domingo, 1 de março de 2026

Veronica Franco – Cortesã Honesta, Sofisticação Corporal & Proeza Cultural.

 

                                     Mais páginas, mais conteúdo, mais experiências, mais vida”. Veronica Franco                         

            

         Dangerous Beauty (“Em Luta pelo Amor”) tem como representação social um filme norte-americano de 1998, do gênero drama romântico-biográfico, dirigido por Marshall Herskovitz, com roteiro de Jeannine Dominy baseado no livro acadêmico The Honest Courtesan, de Margaret F. Rosenthal, publicado em 1992. O filme é estrelado por Catherine McCormack, Rufus Sewell e Oliver Platt. Nascido em 23 de fevereiro de 1952, é diretor, roteirista e produtor de cinema e Presidente Emérito dos Producers Guild of America. Entre suas produções estão: Jack the Bear (1993), Dangerous Beauty (1998), Traffic (2000), I Am Sam - A Força do Amor (2001), O Último Samurai (2003), Diamante de Sangue (2006). Herskovitz foi criador e produtor executivo das séries de televisão My So-Called Life e Once and Again, de drama adolescente criado por Winnie Holzman e produzida por Edward Zwick e Marshall Herskovitz. Foi exibida na American Broadcasting Company de 25 de agosto de 1994 a 26 de janeiro de 1995, além de ter escrito e dirigido episódios das três séries. Herskovitz nasceu na Filadélfia, Pensilvânia, filho de Frieda (nascida Schreiber) e Alexander Herskovitz. Foi casado com a roteirista Susan Shilliday de 1981 a 1993. Eles têm duas filhas. Herskovitz casou-se também com Landry Major em 2015. É há muito tempo “um dos ambientalistas mais ativos e apaixonados da indústria cinematográfica”. Atua politicamente no The Climate Mobilization, um grupo especificamente de defesa popular que pede uma mobilização econômica nacional contra as mudanças climáticas, na escala da frente interna durante a 2ª Guerra Mundial (19139-1945), com o objetivo de 100% de energia limpa e emissões líquidas zero de gases de efeito estufa.

            O filme estreou com lançamento limitado em 20 de fevereiro de 1998 e recebeu críticas mistas, mas em sua maioria positivas, recebendo uma classificação de 69 por cento no site de críticos de cinema Rotten Tomatoes. É um site norte-americano de agregação de críticas de filmes e televisão. A empresa foi lançada em agosto de 1998 por três estudantes de graduação da Universidade da Califórnia, Berkeley: Senh Duong, Patrick Y. Lee e Stephen Wang. Embora o nome “Rotten Tomatoes” faça referência à prática do público “atirar tomates podres em sinal de desaprovação a uma má apresentação teatral”, a inspiração direta para o nome, dada por Duong, Lee e Wang, veio de uma cena equivalente no filme quebequense dirigido por Jean-Claude Lauzon em 1992. O filme é parcialmente baseado em L`Avalée des Avalés, de Réjean Ducharme e também inspirado na infância de Lauzon. Em 2005, a revista Time nomeou Leolo um dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Léo Lauzon é um menino de Montreal que vive em uma família disfuncional em um bairro pobre. Ele escapa da realidade através de devaneios. Cercado por pessoas com doenças, devaneios e escrita, imagina que sua mãe não foi engravidada pelo pai, mas sim, indiretamente por um siciliano usando um tomate italiano contaminado. Ele decide então se chamar Léolo Lozone. Na iminência da puberdade, ele fantasia com sua vizinha Bianca. Sobre as primícias do trabalho e talento que estrela o filme temos os seguintes dados. 

Roger Ebert do Chicago Sun-Times dá 3 estrelas e meia e elogia os escritores, observando que “poucos filmes foram contados tão deliberadamente do ponto de vista de uma mulher...A maioria dos filmes é feita por homens e mostra mulheres fascinadas por homens. Este filme sabe melhor”. Jack Mathews do Los Angeles Times descreveu-o como “abençoado e amaldiçoado com inspiração”. Em seu lançamento inicial, Dangerous Beauty foi exibido em apenas 10 cinemas, embora tenha ido bem, ganhando $105.989 com uma média por cinema de $10.599 em dez salas. Dangerous Beauty estreou em 313 cinemas, mas arrecadou US$4.5 milhões nos Estados Unidos. Uma versão musical teatral do filme estreou em 25 de julho de 2008 no Ethel M. Barber Theatre da Northwestern University. O musical apresenta livro e verso de Jeannine Dominy, a roteirista do filme, letras de Amanda McBroom e música de Michele Brourman sob a direção de Sheryl Kaller. Outra versão musical de Dangerous Beauty estreou no Pasadena Playhouse em fevereiro de 2011, estrelando Jenny Powers como Veronica Franco e James Snyder como Marco Venier. A história social é sobre a vida cotidiana de Veronica Franco, uma cortesã de Veneza do século XVI que se torna uma heroína de sua cidade, mas posteriormente é alvo de uma Inquisição da Igreja católica apostólica romana por bruxaria.

                                


A palavra bruxaria ou feitiçaria, têm sido de uso corrente da língua portuguesa, designando o uso de poderes dito sobrenatural, sendo também utilizada como sinônimo de magia, feitiçaria, sortilégio ou encantação. Conforme proposto pelo historiador norte-americano Jeffrey B. Russell (1934-2023), existem três pontos de vista principais sobre o que é bruxaria: o primeiro ponto de vista é o antropológico e demonstra que bruxaria é sinônimo de magia, curandeirismo, xamanismo; o segundo é o histórico, que através de documentos escritos analisa os julgamentos de bruxaria durante a inquisição; o terceiro é o da bruxaria moderna ou hodierna, que defende a bruxaria como uma forma de religião pagã (ou neopagã), esse último sendo um ponto de vista normalmente defendido por wiccanos. Na terminologia antropológica, as bruxas diferem dos feiticeiros porque não usam ferramentas físicas ou ações para amaldiçoar; seu malefício é percebido como algo que se estende de alguma qualidade interna intangível, e um pode não ter consciência de ser uma bruxa, ou pode ter sido convencido de sua natureza pela sugestão de outros. Esta definição foi pioneira em um estudo das crenças mágicas da África Central por EE Evans-Pritchard, que alertou que pode não corresponder ao uso normal do inglês.

Estudos historiográficos recentes têm desafiado a visão iluminista que opõe ciência e superstição. Entre os séculos XV e XVII, a bruxaria não era vista apenas como uma crença popular marginal, mas como parte integrante da cultura intelectual europeia. Nesse período, bruxaria e demonologia eram discutidas em universidades, tratados e círculos eruditos, sendo usadas como explicações plausíveis para doenças súbitas, desastres naturais e comportamentos considerados anômalos. Mais do que superstição, a bruxaria era entendida como parte de um sistema de pensamento complexo, que envolvia agentes sobrenaturais, como demônios e espíritos malignos. Essas ideias estavam conectadas à filosofia natural e às tradições religiosas do período, refletindo uma forma predominante de interpretar o mundo. Assim, o estudo da bruxaria também fazia parte do esforço intelectual para compreender a natureza e os fenômenos da realidade. A ascensão da ciência moderna não representou uma ruptura total com esse contexto sociológico, mas uma reorganização de saberes herdados da Antiguidade e da Idade Média. Durante a transição para a modernidade, práticas mágicas, conhecimento empírico e crenças religiosas coexistiram. A bruxaria, nesse cenário, estimulava reflexões sobre causalidade, natureza e os limites da experiência e da percepção humana.

A historiografia da ciência tem ressaltado a influência da bruxaria na formação do pensamento moderno. Discussões sobre bruxas e demônios frequentemente envolviam debates teológicos e filosóficos sobre causas ocultas, ação à distância e funcionamento da natureza. Essas reflexões contribuíram para a consolidação de conceitos como “experiência”, “observação” e “explicação”. As fronteiras entre magia e ciência eram, nesse período, permeáveis e negociáveis. Além de seu papel de interpretação na história da ciência, a bruxaria também esteve ligada a transformações sociais e políticas mais amplas na Europa. A interação entre discursos racionais e sobrenaturais contribuiu para processos como a secularização, o fortalecimento do Estado e, segundo algumas interpretações, a chamada “Grande Divergência”, processo pelo qual a Europa Ocidental se diferenciou econômica e intelectualmente de outras regiões. Nesse sentido, a bruxaria não foi um vestígio medieval, mas um componente ativo da modernidade europeia. A confusão analítica entre bruxaria e magia levou muitos praticantes e leigos a criarem equivocadamente a dicotomia “bruxos brancos” e “bruxos negros”, supondo que os que praticassem apenas o “bem” seriam “bruxos brancos”, e os que praticassem apenas o “mal” seriam bruxos negros. Praticantes de bruxaria, em seu sentido mais lato, não se pautam pelos conceitos vulgares de bem e mal, considerando toda e qualquer magia como cinzenta (um misto da dualidade expressa metaforicamente de várias formas, e.g. luz e escuridão, positivo e negativo. 

        

A grande divisão que se pode fazer entre grandes grupos na bruxaria é entre a tradicional e a moderna. Bruxaria moderna é considerada pela maioria das tradições de feitiçarias como um sinônimo para as surgidas embasadas ou a partir da fundada por Gerald B. Gardner (1864-1964), foi um funcionário público britânico, antropólogo amador, escritor, ocultista que publicou alguns dos textos de referência sobre a Wicca, uma religião da Bruxaria, da qual foi grande divulgador, por vezes considerada sinônimo de Wicca, muito embora Raven Grimassi (1951-2019), referência mais conhecida da stregheria (bruxaria italiana), considere Charles Leland (1824-1903) o pai da bruxaria moderna. É importante ressaltar que determinadas ramificações modernas (como a Wicca) não reconhecem o diabo ou outros elementos judaico-cristãos em suas práticas. Segundo a leitura do fundador da Wicca, Gardner, em consonância com fontes de outras vertentes, muitas ramificações hodiernas da bruxaria praticam o culto à Deusa e/ou ao Deus em sistemas que variam de uma deidade única hermafrodita ou feminina à pluralidade de panteões antigos, mais notadamente os panteões celta, egípcio, assírio, greco-romano e normando (viquingue). 

Grande parte dos grupos de praticantes hodiernos considera, inclusive, que diversas deusas antigas são diferentes faces de uma única Deusa. A reintegração do ser humano à natureza é parte fundamental das crenças vinculadas à Wicca, o que se evidencia na celebração do fluir das estações do ano em até oito festividades chamadas sabás, sendo dois nos equinócios, dois nos solstícios e quatro em datas fixas.  O fluxo de um curso completo de tais eventos chama-se comumente de Roda do Ano. Paralelamente aos sabás, muitas vertentes modernas contam com os esbás, que celebram as lunações. Aqui, todavia, há grandes diferenças entre vertentes, com alguns grupos comemorando todas as quatro fases, outros comemorando apenas o plenilúnio. Ainda que supostamente iniciado por bruxas tradicionais, Gardner juntou aos conhecimentos que elas o teriam passado, simbólicas e práticas ritualísticas de Alta Magia, bem como o princípio ético formulado pelo controverso ocultista Aleister Crowley: “faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei”, ligeiramente modificado como “se a ninguém prejudicares, faze o que desejares”, firmando assim as bases de uma nova crença. Tradição de bruxaria natural da região onde hoje é a Itália, tendo suas raízes nos cultos neolíticos a uma deusa-mãe naturais da região do Mediterrâneo e do Egeu e construída sobre mitos de diversos povos, dentre eles os micênicos e etruscos. A veneração da stregheria é centrada na Deusa Diana Nemorensis e, segundo sua tradição, a linhagem formal das streghe teve início com uma sacerdotisa da Deusa Diana Arádia. Contemporâneo de Gerald Gardner, Alex Sanders fundou a Tradição Alexandrina, bastante similar à Wicca, porém pertencente a outra linha iniciática e mais liberal quanto à exigência de nudez ritual.

Ipsis litteris as cortesãs eram mulheres cultas, as únicas com acesso às bibliotecas. Veronica Franco (Catherine McCormack, a namorada de Mel Gibson na saga “Coração Valente” (1995) torna-se poeta e aprimora o domínio das letras tanto quanto o de agradar sexualmente aos homens (e a si própria). Preferida dos aristocratas, ela exerce papel fundamental na supremacia de Veneza sobre os invasores turcos ao oferecer seus encantos para o rei francês em troca de barcos de guerra. Mas seu amor impossível pelo senador Marco Venier (Rufus Sewell, de “Cidade das Sombras”, 1998) a faz perder a liberdade e a transforma em ré em um julgamento da Inquisição. O filme conta com um elenco de apoio que inclui Fred Ward, Naomi Watts, Moira Kelly e Jacqueline Bisset. O filme foi lançado como A Destiny of Her Own em algumas regiões, e foi renomeado mais precisamente como The Honest Courtesan para seu lançamento em vídeo no Reino Unido. Na Veneza do século XVI, Veronica Franco não pode se casar com o fidalgo Marco Venier devido à sua condição social, então se torna “uma cortesã disputada por homens da nobreza, que acabam encantados por sua perspicácia e beleza”. Marco Venier foi um Marquês de Cerigo. Ele era veneziano e conquistou o marquesado como resultado da Quarta Cruzada (1202-1204), com a intenção de tomar pelo uso da força a Terra Santa, historicamente em mãos muçulmanas, através da conquista do Egito. Entretanto, a cruzada foi desviada de seu intuito original e os cruzados, junto aos venezianos, tomaram e saquearam Constantinopla, cidade cristã capital do Império Bizantino.

Um marquês, mutatis mutandis, é um nobre de alta posição hereditária em várias nobrezas europeias e de algumas antigas colônias. O equivalente em alemão é Markgraf (margrave) e o equivalente em italiano é Marchese. Uma mulher com o título de marquês ou a esposa (ou viúva) de um marquês é uma marquesa. Esses títulos também são usados ​​para traduzir estilos asiáticos equivalentes, como em China Imperial e Japão Imperial. A palavra marquess entrou para a língua inglesa a partir do francês marchis (“governante de uma área fronteiriça”) no final do século XIII ou início do século XIV. A palavra francesa deriva de marche (“fronteira”), que por sua vez descende do latim medieval marca (“fronteira”), de onde também deriva a palavra inglesa moderna march (“marcha”). A distinção entre governadores de territórios fronteiriços e territórios interiores ocorreu na fundação do Império Romano (27 a. C.), quando algumas províncias foram reservadas para administração pelo Senado e as mais vulneráveis ​​ou em conflito eram administradas pelo imperador. Os títulos “duque” e “conde” eram distinguidos de forma semelhante como patentes no Império Bizantino, com dux (literalmente, líder) sendo usados para um governador militar provincial e a patente de comes (literalmente “companheiro”, ou seja, do Imperador) dada ao líder de um exército ativo ao longo da fronteira.

O título de marquês na Bélgica é anterior à Revolução Francesa e ainda existe. Veja Nobreza belga § Marqueses em Nobreza belga e Lista de famílias nobres na Bélgica § Marqueses. Na Espanha, o título de Marquês/Marquesa existe. Cento e quarenta e dois deles são “grandes senhores” espanhóis. Normalmente, um marquês é tratado como “O Ilustríssimo Senhor” (Ilustrísimo Señor), ou, um grande senhor, como “O Excelentíssimo Senhor” (Excelentísimo Señor). Um exemplo é o Marquês de Carpio, Grande de Espanha. Na Grã-Bretanha e hierarquicamente na Irlanda, um marquês está abaixo de um duque e acima de um conde. Uma mulher com o título de marquês, ou a esposa de um marquês é uma marquesa. A dignidade, posição ou título é um marquesado. O prefixo honorífico “O Mais Honrado” precede o nome de um marquês ou marquesa do Reino Unido. Na Grã-Bretanha, e historicamente na Irlanda, a grafia deste título é marquess. Na Escócia, a grafia francesa marquis é por vezes utilizada. A distinção teórica entre um marquês e outros títulos caiu em desuso desde a Idade Média. A diferença entre um conde e um marquês residia no fato de que as terras de um marquês, chamadas de marca, ficavam na fronteira do país, enquanto as terras de um conde, chamadas de condado, muitas vezes não. Consequentemente, um marquês era considerado responsável pela defesa e fortificação contra vizinhos potencialmente hostis, sendo, portanto, mais importante e de posição hierárquica superior à posição de um conde. O título de marquês está abaixo do de duque, que, por sua vez, era restrito à família real.

Veronica Franco (1546–1591) foi uma poetisa e cortesã italiana do século XVI em Veneza. Conforme os usos do século XVI, era termo utilizado para referir-se às amantes que se associavam aos ricos e poderosos nobres que as proviam de luxo e bem-estar, assim como status junto à corte, em troca de sua companhia e seus favores. A própria palavra cortesã está indissoluvelmente associada à palavra corte, como sinônimo dos nobres que podiam ter contato direto com a realeza. Durante o período da Renascença Europeia, as cortesãs desempenharam papel político importante nas classes mais altas, muitas vezes substituindo a esposa legítima em eventos sociais. Era relativamente comum, naquela época, que maridos e esposas nobres vivessem separadamente, mantendo o casamento apenas por questões de linhagem sanguínea e preservação de alianças políticas, e que os maridos procurassem a companhia agradável e satisfação sexual nas cortesãs. É reconhecida por sua clientela notável, seu ativismo feminista, suas contribuições literárias e sua filantropia. Sua educação humanista e suas contribuições culturais influenciaram o papel das cortesãs no final do Renascimento veneziano. Em suas obras notáveis, Capitoli in Terze rime e Lettere Familiari a Diversi, Franco utiliza virtude, razão e justiça para aconselhar patrícios e outros associados. Graças à sua reputação e influência, ela exerceu maior autonomia em sua autoria do que qualquer outra mulher veneziana tradicional.

            A região do Vêneto é habitada desde a pré-história. A história dessa região faz parte da história da vasta região do Nordeste da Itália, situada entre os confins do mar Adriático e a cadeia dos Alpes Orientais, que compreende Trentino-Alto Ádige, Vêneto e Friul-Veneza Júlia. Depois da queda do Império Romano, a região foi invadida por diversos povos bárbaros (godos, hérulos, hunos e lombardos). Esta última invasão é descrita por Paulo, o Diácono na sua História de Meduza. Entre o século VI e o século VIII, ocorreu uma divisão sempre mais nítida entre o Vêneto interno, sob o domínio lombardo e a Veneza marítima dependente do Império Bizantino e do exarcado de Ravena. Grande parte da população e as autoridades religiosas se transferiram das cidades do interior aos centros lagunares (Grado, Torcello, Caorle, Malamocco e Civitas Nova ou Eraclea). Com a conquista lombarda de Ravena, em 751, o território lagunar adquire uma crescente independência do Império Bizantino, do qual permanece formalmente dependente. Com a transferência da sede do dux (duque) bizantino, que se tornou o doge, de Civitas Nova, sobre a terra firme, a Malamocco, nas ilhas lagunares, e depois, no início do século VIII, a Rivoalto (atualmente Rialto), originou-se a cidade de Veneza.

Em torno do ano 1000, Veneza expulsou os piratas que ocupavam a costa da Ístria e manteve a região sob seu domínio. A força de Veneza nasceu do desenvolvimento de relações comerciais com o Império Bizantino. Embora com crescente independência, Veneza permaneceu aliada do Império Bizantino contra os árabes e normandos. Graças à imensa fortuna arrecadada através do comércio marítimo e terrestre com todo o mundo então conhecido, Veneza tornou-se a mais potente das quatro Repúblicas Marítimas da península itálica, que tinham o domínio comercial das rotas do mar Mediterrâneo. Expandindo seu domínio aos territórios circundantes, em torno de 1400 a Sereníssima República de Veneza era um Estado, cujos confins se estendiam além daqueles da antiga região romana, compreendendo parte da Lombardia, da Ístria, da Dalmácia, e vários territórios no ultramar (Stato da Màr). No início do século XIII, Veneza alcançou o máximo de seu desenvolvimento, dominando o comércio no Mediterrâneo e dos países europeus com o Oriente. Durante a Quarta Cruzada (1202-1204), Veneza adquiriu a posse das ilhas e das localidades marítimas comercialmente mais importantes do Império Bizantino. A conquista dos importantes portos de Corfu (1207) e de Creta (1209), lhe garantiu um comércio que se estendia ao Oriente, e alcançava a Síria e o Egito, pontos terminais do fluxo mercantil. 

Ao fim do século XIV, Veneza era a principal potência mercantil do Mediterrâneo e um dos Estados mais ricos da Europa. Com a chamada queda do poder de Constantinopla para os turcos, em 1453, e o início das navegações portuguesas e espanholas, o comércio da Europa com o Oriente através do mar Mediterrâneo entrou em decadência. Ao fim do século XVIII, a Sereníssima República, em declínio, foi invadida por Napoleão Bonaparte. A invasão pelas tropas napoleônicas em 1797 e sua cessão à Áustria, em troca da Bélgica, pôs fim à história de muitos séculos da Sereníssima República de Veneza. Os territórios antes dominados pela república foram divididos em partes que se tornaram províncias do Império Austríaco. Nos primeiros anos da república, o sistema político pode ser classificado como uma autocracia, com o Doge como o governante absoluto. Em 1223, as famílias aristocráticas de Rialto drasticamente diminuíram os poderes do Doge, estabelecendo um conselho consultivo que seria depois chamado Quarantia (quarenta) e um supremo tribunal que seria depois chamado Signoria. Eles também criaram dois corpos chamados sapientes que seriam depois seis corpos. A combinação dos sapientes e outros grupos seria chamado de collegio, uma espécie de ministério encarregado das questões de governo. Um senado, chamado de Consiglio dei Pregadi foi organizado em 1229 com sessenta membros eleitos pelo Maggior Consiglio (Conselho Maior).

Durante este período o Doge tinha pouco poder real, e a autoridade era na verdade exercida pelo Grande Conselho de Veneza, um corpo parlamentar extremamente limitado onde podiam participar apenas membros das grandes famílias aristocráticas da república. Veneza proclamava que seu governo era uma clássica república, porque era uma fusão das três formas presentes num governo misto: com o poder supremo no Doge, o aristocrático no senado, e o democrático no Grande Conselho. Em 1335, um “Conselho dos Dez” foi estabelecido e tornou-se tão poderoso e secreto que por volta de 1600 seus poderes tiveram que ser delimitados. Seus poderes variaram, ao longo do tempo, da subordinação ao Grande Conselho à dominação sobre ele. Uma lei de 1539 instituiu os “Inquisitores do Estado”, mais tarde reconhecidos como o Supremo Tribunal. Havia três inquisidores, um conhecido popularmente como Il Rosso, (“o vermelho”), que era escolhida entre os Conselheiros do Doge, que usava roupas escarlate, e dois do Conselho dos Dez, que usavam roupas negras, conhecidos como I Negri (“os negros”). Eles se tornaram um corpo de segurança, nos tempos difíceis quando Veneza começou a sentir-se cercada pelos Habsburgos, e gradualmente assumiu os poderes do Conselho dos Dez.

No mundo ético, do ponto de vista filosófico, como para a percepção sensível a supérflua multiplicidade das propriedades se condensa na oposição essencial entre singularidade e universalidade, com maior razão para a percepção ética, que é a consciência substancial e purificada, a multiplicidade dos momentos éticos se torna a dualidade de uma lei da singularidade e de uma lei da universalidade. Se, na percepção sensível, as coisas não têm outra substância a não ser duas determinações de singularidade e universalidade que exprimem apenas a oposição superficial recíproca dos dois lados. A singularidade tem a significação da consciência “de-si” em geral, e não de uma consciência singular contingente. A substância ética é nessa determinação a substância efetiva, o espírito absoluto realizado na multiplicidade da consciência aí-essente. O espírito é a comunidade, que representa para nós, ao entrarmos na figuração prática da razão em geral, era essência absoluta; e que aqui emergiu em sua verdade para si mesmo, como essência ética consciente, e como essência para a consciência, que nós temos por objeto como escopo processual a distinção de plano de análise e realidade.

É o espírito que é para si enquanto se mantém no reflexo imanente dos indivíduos, e que é em si – ou substância – enquanto os contém em si mesmo. Como substância efetiva, o espírito é um povo; como consciência efetiva, é cidadão do povo, aí tem imediatamente sua verdade. Esse espírito pode chamar-se a lei humana, por ser essencialmente na forma da efetividade consciente dela mesma. Na forma da universalidade, é a lei conhecida e o costume corrente. Na forma da singularidade, é a certeza efetiva de si mesmo do indivíduo em geral. Com efeito, o poder ético do Estado tem, como movimento do agir consciente de si, sua oposição na essência simples e imediata da eticidade. Como universalidade efetiva, o poder do Estado é uma força contra o ser-para-si individual; e como efetividade em geral, encontra ainda outro que ele mesmo na essência interior. Porque a eticidade é o espírito em sua verdade imediata, os lados, em que a consciência do espírito se dissocia, incidem também nessa forma da imediatez; e a singularidade passa aquela negatividade abstrata que, sem consolo nem reconciliação em si mesma, deve recebê-los mediante uma ação exterior e efetiva.

A consanguinidade completa o movimento natural abstrato, por acrescentar o movimento da consciência, interromper a obra da natureza e arrancar da destruição o consanguíneo. Ou melhor, já que é necessária a destruição – seu vir-a-ser o puro ser – a consanguinidade toma sobre si o ato da destruição. Ipso facto, a comunidade – a lei do alto que vigora manifestamente à luz do dia – tem sua vitalidade efetiva no Governo, como o lugar onde ela é um indivíduo. O governo é o espírito efetivo, refletido sobre si, o si simples da substância ética total. Sem dúvida, essa força simples permite à essência expandir-se na organização de seus membros e atribuir, a cada parte, subsistência e ser-para-si próprio. O espírito tem aí a sua realidade ou seu “ser-aí”, e a família é o elemento dessa realidade. Ao mesmo tempo, o espírito é a força do todo que congrega de novo essas partes no Uno negativo, dá-lhes o sentimento de sua dependência e as conservam na consciência de ter sua vida somente no todo. Pode assim a comunidade organizar-se, de um lado, nos sistemas de independência pessoal e da propriedade, do direito pessoal e do direito real. Igualmente, as modalidades suscetíveis do trabalho podem articular-se e tornarem-se associações independentes, para os fins, inicialmente singulares, da obtenção e do gozo e per se usufruto de seus próprios bens. O espírito da universal-associação é a simplicidade e a essência negativa desses sistemas que se isolam.                   

Por meio de espionagem, contraespionagem e vigilância interna, eles faziam uso de uma rede de informantes e confidentes. Em 1556 conselhos chamados provveditori ai beni inculti foram também criados para melhorar a agricultura pelo acréscimo da área sob cultivo e encorajando investimento privado na agricultura. O consistente aumento de preços no preço dos grãos durante o século XVI encorajou a transferência de capital do comércio para a exploração da terra. No capítulo “Mulheres, Gênero e Cultura Letrada”, as historiadoras Anadir dos Reis Miranda, Beatriz Polidori Zechlinski e Cristiane Tedesco dedicam-se ao estudo das mulheres em suas relações com a sociedade e a cultura na Europa durante a Idade Moderna. Nesse sentido, elas buscam compreender como as mulheres inseriram-se em um cenário de valorização do letramento e dos saberes, de consolidação dos espaços de sociabilidade e de reconhecimento de artistas, escritores e escritoras. As historiadoras lembram que, a partir dos séculos XV e XVI, a difusão dos impressos e a ampliação dos índices de alfabetização significaram verdadeiras transformações sociais, que, por sua vez, não ficaram restritas ao universo masculino. No caso da República de Veneza, as estudiosas observam que em razão de uma certa tensão nas relações diplomáticas com Roma, o que vai levar, inclusive, ao alinhamento da política veneziana com grupos anticatólicos durante a chamada Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), muitas mulheres alcançaram notoriedade no campo da cultura. Isso foi explicado pelo fato de que a República de Veneza estava menos sujeita às ordenações romanas, e, por consequência, aos seus mecanismos de censura. 

É próprio da concepção de teoria per se admitir a crítica externa, conforme as regras aceita pela continuidade que cuida, suscita e critica as teorias. O campo de existência das teorias é recente e frágil. Constituiu-se pela primeira vez há vinte séculos em Atenas, onde a instauração da filosofia abriu uma esfera livre de debate de ideias sem sanção, exclusão, nem liquidação dos participantes. Depois, a ciência europeia criou o seu próprio campo, onde toda teoria deve obedecer às regras empíricas, regras lógicas limitadoras e aceitar a verificabilidade que poderiam desmenti-las. Um sistema de ideias permanece teoria enquanto aceita a regra do jogo competitivo e crítico, enquanto manifesta maleabilidade interna: capacidade de adaptação e modificação na articulação entre seus subsistemas, assim como a possibilidade de abandonar um subsistema e de substituí-los por outro. Uma teoria é capaz de modificar as suas variáveis que se definem nos termos do seu sistema. Em consequência, as características fechadas dela são contrabalanceadas pela busca de concordância entre a coerência e dos dados que evidencia: é isso que constitui a racionalidade. Depende da interpretação daqueles que habitam o mundo onde se aplica. A teoria sobrevive das trocas simbólicas, linguísticas e científicas com o mundo real. Enquanto teoria metaboliza o real para sobreviver. O tipo aberto é ligado às regras pluralísticas estruturais que alimenta.

As esferas filosófica e científica são de existência democrática liberal para as teorias. Dizer concepção de abertura teórica necessita de condições externas favoráveis significa dizer que todas as formas de sistema de ideias tendem a fechar-se por si mesmo. O dogmatismo e a ortodoxia são tendências naturais, contrabalançadas somente por condições exteriores. Racionalidade e racionalização têm um mesmo tronco comum: a busca de coerência. Mas, enquanto a racionalidade está aberta ao que resiste à lógica e mantém o diálogo com o real, a racionalização integra à força o real na lógica do sistema e crê, então, possuí-lo. Essa tendência racionalizadora equivale aqui, comparativamente, à tendência idealista de todo sistema de ideias a absorver a realidade que nomeia, designa, descreve, explica. Sob certo ponto de vista noológico, os sistemas de ideias não se alimentam somente de energias e paixões humanas, evidenciadas pelo empirismo lógico. Ipso facto centrifugam e esvaziam o real que evidenciam. Desvelando as “leis” que governam o mundo, as teorias da ciência aspiram à soberania dessas leis. A inveterada tendência a tomar o mapa pelo território, a palavra pela coisa, a ideia pela realidade, depende do espírito humano, de sua aptidão crítica e autocrítica, favorecida pelas situações culturais pluralistas e abertas ao mundo das ideias e desejo. O “remédio” só pode estar na abertura do sistema, o qual depende da abertura do espírito humano.

A partir do ideário do Renascimento, o mundo é requestionado (cf. Hale, 2003); depois que Cristóvão Colombo (1451-1506) do chão aumentou a Terra e Copérnico e Galileu diminuíram-na no céu. Deus é requestionado, assim como o homem; a interdependência dessas reflexões determina uma problematização generalizada, de fato alongada. A perda dos antigos fundamentos de inteligibilidade e de crença suscita a procura incessante de novos fundamentos e a formação ininterrupta de novos sistemas filosóficos, os quais levantam mais questões do que fornecem respostas, o que relança em constante permanência a busca. E, assim, a noosfera filosófica europeia desenvolve-se com uma intensidade prodigiosa apresentando duas faces opostas e atreladas: de um lado, uma atividade critica, que já não se exerce apenas, nem principalmente, sobre a religião, mas sobre os próprios sistemas racionais (racionalizadores), sobre as ideias dominantes, os princípios, os fundamentos; por outro lado, a elaboração ininterrupta de sistemas, até o maior de todos, Friedrich  Hegel; a partir dele a história da filosofia será um corpo a corpo sem tréguas entre o pensamento antissistemático. A cultura serve como laboratório noológico, onde se pode poder observar a formação, o florescimento dos sistemas, seus conflitos, suas simbioses, suas trocas, suas corrupções, suas escleroses, as suas mutações, os seus rejuvenescimentos, mas também as suas agonias.

Na história social e da técnica do Renascimento não existia o que se poderia chamar de “economia italiana”. Havia muitas economias, algumas diversas de âmbito regional e outras de âmbito internacional, localizadas todas elas na unidade geográfica e espacial da península. Duas cidades à beira de rios e duas às margens dos mares, Milão e Florença, Genova e Veneza, formavam o quadrilátero da prosperidade da Itália durante a Renascença. Nenhuma delas possuía população superior a 100 mil habitantes. Mas, em contrapartida, tinham energia e disposição para o trabalho suficiente para capitanear a liderança econômica da península, como tino para estenderem seus interesses tanto para o coração da Europa em direção às cidades alemãs, francesas a flamengas como para Constantinopla e o restante do Levante. Dedicavam-se como atividade econômica ao comércio de luxo: seda, brocados, âmbar, especiarias, ouro e prata, como às atividades que atendiam o consumo cotidiano, como têxteis, tendo em vista que em Florença, além da Casa dos Médici (cf. Abreu e Lima, 2012), foi um poderoso centro lanífero. Veneza também acolheu uma formidável indústria naval para dar sustento ao seu império de comunicação marítimo que se estendia pelas ilhas gregas e alcançava vários portos do mar Negro. A comunicação marítima gerou uma burguesia pródiga, sequiosa de ostentar posição de mando e desejosa de preservar-se através da cultura e do patrocínio das artes.

A competição entre as diversas cidades fez a glória dos artistas de seu tempo histórico e social, muitos deles foram cobiçados por várias cortes que os prodigalizavam com recursos monetários, promoção e prestígio. Não por acaso, em geografia urbana, hinterlândia corresponde a uma área geográfica que pode se tratar de um município ou um conjunto de municípios servida por um porto e a este conectada por uma rede de transportes, através da qual recebe e envia mercadorias ou passageiros do porto ou para o porto. Trata-se, portanto, da área de influência de uma cidade portuária que, por concentrar significativa atividade econômica, pode engendrar uma rede urbana, constituída por centros urbanos menores. Posteriormente, o conceito passou a ser utilizado também no caso de cidades não portuárias que são “cabeças-de-rede”. O termo pode ser aplicado à área que circunda um centro de comércio, ou de setor de serviços e da qual provêm os seus clientes. O conceito foi aplicado à área de ex-colônias na África, apesar de não serem parte da colônia, eram por ela influenciadas.

 A história da colonização da África encontra-se documentada desde que os fenícios começaram a estabelecer colônias na costa africana do Mediterrâneo, por volta do século X a.C. Seguiram-se os gregos a partir do século VIII a.C., os romanos no século II a.C., os vândalos, que tomaram algumas colônias romanas já no século V da nossa era, seguidos pelo Império Bizantino, no século seguinte, os árabes, no século VII e, finalmente, os estados modernos da Europa, a partir do século XIV. O processo de ocupação territorial, exploração econômica e domínio político do continente africano por potências europeias tem início no século XV e estende-se até a metade do século XX. Ligada à expansão marítima europeia, a primeira fase do colonialismo africano surge da necessidade de encontrar rotas alternativas para o Oriente e novos mercados produtores e consumidores. No século XIV, exploradores europeus chegaram a África. Através de trocas com chefes locais, os europeus conseguiram milhões de africanos e os exportar para vários pontos do mundo naquilo que ficou conhecido como a escravidão.

A história social da África é reconhecida no Ocidente por manuscritos que datam da Antiguidade Clássica. No entanto, vários povos deixaram testemunhos etnográficos ainda mais antigos das suas civilizações. Para, além disso, terem sido encontrados os mais antigos fósseis de hominídeos, com cerca de cinco milhões de anos, permitindo considerá-la o “berço da humanidade”, do ponto de vista de sua evolução social com a descoberta de Charles Darwin, de que o homem detém o centro da espécie, do ponto de vista histórico de Karl Marx, em que os homens fazem a história, mas não como eles querem e, claro, psicológico, com a descoberta de Sigmund Freud em que o homem não detém o centro de sua individualidade. O Egito foi provavelmente o primeiro Estado a constituírem-se na África há cerca de 5000 anos, mas outros reinos ou cidades-Estados se foram sucedendo ao longo dos séculos. Podem referir-se os Estados de Kush e Meroé, no Nordeste de África, o primeiro Estado nacional do Zimbabwe e o reino do Congo que, politicamente, só floresceram como sociedade realmente entre os séculos X e XV.

Entretanto, faz-se necessário destacar que, mesmo nesse ambiente de maiores liberdades, muitos homens não tinham acesso à vida política por não preencherem os critérios de sangue e status. Quanto às mulheres, independentemente da posição social, a participação no poder era veementemente proibida. Se excluídas das esferas de poder político, as mulheres ainda tinham muita influência nos âmbitos social, cultural e econômico da sociedade veneziana. Um exemplo é Artemisia Gentileschi (1593-1654), pintora italiana que, enquanto atuou na República de Veneza, vivenciou um contexto de protagonismo feminino no teatro, no canto e na poesia. No início do século XVII, a pintora manteve contato com a Accademia degli Incogniti, instituição fundada por Gian Francesco Loredan (1607-1661). Essa academia permitia a participação tanto de homens quanto de mulheres, as quais estrategicamente utilizavam máscaras para permanecerem anônimas. As historiadoras comentam que, até esse momento, os únicos espaços públicos que não constrangiam a presença feminina eram as igrejas e os mercados. Percebe-se, então, que a academia ampliou o acesso das mulheres aos ambientes de debate intelectual, nos quais, além de leitoras, elas também atuavam como artistas e escritoras.

Nesse aspecto sociológico, é preciso esclarecer que muitas discussões da Accademia degli Incogniti foram pautadas pela questão de gênero: questionamentos como a) “as mulheres têm capacidade para ocupar posições de liderança?”, b) “elas são naturalmente virtuosas ou são propensas aos vícios?” e, c) “elas têm alma?” eram, como descrevem as historiadoras, bastante frequentes. Para combater os tratados misóginos dos Incogniti, mulheres como Arcângela Tarabotti (1604-1652), contemporânea de Artemisia, também buscaram respostas. De vida religiosa, Arcângela concebeu escritos que condenavam a estrutura social que forçavam as mulheres aos conventos, que confrontavam os padrões de vestimenta feminina e que afirmavam que as mulheres tinham alma da mesma forma que os homens. Depreende-se que o estudo realizado por Anadir dos Reis Miranda, Beatriz Polidori Zechlinski e Cristiane Tedesco tem por objetivo dar voz à agência feminina que, mesmo experimentando restrições nos espaços públicos, foi fundamental nas produções culturais e intelectuais da República de Veneza, problematizando, inclusive, os discursos sobre os papéis sociais de gênero. Estudar a relação entre mulheres e cultura letrada nos permite entender mais sobre a sociedade e a cultura da República de Veneza, em particular, e da Idade Moderna, em geral.

Bibliografia Geral Consultada.

BRAUDEL, Fernand, Civilisation Matérielle, Économie et Capitalisme. XVe-XVIIIe siècle. Paris: Editeur Armand Collin, 1979; LEFORT, Claude, Le Travail de l’Oeuvre Machiavel. Paris: Editeur Gallimard, 1986; GINZBURG, Carlo, Miti, Emblemi, Spie. Morfologia e Storia. Torino: Einaudi Editore, 1986; BOLTANSKI, Luc, L’Amour et la Justice Comme Compétences. Paris: Éditions Métailié, 1990; RICOEUR, Paul, La Mémoire, l`Histoire, l`Oubli. Paris: Éditions Du Seuil, 2000; VIGARRELLO, Georges, Storia della Violenza Sessuale. Veneza: Marsilio Editore, 2001; LE GOFF, Jacques, Pour L`Amour des Villes: Entertains avec Jean Lebrun. Paris: Éditions Textuel, 1997; Idem, História e Memória. 5ª edição. Campinas (SP): Editora da Unicamp, 2003; ELIAS, Norbert, A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994; Idem, O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. Volume 1. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2011; HILFERDING, Rudolf, Il Capitale Finanziario. Milano: Editore Mimesis, 2011; ABREU e LIMA, Fellipe de Andrade, A Ideia de Cidade no Renascimento. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012; SILVA, Andréia C. Lopes Frazão da; SILVA, Leila Rodrigues da; TORRES, Andréa Reis Ferreira; XAVIER, Nathalia Agostinho (Org.), A Idade Média no Discurso Fílmico (Catálogo de Filmes, vol. 2). Rio de Janeiro: Programa de Estudos Medievais, 2015; WYCLIFFE, John, Tractatus De Officio Regis. Londres: Editor Forgotten Books, 2018; BERALDO, João Paulo Ribeiro, A Escrita Feminina na Itália Renascentista do Século XVI: Poemas e Cartas de Veronica Franco e Veronica Gambara. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Franca: Universidade Estadual Paulista, 2019; COLLINS, Dorothy, The Church of San Giacomo di Rialto in the Medieval Era. Venice: Fondazione Università Ca’ Foscari, 5 de maio de 2023; MIRANDA, Anadir dos Reis; ZECHLINSKI, Beatriz Polidori; TEDESCO, Cristine, “Mulheres, Gênero e Cultura Letrada”. A Época Moderna. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2024; pp. 473–500; entre outros.

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