Seus homens giram em torno de 250 membros, são endurecidos ideologicamente por batalhas e têm geralmente a idade média de 30 anos.
É dividido em esquadrões nomeados por cores. Vermelho, Azul e Preto é a equipe de atiradores especiais. Estes esquadrões vasculham outras equipes de Seals, que possuem ao tododois mil homens, em busca dos que tenham habilidades específicas de que precisam. Sua base física em Dam Neck não chamava atenção. Por trás da alta cerca de arame que separa os Seals do resto mundo árabe fica um grande canil, onde vivem os cães altamente treinados que acompanham os homens em suas missões. Há um muro gigante para aperfeiçoar as habilidades técnicas de escalada; um hangar tomado de barcos excepcionalmente rápidos; outros hangares que abrigam buggies experimentais adequados para dirigir nos desertos e montanhas do Afeganistão, e depósitos de armamento lotados de armas de fogo letais que tornavam exóticos o cenário natural. Os principais líderes do grupo terrorista estavam baseados ou no Paquistão, um aliado volúvel, ou no Irã, um inimigo mortal, e as consequências políticas de colocar norte-americanos no território de qualquer um desses dois países eram imensas.
Enfim, em seu quarto no último andar, Bin Laden havia se tornado vítima de suas próprias medidas de segurança. As poucas janelas garantiam sua privacidade, mas agora, segundo Peter Bergen (2012), também impossibilitavam que ele visse o que estava acontecendo do lado de fora do pequeno quarto que ele dividia com sua esposa mais jovem Amal al-Sadah, quinta esposa de Osama bin Laden, que garantiu que nunca tivera ligações com a al-Qaeda. Amal al-Sadah, que foi ferida na perna durante a invasão da fortaleza por tropas americanas, no Paquistão, casou-se com Bin Laden em 2000, aos 18 anos de idade. Osama tinha 43. Ahmed diz que acompanhou o crescimento da menina, definida por ele como uma “adolescente, calma, educada, tranquila e confiante”. O casamento foi, aparentemente, uma aliança política para fortalecer o apoio de Bin Laden na terra de seus antepassados. Segundo Ahmed, parente da jovem viúva, eles descendem de uma família tradicional de Ibb, no Iêmen, e não tinham contato com a organização antes do casamento arranjado. – “Foi-me dito depois que eles se casaram porque Osama não queria cortar os laços com sua antiga casa, o Iêmen” - disse Ahmed.
Vestido com seus mantos shalwarkameez, o líder da Al-Qaeda esperou em silêncio alguns minutos, em aparente concentração e expectativa, enquanto os Seals invadiam seu último refúgio nacional. Com a eletricidade desligada, deve ter aumentado ainda mais a confusão no interior do quarto. Ele tinha várias centenas de euros e dois números de telefone, um para um celular do Paquistão e o outro de uma central de chamadas nas regiões tribais paquistanesas. O plano de fuga de Bin Laden para escapar se resumia a nada que pudesse ajudá-lo do fim da supremacia e de manutenção da “soberania do eu” naquele momento histórico. Três Seals deixaram a casa do Kuaitiano por um portão de metal em uma parede de dentro do complexo e chegaram a um pátio gramado em frente à casa principal de Bin Laden. Enquanto subiam até o segundo andar, os Seals encontraram Khalid, o filho de 23 anos de Bin Laden, e o mataram na escada. Ele parecia estar desarmado. Várias crianças estavam começando a se amontoar nas escadas e entre os andares. Em uma prateleira e seu quarto, estavam a AK-47 e uma pistola Makarov, duas constantes companheiras de Bin Laden, mas ele não as usara.
Em vez disso, ele abriu um portão de metal que bloqueava todo o acesso ao seu quarto e só podia ser aberto por dentro e pôs a cabeça para fora para ver que barulho era aquele. Osama Bin Laden foi atingido por uma bala na cabeça quando olhou pela porta de seu quarto para o corredor. O líder da Al Qaeda não portava nenhuma arma quando as tropas norte-americanas entraram no cômodo. Ao ouvir homens estranhos invadindo seu quarto, Amal gritou algumas palavras em árabe e se jogou na frente do marido. Os Seals pegaram o corpo de Bin Laden e o arrastaram escada abaixo para fora de sua casa, deixando um rastro de sangue pelo chão. Tudo sob o olhar atento de Sáfia, sua filha de 12 anos. Os corpos de três outros homens mortos, o mensageiro, seu irmão e Khalid bin Laden, ficaram espalhados pelo complexo com sangue escorrendo na carnificina. Bushra, a cunhada do mensageiro, estava ao lado de seu marido, que também havia sido morto. Era uma vingança dissimulada contra todo povo árabe. Ironicamente realizada sob custódia de um presidente negro de origem africana.
Bibliografia geral consultada.
ATWAN, Abdel Bari, A História Secreta da Al-qaeda. São Paulo: Editora Larousse, 2008; MOREIRA, Deodoro
José, Islã e Terror: Estratégias de Construção na Mídia Impressa. Tese
de Doutorado. Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica. São
Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009; JORGE, Bernardo Wahl Gonçalves de Araújo, As Forças de Operações Especiais dos Estados Unidos e a Intervenção no Afeganistão: Um Novo Modo de Guerra Americano? Dissertação de Mestrado. São Paulo: Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC-SP, 2009;SOUZA, Bruno Mendelski
de, “A Morte de Osama Bin Laden e suas Implicações para o Futuro da Al-Qaeda”.
In: Univ. Rel. Int. Brasília, Volume 9, n° 2, pp. 139-160, jul./dez.
2011; ROSA, Ana Paula da, Imagens-Totens: A Fixação de Símbolos nos Processos de Midiatização. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos sinos, 2012; BERGEN, Peter, Procurado: Do 11 de Setembro ao Ataque a Abbottab. Os Dez
Anos de Caça a Osama Bin Laden. Tradução de Annal Lim, Lana Lim e Otávio
Albuquerque. Barueri (SP): Editora Amarilus, 2012; ALARCON, Danillo, Os
Meandros da Política Externa dos Estados Unidos para o Afeganistão: O 11 de
Setembro e a Operação Liberdade Duradoura. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais. Brasília: Universidade de Brasília, 2012; REGIO, Marília Schramm, Imagens e Memórias: A Representação do 11 de Setembro no Cinema Norte-Americano. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social FAMECOS. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2017; MORELLA JUNIOR, Jorge Hector, A Guerra do Terror Proposta após os Atentados
Terroristas Transnacionais de 11 de Setembro de 2001 Coloca o Mundo (In)
segurança Global. Programa de Pós-Graduação em Ciência Jurídica. Tese de
Doutorado. Itajaí: Universidade do Vale do Itajaí, 2018; BEGERES BISNETO, Victor, Fronts Islamitas no Brasil: Prenúncios de uma Radicalização Incompleta Face ao Fundamentalismo Existencial. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2019; entre outros.
“Por favor, acredite que
eu faria qualquer coisa para vê-la feliz”. Carol Aird
Carol tem como representação social um
filme de drama romântico histórico de 2015 dirigido por Todd Haynes. O roteiro
de Phyllis Nagy é baseado no romance de 1952, The Price of Salt, de
Patricia Highsmith (1921-1995), republicado como Carol em 1990. O filme
é estrelado por Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Jake Lacy e Kyle
Chandler. Ambientado na cidade de Nova York dos anos 1950, a história gira em
torno de um “caso proibido entre uma aspirante a fotógrafa e uma mulher madura
que está passando por um divórcio difícil”. Carol estava em desenvolvimento
desde 1997, quando Nagy escreveu o primeiro rascunho do roteiro. A
empresa britânica Film4 Productions e sua diretora executiva, Tessa Ross,
financiaram o desenvolvimento. O filme passou por um período conturbado de
desenvolvimento, enfrentando problemas com financiamento, direitos autorais,
conflitos de agenda e acessibilidade. A Number 9 Films entrou como produtora em
2011, quando Elizabeth Karlsen garantiu os direitos do romance. O filme é
coproduzido pela Killer Films, sediada em Nova York, que se juntou ao projeto
em 2013, depois que a colaboradora de Haynes, Christine Vachon, o convidou para
dirigir. A
maioria das jurisdições ocidentais adota um sistema de divórcio sem culpa,
no qual o divórcio pode ser concedido com base apenas na alegação por uma das
partes de que o casamento se deteriorou de forma irreversível, sem necessidade
de alegar ou provar culpa. O pedido pode ser feito por qualquer uma das partes
ou por ambas conjuntamente.
Em jurisdições que adotam o princípio do “divórcio
sem culpa”, alguns tribunais ainda podem levar em consideração a culpa ao
determinar certos aspectos dos termos da sentença de divórcio, por exemplo, a
divisão dos bens e dívidas e a concessão de pensão alimentícia para o cônjuge.
Alguns comportamentos que podem constituir culpa conjugal, como violência,
crueldade ou abuso de substâncias, também podem ser considerados ao determinar
a guarda dos filhos, mas as decisões de guarda são tomadas com base em um
critério fundamental diferente: o melhor interesse da criança ou das crianças. Uma grande porcentagem
dos casos de divórcio é “consensual”, significando que as partes do divórcio
conseguem chegar a um acordo sobre a divisão dos bens, a guarda dos filhos e as
questões de pensão, em vez de ter essas questões decididas por um juiz. Também
é conhecido como divórcio por consentimento mútuo ou divórcio mútuo. Quando as partes conseguem chegar a um acordo
e apresentar ao tribunal um acordo justo e equitativo, a aprovação do divórcio
é normalmente concedida. Quando as questões sociais não são complexas e as
partes são cooperativas, um Acordo pode frequentemente ser negociado
diretamente entre elas. Se as duas partes não conseguirem chegar a um acordo,
elas podem solicitar ao tribunal que decida sobre a divisão dos bens e a guarda
dos filhos. Embora isso possa ser necessário, os tribunais preferem que as
partes cheguem a um acordo antes de ingressar no processo judicial. Nos Estados
Unidos da América, muitos sistemas de tribunais estaduais relatam que um número
significativo de casos de divórcio é ajuizado pro se, o que significa
que as partes tem como representação social, a si mesmas sem a assistência de
um advogado. Pois, tribunais em áreas urbanas da Califórnia relatam que
quase 80% dos novos divórcios são ajuizados pro se.
Etnograficamente as
filmagens principais em torno da produção britânico-americana começaram em
março de 2014, em Cincinnati, Ohio, e duraram 34 dias. O diretor de fotografia
Edward Lachman filmou Carol em película Super 16 mm. Carol estreou no Festival
de Cannes em 17 de maio de 2015 e foi lançado nos Estados Unidos em 20 de
novembro e no Reino Unido em 27 de novembro. Arrecadando mais de US$ 42 milhões
com um orçamento de US$ 11 milhões, o filme recebeu ampla aclamação pela direção
de Haynes e pelas atuações de Blanchett e Mara, sendo o filme mais bem avaliado
de 2015. Concorreu à Palma de Ouro em Cannes, onde Mara empatou com Emmanuelle
Bercot na categoria de Melhor Atriz. O filme recebeu muitos prêmios, incluindo
seis indicações ao Oscar, nove ao BAFTA e cinco ao Globo de Ouro. Também ganhou
cinco prêmios Dorian e prêmios do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York,
da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e da Sociedade Nacional de
Críticos de Cinema. Carol foi classificado pelo British Film Institute
como o melhor filme de “amor feminino” de todos os tempos e nomeado um dos
maiores filmes do século XXI pela BBC. No Natal de 1952, a aspirante a fotógrafa Therese Belivet trabalha na loja de
departamentos Frankenberg, em Manhattan. Ela conhece uma mulher elegante, Carol
Aird, que procura uma boneca para sua filha, Rindy. Por recomendação de
Therese, Carol compra um conjunto de trem em miniatura. Ao sair, Carol deixa
suas luvas no balcão. Therese as envia pelo correio, usando o comprovante de
compra da Frankenberg com o nome e endereço de Carol.
O namorado de Therese,
Richard, quer que ela vá para a França com ele, na esperança de que se casem,
mas ela está indecisa sobre o relacionamento. Um amigo em comum, Dannie,
convida Therese para o seu local de trabalho, o The New York Times, e se
oferece para apresentá-la a um amigo editor de fotografia. Enquanto isso, Carol
está passando por um divórcio difícil do marido, Harge. Carol liga para a loja
Frankenberg`s para agradecer ao funcionário que devolveu as luvas e convida
Therese para almoçar. Therese visita Dannie e ele a beija, mas ela fica
desconfortável e vai embora. Carol convida Therese para sua casa em Nova
Jersey. Ela para para comprar uma árvore de Natal, e Therese tira fotos
espontâneas dela. Harge chega inesperadamente para levar Rindy para a Flórida
para o Natal; ele fica desconfiadode
Therese, pois Carol teve um caso anos antes com sua amiga Abby. Therese
presencia a discussão entre eles. Depois que Rindy vai
embora, uma Carol angustiada leva Therese até a estação de trem para que ela
possa voltar para casa. Carol liga para Therese para se desculpar e elas se
encontram no apartamento dela, onde Carol a surpreende com uma mala contendo
uma câmera Canon e filme de presente. Carol descobre que Harge pede ao
juiz que considere “cláusula de moralidade” contra ela, ameaçando expor sua
homossexualidade e obter a guarda total de Rindy. Ela decide fazer uma viagem
de carro para escapar do estresse do processo de divórcio e convida Therese
para ir com ela. Richard acusa Therese de estar apaixonada por Carol e prevê
que Carol logo se cansará dela.
As duas discutem e o relacionamento chega ao
fim. Na segunda noite da viagem, Therese conhece um vendedor viajante, Tommy
Tucker. Na véspera de Ano Novo, Carol e Therese se beijam pela primeira vez e
fazem sexo. Na manhã seguinte, descobrem que Tucker é, na verdade, um detetive
particular contratado por Harge para obter provas contra Carol. Carol confronta
Tucker, ameaçando-o com uma arma, mas ele alega já ter enviado gravações para
Harge. Carol e Therese voltam à trás. No dia seguinte, em Chicago, Therese
descobre que Carol voltou para casa para lutar pela guarda da filha, tendo
pedido a Abby que a levasse de carro. Abby lhe entrega uma carta de Carol. De volta a casa,
Therese telefona para Carol, mas, sabendo que corre o risco de perder a guarda
de Rindy se continuar o relacionamento com Therese, Carol desliga. Therese cria
um portfólio com suas fotografias e consegue um emprego no The New
York Times. Enquanto isso, Carol está fazendo terapia como condição para o
acordo de divórcio. Durante uma reunião tensa com os advogados do divórcio em
meados de abril, Carol admite repentinamente a verdade sobre o conteúdo das
gravações e se recusa a negar sua sexualidade. Para evitar ir ao tribunal e a
possibilidade de ocorrer um escândalo público, ela diz a Harge que ele pode
ficar com a guarda de Rindy se permitir visitas regulares. Carol escreve para
Therese e elas se encontram no salão do Hotel Ritz Tower. Carol revela que vai
trabalhar em uma loja de móveis e alugou um apartamento na Madison Avenue.
Therese recusa o convite de Carol para morar com ela. Carol diz a Therese que
vai se encontrar com alguns colegas no Salão do Carvalho e que, se ela mudar de
ideia, podem nessa ocasião jantar juntas. Therese permanece imóvel e Carol diz:
“Eu te amo”.
Elas são interrompidas por Jack, um colega que não vê Therese há
meses, e Carol se retira. Therese aceita a carona de Jack para uma festa, mas
percebe que não consegue se conectar com ninguém. Ela vai para o Oak Room.
Observa os clientes e vê Carol em uma mesa. Therese hesita, depois caminha em
direção a Carol. Seus olhares se cruzam. Carol olha para Therese com um sorriso
que se alarga lentamente. Carol é baseado no romance romântico semiautobiográfico
de Patricia Highsmith, The Price of Salt, de 1952. O livro foi
originalmente publicado sob o pseudônimo de Claire Morgan pela editora
Coward-McCann, depois que a editora de Highsmith, Harper & Brothers, o
rejeitou. Em 1990, Highsmith concordou em republicá-lo com a Bloomsbury
Publishing sob seu próprio nome, e o renomeou para Carol. A obra foi
inspirada por um encontro em 1948 entre Highsmith e uma mulher loira usando um
casaco de Vison, Kathleen Wiggins Senn, enquanto trabalhava como vendedora na
seção de brinquedos da Bloomingdale`s em Nova York durante a temporada de
Natal. Naquela noite, ela escreveu um esboço de oito páginas, que desenvolveu
algumas semanas depois e concluiu em 1951. A personagem Therese Belivet foi
baseada na Highsmith. Senn inspirou a personagem de Carol Aird, mas seu
modelo foi inspirado nos relacionamentos de Highsmith com duas ex-amantes, a socialite
da Filadélfia Virginia Kent Catherwood e a psicanalista Kathryn Hamill Cohen.
Catherwood perdeu a guarda da filha em divórcio de repercussão que envolveu
gravações secretas de sua amante.
A produtora britânica
Elizabeth Karlsen, da Number 9 Films, encontrou o roteiro de Nagy por volta de
2004, quando coproduzia Mrs. Harris com Christine Vachon, da Killer Films,
sediada em Nova York. Os direitos de Berwin sobre The Price of Salt expiraram
em 2010, e Karlsen adquiriu o roteiro posteriormente. Berwin permaneceu como
produtora executiva do filme. Karlsen conseguiu convencer os herdeiros de
Highsmith a ceder os direitos, fechando o acordo com Tessa Ross no final de
2011. Ela então persuadiu uma Nagy desiludida e relutante a voltar ao projeto.
Os produtores contrataram um diretor britânico, que posteriormente desistiu
devido a conflitos de agenda. Mais tarde, recrutaram o diretor irlandês John
Crowley, que foi anunciado em maio de 2012 juntamente com o elenco principal,
Cate Blanchett e Mia Wasikowska, e os produtores envolvidos, Karlsen e Stephen
Woolley da Number 9 Films e Tessa Ross da Film4, que recebeu crédito de
produtora executiva. As filmagens de Carol estavam programadas para começar no
início de 2013, até que Crowley desistiu devido a um conflito de agenda.
Karlsen ligou para Vachon para discutir a perda de mais um diretor, e Vachon
lhe disse que o novo filme de Haynes não iria acontecer porque sua estrela
também havia desistido. Eles então decidiram abordar Haynes. Vachon,
colaboradora de Haynes, perguntou se ele estaria interessado e ele recebeu uma
cópia do roteiro. Dois dias depois, ele
concordou em dirigir, e Vachon se juntou como produtora. Haynes foi anunciado como diretor em 22 de
maio de 2013.
Três dias depois, a The Weinstein Company adquiriu os direitos de
distribuição nos EUA no Festival de Cannes da HanWay Films. Haynes ouviu falar
do filme pela primeira vez em 2012, através da figurinista Sandy Powell, que o
informou que Blanchett estava envolvida e que Karlsen seria o produtor.
Blanchett, que atuou como produtora executiva por meio de sua empresa Dirty
Films, estava envolvida com o projeto há “muito tempo”. Haynes soube que
estavam procurando um diretor quando Vachon o procurou em 2013. Ele considerou
a história, seu contexto histórico e social, e a colaboração com Blanchett,
como motivações para se envolver. “O que me interessou quando li o roteiro pela
primeira vez”, disse ele, “foi como ele basicamente conecta a mentalidade de
estufa do sujeito desejante... à do sujeito criminoso, no sentido de que ambos
são mentes hiperprodutivas que estão constantemente criando
narrativas... esse estado insano de hiperatividade furtiva na mente”. Haynes
colaborou com Blanchett em nível dramatúrgico. Outra complicação surgiu quando
Wasikowska teve que desistir devido a conflito de agenda. Haynes abordou
Rooney Mara, que havia recebido a oferta para o papel de Therese após o filme de 2011, Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Ela disse que,
embora adorasse o roteiro e quisesse trabalhar com Blanchett, recusou o papel
porque estava exausta e insegura.
Quando Haynes assumiu o projeto, ela estava “em
uma situação mental muito diferente” e aceitar o papel foi “uma decisão óbvia”.
Em agosto de 2013, foi noticiado que Mara havia substituído Wasikowska. Sarah Paulson foi escalada como Abby e Kyle
Chandler como Harge em janeiro de 2014. No mês seguinte, Cory Michael Smith foi
escalado como Tommy e Jake Lacy como Richard. Em abril de 2014, John Magaro foi
escalado como Dannie. Carrie Brownstein juntou-se ao elenco como Genevieve
Cantrell. Carter Burwell foi contratado para compor a música, e Edward Lachman,
que já havia colaborado com Haynes, atuou como diretor de fotografia. Nos
ensaios, Haynes, Blanchett e Mara perceberam que certas falas deveriam ser
cortadas, o que Haynes considerou a “prática estilística que todos nós adotamos
nos departamentos criativos. Sinto que havia um entendimento entre eles de que
as palavras e os diálogos nunca carregariam o peso da história”. A figurinista Sandy
Powell disse sobre trabalhar com Haynes: “Todd é super visual, super preparado
e fornece seus próprios visuais no início do filme. Ele começa com um livro de
imagens que compilou ao longo de meses e meses. Ele é quase obcecado por isso.
No bom sentido”. O visual do filme foi influenciado pela fotografia colorida do
pós-guerra de Ruth Orkin, Esther Bubley, Helen Levitt e Vivian Maier, bem como
pela fotografia abstrata de Saul Leiter. Haynes usou o trabalho delas como
referência visual para retratar uma Nova York “suja e decadente”. Ao se
prepararem para as filmagens, os produtores descobriram que o custo de produção
na área da cidade de Nova York seria proibitivo, e também seria difícil
encontrar locações que se assemelhassem ao início da década de 1950. Parte do
plano de financiamento dependia de um acordo de coprodução com o Canadá, com as
filmagens ocorrendo em Montreal, mas a entrada de Haynes na produção levou a
uma reconsideração. Karlsen lembrou-se de ter feito um filme 27 anos antes em
Cincinnati, Ohio, que se passava na Nova York da década de 1950.
Depois de
pesquisar a cidade, ela descobriu que ela não havia mudado muito em décadas, e
Ohio também tinha um dos melhores incentivos fiscais para filmes nos EUA. A
cidade de Cincinnati foi muito receptiva à produção, que empregou muitos
moradores como equipe. Os escritórios de
produção em Cincinnati foram abertos no início de janeiro de 2014, com as
filmagens previstas entre meados de março e maio. Em fevereiro de 2014, a
Greater Cincinnati & Northern Kentucky Film Commission divulgou a
solicitação de figurantes e veículos antigos aos produtores. As filmagens
principais começaram em 12 de março de 2014, no Eden Park, em Cincinnati.
Vários locais em Cincinnati foram usados durante a produção, incluindo o
centro de Cincinnati, Hyde Park, Over-the-Rhine, Wyoming, Cheviot e Hamilton,
bem como Alexandria, Kentucky. Com exceção do quarto de motel em Waterloo, que
era um cenário privado construído para a cena de amor, locações foram usadas
para cenários internos e externos. O segundo andar de uma loja de departamentos
agora extinta serviu de cenário para o departamento de brinquedos da fictícia
Frankenberg`s. As filmagens foram concluídas após 34 dias, em 2 de maio de
2014. Lachman filmou Carol em película Super 16 mm usando lentes de formato 35
mm. A pós-produção em Nova York levou sete meses para ser concluída. Haynes
participou do processo de edição juntamente com o editor Affonso Gonçalves.
Efeitos visuais (VFX) foram usados para remover componentes modernos dos
cenários, com seis “planos-chave” necessitando de extensos efeitos visuais.
Planos em movimento
foram particularmente complicados quando filtrados por janelas, chuva, poeira e
outros elementos, disse Haynes, e os detalhes em CGI “tiveram que se encaixar
exatamente na própria linguagem visual, com o elemento de granulação e o nível
de desgaste”. O processo intermediário digital foi usado para alcançar uma “paleta
muito específica, ligeiramente deteriorada”. Haynes passou cinco semanas e meia
fazendo anotações detalhadas sobre a montagem de Gonçalves e produziu seu corte
do diretor em quatro semanas. Os produtores deram feedback sobre o corte do
diretor e realizaram algumas exibições de teste com amigos e conhecidos. Eles
decidiram mostrar o corte para Harvey Weinstein, que ficou impressionado e o
aprovou. Haynes confirmou a conclusão das entregas em 15 de dezembro de 2014.
Brownstein disse que a primeira versão era extensa e que a maioria de suas
cenas foi cortada. Em novembro de 2015, Paulson disse que uma cena importante
entre Abby e Therese, e algumas conversas em uma cena com Carol, haviam sido
cortadas. Em janeiro de 2016, Mara disse que uma cena íntima entre
Therese e Richard havia sido excluída. Gonçalves disse que a versão tinha duas horas e meia, e a versão final tinha 118 minutos. Haynes explicou em
entrevista em outubro de 2015: “Cortamos muitas cenas; estava muito longo, e
todas tinham boas atuações e eram bem filmadas — nunca, na minha opinião,
cortamos nada por ser mal executado. Foi apenas um processo de redução, como
acontece em todos os filmes”. A maternidade é um tema importante no filme.
Carol luta para manter tanto seu relacionamento romântico
com Therese quanto seu amor por sua filha, Rindy. Devido à sua orientação
sexual, o relacionamento de Carol com Therese coloca seu papel como mãe em
risco, pois a sociedade a considera inadequada para ser mãe. Durante a batalha
pela custódia, sua homossexualidade é usada contra ela e sua “punição por ter
se envolvido em relacionamentos sexuais com mulheres é que ela só verá sua
filha por algumas semanas do ano”. Ela é, portanto, forçada a tomar a
decisão de ser ela mesma ou ser mãe. Cate Blanchett explicou que esta é “uma
escolha baseada em sua própria sobrevivência”. Ela também destaca que o desafio
de Carol não é buscar simpatia, mas sim sobreviver e viver autenticamente. O tema da maternidade mostra como as mães não
heterossexuais são frequentemente ignoradas ou desvalorizadas. A acadêmica
Jenny M. James afirma que “a fantasia do romance lésbico no romance se baseia
na perda da guarda materna por Carol e no consequente apagamento de sua
experiência como mãe queer”.
Para viver fiel a si mesma, Carol precisa abrir
mão de sua filha, demonstrando os desafios difíceis incondicionalmente de ser
uma mãe homossexual. O filme desafia as ideias tradicionais de maternidade ao
mostrar que Carol precisa fazer escolhas difíceis. O amor de Carol por
Rindy e Therese não pode coexistir em seu mundo, destacando os desafios sociais
enfrentados por mães lésbicas. O tema da identidade lésbica também é
importante. Ele se manifesta na relação entre Carol e Therese, numa época em
que os relacionamentos homossexuais não eram aceitos pela sociedade. Ambientado
na década de 1950, o filme retrata as dificuldades enfrentadas pelas mulheres homossexuais
numa Era em que a homossexualidade era fortemente condenada. O amor de Carol e
Therese desafia as convenções sociais, enquanto elas lidam com uma ordem social
que desaprova seu relacionamento. Um aspecto importante a notar em Carol é que
a sua representação de lésbicas não é “a lésbica estereotipada ou a lésbica
sexy ou... a personagem secundária”. Carol mostra uma ligação genuína entre
duas mulheres sem interferência masculina, o que não é comum no cinema. A
proibição e o segredo são enfatizados. O relacionamento entre Carol e Therese é
oculto, criando assim tensão. “O relacionamento de Carol e Therese parece
reprimido”, o que ilustra o que era aceitável naquela época. Therese é até
ensinada por Carol a manter seu amor em segredo dos outros, ilustrando a
necessidade de pessoas lésbicas se envolverem em “comportamentos públicos
discretos” para sobreviver em uma sociedade homofóbica. Outro fator da
identidade lésbica no filme é a ideia de fuga. Carol e Therese fazem uma
viagem de carro para encontrar a liberdade das regras opressivas de Nova Jersey
e Nova York.
No entanto, elas não
encontram o alívio que esperavam. “Os amplos espaços do Oeste oferecem
libertação da subjugação, ao mesmo tempo que esses espaços resultam em
hipervisibilidade e, ironicamente, em iterações alternativas do armário”. Mesmo
tentando escapar, o detetive que as segue durante toda a jornada as lembra de
que ainda estão sendo observadas. O filme também aborda como as mulheres
homossexuais eram tratadas como criminosas naquela época. O romance “O Preço do
Sal”, que serviu de base para o roteiro cinematográfico, foi escrito numa época
em que os relacionamentos lésbicos eram considerados ilegais. “Carol” trata do
amor dessa forma, bem como das consequências de ser homossexual na década de
1950. Um homem vestindo um smoking preto, camisa branca, gravata
borboleta preta e óculos está de pé com os braços em volta das costas de duas
mulheres. Atrás deles, há uma escadaria coberta por um tapete vermelho. A
mulher à sua direita, uma morena, usa um vestido branco de alta costura com
decote halter, babados e bordados na saia; enquanto a mulher à sua esquerda,
uma loira, usa um vestido de baile tomara que caia com estampas e tons de azul,
cinza claro, preto e alguns toques de vermelho. A primeira imagem oficial de
Carol, divulgada pela Film4, apareceu no London Evening Standard em maio de
2014. Apesar de concluído no final de 2014, os produtores adiaram o lançamento
para 2015, para aproveitar a oportunidade de participar de um festival de
cinema. Em outubro de 2014, Haynes e Vachon anunciaram que a estreia ocorreria
na primavera de 2015 e o filme seria lançado no outono.Carol teve sua estreia mundial no Festival de Cannes de 2015.
Estreou na América do Norte no Festival
de Cinema de Telluride em 4 de setembro e foi exibido no Festival de Cinema de
Nova York em 9 de outubro de 2015. O filme estreou no Reino Unido no evento de
gala do Festival de Cinema de Londres do BFI em 14 de outubro de 2015. Originalmente
programado para ser lançado em 18 de dezembro nos Estados Unidos, Carol estreou
em circuito limitado em 20 de novembro de 2015.Recebeu um lançamento em
circuito limitado no país, expandindo de quatro para 16 locais em 11 de
dezembro, e depois para 180 cinemas em 25 de dezembro, atingindo mais de 520
locais no fim de semana de 8 de janeiro de 2016. O filme entrou em lançamento
amplo em 15 de janeiro de 2016. Carol foi lançado em todo o Reino Unido em 27
de novembro de 2015. Em dezembro de 2015, o The Hollywood Reporter
afirmou que a distribuidora russa Arthouse havia adquirido os direitos de
lançamento do filme em março de 2016.
Seu CEO declarou que era “um grande
desafio devido à lei federal de 'propaganda gay' que vitimiza a comunidade LGBT
russa”, o que “impediria que Carol fosse vendido para os principais canais de
TV ou mesmo anunciado em redes federais”. Ele observou que “alguns cinemas se
recusariam a exibir o filme”, mas “a controvérsia... nos ajudará a
comercializar Carol para o público certo”, acrescentando que acreditava que o
filme “atrairia o público muito além da comunidade LGBT”. Foi lançado na Rússia
em 10 de março de 2016. Em março de 2016, uma
exibição de filmes em 35 mm foi realizada no Festival de Cinema LGBT de Londres.
O Metrograph, um cinema independente em Nova York, sediou um evento especial de
exibição em 35 mm, seguido de uma sessão de perguntas e respostas com Haynes,
Vachon e Lachman. O evento esgotou, e uma segunda e uma terceira exibição foram
adicionadas. Carol foi disponibilizado para download digital em 4 de março de
2016. O filme foi lançado em DVD, Blu-ray e vídeo sob demanda em 15 de março de
2016, nos Estados Unidos, pela Anchor Bay Entertainment, e em 21 de março de
2016, no Reino Unido, pela Studio Canal. Os recursos bônus do formato em disco
incluem uma galeria de bastidores, uma entrevista de perguntas e respostas com
o elenco e os cineastas e (para a versão do Reino Unido) cartões de arte de
edição limitada. Em 10 de março de 2016, tanto o DVD quanto o Blu-ray estavam
em 7º lugar de pré-venda nos Estados Unidos; seguidos pela 18ª
posição em vendas na semana de lançamento comercial. No Reino Unido,
a estreia do DVD alcançou o 7º lugar e o Blu-ray o 1º lugar. 12 das 100 vendas
mais vendidas para ambos os formatos. Em 2025, as vendas de DVD e Blu-ray nos
EUA e Canadá totalizaram US$ 2,2 milhões.
Nos Estados Unidos,
Carol estreou no canal de TV por assinatura Showtime em 8 de outubro de 2016 e
no serviço Showtime on Demand e no aplicativo de streaming Showtime
Anytime em 9 de outubro de 2016. O filme ficou disponível para streaming na
Netflix em 20 de setembro de 2017. Em 31 de março de 2016, Carol havia
arrecadado US$ 12,7 milhões nos EUA e Canadá, e, em 8 de janeiro de 2019, US$
30,1 milhões em outros países, totalizando US$ 42,8 milhões em todo o mundo,
contra um orçamento de US$ 11,8 milhões. No Reino Unido, o filme arrecadou £
540.632 (US$ 812.000) em seu fim de semana de estreia em 206 telas, ficando em
sétimo lugar entre os dez filmes mais assistidos do fim de semana. Carol havia
arrecadado US$ 4,0 milhões no Reino Unido até 3 de abril de 2016. Nos Estados
Unidos, o filme iniciou sua exibição limitada em 20 de novembro em quatro
cinemas — o Paris e o Angelika Theater em Nova York e o ArcLight Hollywood e o
Landmark Theatre em Los Angeles — e a previsão era de arrecadar cerca de US$
50.000 por sala. Arrecadou US$ 253.510 em seu fim de semana de estreia nos
quatro locais, a melhor estreia dos filmes de Haynes. Sua média por sala, de
US$ 63.378, foi a terceira maior de 2015. Em seu segundo fim de semana, o filme
arrecadou US$ 203.076, com uma média “robusta” de US$ 50.769 por sala, a melhor
da semana, elevando seu total acumulado em nove dias para US$ 588.355. Em seu
terceiro fim de semana nos quatro locais, Carol arrecadou US$ 147.241, com uma
média de US$ 36.810, a maior pela terceira semana consecutiva.
O filme expandiu de
quatro para 16 cinemas em sua quarta semana e a projeção era de uma média
estimada de US$ 10.000 no fim de semana. Em seu quarto fim de semana, arrecadou
US$ 338.000, com uma média de US$ 21.105 por tela, elevando seu total acumulado
nos EUA para US$ 1,2 milhão. A projeção era de que o filme arrecadasse cerca de
US$ 218.000 em 16 cinemas em seu quinto fim de semana. Arrecadou US$ 231.137,
com uma média de US$ 14.446 por cinema. Carol então expandiu para 180 cinemas.
Em seu sexto fim de semana, o filme arrecadou US$ 1,1 milhão, com uma média de
US$ 6.075 em 180 locais; sua bilheteria nos EUA foi de US$ 2,9 milhões, com US$
7,8 milhões em todo o mundo em outros sete países. Carol alcançou US$ 5 milhões
nos Estados Unidos em seu sétimo fim de semana. Carol recebeu uma ovação de pé
de dez minutos em sua exibição para a imprensa internacional e estreia no
Festival de Cannes. Elogiaram a direção de Haynes, as atuações de Blanchett e
Mara, a cinematografia, os figurinos e a trilha sonora, e o consideraram um
forte concorrente a prêmio em Cannes. No agregador de críticas Rotten Tomatoes,
o filme tem uma classificação de 94% com base em 320 críticas, e uma
classificação média de 8,60/10.
O consenso crítico
do site afirma: “Moldado pela direção habilidosa de Todd Haynes e impulsionado
por um elenco forte liderado por Cate Blanchett e Rooney Mara, Carol faz jus ao
seu material original inovador”. Carol foi eleito o filme romântico mais bem
avaliado de 2015 no prêmio anual Golden Tomato Awards do Rotten Tomatoes. No
Metacritic, o filme tem uma pontuação de 94 em 100, com base em 45 críticas,
indicando “aclamação universal”, e foi designado um filme “Imperdível” pelo
Metacritic. É o filme mais bem avaliado de 2015. Kate Stables escreveu na Sight
& Sound: “Elegância e contenção são a palavra de ordem do filme... Neste
filme agradavelmente deliberado, cada plano e cena é cuidadosamente composto
para homenagear o cinema dos anos 1950, mas imbuído de uma ambiguidade emocional
que parece decididamente contemporânea”. Kenneth Turan, do Los Angeles Times,
escreveu que é “um melodrama sério sobre a geometria do desejo, um exemplo
onírico de realidade intensificada que envolve completamente as emoções, apesar
dos cálculos exatos com que foi feito... O visual exuberante, mas controlado,
de Carol é completamente inebriante. Este é um cinema feito por mestres, uma
experiência para ser saboreada”.
A. O. Scott escreveu no The New York Times:
“Ao mesmo tempo ardente e analítico, cerebral e arrebatador, Carol é um estudo
sobre o magnetismo humano, sobre a física e a óptica do Eros. Com diálogos
esparsos e drama contido, o filme é uma sinfonia de ângulos e olhares, de cores
e sombras”. Amy Taubin, da Film Comment, escreveu: “A narrativa,
precisamente esculpida por Phyllis Nagy a partir do desajeitado romance, é
enganosamente simples... O que é notável em Carol é que parece existir
inteiramente no momento presente — para ser preciso, naquele presente elétrico,
elástico, de tirar o fôlego/acelerar o coração, do desejo romântico. É um filme composto de
gestos e olhares, sua delicadeza uma promessa velada de abandono. E não poderia
existir sem as extraordinárias atuações de Blanchett e Mara”. David Stratton,
do The Australian, escreveu: “O encontro dessas duas mulheres é uma cena
eletrizante; seus olhares se cruzam e nada de significativo é dito, além da
interação usual entre cliente e vendedor, mas Haynes e seus maravilhosos atores
deixam muito claro que algo importante aconteceu — amor à primeira vista”. Geoffrey
Macnab, do The Independent, disse: “O mais recente longa-metragem de
Todd Haynes é uma história sutil, comovente e enganosa de duas mulheres
(brilhantemente interpretadas em estilos muito contrastantes por Cate Blanchett
e Rooney Mara) que se recusam a viver contra a sua própria natureza... O
roteiro de Phyllis Nagy enfatiza a sua firmeza e autossuficiência. De forma
astuta e subversiva, Haynes expõe as tensões de uma sociedade que se recusa a
reconhecer qualquer tipo de diferença. Andrew O`Hehir, do Salon,
escreveu: “Desde as cenas iniciais das ruas outonais e varridas pela chuva de
Nova Iorque em meados do século passado, o magnífico novo filme de Todd Haynes,
Carol, estabelece um clima de romance melancólico, meio nostálgico e meio
ameaçador, que nunca se dissipa”.
Peter Howell, do
Toronto Star, escreveu: “Tudo se encaixa perfeitamente nesta magnífica
conquista. O diretor de fotografia Ed Lachman filmou em película Super 16 mm
para obter cores suaves e texturas mais delicadas, características da época. O
design de produção preciso e uma paleta de cores rica em tons de verde e
vermelho (apropriados ao cenário natalino) fazem com que assisti-lo seja como
entrar em uma pintura de Edward Hopper”. Mark Kermode escreveu no The
Guardian: “Esta soberba adaptação do romance de Patricia Highsmith de 1952,
The Price of Salt, não comete nenhum erro. Do roteiro sedutoramente
conciso de Phyllis Nagy à atuação firme e trêmula de Cate Blanchett como uma
mulher da sociedade com tudo a perder, este filme captura brilhantemente as
emoções, as lágrimas e os medos do amor proibido”. Na Variety, Justin
Chang escreveu: “apesar das suas óbvias diferenças de classe e origem, Therese
e Carol parecem criar um laço (e cativar o público) tão rápida e naturalmente
que não têm interesse em defini-lo, ou sequer discuti-lo – uma escolha que
funciona não só para uma época em que o seu amor não ousava dizer o seu nome,
mas também para a fé de Haynes no poder do meio para alcançar uma eloquência
que transcende as palavras”. Francine Prose, na The New York Review of Books,
comentou sobre “a delicadeza, a paciência e a enorme quantidade de tempo de
tela que o filme dedica à experiência de se apaixonar: as hesitações e dúvidas,
as trocas aparentemente casuais carregadas de significado e emoções reprimidas,
a simples felicidade de estarem juntas”. Anita Katz, do San Francisco Examiner,
disse: “Haynes triunfa em sua busca por criar um melodrama romântico
arrebatador com substância social no cerne. Como obra de época, o filme nos
imerge nos estilos e atitudes dos anos 1950.
Como experiência
sensorial, deslumbra com tudo, desde janelas com marcas de chuva até a boina
xadrez de Therese ... Haynes aborda com força as consequências da ignorância e
da intolerância. Impressionantemente rico em detalhes, o drama é repleto de
olhares furtivos e outros aspectos sutis do amor proibido”. Ann Hornaday, do
The Washington Post, escreveu: “Carol é uma performance de uma performance, em
que códigos e sinais transmitem a essência da vida, enquanto o kabuki de ser normal
se desenrola com a perfeição cuidadosamente cultivada, e patentemente falsa da
vila de trens de brinquedo que Carol compra de Therese em seu primeiro
encontro. Trabalhando a partir de um roteiro meticulosamente elaborado por
Phyllis Nagy, Haynes retrata duas pessoas que se devoram uma à outra, enquanto,
por fora, tomam chá e coquetéis com decoro impecável”. Ao nomeá-lo “um dos
melhores filmes do ano”, Peter Travers, da Rolling Stone, disse: “O virtuoso da
câmera Edward Lachman encontra poesia visual no erotismo sufocante que envolve
Carol e Therese, uma fotógrafa amadora que constantemente enquadra Carol em sua
lente. Blanchett, um sonho desfilando nos vestidos de Sandy Powell, oferece uma
aula magistral de atuação. E Mara está impecável... [é] um romance fascinante
que toca fundo”. Stephen Whitty, no Daily News, elogiou Carol como um “romance
lésbico onde ninguém diz a palavra lésbica, porque esta não é apenas uma
história lésbica. É uma história humana”.
Em uma série de artigos
sobre os melhores filmes da década de 2010, o Indie Wire classificou Carol como
o sétimo melhor filme da década; a atuação de Blanchett como a segunda melhor
atuação; a cena de abertura como a sexta melhor cena de filme; e a trilha
sonora de Burwell como a segunda melhor trilha sonora de filme. O roteiro foi
considerado o 19º melhor roteiro americano do século. Foi classificado como o
quarto melhor filme de 2015 pelo The Washington Post. A admiração por
Carol resultou em uma comunidade de fãs que foi chamada de “Culto de Carol”. Em
junho de 2017, o curta-metragem de comédia em homenagem a Carol, Carol Support
Group, estreou no Festival Internacional de Cinema LGBTQ de São Francisco.
Dirigido por Allison Tate, o filme conta a história do caos em “um grupo de
apoio para pessoas viciadas no filme Carol”. O slogan do pôster do filme, “Algumas
pessoas são viciadas para sempre”, é uma paródia do slogan. “Algumas pessoas
mudam sua vida para sempre” do pôster original do filme Carol da Studio Canal. As
atuações de Cate Blanchett e Rooney Mara receberam ampla aclamação da crítica,
rendendo-lhes indicações ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante,
respectivamente. Carol recebeu mais de 290 indicações da indústria cultural e
da crítica, e mais de 100 prêmios e honrarias. O filme para
concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2015, onde ganhou a Palma
Queer e Mara empatou no prêmio de Melhor Atriz. Ganhou o Prêmio do Público no
Festival de Cinema de Whistler, e Prêmio Gold Q Hugo do Festival
Internacional de Cinema de Chicago por exibir “novas perspectivas artísticas
sobre sexualidade e identidade”.
Carol foi o “favorito
geral” na pesquisa de críticos da Indie Wire sobre os melhores filmes e
performances do Festival de Cinema de Nova York, liderando as categorias de
Melhor Longa-Metragem Narrativo, Melhor Diretor, Melhor Atuação Principal
(Blanchett e Mara), Melhor Roteiro e Melhor Fotografia. Lachman recebeu o
grande prêmio de Melhor Fotografia no Festival Internacional de Cinema
Camerimage. O júri declarou: [Carol] evoca o período de forma impecável,
prestando homenagem à grande fotografia da época. Cria também a sua própria
linguagem cinematográfica única e leva o espectador cada vez mais fundo num
mundo onde algo tão simples como o amor tem um preço exorbitante. A sua
exploração delicada e precisa da emoção através da cor e da luz levou-nos a
discutir o que significa alcançar a maestria na nossa arte. [Lachman] é, para
nós, um mestre e [Carol] é uma obra-prima. Em setembro de 2015, a The Weinstein
Company confirmou que faria campanha para Blanchett como Melhor Atriz e Mara
como Melhor Atriz Coadjuvante no 88º Oscar. O filme recebeu seis indicações ao
Oscar, incluindo Melhor Atriz, e cinco indicações ao Globo de Ouro, incluindo
Melhor Filme – Drama. Recebeu nove indicações ao BAFTA, incluindo Melhor Filme.
O filme foi indicado a seis Independent Spirit Awards e ganhou o de Melhor
Fotografia. Também recebeu nove indicações ao Critics` Choice Movie Award,
incluindo Melhor Filme. Blanchett e Mara receberam indicações ao Screen
Actors Guild Award de Melhor Atriz em Papel Principal e Melhor Atriz
Coadjuvante, respectivamente. O Círculo de
Críticos de Cinema de Nova York premiou Carol como Melhor Filme,
Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro. O filme ganhou o prêmio de
Melhor Música da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e foi
finalista nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Direção
de Arte. A Sociedade Nacional de Críticos de Cinema premiou Haynes como Melhor
Diretor e Lachman como Melhor Fotografia. Haynes e Lachman também receberam o
prêmio da Sociedade de Críticos de Cinema de Boston de Melhor Diretor e Melhor
Fotografia. Lachman ganhou o Prêmio de Realização Técnica do Círculo de
Críticos de Cinema de Londres. Carol ganhou cinco Prêmios Dorian, incluindo
Filme do Ano, Diretor do Ano, Melhor Atriz (Blanchett), Filme LGBTQ do Ano e
Roteiro do Ano. Foi premiado com o GLAAD Media Award de Melhor Filme – Grande
Lançamento. A Feira do Livro de Frankfurt nomeou Carol como a Melhor Adaptação
Literária Internacional. O American Film Institute selecionou Carol como um de
seus dez Filmes do Ano. A justificativa do júri do AFI Awards foi a seguinte: CAROL
ilumina a tela com a luz da saudade enquanto Cate Blanchett e Rooney Mara
transformam um filme de época em um grito atemporal de corações desafiadores.
Todd Haynes serve o romance como coquetel revigorante, adicionando
toques de cor a uma Era repressiva de Eisenhower, quando o amor era
frequente visto em preto e branco. De atuações luminosas a uma produção
suntuosa, esta é a promessa do cinema cumprida — um retrato comovente em
imagens em movimento, pintado nas cores universais da dor e da paixão.
Em março de 2016, o
British Film Institute nomeou Carol o melhor filme LGBT de todos os tempos, de
acordo com mais de cem especialistas em cinema em uma pesquisa que abrangeu
mais de 80 anos de cinema. Em uma pesquisa da BBC de 2016 com 177 críticos de
36 países, foi votado como o 69º melhor filme do século 21. Em novembro de 2019, o The New York Times
o nomeou um dos filmes favoritos da década de 2010, com o crítico A.O. Scott
comentando: “Continua me surpreendendo”. Em junho de 2025, Carol ficou em 72º
lugar em uma pesquisa dos 100 melhores filmes do século 21 feita pelo The
New York Times; e em 155º lugar por seus leitores. Em julho de 2025, ficou
em 14º lugar na lista da Rolling Stone dos “100 melhores filmes do século 21”. A omissão de Carol das
categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor gerou especulações entre
jornalistas sobre a aparente indiferença da Academia de Artes e Ciências
Cinematográficas em relação a filmes com foco em personagens femininas e LGBT.
Nate Scott, do USA Today, chamou isso de “a maior afronta” da cerimônia, “uma afronta ainda mais ridícula devido ao número inflado de indicados a
Melhor Filme”. Nico Lang, do The AV Club, disse que, embora o filme
fosse considerado um “favorito certo” para a indicação a Melhor
Filme, a omissão “não deveria ter sido um grande choque”, dada a
controvérsia em torno da derrota de Brokeback Mountain uma década antes. Jason
Bailey, do Flavorwire, disse que a maioria dos indicados a Melhor Filme que
incluem temas gays “os colocam firmemente no âmbito das subtramas” (...) “A
qualidade mais transgressora de Carol”, declarou ele, “é a sua recusa em
envolver-se em tais artimanhas; este é um filme sobre vidas gays plenas, não
sobre mortes gays trágicas”.
No HitFix, Louis Virtel
sugeriu que a recepção de Carol pelos membros da Academia foi prejudicada por
seu foco em mulheres autodeterminadas. Matthew Jacobs, do The Huffington
Post, expressou sentimentos semelhantes e considerou que o gosto artístico
da Academia era “convencional demais para reconhecer seu brilho”. Richard
Lawson, da Vanity Fair, disse que, embora seus “temas de paixão e mágoa
possam ser universais”, o filme pode ser “gay demais”, falando “em uma
linguagem que, eu diria, apenas pessoas queer dominam completamente”. Ele
acrescentou que a falta de “melodrama exagerado” colocou o filme em
desvantagem. Dorothy Snarker, do Indie Wire, atribuiu as omissões à demografia
da Academia e concordou que Carol pode ser gay demais e feminina demais “para
que a base eleitoral, composta principalmente por homens brancos e idosos”, se
identifique com o filme. Ela também considerou que os sucessos do movimento
pelos direitos LGBT nos EUA podem ter sido parcialmente responsáveis pela
falta de “urgência política” em torno do filme. Na revista The
Advocate, Rebekah Allen argumentou que “há quem simplesmente não queira ver
uma história de amor lésbico na tela”. Trish Bendix, da AfterEllen,
afirmou que a ausência do filme na categoria de Melhor Filme foi um “lembrete
da sociedade patriarcal em que continuamos a viver, onde filmes que criam um
espaço para que as mulheres vivam felizes sem homens e sem punição não serão
recompensados”. Marcie Bianco, da Quartz, descreveu o filme como "centrado
no desejo feminino" e estruturado de uma forma que “eleva o poder do olhar
feminino “. A omissão da categoria de Melhor Filme, concluiu ela, ilustra “mais
uma vez como o sexismo opera no mundo, e na Academia especificamente, como a
recusa em ver as mulheres como protagonistas e agentes do desejo”.
Na revista Paper,
Carey O`Donnell escreveu que os romances gays só são “garantidos no Oscar”
quando usam a equação “tragédia-desolação-morte”, e que “uma representação de
duas mulheres fortes apaixonadas uma pela outra... parece ainda ser
problemática para muitos”. David Ehrlich, da Rolling Stone, escreveu que a “paciência
e precisão” do filme não se conformavam aos gostos da Academia, mas seu legado “sem
dúvida sobreviverá à mais flagrante omissão deste ano”. Haynes disse que achava
que ter duas protagonistas femininas era “um fator” na omissão. Ben Child, do The
Guardian, observou que Carol pelo menos ganhou vários dos principais
Prêmios Dorian, representando “um incentivo para Haynes e sua equipe depois que
o vencedor do prêmio de Cannes inesperadamente perdeu as indicações ao Oscar de
melhor filme e melhor diretor”. Apesar de ter ganho o prêmio de Melhor Atriz no
Festival de Cannes (dividido com Emmanuelle Bercot) e de ter recebido uma
indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático ao lado de
Blanchett, Mara foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. A Weinstein
Company decidiu pela categoria para evitar que as protagonistas concorressem na
mesma categoria. Em uma entrevista ao The New York Times, Mara pareceu
descontente com a decisão. Em janeiro de 2016, a ABC rejeitou um comercial em
horário nobre que apresentava um trecho da cena de nudez entre Carol e Therese,
o que levou a The Weinstein Company a reeditar o trailer para a televisão. Em
agosto de 2016, a Delta Air Lines foi criticada nas redes sociais por exibir
uma versão de Carol em seu sistema de entretenimento de bordo na qual as cenas
de amor haviam sido excluídas. Nagy respondeu no Twitter que, ao contrário da
Delta, a American Airlines e a United Airlines haviam fornecido a versão
completa exibida nos cinemas. A comediante Cameron Esposito descobriu durante
seu voo que até mesmo as cenas de beijo haviam sido cortadas da versão da
Delta.
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Subjetivação em Foucault. Tese de Doutorado em Filosofia. Centro de
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2019; entre outros.