“Tenho em mim um sentimento de aldeia e dos primórdios”. Manoel de Barros
Um dos domínios sociais, mas particularmente, simbólicos mais intrigantes na circunscrição das relações de gênero diz respeito às conexões entre corpo, de marca nome e renome. De acordo com a literatura antropológica disponível sobre o assunto, o processo de renomeação, quase sempre associado a situações rituais (cf. Gennep, 1978), é um dos marcadores sociais por excelência da aquisição de prestígio e de status nas sociedades não ocidentais. Essa conexão entre corpo, gênero e marca tem suscitado interpretações distintas a respeito dos significados envolvidos nos rituais que a enfeixam: ritos de passagem, na acepção de Arnold Van Gennep (1873-1957), ou de instituição, para Pierre Bourdieu (1930-2002), interpelados pela exclusão e violência simbólica, eles visam a separar aqueles que já passaram por eles, daqueles que ainda não o fizeram e, assim, instituir uma diferença duradoura entre os que foram e os que ainda não foram afetados. No extraordinário ritual cabila de circuncisão, por exemplo, ele separa o rapaz das mulheres e do mundo feminino, ao mesmo tempo em que converte o mais efeminado dos homens num homem na plena acepção da condição de homem, separado por uma diferença de natureza, de essência, mesmo da mais masculina, da maior e da mais forte das mulheres. Os estudos etnográficos produzidos no âmbito da história socialmente das artes e da presente sociologia da cultura, ou sociologia das emoções, hic et nunc, têm trazido contribuições socioculturais fundamentais para repensarmos a equação parental.
É histórica entre nome,
status e posição de prestígio estamental a partir de sua articulação com o
problema da autoria e da autoridade na sociedade contemporânea. As convicções
políticas parecem seguir o mesmo caminho. Alguém seria socialista por que foi
socialista, sem ir às manifestações, sem reunião, sem palavra e sem
contribuição financeira, em suma, sem nada pagar. Mas reverencial que
identificatória, a pertença só se marcaria por aquilo que se chama uma voz.
Este resto de palavra, como o voto encanzinado de quatro em quatro anos. Uma
técnica bastante simples manteria o teatro de operações desse crédito. Basta
que as sondagens abordem outro ponto que não aquilo que liga diretamente os
adeptos ao partido, mas aquilo que não os engaja alhures, não a energia das
convicções, mas a sua inércia. Os resultados da operação contam então com
restos da adesão. Fazem cálculos até mesmo com o desgaste de toda convicção.
Pois esses restos, esses cacos, como insinua Leonardo Boff, indicam ao mesmo
tempo o refluxo daquilo em que os interrogados creram na ausência de uma
credibilidade mais forte que os leva para outro lugar. A capacidade de crer
parece estar em recessão em todo o campo político. A tática é a arte do fraco.
O poder se acha amarrado à sua visibilidade. Mas a vontade de “fazer crer”, de
que vive a instituição, fornecia nos dois casos um fiador a busca de amor
e/ou de identidade. Importa interrogar-se sobre os avatares do crer em nossas
sociedades e sobre práticas originadas desses deslocamentos. Em séculos,
supunha-se indefinidas as reservas de crença.
Pantanal narra a história social de Zé
Leôncio (Paulo Gorgulho/Cláudio Marzo), um peão de comitiva que chegou com o
pai, Joventino (Cláudio Marzo) ao Pantanal, onde compraram uma fazenda e
começaram a criar gado de corte. José Leôncio e seu pai caçavam marruás,
um tipo de boi selvagem que vivia solto pelas matas da região, aumentando,
assim, o rebanho na fazenda. Um certo dia, Zé Leôncio viajou com os peões em
comitiva e pediu a que seu pai não fosse caçar marruá sozinho. Entretanto, o
velho Joventino acabou por ir caçar e desapareceu na imensidão do Pantanal. Zé
Leôncio voltou de viagem e procurou pelo pai sem sucesso. Nesse dia, prometeu
que ia trazer um marruá no laço todos os dias, só para ter a esperança de
encontrar o pai. Passado algum tempo, Zé Leôncio, já um fazendeiro rico, vai ao
Rio de Janeiro cobrar uma dívida e conhece a fútil e mimada Madeleine (Ingra
Lyberato/ Ittala Nandi). A família de Madeleine era da classe alta carioca (RJ),
porém seu pai, Antero (Sérgio Britto) é viciado em jogo, acabando aos poucos
com o status da família e deixando-os perto da falência. Antero acaba aceitando
que Zé Leôncio se case com sua filha, recebendo dele um bom dinheiro para
tentar resgatar o que perdeu, enquanto Zé a leva ao Pantanal e a engravida.
Mulher da cidade grande, Madeleine não se adapta ao mundo rural, à rude vida
pantaneira e à rotina de peão do marido. Durante uma das viagens de Zé Leôncio
em comitiva, levando gado à venda, ela foge com o amigo Gustavo (José de
Abreu), que a vai buscar no Pantanal, e o filho de poucos dias para o
Rio de Janeiro.
Amargurado, Zé Leôncio tenta em vão recuperar o menino, que acabara de nascer, mas acaba concordando em deixá-lo com a mãe na cidade grande. Passa a viver então com Filó (Tânia Alves/Jussara Freire), sua empregada, que já tinha um filho, Tadeu (Marcos Palmeira). Ele reconhece Tadeu como seu afilhado, considerando-o seu filho. Vinte anos depois, o filho legítimo, Joventino Neto (Marcos Winter), o Jove, finalmente decide por ir conhecer o pai. Mas o choque cultural é grande e os dois têm sérias dificuldades para se entender. Sentindo-se rejeitado pelo pai, que acha que o filho é afeminado, e ridicularizado pelos peões por causa de seu jeito de moço da cidade, Jove decide retornar ao Rio, mas leva consigo Juma Marruá (Cristiana Oliveira), moça criada como selvagem pela mãe (Cássia Kis) até a morte dessa, assassinada por encomenda numa trama paralela de vingança entre posseiros de terras e vítimas de grilagem, fatos esses ocorridos no início da novela na cidade de Sarandi, no estado do Paraná. Tal como a mãe, comenta-se que a menina Juma se transforma em onça-pintada quando ameaçada. Passado um tempo no Rio, onde o choque cultural é sofrido por Juma, Jove retorna para não se separar da “onça”.
Cristiana Barbosa da
Silva de Oliveira nascida no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1963, é uma
atriz e ex-modelo brasileira. Reconhecida por seus papéis em telenovelas desde
o final da década de 1980, ganhou maior notoriedade ao interpretar Juma em Pantanal.
Ela é ganhadora de vários prêmios, incluindo um Prêmio APCA e um Troféu
Imprensa, além de ter recebido indicação para um Prêmio Extra. Nascida e criada
em Ipanema, Cristiana começou sua carreira de atriz na novela Kananga do
Japão, da TV Manchete, no núcleo principal, após ter ficado conhecida por
seu trabalho como modelo. Ela foi eleita como a revelação feminina do ano pelo
Prêmio APCA por esse trabalho. Mas alcançou seu sucesso em 1990 como Juma
Marruá em Pantanal. A novela tornou-se um marco na teledramaturgia brasileira
devido à sua enorme repercussão popular e esse se tornou o trabalho mais
memorável de sua carreira, pelo qual recebeu o Troféu Imprensa. Devido ao
sucesso desta trama, foi encomenda uma novela de temática semelhante, Amazônia
(1991), e Cristiana foi novamente escolhida para interpretar a protagonista. No
ano seguinte, foi contratada pela TV Globo para estrear como protagonista da
novela do horário nobre De Corpo e Alma. Nos anos sequentes da década de
1990, Cristiana tornou-se uma das atrizes mais populares da televisão,
interpretando uma série de protagonistas, como a vingativa Tati de Quatro
por Quatro (1994), a interesseira Adriana em Salsa e Merengue
(1996), a forte Selena de Corpo Dourado (1998) e Pilar em Vila
Madalena (1999).
Em 2001 se destacou
como a dissimulada Alicinha em O Clone, sendo a principal vilã da trama.
Cristiana foi elogiada por sua atuação com uma personagem diferente do habitual
em sua carreira, sendo indicada ao Prêmio Contigo! de TV na categoria de
Melhor Vilã. Em seguida estreou na televisão de Portugal atuando em O Olhar
da Serpente (2002). Por seu trabalho como a presidiária Araci em Insensato
Coração (2011), ela foi indicada ao Prêmio Extra de Melhor Atriz
Coadjuvante. Filha de Oscar de Oliveira e Eugênia Barbosa da Silva de Oliveira,
é a caçula de nove filhos (dois homens e sete mulheres). Nascida e criada em
Ipanema, para ajudar nas despesas familiares, começou a trabalhar com 10 anos
de idade, numa floricultura próxima de sua residência. Enfrentando depressão na
adolescência, abandonou os estudos e fugiu da casa dos pais para morar com sua
melhor amiga, que havia se mudado há poucos meses para São Paulo, onde passou a
trabalhar como caixa de supermercado. Ficou 1 mês desaparecida, e só depois
desse tempo comunicou aos pais que estava bem e trabalhando, e eles entenderam
o que ela estava passando, e pediram para ela voltar. Nessa época, após voltar
para casa, voltou a estudar e começou a trabalhar como divulgadora, fazendo
assessoria de imprensa para teatro junto a sua irmã Marió. Em 1983, aos 20
anos, Cristiana estreou como modelo ao participar de um concurso de beleza do Jornal
do Brasil que promovia uma marca de óculos, no qual foi vencedora.
A jovem chamou atenção
de diversos produtores de moda, passando a realizar desfiles e fotografar para
editoriais de moda. O grande destaque veio no ano seguinte, 1984, quando
assinou com o empresário de moda Eli Hadid Wahbe – que dois anos depois fundaria
a Class Modelos – e passou a morar na Europa, trabalhando na Alemanha e
Espanha. Em 1989 chamou a atenção do diretor Walter Salles Jr. por sua
desenvoltura diante das câmeras durante a gravação de um comercial produzido
por ele, que a indicou para Jayme Monjardim para realizar um teste na Rede
Manchete para apresentar o programa de videoclipes Shock, que estava
vago com a saída de Carolina Ferraz. Cristiana passou no teste, porém não
chegou a estrear no programa, uma vez que Jayme convidou-a para realizar novos
testes para a novela Kananga do Japão, acreditando que ela poderia se
tornar atriz. Na época Bia Seidl havia desistido do papel de Hannah e Cristiana
ficou com o papel, estreando como atriz no núcleo principal da trama. Com esta
novela ganhou o prêmio por unanimidade de atriz revelação pela APCA. Em 1990
Cristiana interpretou seu personagem de maior destaque, a protagonista Juma em
Pantanal, que inicialmente seria para a atriz Glória Pires. A novela foi um
grande sucesso, derrubando a audiência da TV Globo e virando um marco na
teledramaturgia brasileira. Cristiana, com este trabalho, ganhou o Troféu
Imprensa de “Revelação do ano”.
Em 1991, fez a sua estreia no cinema, com o longa-metragem Os Trapalhões e a Árvore da Juventude. Nesse mesmo ano, Cristiana participou de um episódio do programa Fronteiras do Desconhecido e protagonizou a novela Amazônia. Em 1992, visando a repercussão de seus trabalhos na Rede Manchete, a Rede Globo contratou Cristiana sob um salário duas vezes maior para viver a protagonista da minissérie Agosto, papel que veio a ser interpretado por Vera Fischer, já que foi decidido pela cúpula da emissora que Cristiana seria a protagonista, junto com Tarcísio Meira, da novela De Corpo e Alma. Em fevereiro daquele ano, posou nua para a edição brasileira da revista Playboy, numa das poucas ocasiões em que o ensaio foi apresentado em um encarte especial. Em 1993, estreou no teatro com o espetáculo Bate Outra Vez, de Eduardo Wotzik. Ainda nesse ano, atuaria na peça Troia, sucesso estrondoso de crítica. Em 1994, participou da minissérie Memorial de Maria Moura e, depois, protagonizou a novela Quatro por Quatro, ao lado das atrizes Letícia Spiller, Elizabeth Savalla e Betty Lago. Pela primeira vez em sua carreira televisiva, a atriz faria um papel cômico. Após o fim da novela, foi morar em Nova Yorque a fim de se aprimorar no inglês. Em 1996, atuou em Salsa e Merengue, como a vilã Adriana. Posteriormente, emendaria trabalhos, e logo voltaria ao ar como a protagonista da novela Corpo Dourado, em 1998, na pele da batalhadora e rude Selena, uma mulher da roça, sem vaidade e guerreira. Em 1999 faria uma mocinha, interpretando a determinada e apaixonada Pilar, formando um triângulo amoroso, em Vila Madalena, composto também por Edson Celulari e Maitê Proença. Em 2001, participou da primeira fase da novela Porto dos Milagres.
No mesmo ano, esteve na segunda fase da novela O Clone, como a pérfida Alicinha, uma mulher dissimulada e extremamente ambiciosa, que manipula todos ao seu redor por dinheiro e poder, sendo a principal vilã do folhetim. Também em 2002 apresentou a peça Pequeno Dicionário Amoroso, de Jorge Fernando, marcando a sua volta aos palcos e foi cedida à SIC, de Portugal, para atuar na novela O Olhar da Serpente. Cristina ficou então cerca de três anos limitando-se a pequenas aparições no vídeo, quando, em 2005, retornou como a dona de casa Rita na temporada daquele ano da novela Malhação. Em 2006, filmou o longa-metragem Gatão de Meia Idade, onde interpretou uma “motoqueira masculinizada”, que na verdade sonha em casar-se e ter filhos. Em 2007, integrou o elenco da minissérie Amazônia, de Galvez a Chico Mendes, e participou de últimos capítulos da novela Sete Pecados, como a. advogada Margareth, e filmou o longa-metragem Nossa Senhora de Caravaggio, em que viveu uma mulher simples e sofrida, vítima dos maus tratos do marido, que busca na fé para sua dor. Em 2009, despontou no remake de Paraíso, como a moderna Zuleika, par romântico do cantor Daniel. Em 2010, Cristiana retorna ao teatro interpretando Maria em Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Em 2011, interpretou uma elogiada participação especial da crítica e do público em Insensato Coração, no papel da presidiária lésbica e traficante de drogas, chamada Araci Laranjeira. Em 2012, interpretou a fútil e bem humorada Yolanda em Salve Jorge. Em 2014, volta à TV na série do GNT, Animal, no papel da ex-delegada e prefeita Mariana Gomes.
Ele está disposto a se adaptar ao estilo de vida local. Jove começa a se acertar com o pai e com a menina Juma e vai aos poucos transformando-se num autêntico peão pantaneiro, surpreendendo a todos continuamente no âmbito da vida social. A história tem ainda um lado sobrenatural, baseado no fascinante folclore da região pantaneira: os principais personagens, com exceção de Zé Leôncio, frequentemente se deparam com uma figura reconhecida como “O Velho do Rio”, um curandeiro idoso que cuida das pessoas atacadas pela jararaca boca-de-sapo, uma cobra venenosa, ou que simplesmente se perdem na extensão extraorinária do Pantanal. Todos comentam que o Velho é o pai das sucuris, que ele se transforma em sucuri, também sendo ele a maior de todas. O povo acredita que “O Velho do Rio” seja o pai de Zé Leôncio, o desaparecido peão Joventino, de quem o neto, Jove, herdou o nome. Além do Velho do Rio e da história da menina Juma, uma terceira trama sobrenatural enriquece a novela: a figura do misterioso peão Trindade (Almir Sater), que teria um pacto com o diabo, ou seria ele próprio a encarnação do diabo. Há ainda a história de Maria Rute (Andréa Richa), que chegou às terras do Pantanal para vingar a morte do pai, assassinado pelo pai de Juma. Fazendo-se passar por muda e apelido, ela vai conquistando a confiança de Juma e passa a morar com ela na tapera dos Marruá, dividida em vingança e a amizade que passa a nutrir pela “onça”.
A Muda acaba
conquistando o coração do peão Tibério (Sérgio Reis), braço direito de Zé
Leôncio, mas também o de Levi (Rômulo Arantes, peão mau-caráter e obcecado por
ela. No decorrer da trama, Zé Leôncio descobre a existência dum terceiro filho
seu, na verdade o primeiro dos três: o caminhoneiro José Lucas de Nada (Paulo
Gorgulho), fruto de sua primeira experiência sexual, tida com a prostituta
Generosa (Kátia D`Angelo) num prostíbulo de Goiás, aonde fora levado pelo pai
ao completar quinze anos de idade a fim de “mostrar que era macho”. O sobrenome
de Zé Lucas é De Nada, pois o mesmo não tinha pai para dar-lhe um sobrenome.
Assim que Zé Leôncio o reconhece como filho, passa a chamar-se José Lucas
Leôncio. A saga da família Leôncio inclui, finalmente, o complicado
relacionamento com o fazendeiro vizinho, Tenório (Antônio Petrin). Casado com a
submissa Maria (Ângela Leal), a quem apelidou pejorativamente de “Maria Bruaca”
e com quem teve uma filha, a despudorada Guta (Luciene Adami) – que adora
desafiar as ordens do pai –, seu passado como grileiro de terras liga-o às
tragédias familiares de Juma e Muda. O mau-caratismo deste e sua inclinação a
vinganças covardes colocarão em risco em diversas circunstâncias a família de
Zé Leôncio. O vilão possui uma outra família na cidade de São Paulo, formada
por Zuleika (Rosamaria Murtinho) e seus filhos Marcelo (Tarcísio Filho), Renato
(Ernesto Piccolo) e Roberto (Eduardo Cardoso). Após descobrir esse fato, Maria
passa a desafiar o marido e inicia um tórrido caso de amor com o peão Alcides
(Ângelo Antônio), empregado da fazenda e uma das muitas pessoas que querem
vingança contra Tenório. Quem também sofre ao descobrir a segunda família do
pai é a sensual Guta, que após se envolver com Jove e Tadeu, apaixonou-se por
Marcelo, sofrendo ao descobrir que se envolveu com provável irmão.
As origens da novela, conceitualmente como gênero literário, remontam aos primórdios do Renascimento, designadamente a Giovanni Boccaccio (1313-1375) e a sua grande obra, o Decameron, que, sobretudo por seu aspecto realista, rompeu com a tradição literária medieval. Trata-se de uma compilação de cem histórias contadas por dez pessoas refugiadas numa casa de campo para escaparem dos horrores da Peste Negra, a qual é objeto de uma vívida descrição no preâmbulo da obra. Ao longo de dez dias (daí o nome decameron, do grego deca: dez), sete mulheres e três homens, para ocuparem as longas horas de ócio do seu autoimposto isolamento, combinam que todos os dias cada um conte uma história, geralmente subordinada a um tema designado por um deles. Refira-se ainda outra obra, escrita em francês, com o mesmo tipo de estruturação: o Heptameron, da autoria de Margarida de Navarra (1492-1549), rainha consorte de Henrique II de Navarra. Nessa, são dez viajantes que se abrigam de uma violenta tempestade numa abadia. Impossibilitados de comunicarem com o exterior, todos os dias cada um conta uma história, real ou inventada. Em forma de epílogo, cada uma é concluída com comentários dos participantes, em ameno diálogo. Era intenção da autora que, à semelhança do Decamerão, a obra compreendesse cem histórias, porém a morte impediu-a de realizar o seu intento, não indo além da segunda história do oitavo dia, num total de 72 relatos etnográficos. Será também a morte prematura que poderá explicar uma certa pobreza de estilo, contrabalançada, porém, por uma grande perspicácia psicológica.
As
origens da forma discursiva novela como gênero literário remontam aos
primórdios do Renascimento, designadamente a Giovanni Boccaccio, um importante
escritor e poeta italiano do século XIV. Sua principal obra é Decameron, um
conjunto de histórias curtas, em realidade, contos. Trata-se de uma compilação
de cem histórias narrada por dez pessoas, refugiadas numa casa de campo para
escaparem aos horrores da Peste Negra (cf. Gottfried, 1983) a qual é objeto de
vívida descrição no preâmbulo da obra. O nome pela qual ficou conhecida
representa uma das mais devastadoras pandemias na história humana, resultando
na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Eurásia que forma em conjunto a
relação espacial e demográfica entre a Europa e a Ásia, com várias regiões costeiras
distintas: o Oriente Médio, Sul da Ásia, Ásia Oriental, Sudeste Asiático e
Europa, ligado a massa interior da estepe eurasiana da Ásia Central e Europa
Oriental. Embora geograficamente em um continente separado, o norte da África,
histórica e culturalmente, tem sido integrado na história da Eurásia. Somente
no continente europeu, estima-se que tenha vitimado pelo menos um terço da
população em geral, sendo o auge da peste entre os anos de 1346 e 1353.
Filho de um mercador, Boccaccio
não se dedicou ao comércio como era o desejo de seu pai, preferindo cultivar o
talento literário que se manifestou desde muito cedo. Foi um importante
humanista, autor de um número notável de obras, incluindo Decameron, e o
poema alegórico, Amorosa Visione (Visão Amorosa) e De Claris Mulieribus,
uma série de biografias de mulheres ilustres. O livro apresenta as mulheres,
até então relegadas ao segundo plano, equiparadas aos homens, com os mesmos
direitos de usufruir os prazeres da vida, como o amor, a liberdade e as
aventuras. Mas o que mais perturbou a sociedade na época foram o realismo e a
sensualidade da narrativa. Nada até então havia sido tão chocante como os
termos explícitos de Decameron que ocasionaram as mais duras críticas e
todo o tipo de censura das autoridades religiosas. O Decameron representa o
primeiro grande realista da literatura universal. Ao longo de dez dias, sete
mulheres e três homens, para ocuparem as longas horas de ócio do seu
isolamento, combinam que todos os dias cada um narraria uma história,
subordinada a um tema designado por um deles. Boccaccio é considerado, por
muitos estudiosos, como um dos precursores do humanismo, que foi de extrema
importância no Renascimento Italiano na literatura e nas artes plásticas. É
também considerado um dos maiores contadores de histórias apresentando uma
narrativa singular na Europa do século XIV.
Refira-se a analogia
noutra obra escrita em francês, com o mesmo tipo de estruturação: Heptameron,
da autoria de Margarida de Navarra (1492-1549), rainha consorte de Henrique II
de Navarra (1503-1555). Neste caso, são dez viajantes que se abrigam de uma
violenta tempestade numa abadia. Impossibilitados de comunicarem com o
exterior, todos os dias cada um narra uma história, real ou inventada. Em jeito
de epílogo, cada uma é concluída com comentários dos participantes, em ameno
diálogo. Era intenção da autora que, à semelhança do Decameron, a obra
compreendesse cem histórias, porém a morte impediu-a de realizar o seu intento,
não indo além da segunda história do oitavo dia, num total de 72 relatos. Será também
a morte prematura que poderá explicar certa pobreza de estilo, contrabalançada,
porém por uma grande perspicácia psicológica. Os estudos de gênero da
literatura de língua portuguesa classificam, grosso modo, uma narrativa em
romance, novela ou conto. É comum dividirmos romance, novela e conto pelo
número de páginas. Em média, a novela tem entre 50 e 100 páginas, com uso
técnico-metodológico de 20 mil a 40 mil palavras. Entretanto, o romance tem
diferenças importantes em relação ao gênero novela, e convém notar a diferença
dos termos em diferentes línguas. Os equivalentes de novela em inglês, francês
e espanhol são: novella, nouvelle e “novela corta” ou novele,
respectivamente, enquanto o romance é chamado novel, em inglês, roman,
em francês, e novela, em espanhol. Efetivamente, tradição, educação,
linguagem são os componentes nucleares da cultura e formam os ídolos da
sociedade na perspectiva de poder dizer sua palavra.
Se a cultura contém um saber coletivo acumulada em
memória social, se é portadora de princípios, modelos, esquemas de
conhecimento, se gera uma visão de mundo, se a linguagem e o mito são partes
constitutivas da cultura, então a cultura, segundo Edgar Morin (2008), não
comporta somente uma dimensão cognitiva; é por assim dizer, uma “máquina
cognitiva cuja práxis é cognitiva”. Nesse sentido, podemos dizer
metaforicamente que a cultura de uma sociedade determinada funciona como uma
espécie de “megacomputador complexo”. Que memoriza todos os seus dados
cognitivos e, portadora dessa memória coletiva, prescreve as normas práticas,
éticas, políticas dessa sociedade complexa. Mas uma cultura abre e fecha as
suas potencialidades bioantropológicas do conhecimento. Ela as abre e atualiza
fornecendo aos indivíduos o seu saber acumulado, a sua linguagem, os seus
paradigmas, a sua lógica, ipso facto seus esquemas de domínio, os seus métodos
de aprendizagem, investigação, de verificação, mas ao mesmo tempo em que ela as
fecha. Inibe com as suas normas técnicas, regras, proibições, tabus do corpo, o
seu etnocentrismo, a sua sacralização, a sua “ignorância de sua ignorância”, na
expressão de Morin sendo que o que abre o conhecimento é o per se que fecha o
conhecimento.
Mas alimentam-se de memória
biológica e de memória cultural, associadas em sua própria memória, que
obedece a várias entidades de referência social, diversamente presentes nela. A
percepção das formas e das cores e a identificação dos objetos e dos seres
obedecem à conjunção de esquemas inatos e de seus esquemas culturais de
reconhecimento. Tudo o que é linguagem, lógica, consciência, no sentido
hegeliano, tudo o que é espírito e pensamento, constitui-se na encruzilhada
dessa “máquina cerebral” que se movimenta entre dois princípios de tradução, um
contínuo análogo, o outro descontínuo, digital, binário. As culturas modernas
justapõem, alternam, opõem, complementam uma enorme diversidade de princípios,
regras, métodos de conhecimento expressos através dos meios distintos de vária
interpretação: racionalistas, empiristas, místicos, poéticos, proféticos,
religiosos. Assim, descobrimos a complexidade genérica do conhecimento humano.
Mas não é somente o reconhecimento egocêntrico de um sujeito sobre um objeto.
Mas o conhecimento de um sujeito portador de vários centros-sujeitos de
referência. A cultura está nos espíritos, vive neles os quais estão na cultura
não obstante o reconhecimento de temores e horrores, mas o seu aprendizado.
Em análise comparativa
ao romance, pode-se dizer que a novela apresenta uma maior economia linguística
de recursos narrativos; em relação ao conto, há um maior desenvolvimento de
enredo e de personagens. A novela é, então, uma forma intermediária entre o
conto e o romance, caracterizada, em geral, por uma narrativa de extensão
média, na qual toda a ação acompanha a trajetória de poucos personagens,
enquanto o romance apresenta diversas tramas e linhas narrativas. O romance,
gênero maior, possui diversos personagens, a narrativa é desenvolvida por meio
de enredos e os fatos são desencadeados gradualmente, sendo todos bem
detalhados. A novela, no entanto, possui menos personagens e os fatos são
desenvolvidos de forma rápida, sem tantos detalhes em relação ao romance. O
conto, por sua vez, é mais instantâneo, mais rápido que a novela; nele, os
fatos são desenvolvidos em poucas palavras, constituindo o gênero mais curto
entre os três. Em ambos os gêneros narrativas são construídas, mas de maneira
singular em cada um. Os três gêneros diferem em extensão, na quantidade de
personagens, na economia de informações, no narrar e em diversos fatores. A
novela literária corresponde a uma narração que gira em torno das ações dos
personagens. Para Soares (2007), na novela “faz-se predominar a ação sobre as
análises e as descrições e são selecionados os momentos de crise, aqueles que
impulsionam rapidamente a diegese para o final”. A telenovela, por sua vez, é
uma história de ficção, desenvolvida na televisão, na qual atores e atrizes
desenvolvem os papéis de personagens. É dividida em capítulos sendo exibidos em número médio de 100 capítulos. Algumas vezes, as telenovelas
são resultadas de adaptações de romances e novelas.
Entretanto, não se pode
confundir novela literária com telenovela, mesmo que a telenovela seja chamada,
costumeiramente, de novela. Pantanal tem como representação socia uma
telenovela brasileira exibida pela Rede Manchete de 27 de março a 11 de
dezembro de 1990 em 216 capítulos. Sucedeu Kananga do Japão (1989) e
antecedeu A História de Ana Raio e Zé Trovão (1990). Escrita por
Benedito Ruy Barbosa, tem direção de Carlos Magalhães, Roberto Naar e Marcelo
de Barreto e direção geral de Jayme Monjardim. Nascido na Gália, 17 de abril de
1931, o escritor é autor de telenovelas, dramaturgo, jornalista e publicitário
brasileiro. Chegou à dramaturgia com a peça Fogo Frio, encenada pelo
Teatro de Arena de São Paulo. A estreia como autor de telenovelas se deu como Somos
Todos Irmãos (1966), na TV Tupi, uma livre adaptação de A Vingança do
Judeu, romance mediúnico da russa Vera Krijanóvscaia (1861–1924) atribuído
ao espírito de John Wilmot, Segundo Conde de Rochester (1647–1680). Em seguida
foi ao ar outra novela de sua autoria, O Anjo e o Vagabundo, um grande
sucesso. O tema mais constante nas novelas é a abordagem da vida rural e
interiorana e cultura dos caboclos, bem como a imigração portuguesa no Brasil e
a imigração italiana no Brasil, abordada em Os Imigrantes (1981), Vida
Nova (1988), Terra Nostra (1999) e Esperança (2002), onde foi
substituído pelo extraordinário autor Walcyr Carrasco por problemas de saúde. Outro
grande sucesso foi exibido em 1990 na Rede Manchete, Pantanal, cuja
sinopse havia sido recusada pela TV Globo, feito este que ocorreu também com Os
Imigrantes, que acabou indo “ao ar” televisivo na Rede Bandeirantes.
Até então, Benedito só
havia escrito novelas para o horário das seis na emissora, à qual retornou três
anos depois para escrever outro grande sucesso: Renascer (1993), que
marcava a estreia do autor no horário nobre, abordando a crendice popular, realizada
também em Paraíso (1982), e a saga da história de uma família nos dias antigos
e atuais, com O Rei do Gado (1996). Em 1983 sua novela Algemas de
Ouro foi adaptada pela Televisão Nacional do Chile com o título de El
Juego de la Vida; dirigida por Herval Rossano e protagonizada pela atriz
brasileira Nívea Maria. Seis antigos sucessos ganharam uma segunda versão: Cabocla
(2004); baseada no romance homônimo de Ribeiro Couto; Sinhá Moça
(2006); ambientada no século XIX adaptada do livro homônimo de Maria Dezonne
Pacheco Fernandes; Paraíso (2009), as três adaptadas pelas filhas Edmara
e Edilene Barbosa; Meu Pedacinho de Chão (2014), adaptada pelo próprio
Benedito; e Pantanal (2022) e, Renascer (2024), as duas adaptadas
pelo neto Bruno Luperi. Os remakes Cabocla (2004) e Sinhá Moça
(2006) estão entre os maiores sucessos do horário das 18:00 em nossa década,
tendo atingido, ambas, uma média final superior a 36 pontos no Ibope. Cabe
lembrar que o “trilho” do horário era de 30 pontos e atualmente é de 25 pontos
e que muitas novelas do horário não conseguem atingir esse patamar. Em 2014, ao
término de Meu Pedacinho de Chão, Benedito entrega à direção da Rede
Globo, quatro projetos inéditos, na qual consta, uma minissérie sobre Castro
Alves.
Outra novela sobre o
cangaço, intitulada O Cerco, na qual o autor pretendia contar com a
parceria do diretor Luiz Fernando Carvalho, tentou emplacar a novela E Se
Ele Voltar?, onde um grupo de pessoas viviam a expectativa – ou a realidade
– da volta de Jesus Cristo à Terra, que retornaria à Terra e conviveria com as
pessoas como um homem comum, com todos os defeitos próprios de um cidadão
moderno, e a telenovela ambientada no Rio São Francisco intitulada Velho
Chico, com Eriberto Leão cotado para o papel de protagonista. Algum tempo
depois, sua telenovela Velho Chico é aprovada e a Globo decide exibi-la
no horário das 21h, em substituição à telenovela A Regra do Jogo, para
tentar recuperar audiência perdida por ela e sua antecessora, Babilônia.
Maria Adelaide Amaral já havia escrito uma sinopse intitulada Sagrada
Família, que depois ganhou o título de A Lei do Amor, e foi adiada
para após o término de Velho Chico. Em 2016, a revista Veja
elegeu Pantanal a quarta melhor novela da televisão brasileira, atrás de
Roque Santeiro (1985–86), na terceira posição, e de Vale Tudo
(1988–89) e Avenida Brasil (2012), em primeiro lugar. Conta com as
atuações de Cláudio Marzo, Marcos Winter, Cristiana Oliveira, Jussara Freire,
Marcos Palmeira, Luciene Adami, Ângela Leal, Ângelo Antônio, Giovanna Gold,
Antônio Petrin e Paulo Gorgulho nos papéis principais.
Devido
às dificuldades de mensurar o tamanho do Pantanal, é possível encontrar
referências de sua área em 210 000 km². Está situado no Sul do estado do Mato
Grosso, e no Noroeste de Mato Grosso do Sul, além de partes do Norte do
Paraguai e do Leste da Bolívia onde é chamado de chaco boliviano. O
Pantanal é a maior planície alagada contínua do mundo, com 140 000 km²
em território brasileiro. De acordo com o Instituto SOS Pantanal, do total de
195 000 km² considerados do Pantanal, 151 000 km² se encontram no Brasil e os
restantes 44 000 km² estão divididos entre Bolívia e Paraguai. O Pantanal
Boliviano possui 31 898 km². A região considerada pela United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization como Patrimônio Natural
Mundial e Reserva da Biosfera na região do Parque Nacional do Pantanal. Em que
pese o nome, há um reduzido número de áreas pantanosas na região pantaneira. O
Pantanal é uma das maiores extensões alagadas contínuas do planeta e está
localizado no centro da América do Sul, na bacia hidrográfica do Alto Paraguai.
Sua área é de 210 000 km², com 65% de seu território no estado de Mato Grosso
do Sul e 35% no Mato Grosso. A região se encontra entre as microrregiões do
Alto Pantanal (em Mato Grosso) e microrregião do Baixo Pantanal e Microrregião
de Aquidauana (em Mato Grosso do Sul).
Do ponto de vista da
fisiografia e geomorfologia, o Pantanal é definido como uma “grande e
relativamente complexa planície de coalescência detrítico-aluvial”. Silva &
Abdon (1998), usando como critério a inundação e o relevo, dividem a área em
onze sub-regiões: Cáceres, Poconé, Barão de Melgaço, Paraguai, Paiaguás,
Nhecolândia, Abobral, Aquidauana, Miranda, Nabileque, Porto Murtinho. A origem
do Pantanal não é, como se pensava, resultado da separação do oceano há milhões
de anos. Todos os geólogos concordam que não há ali indícios da presença do
mar, e um dos que melhor conhecem a região, Fernando Flavio Marques de Almeida,
diz que ele representa uma área que se abateu por falhamentos de blocos durante
o período Terciário. O rio Paraguai passa pela cidade de Cáceres, Mato Grosso,
onde é reconhecida como Princesinha do Rio Paraguai e seus afluentes
percorrem o Pantanal, formando extensas áreas inundadas que servem de abrigo
para muitos peixes, como o pintado, o dourado, o pacu, e também para outros
animais, como os jacarés, as capivaras e ariranhas, entre outras espécies.
Muitos animais ameaçados de extinção em outras partes do Brasil ainda possuem
populações vigorosas na região pantaneira, como o cervo-do-pantanal, a
capivara, o tuiuiú e o jacaré.
Devido à baixa
declividade desta planície no sentido Norte-Sul e Leste-Oeste, a água que cai
nas cabeceiras do rio Paraguai chega a gastar quatro meses ou mais para
atravessar todo o Pantanal. Os ecossistemas são caracterizados por cerrados e
cerradões sem alagamento periódico, campos inundáveis e ambientes aquáticos,
como lagoas de água doce ou salobra, rios, vazantes e corixos. Animais que
estão presentes no mar também existem no pantanal, formando o que se pode
chamar de mar interior. A área alagada do pantanal se deve a lentidão de
drenagem das águas que fluem lentamente, pela região do médio Paraguai, num
local chamado de Fecho dos Morros do Sul. O clima do Pantanal é quente e úmido,
no verão, e embora seja relativamente mais frio no inverno, continua
apresentando grande umidade do ar devido à evapotranspiração associada à água
acumulada no solo no horizonte das raízes durante o período de cheia. A maior
parte dos solos do Pantanal é arenosa e suporta pastagens nativas utilizadas
pelos herbívoros nativos e pelo gado bovino, introduzido pelos colonizadores da
região. Uma parcela pequena da pastagem original foi substituída por
forrageiras exóticas, como a Braquiária (4,5% em 2006). A vegetação do Pantanal
conta com um mosaico de matas, cerradões e savanas, isto por que, tem
influência direta de outros três importantes biomas brasileiros:
Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, com espécies como cambará-lixeira,
canjiqueira e carandá, que são plantas que se estabelecem em campos inundáveis
de diversos tipos.
O balanço de energia
superficial, i.e., a troca de energia entre a superfície e a atmosfera, é muito
influenciada pela presença corrente de lâminas de água, que cobrem parcialmente
o terreno a cada verão, e as características particulares dos balanços hídrico
e de energia acabam por influir no desenvolvimento da Camada Limite Atmosférica
regional. A Planície do Pantanal possui aproximadamente, no Brasil, 150 000
km², medida estimada pelos estudiosos que explicam que dificilmente pode ser
estabelecido um cálculo exato de suas dimensões, pois a cada fechamento de
ciclo de estações de seca e de águas o Pantanal se modifica. Sua área total é
de 210 000 km², esta área inclui partes do Brasil, Bolívia e Paraguai, com a
maior parte situada no Brasil. Na Bolívia é conhecido também como Pantanal
Boliviano ou ainda Gran Pantanal. O Pantanal vive sob o desígnio das águas:
ali, a chuva divide a vida em dois períodos bem distintos. Durante os meses da
seca de maio a setembro, aproximadamente, a natureza sofre mudanças radicais:
no baixar das águas, são descobertos campos, bancos de areia, ilhas e os rios
retomam seus leitos naturais, mas nem sempre seguindo o curso do período
anterior.
As águas escorrem pelas depressões do terreno, formando os corixos, i.e., canais que ligam as águas de baías, lagoas, alagados etc. com os rios próximos. Nos campos extensos cobertos predominantemente por gramíneas e vegetação de cerrado, a água de superfície chega a escassear, restringindo-se aos rios perenes, com leito definido, a grandes lagoas próximas a esses rios, chamadas de baías, e a algumas lagoas menores e banhados em áreas mais baixas da planície. Em muitos locais, torna-se necessário recorrer a águas subterrâneas, do lençol freático ou aquíferos, utilizando as bombas manuais e ou tocadas por moinhos de vento para garantir o fornecimento às moradias e bebedouros de animais domésticos. As primeiras chuvas da estação caem sobre um solo seco e poroso e são facilmente absorvidas. De outubro a abril as chuvas caem torrenciais nas cabeceiras dos rios da Bacia do Paraguai, ao Norte. Com o constante umedecimento da terra, a planície rapidamente se torna verde devido à rebrotação de inúmeras espécies resistentes à falta d`água dos meses precedentes.
Esse grande aumento periódico da rede hídrica no Pantanal, a baixa declividade da planície e a dificuldade de escoamento das águas pelo alagamento do solo, são responsáveis por inundações nas áreas mais baixas, formando baías de centenas de km², o que confere à região um aspecto de imenso mar interior. O aguaceiro eleva o nível das baías permanentes, cria outras, transborda os rios e alaga os campos no entorno, e morros isolados sobressaem como verdadeiras ilhas cobertas de vegetação, em que os agrupamentos dessas ilhas são chamados de cordilheiras pelos pantaneiros, nas ilhas e cordilheiras os animais se refugiam à procura de abrigo contra a subida das águas. Com a subida das águas, grande quantidade de matéria orgânica é carregada pela correnteza e transportada a distâncias consideráveis. Representados, principalmente, por massas de vegetação flutuante e marginal e por animais mortos na enchente, esses restos, durante a vazante, são depositados nas margens e praias dos rios, lagoas e banhados e, após rápida decomposição, passam a constituir o elemento fertilizador do solo, capaz de garantir a enorme diversidade de tipos vegetais lá existentes. Por entre a vegetação variada encontram-se inúmeras espécies de animais, adaptados a essa região de aspectos tão contraditórios. Essa imensa variedade de vida, traduzida em constante movimento de formas, cores e sons é um dos mais belos espetáculos da Terra.
Por causa dessa alternância entre períodos secos e úmidos, a paisagem pantaneira nunca é a mesma, mudando todos os anos: leitos dos rios mudam seus traçados; as grandes baías alteram seus desenhos. A fauna pantaneira extraordinariamente rica. Foram catalogadas cientificamente 656 espécies de aves que no Brasil inteiro estão catalogadas cerca de 1800. A mais espetacular é a arara-azul-grande, uma espécie ameaçada de extinção. Há ainda tuiuiús, a ave símbolo do Pantanal, tucanos, periquitos, garças-brancas, beija-flores, os menores chegam a pesar dois gramas, socós, espécie de garça de coloração castanha, jaçanãs, emas, seriemas, papagaios, colhereiros, gaviões, carcarás e curicacas. No Pantanal foram catalogadas mais de 1 032 espécies de borboletas. Contam-se mais de 124 espécies de mamíferos, os principais a onça-pintada que atinge a 1,2 m de comprimento, 0,85 cm de altura e pesa até 150 kg, capivara, veado-campeiro, veado-catingueiro, lobo-guará, macaco-prego, cervo-do-pantanal, bugio-do-pantanal, macaco que produz um ruído ao amanhecer, caititu, queixada, tamanduá-bandeira, cachorro-do-mato, anta, bicho-preguiça, ariranha, onça-parda, quati, tatu etc. A região também é extremamente piscosa, já tendo sido catalogadas 263 espécies de peixes. Algumas espécies encontradas são: piranha, carnívoro e voraz, pacu, pintado, dourado, cachara, curimbatá, piraputanga, jaú e piau.
Foram identificadas 93 espécies de répteis. Dentre eles estão o jacaré (jacaré-do-pantanal e jacaré-coroa), cobra boca-de-sapo (Jararaca), sucuri, Jiboia-constritora, Cobra-d'água e outras, lagartos (iguana, calango-verde) e quelônios (jabuti e cágado). A vegetação pantaneira é um mosaico de cinco regiões distintas: Floresta Amazônica, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Chaco (paraguaio, argentino e boliviano). Durante a seca, os campos se tornam amarelados e constantemente a temperatura desce a níveis abaixo de 0 °C, e registra geadas, influenciada pelos ventos que chegam do sul do continente. A vegetação do Pantanal não é homogênea e há um padrão diferente de flora de acordo com o solo e a altitude. Nas partes mais baixas, predominam as gramíneas, que são áreas de pastagens naturais para o gado — a pecuária é a principal atividade econômica do Pantanal. A vegetação de cerrado, com árvores de porte médio entremeadas de arbustos e plantas rasteiras, aparece nas alturas médias. Poucos metros acima das áreas inundáveis, ficam os capões de mato, com árvores maiores. Em altitudes maiores, o clima árido e seco torna-a parecida com a da caatinga, com espécies típicas como o mandacaru, plantas aquáticas, piúvas (da família dos ipês com flores róseas e amarelas), palmeiras, orquídeas, figueiras e aroeiras.
O pantanal possui uma vegetação rica e variada, que inclui a fauna típica de outros biomas brasileiros, como o cerrado, a caatinga e a região amazônica. A camada de lodo nutritivo que fica no solo após as inundações permite o desenvolvimento de uma rica flora. Em áreas em que as inundações dominam, mas que com a mudança climática ficam secas durante o inverno, ocorrem tipos de vegetações como a palmeira carandá e o paratudal. Durante a seca, os campos são cobertos predominantemente por gramíneas e vegetação de cerrado. Essa vegetação também está presente nos pontos mais elevados, onde não ocorre inundação. Nos pontos ainda mais altos, como os picos dos morros, há vegetação semelhante à da caatinga, com barrigudas, gravatás e mandacarus. Ainda há a ocorrência de vitória-régia, planta típica da Amazônia. Entre as poucas espécies endêmicas está a carandá, semelhante à carnaúba. A vegetação aquática é fundamental para a vida pantaneira: imensas áreas são cobertas por batume, plantas flutuantes como o aguapé e a salvínia. Essas plantas são carregadas pelas águas dos rios e juntas formam “ilhas verdes”, que na região recebem o nome de camalotes. Há ainda no Pantanal áreas com mata densa e sombria. Em torno das margens mais elevadas dos rios ocorre a palmeira acuri, que forma uma floresta de galerias com outras árvores, como o pau-de-novato, a embaúba, o jenipapo e as figueiras.
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Pós-graduação em Geografia. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2026;
entre outros.
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