terça-feira, 15 de outubro de 2019

Maria Firmina dos Reis - Verso & Reverso do Abolicionismo Brasileiro.

                                                                                                      Ubiracy de Souza Braga
                                                                                                 
 Un negro es un negro. Sólo en condiciones determinadas se convierte en esclavo ”. Marx (1973: 745)


Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, no Maranhão, em 1822. Obteve o registro de nascimento em 21 de dezembro de 1825, como filha de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Era prima do escritor maranhense Francisco Sotero dos Reis por parte da mãe. Em 1830, mudou-se com a família para a vila de São José de Guimarães, uma das maiores do Estado “e com tantos moradores que forma uma companhia de auxiliares de oitenta praças”, escreveu Joaquim de Melo e Povoas ao governador em 1766. Viveu parte de sua vida na casa de uma tia materna mais bem situada economicamente. Em 1847, concorreu à cadeira de Instrução Primária nessa localidade e, sendo aprovada, ali mesmo exerceu a honrada profissão, como professora de primeiras letras, trabalhando de 1847 a 1881. Participou ativamente da vida intelectual maranhense, na imprensa, publicando livros e antologias, e, além disso, também foi musicista e compositora. Era abolicionista; nunca se casou. Sendo admitida no magistério, aos 22 anos de idade, sua mãe queria que fosse receber a nomeação de palanquim, mas optou por ir a pé, dizendo a sua mãe: - “Negro não é animal para se andar montado nele”. Chegou a escrever um “Hino da Abolição dos Escravos”.   
Do ponto de vista da economia política clássica, observou Marx (1973), que o processo de acumulação primitiva está consumado em maior ou menor medida. O regime capitalista submeteu diretamente toda a produção nacional ou, as condições ainda não estão desenvolvidas, controla, ao menos indiretamente, as camadas sociais que, decadentes, pertencentes ao modo de produção antiquado, continuam a existirão seu lado. O economista político aplica a esse mundo já pronto do capital as concepções de direito e propriedade vigentes no mundo pré-capitalista, e o faz com um zelo tanto mais ansioso e com unção tanto maior quanto mais fatos desmascaram as suas ideologias. O mesmo não ocorre nas colônias. Nelas o regime capitalista choca-se por toda parte contra o obstáculo do produtor, que, como possuidor de suas próprias condições de trabalho, enriquece a si mesmo por seu trabalho, e não ao capitalista. A contradição desses dois sistemas econômicos diametralmente opostos se efetiva aqui, de maneira prática, na luta entre eles. Onde o capitalista é respaldado pelo poder da metrópole, ele procura eliminar à força o modo de produção e apropriação fundado no âmbito do trabalho próprio. O mesmo interesse que, na metrópole, leva o sicofanta do capital, o economista político, as tratar teoricamente com base em seu oposto, leva-o aqui a falar sinceramente (“to make a clean breat of it”) e a proclamar a antítese entre os dois modos de produção, que engendram a pobreza e, sua armadura apologética se dilacera, pedaço por pedaço, como lenha podre.
   

       
Marina Firmina dos Reis, nossa anfitriã, descreveu-se, em 1863, como tendo “uma compleição débil, e acanhada” e, por conta disso, “não poderia deixar de ser uma criatura frágil, tímida, e por consequência, melancólica”. Os que a conheceram, com a idade avançada com a longevidade de 85 anos, raros ontem e hoje, descreveram-na como sendo “pequena, parda, de rosto arredondado, olhos escuros, cabelos crespos e grisalhos presos na altura da nuca”. Uma antiga aluna caracterizou-a como “uma professora enérgica, que falava baixo, não aplicava castigos corporais, nem ralhava, preferindo aconselhar”. Era reservada, mas acessível, sendo estimada pelos alunos e pelos moradores: tendo cariz toda passeata de Guimarães parava em sua porta, “ao que davam vivas e ela agradecia com um discurso improvisado”. Maria Firmina morreu cega e pobre, aos 92 anos, na casa de uma ex-escrava, Mariazinha, mãe de um dos seus “filhos de criação”.  Segundo o historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), Euges Lima, a ideia de reunir os bustos de nomes de expressão da literatura, história e política de São Luís e do Maranhão foi uma sugestão feita à Câmara de Vereadores pelo IHGM e que obteve parecer favorável da Segunda Comissão permanente, no dia 29 de março de 1954. É a única mulher dentre os bustos da Praça do Pantheon, onde se encontram homenagens a grandes escritores e intelectuais maranhenses. Os pedestais com os bustos formam uma verdadeira galeria a céu aberto no Centro da cidade.
Os torsos homenageiam o escritor Josué Montello; o poeta modernista, Bandeira Tribuzi; a primeira mulher negra romancista do Brasil, Maria Firmina dos Reis; o teatrólogo e jornalista, Arthur Azevedo; o literário Gomes de Sousa; o escritor do Parnasianismo no Brasil Raimundo Correia; o cronista e ensaísta Nascimento de Morais. Em 2007, os bustos foram transferidos para o Museu Histórico e Artístico (MHAM), para evitar a ação de vândalos, mas retornaram à praça em 2018, com a reforma do espaço público.  Em levantamento da produção acadêmica sobre Maria Firmina dos Reis (1822-1917) se tornou realidade no Brasil somente nos últimos trinta anos, quando, em 1987, o primeiro trabalho do gênero foi apresentado no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Desde então, novos estudos que tratam de determinados aspectos que permeiam a vida e a obra da escritora maranhense têm sido realizados nos demais programas de pós-graduação nas áreas de Letras, História, Ciências Sociais e de Educação, além de programas interdisciplinares como os de Cultura e Sociedade e de Estudos Brasileiros, tanto aqueles em nível de mestrado/doutorado. De modo sucinto, essa breve cronografia, segundo (Zin, 2018), serve para demonstrar que Maria Firmina teve participação relevante como letrada no II Reinado (1840-1889), “ao longo dos noventa e cinco anos de uma vida dedicada a ler, escrever e ensinar”.
Durante uma limpeza de rotina, feita, recentemente, em um salão do Centro de Cultura do município de Caxias, a 360 km de São Luís, foram descobertos documentos que datam dos séculos XIX e XX. Parte dos documentos são dois livros com registros de entrada e saída de mercadorias de uma fábrica de tecidos. Em uma das mais de 100 páginas, notas fiscais com escrituras da exportação de óleo de babaçu para Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Um jornal impresso de 1979, denominado O Pioneiro, também foi encontrado entre os documentos de forma bem preservada.  Os documentos encontrados estavam guardados em uma laje do Centro de Cultura. Acredita-se que foram separados para manipulação técnica durante uma restauração que ocorreu há exatos 28 anos. No Maranhão, a criação da Escola Normal aconteceu após a Proclamação da República, quando foi organizada a “Comissão incumbida da reforma da Instrução Pública” que constatou que o “péssimo estado da instrução primária” resultava da “não obrigatoriedade do ensino e da incapacidade dos professores primários”. A comissão indicou, dentre outras medidas, a “Fundação de uma Escola Normal”.
            
Maria Firmina dos Reis 
Memorial Maria Firmina dos Reis resgata a história da escritora. O engajamento das normalistas maranhenses faz com que a escritora Maria Firmina dos Reis torne-se uma escritora de formação política, constituindo como parti pris o antiescravismo e uma interpretação singular sobre as mulheres de seu tempo. Não queremos perder de vista que a população maranhense no fim do século XVIII e início do século XX, era em sua maioria urbana negra ou mestiça. Em 1779 sua população era estimada em 78. 860 habitantes em que a parcela de negros africanos era de 40, 28% quase a metade e que o número de mestiços era de 23, 53% e os brancos de 36, 19%. Com a fundação da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão em 1755, justamente para absorver a entrada de negros africanos nessa região brasileira para trabalhar nas lavouras algodoeiras, calcula-se que entre 1757-77, 12. 857 africanos escravos entraram no Maranhão. E no período entre 1812-1820, vindos da costa africana ou de portos brasileiros, 36. 356 escravos e muitos outros vindos da Bahia que entravam “ilegalmente” ou por terra. A população da província era de 152. 843 habitantes dos quais 77. 914 eram escravos, representando 51% do total. Josué Montello, n` A Ficção Naturalista, afirma que A Normalista “sobressaía pela transplantação fiel e natural da vida da província e vigor na fixação dos temperamentos e dos caracteres”.
A indicação nesse sentido foi encaminhada através do Decreto n° 21 de 15 de abril de 1890, Art. 7° sancionada pelo governador José Tomás de Porciúncula. O projeto republicano que se configurava tinha um caráter amplo. Pensava-se em conceitos, como povo e nação, procurando-se identificar capacidades e possibilidades de sujeitos sociais, que mesmo já existentes e atuantes sob seus diversos aspectos, não eram percebidos pelos segmentos dominantes que conformam as estruturas de poder local. Essa “massa submersa” era convocada pelo discurso republicano a entrar em sintonia com mudanças, articuladas com novos símbolos do progresso e com os ditames indicadores da função de cada um na sociedade. A educação instrução das crianças e das mulheres seguindo determinadas modelações era, então, parte desse programa de desenvolvimento proposto para o Brasil. A trajetória social das normalistas, no início do século no Maranhão, inseriu-se nesses procedimentos peculiares às primeiras décadas do século XX, que tentava equilibrar os valores tradicionais em meio às mudanças sociais que se processavam nesse período em que os discursos e ações dirigidos às mulheres, principalmente no referente à sua instrução, assumiram visibilidade social. O recebimento do diploma implicava a denominação do cargo “professora normalista”, podendo significar para algumas, o destaque na primeira página de um jornal.
Maria Firmina desconstrói uma história literária etnocêntrica e masculina até mesmo em suas ramificações afrodescendentes. Neste sentido, pode-se afirmar que Úrsula não seria apenas o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, um fato social que nem todos os historiadores da literatura admitem. Mas é também o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria de uma escritora afrodescendente, tematiza o negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida politicamente em recuperar e narrar a condição do ser negro no Brasil. Acrescenta-se a isto a incursão no processo civilizatório representado pela inscrição em língua portuguesa dos elementos da memória ancestral e das tradições africanas. Queremos dizer com isso que a função social do velho de rememorar, aconselhar, como um elo entre o passado e o presente, reclama o estilhaçamento da lembrança na sociedade globalizada, que se utiliza do velho apenas no que tange à sua força servil. Texto fundador, Úrsula polemiza literariamente com a tese segundo a qual nos faltava um “romance negro”, pois apesar de centrado nas vicissitudes da heroína branca, pela primeira vez em nossa literatura, tem-se uma narrativa da escravidão conduzida internamente e por uma perspectiva analítica de resgate da negritude literária.  
Segundo as professoras e pesquisadoras maranhenses, hic et nunc, cabia às instituições educacionais, e neste caso a função que detinha como representação como a Escola Normal que no Maranhão desde o início formou normalistas, em sua maioria mulheres - o reforço de atributos que qualificariam mulheres – com recursos para isso - a viver em sociedade. A erudição, o desenvolvimento dos dotes artísticos e das prendas domésticas, comuns a qualquer instituição de ensino no início do século XX voltada para o público feminino, dividia lugar com o conhecimento das patologias escolares, psicologia infantil, estrutura e dinâmica escolar, metodologias de ensino e antropologia. Em se tratando de mulheres esse conhecimento além do preparo para a docência, garantiria um melhor desempenho da função materna, em que ao acompanhar a trajetória de normalistas no Maranhão temos a compreensão de um comportamento caleidoscópico. Vivenciavam e reproduziam códigos comportamentais explícitos, que se imiscuíam nas relações cotidianas, através de um aparato de poder marcante; absorviam sociabilidades institucionais que se incorporavam ao seu modo de vestir e falar. O diretor era parte importante, na complexa engrenagem que regulava a vida escolar que não raro, extrapolava os muros da instituição escolar para a própria casa. A instrução parecia conceder às mulheres uma circulação mais segura. Na escola, com toda a carga regulatória, construíam nas relações cotidianas, códigos demonstradores da vontade de saber e perceber em que as alunas da Escola Normal tomavam iniciativas engajadas.
Frequentar a Escola Normal demandava condições mínimas de manutenção, o que transformava o acesso à mesma em um privilégio. Havia a necessidade de manter-se, o que não era facultado às pessoas muito pobres-mesmo com o recurso das pensões. Entrar para a Escola já era um distintivo, a começar pelo meio familiar que geralmente era o principal incentivador desse intento, principalmente quando se tratava de mulheres. Logo o ato de tornar-se professora normalista não era algo corriqueiro. Além disso, sobre as condições de deslocamentos que estavam sujeitas pessoas que vinham de outras cidades do Estado, para estudarem em São Luís, os relatos são de dificuldades, como observou Esmeralda - “daqui (Humberto de Campos), pra lá (São Luís) à vela (barco) eram três dias. Na época do verão, era melhor, a gente saía cedo e à tarde já estava em Ribamar, mas de lá para cá era muito demorado, três, quatro, cinco dias”. As mulheres enfrentavam dificuldades no prosseguimento dos estudos e criavam entre as adversidades, possibilidades na busca por instrução. Transformavam um “lugar praticado” com condutas e resultados diversos, e não apenas definido pelos desígnios discursivos. Ao adquirirem o título de normalista, estavam sujeitas a referenciais regulatórios. Mas encaminhavam-se para uma condição através da instrução e do trabalho a ter a capacidade de sobreviver. Isto é importante, na medida em que pela via do trabalho, passa a ser distinta, recebendo uma consagração que as fazia detentoras da competência social de ensinar. Homenagem a Maria Firmina dos Reis em frente ao prédio da Prefeitura Municipal no sesquicentenário de nascimento da primeira romancista do abolicionismo brasileiro, em 11 de outubro de 1975.

        Inicialmente apenas uma atitude, um estado de espírito, o romantismo toma mais tarde a forma de um movimento social, e o espírito romântico passa a designar a complexidade da visão de mundo do indivíduo. Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos inusitados de escapismo. Se o século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade cultural, pela emoção e pela centralidade do eu. O termo romântico refere-se ao movimento estético, ou seja, à tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo. Fora de dúvida, o romantismo representa a arte do sonho e fantasia. Valoriza as forças criativas do indivíduo e da imaginação individual (o sonho) e coletiva (os mitos, os símbolos, os ritos de passagem). Opõe-se à arte equilibrada dos pensadores clássicos e contemporâneos e baseia-se na inspiração fugaz dos momentos fortes da vida subjetiva. Isto é, na fé, no sonho, na paixão, na intuição, na saudade, no sentimento da natureza e na força das lendas nacionais. Após 1850, a literatura romântica começa a apresentar escravos e escravas com maior densidade dramática. Tratava-se, na realidade, de uma literatura caracterizada por se apresentar, ao mesmo tempo, como antiescravidão e antiescravo, no qual as mazelas da escravidão recaíam especialmente nos afrodescendentes, que acabavam recebendo finais trágicos e eram expurgados da cena literária que surgia metaforicamente para purificação da sociedade.  
A pacificação da Balaiada da década de 1840 e os influxos da exportação do algodão maranhense durante a Guerra Civil norte-americana, nos anos 1860, promoveram um ambiente ideológico favorável à difusão da imprensa e dos grupos literários românticos, com autores que se projetaram nacionalmente, como Gonçalves Dias, João Lisboa, Cândido Mendes, Odorico Mendes, Sousândrade, Humberto de Campos e Sotero dos Reis. A efervescência cultural de São Luís produziu  valores compromissados com a manutenção do que a boa sociedade maranhense acreditava pertencer. Como mulher negra de poucas posses, educada em casa e com acesso limitado aos livros, tudo o que Maria Firmina dos Reis chegou a alcançar foi seu posto de primeira professora de primeiras letras de Viamão, escritora pioneira de romance abolicionista publicado em uma das principais tipografias da capital (Úrsula, 1859), autora de romance indianista (Gupeva, 1861) e conto (A Escrava, 1887), publicados nos jornais de São Luís, colaboradora de jornais literários, poetisa incluída em antologia dos poetas de seu tempo (“Parnaso Maranhense”, 1861, e “Cantos a Beira Mar”, 1871) representa primícias da vontade, sabedoria e decisão pessoal.
O engajamento das normalistas maranhenses faz com que a escrita de Maria Firmina dos Reis torne-se uma reveladora escritora política, constituindo como parti pris o antieescravismo e uma interpretação singular sobre as mulheres de seu tempo, “para constituir uma literatura que de determinada maneira, também se colocava naquilo que Machado de Assis intitulou “instinto de nacionalidade”, pois Machado entende que a primeira geração romântica como aquela que teve como propósito moldar e construir a própria ideia de nação (cf. Silva, 2013). Contudo, a escritora ficou esquecida entre os estudiosos da literatura que, atravessando a passagem da mão de obra escrava para  assalariada tomava formava uma importante geração brasileira. Sílvio Romero, José Veríssimo, Ronald de Carvalho, Nelson Werneck Sodré, Afrânio Coutinho, Antonio Candido e Alfredo Bosi, por exemplo, os quais a ignoram completamente. Os discursos antiescravistas, no Maranhão, surgem por volta de 1860, conjuntura política em que ressonância da literatura romântica se fazia presente no engajamento da escritora. Representou um movimento social artístico, político e filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII na Europa durante  parte do século XIX. Caracterizou uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os Estados na Europa.
É desse Kulturpessimismus, segundo Löwy (2013), esse olhar desencantado sobre a modernidade, é na verdade uma das expressões da visão de mundo tardia do fim do século. Por romantismo, devemos compreender não uma corrente literária dos anos 1800, mas uma das principais estruturas de sensibilidade  da cultura moderna: o protesto contra a civilização capitalista/industrial moderna em nome de valores do passado. A clássica oposição entre Kultur, um conjunto de valores culturais, religiosos, estéticos ou políticos, e Zivilisation, o universo da técnica, dos negócios e da burocracia, ou então da tradição de Ferdinand Tönnies entre Gemeinschaft, a comunidade orgânica do passado, e Gesellschaft, a sociedade moderna fundada sobre o contrato e o mercado, está entre os principais temas do pessimismo cultural de inspiração romântica. Essa atitude era particularmente comum no mandarinato universitário alemão e profundamente hostil ao advento rápido e brutal da civilização industrial capitalista na Alemanha no fim do século XIX. O romantismo resignado desenvolveu-se na Alemanha, sobretudo a partir do fim século XIX, quando o processo de industrialização capitalista parecia irreversível e a modernidade capitalista, no plano global aceita como fatalidade, um destino inexorável. O pessimismo deles pode levar a uma espécie de visão trágica do mundo, baseada na convicção desesperada de que não existe nenhum meio de conter ou impedir o triunfo da civilização capitalista moderna, considerada uma fatalidade.
           Os pessimistas culturais e os críticos românticos da modernidade dividem-se em geral em dois polos: os passadistas, ou tradicionalistas, que sonham com um retorno ao passado pré-capitalista; e os utopistas, que investem a nostalgia do passado num projeto de futuro. O Maranhão do século XIX, contexto em que Maria Firmina dos Reis viveu e produziu sua obra foi demarcado pela hierarquia social, na qual uma elite política branca e escravocrata constituía-se como mandatária do poder local. Em função do tráfico de escravos interprovincial, eram extremamente necessários e a escravidão no Maranhão, ao longo deste século, representou mais do que uma “questão social”, ou de distinção, pois do ponto de vista escravista tornou-se a base de sustentação desta sociedade determinada historicamente pelo trabalho escravo. Não por acaso, Maria Firmina e outros poetas, escritores e abolicionistas versaram conta a escravidão ou sobre as fugas e liberdade, ou a alforria. Ela descreve a condição feminina da escravidão em seus dois ensaios mais importantes sobre a temática: Úrsula, de 1859, considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. O romance foi publicado com o pseudônimo “uma maranhense”. É o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher e o primeiro abolicionista em língua portuguesa. Sua obra e parte da biografia foram perdidos quando seu filho, Leude Guimarães, sofreu um assalto à mão armada no bairro onde residiam. 
O romance foi ter segunda edição, essa fac-similar, apenas 1975, motivada pela organização de Horácio de Almeida. Úrsula é um precursor da temática abolicionista na literatura brasileira, pois é anterior à poesia de Castro Alves e ao As vítimas-algozes, de Joaquim Manoel de Macedo; A Escrava, de 1887 e de seus diversos escritos na imprensa do período, pretende-se perceber como a escritora utilizou sua verve literária na construção de um ideário antiescravista no Maranhão do século XIX, se configurava nesse momento como umas das províncias com maior número de contingente escravo regional do período.  Úrsula e sua criadora só reapareceram em 1962, quando o pesquisador Horácio de Almeida encontraria um exemplar da primeira (e até então, única) edição do romance junto a um lote de livros usados que adquiriu em um sebo. Treze anos depois, é também ele o responsável pelo prefácio e lançamento do fac-símile do livro. Em 2017, por conta do centenário de sua morte, a vida e obra de Maria Firmina dos Reis ganharia destaque com novas edições, inúmeras pesquisas, artigos e homenagens. Composto por pouco mais de 150 páginas, relatadas por um narrador onisciente, que emite juízo e se demonstra empenhado em expor os valores e a realidade das vidas que narra, vemos retratados, além de uma história de amor e suas reviravoltas, as mais diversas formas de sofrimento no trabalho e a condição social de escritora.
                
 Um intelectual afrodescendente como Oswaldo de Camargo (1987), em sua coletânea O Negro Escrito, de suma importância para o resgate de escritores afro-brasileiros, não faz referência alguma a Maria Firmina dos Reis. Em 1978, Camargo integra a histórica edição do primeiro número de Cadernos Negros. Juntamente com Paulo Colina e Abelardo Rodrigues, une-se aos jovens estudantes e intelectuais afro-brasileiros que buscavam se organizar na resistência pacífica ao regime militar e de mobilização pela redemocratização, como mediador entre a nova geração de escritores e os remanescentes do Movimento Negro, propiciando desta forma o resgate de iniciativas históricas e da memória literária. Dentre outros expoentes da historiografia literária nacional, muitos fizeram o mesmo, à exceção de Sacramento Blake (1970), que foi contemporâneo da autora; Raimundo de Menezes (1978), que soube da existência de Úrsula após seu ressurgimento. Acabou incluindo um verbete sobre a escritora na segunda edição de seu Dicionário Literário Brasileiro; e o notável articulista Wilson Martins (2010), que na História da Inteligência Brasileira, apenas cita seu nome, é o título do seu monumental ensaio em sete volumes, que inicia seu discurso literário declarando limpidamente que “a história da inteligência brasileira começa em 1550, quando o padre Leonardo Nunes inicia os estudos rudimentares de latim no Colégio dos Meninos de Jesus, em São Vicente”.
            Os demais documentos de e sobre Maria Firmina dos Reis foram recuperados a partir de 1973, pelo professor, poeta e jornalista maranhense José Nascimento Morais Filho, que realizou pesquisa nos jornais do século XIX e início do XX da Biblioteca Pública Benedito Leite, em São Luís e quando entrevistou, entre personalidades, mas principalmente os dois filhos adotivos da escritora feminista, Leude Guimarães e Nhazinha Goulart. Leude Guimarães, um dos filhos queridos de criação da escritora, revelou a José Nascimento Morais Filho que a mãe deixara muitos manuscritos ao falecer. Esse material consistia de “cadernos com romances e poesias, e um álbum onde havia muita coisa de sua vida e da nossa família”. Leude levou esse legado materno ao hotel onde estava hospedado em São Luís, guardando-o em um baú. Quase todo o material se perdeu quando ladrões invadiram o quarto e arrombaram o baú, à procura de bens valiosos. O “Álbum” de Maria Firmina é justamente tudo o que sobrou desse conteúdo para sempre perdido da autora maranhense. As duas entradas que limitam o texto do “Álbum”, a primeira e a última, tratam de um tema onipresente no diário: a morte de pessoas queridas. Em 20 de maio de 1853 Maria Firmina escreve o texto “Uma lágrima sobre um túmulo” (sobre o falecimento da própria mãe, em 9 de janeiro daquele ano); e em algum dia de 1910 registra o falecimento de Djalma, um filho de criação. Em termos etários, esse período vai dos 30 aos 88 anos de idade de Maria Firmina dos Reis. 
Bibliografia geral consultada:
MARX, Carlo, El Capital. Crítica de la Economía Política. Libro Primero. Buenos Aires: Editorial Cartago, 1973; pp. 744 e ss.; RESENDE, Rafael Serra, “Da Ágora ao Pantheon: Intelectuais de Atenas e a Literatura Romântica no Maranhão”. In: Outros Tempos, vol. 4, n°4, 2007; BAILEY, Cristina Ferreira-Pinto, “The Slave Woman. A Short by Maria Firmina dos Reis”. In: Afro-Hispanic Review. Volume 22, n° 1. EUA: Vanderbilt University, 2012; SILVA, Régia Agostinho da, A Escravidão no Maranhão: Maria Firmina dos Reis e as Representações sobre Escravidão e Mulheres no Maranhão na Segunda Metade do Século XIX. Tese de Doutorado em História. Programa de Pós-Graduação em História Econômica. Departamento de História. Universidade de São Paulo, 2013; ABREU, José António Carvalho Dias de, Os Abolicionismos na Prosa Brasileira: de Maria Firmina dos Reis a Machado de Assis. Tese de Doutorado em Letras. Faculdade de Letras. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2013; LÖWY, Michael, Le Cage d`Acier: Max Weber et le Marxisme Wébérien. Paris: Éditions Stock, 2013; SANTOS, Katiana Souza, Relações de Gênero na Segunda Metade do Século XIX na Perspectiva de Maria Firmina dos Reis: Analise do Romance Úrsula. Dissertação de Mestrado. São Luís: Universidade Federal do Maranhão, 2015; COSTA, Dayana dos Santos Delmiro, A Magistratura no Maranhão e as Relações de Gênero: Origens Sociais, Carreiras e Representações das Juízas. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. São Luís: Universidade Federal do Maranhão, 2015; ANDRETA, Bárbara Loureiro, Visões da Escravatura na América Latina: “Sab” e “Úrsula”. Dissertação de Mestrado em Letras. Centro de Artes e Letras. Sana Maria: Universidade Federal de Santa Maria,  2016; ZIN, Rafael Balseiro, “Consolidando a Fortuna Crítica de Maria Firmina dos Reis; Uma Avaliação Preliminar das Dissertações e Teses Acadêmicas sobre a Autora Desenvolvidas em Programas de Pós-Graduação Brasileiros nos últimos Trinta Anos (1987-2016)”. In: Itinerários. Revista do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários. Araraquara: Universidade Estadual Paulista, n° 46, jan./jun., 2018; pp. 63-81; QUADROS, Dênis Moura de, “Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus: Duas Resistentes Marias na Literatura Afro-Feminina”. In: Grau Zero. Revista de Crítica Cultural, vol. 6, n° 1, 2018; LUZ, Giselle, “Escrevivencia de Maria Firmina dos Reis no Conto A Escrava. In: Revista Travessias. Cascavel, vol. 12, n° 1, pp. 193-204, jan./abr. 2018; MACHADO, Maria Helena Pereira Toledo, “Maria Firmina dos Reis: Escrita Intima na Construção do si Mesmo”. In: Estud. av. vol.33, n° 96. São Paulo, maio/agosto de 2019; entre outros.

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