“Na terra sofredora, as explosões estão trovejando hoje e as pessoas estão morrendo”. Alexander Lukashenko
Aleksandr Grigorievitch Lukashenko,
ou Łukašenka, nascido em 30 de agosto de 1954 é um historiador, militar,
economista, diretor agrícola e político bielorrusso. É o atual presidente da
Bielorrússia. Eleito pela primeira vez em 20 de julho de 1994 com mandato até
2001, foi novamente reeleito. O seu governo é muito controverso: os seus apoiadores
afirmam que sua política econômica salvou o país das piores consequências do
capitalismo pós-soviético. Entretanto, seus opositores o acusam de ser ditador,
sendo reconhecido inclusive como “o último tirano da Europa”. Os Estados Unidos da América e a União Europeia proibiram a entrega de vistos para ele e a sua família. É
considerado o homem mais rico da Bielorrússia, com uma fortuna estimada em 2010
de US$ 9 bilhões de dólares. Lukashenko foi membro do Partido Comunista da
União Soviética até a Bielorrússia e os outros estados soviéticos tornarem-se Independentes.
Quando jovem, teve experiência militar no exército soviético, depois se tornou
vice-presidente de uma fazenda coletiva (sovkhoz). Foi eleito deputado
no Conselho Supremo da República da Bielorrússia, em 1990, onde ele apoiou os
esforços de linha dura para expulsar reformistas na Era de Mikhail Gorbachev, foi
o último governante soviético, estando no poder de 1985 a 1991. Formou-se em
Direito e em Produção Agrícola. Entrou para o Partido Comunista na década de
1950 e cresceu rapidamente na hierarquia desse partido. Implantou duas reformas
importantes em seu governo: a glasnost e a perestroika.
Ele presidiu o comité anti-corrupção do parlamento em 1993 e concorreu à presidência em uma plataforma populista nas eleições de 1994. Logo depois, ele iria empurrar uma nova constituição, apesar do protesto de dezenas de membros do parlamento que pediram seu impeachment, que, basicamente, concedido o regime de Lukashenko uma ditadura legal. Em 2005, 2006 e em 2008, ele foi presidente do Conselho Interestadual da Comunidade Econômica da Eurásia. Lukashenko nasceu na cidade de Orsha, em 31 de agosto de 1954. Formou-se na Universidade Estatal Pedagógica de Mogilev em 1975 e na Academia Agrícola da Bielo-Rússia em 1985, em História e Economia. Em 1975, Lukashenko casou com sua namorada de colégio, Galina Rodionovna, e eles tiveram dois filhos: Viktor, nascido em 1975, e Dmitry, nascido em 1980. Viktor trabalha como assessor do seu pai, mas Lukashenko considera, aparentemente, como seu “herdeiro” um filho de outra relação matrimonial, Nikolai Lukashenko, nascido por volta de 2005 (a mãe é alegadamente Irina Abelskaya, sua médica) e que ele apresentou oficialmente ao casal Obama e levou a eventos como a Assembleia Geral da ONU e a um desfile militar na China em 2015. Sua esposa Galina vive afastada do público desde o início de seu primeiro mandato, numa fazenda remota em Shkloŭ, enquanto a biografia presidencial oficial omite qualquer menção a ela e mesmo aos filhos.
Lukashenko é reconhecido por ter um grande interesse em concursos de beleza do seu país. Em 2019, a imprensa começou a reportar que ele estaria namorando a Miss Bielorrússia 2018, Maria Vasilevich, que havia participado do Miss Mundo 2018 e com quem ele havia sido visto em diversos eventos públicos, inclusive na Copa do Mundo FIFA de 2018. Os dois foram vistos dançando juntos nos bailes de final de ano de 2019 e 2020. Galina Rodionovna, sua esposa, foi banida e não participa da vida pública do marido. Segundo o website Alfa da Lituânia em janeiro de 2010, ela vive no distrito de Shkloŭ, “uma remota vila bielorrussa esquecida por todos”. Em novembro de 2019, a imprensa reportou que Maria Vasilevich havia ganho um assento no parlamento em eleições fraudadas. Segundo o The Sun britânico, “nenhum candidato da oposição ganhou uma cadeira nas eleições parlamentares de fim de semana - embora Vasilevich, que não tem experiência e nem mesmo campanha, tenha conquistado uma cadeira como parlamentar”. Grandes eventos como futebol e hóquei no gelo continuaram com sua agenda regularmente no país e Lukashenko chegou a dizer que jogar hóquei protege contra o vírus. “É melhor morrer de pé do que viver de joelhos! Não há vírus no gelo. Isto é um frigorífico. Eu vivo a mesma vida que sempre vivi, ainda ontem tive uma sessão de treino com a minha equipe. Encontrámo-nos, apertámos as mãos, abraçámo-nos, batemos uns nos outros”.
Em 28 de julho de 2020, Lukashenko anunciou que testou positivo para a covid-19, mas que já estava recuperado. Logo após sua reeleição em 2020, depois de 26 anos no poder, os bielorrussos começaram a protestar, dizendo que as eleições haviam sido fraudadas. Segundo a Euronews em 11 de agosto, “Lukashenko diz que não passam de ´carneiros ao serviço das potências estrangeiras` e ´querem armar confusão no nosso país. Avisei que não iriam fazer o mesmo que na Ucrânia, por muito que queiram fazer isso. As pessoas têm de se acalmar`”. Na Bielorrússia os votos dos eleitores são feitos em cédulas de papel, onde os eleitores marcam suas escolhas e em seguida depositam o voto em uma urna. A contagem dos votos é realizada manualmente pelas comissões eleitorais nas seções eleitorais. A transparência e a segurança desse processo têm sido amplamente questionadas. Observadores internacionais e grupos dos direitos humanos frequentemente apontam para possíveis manipulações e irregularidades no registro e na contagem dos votos. Sua opositora Svetlana Tikhanovskaya pediu a recontagem dos votos, mas teve que deixar o país logo após o pleito, se refugiando na Lituânia. Antes, o marido de Svetlana, Sergei Tikhanovsky, um blogueiro popular, havia sido impedido de concorrer e enviado para a prisão. Enquanto isto, Maria Vasilevich, escreveu em seu Instagram que os protestos deveriam parar. “Aqueles que causam desordem, parem com a agressão!”, escreveu em seu Instagram. Enquanto a União Europeia condenava a repressão aos protestos após as eleições de 2020, Lukashenko recebeu apoio da China e da Rússia, de quem é aliado. Em 3 de setembro de 2020, após o governo alemão ter noticiado no dia anterior que o opositor de Putin, Alexei Navalny (1976-2024), havia sido envenenado, Lukashenko disse que “não houve envenenamento de Navalny”.
A
Bielorrússia é um país sem saída para o mar, relativamente plano, com grandes
extensões de terreno pantanoso. De acordo com uma estimativa realizada em 2005
pela Organização das Nações Unidas, 40% do país está coberto por florestas.
Diversos riachos e cerca de 11 mil lagos podem ser encontrados na Bielorrússia.
Três grandes rios cortam o país: o Neman, o Pripyat, e o Dnieper. O Neman corre
em direção oeste, rumo ao mar Báltico, enquanto o Pripyat vai para Leste, rumo
ao Dnieper, que por sua vez deságua no mar Negro. O ponto mais elevado geograficamente
da Bielorrússia é o Dzyarzhynskaya Hara (Monte Dzyarzhynsk), com 345 m
de altitude, e seu ponto mais baixo é o rio Neman, situado a 90 m. A altitude
média do país é de 160 m acima do nível do mar. Seu clima apresenta invernos
frios, com temperaturas médias, em janeiro, de −6 °C, e verões frescos e
úmidos, com uma temperatura média de 18 °C. A Bielorrússia tem uma média de
chuva anual de 550 a 700 mm. O país se situa na zona de transição entre o clima
continental e o clima oceânico. Entre os recursos naturais da Bielorrússia
estão depósitos de turfa, pequenas quantidades de petróleo e gás natural,
granito, dolomita (calcário), marga, giz, areia, cascalho e argila. Cerca de
70% da radiação resultante do desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986
na vizinha Ucrânia, penetrou o território bielorrusso, e em 2005 cerca de um
quinto das terras do país, especialmente fazendas e florestas nas províncias do
Sudeste continuam a ser afetadas pela cinza nuclear. As Nações Unidas e outras
agências internacionais procuraram reduzir o nível de radiação nas áreas
afetadas, através do uso de substâncias retentoras de césio e do cultivo de
colza, visando diminuir os níveis de césio 137 no solo.
A Bielorrússia faz fronteira com a Letônia, ao Norte, com a Lituânia, a Noroeste, a Polônia a Oeste, a Rússia ao Norte e Leste e a Ucrânia ao Sul. Tratados realizados em 1995 e 1996 demarcaram as fronteiras da Bielorrússia com a Letônia e a Lituânia, porém a Bielorrússia não ratificou um tratado de 1997 que estabelecia a fronteira Bielorrússia-Ucrânia. A Bielorrússia e a Lituânia ratificaram os documentos que estabeleceram de maneira final a demarcação de suas fronteiras em fevereiro de 2007. As florestas bielorrussas ocupam 40% da superfície do país. São limpas, bem gerenciadas e altamente protegidas. A Constituição estipula que as florestas pertencem ao Estado; portanto, não há florestas privadas no país. Entretanto, algumas áreas florestais são arrendadas a empresas internacionais. A extração de madeira é altamente regulamentada a fim de manter a cobertura florestal estável e muitas áreas são protegidas. O alto número de guardas florestais e um nível relativamente baixo de corrupção permite que o país aplique suas leis melhor do que muitos de seus vizinhos, tais como Rússia, Ucrânia ou Polônia. A política de proteção florestal é de longa data. O corte maciço de madeira começou a corroer gravemente as florestas do país no início do século XX. Em 1945, eles haviam sido reduzidos a 25% do território da Bielorrússia. Entretanto, a partir dos anos 1950, a política ambiental do regime soviético enfatizou o equilíbrio entre a exploração e a proteção dos recursos naturais, de modo que no início dos anos 1990 o país havia voltado para a área florestal do início do século. A Floresta de Białowieża é um Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1992. Considerada “a última floresta primária da Europa”, foi usada como campo de caça pela aristocracia russa já no século XV.
Durante o período
soviético, após a 2ª guerra mundial (1939-1945), ela se tornou uma área
protegida, uma vitrine da política ecológica do regime comunista. Um refúgio
para muitos mamíferos, notadamente o bisonte europeu, só ele concentra 70% da
flora da Bielorrússia. Indivíduos de etnia bielorrussa constituem 81,2% do
total da população do país. Os outros principais grupos étnicos são os russos
(11,4%), poloneses (3,9%) e ucranianos (2,4%). Os dois idiomas oficiais do país
são o russo e o bielorrusso. O russo é o principal idioma, utilizado por 72% da
população, enquanto o bielorrusso, segunda língua oficial, é utilizado apenas
por 11,9%. O polonês, o ucraniano e o iídiche oriental também são
falados por minorias. A Bielorrússia tem uma densidade populacional de cerca de
50 hab./km2; 71,7% do total está concentrado nas áreas urbanas. Minsk, a
capital e maior cidade do país, é lar de 1 741 400 dos 9 724 700 habitantes da
Bielorrússia. Gomel, com 481 000 habitantes, é a segunda maior cidade do país,
e capital do Voblast de Homel. Outras grandes cidades são Mogilev (365 100),
Vitebsk (342 400), Hrodna (314 800) e Brest (298 300). Como muitos outros
países europeus, comparativamente, a Bielorrússia tem um crescimento
populacional negativo, e uma taxa negativa de crescimento natural. Em 2007 a
população do país diminuiu em 0,41% e sua taxa de fertilidade era de 1,22. Sua
taxa bruta de migração é de +0,38 por 1 000, indicando que a Bielorrússia tem
uma imigração levemente superior à sua emigração. Em 2007, 69,7% da população
do país tinha entre 14 e 64 anos de idade; 16% tem menos de 14, e 14,6% tem
mais de 65. Sua população também está envelhecendo; enquanto a idade média
atualmente é de 37, estima-se que a idade média dos bielorrussos estará entre
55 e 65 anos em 2050. Existem cerca de 0,88 homens para cada mulher no país. A
expectativa de vida média é de 68,7 anos com 63,0 para homens e 74,9 para as
mulheres.
Mais de 99% dos bielorrussos são alfabetizados. Historicamente, a Bielorrússia teve a predominância de diferentes religiões, principalmente o cristianismo ortodoxo, o catolicismo especialmente nas regiões ocidentais, diferentes denominações do protestantismo, especialmente durante o período de união com a Suécia protestante. Grandes minorias praticam o judaísmo e outras religiões. Diversos bielorrussos se converteram à Igreja Ortodoxa Russa depois que a Bielorrússia foi anexada pela Rússia, após a partilha da Comunidade Polonesa-Lituana. Como consequência, a ortodoxia russa tem atualmente mais adeptos que as outras denominações cristãs. A minoria católica romana do país, que forma cerca de 10% da população do país, e se concentra na parte ocidental do país, especialmente em torno de Hrodna, e é formada por uma mistura de bielorrussos e da minoria polonesa e lituana do país. Em torno de 1% da população pertence à Igreja Greco-Católica Bielorrussa. Atualmente, o país tem a maior proporção de católicos romanos em toda a Europa do Leste. A Bielorrússia já foi um dos grandes centros judaicos da Europa, com até 10% da população pertencendo à religião em determinado ponto de sua história, porém a população de judeus foi reduzida drasticamente pelas guerras, fomes, o Holocausto e a imigração subsequente; hoje em dia os judeus formam uma minoria bem pequena, de cerca de 1% ou menos. Os tártaros de Lipka, muçulmanos, totalizam mais de 15 000 indivíduos. De acordo com o Artigo 16 da Constituição da Bielorrússia, o país não tem religião oficial. Embora a liberdade de religião seja estabelecida no mesmo artigo, organizações religiosas tidas como ameaçadoras ao governo, à ordem social ou ao país podem ser proibidas.
O nome Bielorrússia deriva da expressão Rússia Branca (“Branco-Rus”). O nome descrevia a área da Europa Oriental coberta por neve e povoada por povos eslavos, em oposição à Ruténia Negra, controlada pelos lituanos. Outra origem para o nome poderia ser a vestimenta branca utilizada no período pela população eslava. Outras hipóteses para o nome diriam respeito às terras meridionais do país Polatsk, Vitsiebsk e Mahilyow, que não haviam sido conquistadas pelos tártaros; antes de 1267, a terra que não havia sido conquistada pelos mongóis era considerada parte do “Rus Branco”, dado que bel ou biel também significaria “livre”, num período em que a maior parte da Rússia se encontrava sob o jugo dos tártaros. O nome apareceu pela primeira vez na literatura medieval alemã e latina. Nas crônicas escritas por Jan de Czarnków (1320-1387), mencionava-se que o grão-duque lituano Jogaila e sua mãe teriam sido encarcerados, em 1381, em “Albae Russiae, Poloczk dicto”. O termo latino Alba Russia foi utilizado novamente pelo Papa Pio VI, ao estabelecer ali uma Sociedade Jesuíta em 1783. Sua bula papal decretava: “Approbo Societatem Jesu in Alba Russia degentem, approbo, approbo”. Historicamente, o país foi designado em idiomas ocidentais como “Ruténia Branca”; o primeiro uso de “Rússia Branca” para se referir à Bielorrússia se deu no fim do século XVI, pelo inglês sir Jerome Horsey. Durante o século XVII, os czares russos utilizaram o termo “Rus' Branco” para descrever as terras conquistadas do Grão-Ducado da Lituânia.
Pio
VI, nascido Giovanni Angélico Braschi (1717-1799) foi o Papa da Igreja Católica
e Soberano dos Estados Papais de 15 de fevereiro de 1775 até a data de sua
morte. Seu Pontificado decorreu num dos períodos mais turbulentos da história
europeia, quando o advento do Iluminismo, o avanço do Absolutismo estatal e,
posteriormente, a eclosão da Revolução Francesa colocaram em tensão social a
relação entre a Igreja e as monarquias. Pio VI enfrentou a supressão de
instituições religiosas, o confisco de bens eclesiásticos e as tentativas de
subordinar a Igreja ao poder civil. Sua firme resistência às políticas
revolucionárias e sua defesa da liberdade espiritual conduziram-no ao dramático
exílio pelas forças francesas, que o levaram cativo até Valença, onde faleceu
após prolongado sofrimento. Braschi se tornou o secretário particular do legado
papal, cardeal Tommaso Ruffo. Bispo de Ostia e Velletri. O cardeal Ruffo o
levou como seu conclavista no Conclave de 1740 e, quando este se tornou
decano em 1740, Braschi foi nomeado auditor, cargo que ocupou até 1753. Sua
habilidade na condução de uma missão à corte de Nápoles lhe rendeu a estima do
Papa Bento XIV. Em 1753, após a morte do cardeal Ruffo, Bento nomeou Braschi
secretário. Em 1755 nomeou um cânone da Basílica de São Pedro. Em 1758, pondo
fim ao noivado, ele foi ordenado ao sacerdócio como referendo da Assinatura
Apostólica em 1758 e ocupou esse cargo até 1759. Ele também se tornou
auditor e secretário do cardeal Carlo Rezzonico, sobrinho do papa Clemente
XIII.
Em 1766, ele foi
apontado como o tesoureiro da câmera apostólica pelo Papa Clemente XIII. Aqueles
que sofreram com sua economia consciente conseguiram convencer o Papa Clemente
XIV a elevá-lo ao cardinalato. Braschi foi elevado em 26 de abril de 1773 em
Roma, como cardeal-sacerdote de Santo Onofre. Foi uma promoção que o tornou
inócuo por um breve período de tempo. Ele então se retirou para a Abadia de
Subiaco, da qual ele era abade de louvor. O Papa Clemente XIV morreu em 1774 e
isso desencadeou um conclave para escolher um sucessor. Espanha, França e
Portugal abandonaram todas as objeções à eleição de Braschi, que era um dos
oponentes mais moderados da postura anti-jesuíta do falecido papa. Braschi
recebeu apoio daqueles que não gostavam dos jesuítas e acreditavam que ele
continuaria as ações de Clemente XIV e se manteria fiel ao breve “Dominus ac
Redemptor” (1773) de Clemente, que viu a dissolução da ordem. Mas a facção
zelanti, pró-jesuíta, acreditava que ele tinha uma simpatia secreta com os
jesuítas e esperava reparação pelos erros sofridos no reinado anterior. Como
resultado, Braschi empossado como papa foi levado a situações em que ele dava
pouca satisfação a ambos os lados. O cardeal Braschi foi eleito para o
pontificado em 15 de fevereiro de 1775 e recebeu o nome pontifício de “Pio VI”.
Ele foi consagrado ao episcopado em 22 de fevereiro de 1775 pelo cardeal Gian
Francesco Albani e foi coroado no mesmo dia pelo cardeal Protodeacon Alessandro
Albani.
Pio VI abriu um jubileu
que seu antecessor convocou e iniciou o ano do jubileu de 1775. Os atos anteriores de Pio VI deram uma
promessa justa de governo reformista e abordaram o problema da corrupção
nos Estados papais. Embora ele fosse geralmente benevolente, Pio VI às vezes
mostrava discriminação. Ele nomeou seu tio Giovanni Carlo Bandi como bispo de
Ímola em 1752 e depois como membro da Cúria Romana, cardeal no consistório em
29 de maio de 1775, mas não ofereceu nenhum outro membro de sua família. Ele repreendeu
o príncipe Potenziani, governador de Roma, por não ter lidado adequadamente com
a corrupção na cidade, nomeou um conselho de cardeais para remediar o estado
das finanças e aliviar a pressão dos impostos, chamado a prestar contas a
Nicolò Bischi (1732-1813) pelo gasto de fundos “destinado à compra de
grãos, reduziu os desembolsos anuais ao negar pensões a muitas pessoas
proeminentes e adotou um sistema de recompensa para incentivar a agricultura”. Após
sua eleição, Pio VI ordenou a libertação de Lorenzo Ricci, um padre jesuíta
italiano, décimo oitavo superior-geral de 1758 a 1773. Superior Geral da
Companhia de Jesus, que foi mantido prisioneiro no Castel Sant`Angelo, mas o
general morreu “antes da chegada do decreto de libertação”. Foi o último
superior-geral antes da Supressão da Companhia de Jesus. Talvez seja
devido a Pio VI, que os jesuítas conseguiram escapar à dissolução na Ruténia
Branca e na Silésia. Em 1792, o papa considerou o restabelecimento da Companhia
de Jesus como um “baluarte contra as ideias da Revolução Francesa”, mas isso
não aconteceu.
É um castelo localizado
na margem direita do rio Tibre, diante da Ponte do Santo Anjo, próximo do
Vaticano, no rione Borgo de Roma, Itália. Construído sobre as ruínas do antigo
Mausoléu de Adriano e, posteriormente, dedicado ao Arcanjo São Miguel, é atualmente
um museu. Sua primitiva estrutura foi iniciada no ano 135 pelo imperador
Adriano como um mausoléu pessoal e familiar (Tumbas de Adriano),
concluído por Antonino Pio em 139. O monumento, em travertino, era adornado por
uma quadriga em bronze, conduzida por Adriano. Em pouco tempo, entretanto, a
sua função foi alterada, sendo utilizado como edifício militar. Nessa
qualidade, passou a integrar a Muralha Aureliana em 403. A sua atual designação
remonta a 590, durante uma grande epidemia de peste que assolou Roma. Na
ocasião, o Papa Gregório I afirmou ter visto o Arcanjo São Miguel sobre o topo
do castelo, o qual embainhava a sua espada, indicando o fim da epidemia. Para
celebrar essa aparição angélica, a estátua do referido anjo coroa o edifício:
inicialmente um mármore de Raffaello da Montelupo, e desde 1753, um bronze de
Pierre van Verschaffelt sobre um esboço de Gian Lorenzo Bernini. Durante a
história medieval esta foi a mais importante das fortalezas pertencentes aos
Papas. Serviu também como sistema prisional (cf. Foucault, 2014) na época dos
movimentos de unificação da Itália no século XIX. De planta circular, o seu
desenho renascentista influenciou a traça do Forte de São Lourenço do Bugio, em
Portugal, e a do Forte de São Marcelo, no Brasil. A Ponte do Santo Anjo, sobre
o rio Tibre, é ornada por doze estátuas de anjos esculpidas por Gian Lorenzo
Bernini. De seu terraço superior, tem-se uma magnífica vista do rio Tibre, dos
prédios da cidade e até do domo superior da Basílica de São Pedro.
A Invasão francesa da Rússia em 1812, também reconhecida como a Campanha Russa em França (Campagne de Russie) e Guerra Patriótica de 1812 na Rússia, foi um ponto de virada durante as chamadas Guerras Napoleônicas. Reduziu a dimensão das forças francesas e forças aliadas (o Grande Armée) para uma pequena fracção de sua força inicial, e provocou uma grande mudança na política europeia uma vez que enfraqueceu dramaticamente a hegemonia francesa na Europa. A reputação de Napoleão como “um gênio militar invencível foi severamente abalada”, enquanto antigos aliados do Império Francês, primeiro o Reino da Prússia e depois o Império Austríaco, romperam a sua aliança com a França, e trocaram de lado, desencadeando a guerra da Sexta Coligação. A campanha começou em 24 de junho de 1812, quando as forças de Napoleão atravessaram o rio Neman. Ele pretendia obrigar o imperador da Rússia Alexandre I (1777-1825) a permanecer no Bloqueio Continental do Reino Unido; um objetivo oficial era acabar com a ameaça de uma invasão russa da Polônia. Napoleão designou a campanha de Segunda Guerra Polaca em referência à Primeira Guerra Polaca; o governo russo proclamou uma Guerra Patriótica. Quase meio milhão de homens, o Grande Armée, marchou pela Rússia Ocidental, ganhando uma série de pequenas batalhas e uma grande batalha (Batalha de Smolensk), entre 16 e 18 de agosto. a ala direita do exército russo, sob o comando do general Peter Wittgenstein, bloqueou parte do exército, liderado pelo mal Nicolas Oudinot, na Batalha de Polotsk.
Esta ação impediu os franceses de avançar sobre a capital russa de São Petersburgo; o destino da guerra tinha que ser decidido na frente de Moscovo, onde o próprio Napoleão liderou suas forças. Embora os russos tenham
utilizado a política da terra queimada, e, por vezes, tenham atacado o inimigo
com a cavalaria ligeira de cossacos, o seu exército principal retirou-se por
cerca de três meses. Este recuo prejudicou a confiança
no marechal-de-campo Michael Andreas Barclay, (1761-1818) levando
Alexandre I a nomear um veterano, Príncipe Mikhail Kutuzov (1745-1813), o novo
comandante-em-chefe. Finalmente, a 7 de setembro, os dois exércitos
encontraram-se perto de Moscovo, na Batalha de Borodino. A batalha resultou na
maior e mais sangrenta ação em um único dia, durante as Guerras Napoleónicas.
Envolveu mais de 250 mil soldados e resultou em pelo menos 70 mil vítimas. Os
franceses capturaram o campo de batalha, mas não conseguiram destruir o
exército russo. Além disso, os franceses não conseguiram substituir as suas
perdas, enquanto os russos o podiam fazer. Napoleão entrou Moscovo no dia 14 de
setembro, depois de o exército russo ter, novamente, recuado. Mas, por essa
altura, os russos tinham já evacuado a cidade e até libertado criminosos das
prisões para complicar o avanço francês. Além disso, o governador, o conde
Fyodor Rostopchin (1763–1826), ordenou que a cidade fosse incendiada. Alexandre
I recusou-se a capitular, e as conversações de paz de Napoleão falharam. Em
outubro, sem um sinal de vitória claro, Napoleão começou a sua retirada
desastrosa de Moscovo, durante o período de chuvas e lama habituais no Outono
russo. Na Batalha de Maloyaroslavets, os franceses tentaram chegar a Kaluga,
onde poderiam encontrar alimentos para os homens e para os animais.
Mas o exército russo,
bem alimentado, bloqueou a estrada, e Napoleão foi forçado a recuar pelo mesmo
caminho de onde tinham vindo desde Moscovo, através das áreas fortemente
devastadas ao longo da estrada de Smolensk. Nas semanas seguintes, o grande Armée
sofreu golpes catastróficos como o início do Inverno Russo, a falta de
suprimentos e constantes ataques de camponeses russos e tropas irregulares.
Quando as restantes tropas do exército de Napoleão atravessaram o rio Berezina
em novembro, já só restavam 27 mil soldados; o grande Armée tinha
perdido 380 mil homens e 100 mil tinham sido feitos prisioneiros. Napoleão
abandonou os seus homens e voltou para Paris para proteger a sua “posição como
Imperador e preparar-se para resistir aos avanços dos russos”. A campanha
terminou a 14 de dezembro de 1812, quando as últimas tropas francesas deixaram
a Rússia. Um evento de proporções épicas e de grande importância para a
história da Europa, a invasão francesa da Rússia tem sido objeto de muita
discussão entre os historiadores. A importância da campanha na cultura russa
pode ser vista na obra de Liev Tolstoi, Guerra e Paz; na composição de
Tchaikovsky, Abertura 1812; e a sua identificação com a invasão alemã de
1941-1945, que se tornou reconhecida como a Grande Guerra Patriótica na
União das Republicas Socialistas Soviética. Para um projeto dessas dimensões,
em 1810 Napoleão começou a preparar uma tropa à altura.
A grande Armée
reunia mais de meio milhão de homens. Eram 610 mil combatentes, levando 1 420
canhões. Ao todo, mais de 680 mil, se contarmos as tropas reservas. Esse
gigantesco exército, além de franceses, era formado por gente do Reino da
Prússia, Áustria, Baviera, Saxônia, Itália, Nápoles, Polônia, Espanha e
Croácia. A campanha começou na madrugada do dia 24 de junho de 1812, quando o
grande exército napoleônico cruzou o rio Neman e invadiu a Rússia sem avisos ou
declarações formais de guerra, e a 16 de agosto atacava Smolensk. A ação foi um
golpe nos planos de Alexandre I, que desde maio vinha montando seu próprio
grande exército. Incluindo cossacos e milícias populares, chegava-se à
espantosa cifra de 900 mil homens. O problema é que essa massa militar estava
sendo reunida na Moldávia, na Crimeia, no Cáucaso, na Finlândia e em regiões do
interior do império, longe demais do local de entrada do exército francês. Por
isso, em junho de 1812 os russos só conseguiram colocar cerca de 280 mil homens
e 934 canhões na fronteira ocidental. A importante cidade de Smolensk caiu
rapidamente. O exército russo decidiu não dar muita batalha aos franceses, uma
decisão difícil do alto comando para não correr o risco de perder importantes
forças em uma batalha praticamente perdida. Eram três exércitos cuidando da
fronteira. O primeiro, com 160 mil homens, combateria sob as ordens do gAL e ministro, Mikhail Bogdanovich Barclay de Tolly (1761-1818) em
direção a São Petersburgo.
O segundo exército, de Pyotr Bagration (1765-1812), general e príncipe da Geórgia, tinha 62 mil homens e se fixara entre os rios Neman e Bug, ao Norte dos pântanos de Pripet. Já o terceiro exército, do general Pyotr Alexander Tormasov, tinha cerca de 58 mil homens e olhava para o sul, em direção a Kiev. Sem condições de contra-atacar, os russos começaram a se retirar para o interior do país. Era uma necessidade para oferecer combate aos invasores. Em 8 de julho, a Rússia saiu às ruas para ouvir um manifesto de Alexandre I que chamava o povo a combater os franceses. As milícias populares vieram por causa do chamado, apoiado pela Igreja Ortodoxa. Cossacos, camponeses e até ciganos se alistaram aos milhares. Mesmo assim, no dia 23 de julho o marechal Blason de Louis-Nicolas Davout (1770-1823) bloqueou a passagem do general Bagration em Mogilev na atual Bielorrússia e impediu sua reunião com Barclay e, por extensão, a reação russa. Os problemas já começavam a rondar a brigada francesa. Sem ter lutado nenhuma batalha decisiva, a grand Armée havia sido reduzida em dois terços por causa de fadiga, fome, deserção e morte. A vantagem continuava ao lado de Napoleão.
No lado oposto, o czar
reclamava da incompetência de Barclay em interromper o avanço francês e o
substituiu pelo veterano general Mikhail Illarionovich Golenishchev-Kutuzov
(1745-1813) em 20 de agosto. Este, contudo, após tomar ciência da delicada
situação, continuou a estratégia do seu antecessor de “ceder terreno arrasado
ao invasor ainda com mais vigor”. Na época, ele disse o seguinte a seus homens:
“Os franceses vieram para cá sozinhos e sozinhos voltarão”. É preciso entender
que essa retirada russa escondia um mecanismo perverso. Quanto mais os
franceses avançavam, mais sofriam com a falta de comida e armamentos e cada vez
mais se distanciavam da linha de suprimentos estabelecida na fronteira. Em
paralelo, as fileiras de Alexandre I engordavam com alistamentos em massa.
Preocupado em conseguir mantimentos, Napoleão rumou para a capital russa, onde
tinha a certeza de poder se reabastecer. Não foi bem o que aconteceu. Em
setembro, com uma armada já numerosa e organizada, o general Kutuzov achou que
chegara o momento de parar e lutar. Estacionou seus então 155 mil homens e 640
canhões na aldeia de Borodino, a menos de 150 km de Moscou. No dia 7 de
setembro, às 6 horas da manhã, Napoleão deu início ao ataque com seus 135 mil
homens e 587 canhões. O sangue jorrou até depois do pôr-do-sol. Foram cerca de
16 horas de confronto ininterrupto, transformando-o na maior batalha de um dia
das Guerras Napoleônicas. Apesar de a vitória formal ter sido francesa, a
armada de Napoleão amargou 58 mil mortos, incluindo 48 generais. Os russos
perderam quase metade de seu exército: 66 mil baixas, incluindo 29 generais
entre elas a do talentoso general Bagration.
A demora na chegada do
reforço e o massacre do dia anterior fizeram Kutuzov optar pela difícil decisão
da retirada ainda mais para o Leste e do abandono da capital. Mesmo sob severas
reprimendas do czar, e de boa parte de seu estado-maior, Kutuzov conseguiu
prevalecer a sua decisão de entregar a cidade sem oferecer combate nos portões,
suportando uma forte pressão, e provando mais tarde que este sacrifício foi
crucial para o estabelecimento do cruel destino do exército francês. Napoleão
entrou então em Moscou, e encontrou a cidade surpreendentemente vazia evacuadas
dias antes prevendo a invasão. Em meio a indisciplina das tropas francesas, e a
falta de autoridade dos oficiais perante as suas tropas, que não conseguiam
impedir o saque, a pilhagem e a deserção dos soldados; grandes incêndios
provocados por fogueiras mal alocadas e sabotadores acabaram por transformar a
cidade em pilhas de escombros. Enquanto Napoleão acampado esperava a rendição
do czar, o inimigo recuperava seus exércitos rapidamente. Napoleão teve então
de reavaliar as opções estrategicamente. Seu exército estava enfraquecido e com
moral baixa. As linhas de abastecimento foram cortadas. A rendição
inimiga não dava mostras de acontecer. Após cinco semanas de acampamento sobre
as cinzas da cidade, o imperador francês decidiu dar meia volta e iniciar o
retorno à França em 19 de outubro. Junto aos soldados, seguiram uma lenta
procissão de carroças carregadas de peles, prata, porcelana e seda da utilidade
da força bruta fruto dos saques.
Em 24 de outubro, 20
mil homens do general francês Alexis Joseph Delzons (1775-1812) procuravam
suprimentos em Maloyaroslavets, a 121 km de Moscou. Ao dar com os primeiros
franceses, o general russo Kutuzov cometeu um erro. Acreditando se tratar de
uma fação desgarrada, enviou apenas 12 mil homens para detê-la. Na Batalha de
Maloyaroslavets, apesar da vitória tática de Napoleão, o imperador francês foi
empurrado de volta ao caminho devastado usado na ida. No dia 4 de novembro, uma
neve pesada começou a cair sobre os franceses desnutridos. No dia 9 de
novembro, a temperatura caiu para cerca de -26 °C e continuava baixando. O frio
penetrava nas roupas esfarrapadas dos soldados e se somava à exaustão. Muitos,
mal conseguiam andar, cair simplesmente significava não levantar mais, devido a
tamanha fraqueza das tropas. Centenas de franceses acampavam para dormir nas
longas noites nas estepes geladas e simplesmente amanheciam congelados devido
ao inverno rigoroso ou então assados pela proximidade das fogueiras que montavam,
na tentativa de escapar do frio. Somado a isto, surgiam os constantes ataques
dos cossacos liderados pelo chefe Matvey Ivanovich Platov (1753-1818), e pelas guerrilhas
camponesas pelo caminho de volta. Quando essa multidão maltrapilha
finalmente alcançou os suprimentos guardados em Smolensk, todo o resquício da
disciplina militar desapareceu. Uma turba de soldados famélicos saqueou os
armazéns e destruiu boa parte dos alimentos, que poderiam ter durado o inverno
inteiro.
Por volta do dia 16 de
novembro, sob o frio de -32 °C, a marcha tentava ir para casa. A partir de
Smolensk, criou-se o sentimento de cada um por si nas tropas francesas. As
armas e bagagens de saque, agora inúteis e inoportunas, eram abandonadas pelo
caminho. Os cadáveres congelados espalhavam-se aos milhares pelas estradas,
vilas abandonadas e florestas. Lutar contra o exército russo não era mais
possibilidade, somente havia entre o imaginário do restante do exército francês
o desejo cego de fugir. É esclarecedor sobre a terrífica retirada este texto de
obra do historiador e escritor J. Lucas-Dubreton (1883-1972): Nas estradas
geladas, luzidias como espelhos, os cavalos tombavam, obrigando-os a abandonar
as carroças que transportavam o tesouro. Do Norte chegava um vento gelado,
capaz de queimar; o cano do fuzil grudava nas mãos, a pele inchava, cheia de
bolhas; e as extremidades dos dedos, duras e descoradas, pareciam bolas de
marfim. Cobertos de andrajos, os olhos injetados, o rosto tumefato, infestados
de vermes - fazia três meses que não trocavam de farda nem de roupa de baixo -,
os antigos vencedores da Europa lutavam contra a agonia. Se adormecessem, era a
morte; se resistissem, se um passante os arrastasse um pouco mais adiante, ela
estava apenas adiada. Os fracos morriam primeiro, o sangue na boca e,
antes que expirassem, seus camaradas já os haviam despido. Neste oceano
de barbárie, nunca há de ter havido semelhante trajetória de cadáveres na
extensão da que seguiram os que fizeram essa campanha; eles estão em todos os
cantos, em todas as estradas, frescos e velhos.
A natureza humana, exaurida, desgastada pelo sofrimento, punha sua trama a nu, sua fibra fundamental; já não havia hierarquia nem disciplina; só um egoísmo feroz; todos curvados sob o mesmo nível de miséria. A própria velha guarda tinha perdido a bela compostura, e Napoleão se viu obrigado a chamá-la à ordem: “Não deem ouvidos a esses fracos que a desgraça abate e que não sabem sofrer. Façam justiça, pelas próprias mãos, com aqueles que, dentre vocês, saírem da fila durante a marcha; estabeleçam uma disciplina interior em cada companhia, e que os homens que se comportarem mal sejam apedrejados pelos camaradas”. O gráfico histórico de Charles Joseph Minard (1781-1870) demonstra a evolução do exército francês ao longo da campanha, e a respectiva quantidade de homens, bem como as condições atmosféricas. O passo seguinte era atravessar o rio Berezina na atual Bielorrússia. No dia 26 de novembro, os remanescentes da armada francesa caíram numa armadilha. Pela frente os russos seguravam a ponte. Por trás pressionava o exército de Kutuzov. Em segredo, Napoleão enviou seu corpo de engenharia para construir uma ponte improvisada sobre o semicongelado Berezina. Quando os russos perceberam, abriram fogo.
Cerca de 10 mil russos pereceram, contra 36 mil franceses, muitos dos quais só foram encontrados com o degelo da primavera. No dia 14 de dezembro de 1812, sob um frio de -38 °C, o que restou da grande Armée conseguiu cruzar o rio Nemen de volta; apenas 10 mil homens em estado lastimável, incluindo um Bonaparte perplexo. A contagem das baixas do fracasso napoleônico: 550 mil homens mortos. No lado russo, 250 mil soldados efetivos e 50 mil entre milícias cossacas e populares. A campanha da Rússia mostrou que Napoleão não era invencível. Muitos países se rebelaram. Era o fim do sonho napoleônico de um domínio da Europa. A invasão do exército de Napoleão de 1812 deixou uma profunda herança no imaginário russo; da sensação de perdição do país, da completa destruição de Moscou, e da improvável virada posterior, e o extermínio e expulsão dos invasores, este episódio marcou a cultura da França e da Rússia e de suas tradições militares. Carl von Clausewitz (1780-1831), um general prussiano da época e teórico literário militar, esclareceu em suas obras que na invasão napoleônica de 1812 na Rússia, surgiu e definiu-se as características da chamada guerra total, onde os lados combatentes buscam destruir e conquistar não apenas os alvos militares, mas todos os componentes no caminho do conflito, mobilizando todos os recursos disponíveis, inclusive os ligados na vida civil.
Carl Philipp Gottlieb
von Clausewitz (1972) foi um general do Reino da Prússia e teórico militar que
destacou os aspectos políticos e psicológicos da guerra. Sua obra mais reconhecida,
Vom Kriege, inacabada à época de sua morte, é considerada um tratado
fundamental de estratégia militar e ciência militar. Toda a história da
campanha napoleônica na Rússia gerou a famosa obra literária Guerra e Paz
de Leon Tolstói; escrita ainda na segunda metade do século XIX, eternizando
dezenas de passagens da campanha, a maioria verídicas. A derrota inicial da
Rússia e sua vitória final também são lembrados na Abertura 1812 de
Tchaikovsky. Até 1941 ela era reconhecida na Rússia sob o nome de “Guerra
Patriótica”. Atualmente, o termo russo Guerra Patriótica de 1812 a
distingue da Grande Guerra Patriótica, que designa a campanha levada à
cabo pelos Soviéticos contra os militares alemães durante a 2ª Guerra Mundial. Em
meados de 2010 um grupo de amantes da história, que procuravam restos mortais
de soldados encontraram dezoito soldados do Grande Exército de Napoleão I, numa
região próxima à cidade de Vilnius, na Lituânia. Com os botões dos uniformes,
que estavam bem conservados, foi possível determinar que os soldados pertenciam
ao 29º regimento de infantaria, ao 2° regimento de dragões e ao 7° regimento de
hussardos, unidades estas que faziam a guarda de Napoleão na retirada das
tropas francesas na campanha da Rússia em 1812. Desta maneira, os restos dos
soldados descobertos em 2010 foram enterrados em novembro deste ano, junto com
outros dois mil corpos de soldados napoleônicos descobertos em 2001 e
sepultados em 2003, no cemitério de Antakalnis, em Vilnius.
A Bielorrússia passou a receber seu nome atual no período do Império Russo; o czar russo costumava ser designado o “Czar de Todas as Rússia” referindo-se à Grande, à Pequena e à Branca. Na época, a Bielorrússia era vista como parte da nação russa, e o idioma bielorrusso era considerado um dialeto do russo. Após a Revolução Bolchevique de 1917, o termo Rússia Branca passou a causar alguma confusão, pois também era o nome da força militar que se opunha aos bolcheviques vermelhos. Durante o período da República Socialista Soviética Bielorrussa, o termo Bielorrússia foi adotado como parte de uma consciência nacional. Na Bielorrússia Ocidental, sob o domínio polaco, o termo foi utilizado com frequência para se referir às regiões de Bialystok e Grodno, durante o período entreguerras. O termo Bielorrússia assim como seus nomes na maioria dos idiomas vem da forma russa, Byelorussia, foi utilizado oficialmente apenas até 1991, quando o Soviete Supremo da RSSB decretou que a nova república independente deveria se chamar Belarus (Беларусь), em russo e em todas as transcrições do nome para outros idiomas. A mudança supostamente visava refletir adequadamente a forma bielorrussa do nome, e o período de transição durou até 1993. Forças conservadoras da recém-independente República não apoiaram a mudança de nome e se opuseram à sua inclusão no esboço realizado em 1991 da Constituição da Bielorrússia. Desde a Independência do país, com o fim da União Soviética, o governo bielorrusso oficializou este pedido para que o endônimo Belarus fosse usado em todas as línguas para se referir ao país.
Em determinados
idiomas, como o inglês, o pedido foi bem aceito, mas a maioria das outras
línguas europeias mantiveram seus exônimos próprios, como o grego Λευκορωσία,
o alemão Weißrußland, o dinamarquês Hviderusland, o sueco Vitryssland,
o neerlandês Wit-Rusland, o islandês Hvíta-Rússland, todos
traduzidos literalmente como Rússia Branca que também era o nome português até
a década de 1990. O francês mantém o nome Biélorussie. O mesmo que se
deu com o inglês aconteceu, até certo ponto, com o russo embora o nome
tradicional ainda exista naquele idioma; do mesmo modo, o adjetivo “Belorussian”
ou “Byelorussian” foi substituído, em inglês, por Belarusian, enquanto o
russo não tenha desenvolvido uma nova versão do adjetivo (“bielaruski”). A intelligentsia
bielorrussa no período de Stalin tentou alterar o nome do país para “Krivia”,
para tentar eliminar esta suposta ligação com a Rússia; alguns nacionalistas
também têm objeção ao nome por este mesmo motivo. Diversos jornais populares
publicados localmente, no entanto, ainda conservam o nome antigo do país em
russo nos seus nomes, como por exemplo Komsomolskaya Pravda v Byelorussii,
edição local de um popular tabloide russo. Partidários da união do país com a
Rússia também continuam a utilizar a forma anterior. Oficialmente, o nome
completo do país é República da Bielorrússia.
Ex-companheiros
de armas não se encontram há 20 anos, desde o verão de 1945, quando cada um per
se seguiu seu caminho depois de chegar à estação ferroviária da
Bielorrússia em Moscou ao final da 2ª guerra mundial (1939-1945). Agora, uma
triste ocasião reúne os homens novamente - a morte de um deles que permaneceu
no exército. Muitas mudanças sociais aconteceram na vida de cada um, mas os
amigos conservaram os sentimentos de irmandade, solidariedade e humanidade
desenvolvidos no front. Antes de retornarem às suas rotinas cotidianas,
vivem um dia repleto de recordações e situações inesperadas. O diretor Andrei
Smirnov conseguiu o impossível. Rodou um dos filmes mais autênticos sobre a Grande
Guerra Patriótica, sem mostrar uma cena sequer da própria guerra. Além
disso, a canção “Precisamos de uma vitória”, de Bulat Okudzhava (1924-1997),
acabou se tornando uma das músicas mais poderosas sobre a guerra. Bulat
Shalvovich Okudzhava foi um extraordinário poeta, escritor, músico, romancista
e cantor e compositor soviético e russo de ascendência georgiana-armênia. Ele
foi um dos fundadores do gênero soviético chamado “canção de autor”, ou “canção
de violão”, e autor de cerca de 200 canções, musicadas com sua própria poesia.
Suas canções são uma mistura equilibrada de tradições poéticas e folclóricas
russas e do estilo francês chansonnier, representado por contemporâneos
de Okudzhava como Georges Brassens.
Embora suas canções nunca tenham sido explicitamente políticas, a frescura e a independência da voz artística de Okudzhava representaram um desafio sutil às autoridades culturais soviéticas, que, portanto, hesitaram por muitos anos em lhe conceder reconhecimento oficial. Bulat Okudzhava nasceu em Moscou em 9 de maio de 1924, em uma família de comunistas que vieram de Tbilisi, a capital da Geórgia, para estudar e trabalhar para o Partido Comunista. Filho de pai georgiano, Shalva Okudzhava [ru], e mãe armênia, Ashkhen Nalbandyan, Bulat Okudzhava falava e escrevia apenas em russo. A mãe de Okudzhava era sobrinha de um reconhecido poeta armênio, Vahan Terian (1885-1920). Seu pai serviu como comissário político durante a Guerra Civil e como membro de alto escalão do Partido Comunista, posteriormente, sob a proteção de Sergo Ordzhonikidze (1886-1937). Seu tio Vladimir Okudzhava era um anarquista e terrorista que deixou o Império Russo após uma tentativa fracassada de assassinar o governador de Kutaisi. Vladimir estava listado entre os passageiros do infame trem lacrado que transportou Vladimir Lenin, Grigory Zinoviev e outros líderes revolucionários da Suíça para a Rússia em 1917. Shalva, pai de Okudzhava, foi preso em fevereiro de 1937 durante o Grande Expurgo, acusado de trotskismo e sabotagem. Ele foi fuzilado em 4 de agosto com seus dois irmãos. Sua esposa foi presa em 1939 “por atos antissoviéticos” e enviada para o Gulag.
Bulat retornou a Tbilisi para viver com seus parentes. Sua mãe foi libertada
em 1946, mas presa pela segunda vez em 1949, passando mais 5 anos em campos
de trabalho forçado. Ela foi totalmente libertada em 1954 e reabilitada em
1956, juntamente com seu marido. Em 1942, aos 17 anos, Bulat Okudzhava, aluno
do 9º ano, alistou-se voluntariamente na infantaria do Exército Vermelho
e, a partir de 1942, participou da guerra contra a Alemanha. Após sua dispensa
do serviço militar em 1944, retornou a Tbilisi, onde concluiu o Ensino Médio e
ingressou na Universidade Estadual de Tbilisi, graduando-se em 1950. Depois de
formado, trabalhou como professor, primeiro em uma escola rural na vila de
Shamordino, na região de Kaluga, e mais tarde na própria cidade de Kaluga. Em
1956, Okudzhava retornou a Moscou. Após a reabilitação de seus pais e o XX
Congresso do Partido Comunista Chinês, no qual Khrushchov denunciou os
expurgos, Bulat Okudzhava pôde ingressar no Partido Comunista, do qual
permaneceu membro até 1990. Na capital soviética, trabalhou inicialmente como
editor na editora Molodaya Gvardiya (Jovem Guarda) e,
posteriormente, como chefe da seção de poesia do mais importante semanário
literário nacional da antiga União das Repúblicas Socialista Soviética, o Literaturnaya
Gazeta (“Jornal Literário”). Foi então, em meados da década de 1950, que
começou a compor canções e a interpretá-las, acompanhando-se ao violão russo. Logo
ele começou a dar concertos. Ele usava apenas alguns acordes e não tinha
formação musical formal, mas possuía um dom melódico excepcional, e as letras
inteligentes de suas canções combinavam perfeitamente com sua música e sua voz.
Suas canções eram elogiadas por seus amigos, e gravações amadoras foram feitas.
Essas gravações não oficiais foram amplamente copiadas como magnitizdat
e se espalharam pela URSS e Polônia, onde outros jovens pegaram violões e
começaram a cantar as canções por conta própria.
Em 1970, suas letras
apareceram no clássico filme soviético Beloye Solntse Pustyni “Sol
Branco do Deserto” é um filme ostern soviético de 1970, dirigido por
Vladimir Motyl (1927-2010). Sua mistura de comédia de ação, música e drama o
tornou altamente bem-sucedido nas bilheterias soviéticas e resultou em uma
série de citações memoráveis. Ele mantém alta aprovação doméstica. Embora as
canções de Okudzhava não tenham sido publicadas por nenhuma organização de
mídia oficial até o final da década de 1970, elas rapidamente alcançaram enorme
popularidade, especialmente entre a intelectualidade, principalmente na URSS a
princípio, mas logo também entre os falantes de russo em outros países. Vladimir
Nabokov, por exemplo, citou sua Marcha Sentimental no romance Ada ou
Ardor. Okudzhava, no entanto, considerava-se principalmente um poeta e afirmava
que suas gravações musicais eram insignificantes. Durante a década de 1980, ele
também publicou muita prosa, pois em seu ersatz seu romance O
Espetáculo Acabou lhe rendeu o Prêmio Booker Russo em 1994. Na década de
1980, gravações de Okudzhava interpretando suas canções finalmente começaram a
ser lançadas oficialmente na União Soviética, e muitos volumes de sua poesia
também foram publicados. Em 1991, ele foi agraciado com o Prêmio Estatal da
URSS. Ele apoiou o movimento reformista na URSS e, em outubro de 1993, assinou
a Carta dos Quarenta e Dois. Okudzhava faleceu em Paris em 12 de junho
de 1997 e está sepultado no Cemitério Vagankovo, em Moscou. Um monumento marca
o prédio de número 43 da Rua Arbat, onde ele morava. Sua dacha em Peredelkino
agora é um museu aberto ao público. Um planeta menor, 3149 Okudzhava,
descoberto pela astrônoma tcheca Zdeňka Vávrová em 1981, recebeu o nome em sua
homenagem. Ela também descobriu vários asteroides. Suas canções continuam muito
populares e são frequentemente executadas.
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Pinheiro; BANDEIRA, Lourdes Maria, “A Construção do Sujeito Feminino em Georg
Simmel”. In: Soc. Estado, 38 (02) • May-Aug., 2023; GUERRA, Gustavo
Tatis, “La Invisible Maravilla”. In: El Diario Madrid, 11 de março de
2026; entre outros.
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