domingo, 25 de maio de 2025

Benedetta Carlini – Terror, Confissão & Estigma Social Religioso.

                                        O prazer mais nobre é a alegria de entender”. Leonardo da Vinci                   

      Benedetta tem como representação social um filme de drama biográfico de 2021, coescrito e dirigido por Paul Verhoeven, estrelado por Virginie Efira como Benedetta Carlini, uma freira do século XVII que entra para um convento italiano ainda criança e mais tarde “tem um caso de amor lésbico com outra freira, enquanto tem visões religiosas”. O filme é vagamente baseado no livro de não-ficção Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy (1985) de Judith C. Brown, nascida em 1946, é historiadora norte-americana e professora emérita de História na Universidade Wesleyan. Especialista no Renascimento italiano, ela é considerada uma pioneira no estudo da história da sexualidade, cujo trabalho acadêmico explorou os primeiros exemplos registrados de relacionamentos lésbicos na história europeia. Historiadora feminista da Europa moderna inicial e da Itália renascentista, os interesses acadêmicos de Brown incluem questões de ensino superior e história das mulheres, gênero e sexualidade. Sua produção incluiu a maioria dos membros principais da equipe do filme anterior de Verhoeven, Elle (2016) que coestrelou Efira, o produtor Saïd Ben Saïd, o roteirista David Birke, a compositora Anne Dudley e o editor Job ter Burg. O filme estreou na competição pela Palma de Ouro no 74º Festival de Cinema de Cannes, em 9 de julho de 2021. No final da Idade Média, a maioria dos clérigos e estados católicos aceitava e vivia com a crença de que o comportamento sexual era, segundo a lei natural, reservado à procriação, considerando os atos sexuais puramente estéreis, isto é, sexo oral e anal, bem como masturbação pecaminosos. No entanto, os atos homossexuais ocupavam um lugar especial como crimes contra a lei natural. 

          A maioria dos códigos de direito civil previa punições para tais “atos não naturais”, especialmente em regiões fortemente influenciadas pelos ensinamentos da Igreja. Nos primeiros anos da Idade Média, a homossexualidade não era punida com penitência específica; era vista como todos os outros pecados. Por exemplo, durante o século VIII, o Papa Gregório III impôs penitências de 160 dias para atos femininos considerados não naturais e geralmente um ano para homens que cometessem atos de sodomia, sendo o parceiro passivo tratado com mais severidade. Durante a própria Inquisição, os indivíduos raramente eram investigados apenas por sodomia; geralmente, ela era associada à expressão de crenças heréticas e ataques à Igreja. Aqueles que não se retratassem de heresia seriam severamente punidos. As autoridades viam a homossexualidade como uma ruptura nos valores morais e religiosos. Em contraste, o que não falta são indícios das preferências sexuais da abadessa Benedetta Carlini, cuja história é, de certa forma, a reflexão tenebrosa da trajetória de Hildegard. Nascida em 1591, ela também foi levada à vida religiosa logo cedo, tornou-se abadessa aos 30 anos e era arrebatada por visões extraordinárias. Suas visões, no entanto, eram explicitamente eróticas e consistiam de incorporar tanto Jesus como um ser angelical conhecido como Splenditello. De início as visões de Benedetta eram bastante violentas – ela via homens que tentavam matá-la – e ela e outras freiras temiam que ela estava sendo acometida por demônios. 

            Ela foi confinada numa cela e passou a ser vigiada por outra freira, Bartolomea. Ela então passou a ter visões de êxtase religioso, em que Jesus lhe dizia que ela havia sido escolhida para ser sua esposa e a “imperatriz de todas as freiras”. E a manifestar estigmata, feridas como as de Jesus crucificado nas mãos e nos pés e, aparentemente, demonstrou um certo talento para a hipnose coletiva ou para induzir histeria em grupo: as freiras de seu convento afirmavam que, quando Jesus ou os anjos falavam por meio de seu corpo, seu rosto passava a ter a aparência de um belo rapaz. No começo, assim como aconteceu com Hildegard e suas visões, as autoridades da igreja ficaram muito felizes com a possibilidade de terem uma santa em seu meio. O comportamento de Benedetta, no entanto, começou a se exceder de maneiras que transgrediam até mesmo os limites bastante frouxos que eram impostos àqueles que tinham visões divinas. Além de afirmar que havia experimentado a morte e ressuscitado, a abadessa encenou seu casamento com Jesus, durante o qual o messias falava por seu intermédio, o que lhe dava uma enorme autoridade espiritual e terrena. Isso fez com que uma equipe de investigadores fosse enviada para investigar se suas visões eram genuínas, satânicas ou apenas fraudes. Os inquéritos iniciais consideraram-na sincera, mas uma confissão de Bartolemea fez com que as autoridades mudassem completamente de ideia e declarassem que Benedetta havia sido enganada por Satanás.  Segundo Bartolomea, Jesus vinha até Benedetta à noite, com a intenção de ter relações sexuais, como qualquer outro marido. Benedetta, como qualquer noiva obediente, permitia que isso acontecesse, mas, como ele não tinha corpo físico, fazia-se necessário encontrar um substituto – papel que cabia a Bartolomea.                        

Quando o anjo Splenditello a possuía, ele tinha relações carnais com Bartolomea, por quem era apaixonado. Não há muita dúvida de que Bartolomea sofria conflitos psíquicos pelo que fazia, e não estava em condições reais de dar consentimento. Ela descreveu como Benedetta a jogava na cama e colocava-se por cima, utilizando a linguagem passiva para se referir a si mesma durante esses encontros; também é óbvio seu desconforto durante os atos. Alguns escritores queer e feministas tendem a desprezar esse lado e retratam Benedetta como uma figura encantadora que foi vitimizada pela igreja, o que não chega a ser surpreendente. Há tão poucas figuras históricas queer que, quando se encontra uma freira lésbica que leva em frente um caso místico com sua amante, a vontade é ver isso como algo excitante, brilhante e feliz. Considerar que ela tenha sido apenas mais uma líder de um culto que usou sua autoridade espiritual para obter sexo de suas seguidoras é muito frustrante. É nosso dever, no entanto, não tentar dourar a pílula mesmo quando revemos as partes mais indesejadas de nossa história, e parte desse processo é reconhecer que Benedetta coagiu e manipulou Bartolomea no relacionamento entre as duas. A equipe investigativa levou um bom tempo para decidir o que deveria ser feito com Benedetta, já que não havia acontecido penetração. Se algum tipo de penetração tivesse acontecido, eles poderiam condená-la por sodomia, um crime que em geral era reservado aos homens, mas às vezes aplicado a mulheres que haviam usado um consolo uma com a outra. No entanto, não conseguiram provar que havia acontecido penetração e, como Benedetta continuava dizendo que acreditava que suas visões eram verdadeiras, mas estava disposta a aceitar que elas na verdade eram de natureza demoníaca, eles não podiam executá-la por heresia. 

Decidiu-se depois de algum tempo que ela apenas havia fornicado, algo que normalmente acarretava em punições brandas. As freiras de sua ordem, no entanto, revoltaram-se (e com razão – entre outras coisas, Benedetta havia submetido suas subordinadas a uma dieta restritiva e encorajado que se autoflagelassem) e decidiram condená-la ao eremitério. Às vezes realizado por vontade própria, o eremitério consistia de se construir uma parede fechando a pequena cela em que alguém se encontra, deixando essa pessoa lá pelo resto da vida. Fazia-se uma abertura para a entrada de comida e retirada de dejetos, então não era o equivalente a ser enterrado vivo, mas o tempo de sobrevivência sob essas condições não costumava ser longo. Mas Benedetta sobreviveu a todos e viveu mais 35 anos em sua cela, vindo a morrer em 1661. Ela era vista como uma visão pagã; aqueles considerados culpados seriam condenados à pena capital. A restauração papal do século XI levou a atitudes cada vez mais severas em relação aos sodomitas. O Concílio de Nablus, em 1120, no Reino de Jerusalém, promulgou penas severas para a sodomia após a derrota do exército antioqueno no Campo de Sangue no ano anterior. Na França do século XIII, a sodomia resultava em castração na primeira ocorrência, desmembramento na segunda e queima na terceira. O “comportamento lésbico” era punido com mutilações específicas nas duas primeiras ocorrências e também com queima na terceira. Em meados do século XIV, em muitas cidades da Itália, leis civis contra a sodomia eram comuns. Se uma pessoa fosse considerada culpada de sodomia, o governo da cidade tinha o direito de confiscar os bens do infrator.

 Em 1533, Henrique VIII promulgou a pena de morte para a sodomia com a Lei da Sodomia de 1533, que se tornou a base para muitas leis antissodomia. Isso também levou ao fato de que, embora o Renascimento tivesse suas origens na Grécia antiga, nenhum dos mestres literários ousou proclamar publicamente o amor entre homens. Na metafísica finitude é uma característica dos entes que se modificam ou têm limites. Cada atributo é infinito no seu gênero, isto é, não é limitado pela Substância nem por outros atributos, pois não tem nada em comum com os mesmos. Cada atributo tem infinitos modos. Os modos são finitos ou limitados, pois estão em comunidade com outras coisas do mesmo gênero que eles mesmos. A limitação dos modos é carência de infinitude, ou simplesmente finitude, uma característica das coisas singulares que pertencem a certo atributo da Substância. E finitude significa ser limitado por outras coisas singulares do mesmo atributo. Todos os seres vivos são seres finitos isto quer dizer que todos morremos porque temos um final. A filosofia de Baruch Spinoza tem muito em comum com o estoicismo, mas difere muito da filosofia dos estoicos na medida em que, comparativamente, rejeitou a afirmação de que “a razão pode dominar a emoção”. Pelo contrário, analiticamente defendeu que uma emoção pode ser ultrapassada por uma emoção maior no sentido dialético de superação/conservação. 

A distinção crucial deriva, entre as emoções ativas e passivas, sendo as primeiras àquelas que são compreendidas sua ratio e as outras as que não o são. Espinosa pretende afirmar a imanência como princípio e retirar a expressão de toda subordinação no que diz respeito a uma causa emanativa ou exemplar. Expressar não é emanar, parecer, imitar ou assemelhar-se. Gilles Deleuze interpreta a substância como singular. O ser é singular, infinito e notável. Ele não é distinto de, ou diferente de qualquer coisa fora de si mesmo, mas distinto em si. A distinção da substância nasce de dentro. Causa sui significa que o ser tanto é infinito quanto definido. Dotado de causalidade eficiente sua diferença é interna a si. A substância é definida por que é diferente em si mesma. Esta autodistinção tem como consequência que o ser não é diferente de qualquer coisa fora do ser, nem é indiferente ou abstrato. A substância única é qualificada, mas não limitada, se tivesse que ser limitada (ou ter número) teria que envolver uma causa externa. A substância é causa de si, o ser é causa material e eficiente de si mesmo. A substância já é real e qualificada (“complicatio”) e não se coloca a questão da determinação por que os atributos preenchem o papel da expressão (“explicatio”). Na definição seis do livro Um da Ética, Espinosa diz que: - “Por Deus eu entendo um ser absolutamente infinito, quer dizer uma substância que consiste em uma infinitude de atributos onde cada um exprime uma essência eterna e infinita”. 

O amor é sempre uma dinâmica que se gera, por outro lado, a partir de uma autossuficiência interna, sem dúvida trazida, por seu objeto exterior, do estado latente ao estado atual, mas que não pode ser, propriamente falando, provocada por ele; a alma o possui enquanto realidade última, ou não o possui, e nós não podemos remontar, para além dele, a um dos movens exterior ou interior que, de certa forma, seria mais que sua causa ocasional. É esta a razão mais profunda que torna o procedimento de exigi-lo, a um título legítimo que seja desprovido de sentido. Sequer sua atualização dependa sempre de um objeto, e se aquilo que chamamos de desejo ou necessidade de amor – esse impulso surdo e sem objeto, em particular na juventude, em direção a qualquer coisa a ser amada – já não é amor, que por enquanto só se move em si mesmo, digamos um amor em roda livre. Seguramente, a pulsão em direção a um comportamento poderá ser considerada como o aspecto afetivo do próprio comportamento, ele próprio já iniciado; o fato de nos sentirmos “levados” a uma ação significa que a ação já começou anteriormente e que seu acabamento não é outra coisa que o desenvolvimento ulterior dessas primeiras inervações. Onde, apesar do impulso sentido, não passamos à ação, isso se dá seja porque a energia não basta, de pronto, para ir além desses primeiros elos da ação, seja porque ela é contrariada por forças opostas, antes mesmo que esses primeiros elos já anunciados à consciência tenham podido se prolongar num ato visível. A possibilidade real, a ocasião apriorística desse modo de comportamento originados pela presença na vida que chamamos com felicidade amor, fará surgir se for o caso, à consciência, na oposição dialética, um sentimento obscuro e geral, um estágio inicial de sua própria realidade, antes mesmo que a ele se some a incitação por um objeto determinado para levá-lo a seu efeito acabado.      

A existência desse impulso sem objeto, por assim dizer incessantemente fechado em si, acento premonitório do amor, puro produto do interior e, no entanto, já acento de amor, é a prova mais decisiva em favor da essência central puramente interior do fenômeno amor, muitas vezes dissimulado sob um modo de representação pouco claro, segundo o qual o amor seria uma espécie de surpresa ou de violência vindas do exterior, tendo su símbolo mais pertinente no “filtro do amor”, em vez de uma maneira de ser, de uma modalidade e de uma orientação que a vida como tal toma por si mesma – como se o amor viesse de seu objeto, quando, na realidade, vai em direção a ele. De fato, o amor é o sentimento que, fora dos sentimentos invariáveis religiosos, se liga mais estreita e mais incondicionalmente a seu objeto. À acuidade com a qual ele brota do sujeito corresponde a acuidade igual com que ele se dirige para o objeto. O que é decisivo aqui é que nenhuma instância de caráter geral vem de fato se interpor. Se venero alguém. É pela mediação de certo modo geral de venerabilidade que, em sua realidade particular, permanece ligada à imagem desse por tanto tempo quanto eu o venerar. Do mesmo modo, no homem que temo, o caráter terrível e o motivo que o provocou estão intimamente ligados; mesmo o homem que odeio não é, na maioria dos casos separado em minha representação da causa desse ódio – é esta uma das diferenças entre amor e ódio que desmente a assimilação que comumente se faz deles.

Mas o específico do amor é excluir do amor existente a qualidade mediadora de seu objeto, sempre relativamente geral, que provocou o amor por ele. Ele permanece como intenção direta e centralmente dirigida para esse objeto, e revela a sua natureza verdadeira e incomparável nos casos em que sobrevive ao desaparecimento indubitavelmente do que foi sua razão de nascer. Essa constelação, que engloba inúmeros graus, desde a frivolidade até a mais alta intensidade, é vivida segundo o mesmo modelo, seja em relação a uma mulher ou a um objeto, a uma ideia ou a um amigo, à pátria ou a uma divindade. Isso deve ser solidamente estabelecido em primeiro lugar, se quisermos elucidar em sua estrutura seu significado mais restrito, o que se eleva no terreno da sexualidade. A ligeireza com que a opinião corrente alia instinto sexual a amor lança talvez uma das pontes mais enganadoras na paisagem psicológica exageradamente rica em construções desse gênero. Quando, ademais, ela penetra no domínio da psicologia que se dá por científica, temos com demasiada frequência a impressão de que esta última caiu nas mãos de açougueiros. Por outro lado, o que é óbvio, não podemos afastar pura e simplesmente essa relação. Nossa emoção sexual desenrola-se em dois níveis de significação. Por trás do arrebatamento e do desejo, da realização e do prazer sentidos subjetivos, delineia-se, consequência disso tudo, por fim a reprodução da espécie. Pela propagação contínua do plasma germinal, isto é, a vida corre, concreta e infinitamente, atravessando todos estágios ou levada por eles de ponta a ponta.  

Por mais insuficiente, por mais preso a um estreito simbolismo humano que esteja o conceito de objetivo e de meios em presença da misteriosa realização da vida, devemos qualificar essa emoção sexual de meio de que a vida se serve para a manutenção da espécie, confiando aqui a consecução desse objetivo não mais a um mecanismo (no sentido lato do termo) mas a mediações psíquicas. Enfim, a pulsão, dirigida a princípio, tanto no sentido genérico quanto no sentido hedonista, ao outro sexo enquanto tal, parece ter diferenciado cada vez mais seu objeto, à medida que seus suportes se diferenciavam, até singularizá-lo. Claro, a pulsão não se torna amor pelo simples fato de sua individualização; esta última pode ser refinadamente hedonista, ou instinto vital-teleológico para o parceiro apto a procriar os melhores filhos.  Mas, indubitavelmente, ela cria uma disposição formativa e, por assim dizer, um marco para essa exclusividade que constitui a essência do amor, mesmo quando seu sujeito se volta para uma pluralidade de objetos. Não duvidamos em absoluto que no seio do que se chama “atração dos sexos” constitui-se o primeiro factum, ou, se quiserem, a “prefiguração do amor”.    

A vida se metamorfoseia também nessa produção, traz sua corrente à altura dessa onda, cuja crista, porém, sobressai livremente acima dela. Se considerarmos o processo social de conhecimento e construção social da vida absolutamente como um dispositivo de meios a serviço desse objetivo - a vida – e se levarmos em conta o significado simplesmente efetivo do amor para a propagação da espécie, então este também é um dos meios que a vida se dá para si e a partir de si. A noção de causa é, na origem, o caso do litígio, depois a ocorrência em que surge um acontecimento. A coisa, de mesma origem, é a questão a tratar. A palavra “ordem” exprime primeiro a fórmula do comando e o resultado ordenado. O termo estigma e seus sinônimos ocultam uma dupla perspectiva de âmbito social. Assume o estigmatizado que a sua característica distintiva já é conhecida ou é imediatamente evidente ou então que ela não é nem conhecida pelos presentes e nem imediatamente perceptível por eles? 

No primeiro caso, conceitualmente, está-se lidando com a condição real de desacreditado, no segundo com a condição em tese do desacreditável. Esta é uma diferença importante, socialmente, mesmo que um indivíduo estigmatizado em particular tenha, provavelmente, experimentado ambas as situações.  Todavia, para o sociólogo Erving Goffman, podem-se mencionar três tipos característicos de estigmas diferentes. Em primeiro lugar, há as abominações do corpo – as várias deformidades físicas. Em segundo, as culpas de caráter individual, percebidas como “vontade fraca”, “paixões tirânicas”, ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade pragmática intelectual, sendo essas inferidas a partir de relatos etnográficos conhecidos de, por exemplo, distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, “homossexualismo”, “homoerotismo”, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político-afetivo radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, etnia, minorias, nação e ceticismo que podem ser transmitidos de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família. A relação sexual converte-se em um desejo de estar no corpo do outro, um viver e um ser vivido por ele numa fusão de corpos que se prolonga como ternura por suas fraquezas, suas ingenuidades, seus defeitos e imperfeições. Não importa mesmo quem seja essa pessoa, física ou abstratamente, pois na paixão nasce uma força terrível que nos leva à fusão e nos torna insubstituíveis, únicos um para o outro. 

O ente amado se converte naquele que não pode ser senão ele - o absolutamente especial. E isso acontece mesmo contra a nossa vontade, e apesar de acreditarmos por algum tempo que podemos viver sem ele, e que podemos encontrar essa mesma felicidade em outra pessoa qualquer. Mas não ocorre bem assim. Basta uma breve separação para termos a certeza de que este amado é portador de algo inconfundível, algo que sempre nos faltou, que se revelou através dele e que sem ele não podemos encontrar de novo, enfim, que represente simbolicamente a diversidade e a unicidade de quem amamos. Os fatos sociais por si mesmos, só aparentemente nos demonstram que nossa sexualidade de manifesta de maneira comum, quotidiana e de maneira extraordinariamente, afetiva, descontínua. A sexualidade se transforma quase que habitualmente por no meio de ação social normal pelo qual a vida explora as fronteiras do impossível, os horizontes do imaginário individual do sonhador e da natureza ecologicamente, mas o que é revelador, acidental ou não, é que estamos diante do estado nascente progressivamente de compreensão da vida. Essa sexualidade, segundo Alberoni (1986), especialista nesta questão relacional, está vinculada à inteligência e à fantasia, ao ardor, à paixão propriamente dita; enfim, está em estado de fusão com tudo isso ao nosso redor. Mas a sua natureza é de subverter, transformar, romper os laços exteriores.

E Eros é uma força revolucionária, ainda restrita a duas pessoas. Por isso mesmo, não se pode direcionar a sexualidade extraordinária de acordo com o nosso desejo, visto que ela determina nossos ciclos vitais ou tentativas de mudança, e por essa razão é perigosa. Apesar de a sexualidade ser para nós uma aspiração permanente e uma fonte constante de nostalgia, temo medo dela. Para nos defendermos do medo de amar, usamos a mesma palavra para indicar o Eros e a sexualidade quotidiana, ou seja, o comer e o beber do sexo sobre o qual fazemos pesquisas demoscópicas para descobrirmos sempre as mesmas coisas que já sabemos, mas que nos tranquilizamos porque nos revelam que também os outros vivem os mesmos sofrimentos humanos diante de nosso quotidiano. Quer dizer, no enamoramento, a pessoa mais simples e limitada vê-se obrigada, para se exprimir, a usar a linguagem da poesia, da sacralidade e do mito.  É assim, porque na sacralidade do mito também nasceram da experiência extraordinária que é o comum de diversos movimentos. Em verdade o enamoramento desafia as instituições sociais de seus fundamentos presentes de valor. Sua natureza reside em não ser um simples desejo ou capricho pessoal, mas um portador de projetos e criador de instituições. 

           Em todos esses exemplos de estigma, inclusive aqueles que os gregos tinham em mente, encontram-se as mesmas características sociológicas: um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social quotidiana possui um traço que se pode impor a atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma característica diferente da que havíamos visto. Nós e os que não se afastam negativamente das expectativas particulares em questão serão chamados de normais pelo sociólogo norte-americano Erving Goffman. Ele afirma: - as atitudes que nós, aparentes normais, temos com uma pessoa com um estigma, e os atos que empreendemos em relação a ela são bem conhecidos na medida em que são as respostas que a ação social benevolente tenta suavizar e melhorar. Por definição é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em diferenças sociais. Utilizamos termos específicos de estigma culturalmente como “aleijado”, “bastardo”, “retardado”, em nosso discurso diariamente como fonte extraordinária e eloquente de metáfora de poder e representação sociológica, de maneira característica, sem pensar no terror de seu sentido e significado originalmente na vida cotidiana.          

            A nossa sexualidade urbana, cristã, pequeno-burguesa é composta de sentimentos e emoções. Através da linguagem corporal se comunicam socialmente sentimentos de afeto, carinho e ternura. O contato corporal não só ajuda a preparar o organismo para a relação coital, mas tem sentido em si mesmo, enquanto expressa cuidado, atenção e desejo de agradar a outra pessoa amada. Esses momentos de comunicação íntima precisam ser preparados na vida cotidiana através de relações sociais em que predominam a atenção, a disponibilidade, a compreensão e o serviço. Daí em diante muito acontecimentos envolvem o casal e as pessoas do entorno vão nos conquistando cada vez mais. É bem verdade que podemos pensar nas diversas coisas que o protagonista poderia fazer com tais poderes. Mas não é a consciência do próprio sujeito que neste sentido passa a atribuir significado ao espaço/tempo no qual está inserido. A vida ganha uma dimensão de responsabilidade para com a condução do destino da espécie humana, bem como com relação ao domínio da natureza em suas várias formas de manifestação.  O tempo que as separa equivale a várias gerações e ultrapassa a capacidade da memória individual (o sonho) e coletiva (os mitos, os ritos, os símbolos). As unidades de geração desenvolvem perspectivas, reações e posições políticas e afetivas diferentes em relação a um mesmo dado problema. O nascimento em um contexto social idêntico, mas em um período específico, faz surgirem diversidades nas ações de percepção dos sujeitos. Outra característica é a adoção de estilos de vida distintos pelos indivíduos, mesmo vivendo em um mesmo âmbito social. Em outras palavras: a unidade geracional constitui uma adesão mais concreta em relação àquela estabelecida pela conexão geracional.

          O ser humano cria instituições como a escola, a igreja e o Estado a partir das quais vai gerenciar a vida em sociedade e tais instituições passam a ter a legitimidade de sua atuação amparada em argumentos e motivos típicos racionalmente válidos. Paternidade é um conceito que vem do latim paternĭtas e que diz respeito à condição de ser pai. Isto significa que o homem que tenha tido um ou mais filhos acede à paternidade. É importante destacar que a paternidade transcende o biológico. A filiação pode acontecer através da adopção, convertendo a pessoa em pai do seu filho mesmo que este não seja seu descendente de sangue. Num sentido semelhante, o homem que doa sémen para que uma mulher se insemine não se transforma não se transforma no pai da futura criança. A paternidade, por outro lado, pode ser espiritual ou simbólica. No âmbito da religião, é considerado líder o guia de uma congregação como o “pai” dos fiéis. O papa da Igreja católica apostólica romana tende a designar-se como Santo Pai. Ipso facto, é na paternidade que se revela a profundidade do ser, é participando da criação que o homem se realiza por aderir à alegria do saber diante da realização de um projeto humano. Mediante a paternidade, o homem tem a chance de preencher aquele anseio que, desde a infância, o incita a ter grandeza na vida. Contudo, desde Karl Mannheim, sabemos que a paternidade não ocorre somente no processo geracional, mas em toda formação desse ser. 

A cada fase da criança, há uma nova oportunidade do pai se reinventar, na medida do possível para melhor a si próprio na condução da vida em sociedade. Oswald Spengler inscreve-se no historicismo alemão, como um dos integrantes destacados desta geração extraordinária de intelectuais alemães, ao lado de um Max Weber, Georg Simmel e Friedrich Meinecke. E Oswald Spengler é historicista em quase todos os pontos de vista relevantes de sua obra. É refratário à ideia ainda existente, em sua época de utilizar os modelos oriundos das concepções ciências naturais para as concepções filosóficas das humanidades. Ressalta a necessidade do historiador, sociólogo, ou crítico de arte, compreender o objeto de pensamento, atitude fundamentalmente diferente do característico método dos cientistas. Entende que as consciências são produto do contexto em que vivem e têm seus horizontes da imaginação social por eles limitados. O historicismo assume uma posição decididamente relativista. Neste sentido, todos os valores de uma cultura estão inexoravelmente ligados a esta cultura, não sendo necessariamente válidos para outra. Oswald Spengler, como elide com tudo em Le Déclin de D’occident (1976), leva-o às últimas consequências e o faz de maneira explícita. Nada escapa à passagem do tempo e a mudança do espaço, vinculado a instituições como a moral, o Direito, a arte, e mesmo a física e as matemáticas e suas pretensões de validez universal. O filósofo sistemático, diz ele “comete um erro muito grave ao considerar seus resultados como duradouros. 

Esquece o fato de que todos os pensamentos vivem num mundo histórico e, por isso, partilham do destino geral da efemeridade”. E vaticina: “Não há verdades eternas. Cada filosofia é expressão de seu tempo, e só dele”. Já não se aceita a legitimidade de uma decisão ou ação social com justificativas extrassensoriais que apelem para divindades ditas superiores, entendidas tanto no sentido para alcançar o bem ou para alcançar o mal. A angústia e a esfera da política como sentimento primário do homem, e mesmo prontamente a conjuração do numinoso, de onde resulta que a religião in statu nascendi é a primeira forma de representação do saber e a ciência e a política, enquanto houver homens, a última. O termo “eloquência” é, na oratória e redação, a forma de falar ou escrever fluente, preciso, elegante e persuasivo. Passa-se a compreensão de grandes emoções com uma linguagem marcante, mas adequada. Os gregos antigos tinham em Calíope “a musa da eloquência”, cujo patrono era o deus Hermes.  Na Roma Antiga houve a figura de Cícero, “considerado o mais eloquente orador da Antiguidade”. Embora em sua origem historicamente os termos eloquência, retórica e oratória significassem apenas “falar”, os especialistas admitem que possuem conceitos distintos. A eloquência tem corriqueiramente várias acepções: pode significar o discurso de convencimento, quando então seu significado é igual à da retórica antiga; também pode significar genericamente um conjunto de discursos proferidos, como quando se diz “a eloquência jurídica argentina”, diz na verdade dos discursos neste domínio ali proferidos; também pode estar ligado a um dom, algo que o orador possui naturalmente, então trata-se de uma “eloquência natural” e, finalmente, a eloquência consiste na apreciação valorativa de um discurso, ou, como indicativo de sua qualidade. 

No século XVIII a popularização da imprensa e surgimento e difusão das enciclopédias e dicionários levou a uma busca de convencimento não mais pela “ars disserendi”, mas também comparativamente pela lógica filosófica hegeliana; em contrapartida é neste período que surge uma profusão de livros específicos que tratam da eloquência ou reproduzem largamente os discursos, o que avançou pelos séculos seguintes. Na América atualmente, afirma, Goffman, entretanto, os sistemas de honra separados parecem estar decadentes. O indivíduo estigmatizado tende a ter as mesmas crenças sobre identidade que nós temos; isso é um fato central. Seus sentimentos mais profundos sobre o que ele é podem confundir a sua sensação de ser uma “pessoa normal”, um ser humano como qualquer outro, uma criatura, portanto, que merece um destino agradável e uma oportunidade legítima. A característica central da situação de vida, do indivíduo estigmatizado pode, agora, certamente ser explicada. É uma questão que se articula do que é com frequência social, embora vagamente, chamado de “aceitação”. Aqueles indivíduos que têm relações sociais com ele não conseguem lhe dar o respeito e a consideração que os aspectos não contaminados de sua identidade social os haviam levado a prever e que ele havia previsto receber; ele fez ecoar essa negativa descobrindo que alguns de seus atributos a garantem. A questão mais significativa é: como a pessoa estigmatizada responde a tal situação social? Em alguns casos lhe seria possível tentar corrigir diretamente o que considera a base objetiva de seu defeito, tal quando uma pessoa fisicamente deformada se submete a uma cirurgia plástica, uma pessoa cega a um tratamento ocular, um analfabeto corrige sua educação e um “homossexual” faz psicoterapia. Aqui, deve-se mencionar a predisposição à “vitimização” como um resultado da exposição da pessoa estigmatizada a servidores que vendem meios para corrigir a fala, para clarear a cor da pele, para esticar o corpo, para restaurar a juventude, curas pela fé e meios para obter fluência na conversação. 

Quer se trate de uma técnica metodológica, prática ou de fraude, a pesquisa frequentemente secreta, dela resultante, revela, de maneira especificamente quando, os extremos a que os estigmatizados estão dispostos a chegar e a situação que os leva a tais extremos. A sexualidade na Idade Média era centrada no homem e girava em torno da ideia de que o pênis de um homem era necessário para uma atividade sexual satisfatória. A falta de atenção dada ao lesbianismo (cf. Goodich (1979), Goffman (1981), Richards (1991), Jordan, 1997) na Idade Média pode derivar dessa crença, de que, contanto que um vibrador ou outro objeto em forma de pênis não fosse usado em relacionamentos lésbicos, então o relacionamento não era considerado totalmente sexual. Muitos dos escritos que tratam do lesbianismo na Europa medieval provêm de textos religiosos. O texto mais antigo que demonstra a desaprovação da Igreja em relação ao lesbianismo vem dos escritos de São Paulo aos Romanos. Em suas cartas, ele afirma: “as mulheres trocaram as relações naturais pelas relações contrárias à natureza, e da mesma forma os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros… e receberam em si mesmos a devida punição pelo seu erro”. Embora Paulo não descreva explicitamente as relações lésbicas entre mulheres, ele afirma que essa é uma escolha profana e que as mulheres que cometem esses atos “antinaturales” serão punidas, presumivelmente pela vontade de Deus. Esta é uma das primeiras descrições do lesbianismo que detalha como os líderes da Igreja se sentiam em relação ao que era descrito como relações “antinaturales”.

A mentalidade da Igreja em relação ao lesbianismo também se refletiu no surgimento dos penitenciais. Entretanto, os penitenciais eram guias usados ​​por líderes religiosos e leigos das comunidades para lidar com questões em uma comunidade mais ampla. A sexualidade da mulher medieval começava antes do casamento, ainda jovem e virgem, principalmente entre as elites políticas, cujas mães arranjavam os casamentos. O casamento entre nobres era frequentemente uma instituição essencialmente econômica, tradicionalmente baseada em política, riqueza material e status social. No entanto, não era incomum que jovens homens e mulheres criassem relacionamentos com atração sexual em mente. As mulheres demonstravam sua disponibilidade para o casamento através do cabelo, que era um grande símbolo de sexualidade na Idade Média e frequentemente era mantido escondido após o casamento. As mulheres medievais deixavam o cabelo crescer ao longo da vida. As mulheres casadas mantinham os cabelos longos presos em tranças sob algum tipo de cobertura para a cabeça. As solteiras deixavam o cabelo solto, sinalizando que estavam disponíveis para o casamento.

Os valores medievais sobre a virgindade eram uma construção social, e as memórias de virgens eram comuns em histórias populares, letras de música, romances e poemas, bem como em dramas bíblicos, sermões e manuscritos iluminados. Existem grandes extensões de registros seculares que revelam as atitudes conflitantes da sociedade medieval em relação à fornicação fora do casamento, onde “perder a virgindade” era, em certos casos, severamente punido, especialmente quando resultava em gravidez: “João, filho de Nicolau, o clérigo, fornicou ridiculamente com Júlia Redes. Ambos comparecem, confessam e são açoitados uma vez da maneira usual no mercado. A mulher está grávida”. Uma passagem semelhante menciona um certo William Trumpour, que teve relações sexuais com Joana de Gyldesum em 1363: - Ela confessou o artigo e abjurou o pecado sob pena de seis chicotadas. Ela recebeu três chicotadas por sua confissão. A mulher disse que o homem a prometeu em casamento e prometeu casar-se com ela. O homem negou isso sob juramento e imediatamente depois prometeu sob juramento que, se dali em diante ele a conhecesse carnalmente, ele a teria como esposa. A mulher, da mesma forma, prometeu que, se dali em diante ela permitisse que ele a conhecesse carnalmente, ela o teria como marido.  Contudo, parece que medidas tão drásticas para garantir a moralidade pública eram mais raras nesse período do que em épocas posteriores; o sexo pré-marital era tolerado publicamente em um nível muito maior do que o adultérioDe acordo com o The Decameron Web (2024): “...parece que a atividade sexual desenfreada era bastante comum em toda a Europa durante esses tempos. De fato, a maioria não acreditava que a fornicação fosse pecado, e muitos eram pegos de surpresa na confissão quando os padres os informavam que de fato haviam pecado ao cometer certos atos sexuais. 

São Vicente Ferrer (1350-1419) afirmou que, aos quinze anos, todos os jovens já haviam perdido a virgindade... embora o sexo pré-marital fosse obviamente considerado pecaminoso pela Igreja, na realidade, uma vez que os casais ficavam noivos, muitas vezes dormiam juntos durante uma espécie de período de teste antes do casamento. Dessa forma, se um ou ambos não estivessem satisfeitos com os resultados, ainda poderiam tentar se desvencilhar do consentimento futuro para o casamento (às vezes tornando-se padrinhos da mesma criança, uma relação que levaria a uma união incestuosa)”. Grande parte da literatura popular medieval satirizava a suposta frouxidão moral das classes baixa e média, especialmente o campesinato, revelando que tais travessuras eram consideradas divertidas e não eram severamente reprovadas. A crença comum era de que “as populações rurais eram muito mais tolerantes com o comportamento sexual ilícito e que os camponeses eram vistos como muito mais livres sexualmente do que os habitantes urbanos”. Por exemplo, Os Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer (1343-1400), inclui muitas passagens desse tipo que ainda hoje chocam e seriam extremamente tabu na era vitoriana. Ainda assim, a ênfase na virgindade existia em muito maior grau para as mulheres do que para os homens. Era possível que uma mulher perdesse a virgindade e fosse considerada santa, como evidenciado pela proliferação de “Rainhas Santas” durante a Alta Idade Média: essas mulheres eram elogiadas por dedicarem suas vidas a obras e caridade. Um exemplo notável é a Rainha Matilda da Escócia, esposa do Rei Henrique I, que foi descrita como “uma mulher de santidade excepcional, rivalizando em piedade com sua mãe e, em seu próprio caráter, isenta de toda influência maligna”.

No entanto, se uma mulher não fosse virgem, era menos provável que fosse considerada para a santidade. Uma vez casados, a importância da fidelidade estava diretamente relacionada à “honra da mulher” e ao seu reconhecimento do controle masculino sobre sua sexualidade. Esperava-se que um homem transformasse sua esposa de virgem em mulher, consumando o casamento, idealmente com uma gravidez. Enquanto um casamento não consumado estava sujeito à anulação, uma vez que a mulher perdesse a virgindade com o marido, o casamento consumado era permanente. Os problemas sexuais dentro de um casamento, especialmente como explicação para um “casamento não consumado”, existiam na alegação de “uma mulher de impotência do marido e incapacidade de penetrá-la ou na alegação de um homem de que a vagina da sua esposa era muito estreita ou que estava de alguma forma bloqueada”.  De acordo com o pensamento hipocrático aceite na medicina, a conceção só podia ocorrer se a mulher sentisse prazer durante o sexo, pelo que a lei tendia a equiparar o prazer ao consentimento. As leis sobre sexo dentro do casamento eram tendenciosas contra as mulheres e, em geral, também eram escritas pela Igreja ao consentimento, uma vez que um homem e uma mulher estivessem casados ​​por dois meses, “as autoridades eclesiásticas confirmariam o direito do marido de consumar o casamento”.

Assim, a troca simbólica de consentimento entre os cônjuges era suficiente para vincular legalmente um casamento, de acordo com a Igreja. Embora o consentimento dos pais, a presença de uma testemunha e/ou um sacerdote oficiante fossem importantes para declarar o casamento completo, era o consentimento sexual que realmente importava. No entanto, o Schwabenspiegel alemão permitia que uma mulher com mais de vinte e cinco anos se envolvesse em atividade sexual sem o consentimento de seu pai ou ameaça de perda da herança. Para complicar ainda mais a situação, a Lei Sálica impedia que as mulheres herdassem terras, o reinado e propriedades desde o início em muitos reinos da Europa Ocidental. O consentimento era presumido e declarado para sempre após dois meses de casamento, tornando impossível que uma mulher casada fosse legalmente estuprada pelo marido. O estupro, aos olhos da lei, era um grande problema para as mulheres que sofriam agressões. De acordo com uma Sessão de Paz de Yorkshire em 1363, Elias Warner de Malton estuprou criminosamente Ellen Katemayden de Malton “e deitou-se com ela contra a sua vontade, agredindo-a e espancando-a de tal forma que ela morreu nos três dias seguintes (...) Elias, trazido pelo xerife, compareceu perante os juízes. Os jurados (...) declararam sob juramento que o referido Elias não era de forma alguma culpado do referido crime... Portanto, o referido Elias foi absolvido, etc.”.

Este é apenas “um exemplo de homens medievais sendo absolvidos por estupros, sequestros e agressões. Os tribunais seculares e eclesiásticos pouco faziam para proteger as mulheres em casos de violência sexual, especialmente se a mulher engravidasse”. No mundo cristão medieval, algumas teorias sustentavam que as mulheres obtinham muito mais prazer de um encontro sexual do que os homens e tinham um apetite sexual muito maior. Como resultado, alguns clérigos ensinavam que os homens assumiam mais responsabilidade pelo pecado sexual do que as mulheres, uma vez que as mulheres eram “mais fracas” e menos capazes biologicamente de resistir aos seus impulsos. No entanto, isso também poderia ser usado como uma razão para manter as mulheres sob um controle mais rígido do que os homens. As mulheres frequentemente lidavam com um duplo padrão em relação ao tratamento da sua sexualidade em comparação com a dos homens. A filosofia cristã medieval dizia às mulheres que, como filhas de Eva, elas eram responsáveis ​​pela queda da humanidade devido ao seu pecado inato, e esse desprezo generalizado permeava todas as facetas de suas vidas, incluindo a sexualidade. Além disso, o preconceito religioso contra as mulheres e a sexualidade feminina permeava o conhecimento jurídico, intelectual e médico. O conhecimento médico da época baseava-se nas ideias do escritor Galeno, do século III, e sustentava que o útero feminino era frio e necessitava do calor do sêmen masculino tanto para a concepção quanto para a saúde em geral. A fragilidade da mulher em resistir aos seus desejos físicos era um obstáculo à concepção, uma vez que ela ignorava as condições ideais para engravidar, e o excesso de sexo podia inflamar o desejo feminino, tornando-a insaciável. 

Era importante ter relações sexuais com moderação para garantir a saúde e o cumprimento de sua função reprodutiva. Acreditava-se que as mulheres solteiras deveriam encontrar um marido o mais rápido possível, sob o risco de sofrerem sérias consequências para a saúde. Às mulheres solteiras que eram impedidas pela luxúria, recomendava-se que fizessem exercícios regularmente e tomassem remédios. Caso contrário, deveriam procurar uma parteira que lubrificasse os dedos com óleo vegetal, os inserisse em sua vagina e os “movesse vigorosamente”. Escritores cristãos medievais reconheciam o prazer sexual feminino e muitos acreditavam que, para conceber um filho, a mulher precisava atingir o orgasmo. Essa crença derivava do modelo galênico de reprodução social humana, que sustentava que a concepção ocorria devido à união do sêmen masculino e feminino, ambos emitidos em resposta ao prazer sexual. Isso significava que a satisfação sexual da mulher era considerada importante. No entanto, devido a essa crença, indubitavelmente a concepção de uma criança resultante de estupro era frequentemente interpretada como evidência de que a mulher havia sentido prazer com a agressão. Alguns outros autores discordavam, argumentando que o prazer físico podia ocorrer mesmo sem o consentimento da mente.   Em geral, o consentimento da mulher não era o que definia o estupro, mas sim se o agressor havia ultrapassado os limites que lhe davam direito ao sexo; uma mulher casada não podia ser estuprada pelo marido, pois, como marido, ele tinha o direito de ter relações sexuais com ela. As leis da Igreja Católica e as leis seculares do período medieval misturavam-se, em geral, numa frente única. Qualquer preocupação da Igreja refletia-se automaticamente na preocupação do tribunal secular. A pureza suprema para a Igreja consistia em manter a virgindade ao longo da vida, mas se alguém tivesse de ter uma vida sexual só seria legítima para a procriação através do casamento. 

O pecado da imoralidade sexual feminina, o gosto por roupas extravagantes e a natureza petulante eram temas comuns dos sermões medievais. Teoricamente, muitas restrições limitavam as circunstâncias em que a atividade sexual era permitida. Por exemplo, o sexo era uma atividade proibida nos seguintes períodos: domingos, às vezes sextas e quartas-feiras, dias festivos dos santos, períodos de jejum como a Quaresma ou o Advento e durante a vida de uma mulher quando ela era considerada impura. Acreditava-se que a impureza ocorria durante a menstruação, a gravidez, os primeiros quarenta dias após o parto e durante a amamentação. Como o objetivo de uma mulher era dar à luz o maior número possível de filhos e amamentá-los até que tivessem boa saúde, dadas as restrições estabelecidas, uma mulher não teria muito tempo para se envolver em atividade sexual. As atividades sexuais consideradas morais no mundo cristão eram aquelas que se acreditava facilitarem a concepção. O encontro sexual normativo posicionava o homem por cima, embora a mulher não precisasse necessariamente estar deitada. Os atos sexuais não procriativos eram considerados sodomia; a acusação de sodomia era tão grave que teria sido julgada no tribunal secular e possivelmente sujeita a pena de morte. 

No entanto, evidências de práticas que provavelmente preveniam ou interrompiam uma gravidez demonstram que a contracepção era compreendida e comumente utilizada. As mulheres usavam poções, amuletos e misturas de ervas e especiarias para evitar a gravidez. Alguns manuais que davam conselhos sobre como garantir a fertilidade são tão detalhados em suas descrições do que deveria ser evitado por uma mulher que deseja engravidar, que podem ter fornecido conselhos contraceptivos de forma dissimulada. As posições dos teólogos medievais e dos funcionários da igreja sobre as questões da contracepção e do aborto não eram uniformes; na verdade, muitas vezes tinham opiniões opostas. Alguns líderes da igreja, como João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, condenaram o uso de contraceptivos e até compararam a prática ao assassinato. No entanto, uma posição comum entre as autoridades religiosas e os teólogos era a da tolerância. Alguns determinavam que os embriões não podiam ser reconhecidos como indivíduos até um estágio mais avançado de desenvolvimento, quando começavam a desenvolver “características humanas reconhecíveis”. O período entre a concepção e esses estágios posteriores do desenvolvimento do feto era considerado um momento apropriado para induzir um aborto. Em alguns tratados de direito canônico, a motivação por trás da prática de usar contraceptivos ou induzir um aborto era um fator importante para determinar o grau de pecado que a mulher estava cometendo. Uma mulher que fazia um aborto devido à incapacidade de cuidar adequadamente da criança não era considerada tão pecadora quanto uma mulher que usava o aborto para ocultar evidências de adultério ou relações sexuais pré-matrimoniais. Outro aspecto importante da sexualidade feminina que preocupava os tribunais era a prostituição

Uma mulher que vendia serviços sexuais durante a Idade Média era, em teoria, malvista pela Igreja por cometer um pecado, mas, em princípio e na prática, as autoridades acreditavam que a prostituição era um mal necessário e uma utilidade pública para impedir que os homens cometessem pecados piores. Não havia uma abordagem única para a prostituição medieval; a maneira como era tratada variava de cidade para cidade. Cada cidade geralmente lidava com a prostituição humana tornando-a ilegal, regulamentando e tributando a troca de serviços sexuais ou institucionalizando-a com o estabelecimento de bordéis municipais. Esses bordéis geralmente tinham regulamentos rígidos para os proprietários, funcionários (como os contadores) e prostitutas. Esses regulamentos incluíam leis que determinavam o horário de funcionamento do bordel, o valor do pagamento a que as prostitutas tinham direito, quando podiam sair e com quem podiam ter relacionamentos pessoais. Algumas leis, no entanto, favoreciam as prostitutas, como as leis que as protegiam da violência cometida pelos proprietários dos bordéis. O estabelecimento desses bordéis foi justificado com o argumento de que era o “mal menor”. Ao dar aos homens a opção de ter relações sexuais com uma prostituta, acreditava-se que se estava salvando mulheres respeitadas da corrupção, do estupro e da sodomia. Também se acreditava que disponibilizar mulheres atraentes para os homens terem relações sexuais reduziria as práticas homossexuais. Essencialmente, a regulamentação e a legalização da prostituição não visavam o bem-estar das prostitutas, mas sim o bem dos habitantes da cidade. Embora a discussão sobre como lidar com o lesbianismo não fosse mencionada nesses penitenciais, havia um conceito geral de que as relações lésbicas eram um pecado menor do que a homossexualidade masculina.

Um desses penitenciais que menciona as consequências da atividade lésbica foi o Paenitentiale Theodori, um manual penitencial do início da Idade Média baseado nos julgamentos do Arcebispo Teodoro de Cantuária o oitavo Arcebispo de Cantuária. Há três cânones principais mencionados em relação à homossexualidade feminina: 12. Se uma mulher praticar vício com outra mulher, deverá fazer penitência por três anos. 13. Se praticar vício sozinha, deverá fazer penitência pelo mesmo período. 14. A penitência de uma viúva e de uma menina é a mesma. Aquela que tem marido merece uma pena maior se cometer fornicação. De acordo com seus cânones, Teodoro considera as atividades lésbicas um pecado menor, como a fornicação, e não um pecado sexual mais grave como o adultério. Mulheres e meninas solteiras eram julgadas com menos severidade por terem um estado civil de solteiras e não possuírem outra forma de satisfação sexual. Mulheres casadas, que tinham parceiros sexuais dispostos em seus maridos, eram julgadas com mais rigor por buscarem satisfação sexual por meio de uma forma “não natural”. Figuras religiosas ao longo dos séculos XII e XIII continuaram a ignorar o conceito de lesbianismo, mas na Suma Teológica de São Tomás de Aquino, em seu texto sobre a luxúria, discute que a homossexualidade feminina se enquadra em uma das quatro categorias de atos não naturais. Existiam duas situações médicas associadas ao lesbianismo na Europa medieval. Uma delas era o acúmulo de “sêmen” no útero da mulher, que, devido à falta de relações sexuais, causava a asfixia uterina.

A cura para essa asfixia consistia em uma parteira aplicar objetos quentes na mulher e levá-la ao orgasmo. Isso a ajudaria a reter o sêmen do homem. A ideia de uma mulher levar outra ao orgasmo era considerada moralmente errada pelos líderes religiosos e, no século XIII, defendia-se que o casamento era a solução para esse problema, em vez da estimulação manual. A segunda enfermidade era a ragadia uterina, caracterizada pelo crescimento de tecido carnoso resultante de relações sexuais ou parto, podendo, por vezes, crescer na parte externa da vagina. As leis contra o lesbianismo na Europa medieval não eram tão difundidas quanto as leis contra a homossexualidade masculina. Embora não tão grave, o lesbianismo ainda representava uma ameaça à ordem social centrada no homem. Era frequentemente ignorado no direito secular, mas há uma exceção reconhecida. Escrito por volta de 1260, o tratado jurídico francês Li Livres de jostice et de plet prescrevia que, se condenada por sodomia: “A mulher que fizer isso deverá sofrer mutilação (na primeira e segunda) ofensa e, na terceira, deverá ser queimada”. Esta é uma das poucas leis reconhecidas historicamente que especificam as consequências para as mulheres que se envolvem em atividade sexual lésbica. No século XIII, o lesbianismo foi equiparado à sodomia e, sujeito a pena semelhante. Os tribunais seculares não processavam casos de lesbianismo, porque “as leis que os levariam a julgamento praticamente não existiam”.

            Na cidade de Pescia, Itália, no século XVII, a jovem Benedetta Carlini (1590-1661) é matriculada pelos pais em um convento teatino administrado pela abadessa Felicita, para se tornar freira. Dezoito anos depois, enquanto interpretava a Virgem Maria em uma peça, Benedetta tem uma visão de Jesus chamando-a. Um dia, uma jovem camponesa chamada Bartolomea busca refúgio no convento, fugindo do pai abusivo. Benedetta é encarregada de supervisionar a integração de Bartolomea à vida conventual. Naquela noite, Bartolomea beija Benedetta. Benedetta começa a ter visões recorrentes de Jesus. Após uma visão particularmente perturbadora, na qual um homem que ela confunde com Jesus a salva de um estupro coletivo, Benedetta adoece gravemente. Felicita designa Bartolomea para cuidar dela. Benedetta tem outra visão de Cristo, que lhe pede para se despir e tocar suas mãos. Na manhã seguinte, ela acorda com estigmas nas palmas das mãos e nos pés. Segue-se uma investigação. Felicita está cética porque os estigmas de Benedetta se manifestaram enquanto ela dormia, não durante a oração, e sua testa não apresenta as marcas de uma coroa de espinhos. Do lado de fora dos aposentos de Felicita, Benedetta desmaia. Ela começa a falar com uma voz masculina raivosa, repreendendo aqueles que duvidam dela, enquanto feridas sangrentas aparecem em sua testa.

A Irmã Cristina, filha de Felicita, suspeita que os ferimentos de Benedetta sejam autoinfligidos, após encontrar um caco de vidro próximo. Após uma disputa entre Felicita e os líderes da igreja local sobre como lidar com o interesse popular nas visões de Benedetta, Benedetta é elevada ao cargo de abadessa no lugar de Felicita. Benedetta e Bartolomea se mudam para os antigos aposentos da Felicita e iniciam um relacionamento sexual, usando posteriormente um vibrador esculpido por Bartolomea a partir da estatueta de madeira da Virgem Maria de Benedetta. Em confissão, Cristina mente para o padre, dizendo ter visto Benedetta inflingir-lhe ferimentos na testa. No dia seguinte, o padre obriga Cristina a tornar públicas as suas acusações. Questionada pelo padre, Felicita refuta as alegações de Cristina, pois esta já lhe havia admitido que não vira os ferimentos serem autoinfligidos. Benedetta, aparentemente possuída pelo espírito de Jesus, ordena que Cristina se autoflagele. Mais tarde, a Felicita observa vigilantemente Benedetta e Bartolomea a terem relações sexuais nos seus aposentos através de um buraco na fechadura. Humilhada, Cristina atira-se do telhado do convento, cometendo suicídio.

O que significa, inicialmente, que o domínio do sexo não será mais colocado, exclusivamente, sob o registro da culpa e do pecado, do excesso ou da transgressão e sim no regime que, aliás, nada mais é do que sua transposição do normal e do patológico; define-se pela primeira vez, uma morbidez própria do sexual; o sexo aparece como um campo de alta fragilidade patológica: superfície de repercussão para outras doenças, mas também centro de uma nosografia própria, a do instinto, das tendências, das imagens, do prazer e da conduta. O que quer dizer, também, que a confissão ganhará sentido e se tornará necessária entre as intervenções médicas: exigida pelo médico, indispensável ao diagnóstico e eficaz, por si mesma na cura. A verdade cura quando dita a tempo, quando dita a quem é devido e por quem é, ao mesmo tempo, seu detentor e responsável.  Enfim, consideremos os grandes marcos históricos: em ruptura com as tradições da ars erotica, nossa sociedade constituiu uma scientia sexualis. 

Mais precisamente atribuiu-se a tarefa de produzir discursos verdadeiros sobre o sexo, e isto tentando ajustar, não se dificuldade, o antigo procedimento da confissão às regras do discurso científico. A scientia sexualis, desenvolvida a partir do século XIX, paradoxalmente, guarda como núcleo o singular rito da confissão obrigatória e exaustiva, que constituiu, no Ocidente cristão, a primeira técnica para produzir a verdade do sexo. Desde o século XVI este rito fora desvinculado do sacramento da penitência e, por intermédio da condução das almas e da direção espiritual – ars artium – emigrou para a pedagogia, para as relações entre adultos e crianças, para as relações familiares, a medicina e a psiquiatria. Nas relações de poder, a sexualidade não é o elemento mais rígido, mas um dos dotados da maior instrumentalidade: utilizável no maior número de manobras, e podendo servir de apoio, de articulação às mais variadas estratégias. Em todo caso, há quase cento e cinquenta anos, um complexo dispositivo foi instaurado para produzir discursos verdadeiros sobre o sexo: um dispositivo que abarca amplamente a história, pois vincula a velha injunção da confissão aos métodos da escuta clínica. E, através desse dispositivo, pode aparecer algo como a “sexualidade” enquanto verdade do sexo e de seus prazeres. A “sexualidade” é o correlato dessa prática discursiva desenvolvida lentamente, que é a scientia sexualis. As características fundamentais dessa sexualidade não traduzem uma representação mais ou menos confundida pela ideologia, ou um desconhecimento induzido pelas interdições; correspondem às exigências funcionais do discurso que deve produzir sua verdade. 

No ponto de interseção entre uma técnica de confissão e uma discursividade científica, foi preciso encontrar entre elas alguns grandes mecanismos de ajustamento (técnica de escuta, postulado de causalidade, princípio de latência, regra da interpretação, imperativo de medicalização), a sexualidade foi definida como sendo, “por natureza”, um domínio penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização; um campo de significações a decifrar; um lugar de processos ocultos por mecanismos específicos; um foco de relações causais infinitas, uma palavra obscura que é preciso, em tempo, desencavar e escutar. Enquanto uma peste começa a devastar a região, Benedetta tem uma visão de que Pescia será poupada e ordena o fechamento da abadia para evitar a infecção. Felicita viaja secretamente a Florença para denunciar as indiscrições sexuais de Benedetta ao núncio papal local. Enquanto isso, Benedetta morre repentinamente por causas desconhecidas. Pouco depois de Felicita retornar à abadia com o núncio, Benedetta recobra a consciência, dizendo que esteve no céu e viu o destino de todos os presentes. O núncio, como representante do papa, abre um inquérito sobre a conduta de Benedetta. Bartolomea inicialmente nega qualquer envolvimento sexual com Benedetta, mas, após ser torturada pelos homens do núncio, acaba confessando a verdade, levando o núncio a encontrar o vibrador de madeira escondido em um recorte de um grande livro. 

Ele manda prender Benedetta; falando novamente com voz masculina, ela ataca aqueles que a perseguem, anunciando que o núncio logo adoecerá. O núncio descobre que Felicita está com peste e ordena que sua condição seja mantida em segredo. Bartolomea é expulsa da abadia. Na praça da cidade, antes de ser executada, Benedetta revela novos estigmas e, falando com voz masculina, anuncia a aproximação do Anjo da Morte. Felicita, revelando sua doença, culpa o núncio por trazer a peste para Pescia. Miguel é o anjo da morte, levando a alma de todos os falecidos para o céu. Neste papel, na hora da morte, Miguel desce e dá à alma uma chance de se redimir antes da morte, atrapalhando assim o diabo e seus asseclas. As orações católicas em geral se referem a este papel de Miguel. O caos se instala quando os moradores impedem os homens do núncio de queimar Benedetta na fogueira. Bartolomea desamarra Benedetta e descobre um caco de cerâmica ensanguentado a seus pés. O núncio é morto por uma multidão enfurecida, Benedetta e Bartolomea fogem da cidade e Felicita se imola na fogueira acesa para a execução de Benedetta. Em um estábulo abandonado nos arredores da cidade, após passar a noite com Bartolomea, Benedetta insiste que precisa retornar ao convento. Bartolomea implora que ela fique e tenta fazê-la admitir que fingiu seus estigmas, mas se recusa e, em vez disso, retorna para Pescia. Um epílogo revela que viveu na abadia até sua morte, aos 70 anos, e que a peste poupou Pescia.

Bibliografia Geral Consultada.

RICHARDS, Jeffrey, Sexo, Desvio e Danação: As Minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993; PAGLIA, Camille, Vampes & Vadias. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Francisco alves, 1996; JORDAN, Mark, A Invenção da Sodomia na Teologia Cristã. Chicago: University of Chicago Press, 1997; PUFF, Helmut, Sodomia na Alemanha e Suíça da Reforma, 1400-1600. Chicago: University of Chicago Press, 2003; AMER, Sahar, Benedetta Carlini. Cruzando Fronteiras: O Amor entre Mulheres nas Literaturas Medievais Francesa e Árabe. Filadelfia: University of Pennsylvania Press, 2008; DEMETRIO, Duccio, Educare è Narrare. Le Teorie, le Pratiche, la Cura (a cura di). Milano: Mimesis Edizioni, 2012; CADDEN, Joan, Nada Natural é Vergonhoso: Sodomia e Ciência na Europa do Final da Idade Média. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2013; SCHWARCZ, Lilia Moritz, “Biografia como Gênero e Problema”. In: História Social, 17(24), 51–73, 2014; MILLS, Robert, Vendo a Sodomia na Idade Média. Chicago: University of Chicago Press, 2015; DIEM, Albrecht, “Ensinando Sodomia em um Mosteiro Carolíngio: Um Estudo de Visio Wettini de Walahfrid Strabo e Heito”. In: German History 34 (2016), pp. 385-401; ARAUJO, Patrícia Simone de, Metamorfoseando A Vida: A Escrita Autobiográfica de Herculine/Abel Martin (1838-1868). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de História. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2020; BOVO, Claudia Regina; BAYARD, Adrien, “Histórias Conectadas da Idade Média: Abordagens Globais Antes de 1600”. In: Esboços: Histórias em Contextos Globais, vol. 27, n° 44, 2020; GOMES, Thiago Henrique Fernandes Leão, Violência e Moral Religiosa em Martin Scorsese: Sonhos e Pesadelos de Contracultura. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas. Mariana: Universidade Federal de Ouro Preto, 2021; MENDES, Hernani Guimarães, Send Nudes: Estudos para Corpos-imagens. Tese de Doutorado em Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes. Centro de Educação e Humanidades. Instituto de Artes. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2023; MELO, Adriana Andrade, Inconstitucionalidade e Direito à Autodeterminação da Identidade de Gênero Diante da Dignidade Humana. Dissertação de Mestrado. Programa de Mestrado Cientifico em Direito e Ciências Jurídicas. Faculdade de Direito. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2025; entre outros.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento & Ativismo Real Ambiental.

       O dinheiro não nos dá prazer, mas a ausência dele nos causa dor”. Sigmund Freud

Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento, tem como representação social um filme estadunidense de 2000, um drama biográfico, dirigido por Steven Soderbergh, com roteiro de Susannah Grant baseado na história real de Erin Brockovich. Do ponto de vista cinematográfico, Erin (Julia Roberts) é a mãe de três filhos que trabalha num pequeno escritório de advocacia. Quando descobre que a água de uma cidade no deserto está sendo contaminada e espalhando doenças entre seus habitantes, ela “convence seu chefe a deixá-la investigar o assunto pessoalmente”. A partir de então, utilizando-se de todas as suas qualidades naturais, desde a fala macia e convincente até seus atributos sensuais físicos, consegue convencer os cidadãos da cidade a cooperarem com ela, fazendo com que tenha em mãos um processo administrativo de 333 milhões de dólares com o propósito de indenizações. Natural da cidade de Nova Iorque (EUA), Suzana Grant estudou na Faculdade Amherst e frequentou o Conservatório AFI, um programa de Mestrado em Belas Artes de cinco períodos semestrais em seis disciplinas. De 1994 a 1997, ela trabalhou na televisão como produtora e principal roteirista da série dramática Party of Five, da Fox. Ela escreveu os roteiros de filmes como Para Sempre Cinderela; Erin Brockovich, dirigido por Steven Soderbergh; 28 Dias e Pocahontas, da Disney.

Por Erin Brockovich, ela recebeu uma indicação ao Oscar em 2001. Soderbergh nasceu em Atlanta, filho de Mary Ann (Bernard) e Andrew Peter Soderbergh, que era educador profissionalmente e administrador da universidade. Seu avô paterno era um sueco, imigrante de Estocolmo. Quando era criança, sua família se mudou de Atlanta para Charlottesville, cidade Virgínia, Estados Unidos da América, onde conviveu durante a sua adolescência. Um filme biográfico ou cinebiografia, relata etnograficamente a vida de uma pessoa real, no plano da existência, geralmente dramatizando e explorando os seus principais acontecimentos. O termo é derivado do inglês “biographical motion picture”, abreviado para “biopic”, ipso facto também reconhecido no jargão do cinema sob este anglicismo, é um filme que dramatiza a vida de uma personalidade real. Na maioria das vezes, relata a vida de um personagem do passado, sem que necessariamente se trate de uma figura de importância histórica. Esses filmes demonstram a vida de uma personagem e o nome verdadeiro do protagonista às vezes é usado. Filmes biográficos essenciais são: A Lista de Schindler, Bruna Surfistinha, Milk e Sete Dias com MarilynErin Brockovich, nascida Erin Pattee em Lawrence, em 22 de junho de 1960, uma cidade norte-americana no estado do Kansas, condado de Douglas, do qual é sede. 

Foi fundada em 1854 e incorporada em 1858, é uma técnica jurídica e ativista ambiental e dos direitos do consumidor norte-americana. Sem qualquer instrução formal ou curso de Ensino Superior, foi fundamental para a construção de um processo legal contra a Pacific Gas and Electric Company (PG&E), da Califórnia, Estados Unidos da América em 1993. O caso de sucesso jurídico foi tema do filme realizado em 2000, Erin Brockovich, estrelado por Julia Roberts. Desde então, Erin se tornou uma celebridade da televisão, apresentando um programa, Challenge America with Erin Brockovich na American Broadcasting Company (ABC), um conglomerado de radiodifusão que opera a rede de televisão ABC nos Estados Unidos. Também é uma empresa muito conhecida, mas diferente da rede de televisão ABC, de propriedade da The Walt Disney Company. É uma das principais redes de televisão dos Estados Unidos, junto com a CBS e a NBC. É a presidente da Brockovich Research & Consulting e consultora da Girardi & Keese, da firma de advocacia Weitz & Luxenberg, que trabalha com os danos causados por amianto e da Shine Lawyers, da Austrália. Erin Pattee nasceu em Lawrence, Kansas, em 1960, filha de Betty Jo (1923–2008), jornalista, e Frank Pattee (1924–2011), engenheiro e jogador de futebol americano esporte jogado por dois times de onze jogadores em um campo retangular com traves em cada extremidade. A equipe de ataque, com a posse da bola oval, tenta avançar pelo campo correndo com a bola ou lançando-a, enquanto a defesa, que não possui a bola, tenta impedir o avanço e tomar o controle da bola para si. O futebol é um jogo caracterizado pela “conquista de território”.     

O casal teve três outros filhos, Frank Jr., Thomas (1954–1992) e Jodie. Erin se formou no Ensino Médio na Lawrence High School e ingressando posteriormente na Universidade Estadual do Kansas, onde se formou em um curso técnico de Artes Plásticas. Trabalhou como gerente júnior em uma loja Kmart, em 1981, mas saiu depois de alguns meses para participar de um concurso de miss. Ela ganhou o título de Miss Costa Oeste dos Estados Unidos, também conhecida por Costa do Pacífico (Pacific Coast), designa geralmente os três estados mais ocidentais do grupo de estados contíguos: Califórnia, Oregon e Washington. O Arizona e o Nevada, embora interiores, são por vezes incluídos na Costa Oeste devido à proximidade com o Pacífico e por razões econômicas e culturais. Outras opções fazem incluir no grupo o Alasca e o Havaí. Mas no ano seguinte se mudou para a Califórnia. Erin foi casada três vezes: Shawn Brown, (1982–1987 divórcio), Steven Brockovich (1989–1990 divórcio) e Eric L. Ellis (1998–2012 divórcio). Erin tem quatro filhos. O caso contra a PG&E (Anderson, et al. v. Pacific Gas and Electric, arquivo BCV 00300) alegava contaminação de água potável por cromo hexavalente (“chromium VI”, “Cr-VI” ou “Cr-6”), no Sul da Califórnia, no município de Hinkley. Uma instalação em Hinkley, construída em 1952 como parte de gasoduto que conectava a cidade com a região da baía de São Francisco estava no centro da polêmica da principal questão de sobrevivência no planeta Terra. Entre os anos de 1952 e 1966, a PG&E usou o cromo VI nos tanques de resfriamento para combater a corrosão do metal. A água descartada nas torres era então “despejada sem tratamento em lagos do lado de fora, que começaram a percolar pelo solo até ao lençol freático”.

O processo contra a empresa foi vencido recentemente em 1996, em um valor de 333 milhões de dólares, o maior valor já pago em uma ação direta na história econômica, social ou política dos Estados Unidos. Masry & Vititoe, o escritório de advocacia para o qual Erin trabalhava na época como assistente jurídica, recebeu 133 milhões no acordo e Erin em si recebeu 2,5 milhões por seu trabalho. Dados estatísticos de um estudo de 2010 do California Cancer Registry afirmaram que os registros de câncer na região de Hinkley de 1988 a 2008 permaneceram normais depois que a empresa foi processada e obrigada a limpar a área e a indenizar os moradores. No entanto, em junho de 2013, a revista Mother Jones apresentou uma crítica do Center for Public Integrity ao trabalho do autor Jonh W. Morgan, um matemático estadunidense, que trabalha com topologia e geometria algébrica e personagem ligado à indústria, nos estudos epidemiológicos posteriores, e que a área afetada de Hinkley tinha sido demolida em 1996, além de outras falhas. Apesar de tudo isto, a história está longe de terminar e as águas de Hinkley continuam fortemente contaminadas. Em 2000 estreou o filme Erin Brockovich que narra o processo pelo qual ela se tornou famosa. Estrelado por Julia Roberts e dirigido por Steven Soderbergh e o papel social de Erin, Julia ganhou o Oscar de Melhor Atriz. Assim o próprio pensar é objeto, logo objeto de si mesmo, então o homem é por si. A racionalidade produz o racional, o pensar produz os próprios pensamentos. 

O que o ser em si é se manifesta no ser por si. Todo conhecer, todo aprender, toda visão, toda ciência, inclusive toda atividade humana, não possui nenhum outro interesse além do aquilo que filosoficamente é em si, no interior, podendo manifestar-se desde si mesmo, produzir-se, transformar-se objetivamente. Nesta diferença se descobre toda a diferença na história do mundo. Os homens são todos racionais. O formal desta racionalidade é que o homem seja livre. Esta é a sua natureza. Isto pertence à essência do homem: a liberdade. O europeu sabe de si, afirma Hegel, é objeto de si mesmo. A determinação que ele conhece é a liberdade. Ele se conhece a si mesmo como livre. O homem considera a liberdade como sua substância. Se os homens falam mal de conhecer é porque não sabem o que fazem. Conhecer-se, converter-se a si mesmo no objeto (do conhecer próprio) e o fazem relativamente poucos. Mas o homem é livre somente se sabe que o é. Pode-se também em geral falar mal do saber, como se quiser. Mas somente este saber libera o homem. O conhecer-se é no espírito a existência. Portanto isto é o segundo, esta é a única diferença da existência (Existenz) a diferença do separável. O Eu é livre em si, mas também por si mesmo é livre e eu sou livre somente enquanto existo como livre. A terceira determinação é que o que existe em si, e o que existe por si são somente uma e mesma coisa. Isto quer dizer precisamente evolução. O em si que já não fosse em si seria outra coisa. Por conseguinte, haveria ali uma variação, mudança. Na mudança existe algo que chega a ser outra coisa. Na evolução, em essência, podemos também sem dúvida falar da mudança, mas esta mudança deve ser tal que o outro, o que resulta que é analogamente ainda idêntico ao primeiro, de maneira que o simples, o ser em si não seja negado.

Friedrich Hegel que parte da análise da consciência comum, não podia situar como princípio primeiro uma dúvida universal que só é própria da reflexão filosófica. Por isso mesmo ele segue o caminho aberto pela consciência e a história detalhada de sua formação. A Fenomenologia vem a ser uma história concreta da consciência, sua saída da caverna e sua ascensão à Ciência. Daí a analogia que em Hegel existe de forma coincidente entre a história da filosofia e a história do desenvolvimento do pensamento, mas este desenvolvimento é necessário, como força irresistível que se manifesta lentamente através dos filósofos, que são instrumentos de sua manifestação primeira. Assim, preocupa-se apenas em definir os sistemas, sem discutir as peculiaridades e opiniões dos diferentes filósofos. Na determinação do sistema, o que o preocupa é a categoria fundamental que determina o todo complexo do sistema, e o assinalamento das diferentes etapas, bem como as vinculasses destas etapas que conduzem à síntese do espírito absoluto. Para compreender o sistema é necessário começar pela representação, que ainda não sendo totalmente exata permite, no entender de sua obra a seleção de afirmações e preenchimento do sistema abstrato de interpretação do método dialético, para poder alcançar a transformação da representação numa noção clara e exata. Temos a passagem da representação abstrata, para o conceito claro e concreto através do acúmulo de determinações. Aquilo que por movimento dialético separa e distingue perenemente a identidade e a diferença, sujeito e objeto, finito e infinito, é a alma vivente das coisas, a Ideia Absoluta que é a força geradora, a vida e o espírito eterno.

Mas a Ideia Absoluta seria uma existência abstrata se a noção de que procede não fosse mais que uma unidade abstrata, e não o que é em realidade, isto é, a noção que, por um giro negativo sobre si mesma, revestiu-se novamente de forma subjetiva. Metodologicamente a determinação mais simples e primeira que o espírito pode estabelecer é o Eu, a faculdade de poder abstrair todas as coisas, até sua própria vida. Chama-se idealidade precisamente esta supressão da exterioridade. Entretanto, o espírito não se detém apenas na apropriação, transformação e dissolução da matéria em sua universalidade, mas, enquanto consciência religiosa, por sua faculdade representativa, penetra e se eleva através da aparência dos seres até esse poder divino, uno, infinito, que conjunta e anima interiormente todas as coisas, enquanto pensamento filosófico, como princípio universal, a ideia eterna que as engendra e nelas se manifesta. Isto quer dizer que o espírito finito se encontra inicialmente numa união imediata com a natureza, a seguir em oposição com esta e finalmente em identidade com esta, porque suprimiu a oposição e voltou a si mesmo e, consequentemente, o espírito finito é a ideia, mas ideia que girou sobre si mesma e que existe por si em sua própria realidade. A Ideia absoluta que para realizar-se colocou como oposta a si, à natureza, produz-se através dela como espírito, que através da supressão de sua exterioridade entre em relação com a natureza, e, depois, ao encontrar a si mesma nela, torna-se consciência de si, espírito que conhece a si mesmo, suprimindo a distinção entre sujeito e objeto, chegando a Ideia a ser por si e em si, tornando-se unidade perfeita de suas diferenças, sua absoluta verdade. 

Com o surgimento do espírito através da natureza abre-se a história da humanidade e a história humana é o processo que medeia entre isto e a realização do espírito consciente de si. A filosofia hegeliana centra sua atenção sobre esse processo e as contribuições mais expressivas de Hegel ocorrem precisamente nesta esfera, do espírito. Melhor dizendo, para Hegel, à existência na consciência, no espírito chama-se saber, conceito pensante. O espírito é também isto: trazer à existência, isto é, à consciência. Como consciência em geral tenho eu um objeto; uma vez que eu existo e ele está na minha frente. Mas enquanto o Eu é o objeto de pensar, é o espírito precisamente isto: produzir-se, sair fora de si, saber o que ele é. Nisto consiste a grande diferença: o homem sabe o que ele é. Logo, em primeiro lugar, ele é real. Sem isto, a razão, a liberdade não são nada. O homem é essencialmente razão. O homem, a criança, o culto e o inculto, é razão. Ou melhor, a possibilidade para isto, para ser razão, existe em cada um, é dada a cada um. A razão não ajuda em nada a criança, o inculto. É somente uma possibilidade, embora não seja uma possibilidade vazia, mas possibilidade real e que se move em si. Assim, por exemplo, dizemos que o homem é racional, e distinguimos muito bem o homem que nasceu somente e aquele cuja razão educada está diante de nós. Isto pode ser expresso também assim: o que é em si, na filosofia primeira, tem que se converter em objeto para o homem, chegar à consciência; assim para ele e para si mesmo. A história para Hegel, de forma magistral e ineludível é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. Deste modo o homem se duplica. Uma vez, ele é razão, é pensar, mas em si: outra, ele pensa, converte este ser, seu em si, em objeto do pensar.

Historicamente a evolução não somente faz aparecer o interior originário, exterioriza o concreto contido já no em si, e este concreto chega a ser por si através dela, impulsiona-se a si mesmo a este ser por si. O espírito abstrato assim adquire o poder concreto da realização. O concreto é em si diferente, mas logo só em si, pela aptidão, pela potência, pela possibilidade. O diferente está posto ainda em unidade, ainda não como diferente. É em si distinto e, contudo, simples. É em si mesmo contraditório. Posto que é através desta contradição impulsionado da aptidão, deste este interior à qualidade, à diversidade; logo cancela a unidade e com isto faz justiça às diferenças. Também a unidade das diferenças ainda não postas como diferentes é impulsionada para a dissolução de si mesma. O distinto (ou diferente) vem assim a ser atualmente, na existência. Porém do mesmo modo que se faz justiça à unidade, pois o diferente que é posto como tal é anulado novamente. Tem que regressar à unidade; porque a unidade do diferente consiste em que o diferente seja um. E somente por este movimento é a unidade verdadeiramente concreta. É algo concreto, algo distinto. Entretanto contido na unidade, no em si primitivo. O gérmen se desenvolve assim, não muda. Se o gérmen fosse mudado desgastado, triturado, não poderia per se evoluir. Na alma, enquanto determinada como indivíduo, as diferenças estão enquanto mudanças que se dão no indivíduo, que é o sujeito uno que nelas persiste em momentos do seu desenvolvimento.

Por serem elas diferenças, à uma, físicas e espirituais, seria preciso, para determinação ou descrição mais concreta, antecipar a noção do espírito cultivado. As diferenças são: 1) curso natural das idades da vida, desde a criança, desde a criança, o espírito envolvido em si mesmo – passando pela oposição desenvolvida, a tensão de uma universalidade ela mesma ainda subjetiva em contraste com a singularidade imediata, isto é, como o mundo presente, não conforme a tais ideais, e a situação que se encontra, em seu ser-aí para esse mundo, o indivíduo que, de outro lado, está ainda não-autônomo e em si mesmo não está pronto (o jovem) – para chegar à relação verdadeira, ao reconhecimento da necessidade e racionalidade objetivas do mundo já presente, acabado; em sua obra, que leva a cabo por si e para si, o indivíduo retira, por sua atividade, uma confirmação e uma parte, mediante a qual ele é algo, tem uma presença efetiva e um valor objetivo (homem); até a plena realização da unidade com essa objetividade: unidade que real, vem dar na inatividade da rotina que tira o interesse, enquanto ideal se liberta dos interesses é das complicações do presente exterior (o ancião).  

Em seguida, mudou-se para Baton Rouge, Louisiana, onde seu pai tornou-se decano da Educação na Universidade Estadual de Louisiana (LSU). Quando adolescente ele reconheceu o cinema, dirigindo curtas-metragens com uma câmera Super 8, equipamento emprestado de estudantes da LSU. Soderbergh também desenvolveu, eventualmente, free-lancer como editor de filmes. A Universidade do Estado da Luisiana, em inglês: Louisiana State University and Agricultural & Mechanical College é a mais antiga universidade pública e uma das mais prestigiosas universidades do estado norte-americano da Luisiana. A universidade foi fundada em 1860 na cidade de Pineville como um Seminário Teológico e Academia Militar e passou por diversas reformas para expandir seu quadro técnico e educacional, tornando-se umas das principais universidades do Sul estadunidense. Como um dos principais centros de pesquisa científica da região onde se situa, a Universidade da Luisiana é classificada como nível técnico-metodológico “R1” no sistema Classificação Carnegie, indicando “alta atividade de pesquisa” pela instituição. É um padrão para categorizar faculdades e universidades, baseado em vários critérios programáticos e sociais, incluindo o tipo especificamente de valor através do diplomas concedidos, financiamento para pesquisa e atividade de pesquisa, enquadramento de perfis do corpo docente e ofertas acadêmicas.

A classificação, criada pela Fundação Carnegie para o Avanço do Ensino, visa descrever as instituições de forma a facilitar a compreensão do seu trabalho e impacto social. O campus principal da Universidade da Luisiana encontra-se na capital Baton Rouge, sendo considerado um dos mais bem elaborados campi universitários dos Estados Unidos. A propriedade se expande por cerca de 650 acres de terra às margens do rio Mississippi e exibe grandes carvalhos seculares - muitos deles adotados singularmente por famílias que contribuem para a sua conservação - e diversas magnólias, a flor símbolo da Louisiana. Steven Soderbergh tornou-se famoso por executar de forma policompetente várias funções de um mesmo filme, como direção de fotografia, edição, direção e roteiro. Como a WGA, Writers Guild of America (Sindicato de Roteiristas dos Estados Unidos) é um esforço conjunto de dois diferentes sindicatos dos Estados Unidos que representam os roteiristas da televisão e cinema: O Writers Guild of America, East (WGAE) com sede em Nova Iorque e o Writers Guild of America, West (WGAW) com sede em Los Angeles.

Ambos organizam em conjunto o Writers Guild of America Award, ipso facto, proíbe que o cineasta exerça múltiplas funções dentro de um filme, ele assina sob diferentes pseudônimos. Em 2001 tornou-se o terceiro diretor a ser indicado ao Oscar de melhor diretor por dois filmes, Traffic e Erin Brockovich, o primeiro foi Victor Fleming, no ano de 1939 e o segundo foi Francis Ford Coppola no ano de 1974 por O Poderoso Chefão - Parte II e A Conversação. Entrou no universo da direção quando filmou um espetáculo do grupo de rock Yes, o que lhe rendeu uma indicação ao Grammy. O vídeo do show foi o 9012 Live, em 1986. Foi também o vencedor mais novo da Palma de Ouro no Festival de Cannes, realizado em 1989, por seu trabalho no filme de estreia de carreira, Sexo, Mentiras e Videoteipe (1989). Em 2006 lançou um plano ousado de distribuição de filmes, que tem seis experiências. O primeiro foi Bubble, um filme sem importância a não ser pelo fato de que, além do cinema, também foi, simultaneamente, lançado em DVD e na televisão paga. Esse fato ocorreu, em parte, pela mudança de costumes das pessoas no mundo, já que alugam mais DVDs, assistem mais vídeos na web, também baixam filmes e veem muita televisão (aberta ou paga) do que simplesmente ir ao cinema. Ele, que veio do meio cinematográfico independente, se justificou, dizendo que o espectador, quer ter “mais controle sobre as formas de ver filmes; é um processo irreversível”.

O mérito cinematográfico em relação ao tema biográfico, diz respeito exatamente ao fato sociológico de que o pensamento objetivo ignora o sujeito social da percepção. Isso ocorre por que ele se dá o mundo sensitivo inteiramente pronto, como meio de todo o conhecimento possível, e trata a percepção como um desses acontecimentos. O sujeito perceptivo é o lugar dessas coisas. Pois, vista do interior, a percepção não deve nada àquilo que nós sabemos de outro modo sobre o mundo, sobre os estímulos tais como a Física os descreve e sobre os órgãos dos sentidos, tais como a Biologia os descreve. Em primeiro lugar, ela não se apresenta como um acontecimento no mundo ao qual se possa aplicar, por exemplo, a categoria de causalidade, mas a cada momento como uma re-criação ou uma re-constituição do mundo. Se acreditamos em um passado do mundo, no mundo físico, nos “estímulos”, no organismo tal como nossos livros o representam, é primariamente porque temos um campo perceptivo presente e atualmente, uma superfície de contato com o mundo ou perpetuamente enraizada nele, é porque sem cessar ele vem assaltar e investir a subjetividade, assim como as ondas envolvem um destroço na praia.  Todo saber se instala nos horizontes abertos pela percepção. Não se trata de descrever a própria percepção como um dos fatos que se produzem no mundo, já que a percepção é a representação da “falha” deste “grande diamante”. Certamente, não queremos perder de vista que o intelectualismo per se representa um progresso na tomada de consciência: aquele lugar fora do mundo empirista e onde ele situava para descrever o acontecimento da percepção recebe agora um nome, figura na descrição.

Dentre outras características da água, destacam-se seu alto calor latente de vaporização, sua elevada capacidade térmica, além da considerável mudança de propriedades entre água líquida a baixas e altas temperaturas. Conforme água resfriada é aquecida, a velocidade do som através de si cresce, seu volume diminui, seu índice de refração aumenta, a solubilidade de gases se torna maior e a condutividade térmica passa a crescer. Contudo, se água quente é aquecida, ocorre exatamente o oposto. A água possui, ainda, uma alta tensão superficial, menor somente que a tensão superficialmente do mercúrio dentre os líquidos comuns. Muitas destas propriedades são também atribuídas às ligações de hidrogênio entre as moléculas. Pelo fato de a molécula de água não ser linear e a eletronegatividade do oxigênio ser maior do que a do hidrogênio, ocorre o aparecimento de regiões positivas e negativas na própria molécula sendo uma molécula polar. Por este motivo, a água é um ótimo solvente para substâncias iônicas, como sais, ácidos e bases. As ligações de hidrogênio contribuem para solubilidade de compostos que possuem hidrogênio ou oxigênio em sua composição. Pelo mesmo motivo, proteínas e partículas minúsculas podem ser mantidas em suspensão na água, formando um coloide. A água é um solvente para alguns gases e substâncias orgânicas.

Entretanto, graxas e óleos não se dissolvem em água. Na proporção em que ocorre uma reação química, as moléculas de água podem doar um próton (H+), formando uma hidroxila, OH-, ou receber um próton, formando o hidroxônio, H3O+. De fato, as moléculas de água doam e recebem prótons entre si, o que é chamado na nomenclatura de autoionização da água. Embora ocorra em pequena extensão, este fenômeno é determinante, pois permite que a água aja como ácido ou base em uma dada reação. Pela presença desses íons, a água possui uma pequena condutividade elétrica. A água em sua fase sólida forma o gelo. Em geral a estrutura cristalina é formada por uma rede de moléculas orientadas conforme as pontes de hidrogênio. Entretanto, este arranjo pode se dar de diversas formas, sendo conhecidas pelo menos 17 formas cristalinas diferentes para o gelo, cada uma formada sob diferentes condições de temperatura e pressão. Nas condições comumente encontradas na Terra, forma-se o gelo ih, no qual as moléculas se arranjam em estruturas hexagonais. Em 2016, uma equipe de pesquisa previu uma nova forma molecular de gelo com uma baixa densidade recorde. Se o gelo puder ser sintetizado, se tornaria a forma cristalina reconhecida de água. Analogamente a densidade do gelo é menor do que a da água líquida, e, portanto, flutua na mesma.

O ponto triplo de água, ou seja, as condições nas quais a água pode coexistir tanto em estado físico, sólido ou gasoso, são à temperatura de 0,01 °C e pressão de 612 Pa. A ebulição da água sob as condições ambiente de pressão (1 atm.) ocorre a 100 °C, dando origem ao chamado “vapor de água”. A 373,9 °C e pressão de 22,064 MPa, ocorre o ponto crítico, além do qual não há a distinção comunicacional entre as fases líquida e gasosa caracterizando, portanto, o que é interpretado como processo de um “fluido supercrítico”. As propriedades da água sob tais condições são alteradas, ocorrendo mudanças tal como o aumento de sua reatividade química e de sua autodissociação. A água pode apresentar em sua composição isótopos dos elementos hidrogênio e oxigênio. A água pesada é formada por dois átomos de deutério, estáveis e não radioativos, e um de oxigênio, sendo que existe aproximadamente um átomo de deutério em cada 6 700 átomos de hidrogênio na água do mar. Recebe esta denominação pelo fato bioquímico e estatístico de que os átomos de deutério possuem maior massa resultando, assim, na maior densidade da água o que ocasiona, também, algumas pequenas diferenças a nível molecular. Uma proporção diminuta é ainda formada pela ligação entre hidrogênio e trítio, radioativo que decai com uma “meia vida” de aproximadamente doze anos. Essas variedades de água pesada são utilizadas principalmente em usinas de fissão nuclear, analisadas por Albert Einstein (1879-1955), extraordinário físico teórico alemão, considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos. Suas contribuições para a ciência incluem: A teoria da relatividade, que revolucionou a compreensão do espaço, tempo, gravidade e universo.

Na física, espaço-tempo é o sistema de coordenadas utilizado como base para o estudo da relatividade restrita e relatividade geral. O tempo e o espaço tridimensional são concebidos, em conjunto, como uma única variedade de quatro dimensões a que se dá o nome de espaço-tempo. Um ponto, no espaço-tempo, pode ser designado como um “acontecimento”. Cada acontecimento tem quatro coordenadas (t, x, y, z); ou, em coordenadas angulares, t, r, θ, e φ que dizem o local e a hora em que ele ocorreu, ocorre ou ocorrerá. Na mecânica clássica (não-relativista), o tempo é tomado como uma unidade de medida universal, uniforme por todo o espaço, e independente de qualquer movimentação nesse, enquanto que no contexto da relatividade especial, o tempo é tratado integralmente à dimensão espacial, pois a taxa observada da passagem do tempo depende da velocidade do objeto em relação ao seu observador. Pontos no espaço-tempo são chamados de eventos e são definidos por quatro números, por exemplo, (x, y, z, ct), onde c é a velocidade da luz e pode ser considerado como a velocidade que um observador se move no tempo. Isto é, eventos separados no tempo de apenas 1 segundo estão a 299 792 458 metros um do outro no espaço-tempo. Assim como utilizamos as coordenadas x, y e z para definir pontos no espaço em três dimensões, na relatividade especial utilizamos uma coordenada a mais para definir o tempo de acontecimento de um evento. A explicação do efeito fotoelétrico, fundamentalmente para o estabelecimento da teoria quântica. A demonstração da equivalência entre massa e energia, traduzida pela equação E=mc².  Contribuições para a Física Estatística, por meio da explicação para o movimento browniano, e claro, na fabricação de bombas de hidrogênio.

Dada sua importância, a água é utilizada como padrão para a definição de diversas grandezas físicas. Uma das definições de massa atribui a um kg a massa correspondente a um cubo com 10 cm de lado, isto é, o volume equivalente a um litro de água pura a 4 °C. Devido aos diferentes isótopos presentes na água, definiu-se, ainda, o teor médio de isótopos, de acordo com o teor comumente encontrado nos oceanos. E neste caso, um oceano compreende o componente principal de representação da superfície da Terra, constituído por água salgada. Forma a maior parte da hidrosfera: aproximadamente 71% da superfície da Terra, constituindo uma área em torno de 361 milhões de km. Mais do que a metade desta área tem profundidades maiores que 3.000 metros. A noção de oceano global, como um corpo contínuo de água para a oceanografia, e oceano terrestre para efeitos práticos da ideologia, é normalmente dividido em várias partes, demarcadas por continentes e grandes arquipélagos é a representação oficialmente adotada, desde 2000, pela Organização Hidrográfica Internacional, da qual países como o Brasil e Portugal são membros. Regiões menores dos oceanos são conhecidas como mares, golfos e estreitos. Em 20 de julho de 2009, cientistas do Centro Nacional de Dados Climáticos dos Estados Unidos da América, informaram à imprensa que os oceanos estão com a temperatura média de 17 °C, a mais alta desde 1880, quando se iniciou os registros. O estudo e pesquisa dos oceanos em torno geologicamente da Terra são chamados cientificamente de oceanografia. As viagens na superfície do oceano com o utilidade de uso social de botes datam de tempos pré-históricos, mas só nos últimos tempos as explorações submarinas se tornaram possíveis e comuns.

Para a consciência e a consciência filosófica considera que o pensamento que concebe constitui o homem real e, por conseguinte, o mundo só é real quando concebido, portanto, o movimento das categorias surge como ato de produção real – que concebe um simples impulso do exterior, o que é lamentado – cujo conteúdo é o mundo; e isto é exato na medida em que a totalidade concreta enquanto totalidade-de-pensamento, enquanto concreto-de-pensamento, é de fato um produto do pensamento, da atividade de conceber; ele não é pois, de forma alguma o produto do conceito que engendra a si próprio, que pensa exterior e superiormente à observação imediata e à representação, mas um produto da elaboração de conceitos a partir da observação imediata e da representação. O todo, afirma Marx, na forma em que aparece no espírito como todo-de-pensamento, é um produto do cérebro pensante, que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível, de um modo que difere da apropriação desse mundo pela arte, pela religião, pelo espírito prático. Antes como depois, o objeto real conserva a sua independência fora do espírito; e isso durante o tempo em que o espírito tiver uma atividade meramente especulativa, meramente teórica. Por consequência, nunca é demais repetir, também o emprego do método teórico é necessário que o objeto, a sociedade, esteja constantemente presente no espírito como dado primeiro. Em relação à propriedade, a categoria mais simples surge, pois, como a relação de comunidades simples de famílias ou de tribos.              

Na sociedade num estágio superior de trabalho, ela aparece como a relação mais simples de uma organização mais plenamente desenvolvida. Mas pressupõe sempre o substrato concreto que se exprime por uma relação de posse. O dinheiro pode existir e existiu historicamente antes de existir o capital, os bancos, o trabalho assalariado, etc. Nesse sentido, podemos dizer que a categoria de trabalho mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido ou, pelo contrário, relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que existiam já historicamente antes que o todo se desenvolvesse no sentido que encontra a sua expressão numa categoria concreta. Assim, abstração mais simples, que a economia política moderna coloca em primeiro lugar e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece, no entanto, sob esta forma abstrata como verdade prática enquanto categoria da sociedade mais moderna. Poder-se-ia dizer que esta indiferença constituída nas relações sociais em relacionadas a forma determinada de trabalho, no âmbito das relações capitalistas globalizadas, que se apresenta noutros países como produto histórico, se manifesta como uma disposição natural. Este exemplo do trabalho demonstra com toda evidência que até as categorias mais abstratas, ainda que válidas – precisamente por causa de sua natureza abstrata – para todas as épocas, não são menos, sob a forma determinada desta mesma forma filosoficamente de abstração, quer dizer, o produto de condições históricas e só se encontram plenamente te válidas nestas condições e no quadro de pensamento destas condições sociais.   

Para sermos breves, sabemos estatisticamente que os mares e oceanos cobrem mais de 75% da superfície terrestre. As profundidades que variam de alguns metros nas regiões litorâneas, a mais 11 km nas zonas mais profundas. Um dos aspectos mais importantes dos ecossistemas marinhos é sua grande estabilidade e homogeneidade no que se refere à composição química e temperatura. A salinidade dos mares é cerca de 3,5 g/L de sais, com predominância de cloreto de sódio. Os ecossistemas marinhos podem se distinguir em dois grandes domínios marinhos: um relativo ao fundo, o domínio bentônico; outro relativo às massas d’água, o domínio pelágico; A luz consegue penetrar no mar até a profundidade máxima de 200 metros, estabelecendo o que se denomina de zona fótica. Na metade superior desta zona iluminada vive o fitoplâncton marinho, formado por algas e bactérias fotossintetizantes. Elas produzem praticamente todo alimento necessário à manutenção da vida nos mares. Essa zona também é rica em plâncton não fotossintetizante e em grandes cardumes de peixes. A região que se estende dos 200 aos 2 mil metros de profundidade é a região batial com águas frias e rara em fauna. Os peixes, moluscos e alguns outros animais que vivem nessa zona são sustentados por matéria orgânica proveniente da superfície. Mais profundamente a penetração na região abissal, é a que se estende estatisticamente dos 2 mil metros aos 6 mil metros de profundidade. Nela encontram-se poucas espécies, que entretanto chamam atenção da esfera oceanográfica por suas características exóticas, tipificados como “peixes bentônicos bioluminescentes, por ação dos pirossomas e lulas gigantes”. 

A região mais profunda dos oceanos, abaixo dos 6 mil metros, é reconhecida como região hadal. Sua fauna ainda é pouco reconhecida, é constituída principalmente por esponjas e moluscos. O organismo planctônico possui baixa ou nenhuma capacidade de locomoção. Diferentemente do organismo bentônico, que ocupa fundos aquáticos e pode ser de vida livre ou sésseis. Dessa forma, esses organismos, subdivididos em fitoplâncton e zooplâncton, são transportados horizontalmente pelas correntes de água. O organismo nectônico é capaz de se deslocar de forma ativa no ambiente aquático. Mas, ao contrário dos bentos, não habita ambientes de substratos sólidos. De acordo com a sua forma de alimentação, os organismos bentônicos podem ser classificados em dois grandes grupos. O primeiro deles, chamado de fitobentos, é composto por organismos autótrofos, como algas. Em comparação com os outros seres bentônicos, esses organismos vivem em locais mais rasos e de águas claras. Isso porque dependem da luz para realizarem a fotossíntese. O outro grupo, reconhecido como zoobentos, é constituído por organismos heterótrofos, ou seja, que não produzem seu próprio alimento e precisam se alimentar de outros seres para obter energia. Conforme as suas características biológicas e sociais, esses organismos ainda podem ser divididos em microbentos, mesobentos e macrobentos. Crustáceos como camarões e caranguejos são exemplos de macroinvertebrados bentônicos. Também são exemplos comparativamente da categoria biológica de bentos os pepinos do mar, recifes de coral e estrelas do mar. O bento é de extrema importância biológica para os ecossistemas marinhos do mundo. 

Em biologia marinha, chama-se zona hadal, zona hadopelágica ou andar hadal ao ecossistema das fossas abissais, com mais de 6.000 m de profundidade. Trata da camada mais inferior da zona pelágica, abaixo da zona abissal. É o domínio dos seres abissais. A falta de luz e a intensa pressão criam condições de vida hostil. Por exemplo, no fundo da Fossa das Marianas, a 11 000 m de profundidade, a pressão atinge 1100 atmosferas. Nesses ambientes, os fitobentos garantem a disponibilidade de oxigênio e nutrientes, enquanto os zoobentos “atuam no processo de decomposição de matéria orgânica”. Ainda, todos os seres bentônicos participam da cadeia alimentar aquática, sendo alguns responsáveis pelo revolvimento do sedimento no fundo. Além de sua importância ecológica, os organismos bentônicos são frequentemente utilizados como bioindicadores da qualidade do ambiente. Isso porque existem muitas espécies sésseis e que se locomovem pouco. Isso faz com que sofram mais impactos do que outras capazes de nadar ativamente. Esse mesmo fator também contribui para uma maior facilidade de coleta de dados, facilitando as pesquisas. As comunidades bentônicas sofrem impactos diariamente decorrentes de atividades predatórias humanas. As principais ameaças a esses ecossistemas são em geral: aquicultura; pesca predatória; expansão de áreas urbanas e turismo; poluição; redução dos recursos hídricos; corte de madeira de manguezais; mudanças climáticas. É o Ego transcendental. Através disso, todas as teses do empirismo lógico encontram-se reviradas, o estado de consciência torna-se consciência de um estado, a passividade torna-se a posição de uma passividade, o mundo torna-se o correlativo pensamento do mundo e só existe para um constituinte.

E, todavia, permanece verdadeiro que o próprio intelectualismo se dá o mundo inteiramente pronto.  Ipso facto, o sujeito da percepção permanecerá ignorado enquanto não soubermos evitar a alternativa entre o naturante e o naturado, entre a sensação enquanto estado de consciência e enquanto consciência de um estado, entre a existência em si e a existência para si. Se o corpo próprio e o eu empírico são apenas elementos no sistema de experiência, objetos entre outros objetos sob o olhar do verdadeiro Eu, como pudemos algum dia confundir-nos com nosso corpo, como pudemos acreditar que víamos com nossos próprios olhos aquilo que na verdade apreendíamos por uma inspeção do espírito, como o mundo não é perfeitamente explícito diante de nós, por que ele só se desdobra pouco a pouco e nunca “inteiramente”, enfim como ocorre que nós percebamos? Nós só o compreenderemos se o eu empírico e o corpo não forem imediatamente objetos, nunca se tornarem totalmente objetos, se houver um  dizer que vejo o pedaço de cera com meus olhos e se, correlativamente, esta possibilidade de ausência, esta dimensão de fuga e de liberdade que a reflexão abre no fundo de nós e que chamamos de Eu transcendental em primeiro lugar não forem dadas e nunca puder dizer “Eu” absolutamente, e se todo ato de reflexão humana, toda tomada de posição voluntária se estabelecerem sobre o fundo e sobre a posição de uma vida de consciência pré-pessoal. O sujeito da percepção permanecerá ignorado enquanto não soubermos evitar a alternativa entre naturante e o naturado, isto é, entre a sensação enquanto estado de consciência e consciência de um estado, entre existência em si e a existência para si.

A psicologia indutiva, segundo Merleau-Ponty (2006), nos auxiliará a procurar para ela um novo estatuto, demonstrando que a sensação não é um estado ou uma qualidade, nem a consciência de um estado ou de uma qualidade. De fato, cada uma das pretensas qualidades – o vermelho, o azul, a cor, o som – está inserida em uma certa conduta. No normal, uma excitação sensorial, sobretudo as do laboratório que para ele quase não têm significação vital, mal modifica a motricidade geral. Mas as doenças do cérebro ou do córtex frontal evidenciam aquilo que poderia ser a influência das excitações sensoriais no tônus muscular se elas não estiverem integradas a uma situação de conjunto e se no normal não estivesse regulado em vista de certas tarefas privilegiadas. O gesto de levantar o braço, pode tomar como indicador da perturbação motora, é diferentemente modificado em sua amplitude e em sua direção por um campo visual vermelho, amarelo, azul ou verde. O vermelho e o amarelo, particularmente, favorecem os movimentos escorregadios, o azul e o verde os movimentos bruscos, o vermelho aplicado ao olho direito, por exemplo, favorece um movimento de extensão para o exterior do braço correspondente, o verde favorece um movimento de flexão e de recuo em direção ao próprio corpo. A posição privilegiada do braço – aquela em que o sujeito sente-o em equilíbrio ou em repouso -, que no doente é mais distanciada do corpo que no normal, é modificada pelas formas cores: verde leva para a vizinhança do corpo.

A cor do campo visual torna as reações do sujeito mais ou menos exatas, quer se trate de executar um movimento de uma amplitude dada ou de mostrar com o dedo um comprimento determinado. Com um campo visual verde, a apreciação é exata; com um campo visual vermelho, ela é inexata por excesso. Os movimentos para o exterior são acelerados pelo verde e atrasados pelo vermelho. A localização dos estímulos na pele é modificada pelo vermelho no sentido da abdução. O amarelo e o vermelho acentuam os erros na estimativa do peso e do tempo; nos cerebelosos, eles são compensados pelo azul e sobretudo pelo verde. Nessas diferentes experiências, cada cor age sempre no mesmo sentido, de forma que se pode atribuir a elas um valor motor definido. No conjunto, o vermelho e o amarelo são favoráveis à abdução, o azul e o verde à adução. Ora, de uma maneira geral, a adução significa que o organismo se volta para o estímulo e é atraído pelo mundo; a abdução, que ele se desvia do estímulo e retira-se para seu centro. Portanto, as sensações, as “qualidades sensíveis”, estão longe de se reduzir à experiência de um certo estado ou de um certo quale indizíveis, elas se oferecem com uma fisionomia motora, estão envolvidas por uma significação vital. Sabe-se há muito tempo que existe um “acompanhamento motor” das sensações, que os estímulos desencadeiam “movimentos nascentes” que se associam à sensação ou à qualidade e forma um halo em torno dela, que o “lado perceptivo” e o “lado motor” do comportamento se comunicam.

Assim, um sensível que vai ser sentido apresenta ao meu corpo uma espécie de problema confuso. É preciso que eu encontre a atitude quer vai lhe dar o meio de determinar-se e de tornar-se azul, é preciso que eu encontre a resposta a uma questão mal formulada. E, todavia, eu só faço à sua solicitação, minha atitude nunca é suficiente para fazer-me ver verdadeiramente o azul ou tocar verdadeiramente uma superfície dura. O sensível me restitui aquilo que lhe emprestei, mas é dele mesmo que eu o obtivera. Eu, que contemplo o azul do céu, não sou diante dele um sujeito acósmico, não o possuo em pensamento, não desdobro diante dele uma ideia azul que me daria seu segredo, abandono-me a ele, enveredo-me nesse mistério, ele “se pensa em mim”, sou o próprio céu que se reúne, recolhe-se e põe-se a existir para si, minha consciência é obstruída por esse azul ilimitado. – Mas o céu não é o espírito e não tem sentido algum dizer que ele existe para si? – Seguramente, o céu do geógrafo ou do astrônomo não existe para si. Mas do céu percebido ou sentido, subentendido por meu olhar que o percorre e o habita, meio de uma certa vibração vital que meu corpo adota, pode-se dizer que ele existe para si no sentido em que não é feito de partes exteriores, em parte do conjunto é “sensível” àquilo que se passa em todas as outras e as “conhece dinamicamente”. E, quanto ao sujeito da sensação, ele não precisa ser um puro nada sem nenhum peso terrestre. Isso só seria necessário se ele devesse, assim como a consciência constituinte, estar presente em todas as partes ao mesmo tempo, coextensivo ao ser, e pensar a verdade do universo.

A grande importância estratégica que as relações de poder disciplinar desempenham nas sociedades modernas depois do século XIX, vem justamente do fato delas não serem negativas. Mas positivas, quando tiramos desses termos qualquer juízo de valor moral ou político e pensarmos unicamente na tecnologia empregada. É então, que, segundo Foucault, surge uma das teses fundamentais da genealogia: “o poder é produtor de individualidade”. O indivíduo é uma produção do poder e do saber. Atuando sobre uma massa confusa, desordenada e desordeira, o esquadrinhamento disciplinar faz nascer uma multiplicidade ordenada no seio da qual o indivíduo emerge como alvo do poder. O nascimento da prisão historicamente em fins do século XVIII, não representou uma massificação com relação ao modo como anteriormente se era encarcerado. O nascimento do hospício não destruiu a especificidade da loucura. É o hospício, ao contrário, que produz o louco como doente mental. Um personagem individualizado a partir da instauração de relações disciplinares. E antes da constituição das ciências humanas, no século XIX, a organização das paróquias, a institucionalização do exame de consciência e da direção espiritual e a reorganização do sacramento da confissão, que aparecem como importantes dispositivos de individualização. Em suma, o poder disciplinar não destrói o indivíduo; ao contrário, ele o fabrica. O indivíduo não é o outro do poder, realidade exterior, que é por ele anulado; é um de seus mais importes efeitos.

O objetivo é neutralizar a ideia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações reais ou imaginárias de suas condições particulares de existência instalando-se na neutralidade objetiva do universal e da ideologia um conhecimento em que o sujeito tem sua relação com a verdade perturbada, obscurecida, velada pelas condições reais de existência. Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios do saber. A investigação do saber não deve remeter a um sujeito de conhecimento que seria a sua origem, mas a relações de poder que lhe constituem. Não há saber neutro. Todo saber é político. E isso não porque cai nas malhas do Estado, é apropriado por ele, que dele se serve como instrumento de dominação, descaracterizando seu núcleo essencial. Mas porque todo saber tem sua gênese em relações de poder. O fundamental da análise teórica é que saber e poder se implicam mutuamente; não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder.

Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão de saber. Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. Mas a relação ainda é mais intrínseca: é o saber enquanto tal que se encontra dotado estatutariamente, institucionalmente, de determinado poder. O saber funciona dotado de poder. E enquanto é saber tem poder. A configuração do que Foucault denomina de “intelectual específico” se desenvolveu na 2ª grande guerra, e talvez o físico atômico tenha sido quem fez a articulação entre intelectual universal e intelectual específico. É porque tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que o físico atômico intervinha; mas já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo, seu discurso podia ser ao mesmo tempo o discurso do universal. Sob a proteção deste protesto que dizia respeito a todos, o cientista atômico desenvolveu uma posição específica na ordem do saber. E admite Foucault, pela primeira vez o intelectual foi perseguido pelo poder político, não mais em função do seu discurso geral, mas por causa do saber que detinha: é neste nível que ele se constituía como um perigo político. Mas o intelectual específico deriva de uma figura muito pobre e diversa do “jurista-notável”. O “cientista-perito”. A verdade não existe fora do poder ou sem poder.

A verdade é deste mundo, produzida nele graças a múltiplas coerções que produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, seus tipos de discursos que faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados, sob nosso olhar, para a obtenção da verdade. Quem está de fora do poder, mas tem a capacidade analítica de interpretar o estatuto que delimita o seu campo de saber, percebe os efeitos de poder do que funciona como verdadeiro.  É preciso repensar os problemas políticos dos intelectuais não mais em termos exclusivos da relação entre ciência e ideologia, mas sem abandoná-la, tendo em vista que a universidade pública é um domínio de casta, “a forma natural pela qual costumam socializarem-se as comunidades étnicas que creem no parentesco de sangue com os membros de comunidades exteriores e o relacionamento.

Mas o espetáculo percebido não é puro. Tomado exatamente como o vejo, afirma Merleau-Ponty, ele é um momento de minha história individual e, como sensação é uma reconstituição, ela supõe em mim os sedimentos de uma constituição prévia, eu sou, enquanto sujeito que sente, inteiramente pleno de podres naturais dos quais sou o primeiro a me espantar. Não sou, segundo Friedrich Hegel, um “buraco no ser”, mas um vazio, uma prega que se fez e pode desfazer-se. Insistamos nesse ponto. Como podemos escapar da alternativa entre o para si e o em si, como a consciência perceptiva pode ser obstruída por seu objeto, como podemos distinguir a consciência sensível da consciência intelectual? É que: 1°) Toda percepção acontece em uma atmosfera de generalidade e se dá anos como anônima. Não posso dizer que eu vejo o azul do céu no sentido em que digo que compreendo um livro ou, ainda, que decido consagrar minha vida às matemáticas. Minha percepção, mesmo do interior, exprime uma situação dada: vejo o azul por que sou sensível às cores – ao contrário, os atos pessoais criam uma situação: sou matemático porque decidi sê-lo. De forma que, se eu quisesse traduzir exatamente a experiência perceptiva, deveria dizer que se percebe em mim e não que eu percebo.

Toda sensação comporta um germe de sonho ou de despersonalização, como nós o experimentamos por essa espécie de estupor em que ela nos coloca quando vivemos verdadeiramente em seu plano.  Sem dúvida, o conhecimento me ensina que a sensação não aconteceria sem uma adaptação de meu corpo, por exemplo, que não haveria contato determinado sem movimento de minha mão. Mas essa atividade se desenrola na periferia de meu ser, não tenho mais consciência de ser o verdadeiro sujeito de minha sensação do que de meu nascimento ou minha morte. Nem meu nascimento nem minha morte podem aparecer-me como experiências minhas, já que, se eu os pensasse assim, eu me suporia preexistente ou sobrevivente a mim mesmo para poder experimentá-los, e, portanto, não pensaria seriamente meu nascimento ou minha morte. Quer dizer, cada sensação, sendo rigorosamente a primeira, a última e a única de sua espécie, é um nascimento e uma morte. O sujeito que tem a sua experiência começa e termina com ela, e, como ele não pode preceder-se nem sobreviver a si, a sensação necessariamente se manifesta a si mesma em um meio de generalidade, ela provém de quem de mim mesmo, ela depende de uma sensibilidade que a precedeu e que sobreviverá a ela, assim como meu nascimento e minha morte pertencem a uma natalidade e a uma mortalidade anônimas.

Pela sensação, eu apreendo, à margem de minha vida pessoal e de meus atos próprios, uma vida de consciência dada da qual eles emergem, a vida de meus olhos, de minhas mãos, de meus ouvidos, que são tantos Eus naturais. Enfim, toda vez que experimento uma determinada sensação, sinto que ela diz respeito não ao meu ser próprio, evidentemente, aquele do qual sou responsável e do qual decido, mas a um outro eu que já tomou partido pelo mundo, que já se abriu a alguns de seus aspectos e sincronizou-se a eles. Entre minha sensação e mim há sempre a espessura de um saber originário que impede minha experiência de ser clara para si mesma. Experimento a sensação como modalidade de uma experiência geral, e isso é fundamentalmente humano, já consagrada a um mundo físico, e que crepita através de m sem que eu seja seu autor. 2°) A sensação só pode ser anônima porque é parcial. Aquele que vê e aquele que toca não sou exatamente eu mesmo, porque o mundo visível e o mundo tangível não são o mundo por inteiro. Quando vejo um objeto, sinto sempre que ainda existe ser para além daquilo que atualmente vejo, não apenas ser visível, mas ainda ser tangível ou apreensível pela audição, e não apenas ser sensível, mas inda uma profundidade do objeto que nenhuma antecipação sensorial esgotará. Não estou por inteiro nessas operações, elas permanecem marginais, produzem-se adiante de mim, o eu que vê ou o que ouve são de alguma maneira um eu especializado, familiares a um único setor do ser, e é justamente a esse preço que o olhar e a mão são capazes de adivinhar o movimento que vai tornar a percepção precisa e pode dar provas desta presciência que lhes dá a aparência do automatismo.

Podemos resumir essas duas ideias dizendo que toda sensação pertence a um certo campo. Dizer que tenho um campo visual é dizer que, por posição, tenho acesso e abertura a um sistema de seres, os seres visuais, que eles estão à disposição de meu olhar em virtude de uma espécie de contrato primordial e por um dom da natureza, sem nenhum esforço de minha parte; é dizer, portanto, que a visão é pré-pessoal; e é dizer ao mesmo tempo que ela é sempre limitada, que existe em torno de minha visão atual a um horizonte de coisas não-vistas ou mesmo não visíveis. A visão é um pensamento sujeito a um certo campo e é isso que chamamos de um sentido.  Quando digo que tenho sentidos e que eles me fazem ter acesso ao mundo, não sou vítima de uma confusão, não misturo o pensamento causal e a reflexão, não apenas exprimo esta verdade que se impõe a uma reflexão integral: que sou capaz, por conaturalidade, de encontrar um sentido para certos aspectos do ser, sem que eu mesmo o tenha dado receptivamente a eles uma operação constituinte. Com a distinção entre os sentidos e a intelecção, em Merleau-Ponty, encontra-se justificada a distinção entre os diferentes sentidos. O intelectualismo não fala dos sentidos porque, para ele, sensação e sentidos só aparecem quando eu retorno ao ato concreto de conhecimento para analisá-lo. Então distingo nele uma matéria contingente e uma forma necessária, mas a matéria é apenas um momento ideal e não um elemento separável do ato total. Portanto, os sentidos não existem, mas apenas a consciência. O intelectualismo recusa-se mediar o problema da contribuição dos sentidos na experiência do espaço, porque as qualidades sensíveis e os sentidos, materiais do conhecimento, não podem possuir como propriedade o espaço, a forma da objetividade em geral e o meio pelo qual uma consciência de qualidade se torna possível.

Se uma sensação não fosse uma sensação de algo, ela seria um nada de sensação, e “coisas” no sentido mais geral da palavra, por exemplo qualidades definidas, só se esboçam na massa confusa das impressões se esta é posta em perspectiva e coordenada pelo espaço. Assim, todos os sentidos devem ser espaciais se eles devem fazer-nos ter acesso a uma forma qualquer do ser, quer dizer, se eles são sentidos. E, pela mesma necessidade, é preciso que todos eles se abram ao mesmo espaço, sem o que os seres sensoriais com os quais eles nos fazem comunicar só existiriam para os sentidos dos quais eles dependem – assim como os fantasmas só se manifestam à noite -, faltar-lhes-ia a plenitude do ser e não poderíamos verdadeiramente ter consciência deles, quer dizer, pô-los como seres verdadeiros. A essa dedução, o empirismo tentaria em vão opor fatos. Por exemplo, se se quer mostrar que o tato não é por si mesmo espacial, se se tenta encontrar nos cegos ou nos casos exemplares de cegueira psíquica uma experiência tátil pura e mostrar que ela não é articulada segundo o espaço, essas provas experimentais pressupõem aquilo que a elas caberia estabelecer. Como saber se a cegueira e a cegueira psíquica se limitaram a subtrair, da experiência do doente, os dados visuais, e se elas também não atingiram a estrutura de sua experiência tátil?  Não se tata, bem entendido, da relação de continente e conteúdo, já que a relação só existe entre objetos, nem mesmo de uma relação de inclusão lógica, como a que existe entre o indivíduo e a classe, já que o espaço é anterior às suas pretensas partes, que sempre são recortadas nele. O espaço não é o ambiente (real ou lógico) em que as coisas se dispõem, mas o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível. Em lugar de imaginá-lo como uma espécie de éter no qual todas as coisas mergulham, ou de concebê-lo abstratamente com um caráter que lhes seja comum, devemos pensá-lo como a potência universal de suas conexões.

Bibliografia Geral Consultada.

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