domingo, 3 de maio de 2026

Sonhos de Trem – Roubo de Lenha & Companhia Ferroviária Spokane.

                                                             O sonho representa a realização de um desejo”. Sigmund Freud  

     

          A história em transformação é própria do pensamento como uma das mais antigas necessidades de exigência do espírito humano. No conjunto da história e em cada um dos casos concretos, a primeira tarefa do analista social consiste em mensurar facilidades e dificuldades oferecidas pela natureza. O que significa um primeiro encontro entre Marx e os melhores métodos da historiografia contemporânea. É verdade que Direito e História, mesmo na escola histórica do direito positivo, que contrapunha às concepções do direito natural ou racional de um direito concreto produzido pela História, não está mais próxima da visão madura do método de análise de Marx, ou seja, de um direito como metáfora historicamente condicionada do que as concepções metafísicas encontradas em Immanuel Kant preparando a história em Friedrich Hegel, pois é na Introdução da Fenomenologia que se situa o problema do conhecimento. Vemos como em ele retorna ao ponto de vista de Immanuel Kant e Friedrich Fichte. A Fenomenologia não é uma noumenologia nem ontologia, mas um conhecimento do Absoluto, pois, que outra coisa poderia conhecer se o Absoluto é verdadeiro? Não obstante, em vez de apresentar o saber do Absoluto em si para si, Hegel considera o saber tal como é na consciência e precisamente desde esse saber fenomênico, mediante sua autocrítica, é como se eleva ao saber Absoluto. 

Sabemos, porém que Marx, num dos primeiros manuscritos anterior ao debate com Hegel sobre a questão do Direito, dirigiu um aguçado ataque contra a Escola Histórica, por ocasião do jubileu do seu fundador. Quase imediatamente, na mesma série de artigos da Rheinische Zeitung é oferecida à Marx outra ocasião política, oferecida ao pensamento pela ação, à teoria pela prática, para penetrar melhor na história que se faz. Marx observa um direito em gestação. A Dieta renana transforma a coleta da lenha, uma vantagem concedida aos pobres pelos costumes, em “furto da lenha”, punido como delito em nome da propriedade que, para tornar-se contemporânea, se faz absoluta. Antes da decisão da dieta, “recolhe-se” a lenha caída; após sua decisão, a lenha é “roubada”: um ato que não era considerado furto é declarado roubo. A noção de propriedade é modificada. Acompanhando os debates da Dieta, Marx tem a primeira intuição sobre a sua concepção materialista da história, que indicará como uma das descobertas fundamentais, de alcance proporcionalmente igual ao seu conteúdo do ponto de vista teórico da análise da mais-valia. A intepretação da história é expressão de uma ideologia que exerce influência prática sobre as mentes humanas. Não era história, mas metafísica. A história, enquanto tal é o oposto da história abstrata, especulativa; o indivíduo humano, ao contrário, é ao mesmo tempo abstrato e concreto. 

Por um lado, o indivíduo humano coincide com o ser genérico do homem, com a consciência de pertencer a uma espécie; por outro, a sociedade não é uma abstração, em oposição ao indivíduo: a história natural da humanidade é a sua história biológica, o percurso do homo sapiens. Assim, se a história da espécie é uma só, e qualquer outra doutrina política seria racismo, a história da humanidade – enquanto história social é múltipla: a totalidade da história do gênero humano é a oposição entre as muitas e a única história. Na sociedade como na história, não opera nenhuma força social a não ser por meio da atividade dos indivíduos em combinação e a consciência não existe senão na mente e graças à mente dos indivíduos vivos. A humanidade da natureza existe apenas para o homem social. A produção das representações da consciência, está ligada com a atividade material e com as relações sociais decorrentes das atividades sociais dos homens entre si. O degredo tem como representação política uma longa duração na história colonial de Portugal.  Há registros etnográficos que atestam a prática desde o século XIV e, hic et nunc numa duração de sete séculos, evidenciando que tanto a prática quanto a pena de degredo sofreram alterações significativas. A palavra degredo enquanto termo diferenciado na legislação, não tem um correspondente específico em outras línguas.                                    

No contexto do império colonial português, o termo foi utilizado para designar um tipo bastante específico de expulsão penal. Para além da esfera jurídica, durante esse período, a palavra serviu também para se referir aos locais onde se cumpria a sentença. Na perspectiva do sistema punitivo português, degredar, na maioria das vezes, significou a expulsão do criminoso do local onde o crime fora cometido e seu envio para outro local, que poderia ou não fazer parte do território metropolitano. A penalização de degredo foi abolida do Código Criminal em 1954. nas sociedades europeias utilizam-se os termos “banimento” ou “exílio”. O desterro, entendido como expulsão, era uma pena prevista na lei visigótica um dos mais notáveis monumentos jurídicos da Idade Média. Em Portugal, o direito visigótico se fez presente nos costumes e na legislação foraleira. Durante a reconquista cristã, com o fim da expulsão dos mouros, as leis previam a pena de desterro, em que o criminoso era condenado a deixar o local onde morava depois de pagar pena pecuniária, sendo previstas sanções para quem abrigasse o desterrado. Os reinos ibéricos eram monarquias feudais, era eficiente para combater incursões muçulmanas e razias, mas dificultava o processo de Reconquista devido a desunião dinástica e as guerras feudais. A ocupação das terras conquistadas fazia-se com um cerimonial: cum cornu et albende de rege, isto é, com o toque das trombetas e o estandarte desfraldado.

No verão de 1917, Robert Grainier participou da tentativa de assassinato de um operário chinês flagrado roubando, ou pelo menos acusado disso, no armazém da companhia ferroviária Spokane Internacional, na estreita faixa de terra que forma o cabo da frigideira do mapa de Idaho. É um dos cinquenta estados dos Estados Unidos, localizado na Região dos Estados das Montanhas Rochosas. Limita-se ao norte com a província canadense de Colúmbia Britânica, ao Sul com o Nevada e o Utah, a Leste com o Montana e o Wyoming, e a Oeste com Washington e Oregon. O Idaho atualmente possui a sexta maior taxa de crescimento populacional entre os estados dos Estados Unidos, atrás apenas de Nevada, Arizona, Flórida, Geórgia e Utah. Com um pouco mais de 216 mil quilômetros quadrados, é o 14º maior estado americano em área do país. O Idaho fazia parte do Oregon Country, um território disputado entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Através de um tratado assinado em 1846, os Estados Unidos assumiram posse da região do atual Idaho. Esta região fez inicialmente parte do Território de Oregon, tornando-se em 1853 parte do Território de Washington. O Território de Idaho foi formado em 1863, e elevado à categoria de estado em 3 de julho de 1890, tornando-se o 43º estado americano a entrar na União. O partido republicano governa o estado desde 1995. Em janeiro de 1868, o Senado ratificou o Tratado de Burlingame com a China, que permitiu o fluxo irrestrito de chineses para os Estados Unidos. Nos anos seguintes, o número de imigrantes chineses aumentou e a violência contra eles eclodiu na cidade de Los Angeles.

A greve de North Adams de 1870, interrompida pela substituição de todos os trabalhadores por 75 chineses, foi o estopim que desencadeou um protesto generalizado da classe trabalhadora em todo o país, moldou o debate legislativo no Congresso e ajudou a transformar a imigração chinesa em uma questão nacional permanente. Leland Stanford, fundador da Central Pacific Railroad e da Universidade Stanford, disse ao Congresso que a maioria dos trabalhadores das ferrovias era chinesa e que seria impossível concluir a expansão para o oeste sem eles. Em 1875, a Lei Page proibiu a entrada de mulheres chinesas para evitar o estabelecimento de famílias, mas manteve a permissão de homens e sua mão de obra. A situação política de 1876 foi fundamental para a transformação da imigração chinesa em questão nacional. Até então, os legisladores californianos haviam tentado restringir a imigração chinesa através de decretos, com foco nas empresas, nos locais de moradia e nos navios que traziam os imigrantes. Contudo, as medidas foram consideradas anticonstitucionais por violar o Tratado de Burlingame (1868), a Décima Quarta Emenda e a Lei de Direitos Civis de 1866. Ao disseminar o sentimento contra a imigração chinesa, os legisladores californianos poderiam influenciar os partidos políticos a adotar uma retórica contra o movimento. No dia 5 de abril de 1876 uma manifestação antichinesa aconteceu em São Francisco com a presença de 20 000 pessoas.

No dia 3 de abril, o Senado do Estado da Califórnia autorizou uma investigação sobre os efeitos da imigração chinesa na cultura e economia do Estado; os resultados deviam ser enviados aos principais jornais dos Estados Unidos e para cada membro do Congresso. Além dessas medidas, o Conselho de Supervisores de São Francisco enviou uma delegação a cidades do leste para expressar o sentimento contrário aos chineses às multidões. Philip Roach e Frank Pixley, membros da delegação, falaram sobre a ameaça econômica que a mão de obra chinesa representava e sobre a incompatibilidade racial e inferioridade deles. Esses esforços culminaram no apoio às políticas antichinesas por partidos políticos. Depois que a economia entrou em crise em 1873, os “imigrantes chineses foram acusados de reduzir os salários dos trabalhadores americanos”. Os chineses representavam 25% dos trabalhadores assalariados da Califórnia. Em 1878, o Congresso tentou proibir a imigração, mas a legislação foi vetada pelo Presidente Rutherford B. Hayes (1822-1893). Em 1879, a Califórnia adotou uma nova constituição que autorizava o governo estadual a determinar quais indivíduos poderiam residir no local e proibia os chineses de trabalhar em corporações e repartições públicas. Três anos depois, após a China concordar com as revisões do tratado, o Congresso tentou novamente excluir os trabalhadores chineses da classe operária quando o Senador John F. Miller apresentou uma Lei de Exclusão Chinesa que bloqueava a entrada de chineses por um período de 20 anos. O projeto foi aprovado, mas foi vetado pelo Presidente Chester A. Arthur, que conclui que a proibição era uma violação do tratado renegociado de 1880.      

O Congresso não conseguiu anular o veto, mas aprovou um novo projeto de lei reduzindo a proibição da imigração para dez anos. Embora ainda se opusesse à negação da entrada de trabalhadores chineses, Arthur concordou com a medida e sancionou a Lei de Exclusão Chinesa em 6 de maio de 1882. Embora a aversão aos chineses tenha permanecido após a lei, os empresários resistiram à sua exclusão devido a mão de obra barata. Quando a lei expirou em 1892, o Congresso a prorrogou por mais 10 anos através da Lei Geary. A prorrogação se tornou permanente em 1901, o que fez com que os sino-americanos fossem obrigados a obter um certificado de residência do governo dos Estados Unidos para evitar serem deportados. Spokane International Railroad (código de identificação SI) era ferrovia de curta distância entre Spokane, Washington, e a Canadian Pacific Railway (CP) em Kingsgate, Colúmbia Britânica. A linha tornou-se importante para a CP devido às suas conexões com a Union Pacific Railroad e Portland, Oregon. A linha férrea, originalmente chamada de Spokane International Railway, foi construída pelo empresário e ferroviário local Daniel Chase Corbin (1832-1918), após um acordo entre ele e a CP, no qual a CP concordou em financiar parte da construção da linha e garantir o empréstimo mantendo os títulos da nova linha. Particularmente significativo foi o fato de controlar a ferrovia Minneapolis, St. Paul and Sault Ste. Marie (Soo Line) e suas conexões com Minneapolis, Minnesota, Saint Paul, Minnesota e Chicago, Illinois.

A conclusão da Spokane International significava que a CP podia competir com as linhas da Northern Pacific Railway e da Great Northern Railway no transporte entre o Meio-Oeste e a região de Puget Sound em conjunto com a subsidiária da Union Pacific Railroad, a Oregon-Washington Railroad and Navigation Company, a Oeste de Spokane. O serviço expresso de passageiros foi logo introduzido na linha através do Soo-Spokane Train De Luxe. Duas locomotivas da Ohio Match Company foram vendidas à Marinha dos EUA em 1940 para construir um ramal da Spokane International, com o objetivo de construir a Base Naval de Farragut em Farragut, Idaho, e foram sucateadas pela Marinha dos EUA em 1944 para materiais de guerra. A SI foi reorganizada em 1º de outubro de 1941, após dificuldades financeiras e administração judicial durante a Grande Depressão. A linha foi renomeada como Spokane International Railroad como parte do acordo de reestruturação, permanecendo em operação até a década de 1950. Em 6 de outubro de 1958, a Union Pacific Railroad (UP) assumiu o controle da Spokane International Railroad. Em 1962, a UP arrendou as 11 locomotivas ALCO RS-1 da SI para operação. As locomotivas foram posteriormente repintadas com o esquema de cores amarelo e cinza da UP, mas mantiveram a inscrição SI. Também em 1962, a UP vendeu quatro de seus vagões-freio de aço mais antigos para a SI. Estes também foram pintados com o esquema amarelo da UP, mas receberam a inscrição e os números da SI. Após o controle da SI pela UP em 1958, a Union Pacific continuou a arrendar a SI para operação. Em 31 de dezembro de 1987, a Union Pacific incorporou formalmente a SI à sua estrutura corporativa. No final de 1960, a SI operava 240 km de estrada em 310 km de trilhos; naquele ano, registrou 141 milhões de toneladas-quilômetro líquidas de carga faturada e zero passageiros. A linha permanece em operação como a Subdivisão Spokane da Union Pacific, uma importante conexão entre o Sul da Colúmbia Britânica e o Noroeste dos Estados Unidos.

Train Dreams é um filme norte-americano de drama histórico de 2025 dirigido por Clint Bentley, um diretor e roteirista americano. Seus trabalhos como diretor incluem Jockey (2021) e Train Dreams (2025). Por seu trabalho como roteirista, Bentley foi indicado duas vezes ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Sing Sing (2023) e Train Dreams que co-escreveu o roteiro com Greg Kwedar, baseado na novela de 2011 de Denis Johnson. O filme é estrelado por Joel Edgerton, Felicity Jones, Nathaniel Arcand, Clifton Collins Jr., John Diehl, Paul Schneider, Kerry Condon e William H. Macy, com narração de Will Patton. Obteve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance de 2025, em 26 de janeiro de 2025, e foi lançado em cinemas selecionados nos Estados Unidos da América em 7 de novembro de 2025, antes de sua estreia no serviço de streaming Netflix em 21 de novembro de 2025. O filme recebeu aclamação da crítica, com elogios à direção de Bentley e à atuação de Edgerton. Entre seus prêmios, o filme foi nomeado um dos dez melhores filmes de 2025 pelo National Board of Review e pelo American Film Institute. Por sua atuação, Edgerton foi indicado ao Globo de Ouro. O filme recebeu quatro indicações ao 98º Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.

            Greg Kwedar nasceu em Fort Worth, Texas. Recrutado para jogar rúgbi pela Texas A&M, formou-se em contabilidade e matriculou-se no Programa Profissional de Contabilidade da universidade. Durante a faculdade, tornou-se bolsista da Mays Business School e atuou como presidente do Conselho Estudantil de Administração. Após perceber, no meio de uma prova, que contabilidade não era sua vocação (cf. Weber, 2015), Kwedar começou a explorar carreiras e oportunidades mais criativas. A ideia que se tornaria seu primeiro longa-metragem, Transpecos, nasceu do tempo que passou como voluntário na fronteira entre os EUA e o México. Kwedar permaneceu um quinto ano na Universidade Texas A&M para obter um mestrado em marketing e se candidatar a programas de cinema. Após se formar na Texas A&M em 2008, recusou uma oferta de pós-graduação da Universidade de Nova York e mudou-se para Austin, Texas, para se dedicar ao cinema em tempo integral. Ao chegar em Austin, Kwedar começou a trabalhar como roteirista e diretor no estúdio de cinema One Spark. Ele trabalhou em videoclipes, comerciais, curtas-metragens e documentários para a One Spark, enquanto trabalhava nos roteiros de dois longas-metragens. Ele trabalhou como produtor no documentário de 2012 Rising From Ashes, um filme sobre a criação da primeira equipe nacional de ciclismo de Ruanda após o genocídio ruandês. Em 2016, Kwedar fez sua estreia na direção de longas-metragens com Transpecos, um filme que dirigiu, produziu e co-escreveu com Clint Bentley.  

            Em 1962, Kofi Annan, mutatis mutandis, começou a trabalhar como Diretor de Orçamento para a Organização Mundial da Saúde, uma agência das Nações Unidas (ONU). De 1974 a 1976, ele trabalhou como Diretor de Turismo em Gana. No final dos anos 1980, Annan voltou a trabalhar para as Nações Unidas, onde foi nomeado secretário-geral Adjunto em três posições consecutivas: Gestão dos Recursos Humanos e Coordenador para as Medidas de Segurança do Sistema das Nações Unidas (1987-1990); Subsecretário-Geral para Planeamento de Programas, Orçamento e Finanças e de Controlador (1990-1992); e Operações de Manutenção da Paz (1993-1996). O genocídio em Ruanda ocorreu em 1994 enquanto Annan dirigia a Operações de Manutenção da Paz. Em 2003 o ex-general Roméo Dallaire, que foi comandante da força da Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda, afirmou que Annan foi “excessivamente passivo em sua resposta ao genocídio iminente”. Em seu livro: Shake Hands with the Devil: The Failure of Humanity in Rwanda (2003), o general Dallaire declarou que Annan reteve as tropas das Nações Unidas de intervir para resolver o conflito, e de fornecer mais apoio material e logístico. Dallaire afirmou que Annan falhou em fornecer respostas “aos seus repetidos faxes pedindo acesso a um depósito de armas; tais armas poderiam ter ajudado Dallaire a defender os quase extintos Tutsis”. Em 2004, dez anos depois do genocídio Annan disse: - “Eu poderia e deveria ter feito mais para soar o alarme e reunir apoio”. Annan serviu como subsecretário-geral desde março de 1994 a outubro de 1995.

Foi nomeado Representante Especial do Secretário-Geral para a ex-Iugoslávia antes de retornar às suas funções em abril de 1996. O genocídio só terminou quando a Frente Patriótica Ruandesa derrotou o governo e se instalou definitivamente no âmbito do poder. Até os dias atuais, o massacre deixa um profundo legado de violência em Ruanda. O país segue enfrentando problemas étnicos e religiosos, ao mesmo tempo em que sofre com dificuldades econômicas seguida de corrupção, gerando extrema pobreza entre a população.  Muitos hutus ajudaram os tutsis a escapar das perseguições. Um caso notório foi o do gerente do Hotel Mille Collines, em Kigali, que foi responsável pela salvação de 1 268 tutsis e hutus, abrigando-os no hotel. Paul Rusesabagina ficou mundialmente reconhecido ao ser retratado no filme “Hotel Ruanda” sobre o massacre. Rusesabagina, residente na Bélgica, afirma que, se não forem tomadas decisões contra o tribalismo em Ruanda, o genocídio poderá voltar a ocorrer, agora pelas mãos dos tutsis, governantes do país desde o fim da matança. Hotel Rwanda é um filme de 2004 dirigido por Terry George e estrelado por Don Cheadle, Nick Nolte, Joaquin Phoenix, Desmond Dube e Sophie Okonedo. O filme é uma coprodução da Itália, Reino Unido e África do Sul, e relata a história real de Paul Rusesabagina, que foi capaz de salvar a vida de 1268 pessoas durante o genocídio de Ruanda em 1994. Logo depois das primeiras exibições, sua história foi imediatamente comparada com a de Oskar Schindler. A história se passa em Kigali, capital da Ruanda que ficou reconhecido por Genocídio de Ruanda.    

Escólio: A primeira vez que Oskar Schindler (1908-1974) foi a Cracóvia, em outubro de 1939 para tratar de assuntos da Abwehr e, no mês seguinte, alugou um apartamento. Embora o Tratado de Versalhes de 1919 proibisse a República de Weimar de estabelecer uma organização de inteligência própria, eles formaram um grupo de espionagem em 1920 dentro do Ministério da Defesa, chamando-o de Abwehr. Emilie manteve a sua casa em Ostrava e visitava Oskar, em Cracóvia, uma vez por semana. Em novembro de 1939, Schindler entrou em contato com a decoradora de interiores Mila Pfefferberg para lhe decorar o seu apartamento. O seu filho, Leopold Poldek Pfefferberg, passou a ser um dos seus contatos no mercado negro. Ambos acabaram por se tornar amigos de longa data. Também neste mês, Schindler foi apresentado a Itzhak Stern, um contabilista do seu amigo e agente da Abwehr, Josef Sepp Aue, que tinha tomado o controle local de trabalho de Stern como Treuhander (administrador). Os bens dos judeus polacos, incluindo lojas comerciais e as suas casas, foram arrestadas imediatamente a seguir à invasão, e os cidadãos judeus viram os seus direitos civis retirados.

 Schindler demonstrou a Stern o balanço de uma empresa que tencionava adquirir, uma fábrica de esmaltes chamada Rekord Ltd detida por um consórcio de empresários judeus que tinham declarado a falência no início daquele ano Stern aconselhou-o a, em vez de gerir a empresa como uma administração, sob as diretivas da Haupttreuhandstelle Ost (ou seja, o Gabinete de Administração Principal para o Leste, ele deveria comprar ou arrendar pois, assim, tinha mais liberdade face às ordens dos invasores, incluindo a facilidade de contratar mais judeus. Com o apoio financeiro dos investidores judeus, Schindler assinou um acordo de arrendamento informal a 13 de novembro de 1939, e formalizou-o exatamente a 15 de janeiro de 1940. Alterou a sua designação para Deutsche Emaillewaren-Fabrik (Fábrica Alemã de Utensílios Esmaltados) ou DEF, e depressa passou a ser reconhecida como Emalia. Atualmente, os esmaltes também são usados ​​para se referir a produtos de verniz que, quando aplicados a um substrato, criam um revestimento resistente. Os esmaltes diferem das tintas por conterem um teor de resina mais elevado. Inicialmente, recrutou uma equipe de sete trabalhadores judeus (incluindo Abraham Bankier, que o ajudou a gerir a empresa) e 250 polacos não-judeus. No seu auge, em 1944, o negócio empregava 1750 trabalhadores, mil eram judeus. Schindler ajudou a gerir a Schlomo Wiener, uma distribuidora que vendia os artigos de esmaltados, e era arrendatário da Prokosziner Glashütte, uma fábrica de produção de vidro.

Paul Rusesabagina (Don Cheadle) é gerente do Hotel des Mille Collines, propriedade da empresa belga “Sabena”. Relata um período de aumento da tensão entre a maioria hutu e a minoria tutsi, duas etnias de um mesmo povo que ninguém sabe diferenciar uma da outra a não ser pelos documentos. Tudo começa quando o presidente de Ruanda morre em um atentado, como retaliação, após assinar um acordo de paz. Imediatamente os hutus entram em guerra aos tutsis, dando início a matança genocida destes últimos. A República de Ruanda é um país sem costa marítima localizado na região dos Grandes Lagos da África centro-oriental, fazendo fronteira com Uganda, Burundi, República Democrática do Congo e Tanzânia. Ruanda recebeu uma atenção internacional considerável devido ao genocídio ocorrido em 1994, no qual cerca de 800 mil pessoas foram mortas. Desde então, o país viveu uma grande recuperação social e, hoje em dia, apresenta um modelo de desenvolvimento que é considerado exemplar para países em desenvolvimento. Em 2009, uma reportagem da rede de notícias CNN classificou Ruanda como tendo a história de maior sucesso do continente, tendo alcançado estabilidade, crescimento da economia, tendo em vista que a renda média triplicou nos últimos dez anos e integração internacional. Em 2007, a revista Fortune publicou um artigo intitulado: Why CEOs Love Rwanda. A capital, Quigali, é a primeira cidade africana a ser galardoada com o Habitat Scroll of Honor Award, em reconhecimento de sua “limpeza, segurança e conservação do modelo urbano”. Em 2008, Ruanda tornou-se o primeiro país a eleger uma legislatura nacional na qual a maioria dos membros eram mulheres.

Ruanda aderiu à Commonwealth of Nations em 29 de novembro de 2009, seu 54º membro, fazendo do país historicamente “um dos apenas três membros sem um passado colonial britânico”. A população é predominantemente jovem e rural, com densidade entre as mais altas nações na África. Os ruandeses são provenientes de apenas um grupo cultural e linguístico, o Banyarwanda, embora dentro deste grupo há três subgrupos: os hútus, tútsis e os tuás. Antropologicamente os tuás são pigmeus que habitam a floresta, descendentes dos habitantes de Ruanda. Todavia, estudiosos discordam sobre as origens e as diferenças entre os hútus e tútsis; alguns acreditam que as diferenças são derivadas de antigas castas sociais dentro de um único povo, enquanto outros acreditam que os hútus e tútsis chegaram ao país separadamente e de diferentes locais. O cristianismo é a maior religião do país e a língua principal é o quiniaruanda, falado pela maioria dos ruandeses, com o inglês, francês e o suaíli como línguas oficiais. Ruanda tem um sistema presidencialista de governo. O presidente atual é Paul Kagame, da Frente Patriótica Ruandesa (RPF), que assumiu o cargo em 2000. Ruanda hoje tem baixo nível de corrupção em comparação com os países vizinhos, embora as organizações de direitos humanos relatam supressão de grupos de oposição, a intimidação e as restrições à liberdade de expressão. O país tem sido governado por uma hierarquia administrativa autoritária desde os tempos pré-coloniais. Há cinco províncias delineadas por fronteiras estabelecidas em 2006. O Ruanda é um dos dois únicos países com maioria feminina no parlamento nacional. 

Embora próximo da Linha do Equador, o país possui um clima temperado fresco, devido a alta elevação geográfica. O terreno consiste principalmente de planaltos gramíneos e colinas suaves. A vida selvagem, incluindo raros gorilas-das-montanhas, resultou no turismo tornando-se um dos maiores setores da economia do país. O filme, baseado nas experiências de Kwedar como voluntário na fronteira entre os EUA e o México, foi lançado com críticas positivas. John DeFore, do The Hollywood Reporter, escreveu: “Artisticamente feito, mas totalmente acessível para um público geral, apresenta atuações fortes, mas nenhum nome no elenco que chame a atenção por si só”. O sucesso dos filmes anteriores de Kwedar levou ao início da produção de seu segundo longa-metragem, Sing Sing. Kwedar dirigiu, produziu e co-escreveu o filme (novamente com Bentley). Sing Sing estreou no programa Apresentações Especiais do Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2023 e ganhou o Prêmio do Público do Festival SXSW de 2024. Em seguida, foi adquirido pela A24 e lançado nos Estados Unidos em 12 de julho de 2024. O filme foi aclamado pela crítica e acumulou vários prêmios, incluindo três indicações ao 78º BAFTA, incluindo Melhor Ator para o ator principal Colman Domingo e Melhor Ator Coadjuvante para Clarence Maclin e três indicações ao 97º Oscar e Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator para Domingo. Kwedar co-escreveu o roteiro de Train Dreams com Clint Bentley, adaptando-o da novela homônima de 2011 de Denis Johnson. Estrelado por Joel Edgerton, o filme estreou no Festival de Cinema de Sundance de 2025 e foi adquirido para lançamento em streaming pela Netflix. O filme estreou em 7 de novembro de 2025 com aclamação da crítica. Recebeu quatro indicações ao 98º Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. Em 5 de setembro de 2025, o Deadline anunciou que Charles Melton, Rachel Brosnahan e Will Poulter estrelariam o longa-metragem de Kwedar, Saturn Return.

O filme narra os 80 anos da vida de Robert Grainier em torno de Bonners Ferry, Idaho. A vila de Bonners Ferry foi oficialmente fundada em 1893, na margem Sul do rio Kootenai. Espalhados pelo vale e pelas terras altas, havia alguns ranchos e propriedades rurais. Numerosas minas foram exploradas nas montanhas próximas, incluindo a Mina Continental, nas montanhas Selkirk. A indústria madeireira também cresceu rapidamente. Bonners Ferry, construída sobre palafitas para evitar as inevitáveis ​​cheias da primavera, parecia ser uma cidade em pleno crescimento. No início do século XX, a cidade tornou-se o centro de uma comunidade madeireira e agrícola. As terras do vale foram drenadas, diques foram construídos e fazendas foram desmatadas nos platôs. O fértil Vale Kootenai ficou conhecido como o “Nilo do Norte”, enquanto a Bonners Ferry Lumber Company cresceu e se tornou uma das maiores serrarias do mundo. O centro da cidade tomou forma com a construção de edifícios de tijolos, substituindo os antigos sobre palafitas. A conclusão da Barragem de Libby em 1975 diminuiu a ameaça de inundações graves. Em 20 de setembro de 1974, a Tribo Kootenai, liderada pela presidente Amy Trice, declarou guerra ao governo dos Estados Unidos. Seu primeiro ato foi posicionar soldados em cada extremidade da rodovia que atravessa a cidade, os quais cobrariam um pedágio das pessoas para atravessar o que antes era território ancestral da tribo. O dinheiro seria usado para abrigar e cuidar dos membros idosos da tribo. A maioria das tribos nos Estados Unidos está proibida de declarar guerra ao governo americano devido a tratados, mas a Tribo Kootenai nunca assinou um tratado. A disputa resultou na concessão, por parte do governo dos Estados Unidos, de uma área de 10,5 acres (42.000 m²) que hoje constitui a Reserva Kootenai. Bonners Ferry fica a 13 km (8 milhas) do local do impasse de Ruby Ridge em 1992, que ocorreu nos arredores de Naples, Idaho. Em 2025, o aclamado filme de época americano Train Dreams foi ambientado em Bonners Ferry. A trama retrata a vida e as dificuldades dos lenhadores do Noroeste do Pacífico no início do século XX.

      

Chegando à região pela Great Northern Railway como uma criança órfã, Robert abandona a escola e passa seus anos de juventude sem direção ou propósito, até conhecer Gladys Olding. Eles se casam, constroem uma cabana de madeira ao longo do rio Moyie e têm uma filha, Kate. Robert começa a trabalhar na construção da ferrovia Spokane International Railway. Lá, ele testemunha um trabalhador chinês sendo atirado de uma ponte por um grupo de trabalhadores brancos por razões obscuras, o que lhe causa visões perturbadoras do homem e sonhos recorrentes em que ele é atropelado por um trem. Mais tarde, Robert aceita um trabalho sazonal na extração de madeira, mas isso o mantém longe de Gladys e Kate por longos períodos. Robert conhece muitos homens que o marcam, mas também presencia muitas tragédias ao longo do caminho. Um trabalhador é morto por um justiceiro que buscava vingança pelo assassinato do irmão; vários outros morrem atingidos por uma árvore que cai, e seus túmulos são marcados por pares de botas pregadas nas árvores. Robert se torna amigo de um lenhador, Arn Peeples, que fica gravemente ferido por um galho que cai e morre alguns dias depois. Embora Robert tente encontrar trabalho mais perto de casa, ele enfrenta dificuldades na economia pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ele e Gladys decidem cultivar a terra e construir uma serraria para que ele possa parar de trabalhar com extração de madeira.

No entanto, quando Robert retorna de sua última temporada de trabalho na extração de madeira, ele descobre a cabana destruída em um incêndio florestal, e Gladys e Kate estão desaparecidas. Desolado, ele recebe a companhia de seu amigo Ignatius Jack e, em seguida, reconstrói a cabana.  Ao retornar ao trabalho na extração de madeira, Robert se sente deslocado em meio à nova tecnologia e aos homens mais jovens e rudes, então decide parar. Ao aceitar um emprego como cocheiro para os moradores da cidade, Robert conhece Claire Thompson, do Serviço Florestal dos Estados Unidos, que está na cidade para realizar um levantamento e o encoraja. Ele caminha constantemente pela floresta, acreditando que às vezes consegue sentir os espíritos de sua esposa e filha, e espera não os afugentar; Claire, por sua vez, conta-lhe como seu marido morreu após uma longa doença. Certa noite, Robert acredita ter visto Kate, aparentemente ferida, retornar à cabana. Ele cuida de seus ferimentos e depois brinca com a pequena Kate à beira do rio. Contudo, após uma noite de sonhos, ele acorda e a encontra desaparecida, com uma janela aberta. Ele decide continuar morando na cabana, caso ela retorne algum dia. Os anos passam e o mundo muda ao redor de um Robert envelhecido e abatido, que viaja no trem Great Northern até Spokane, testemunhando o voo de John Glenn pela televisão.

O filme termina num dia de primavera em que Robert decide voar num biplano. Enquanto o avião faz acrobacias e círculos no ar, imagens e sons de pessoas e lugares ao longo de sua vida passam pela sua mente. O narrador conta que Robert morreu enquanto dormia na cabine em novembro de 1968, sem deixar herdeiros, mas que naquele dia de primavera no avião, “ao perder completamente a noção de cima e de baixo, ele se sentiu, finalmente, conectado a tudo”. Em fevereiro de 2024, foi noticiado que o filme seria produzido por Marissa McMahon e Ashley Schlaifer, com a Black Bear como uma adaptação da novela Train Dreams, de Denis Johnson (2011), escrita por Clint Bentley e ilustrada por Greg Kwedar, e dirigida por Clint Bentley, com Felicity Jones e Joel Edgerton nos papéis principais. A produção inclui Marissa McMahon e Ashley Schlaifer, da Kamala Films, e Will Janowitz, Teddy Schwarzman e Michael Heimler, da Black Bear. Em maio de 2024, Kerry Condon, William H. Macy e Clifton Collins Jr. juntaram-se ao elenco. As filmagens principais começaram em Washington em abril de 2024, com locações incluindo Tekoa, Snoqualmie, Spokane, Metaline Falls e Colville. A produção foi aprovada para apoio do Programa de Incentivo à Produção da Washington Filmworks.

Embora Bentley e o diretor de fotografia Adolpho Veloso tenham considerado filmar em película, o cronograma de 29 dias da produção tornou isso impraticável; como resultado, as filmagens foram feitas digitalmente. Bentley afirmou que apenas um número limitado de árvores reais foi derrubado durante a produção; as cenas que demonstravam personagens cortando uma árvore foram realizadas usando um adereço artificial construído de madeira e fibra de vidro, com efeitos visuais aplicados para estender o tronco e a copa para se assemelharem a uma árvore de tamanho real. Will Patton forneceu a narração para o filme. Ele também havia narrado anteriormente o audiolivro da novela de Denis Johnson. Em entrevista à Variety, Veloso menciona que o filme foi filmado inteiramente com luz natural usando uma câmera de cinema ARRI Alexa 35. Além disso, Veloso construiu um suporte personalizado para velas a fim de contornar a regra do set que proibia chamas abertas. Uma canção original gravada para o filme e interpretada por Nick Cave, “Train Dreams”, não foi incluída na versão exibida no Festival de Cinema de Sundance; ela foi adicionada em lançamentos posteriores durante os créditos finais. Esta ideia representada em termos da semelhança foi suficiente ao desenho mais correto na inscrição como esta: “Isto não é um cachimbo”, para que logo a figura esteja obrigada a sair de si própria, isolar-se de seu próprio espaço e, finalmente, pôr-se a flutuar, longe ou perto de si mesma, não se sabe, se semelhante ou diferente de si.                     

No oposto de “Isto não é um cachimbo”, L`Art de la conversation: numa paisagem de começo do mundo ou mesmo de gigantomaquia, dois personagens minúsculos estão falando: discurso inaudível, murmúrio que é logo retomado no silêncio das pedras, no silêncio dessa parede em desaprumo que domina, com seus blocos enormes, os dois tagarelas mudos; ora esses blocos amontoados em desordem uns sobre os outros, formam a sua base, um conjunto de letras onde é fácil decifrar a palavra: rêve – sonho que é possível, olhando melhor, completar com trêve, trégua, ou crêve, morte, ou morra, arrebente, como se todas essas palavras frágeis e sem peso tivessem recebido o poder de organizar o caos das pedras. Ao contrário, pois por detrás da tagarelice despertada, mas logo perdida, dos homens, as coisas pudessem, em seu mutismo e em seu sono, compor uma palavra, estável que anda poderá apagar, palavra que designa a mais fugidia das imagens. Mas não é tudo: pois segundo Foucault, é no sonho que os homens, enfim, reduzida ao silêncio, comunicam com a significação das coisas, e se deixam impressionar por essas palavras enigmáticas, insistentes, que vem de outro lugar. Isto não é um cachimbo, era a incisão do discurso na forma das coisas, era seu poder ambíguo de negar e de desdobrar: A arte da conversa é a gratidão autônoma das coisas que forma as suas próprias palavras na indiferença dos homens, impondo a eles, sem mesmo que saibam, em sua tagarelice cotidiana. Para o que importa entre esses dois extremos, a obra de René Magritte desdobra o jogo das palavras e imagens.

Os títulos, frequentemente inventados a posteriori e por outrem, se inserem nas figuras onde o ponto em que podem se agarrar, estava se não marcado, autorizado de antemão, onde representam um ambíguo. Foucault nos coloca em dupla condição diante de um complexo esboço filosófico sobre a arte que, ao mesmo tempo, é arte enquanto abstração. Dois sujeitos escapam ao marcado mundo das semelhanças: o leitor e o expectador. Este mesmo campo das semelhanças serve à representação e igualmente a ordena, enquanto a similitude se estabelece na incerteza e na flutuação. Tudo isso é necessário para afirmar que “em nenhum lugar há um cachimbo” (p. 34). O que importa saber para além da representação de Magritte é que os signos e as coisas, dois universos de semelhanças, estão unidos pelo mesmo jogo. A semelhança domina a trama do mundo das coisas. O que Foucault chamou de “um apagar do lugar-comum” não é mais que a ausência de espaço entre os signos da escrita e as linhas da imagem. A arte escreve algo em nós, discursa e apresenta enunciados de difícil compreensão. Um objeto num quadro é um volume organizado e colorido de tal sorte que sua forma se reconhece logo e que não é necessário nomeá-lo, mas no objeto, a massa necessária é reabsorvida, o nome inútil é despedido; Magritte elide o objeto e deixa o nome imediatamente superposto à massa.

O fuso substancial do objeto não é mais representado senão por seus dois pontos extremos, a massa que faz sombra e o nome que designa. L`Alphabet des Révélations se opõe muito exatamente ao Personagem caminhando em direção do horizonte: para Foucault, um grande quadro de madeira dividido em dois painéis, à direitas, formas simples, perfeitamente reconhecíveis, um cachimbo , uma chave, uma folha, um copo; ora, embaixo do painel, a figuração de um rasgo mostra que essas formas não são nada além de recortes numa folha de papel sem espessura; sobre o outro painel, uma espécie de barbante torcido e inextricável não desenha nenhuma forma reconhecível. Sem massa, sem nome, forma e volume, recorte vazio, tal é o objeto, entenda-se, que havia desaparecido do quadro precedente. É preciso não se enganar: num espaço em que cada elemento parece obedecer ao único princípio de representação plástica e da semelhança, os sinais linguísticos, que pareciam excluídos, que rondavam de longe à volta da imagem, e que o arbitrário do título parecia ter afastado para sempre, se aproximaram sub-repticiamente: introduziram na solidez da imagem, uma desordem – uma ordem que só lhes pertence. Fizeram fugir o objeto, que revela a finura de sua película. Parece, grosso modo, que Magritte dissociou a semelhança da similitude e joga esta contra aquela.

A semelhança tem um padrão impreciso, mas que funciona como elemento original que ordena e hierarquiza a partir de si todas as cópias, cada vez mais fracas, que podem ser tiradas. Assemelhar significa uma referência primeira que prescreve e classifica. O similar se desenvolve em séries que não tem começo nem fim, que é possível percorrer num sentido ou em outro, que não obedecem a nenhuma hierarquia, como num colegiado universitário, mas se propagam sob a forma de pequenas diferenças em inúteis pequenas diferenças. A semelhança serve à representação, que reina sobre ela; a similitude serve à repetição, que corre através dela. A semelhança se ordena segundo o modelo que está encarregada de acompanhar e de fazer reconhecer; a similitude faz circular o simulacro como relação indefinida e reversível do simular ao simular. Na Décalcomanie (1966), uma cortina vermelha de largas dobras que ocupa dois terços do quadro subtrai ao olhar uma paisagem do céu, do mar e de areia. Ao lado da cortina, dando como de costume, as costas ao espectador, o homem com chapéu-coco olha para o perigo.

A cortina se encontra recortada com uma forma que é exatamente a do homem: como se fosse ele próprio um pedaço de cortina cortado com a tesoura. Nessa larga abertura, vê-se a praia. O que se deve compreender? É o homem destacado da cortina e, ao se deslocar permite ver o que ele provavelmente estava olhando quando se misturava com a dobra da cortina? Decalcomania? Deslocamento e mudança de elementos similares, mas, de modo alguma reprodução semelhante: “corpo=cortina”, diz representação semelhante. A semelhança comporta uma única asserção, sempre a mesma. A similitude as afirmações diferentes, que dançam juntas, apoiando-se e caindo umas em cima das outras. Expulsa do espaço do quadro, excluída da relação entre as coisas que reenviam uma à outa, a semelhança desaparece. Mas não era para reinar em outro lugar, onde estaria liberta do jogo indefinido da similitude. Não cabe à semelhança ser a soberania que faz surgir. A semelhança, que não é uma propriedade das coisas, não é própria ao pensamento? “Só ao pensamento”, diz Magritte, “é dado ser semelhante; ele assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece; torna-se o que o mundo oferece”. O pensamento assemelha sem similitude, tornando-se ele próprio essas coisas cuja similitude entre si exclui a semelhança. A pintura é esse ponto onde está na vertical um pensamento sob o modo da semelhança e das coisas que estão nas relações de similitude.

A pergunta que o arguto filósofo francês faz é a seguinte: “Isto não é um cachimbo” é suficiente para a questão: quem fala a enunciação? Ou antes, de fazer falar, os elementos dispostos, seja deles mesmo: “Isto não é um cachimbo”. Ela inaugura um jogo de transferências que correm, proliferam, se propagam, se respondem, no plano do quadro sem nada afirmar, nem representar nesses jogos da similitude. Em Les Liaisons Dangereuses uma mulher nua mantém diante de si um espelho que a esconde quase inteiramente: tem os dois olhos quase fechados, baixa a cabeça, que volta para a esquerda como se quisesse não ser vista e não ver que é vista. Esse espelho, que se encontra no plano do quadro e de frente para o espectador, envia a imagem da própria mulher que se esconde: a face refletidora do espelho faz ver essa parte do corpo (dos ombros às coxas) que a face cega aparentemente esconde. O espelho funciona um pouco ao modo de uma tela radioscópica. Mas com todo um jogo de diferenças. É um filme de drama americano-britânico dirigido por Stephen Frears, lançado em 1988. Este filme é uma adaptação da peça de Christopher Hampton (1985), que por sua vez foi adaptada do famoso romance epistolar de Pierre Choderlos de Laclos, Les Liaisons Dangereuses (1782). Ganhou três Oscars, incluindo o de Melhor Roteiro Adaptado para Christopher Hampton.

A mulher é ali sutilmente vista de perfil, inteiramente voltada para a direita, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, o braço não estendido para carregar o espelho pesado, mas dobrado sobre os seios; a longa cabeleira que deve mergulhar por trás do espelho, à direita, escorre, na imagem do espelho, à esquerda, ligeiramente interrompida pela moldura do espelho, no momento desse ângulo brusco. A imagem é notavelmente menor do que a própria mulher, indicando assim, entre o espelho e o que ele reflete, uma certa distância que a atitude da mulher contesta, ou é por ela contestada, apertando o espelho contra seu próprio corpo para melhor escondê-lo. Esse pouco de distância por trás do espelho é manifestado ainda pela extrema proximidade da parede. Entre a parede e o espalho, o corpo escondido foi eliminado e a superfície opaca da parede, que recebe apenas sombras, não há nada. Em todos esses planos, escorregam-se similitudes que nenhuma referência vem fixar; translações sem ponto de partida nem suporte. Dia virá no qual a própria imagem, com o nome que traz, é que será desidentificada pela relação social de similitude indefinidamente transferida numa série. Isto quer dizer que o objeto abstrato: “Isto não é um cachimbo”, silenciosamente escondido na representação semelhante, tornou-se o “Isto não é um cachimbo” das similitudes em circulação.     

Bibliografia Geral Consultada,

BALANDIER, Georges, Sociologie Actuelle de L’Afrique Noire. Paris: Presses Universitaires de France, 1971; FREUD, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos. Capítulo VI, “O trabalho do sonho”. In: Obras Completas, Volume V. Rio de Janeiro:  Editora Imago, 1972; MARCHAL, Roland, “La Cause des Armes au Mozambique: Anthropologie d`une Guerre Civile”. In: Cultures & Conflits, 1990; DERVILLE, Alain, Agricultura no Norte durante a Idade Média: Artois, Cambrésis, Valônia Flandres. Villeneuve-d `Ascq: Editor Universidade Septentrion, 1999; HOBSBAWM, Eric, Nazioni e Nazionalismi dal 1780. Programma, Mito, Realtà. Torino: Einaudi Editore, 2002; SAIDEL, Rochelle, The Jewish Women of Ravensbruck Concentration Camp. New York: Terrace Books Editor, 2006; MARX, Karl, La Questione Ebraica. Roma: Editori Riuniti, 1964; Idem, Contribuição à Crítica da Economia Política. 4ª edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011; MAGALHÃES, Fernanda Cândido, A Teoria da Evolução de Charles Darwin e sua Representação Social Contemporânea. Tese de Doutorado.  Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social. Centro de Educação e Humanidades. Instituto de Psicologia. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2013; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Nelson Rolihlahla Mandela: Um Homem Justo”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 14 de dezembro de 2013; FONSECA, Danilo Ferreira, Etnicidade e Luta de Classes na África Contemporânea: Ruanda (1959-1994) e África do Sul (1948-1994). Tese de Doutorado em História. Programa de Estudos Pós-Graduados em História. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013; BRAGA, Élcio, “Paul Rusesabagina: ‘As palavras são as melhores armas jamais vistas’”. In: https://oglobo.globo.com/mundo/13/02/2015; FOUCAULT, Michel, Isto não é um cachimbo. 7ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2016; BENSAID, Daniel, Os Despossuídos: Karl Marx, os Ladrões de Madeira e o Direito dos Pobres. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016; OLIVEIRA, Heitor Coelho Franca de, Marx na Transição: sobre a Relação entre Teoria e Práxis n`A Ideologia Alemã. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Filosofia. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017; RJONES, Dale W., Spokane International Railway. United States: Arcadia Publishing, 2019; TRACEY, Liz, “The Chinese Exclusion Act: Annotated”. In: Daily, 19 de maio de 2022; GUERRA, Gustavo Tatis, “La Invisible Maravilla”. In: El Diário. Madrid, 11 de março de 2026; entre outros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário