terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Moïse Kabagambe – Refugiado & Assassinato no Rio de Janeiro.

                                                    Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte”. Zygmunt Bauman                             

                       

         Moïse Kabagambe foi um refugiado congolês de 24 anos brutalmente espancado   até a morte no Rio de Janeiro, em janeiro de 2022, após cobrar R$200 por diárias de trabalho em um quiosque na Barra da Tijuca, caso que gerou indignação nacional e internacional, expondo racismo e xenofobia no Brasil, resultando em investigações, prisões e condenações dos agressores, além de debates e iniciativas para proteger imigrantes. Refugiado é toda pessoa que, em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social, opinião política, sexualidade ou identidade de gênero, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo, devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar o seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outros países. Termos semelhantes em outras línguas descreveram um evento que marca a migração de uma população específica de um local de origem, como o relato bíblico dos israelitas que fugiram da conquista assíria (c.  740 a.C.), ou o asilo encontrado pelos islâmicos o profeta Maomé e seus companheiros emigrantes com ajudantes em Yathrib (mais tarde Medina) depois de terem fugido da perseguição em Meca. Em inglês, o termo refugiado deriva da palavra raiz refúgio, do francês antigo refúgio, que significa “esconderijo”. 

          Refere-se a “abrigo ou proteção contra perigo ou angústia”, do latim fugere, “fugir”, e refugium, “uma tomada [de] refúgio, lugar para onde fugir de volta”. Na história ocidental, o termo foi aplicado pela primeira vez aos huguenotes protestantes franceses que procuravam um lugar seguro contra a perseguição católica após o primeiro Édito de Fontainebleau em 1540.  A palavra apareceu na língua inglesa quando os huguenotes franceses fugiram para a Grã-Bretanha em grandes números após o Édito de Fontainebleau de 1685 (a revogação do Édito de Nantes de 1598) na França e a Declaração de Indulgência de 1687 na Inglaterra e na Escócia. A palavra significava “alguém que procura asilo”, até cerca de 1916, quando a palavra evoluiu para significar “alguém que foge para casa”, aplicada neste caso a civis na Flandres que se dirigem para Oeste para escapar aos combates na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Um pequeno número de refugiados também chega em função do Programa de Reassentamento, que oferece uma solução para aqueles refugiados que continuaram a ter problemas de segurança no primeiro país ao qual chegam, ou que enfrentam insuperáveis impedimentos para a integração social na nova sociedade. Por exemplo, a impossibilidade de obter documentação que lhes permita trabalhar, ou a impossibilidade de obter acesso à educação para os filhos menores. Esse caso está previsto na Convenção de 1951, o qual todo cidadão de um país que se sente ameaçado e perseguido, porém enquadre-se na condição acima, pode solicitar asilo.

       Moïse Mugenyi Kabagambe nasceu em Bunia, província de Ituri, na República Democrática do Congo, em 4 de abril de 1997. Ele e sua família imigraram para o Brasil em 2011, por causa do conflito de Ituri. No Brasil, trabalhou como atendente no quiosque Tropicália, na cidade do Rio de Janeiro, recebendo por seu trabalho diariamente. No dia 24 de janeiro de 2022, Moïse Mugenyi Kabagambe foi ao quiosque Tropicália, localizado no bairro Barra da Tijuca, para cobrar duas diárias ainda não pagas. Segundo familiares, ele foi amarrado e espancado, inclusive com um taco de beisebol. Parentes disseram ainda que seus órgãos teriam sido retirados do seu cadáver. Mesmo após o caso, o quiosque continuou funcionando normalmente. Um vídeo, divulgado pela imprensa e nas redes sociais, “mostra Moïse discutindo com um dos funcionários do quiosque, que pega um pedaço de madeira após Moïse tentar pegar uma bebida do freezer”. Em resposta, pega uma cadeira e uma vassoura para se defender, soltando-as em seguida. Após pegar uma bolsa, sua camisa, e abrir o freezer, outro homem se aproxima e inicia a agressão novamente, e outros dois se juntam à violência posteriormente. Os agressores, ao notarem a falta de reação de Moïse, tentaram prestar socorro com massagens cardíacas, mas sem sucesso. No fim do vídeo, é possível ver o corpo sendo arrastado. No laudo do Instituto Médico Legal a causa da morte foi traumatismo do tórax. Uma lesão torácica reconhecida como trauma torácico, é qualquer forma de lesão física no tórax, incluindo costelas, coração e pulmões.                                


A maioria dos traumatismos contusos é tratada com intervenções simples, como intubação traqueal, ventilação mecânica e inserção de dreno torácico. O diagnóstico de traumatismos contusos pode ser mais difícil e exigir exames complementares, como tomografia computadorizada. Traumatismos penetrantes requerem cirurgia, e exames complexos geralmente não são necessários para se chegar a um diagnóstico. Pacientes com traumatismo penetrante podem apresentar piora rápida, mas também podem se recuperar muito mais rapidamente do que pacientes com traumatismo contuso. Os resultados de um trauma torácico dependem da gravidade da lesão no tórax, bem como de lesões associadas, como traumatismo cranioencefálico ou na coluna vertebral, e do estado geral de saúde do paciente. O tratamento precoce em centros especializados oferece maior taxa de sobrevida. O tratamento consiste em uma combinação de medidas médicas, como alívio da dor, suporte respiratório, drenagem torácica e antibióticos, não médicas como fisioterapia e reabilitação e cirúrgicas com fixação de fraturas de costela, quando apropriado, e tratamento cirúrgico de lesões cardíacas, pulmonares, das vias aéreas, do diafragma e do esôfago. Aqueles que sobrevivem a trauma torácico e recebem alta hospitalar têm uma sobrevida a longo prazo comparável à da população.

Barra da Tijuca é um bairro nobre da Zona Sudoeste do município do Rio de Janeiro, no Brasil. O bairro faz parte da região administrativa da Barra da Tijuca. Tem, como bairros vizinhos, Barra Olímpica, Camorim, Itanhangá, Jacarepaguá, Joá, Recreio dos Bandeirantes e São Conrado. Assim como Jacarepaguá, é um dos bairros que mais cresceram no Rio de Janeiro na virada do século XX para o século XXI; passou de 24 126 habitantes em 1980 para 394 037 habitantes em 2020. Atualmente, é considerado um centro financeiro, gastronômico, hoteleiro e de entretenimento da capital estadual. Tem sido alvo da migração de outros bairros do município. Estima-se que a população da Barra irá dobrar até 2030. Em 2022, o Instituto Pereira Passos, órgão da prefeitura da cidade, avaliou seu índice de qualidade de vida em 79,29, alcançando o 1º lugar do Rio de Janeiro dentre 158 bairros avaliados. A Barra sediou maior parte dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016 e dos Jogos Paralímpicos de Verão de 2016. A escolha da Barra para tal função se deveu por ser mais moderna do Rio de Janeiro e ter espaço suficiente para abrigar os jogos. Tal fato levou a um rápido crescimento em obras de infraestrutura para modernizar a região e também à ligação com o metrô para o resto da cidade do Rio de Janeiro.

A Praia da Barra da Tijuca é a principal praia da região e estende-se ao longo da Avenida Lúcio Costa até o Recreio dos Bandeirantes. É a maior praia do estado do Rio de Janeiro, com 18 km de comprimento. A partir da Avenida Ayrton Senna, a praia não possui calçadão, por ser uma região de preservação ambiental. Tem ondas fortes, tubulares e muito boas para a prática do Surf e do Bodyboarding. Nela são realizadas diversas etapas de campeonatos brasileiros e até mundiais como WT. Suas areias são brancas e finas. Nas imediações, situa-se a Reserva de Marapendi. Os principais esportes praticados no mar da Praia da Barra da Tijuca são a pesca de beira, kitesurf, bodyboard, windsurf, surf e Stand up Paddle, sendo ainda palco de muitos campeonatos. Em sua orla, é muito comum encontrar pessoas praticando outros esportes, como futebol de areia, futevôlei, vôlei, frescobol, slackline e mesmo fazendo caminhadas no calçadão ou andando de bicicleta ao longo da ciclovia. A Praia do Pepê é uma praia que se estende ao longo da Avenida do Pepê, próximo ao quebra-mar. A praia e a avenida foram assim batizadas em homenagem ao empresário e esportista Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes, mais conhecido como Pepê. A Praia da Reserva conhecida como Praia da Reserva de Marapendi, tem aproximadamente 8 km de extensão. É um segmento da praia da Barra voltado à preservação ambiental, embora disponha de inúmeros complexos residenciais de alto padrão. É dividida em 26 “ilhas” e caracterizada pelas águas límpidas e pela areia fofa. É margeada pela avenida Lúcio Costa ao longo de toda a sua extensão; seu acesso é feito a partir dos bairros da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes.

A praia recebeu esse nome por estar situada ao longo da Reserva de Marapendi, uma área de proteção ambiental destinada à preservação da vegetação de restinga e de manguezal. No interior da reserva, localiza-se a Lagoa de Marapendi, utilizada para a prática de esportes náuticos, como canoagem, remo e vela. A orla da praia é cortada por um vasto calçadão e pela ciclovia. Em setembro de 2011 a Praia da Reserva passou a fazer parte do Parque Natural Municipal Barra da Tijuca Nelson Mandela, tornando-se uma Unidade de Conservação. Em dezembro de 2020, foi reconhecida como exemplo de sucesso em preservação e qualidade ambiental. A Praia da Reserva é a segunda praia na cidade do Rio de Janeiro a obter essa distinção da Fundação para a Educação Ambiental, organização internacional com sede em Copenhague, na Dinamarca, que premia os melhores exemplos ao redor do mundo na gestão ambiental de marinas, praias e embarcações de turismo. A primeira praia a receber o diploma foi a Prainha, no Recreio dos Bandeirantes, que, desta vez, obteve a renovação da certificação para a temporada 2020/21. Aproximadamente 87% dos habitantes da Barra são socialmente de classe média alta. O bairro da Barra é um dos únicos bairros do município que possuem condomínios autônomos, ou seja, condomínios independentes com minishoppings, escolas, igrejas, quadras polidesportivas e bibliotecas e nos maiores, restaurantes.

A Barra da Tijuca tem a maior concentração de shoppings centers e supermercados do Rio de Janeiro. A área de prédios mais luxuosa da Barra é o Jardim Oceânico, caracterizado por seus prédios baixos a uma distância máxima de dois quilômetros da Praia do Pepê. A Barra possui alto índice de desenvolvimento humano, ao abrigar a maior parte da classe alta do Rio de Janeiro. O bairro também pode ser caracterizado por amplos espaços verdes, condomínios de luxo de casas e edifícios, além de shopping centers. É a sede de grandes empresas de informática, comunicação e agências de publicidade, além de inúmeras multinacionais que, cada vez mais, estão implantando suas sedes na região, como a Shell Brasil, Esso Brasil, Vale, Vivo, Michelin, Nokia, TIM, Unimed entre outras. Os principais centros comerciais são o Américas Corporate, o Alfa Business, o Advanced Office, o Barra Business Center, o Barra Prime Office, o Barra Space Center, o Bandeirantes Office, o Barra Tower Offices, o Barra Trade, o Blue Center, o Brookfield Place, o Corporate Executive Offices, o Dimension Office & Park, o Via Comfort Working e o Le Monde Londres Financial Center. Além dos centros comercias do BarraShopping, Città América e Downtown e Rio Design Barra que é o maior centro gastronômico da região. Na educação esse poderio se reflete na Barra como um bairro universitário, devido aos diversos campus instalados no bairro em menos de duas décadas. Na Barra, está localizado o shopping de mais alto nível social do Rio de Janeiro, o Village Mall, na Avenida das Américas, um dos quatro da cidade pertencentes ao grupo Multiplan; assim como o BarraShopping, o maior do estado.       

A Barra da Tijuca é um bairro extenso e de composição demográfica variada. Há residências de classes média, média alta e alta, sendo que esta última muitas vezes habitando condomínios de elevadíssimo padrão. O bairro tem um alto índice de desenvolvimento humano (0,972). A Barra da Tijuca começa na ponte sobre o Canal da Joatinga e termina nas avenidas Salvador Allende e Alfredo Baltazar da Silveira, onde começa o bairro do Recreio dos Bandeirantes. A Barra foi um dos poucos bairros da cidade a nascerem planejados, embora muito do projeto original de Lúcio Costa já tenha sido abandonado. É possível se observar ruas largas ao estilo de Brasília, cidade também planejada por Lúcio Costa. A Barra da Tijuca abriga a maior concentração de shoppings e supermercados da cidade. Os seus condomínios, em geral, possuem contato com a natureza, tendo parques, pequenos lagos etc. Os condomínios da Barra são, muitas vezes, classificados como sustentáveis, por realizarem um rigoroso processo de reciclagem e preservação da água e incentivarem e realizarem eventos de preservação ambiental. Por outro lado, a falta de saneamento ambiental é considerada o principal obstáculo ao desenvolvimento sustentável no bairro, resultando em poluição hídrica do Complexo Lagunar da Baixada de Jacarepaguá e em conflitos socioambientais. Os “montanhosos” relevos da floresta da Tijuca e da serra da Pedra Branca cercam o bairro junto ao mar. O bairro possui extenso litoral, sendo que praticamente metade é área de reserva ambiental, a Reserva Ambiental da Barra conhecida também apenas como “Reserva”.

A Avenida das Américas é a principal via do bairro, cruzando-o no sentido Leste-Oeste. Outra via importante é a Avenida Ayrton Senna, que começa na praia da Barra da Tijuca e faz a ligação do bairro com Jacarepaguá através da ponte sobre a lagoa do Camorim, além de ser a ligação com a Linha Amarela. Seguindo a extensão da praia, encontra-se a Avenida Lúcio Costa, antiga Avenida Sernambetiba, que se prolonga até o final da Praia do Recreio. No dia 24 de janeiro de 2022 Moïse Mugenyi Kabagambe, um imigrante congolês, foi assassinado no quiosque Tropicália, localizado no Rio de Janeiro, Brasil. A família foi comunicada apenas no dia seguinte, e a notícia foi divulgada na imprensa local apenas em 29 de janeiro, sendo seguida de inúmeras mensagens de repúdio por parte da sociedade. Os envolvidos no assassinato são três: Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, Brendon Alexander Luz da Silva e Fábio Pirineus da Silva, seguem em prisão preventiva. No dia 5 de fevereiro, após organização pelas redes sociais por políticos, celebridades, organizações de direitos humanos e do movimento negro, protestos ocorreram em várias cidades no Brasil, além de protestos nas embaixadas brasileiras em Berlim, Alemanha e Londres, Reino Unido. As manifestações recordaram sua morte, além de denunciarem “o racismo e a xenofobia na sociedade brasileira”. Apesar dos protestos e do suporte de várias entidades e políticos, as ameaças contra os imigrantes congoleses se intensificaram, levando alguns a imigrarem para outros países. A Polícia Civil está investigando o caso e declarou que há imagens do local em análise. Testemunhas disseram “que Moïse apanhou de cinco homens e confirmaram que os agressores usaram pedaços de madeira e um taco de beisebol”.

Um casal que testemunhou o acontecimento afirma ter pedido “a ajuda de dois guardas municipais, mas que eles não foram checar o quiosque Tropicália”. Familiares afirmaram à imprensa que foram intimidados pela Polícia Militar no dia 25 e no dia 29 de janeiro. Em uma audiência da Comissão de Direitos Humanos do Senado, familiares e o advogado do caso afirmaram que os vídeos publicados foram editados, e que há mais pessoas envolvidas no assassinato. No dia 15 de fevereiro, de acordo com a CNN Brasil, um canal de televisão comercial aberto brasileiro, com programação inteiramente voltada ao jornalismo, que a Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministério Público investigam outras 7 pessoas presentes na hora do crime.  Três dos envolvidos afirmam ter parte no homicídio. Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, confirma sua participação no assassinato, mas nega que a violência tenha sido motivada por racismo, xenofobia, ou pelas dívidas. Aleson trabalhava no quiosque Biruta. De acordo com os relatos, foi Aleson que chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) após a morte de Moïse Mugenyi Kabagambe. Brendon Alexander Luz da Silva, outro preso, afirma que está com a sua “consciência tranquila”, porque “apenas segurou” Moïse, mas “não o estrangulou”. Brendon afirma que não tinha intenção de matar. Fábio Pirineus da Silva afirmou ter violentado Moïse, mas também afirmou que não tinha a intenção de matá-lo.

No dia 1° de fevereiro de 2022, os três foram presos, e no dia 2 de fevereiro, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro determinou a prisão temporária dos três. Também no dia 2, o Ministério Público abriu uma investigação. No dia 22 de fevereiro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro aceitou a denúncia contra Aleson, Brendon Alexandre e Fábio da Silva por homicídio triplamente qualificado, além de transformar as prisões temporárias em prisões preventivas. O quiosque Tropicália teve sua licença suspensa pela Orla Rio, concessionária de quiosques do Rio de Janeiro. O quiosque próximo ao Tropicália, o Biruta, também teve sua licença suspensa pela Orla Rio. O Ministério do Trabalho está processando os antigos donos dos quiosques, acusando-os submeteram Moïse e outros trabalhadores a condições análogas à escravidão, além de responsabilizar a Orla Rio e a prefeitura do Rio de Janeiro por falharem na fiscalização. Os advogados do Tropicália descartaram qualquer envolvimento de Carlos Fabio da Silva Muzi, então dono do quiosque Tropicália, com o crime ocorrido no local, e negam que havia qualquer dívida a Moïse, afirmando que ele não era funcionário fixo. Os advogados também afirmaram que Carlos Muzi tem recebido ameaças de morte e de depredação do seu patrimônio desde que o assassinato veio à tona nos meios de comunicação da cidade.

O ex-dono do quiosque Biruta, Alauir Mattos de Faria, foi intimado a depor. De acordo com a concessionária Orla Rio, Alauir e sua irmã eram ocupantes irregulares, o que motivou a Orla Rio a abrir um processo judicial contra Celso Carnaval, o proprietário do Biruta. De acordo com um depoimento de uma fonte policial ao G1 Rio, a Polícia Civil não crê que alguém tenha dado a ordem para matar o congolês, e que os envolvidos agiram por vontade própria. De acordo com a mesma fonte, a investigação aponta que a dívida pode não ter sido o motivo real da confusão. O G1 é um portal de notícias mantido pelo Grupo Globo e sob orientação da Central Globo de Jornalismo, lançado em 18 de setembro de 2006, com o objetivo de fortalecer a presença comunicativa da Globo no jornalismo digital. O projeto foi desenvolvido a partir de uma estrutura híbrida que combinava profissionais, conhecimento e infraestrutura do jornalismo da rede TV Globo e da globo.com, empresa do grupo de serviços e conteúdo na internet – rede mundial de computadores, e “conteúdos jornalísticos” de outras empresas do grupo como o canal GloboNews, os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, a revista Globo Rural, a rádio CBN, entre outras, além de reportagens próprias em formato de texto, fotos, áudio e vídeo.

Historicamente, a República Democrática do Congo já foi chamada, em ordem cronológica: Estado Livre do Congo, Congo Belga, República do Congo (Léopoldville), República Democrática do Congo e República do Zaire. A partir de 1997, recuperou a denominação República Democrática do Congo, que permanece desde então. O país foi oficialmente reconhecido como a República Democrática do Congo entre 1965 e 1971, quando teve o nome alterado para República do Zaire. Em 1992, a Conferência Nacional Soberana votou pela recuperação do nome anterior, República Democrática do Congo, mas a alteração não levada a efeito de poder. O nome do país foi restaurado em 1997, pelo presidente Laurent-Désiré Kabila (1997-2001), após o fim da longa ditadura de Mobutu Sese Seko (1965-1997). A região foi ocupada na Antiguidade por bantos da África Oriental e povos do rio Nilo, que ali fundaram os reinos de Luba, Lunda e do Congo, entre outros. Em 1878, o explorador Henry Stanley fundou entrepostos comerciais no rio Congo, sob ordem do rei belga Leopoldo II (1835-1909). O genocídio comandado pelo rei belga Leopoldo II, no território que hoje pertence à República Democrática do Congo, é uma das maiores barbáries da história contemporânea. Entre 1885 e 1924, estima-se que ao menos dez milhões de congoleses foram mortos em nome da exploração de recursos naturais, como marfim e látex, usado para produção de borracha.

A Bélgica é a 15ª no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial e tem o 22º maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta, equivalente a 0,896. O IDH da República Democrática do Congo é estimado em 0,435, o 13º mais baixo do mundo. Na virada do século XX, os africanos eram usados como escravos a serviço dos belgas. Castigos físicos e mutilações de pés e mãos eram usados para punir os trabalhadores que não alcançavam a meta de produção estipulada pelo rei.Na Conferência de Berlim, em 1885, que dividiu a África entre as potências europeias, Leopoldo II recebeu o território como possessão pessoal, chamando-o Estado Livre do Congo. Em 1908, o Estado Livre do Congo deixou de ser propriedade da Coroa, depois da brutalidade deste tipo de colonização ter sido exposta na imprensa ocidental e tornou-se colônia da Bélgica, chamada Congo Belga. Patrice Lumumba (1925-1961) recebe voto de confiança dos representantes eleitos presentes em cerimônia na Assembleia Nacional em 24 de junho de 1960, marcando a formação do primeiro governo do Congo independente. Leopoldo II (1835-1909) foi o segundo Rei dos Belgas de 1865 até sua morte em 1909. Foi também soberano do Estado Livre do Congo (1884-1908). Era o segundo filho do rei Leopoldo I e da princesa Luísa de Orléans, a filha mais velha do rei Luís Filipe I da França. Primo-irmão da rainha Vitória do Reino Unido, sua irmã mais nova era a imperatriz Carlota do México. O regime da colônia africana de Leopoldo II, o Estado Livre do Congo, tornou-se um dos escândalos internacionais mais infames da virada do século XIX para o século XX. O relatório de 1904, escrito pelo cônsul britânico Roger Casement, levou à prisão e à punição de oficiais brancos que tinham sido responsáveis por matanças a sangue frio durante uma expedição de coleta de borracha em 1903, incluindo um indivíduo belga que matou a tiros pelo menos 122 congoleses.

O Estado Livre do Congo incluiu uma área inteira hoje reconhecida por República Democrática do Congo. Amigo de Henry Morton Stanley, o rei pediu a ele que o ajudasse a dar entrada à petição do território. Leopoldo administrou-o como sua possessão privada, considerando-se um empresário astuto e tendo passado uma semana em Sevilha para estudar os registros espanhóis de seu comércio com as suas colônias da América Latina. Leopoldo foi o segundo filho do rei Leopoldo I da Bélgica, antigo príncipe de Saxe-Coburgo-Gota, e da princesa Luísa Maria d'Orleães. O seu pai tinha sido já casado com a princesa Carlota de Gales, filha do rei Jorge IV do Reino Unido, mas esta acabou por morrer ao dar à luz o único filho do casal, um bebé que nasceu morto. O príncipe tinha um irmão mais velho, o príncipe Luís Filipe, Príncipe Herdeiro da Bélgica, mas este morreu com apenas dez meses de idade, em maio de 1834, quase um ano antes de Leopoldo nascer. Tinha também um irmão mais novo, o príncipe Filipe, Conde de Flandres, casado com a princesa Maria Luísa de Hohenzollern-Sigmaringen e pai do futuro rei Alberto I da Bélgica. Tinha uma irmã a princesa Carlota, casada com o arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão do imperador Francisco José I da Áustria. Maximiliano tornar-se-ia imperador do México durante o Segundo Império Mexicano, fazendo de Carlota a segunda imperatriz consorte no geral do México após apenas a primeira: a imperatriz consorte Ana-María de Huarte y Muñiz.   

O nacionalismo quinxassa-congolês iniciou-se pelos povos congos em 1950 com fundação da “Associação dos Bacongos para a Unificação, a Conservação e o Desenvolvimento da Língua Congo” (Abako). Inicialmente como movimento cultural dos congos, o nacionalismo africano do pós-Segunda Guerra a influenciou a lançar um manifesto de ruptura radical baseada no federalismo no ano de 1956 em resposta ao então movimento dominante integracionista com a metrópole belga, vinculado ao manifesto La Conscience Africaine. Nas eleições distritais quinxassa-congolesas de 1957 a Abako vence na maior cidade da colônia, Léopoldville (Quinxassa), demonstrando o sentido da força do nacionalismo nascente. O Movimento Nacional Congolês (MNC), organização de frente única nacionalista, teve início em 1958 sob liderança inicial de Patrice Lumumba, Cyrille Adoula e Joseph Iléo. Sua ação se baseava em mobilização sindical, motins sendo o maior deles em janeiro de 1959 e protestos pela Independência nacional, exercendo forte pressão sobre a Bélgica. Foi o primeiro movimento político amplo e de que superou os regionalismos e as questões étnicas da colônia. Porém, um ano antes da Independência o próprio MNC sofre uma cisão, motivada por disputas ideológicas entre a ala nacionalista radical lumumbista e a federalista com a maioria do partido continuando sob comando de Lumumba, chamado informalmente de MNC-Lumumba, enquanto que uma fração menor é formada sob comando de Albert Kalonji, o MNC-Kalonji.

Nas eleições parlamentares de maio de 1960, que seriam definidoras do futuro governo do novo país independente, o MNC-L liderado por Lumumba recebeu a maioria dos votos, mas foi obrigado a formar uma coalizão governista que incluiu o Partido da Solidariedade Africana, o Centro de Reagrupamento Africano e a Abako, além de grupamentos políticos menores. Lumumba foi confirmado como primeiro-ministro. Enquanto isso, o Senado e a Assembleia Nacional, elegeram Joseph Kasa-Vubu do regionalista e conservador Abako como presidente do país. A maioria dos colonos europeus deixou o país após a eleição. Em 30 de junho de 1960, o Congo conquistou a independência com o nome de República do Congo, assumindo os representantes eleitos em maio daquele ano. Também ficou conhecido naquele período como Congo-Léopoldville, para se diferenciar do antigo Congo Francês, que havia também adotado República do Congo como nome oficial. Para se diferenciar, em 1964 o antigo Congo Belga acrescentou o adjetivo Democrática. Em julho de 1960 eclodiu uma rebelião contra o primeiro-ministro Lumumba, liderada por Moïse Tshombe (1919-1969), líder separatista da insurgência em Catanga, com o apoio da Bélgica, Estados Unidos e França.

 Antes do final do ano Kasa-Vubu afastou Lumumba, eleito de forma democrática, do cargo de primeiro-ministro, num golpe de Estado. Lumumba alegou que o ato foi inconstitucional e deu-se início a Crise do Congo. As forças que apoiavam a volta do governo socialista de Lumumba eram formadas por guerrilheiros de vários países, como os rebeldes de Ruanda. Com o apoio dos Estados Unidos, França e Bélgica, Lumumba é sequestrado e assassinado em janeiro de 1961, juntamente com um de seus ministros, Maurice Mpolo, e o vice-presidente do senado, Joseph Okito. Tropas de diversos países (incluindo o Brasil) foram enviadas para restabelecer a ordem sob supervisão da Operação das Nações Unidas no Congo, o que ocorreu em 1963, com a fuga de Tshombe, durante a rebelião Simba. As tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) retiraram-se em junho de 1964. Após diversos combates, Tshombe regressou e assumiu o governo (como primeiro-ministro) em 1964, com apoio da Bélgica e dos Estados Unidos. Em novembro de 1965, ele foi derrubado num golpe de Estado liderado pelo futuro ditador Mobuto Sese Seko. No bojo de tal crise política estava a Guerra Fria com papel preponderante na política interna do Congo na década de 1960; o país foi vitimado pelo conflito.                

Em seu interior conflitos entre forças internacionais da guerra fria, dos blocos capitalista e comunista marcaram a política e desenvolvimento pelas próximas décadas. A Crise do Congo, iniciada no processo luta de Independência nacional, teve vários desdobramentos posteriores a 1965 (seu termo final). Suas consequências, porém, são tidas como “a mais violenta e contínua guerra africana desde a Segunda Guerra Mundial”. Mobutu estabeleceu uma ditadura personalista com forte apoio militar dos governos dos Estados Unidos desde o golpe militar que levou ao poder, e 32 anos em que permaneceu como ditador único e soberano no Congo. A ajuda estadunidense foi encerrada com a queda do comunismo no Leste europeu. No início da década de 1970 lançou sua política de “zairização” (ou authenticité), proibindo nomes ocidentais e cristãos. Como parte da campanha, mudou em 1971 o nome do país para Zaire, e da capital para Quinxassa (anteriormente, Leopoldville). Ele próprio passou a chamar-se Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa “o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista deixando fogo à sua passagem”. Os primeiro mais relevante conflito que Mobuto teve que enfrentar foi a Primeira Guerra de Shaba, em 1977, que foi seguida pela Segunda Guerra de Shaba, em 1978, ocorridas no Sul e Sudoeste do país, partes da insurgência em Catanga e da Guerra Civil Angolana. Entre 1984 e 1987 foi a vez das Guerras de Moba, no Sudeste nacional.

 A partir de 1987 Mobutu teve que enfrentar uma insurgência em forma de campanha de guerrilha travada pelo grupo Exército de Resistência do Senhor, nas terras de Uganda (até 2006), Sudão do Sul, leste quinxassa-congolês e República Centro-Africana. O conflito, em “baixa intensidade”, tem características ideológicas messiânicas, porém com extrema violência e violações generalizadas dos direitos humanos, incluindo mutilação, tortura, escravidão, estupros, sequestro de civis, uso de crianças-soldados e vários massacres. Em 2004, o LRA havia sequestrado mais de 20 000 crianças, enquanto 1,5 milhão de civis foram deslocados e cerca de 100 000 civis foram mortos. A corrupção tornou-se algo comum a ponto de ser designada pelo próprio Mobutu como o “mal do Zaire”. Líderes rivais uniram-se em 1988 para organizar a oposição, mas foram presos ou exilados. Pressões internacionais levaram Mobutu a adotar o pluripartidarismo em 1990. Em outubro de 1991, após grandes distúrbios nacionais, o líder oposicionista Etienne Tshisekedi foi nomeado como primeiro-ministro, mas recusou-se a prestar juramento a Mobutu e é substituído. Os Estados Unidos puseram em dúvida a legitimidade do governo e a Alemanha cortou a ajuda financeira ao país. Em dezembro, Mobutu cancelou as eleições. Tshisekedi foi reconduzido ao cargo no ano seguinte. Em 1993, o Alto Conselho da República, criado pela conferência nacional, ordenou o desligamento de Mobutu dos negócios de Estado e convocou greve geral. Mobutu ignorou a resolução.

No final do mês, o Exército amotinou-se quando ele tentou pagar os soldados com notas de 5 milhões de zaires (cerca de 2 dólares dos Estados Unidos), já recusadas em 1992 por não terem valor. Mobutu responsabilizou Tshisekedi pela rebelião, que deixou mais de mil mortos, e nomeou um governo de união nacional. Estados Unidos e União Europeia não o reconheceram e apoiaram a instalação de um regime de transição formado pela aliança oposicionista liderada por Tshisekedi. Em junho de 1995, o período de transição foi prolongado por dois anos. Eleições gerais, previstas para o mês seguinte, não se realizaram. Além das guerras, a década em questão foi marcada por um surto localizado (1995) mas muito mortífero de ebola que vitimou 254 pessoas nas redondezas de Quicuíte, no centro-oeste do país. O surto foi atribuído a um paciente que trabalhava em uma floresta adjacente à cidade. Em 1994, mais de 1 milhão de ruandeses (em sua maioria hútus) foragidos do genocídio em seu país ingressaram no leste do Zaire. A chegada dos refugiados desestabilizou a região, habitada há mais de 200 anos pelos tútsis baniamulenges, inimigos históricos dos hútus. Sentindo-se negligenciados por Mobutu, que tolerou a presença dos hútus na região, os baniamulenges iniciaram uma rebelião em outubro de 1996, liderados pelo lumumbista Laurent-Désiré Kabila. No ínterim do processo rebelde, ocorreu o massacre contra os hútus refugiados em solo nacional.

Diante da situação caótica, o movimento contou com o apoio decisivo da vizinha Uganda e do regime tútsi de Ruanda, e ganhou rapidamente a adesão da população, insatisfeita com a pobreza e a corrupção no governo.[42] Nos meses seguintes aumentaram os choques entre a guerrilha, “batizada” de Aliança das Forças Democráticas para a Libertação do Congo (AFDL) e o Exército, que enfrentou deserção em massa. A escalada da ofensiva coincidiu com a ausência de Mobutu, que viajou para a Europa em agosto para submeter-se a tratamento médico para o câncer (cancro, em português europeu) na próstata (que havia sido detectado 34 anos antes, em 1962). Apesar de muito doente, retornou ao território em dezembro com o objetivo de deter a rebelião. Em 1997, a guerra civil alastrou-se pelo território, nos sentidos Norte–Sul e Leste–Oeste. Em fevereiro, a Força Aérea bombardeou as cidades de Bucavu, Shabunda e Walikale, sob controle rebelde. Mobutu propôs cessar-fogo à guerrilha em março, mas a AFDL não negociou. No mesmo mês conquistou Lubumbashi, Quissangane (duas das maiores cidades depois de Quinxassa) e Buchimaie, a “capital dos diamantes”. Explodia, assim, a Primeira Guerra do Congo, um desenvolvimento da crise do Congo (1960-1965).  

Os rebeldes propuseram ao Exército a ocupação pacífica da capital do país e, em 17 de maio de 1997, entraram na capital sob aplausos da população. Laurent-Désiré Kabila assumiu o poder e retomou o antigo nome do país, República Democrática do Congo, adotado entre 1964 e 1971. No dia anterior à tomada de Quinxassa, Mobutu partiu para o Palácio Gebadolite (o “Versalhes africano”), na selva, de onde fugiu para o exílio no Togo. Morreu em setembro, no Marrocos. Paralelamente, em meados da década de 1990, como consequência da crise dos países vizinhos, surge a insurgência das Forças Democráticas Aliadas, um conflito contínuo travado pelas Forças Democráticas Aliadas em Uganda e na República Democrática do Congo, contra os governos desses dois países, e depois também contra a Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO). A insurgência começou em 1996, intensificando-se em 2013, resultando em centenas de mortes. Apesar da promessa de democracia, um dos primeiros atos do novo presidente foi a suspensão dos partidos e a proibição de manifestações políticas. As medidas autoritárias e o rompimento de Laurent-Désiré Kabila com Ruanda e Uganda provocaram insatisfação popular, sobretudo dos antigos aliados, os tutsis baniamulenges. Em janeiro de 1998, militares baniamulenges se amotinaram contra o regime. Em fevereiro, o governo prendeu chefes tribais e professores universitários na região de Quivu, Leste do país, onde vivem os tutsis. A revolta se alastrou, recebendo o apoio ruandês e ugandense contra Laurent-Désiré Kabila e, em junho, degenerou na guerra civil Segunda Guerra do Congo. Os combates contra o governo ocorreram nos sentidos Norte–Sul e Leste–Oeste, repetindo a trajetória da ofensiva que no ano anterior depusera Mobutu e levou Laurent-Désiré Kabila ao poder.

Enfraquecido, Laurent-Désiré Kabila pediu socorro militar a Angola, Zimbábue e Namíbia para frear o avanço dos tutsis baniamulenges, que já ocupavam grandes áreas do território quinxassa-congolês e ameaçavam invadir Quinxassa. Em 2 de agosto, tropas, tanques, aviões e helicópteros dos três países entraram no Congo e atacaram posições dos rebeldes. Em resposta, Uganda e Ruanda ameaçaram intervir diretamente. A entrada de forças estrangeiras no conflito deteve a revolta militar contra Laurent-Désiré Kabila em menos de duas semanas, mas obrigou o presidente a prometer eleições gerais para 1999. No mesmo ano foi assinado o Acordo de Lusaca, firmando um cessar-fogo. Contudo, ele não foi cumprido e a ONU preparou uma missão de paz no país. O Congo é o maior e mais rico país em recursos naturais da África subsaariana, explorados primeiramente pela colonização belga e, nas últimas décadas, pelos rebeldes e por estrangeiros. Essa riqueza financia milícias, é contrabandeada para países vizinhos. Os trabalhadores, por sua vez, são explorados em regime de semiescravidão em minas, além de sua produção agrícola ser confiscada, em torno de 10%, pelos rebeldes. Visando a conquista de extensas jazidas de diamante no país, Ruanda, Uganda e Burundi passaram a apoiar milícias diferentes na guerra civil, que despoletou conflitos como o Conflito de Ituri e a Guerra do Quivu.

Os conflitos no Leste do país deixaram cerca de 6 milhões de mortos e desaparecidos. Foi a maior e mais sangrenta guerra africana desde a Segunda Guerra Mundial. As chacinas de homens, os estupros de mulheres e os sequestros de crianças foram e continuam sendo, nos conflitos de Ituri e Quivu frequentes. Em função desta guerra civil, na República Democrática do Congo está a maior e mais cara missão da ONU, a Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo, em curso desde 30 de novembro de 1999. Em 2001, Laurent-Désiré Kabila foi assassinado por um de seus guarda-costas. Joseph Kabila, seu filho, assumiu o governo, iniciou o processo de paz e prometeu eleições. Acordos para a democratização avançaram, com uma tentativa de pacificar os grupos rivais. Em abril de 2003, mil pessoas da minoria hema foram massacradas numa região ainda marcada por confrontos, rica em ouro. No fim do ano iniciou-se a ação do governo provisório na região para debelar os conflitos. A investigação do Tribunal Penal Internacional na República Democrática do Congo ou a situação na República Democrática do Congo é uma investigação do Tribunal Penal Internacional (TPI) sobre crimes cometidos na República Democrática do Congo durante a Segunda Guerra do Congo e suas consequências, incluindo os conflitos de Ituri e Quivu. Em abril de 2004, o governo da República Democrática do Congo encaminhou formalmente a situação no Congo ao Tribunal Penal Internacional e, em junho de 2004, o promotor Luis Moreno Ocampo abriu formalmente uma investigação. Até 2020, haviam sido emitidos mandados de prisão para Thomas Lubanga Dyilo, Germain Katanga, Mathieu Ngudjolo Chui, Bosco Ntaganda, Callixte Mbarushimana e Silvestre Mudacumura. 

No início de 2006, na sequência da ratificação de uma nova constituição, aprovada por referendo, cuja aprovação foi de 84,31% dos eleitores, a bandeira do país foi alterada, assumindo um modelo semelhante ao já utilizado no período entre 1963 e 1971. Em 30 de junho de 2006 realizaram-se as eleições, com vitória de Joseph Kabila, que obteve 57% dos votos. Foi a primeira eleição geral livre em 40 anos na história do país. Os alvos de violência permaneceram ativos no Norte e Nordeste nacional na ofensiva de Garamba em 2008–2009 contra o Exército de Resistência do Senhor e no Conflito em Dongo durante os anos de 2008 e 2009. Como desdobramento dos conflitos de Ituri e Quivu, em março/abril de 2012 teve início a rebelião M23, um conflito ocorrido entre o Movimento 23 de Março e o governo quinxassa-congolês na província de Quivu do Norte. Em novembro de 2013 o último foco rebelde tinha sido derrotado pelas tropas governamentais e da Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo. Em 2015, grandes protestos eclodiram em todo o país e os manifestantes exigiram que Joseph Kabila deixasse o cargo de presidente. Os protestos começaram após a aprovação de uma lei pela câmara baixa quinxassa-congolesa que, se também aprovada pela câmara alta, manteria Kabila no poder pelo menos até que um censo nacional fosse realizado, um processo que provavelmente levaria vários anos e, portanto, manteria ele no poder após as eleições planejadas de 2016, nas quais ele estaria constitucionalmente impedido de participar. Este projeto de lei foi aprovado; e esvaziado das disposições que manteria Kabila no poder até que um censo ocorresse. Foi disposto que o censo deveria ocorrer, mas não estava mais vinculado ao momento das eleições. Em 2015, as eleições foram marcadas para o final de 2016 e uma paz tênue mantida no Congo. Em 27 de novembro de 2016, o ministro das Relações Exteriores do Congo, Raymond Tshibanda, disse à imprensa que nenhuma eleição seria realizada em 2016, após 20 de dezembro, o fim do mandato do presidente Kabila.               

Em uma conferência em Madagascar, Tshibanda disse que o governo de Kabila “consultou especialistas eleitorais” do Congo, das Nações Unidas e de outros lugares, e que “foi decidido que a operação de recenseamento eleitoral terminará em 31 de julho de 2017, e que a eleição aconteceria em abril de 2018”. Protestos eclodiram no país em 20 de dezembro do mesmo ano, quando terminou o mandato de Kabila. A partir de 2016, além do conflito em Quivu do Norte e Ituri, a violência aumentou na região de Cassai, com a rebelião de Kamwina Nsapu. Os grupos armados lutaram até 2019 pelo controle das riquezas naturais. No bojo, havia também rivalidades étnicas e culturais, assim como motivos religiosos e a crise política com eleições adiadas. Por sua vez, em 2018 um outro conflito tribal eclodiu em Yumbi, na província de Mai-Indombe, 400 km ao norte de Quinxassa. Quase 900 pessoas Banunu de quatro aldeias foram massacradas por membros da comunidade Batende em uma rivalidade arraigada por compromissos tribais, acesso às terras aráveis e recursos hídricos. Em 30 de dezembro, foram realizadas as eleições gerais da República Democrática do Congo de 2018. Em 10 de janeiro de 2019, a comissão eleitoral anunciou o candidato da oposição Félix Tshisekedi como o vencedor da votação presidencial, e ele foi oficialmente empossado como presidente em 24 de janeiro. No entanto, havia suspeitas generalizadas de que os resultados foram fraudados e que um acordo havia sido feito entre Tshisekedi e Kabila. A Igreja Católica disse que os resultados oficiais não correspondiam às informações coletadas por seus monitores eleitorais. O governo também “adiou” a votação até março em algumas áreas, citando o surto de Ebola em Quivu, bem como o conflito militar em curso.

Isso foi criticado, pois essas regiões são conhecidas como redutos da oposição. Em agosto de 2019, seis meses após a posse de Félix Tshisekedi, foi anunciado um governo de coalizão. Um grande surto de sarampo no país deixou quase 5 000 mortos em 2019. O surto de Ebola de 2018 terminou em junho de 2020, que causou 2 280 mortes em 2 anos. Outro surto menor de Ebola na província de Équateur começou em junho de 2020, causando 55 mortes. A pandemia global também atingiu o Congo, em março de 2020, e uma campanha de vacinação foi iniciada mais de um ano depois, em 19 de abril de 2021. Os aliados políticos do ex-presidente Joseph Kabila, que renunciou em janeiro de 2019, mantiveram o controle dos principais ministérios, legislativo, judiciário e serviços de segurança. No entanto, o presidente Félix Tshisekedi conseguiu fortalecer seu poder. Em uma série de movimentos, ele conquistou mais legisladores, conquistando o apoio de quase 400 dos 500 membros da Assembleia Nacional. Os oradores pró-Kabila de ambas as casas do parlamento foram forçados a renunciar suas lideranças. Em abril de 2021, o novo governo foi formado sem os apoiadores de Kabila. Em fevereiro de 2022, as alegações de um golpe de Estado no país levaram à incerteza política nacional, mas a tentativa de golpe falhou. Seguiu-se uma crise entre República Democrática do Congo e Ruanda com acusações de interferência mútua. Em junho de 2022 a Bélgica devolveu ao Congo os restos mortais de Patrice Lumumba, considerado herói da Independência nacional. No mês seguinte o casal real belga Filipe e Matilde devolveu itens culturais saqueados do país durante o processo de colonização, com Filipe lamentando o “sofrimento e humilhação” infligidos ao Congo e expressando os “mais profundos arrependimentos” pelos abusos cometidos por seus ancestrais no processo de colonização.

Bibliografia Geral Consultada.

SAES, Décio Azevedo Marques de, Classe Moyenne et Système Politique au Brésil.  Tese de Doutorado em Sociologia. Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1974; FETTER, Bruce, The Creation of Elisabethville, 1910-1940. Stanford: Editor Hoover Institution Press, 1976; KEMP, Tom, La Revolución Industrial en la Europa del Siglo XIX. Barcelona: Libros de Confrontación, 1976; BOUDON, Raymond, Effets Pervers et Ordre Social. Paris: Presses Universitaires de France, 1977; BARRAT-BROWN, Michel, A Economia Política do Imperialismo. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1978; WOODS, Donald, Biko: A História do Líder Negro Sul-africano. São Paulo: Editora Best Seller, 1987; BALANDIER, Georges, Le Désordre: Éloge du Mouvement. Paris: Éditions Fayard, 1988; CORBIN, Alain, O Território do Vazio: A Praia e o Imaginário Ocidental. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1989; LINTON, Ralph, Cultura y Personalidad. México: Fondo de Cultura Económica, 1992; GEERTZ, Clifford, Interpretación de las Culturas. Barcelona: Ediciones Gedisa, 1993; BEINART, William; DUBOW, Saul (Orgs.), Segregation and Apartheid in Twentieth-century South Africa. Londres: Editor Routledge, 1995; GAGGI, Massimo; NARDUZZI, Edoardo, El Fin de la Clase Media y el Nacimiento de la Sociedad de Bajo Coste. Madri: Editor Lengua de Trapo, 2007; SOUZA, Amaury; LAMOUNIER, Bolívar, A Classe Média Brasileira: Ambições, Valores e Projetos de Sociedade. Rio de Janeiro: Editor Elsevier; Distrito Federal: Confederação Nacional da Indústria, 2010; CARVALHO, Marçal Luis Ribeiro, A Questão Punitiva na Pós-modernidade: Desafios Contemporâneos à Luz da Ética da Alteridade. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2010; IANNI, Octavio, A Sociologia e o Mundo Moderno. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2011; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Nelson Rolihlahla Mandela: Um Homem Justo”. In: Jornal O Povo. Fortaleza (CE), 14 de dezembro de 2013; FONSECA, Danilo Ferreira, Etnicidade e Luta de Classes na África Contemporânea: Ruanda (1959 1994) e África do Sul (1948-1994). Tese de Doutorado em História. Programa de Estudos Pós-Graduados em História. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2013; ESTEVES, Ana Camila de Souza, Da África para o Mundo: Os Dilemas da Produção e da Difusão dos Cinemas Africanos para Audiências Globais a Partir da entrada da Netflix na Nigéria. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Faculdade de Comunicação. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2022; entre outros.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Sem Rastros – Vida na Floresta & Stress Pós-Traumático.

 

A minha religião é a natureza. É ela que desperta os sentimentos de admiração”. Oliver Sacks

            Debra Granik nasceu em Cambridge, nos Estados Unidos da América, em 6 de fevereiro de 1963. É uma produtora e diretora de filmes independentes norte-americanos. Ganhou uma série de prêmios no Festival de Sundance, que historicamente tem início em agosto de 1978, como Utah U.S. Film Festival. Em 1985, o Sundance Institute, fundado anteriormente pelo renomado ator e diretor Robert Redford com o intuito de ajudar novos cineastas, incorpora o festival a seus programas, dirigindo o evento para as produções independentes. O festival acontece todos os anos, no mês de janeiro, em Park City, Utah. É o maior festival de cinema independente dos Estados Unidos, incluindo no caso de Granik com o Melhor Curta Metragem em 1998 por Snake Feed, seu primeiro filme, realizado enquanto estudante na Universidade de Nova York, o Prêmio de Direção Dramática em 2004 por seu primeiro longa-metragem Down to the Bone e o Prêmio do Júri em 2010, por Winter`s Bone, também indicado para o Oscar de Melhor Filme. Como contraponto ao chamado “cinema de estúdio”, o termo “cinema independente” surgiu nos Estados Unidos da América (EUA), a fim de expressar certas liberdades estilísticas dentro de um determinado contexto histórico, apresentando-se como oposição ao cinema que dominava o mercado – o considerado mainstream, conceito que expressa uma tendência ou moda principal e dominante. Em inglês, “main” tem como significado principal enquanto “stream” tem como significado a representação de um fluxo ou corrente.

Por esse motivo, na língua inglesa, mainstream pode corresponder, ou conter a orientação de significado “ao fluxo principal de água de um rio com efluentes”. Em português, mainstream designa um grupo, estilo ou movimento com características dominantes. Este conceito está relacionado com o mundo das artes, principalmente com a música e literatura. Um grupo musical mainstream agrada e apresenta um conteúdo que é usual, familiar e disponível à maioria e que é comercializado com algum ou muito sucesso. O oposto de mainstream é o conceito de underground, termo inglês que pode ser traduzido como subterrâneo, subsolo e clandestino. Como o próprio nome indica, o conceito de underground implica algo que não é disponibilizado para um grande número de pessoas, e não tem grande reconhecimento per se globalizado. Por exemplo, um grupo musical que é underground e alcança a fama, pode passar a ser considerado mainstream. Um conteúdo mainstream é considerado comercial e obtém uma grande divulgação por parte dos meios de trabalho e comunicação massivos. Emerge no mercado cinematográfico um cinema de caráter experimental caracterizado pela liberdade autoral dos diretores e motivado pela frustração de oportunidades e com um sistema que priorizava produções compostas de certa uniformidade de conteúdo e estilo.  

Surge originalmente com a precursora do New American Cinema, Maya Deren, nascida Eleanora Derenkovskaya, a 29 de abril de 1917, o ano da Revolução Russa, em Kiev, na Ucrânia, filha de Marie Fiedler, que havia estudado música, e de Solomon Derenkovsky, psiquiatra, começou por receber a educação reservada aos privilegiados cultos. Mas em 1922, com as revoltas antissemitas, causar estragos, destruir violentamente (pogroms) provocadas pelas forças contrarrevolucionárias do Exército Branco, um movimento pró-czarista e anticomunista, a família judia é forçada a fugir da União Soviética. Estabelecem-se com o irmão do pai em Siracusa, Nova Iorque, onde Solomon Derenkovsky (1917-1961) integra o corpo clínico do Hospital Psiquiátrico local e, pouco tempo depois, a família é oficialmente autorizada a encurtar o nome para Deren. Em 1928 os Deren tornam-se cidadãos norte-americanos. Em 1930, os pais se separaram, Deren é enviada, em regime de internato, para a Escola Internacional de Genebra, na Suíça, onde estuda francês, alemão e russo. Em 1933 retorna aos Estados Unidos da América e inicia os seus estudos superiores na Universidade de Siracusa, onde frequenta jornalismo e Ciência Política, tornando-se ativista da organização trotskista Liga da Juventude Socialista (YPSL), na qual conhece Gregory Bardacke (1913-1991), com quem viria a casar em 1935, aos 18 anos. Datam desta época os seus primeiros interesses no plano prático como eletivo pelo cinema. Em 1935 transfere-se para a Universidade de Nova Iorque, onde ela e o marido se tornam ativos em causas de engajamento socialistas. Terminado o curso e separada de Gregory Bardacke, embora a lentidão burocrática do divórcio só fosse decretada em 1939, inicia o Mestrado em Literatura inglesa e poesia simbolista na Escola Nova de Pesquisas Sociais, que completa em 1939 no Colégio Smith. 


Em 1941 torna-se assistente pessoal da coreógrafa Katherine Dunham, pioneira da dança negra e autora, em 1936, de um estudo antropológico sobre o Haiti. O trabalho com Dunham inspira Deren a escrever um ensaio: Religious Possession in Dancing. A Companhia de Dança Katherine Dunham fixa-se em Los Angeles alguns meses, para poder ipso facto trabalhar em Hollywood. Deren conhece Alexander Hackenschmied, um famoso fotógrafo e operador de câmara de origem checa, que em 1942 se tornaria o seu segundo marido, e que por sugestão da própria Deren, que achava Hackenschmied “demasiado judeu”, encurta o seu nome para Alexander Hammid. André Breton, Marcel Duchamp, Oscar Fischinger, John Cage e Anaïs Nin tornam-se parte do círculo social de Greenwich Village e a influência começa a fazer-se no trabalho de realizadores Willard Maas, Kenneth Anger, Stan Brakhage, Sidney Peterson, James Broughton, Gregory J. Markopoulos e Curtis Harrington. Aproveita a pequena herança familiar de seu pai para comprar em segunda-mão uma câmara Bolex de 16mm, que ela e Hammid usaram para realizar o primeiro filme, Meshes of the Afternoon (1943), que preparou o terreno para os filmes norte-americanos de vanguarda dos anos 1940 e 1950 e seria reconhecido como um marco incontornável do cinema experimental. Deren regressa a Nova Iorque em 1943 e passa a assinar com um novo nome: Maya, que representa na mitologia o nome da mãe de Buda, como uma antiga palavra para água e a palavra que designa o “véu da ilusão” na mitologia Hindu. 

No decurso dos anos imediatos Deren dá continuidade a criação de obras inovadoras em 16mm, nomeadamente At Land (1944) e Study in Choreography for Camera (1945). Em 1946 aluga o Teatro de Provincetown, no centro de Nova Iorque, para mostrar Meshes of the Afternoon, At Land e Study in Choreography for Camera num evento intitulado Three Abandoned Films que durou a experimentação por vários dias. Esta ação audaciosa inspiraria outros realizadores a fazerem a auto-distribuição do seu trabalho. Nesse mesmo ano ganha um Fellowship da Fundação Guggenheim pelo “Trabalho Criativo no Domínio Cinematográfico”, tendo sido o primeiro realizador a ganhar o prestigiado prêmio. As suas fotografias e ensaios, incluindo An Anagram of Ideas on Art, Form and Film começam a surgir na imprensa underground. Inicia também o planejamento de um filme sobre “transe e ritual”, envolvendo a coreografia da dança, os jogos infantis e os filmes etnográficos realizados por Gregory Bateson e Margaret Mead sobre o transe no Bali. Em 1947 é-lhe atribuído o “Grande Prêmio Internacional para Filmes de 16mm - Classe Experimental” no Festival de Cannes, por Meshes of the Afternoon

É a primeira vez que o prêmio é concedido aos Estados Unidos da América e a realizadora mulher. Nesse mesmo ano divorcia-se de Alexander Hammid. O prêmio da Fundação Guggenheim permitiu a Deren financiar uma viagem ao Haiti, para prosseguir as suas pesquisas sobre o Vodu haitiano, interesse que lhe terá sido despertado pelo estudo de Dunham sobre a dança do Haiti. Entre 1947 e 1955, Deren passa aproximadamente 21 meses no Haiti, filmando rituais e danças Vodu, mas também participando praticamente neles, a ponto de adotar ou eleger a religião Vodu e de ser iniciada como sacerdotisa. O material que daí resultou - várias horas coletivamente referenciadas como Haitian Film Footage - ficou por terminar a partir desse material, Teiji Ito e Cherel Winett Ito montaram e produziram um filme em 1981, passados vinte anos depois da morte de Deren, estando atualmente depositado na Colecção Maya Deren da Universidade de Boston. Sob a tutela do mitologista Joseph Campbell, Deren escreveu um estudo etnográfico, detalhado e sem precedentes, sobre a religião Vodu, intitulado Divine Horsemen: The Living Gods of Haiti (1953), considerado fonte incontornável sobre o assunto. O seu último filme, The Very Eye of Night (1955), teve estreia em Port-au-Prince, no Haiti. Devido a uma disputa comercial e financeira com o produtor, o filme só foi mostrado em Nova Iorque em 1959. Em 1960 Deren casa com Teiji Ito, músico japonês mais novo 18 anos e que a acompanhara ao Haiti dos anos 1950. Compôs as bandas-sonoras para seus filmes, incluindo The Very Eye of Night.  

Decorre desta incursão nos anos 1960, que conectou as vanguardas modernas europeias à new wave norte-americana que surgiu após a 2ª guerra mundial (1939-1945). Com tecnologias mais acessíveis, de caráter experimental, o filme Meshes of an Afternoon (1943), rompe com conceitos clássicos de montagem, ritmo e som, elevando o espectador a um efeito psicológico de transe que possibilitava que o cinema fosse uma experiência sensorial. Comparativamente, se na França, Jean-Luc Goddard e François Truffaut acoplaram a crítica à cinematografia na nouvelle vague, nos Estados Unidos, John Cassavetes faz uso de toda sua experiência como ator, incorporando-a em duas produções como diretor. Com seu primeiro filme, de baixíssimo orçamento, Shadows (1959), o diretor destaca-se como primeiro filme-símbolo do cinema independente americano. Este cinema passa a ser dividido em duas vertentes: a primeira, chamada de Filmes B, ou “exploitation movies”, apresenta duas fases, tendo a ocorrida entre o final dos anos 1950 até a década de 1960, caracterizada por filmes ditos “independentes com temas tabu”, exibidos por contra própria da parte de diretores e produtores em feiras, parques e cinemas desvinculados dos principais estúdios. A segunda que começa na década de 1960 e tem suas produções caracterizadas pela premissa de subversão às regras que regiam as condutas das produções anteriores. Sem imposições em tono do bom gosto ou controle da censura, filmes indômitos e chocantes proliferam-se, como é o caso representativos das obras dos cineastas Edward Wood e George Romero. A outra vertente é a dos Filmes Cult, caracterizados por serem realizações concebidas de forma mais intelectualizadas, exibidas em casas de arte das metrópoles culturais do país. Nesse contexto destacam-se diretores como John Nicholas Cassavetes e Martin Scorsese.

Portland é uma cidade no noroeste dos Estados Unidos da América, perto da confluência dos rios Willamette e Columbia, no estado do Óregon. Fundada em 1845, foi incorporada em 8 de fevereiro de 1851. É considerada uma das dez cidades mais ecológicas do mundo, principalmente pelo sistema do governo de carros movidos a bateria elétrica que reduzem uma grande porcentagem de emissão de gás carbônico na atmosfera. Em 2012, o jornal britânico The Guardian incluiu Portland na lista dos cinco melhores lugares do mundo para se viver, ao lado do Santa Cruz de Tenerife, em Espanha; o distrito de Cihangir, em Istambul; a costa norte de Maui, na Hawaii, e Sankt Pauli, na Hamburgo. A cidade é reconhecida pelo grande número de cervejarias e alambiques, e sua adoração por café. O clima é ideal para o crescimento de rosas e, por mais de um século. É conhecida como A Cidade das Rosas, possuindo roseirais. Entrou no Guinness dos Recordes como o “menor parque do mundo, de apenas 0,28 metros quadrados”. A paisagem urbana de Portland deriva muito de seu caráter das muitas pontes que atravessam o rio Willamette, muitos dos quais são marcos históricos, ipso facto foi apelidado de Bridgetown por muitas décadas como resultado. Três das pontes mais usadas do centro da cidade têm mais de 100 anos: a Ponte Hawthorne (1910), a Ponte de Aço (1912) e a Ponte Broadway (1913). A mais nova de Portland no centro da cidade, Tilikum Crossing, inaugurada em 2015 é a primeira ponte a abranger o Willamette em Portland desde a inauguração da ponte Fremont, de dois andares, em 1973.  

Outras pontes que atravessam o rio Willamette no centro da cidade incluem a Ponte Burnside, a Ponte da Ilha Ross, ambas construídas em 1926, e a Ponte Marquam de dois andares, construída em 1966. Outras pontes fora do centro da cidade incluem a Ponte Sellwood, construída em 2016, ao sul; e a St. Johns Bridge, uma ponte suspensa gótica construída em 1931, ao norte. A ponte do memorial de Glenn L. Jackson e a ponte de um estado a outro fornecem o acesso de Portland através do rio de Columbia no estado de Washington. O rio Willamette, que flui para o norte através do centro da cidade, serve como a fronteira natural entre o leste e o oeste de Portland. O lado oeste, mais denso e desenvolvido anteriormente, se estende até o colo de West Hills, enquanto o lado leste mais plano se espalha por aproximadamente 180 quarteirões até encontrar o subúrbio de Gresham. A primeira escola do Oregon foi inaugurada em 1834, por Jason Lee, um missionário metodista. Esta escola era voltada para a educação de crianças indígenas da região. Após a criação do Território de Oregon, o governo do recém-criado território ordenou que cada municipalidade cedesse 518 hectares de terra para apenas a qualquer uso relacionado com educação. No ano seguinte, o governo do território aprovou a criação de um sistema estadual de escolas públicas. A primeira escola pública do Oregon foi inaugurada em 1851. A primeira biblioteca do Oregon foi inaugurada em 1834. Atualmente, o Oregon possui cerca de 125 bibliotecas públicas, que movimentam uma média de 12,2 livros por habitante. A primeira instituição de educação foi a Instituição de Oregon - atual Universidade de Willamette - fundada em 1842 em Salem. 

Esta instituição não somente é a mais antiga do estado, bem como de toda a região oeste dos Estados Unidos. O Oregon possui 57 instituições de educação superior, dos quais 26 são públicas e 31 são privados. A Universidade de Oregon é a maior instituição de educação de nível superior do Estado. Salem é uma cidade norte de Massachusetts, acima de Boston. É célebre pelos julgamentos de bruxas de 1692, quando vários habitantes foram executados por praticarem bruxaria. Historicamente em 1891, as cidades de Portland, Albina e East Portland foram consolidadas, criando padrões inconsistentes de nomes e endereços de ruas. O “grande renumerador” de 2 de setembro de 1931 normalizou os padrões de nomenclatura das ruas, dividiu Portland em cinco quadrantes oficiais e alterou o número de casas de 20 por bloco para 100 por bloco. As cinco seções de endereçamento de Portland desenvolveram identidades distintas, com diferenças culturais moderadas e talvez rivalidades amistosas entre seus residentes. O distrito de Pearl, no noroeste de Portland, que era amplamente ocupado por armazéns, indústrias leves e ferroviários no início a meados do século XX, agora abriga galerias de arte, restaurantes e lojas de comércio varejo, e é um dos bairros mais ricos da cidade. Áreas mais a oeste do Distrito de Pearl incluem bairros conhecidos como Uptown e Nob Hill, bem como o Alphabet District, uma importante rua comercial repleta de boutiques de roupas e outras lojas de luxo, misturadas a cafés e restaurantes. Will, vivido por um intenso Ben Foster, é um veterano da Guerra do Iraque que sofre de stress pós-traumático e decidiu se ausentar da “sociedade organizada”. Para isso, criou uma estrutura complexa de vida na densa mata do parque florestal em Portland, Oregon.

           No começo da década de 1950, conselheiros militares norte-americanos foram enviados para a então Indochina Francesa. O envolvimento político dos Estados Unidos da América nos conflitos da região aumentou nos anos 1960, com o número de tropas estacionadas no Vietnã triplicando de tamanho em 1961 e de novo em 1962. Após o Incidente do Golfo de Tonquim, em 1964, quando um contratorpedeiro americano foi supostamente atacado por embarcações norte-vietnamitas, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução que deu autorização ao presidente americano para aumentar a presença militar do país no Vietnã e escalar o conflito. Unidades de combate americanas começaram a chegar em peso no país em 1965. A guerra rapidamente se expandiu, atingindo o Laos e o Camboja, que passaram a ser intensamente bombardeados pela força aérea dos Estados Unidos a partir de 1968, o mesmo ano que os comunistas lançaram a grande Ofensiva do Tet. Esta ofensiva falhou no seu objetivo de derrubar o governo sul-vietnamita e iniciar uma revolução socialista por lá, mas é considerado o ponto de virada da guerra, já que a população americana passou a questionar se uma vitória militar seria possível, com o inimigo capaz de lançar grandes ataques mesmo após anos de derramamento de sangue. Havia uma  disparidade entre a imprensa e governo, com os dados apresentados geralmente contrastando.  

            Incidente do Golfo de Tonquim foram dois incidentes separados por dois dias envolvendo as forças navais dos Estados Unidos e possivelmente da República Democrática do Vietname nas águas do Golfo de Tonquim, costa vietnamita, em agosto de 1964. Este incidente induziu e ajudou o congresso a votar a declaração de guerra formal para iniciar ações militares contra os Norte-vietnamitas e marca o começo do envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietname. O incidente, que teve repercussão mundial, dado o fato de que os Estados Unidos, apesar do apoio político, financeiro e de treinamento militar que dava ao Vietname do Sul, então em guerra com o norte comunista, ainda não se encontrava em hostilidades abertas diretas com os comunistas do norte, acabou sendo o pretexto para que o Congresso dos Estados Unidos assinasse um ato, a Resolução do Golfo de Tonquim, dando autorização legal ao presidente Lyndon Johnson (1908-1973) para entrar na guerra. O governo de Hanói fez diversas declarações oficiais de que houve apenas um ataque, e que este foi ocasionado pelo fato de vasos de guerra estrangeiros terem adentrado suas águas territoriais. O incidente provocou o bombardeio de bases norte-vietnamitas por caças de dois porta-aviões ao largo da costa, destruindo depósitos de combustível e maquinaria para a construção de torpedos, marcando o primeiro ataque aéreo dos Estados Unidos às instalações militares no território norte-vietnamita. Em 2005, documentos secretos da Agência de Segurança Nacional (NSA) vieram a público (cf. Harding, 2014) indicando o que as torpedeiras norte-vietnamitas nos ataques de 4 de agosto nunca foi confirmada.

Nos Estados Unidos e Ocidente do final dos anos 1960, começou um sentimento de oposição à guerra imperialista como parte de um grande movimento de contracultura. A guerra mudou a dinâmica das relações entre os blocos Leste e Oeste, também alterando as divisões norte-sul do mundo. A partir de 1969, os Estados Unidos começaram o processo de “vietnamização”, que visava melhorar a capacidade militar do Vietnã do Sul de lutar a guerra por si só, sem apoio externo. Os norte-americanos esperavam assim poder reduzir sua participação no conflito sem ter que comprometer o objetivo estratégico máximo de impedir a expansão do comunismo na região, transferindo a responsabilidade de lutar para os próprios sul-vietnamitas. Assim, no começo dos anos 1970, os Estados Unidos começaram a retirar suas tropas do Vietnã. O que se seguiu, em janeiro de 1973, foi a assinatura do Acordos de Paz de Paris, porém isso não significou o fim das hostilidades. Envolvimento militar norte-americano direto na Guerra do Vietnã foi encerrado formalmente em 15 de agosto de 1973. Não demorou muito tempo e na primavera de 1975, os Norte-vietnamitas iniciaram uma grande ofensiva para anexar o Sul de uma vez por todas. Em abril de 1975, Saigon foi conquistada pelos comunistas, e o fim da guerra, com o Norte e o Sul do Vietnã unificados no ano seguinte.  O custo em vidas da guerra foi extremamente alto. 

O total de vietnamitas mortos, civis ou militares, varia de 966. 000 a 3,8 milhões. Entre 240. 000 e 300. 000 cambojanos, e 20 000 a 62 000 laocianos perderam a vida também. Já os americanos estimam suas perdas em 58 000 soldados mortos, mais de 300 mil feridos e 1 626 ainda desaparecidos em 1975. Para os Estados Unidos da América, a Guerra do Vietnã resultou numa das maiores confrontações armadas em que o país já se viu envolvido, e sua derrota provocou a “Síndrome do Vietnã” em seus cidadãos e sua sociedade, causando profundos reflexos na sua cultura, na indústria cinematográfica e grande mudança na sua política exterior, até a eleição de Ronald Reagan, em 1980.  A impopularidade de Carter e as más relações com os líderes democratas encorajaram um desafio intrapartidário do senador Ted Kennedy, irmão mais novo do ex-presidente John F. Kennedy. Carter derrotou Kennedy na maioria das primárias democratas, mas Kennedy permaneceu na disputa até que Carter foi oficialmente nomeado na Convenção Nacional Democrata de 1980. As primárias republicanas foram disputadas entre Reagan, que já havia servido como governador da Califórnia, o ex-congressista George H. W. Bush do Texas, o congressista John B. Anderson de Illinois, e vários outros candidatos. Os oponentes de Reagan haviam desistido, e a Convenção Nacional Republicana de 1980 indicou a chapa composta por Reagan e Bush. Anderson entrou na disputa como candidato e convenceu o ex-governador de Wisconsin Patrick Lucey, um democrata, a servir como seu companheiro de chapa.

Ronald Reagan (1911-2004) fez campanha por maiores gastos com defesa, implementação de políticas econômicas do lado da oferta e um orçamento equilibrado. Sua campanha foi auxiliada pela insatisfação democrata com Carter, a crise dos reféns no Irã e uma piora da economia doméstica, marcada por alto desemprego e inflação. Carter atacou Reagan como um perigoso extremista de direita e advertiu que Reagan cortaria o Medicare e a Previdência Social. Venceu o processo eleitoral obtendo uma vitória esmagadora, obtendo uma grande maioria dos votos eleitorais e 50,7% do voto considerado popular. Recebeu mais votos eleitorais já obtido por um candidato presidencial não titular. Nas eleições simultâneas para o Congresso, os republicanos conquistaram o controle do Senado dos Estados Unidos pela primeira vez desde 1955. Carter obteve 41% dos votos, mas venceu apenas seis estados e o Distrito de Colúmbia. Anderson obteve 6,6% dos votos populares e teve o melhor desempenho entre os eleitores republicanos liberais insatisfeitos com Reagan, então com 69 anos, foi a pessoa mais velha a ser eleita para um primeiro mandato até Joe Biden ser eleito presidente em 2020 aos 77 anos. Em torno de quarenta anos, esta havia sido a última vez que um presidente em exercício foi derrotado por um desafiante mais velho; fato que perdurou até a eleição de 2020, quando Joe Biden derrotou o presidente republicano Donald Trump.

A sociologia, não confunde a prática dos rituais com seu sentido. De fato, há requisitos da vida social entre estabelecidos através das relações entre os animais que são inconcebíveis em sua analogia no mundo vegetal. Reações ou relações baseadas na capacidade de locomoção, na plasticidade assegurada pelo sistema nervoso, na interdependência dinâmica produzida pela divisão do trabalho, em tendências mais ou menos conscientes de comportamento, etc., não comportam condições de manifestação nas comunidades de plantas, por maior que seja o grau de sociabilidade inerente aos seus padrões de organização interna. Isso não impede que se reconheça que alguns tipos de relações comunitárias das plantas possuem valor social definido no amplo e diversificado mercado mundial de consumo de drogas. As dificuldades são de ordem descritiva. Raramente se assume um estado de espírito que lhe permita considerar a vida social, independentemente dos padrões mais complexos, que ela alcança a análise comparada entre os animais e os dos homens. Nenhum sociólogo é capaz de realizar seu ofício antes de percorrer as fases da de investigação completa, na qual transmite do levantamento dos dados à sua crítica e à análise e, em seguida, ao tratamento interpretativo propriamente dito. Os que repudiam o estudo de comunidade ou o estudo de caso com obstinação, ignoram esse lado pedagógico do treinamento pela pesquisa empírica sistemática.

Nas comunidades de plantas de organização simples – mutatis mutandis - os comensais são iguais. Nas comunidades de plantas de organização complexa, os comensais são desiguais e concorrem, com suas necessidades diferentes, para uma utilização mais complexa de possibilidades do habitat comum. Do ponto de vista dinâmico, a sociabilidade das plantas é um produto direto da competição, que regula a distribuição dos indivíduos no espaço e o padrão daí resultante da relação deles entre si. No entanto, as variações no grau de sociabilidade podem afetar as condições gerais de interação das plantas. O aumento da sociabilidade, por exemplo, é útil às plantas em competição com outras espécies. A função social do meio não chega a sofrer uma diferenciação nítida; aparece como uma condição, às vezes mal perceptível, da interação dos organismos através da utilização dos recursos do habitat.  É útil ter-se em mente que o sistema de notações dos botânicos não coincide com os dos sociólogos, pois as aglomerações vegetais não possuem, do ponto de vista sociológico, as propriedades específicas da associação propriamente dita. A polêmica, neste plano terreno e abstrato, relaciona-se com os modos de interpretação que correspondam a esses atributos sociais. Biólogos, psicólogos e sociólogos pensam, de forma distinta, que as propriedades sociais das comunidades de animais, independentemente do grau técnico em que constituam produtos de mecanismos extra-sociais, possuem bastante objetividade científico-social para serem considerados isoladamente.

A divisão do trabalho (cf. Durkheim, 2010) não é específica do nível de análise econômico: podemos observar sua influência crescente nas regiões mais distintas da sociedade. As funções políticas, administrativas, judiciárias especializam-se cada vez mais. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas no âmbito das universidades. As especulações filosóficas da biologia nos demonstraram, na divisão do trabalho, um fato social de uma tal generalidade que os economistas, que foram os primeiros a mencioná-lo, não haviam podido suspeitar. Não é mais uma instituição social que tem sua fonte na inteligência e na vontade dos homens. Mas um fenômeno de biologia geral, cujas condições, ao que parece, precisam ser buscadas nas propriedades essenciais da disciplina organizada. A divisão do trabalho social passa a aparecer apenas como uma forma particular desse processo geral, e as sociedades, conformando-se a essa lei, parecem ceder a uma corrente de pensamento que nasceu bem antes delas e que arrasta no mesmo sentido todo o mundo vivo. Semelhante fato não pode, evidentemente, produzir-se sem afetar profundamente nossa constituição moral, pois o desenvolvimento do homem se fará em dois sentidos de todo diferentes. Não é necessário demonstrar a gravidade desse problema; qualquer que seja o juízo sobre a divisão do trabalho, sabe-se que ela é e se torna cada vez mais uma das bases fundamentais da ordem social tanto quanto política.

Sociologicamente todo estado forte da consciência é uma fonte de vida, é um fato essencial de nossa vitalidade geral. Por conseguinte, tudo o que tende a enfraquece-lo nos diminui e nos deprime; resulta daí, seguindo os passos de Émile Durkheim, uma impressão de confusão e de mal-estar análoga a que sentimos quando uma função importante é suspensa ou retardada. É inevitável, pois, que reajamos energicamente contra a causa que nos ameaça com tal diminuição, que nos esforcemos por afastá-la, a fim de mantermos a integridade de nossa consciência. No primeiro plano das causas que produzem esse resultado, devemos colocar a representação de um estado contrário. Uma representação não é, com efeito, uma simples imagem da realidade, uma sombra inerte projetada em nós pelas coisas, mas uma força que ergue a seu redor um turbilhão de fenômenos orgânicos e psíquicos. Não somente a corrente nervosa que acompanha a ideação se irradia nos centros corticais do ponto em que se originou e passa de um plexo a outro, mas ressoa nos centros motores, onde determina movimentos, nos centros sensoriais, onde desperta imagens, excita por vezes começos de ilusões e pode afetar as funções vegetativas; esse ressoar é mais considerável quanto mais intensa for a representação, quanto mais desenvolvido for esse elemento emocional. 

Assim, a representação de um sentimento contrário ao nosso age em nós no mesmo sentido e das mesma maneira que o sentimento que ela substitui; é como se ele mesmo tivesse entrado em nossa consciência. Ela tem, de fato, as mesmas afinidades, embora menos vivas; ela tende a despertar as mesmas ideias, os mesmos movimentos, das mesmas emoções. Ela opõe, pois, uma resistência ao jogo de nosso sentimento pessoal e, por conseguinte, o debilita, atraindo numa mesma direção contrária toda uma parte de nossa energia. É como se uma força estranha se houvesse introduzido em nós, de modo a desconcertar o livre funcionamento de nossa vida psíquica. Eis porque uma convicção oposta à nossa não pode se manifestar em nossa presença sem nos perturbar: é que, ao mesmo tempo, ela penetra em nós e, encontrando-se em antagonismo com tudo o que em nós encontra, determina verdadeiras desordens. Sem dúvida, enquanto o conflito só se manifesta entre ideias abstratas, nada há de muito doloroso, pois nada há de mito profundo. A região dessas ideias é, ao mesmo tempo, a mais elevada e a mais superficial da consciência, e as mudanças que nela sobrevêm, não tendo repercussões extensas, afetam-nos apenas debilmente. No entanto, quando se tata de uma crença que nos é cara, não permitimos e não podemos permitir que seja impunemente ofendida.

Toda ofensa dirigida contra ela suscita uma reação emocional, mais ou menos violenta, que se volta contra o ofensor. Nós nos arrebatamos, nos indignamos contra ele, ficamos com raiva e os sentimentos assim provocados não podem deixar de ser traduzidos por atos; fugimos dele, mantemo-lo à distância, banimo-lo de nossa companhia etc. Sem dúvida, não pretendemos que toda nossa convicção forte seja necessariamente intolerante; a observação corrente basta para demonstrar o contrário. Mas isso porque as causas externas neutralizam, então, aquelas cujos efeitos acabamos de analisar. Por exemplo, pode haver entre os adversários uma simpatia geral que contenha seu antagonismo e o atenue. Mas é preciso que essa simpatia seja mais forte do que esse antagonismo, de outro modo não sobrevive a ele. Ou, então, as duas partes em presença renunciam à luta, quando fica claro que esta é incapaz de levar ao que quer que seja, e se contentam com manter suas respectivas situações, toleram-se mutuamente, não podendo autodestruir-se. A tolerância recíproca que por vezes encerra guerras religiosas costuma ser dessa natureza. Em todos os casos, se o conflito dos sentimentos não engendra suas consequências naturais, não é porque não as contenha, é porque é impedido de produzi-las. Todas essas emoções violentas constituem, na realidade, uma convocação de forças suplementares que vêm restituir ao sentimento atacado a energia que a contradição lhe retira.

Foi dito, algumas vezes, que a cólera era inútil, por ser tão-só uma paixão destrutiva, mas isso é vê-la apenas sob um de seus aspectos. De fato, ela consiste numa sobreexcitação de forças latentes e disponíveis que vêm ajudar nosso sentimento pessoal a encarar os perigos, reforçando-as. No estado de paz, se assim podemos falar, esse sentimento não se encontra suficientemente armado para a luta e poderia, portanto, sucumbir, se reservas passionais não entrassem em ação no momento necessário; a cólera nada mais é que uma mobilização dessas reservas. Pode até acontecer que, se o socorro assim evocado supera as necessidades, a discussão tenha por efeito fortalecer-nos ainda mais em nossas convicções, longe de nos abalar. Sabe-se que grau de energia pode alcançar uma crença, ou um sentimento, pelo simples fato de serem sentidos por uma comunidade de homens em relação uns com os outros, as causas desse fenômeno são bem conhecidas. Do mesmo modo que estados de consciência contrários se enfraquecem reciprocamente, estados de consciência idênticos, intercambiando-se, fortalecem uns aos outros. Enquanto os primeiros se subtraem, os segundos se adicionam. Se alguém exprime diante de nós uma ideia que já era nossa, a representação que fazemos dela vem se somar à nossa própria ideia, superpor-se a ela, confundir-se com ela, comunica-lhe o que ela própria tem de vitalidade; dessa fusão apressa-se uma nova ideia que absorve as precedentes e, em consequência, é mais viva do que antes cada uma delas considerada isoladamente. Eis por que, nas assembleias numerosas, uma emoção pode adquirir tamanha violência: é que a vivacidade com a qual ela se produz em cada consciência ressoa em todas as demais. Basta que não sejamos um terreno demasiado refratário para que, penetrando do exterior com a força que traz de suas origens, imponha-se a nós.          

A intuição como forma de representação do conhecimento consiste na capacidade de conhecer algo sem de fato ainda entender seu funcionamento. Está fundamentada na noção inicial que temos sobre algo, noção esta que nasce da experiência sensorial e/ou de uma análise superficial das características que compõe determinado elemento. Tomando como base a noção inicial, conseguimos entender de forma pouco esclarecida do que se trata determinado elemento e já nos dispomos a emitir juízos acerca do mesmo. Todas estas concepções do homem, que se expressam de diversas formas, em sua relação com a natureza, nasceram a partir da análise que seus sentidos o proporcionaram fazer. Mas há algo a mais nisto. Não bastariam ele olhar para a pedra e sentir seu peso para concluir todas estas coisas. Teria o homem que pensar por associação, por comparação. Entre tais habilidades ou competências determinadas importa destacar a relação social contígua entre o ser capaz de pensar e o ser capaz de aprender. Teria o homem que se basear em suas outras experiências, tanto pessoais quanto sociais para entender tais coisas.

Têm-se nas reflexões anteriores, um exemplo desta forma básica de entender o mundo que nos cerca. O pensamento forma-se por associação. O conhecimento que se constrói através de memórias de experiências passadas e logo comparações com experiências presentes. O raciocínio intuitivo da forma como foi apresentado, revela-nos uma superficialidade na forma de compreender o mundo. Retomando ao exemplo do homem: o mesmo não saberia explicar o porquê de nenhuma de suas conclusões, visto que ele se baseou somente em suas antigas experiências. Os fatos usados para formar a conclusão, não são compreendidos pelo homem, ele apenas sabe que são tal como são e aceita isso como natural. Além dessas substâncias e de outras, que estão em menor quantidade, o ar, por exemplo, também apresenta gotículas de água, poeira, e sobretudo partículas de vírus, bactérias e outro micro-organismos. Não entende ele, no plano abstrato da teoria “como” e nem o “por que” daqueles fatos sociais do dia a dia se apresentarem daquela maneira. Tudo que ele sabe, foi captado pelos seus sentidos, guardado na memória e utilizado automaticamente em seu dia-a-dia como forma de entender o mundo que lhe é anterior e encontra-se ao seu redor.

O símbolo não sendo já de natureza linguística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos não apenas já não formam longas cadeias de razões, mas nem sequer cadeias. A explicação linear do tipo de dedução lógica ou narrativa introspectiva já não basta para o estudo das motivações simbólicas. A classificação dos grandes símbolos da imaginação em categorias motivacionais distintas apresenta, com efeito, pelo próprio fato da não linearidade e do semantismo das imagens, grandes dificuldades. Metodologicamente, se se parte dos objetos bem definidos pelos quadros da lógica dos utensílios, como faziam as clássicas “chaves dos sonhos”, segundo as estruturas antropológicas do imaginário, cai-se rapidamente, pela massificação das motivações, numa inextricável confusão. Parecem-nos mais sérias as tentativas para repartir os símbolos segundo os grandes centros de interesse de um pensamento, certamente perceptivo, mas ainda completamente impregnado de atitudes assimiladoras nas quais os acontecimentos perceptivos não passam de pretextos para os devaneios imaginários. Tais são as classificações profundas de analistas das motivações do simbolismo religioso e imaginação em geral literária.    

No prolongamento dos esquemas explicativos, arquétipos e simples símbolos modernos podem-se considerar o mito. Lembramos, todavia, que não estamos tomando este termo na concepção restrita que lhe dão os etnólogos, que fazem dele apenas o reverso representativo de um ato ritual. Entendemos por mito, “um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a compor-se na narrativa”. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em ideias. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a ideia e que o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem observou Bréhier, a narrativa histórica e lendária. O método de convergência evidencia o mesmo isomorfismo na constelação e no mito. Enfim, para sermos breves, este isomorfismo dos esquemas, arquétipos e símbolos no seio dos sistemas míticos ou de constelações estáticas pode levar-nos a verificar a existência de protocolos normativos das representações imaginárias, bem definidos e estáveis, agrupados nos esquemas originais e que antropologicamente a literatura refere-se como estruturas sociais.

Um homem (Ben Foster) ex-veterano de guerra norte-americano vive com a filha de 13 anos (Thomasin McKenzie), felizes e indetectados pelas autoridades durante anos em uma vasta reserva florestal na fronteira de Portland, nos Estados Unidos da América. A região é considerada do ponto de vista técnico-metodológico como uma das dez cidades mais ecológicas do mundo, principalmente pelo sistema do governo de carros movidos a bateria elétrica que reduzem uma grande porcentagem de emissão de gás carbônico na atmosfera. Foi classificada a cidade mais verde dos Estados Unidos da América, e a segunda mais verde do mundo global. Em tese são cidades sustentáveis, projetadas com respeito ao meio ambiente, atuação econômica viável e socialmente justa. Elas também são conhecidas como cidades inteligentes na busca pela eficiência dos serviços de maneira sustentável. A estratégia do veterano tem como escopo se manter o mais longe possível da civilização. Quando as autoridades os descobrem, com o trabalho rotineiro de segurança da floresta, pai e filha partem em fuga, em busca de um novo esconderijo. Não se passa impunemente por um campo de batalha contemporâneo. Mesmo quem volta ileso pode sofrer consequências psicológicas ou físicas. Um em cada quatro casos de veteranos de guerra norte-americanos desde a guerra da Secessão, foi uma guerra civil travada nos Estados Unidos de 1861 a 1865, entre a União e os Confederados. Sua causa principal foi a longa controvérsia sobre a escravização dos negros. O conflito eclodiu em abril de 1861, quando as forças sociais e políticas separatistas atacaram o Fort Sumter, na Carolina do Sul, pouco depois de Abraham Lincoln (1808-1865) ter tomado posse como Presidente dos Estados Unidos. Os legalistas da União no Norte, que também incluíam alguns Estados geograficamente ocidentais e do sul, proclamaram apoio à Constituição, enfrentaram os secessionistas dos Estados Confederados do Sul, que defendiam os direitos dos estados em manter a escravidão, sofre de estresse pós-traumático, com medos e lembranças de perigo que enfrentaram.  A inteligência é o único meio que possuímos para dominar os nossos instintos. Mas como isto é possível?

O etnocentrismo é a visão preconceituosa e unilateralmente formada sobre outros povos, culturas, religiões e etnias. Esse conceito refere-se, portanto, ao hábito de julgar inferior uma cultura diferente da sua própria cultura, considerando absurdo tudo que dela deriva e considerando a sua aparentemente como a única correta. É uma ignorância obscura, pois significa estado de quem se encontra na escuridão, de quem vive na ignorância. Na filosofia, o método socrático permanece um pouco, por toda parte, nas escolas, o modelo da pedagogia liberal – senão libertária – e, nesse sentido, é capital que Jacotot tenha invertido as coisas. Ele o fez, mostrando que o ponto crucial do que denomina “embrutecimento” não é a sujeição de uma vontade a outra; que o problema, justamente, não é o de abolir toda relação de autoridade, de forma a não deixar senão uma relação de inteligência à inteligência. Pois é exatamente quando só existe relação de inteligência a inteligência que a desigualdade das inteligências e a necessidade de que uma inteligência seja guiada por uma inteligência melhor se demonstra. A emancipação dos indivíduos deve ser pensada em um “esquema inverso”, no qual a vontade não seja deixada de lado, para que se estabeleça a “pura” relação entre inteligências, se reconheça como tal, se declare como tal, isso é, se declare ignorante. O que é um mestre ignorante? É um mestre que não transmite seu saber e também não é o “guia” que leva o aluno “ao bom caminho”, que é puramente vontade, que diz à vontade que se encontra a sua frente para buscar seu caminho e, para exercer sua inteligência, na busca desse caminho.

Michel Foucault é claro quando indica o século XVIII como o início de uma época de repressão própria das sociedades chamadas burguesas, e da qual talvez ainda não estivéssemos completamente liberados. Mas entende que denominar o sexo seria, a partir desse momento, mais difícil e custoso. Como se, para dominá-lo no plano real, tivesse sido necessário, primeiro, reduzi-lo ao nível da linguagem, controlar sua livre circulação no discurso, bani-lo das coisas ditas e extinguir as palavras que o tornam presente de maneira sensível. Dir-se-ia mesmo que essas interdições temiam chamá-lo pelo nome. Sem mesmo ter que de fato poder dizê-lo, o pudor moderno obteria que não falasse dele, exclusivamente por intermédio de proibições que se completam mutuamente: mutismos que, de tanto calar-se, impõe o silêncio: censura. Ora, considerando-se esses três últimos séculos em suas contínuas transformações, as coisas aparecem bem mais diferentes: em torno e a propósito do sexo há uma verdadeira explosão discursiva. Novas regras de decência, sem dúvida alguma, filtraram as palavras: polícia dos enunciados. Controle também das enunciações: definiu-se de maneira muito mais estrita onde e quando não era possível falar dele; em que situações, entre quais locutores, e em que relações sociais; estabeleceram-se, assim, regiões, senão de silêncio absoluto, pelo menos de tato e descrição: entre pais e filhos, ou educadores e alunos, patrões e serviçais. É quase certo ter havido uma economia restritiva. Ela se integra nessa política da língua e da palavra – espontânea e deliberada que acompanhou as redistribuições sociais da época clássica.

Em compensação, no nível dos discursos e de seus domínios, o fenômeno é quase inverso. Sobre o sexo, os discursos – discursos específicos, diferentes tanto pela forma como pelo objeto – não cessaram de proliferar: uma fermentação discursiva que se acelerou a partir do século XVIII. Mas o essencial, afirma Foucault, é a multiplicação dos discursos sobre o sexo no próprio campo do exercício do poder: incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada vê mais; obstinação das instâncias do poder a ouvir e a fazê-lo falar ele próprio sob a forma de articulação explícita e do detalhe infinitamente acumulado. Mas, pode-se muito bem policiar a língua, a extensão da confissão e da confissão da carne não para de crescer. Pois a Contrarreforma se dedica, em todos os países católicos a acelerar o ritmo da confissão anual. Porque tenta impor regras meticulosas de exame de si mesmo. Mas, sobretudo, porque atribui cada vez mais importância, na penitência – em detrimento, talvez, de alguns outros pecados – a todas as insinuações da carne: pensamentos, desejos, imaginações voluptuosas, deleites, movimentos simultâneos da alma e do corpo, tudo isso deve entrar em detalhe, no jogo da confissão e da direção espiritual. O sexo segundo a pastoral, não deve ser mencionado sem prudência; mas na constituição de seus aspectos, correlações, seus efeitos, seguidos finas ramificações: sombra num devaneio, imagem expulsa com demasiada lentidão, cumplicidade mal afastada entre a mecânica do corpo e complacência do espírito: deve ser dito, isto é importante.

Aliás, crença é diferente de conhecimento e de ignorância. O seu objeto não é o ser e também não é o não-ser. Não há crença nem sobre o ser nem sobre o não-ser. Ela é menos eficiente, e, portanto, mais obscura que o conhecimento, porém mais luminosa que a ignorância. Ela ocupa, então, o meio-termo entre o conhecimento e a ignorância. O seu objeto está entre o ser e o não-ser. A identificação do objeto da crença é realizada pelo método socrático chamado elêntico. Pergunta-se aos amantes de espetáculos, se entre as numerosas coisas belas, haverá uma que não venha a mostrar-se feia, ou entre as justas, uma que não venha a parecer injusta. A resposta fornecida por Glauco, que ocupa na argumentação o lugar dos amantes de espetáculos, é que cada uma delas ora aparece bela ora feia, ora justa ora injusta, ora santa ora ímpia (479 a - b). Essas numerosas coisas que ora são ora não-são, ora mostram-se ser ora não-ser; essas coisas que rolam entre o ser e o não-ser devem ser colocadas como objetos da crença do ponto de vista da análise teórica abstrata, seja em Filosofia, seja em Sociologia. A crença é uma faculdade intermediária relacional ao conhecimento e a ignorância. Aqueles que veem essas numerosas coisas justas, mas não o justo em si tem crença. Mas não conhecimento e, crer não é o mesmo que conhecer: está baseado naquilo que ora é ora não-é. O filósofo ama o ser e não se deixa enganar pelos sentidos, enquanto que os chamados filodóxos são aqueles que amam a opinião, ou se deixam envolver pelos sentidos - têm, portanto, uma crença.

Um discurso obediente e atento deve, portanto, seguir, segundo todos os seus desvios, a linha de junção do corpo e da alma: ele revela, sob a superfície dos pecados, a nervura ininterrupta da carne. Sob a capa de uma linguagem que se tem o cuidado de depurar de modo a não o mencionar diretamente, o sexo é açambarcado e como que encurralado por um discurso que pretende não lhe permitir obscuridade nem sossego. Este projeto de uma “colocação do sexo em discurso” formara-se há muito tempo, numa tradição ascética e monástica. O século XVII fez dele uma regra para todos. Dir-se-á que, de fato, só poderia se aplicar a uma elite mínima; a massa dos fiéis que só frequentavam a confissão raras vezes por ano escapava as prescrições tão complexas. Sem dúvida o importante é que esta obrigação será fixada, pelo menos como ponto ideal para todo bom cristão. Coloca-se um imperativo: não somente confessar os atos contrários à lei, mas procurar fazer de seu desejo, de todo o seu desejo, um discurso. Esta é a tese inexorável de Foucault. Se for possível, nada deve escapar a tal formulação, mesmo que as palavras empregadas devam ser cuidadosamente neutralizadas. A pastoral cristã inscreveu, como dever fundamental, a tarefa de fazer passar tudo o que se relaciona com o sexo pelo crivo interminável da palavra. A interdição das palavras, a decência das expressões, todas as censuras do vocabulário poderiam ser apenas dispositivos secundários com relação a essa grande sujeição: maneiras de torná-la moralmente aceitável e tecnicamente útil.

            O conceito de potencialidade geralmente se refere a qualquer possibilidade que uma coisa possa ter. Aristóteles não considerou todas as possibilidades iguais e enfatizou a importância daquelas que se tornam reais por vontade própria quando as condições são adequadas e nada as impede. A atualidade, em contraste com a potencialidade, é o movimento, mudança ou atividade que representa um exercício ou a realização de uma possibilidade, quando uma possibilidade se torna real no sentido mais pleno. Esses conceitos, em formas modificadas, permaneceram muito importantes na Idade Média, influenciando o desenvolvimento da teologia medieval de várias maneiras. Ademais nos tempos modernos, enquanto a compreensão da natureza, e, de acordo com algumas interpretações, da divindade, implícita na dicotomia, perdeu importância, a terminologia encontrou novos usos, desenvolvendo-se indiretamente a partir dos pensadores antigos. Isso é mais óbvio em palavras como energia e dinâmica que palavras usadas pela primeira vez na física moderna pelo cientista e filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz. Outro exemplo pode ser representado pelo conceito biológico controverso de uma enteléquia.

Em metafísica, dinamismo representa um nome geral para um grupo de visões filosóficas sobre a natureza. Por mais diferentes que possam ser em outros aspectos, todas essas opiniões concordam em fazer a matéria consistir essencialmente em unidades, substâncias ou forças simples e indivisíveis. O dinamismo às vezes é usado para designar sistemas que admitem não apenas matéria e extensão, mas também determinações, tendências e forças intrínsecas e essenciais à matéria. O dinamismo é a metafísica de Leibniz que reconcilia a teoria das substâncias hilomórficas com o atomismo mecanicista por meio de uma harmonia pré-estabelecida, e que mais tarde foi desenvolvida por Wolff como uma cosmologia metafísica. A tese principal de Leibniz segue como consequência de sua mônada: “a natureza de toda substância carrega uma expressão geral de todo o universo”. Por meio do debate abstrato que Leibniz contrapõe a tendência inerente ao racionalismo cartesiano e espinozista em direção a uma interpretação isolacionista da independência ontológica da substância. Ipso facto, o relato sobre a força substancial visa fornecer o fundamento metafísico completo para uma ciência da dinâmica. Leibniz insiste que a força primitiva pertence apenas a causas completamente gerais. Como princípio estritamente metafísico, é objeto de apreensão puramente racional. Não está diretamente ligado às leis reais da interação corporal no reino fenomenal. Por outro lado, a força derivada pertence diretamente a essa interação observável. Sua análise leva à formulação sistemática das leis fundamentais da dinâmica corporal. São leis de ação reconhecidas não apenas pela razão, mas são também comprovadas pela evidência dos sentidos.

As pressões a que fomos expostos durante milênios deixaram um legado mental e emocional. Alguns ainda afirmam que ele está presente em nós de alguma forma, o que explicaria momentos de sensações que acabaram se confirmando. A questão é que esse instinto animal mais sensorial dos animais domésticos provavelmente também está ligado ao instinto de sobrevivência primitivo, onde esse tipo de mecanismo era usado para alertar de algum perigo iminente. Os animais ainda são muito ligados ao seu instinto primitivo e natural, que é algo geral e inato ao ser vivo, representando um tipo de inteligência no seu grau mais primitivo. Ele guia o homem e os animais que possuem um grau mais elevado em sua trajetória pela vida, nas suas ações, visando justamente a preservação do ser, que acaba acarretando em comportamentos especiais, como andar em bando ou sozinho, e na alimentação e convivência com seu habitat. Nos animais domésticos, o instinto é rastro que a evolução definitivamente não apagou.

Antropologicamente a humanidade sempre atravessa estágios em que: a) opressão da individualidade é o ponto de passagem obrigatório de seu livre desabrochar superior, em que a pura exterioridade das condições de vida se torna a escola da interioridade, b) em que a violência simbólica da modelagem produz uma acumulação de energia, destinada, em seguida, a gerar toda a especificidade pessoal. Do alto desse ideal abstrato é que, c) a individualidade plenamente desenvolvida, tais períodos parecerão, é claro, grosseiros e indignos. Mas, para dizer a verdade, além de semear os germes positivos do progresso humano vindouro, já é em si uma manifestação do espírito exercendo uma dominação organizadora sobre a matéria-prima das impressões flutuantes, uma aplicação das personalidades especificamente humanas, procurando-as fixar suas normas de vida - do modo mais brutal, exterior ou, mesmo, estúpido que seja -, em vez de recebê-las das simples forças da natureza física externa ao homem.  A horda, uma estrutura social e militar histórica encontrada na estepe eurasiática “não protege mais a moça e rompe suas relações com ela, porque nenhuma contrapartida foi obtida por sua pessoa”. 

Os indivíduos vivem em relações sociais de cooperação, mas também de oposição, portanto, os conflitos são parte mesma da constituição da sociedade. É neste sentido que formam momentos de crise, um intervalo entre dois momentos de harmonia, vistos numa função positiva de superação das divergências. Fundamenta uma episteme em torno da ideia de movimento, da relação, da pluralidade, da inexorabilidade do conhecimento, de seu caráter construtivista, cuja dimensão central realça o fugidio, o fragmento e o imprevisto. Por isso, seu panteísmo estético, ancorado sob formas decerto paradoxais de interpretação real, como episteme, no qual se entende que cada ponto, cada fragmento superficial e, portanto, fugaz é passível de significado estético absoluto, de compreender o sentido total, os traços significativos, do fragmento à totalidade. O significado sociológico do “conflito”, em princípio, nunca foi contestado. Conflito é admitido por causar ou modificar grupos de interesse, unificações, organizações. Os fatores de dissociação entre pessoas e grupos, como ódio, inveja, necessidade, desejo, são as causas tanto sociais quanto psíquicas da condenação, que irrompe em função deles. Conflito é destinado a resolver dualismos divergentes, a obter um tipo de unidade social através da aniquilação de uma das partes em litígio.

A imagem está associada a conhecimentos pretéritos adquiridos e concernentes ao objeto que ela de fato representa. Ela não apreende nada além daquilo que nós podemos extrair da realidade durante o trabalho de percepção. A imagem não se relaciona com o mundo em si, ela só depende do processo de como podemos descobrir algo sobre ela. Portanto, se existe uma possibilidade de se observar o objeto através da imaginação, mesmo assim essa possibilidade ainda não nos permite apreender nada de novo em relação ao objeto. A imagem, ato da consciência imaginante, é um elemento, identificado como o primeiro e incomunicável, como produto de uma atividade consciente atravessada de um extremo ao outro por uma corrente de “vontade criadora”. Trata-se, de dar-lhe à sua própria consciência um conteúdo de sentido imaginante, próximo da analogia weberiana da interpretação do estatuto da ciência que recria para si os objetos afetivos espontaneamente ao seu redor: ela é criativa.  Daí a importância social e afetiva de se compreender no campo da imagem, de sua produção, recepção, influência, de sua relação com o sonho, o devaneio, a criação e a ficção, a substituição das mediações pelos meios de comunicação, posto que contenha em si uma possibilidade de violência, a partir da constituição do novo regime de ficção que hoje afeta, contamina e penetra a vida social.  Fora dos maniqueísmos de todo tipo de observação, nem sempre temos a sensação de sermos colonizados, sem saber precisamente por quem. Não é facilmente identificável e, a partir daí é normal questionar-se sobre o papel da cultura ou da ideia que fazemos dela.

O descobrimento da primitiva gens do direito materno, como etapa anterior à gens de direito paterno dos povos civilizados, tem, para a história primitiva, a mesma importância que a teoria da evolução de Darwin para a biologia e a teoria da mais-valia, enunciada por Marx, para a economia política. Essa descoberta permitiu a Morgan esboçar, pela primeira vez, uma história da família, onde pelo menos as fases clássicas da sua evolução são provisoriamente estabelecidas, tanto quanto permitem o resgate dos dados estatísticos. Em torno da gens de direito materno, por exemplo, gravita, toda essa reveladora concepção de ciência. Desde seu descobrimento, sabe-se em que a direção encaminhar as pesquisas e o que precisamente estudar. Como e de que modo devem ser classificados os seus principais resultados. Reconstituindo a história da família, chega, de acordo com a maioria de seus colegas, à conclusão de que existiu uma época primitiva em que imperava, no seio da tribo, o comércio sexual promíscuo, de modo que cada mulher pertencia igualmente a todos os homens e cada homem a todas as mulheres. No século XIX havia feito menção a esse estado, evolutivo primitivo, mas apenas de modo geral; JJ Bachofen foi o primeiro etnólogo - este é um dos seus maiores méritos – que o levou a sério e procurou seus vestígios nas tradições históricas e religiosas. Ipso facto a definição de híbrido em biologia pode referir-se à genética ou à taxonomia.

No contexto da genética, o termo híbrido tem vários significados, todos referentes à descendência geracional por reprodução sexual. Em geral, o híbrido é sinônimo de heterozigoto, constituindo o indivíduo no qual os alelos de um ou mais genes são diferentes qualquer prole resultante do cruzamento de dois indivíduos homozigotos, indivíduo no qual os alelos de um ou mais genes são idênticos diferentes.  A hibridação representa a junção de patrimônios genéticos diferentes a partir do cruzamento de indivíduos de populações diferentes. Esse fato pode ocorrer devido à existência de uma zona híbrida, através da migração ou dispersão de indivíduos ou pela inserção de espécies exóticas. A zona híbrida indica na natureza uma sobreposição de populações diferentes com uma ou mais características herdáveis diferentes que possuem capacidade de produzir proles viáveis e pelo menos parcialmente férteis. Este contato social reprodutivo proporciona aproximação genética entres as espécies como causa da diminuição do isolamento. E devido à heterose podem resultar em uma criação de indivíduos superiores em muitas características. Porém isso só ocorre quando existe uma certa proximidade evolutiva entre os indivíduos, pois, quando há uma diferença genética muito grande, pode ocorrer a esterilidade ou inviabilidade da prole podendo até prejudicar as populações.

A casa inteira, lembra Durand (1997), é mais do que para se viver, é um vivente. A casa redobra, sobredetermina a personalidade daquele que a habita. A casa constitui entre o microcosmo do corpo humano e o cosmo, um microcosmo secundário, um meio termo cuja configuração iconográfica é, por isso mesmo, muito importante no diagnóstico psicológico e psicossocial. Pode-se dizer: Dize-me que casa imaginas e dir-te-ei quem és. E as confidências sobre o habitat são mais fáceis de fazer do que sobre o corpo ou sobre um elemento objetivamente pessoal. Os poetas, os psicanalistas, a tradição católica ou a sabedoria dos dogon fazem coro para reconhecer no simbolismo da casa um duplicado microcosmo do corpo material e do corpo mental. A própria organização dos compartimentos ou da choupana: canto onde se dorme, lugar onde se prepara a refeição, sala de jantar, quarto de dormir, dormitório, sala de estar, celeiro, casa da fruta, granja, sótão, todos estes elementos orgânicos trazem equivalentes anatômicos mais do que fantasias arquiteturais. A atmosfera psicológica só em segundo lugar é determinada pelos odores do jardim, os horizontes da paisagem. Os cheiros da casa que constituem a intimidade: vapores da cozinha, perfumes de alcova, bafios de corredores, perfumes de benjoim ou de patchouli dos armários maternos. A intimidade vital de microcosmo vai redobrar-se e sobredeterminar-se como se quiser para viver.

O mundo da objetividade é polivalente para a projeção imaginária. A importância microscópica concedida à moradia indica já a primazia dada na constelação da intimidade às imagens do lugar praticado feliz. É um centro que pode muito bem situar-se no cimo de uma montanha, mas que na sua essência comporta sempre um antro, uma abóbada, uma caverna. Embora a noção de centro integre rapidamente elementos masculinos, é importante sublinhar as suas infraestruturas obstétricas e ginecológicas: o centro é umbigo, omphalos, do mundo. E mesmo as montanhas sagradas têm direito, como Gerizim e o tão justamente chamado Tabor, ao atributo de “umbigo da Terra”. É por essas razões uterinas que o que antes de tudo sacraliza um lugar é o seu fechamento: ilhas de simbolismo amniótico ou então floresta cujo horizonte se fecha por si mesmo. A floresta é centro de intimidade como o pode ser a casa, a gruta ou a catedral. A paisagem silvestre fechada é constitutiva do lugar sagrado. Todo lugar sagrado começa pelo “bosque sagrado”. O lugar sagrado é uma cosmicização maior que o microcosmo da morada, do arquétipo da intimidade feminóide.  O espaço circular é o do jardim, do fruto, do voo ou do ventre, e desloca o acento simbólico para as volúpias secretas da intimidade.

            Historicamente a noção de Antigo Regime nasce com a revolução social que se pretendia ruptura com um passado inacabado. A França de 1789 é uma ilustração desse sistema, com certo número de características específicas, cuja importância será reconhecida no vir-a-ser do processo revolucionário. O tradicionalismo, o atraso no emprego das técnicas rurais, em relação à Inglaterra, reforçam a imagem de um campo resistente em muitos aspectos. O campesinato europeu ainda estava sujeito ao sistema de senhoriato, embora em graus diversos. A aristocracia nobiliárquica, considerada em grupo detinha parte importante do território, talvez cerca de 30%, ao passo que o clero, outra ordem privilegiada, possuía provavelmente de 6% a 10% do território. No total, mais de um terço do solo francês estava nas mãos dos privilegiados. A terra, era onerada com impostos feudais e senhoriais, lembrando a concentração de propriedade do senhor sobre as parcelas de terra que os camponeses possuíam: esses encargos eram variados e complexos, e constituíam o que os juristas chamavam em seu jargão de “complexo feudal”. Existia uma enorme quantidade de taxas, exigíveis oral anualmente, ora ocasionalmente, ou em direito ou em produto. O senhor tinha ainda um direito de justiça sobre os camponeses que viviam alojados dentro de suas terras. Era clássico, comparar e opor o sistema agrário francês ao sistema agrário inglês, no qual a erradicação profunda dos vestígios do feudalismo conduzira a uma agricultura tipicamente capitalista.

            O mundo da objetividade é polivalente para a projeção imaginária. A importância microscópica concedida à moradia indica já a primazia dada na constelação da intimidade às imagens do lugar praticado feliz. É um centro que pode muito bem situar-se no cimo de uma montanha, mas que na sua essência comporta sempre um antro, uma abóbada, uma caverna. Embora a noção de centro integre rapidamente elementos masculinos, é importante sublinhar as suas infraestruturas obstétricas e ginecológicas: o centro é umbigo, omphalos, do mundo. E mesmo as montanhas sagradas têm direito, como Gerizim e o tão justamente chamado Tabor, ao atributo de “umbigo da Terra”. É por essas razões uterinas que o que antes de tudo sacraliza um lugar é o seu fechamento: ilhas de simbolismo amniótico ou então floresta cujo horizonte se fecha por si mesmo. A floresta é centro de intimidade como o pode ser a casa, a gruta ou a catedral. A paisagem silvestre fechada é constitutiva do lugar sagrado. Todo lugar sagrado começa pelo “bosque sagrado”. O lugar sagrado é uma cosmicização maior que o microcosmo da morada, do arquétipo da intimidade feminóide.  O espaço circular é o do jardim, do fruto, do voo ou do ventre, e desloca o acento simbólico para as volúpias secretas da intimidade.

            Inversamente, podemos comparar o que acontece na França com os modelos propostos pela Europa central e oriental, onde a aristocracia, proprietária da maior parte do solo, apoia-se cada vez mais no século XVIII nas corveias dos servos ligados a terra.  A versão francesa do feudalismo, a meio caminho entre os dois sistemas, era talvez cada vez menos suportável, na medida em que se encontrava moribunda, no último estágio de seu declínio. O campesinato francês, proprietário de 40% do território nacional e diversificado, tinha condições de travar sua revolução, seguindo uma estratégia própria que se confunde apenas em parte com a da burguesia, diante de uma nobreza menos onipresente social e economicamente do que na Europa oriental. Inversamente, se compararmos a sociedade francesa com as mais modernas de então, cujo modelo é a Inglaterra, compreenderemos a importância da aposta das lutas revolucionárias. No centro desse sistema político do Antigo Regime encontra-se a monarquia de direito divino: o rei, no momento de sua coroação, é ungido com óleo da Santa Ampola; ele é um rei taumaturgo, que toca os que sofrem de “escrófulas” (abcesso tuberculoso). Figura do pai, personagem sagrada, o rei é o símbolo vivo de um sistema em que o catolicismo é uma religião de Estado e que mal começa a retroceder nos últimos anos do Antigo Regime (1787), após a promulgação do Édito de Tolerância concedido aos protestantes. 

Até meados do século XX, a maioria dos estudos sobre aprendizagem questionava que as funções da memória seriam localizadas em regiões cerebrais específicas, alguns chegando a duvidar de que a memória seria uma função distinta da atenção, da linguagem e da percepção. Acreditava-se que o armazenamento da memória seria distribuído por todo o cérebro. A partir de 1861, há evidências que lesões restritas à parte posterior do lobo frontal, no lado esquerdo do cérebro, chamada de área de Broca, causavam um defeito específico na função da linguagem. Após essa localização da função da linguagem, os neurocientistas tornaram a voltar-se para a hipótese de se localizar a memória. Hoje é possível afirmar que a memória não possui um único lócus. Diferentes estruturas cerebrais estão envolvidas na aquisição, armazenamento e evocação das diversas informações adquiridas por aprendizagem. Existem acontecimentos nas nossas vidas que não esquecemos jamais. Entretanto, nem tudo que nos acontece fica gravado na nossa memória para sempre. É importante lembrar que a consolidação da memória ocorre no momento seguinte ao acontecimento. Qualquer fator social que haja pode fortalecer ou enfraquecer a lembrança, qualquer que ela seja. Para a comunicação dominante, veiculada pelos meios eletrônicos de massa, como jornais, rádios, televisão, redes sociais, etc., “tudo é opinião”, mas algumas opiniões são falsas e outras nem sempre são corretas.

As ditaduras podem ser civis: cesarismo, bonapartismo, fascismo ou militares. As ditaduras civis podem ser apoiadas por um movimento popular ou um partido político, em geral o único partido existente nesse sistema político que são casos únicos no Ocidente da Alemanha nazista, ou fascista na Itália. Algumas classificações, mais problemáticas, introduzem critérios apenas quantitativos para definir os regimes ditatoriais. Ditaduras seriam aquelas formas de governo onde a taxa de violência ou uso da repressão política é alta. Isso conduz a algumas dificuldades analíticas já que democracias consolidadas podem, excepcionalmente, lançar mão da força policial contra cidadãos particulares ou movimentos sociais globais. Os Estados Unidos se imiscuíram na Guerra de Resistência contra a América, um conflito armado no Vietnã, Laos e Camboja de 1° de novembro de 1955 até a queda de Saigon em 30 de abril de 1975. Foi a segunda Guerra do Vietnã do Norte e o governo de coalisão. 

O exército norte-vietnamita era apoiado pela União Soviética, China e outros aliados comunistas, enquanto os sul-vietnamitas eram apoiados pelos Estados Unidos da América (EUA), Coreia do Sul, Austrália, Tailândia, e outras nações imperialistas e anticomunistas pelo corredor da história de povos em guerra do mundo ocidental. Neste cenário, o conflito no Vietnã é descrito “como uma guerra por procuração no auge da Guerra Fria”. Nomes são o conflito. Guerra do Vietnã é o mais usado como “ideologia de guerra”. Também chamado de Segunda Guerra da Indochina e Conflito do Vietnã. Houve vários conflitos na Indochina, este particular é reconhecido pelos principais protagonistas para distingui-lo dos outros. Em vietnamita, a guerra é geralmente conhecida como Kháng chiến chống Mỹ (Guerra de resistência contra a América). É também chamado de Chiến tranh Việt Nam (A Guerra do Vietnã). As principais organizações militares envolvidas na guerra foram, de um lado, o Exército da República do Vietnã (ARVN) e as Forças Armadas dos Estados Unidos da América, e, por outro lado, o Exército Popular do Vietnã (PAVN), mais comumente chamado de Exército do Vietnã do Norte, e a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã do Sul (FNL) reconhecido como Viet Cong, uma força estratégica de guerra de guerrilha comunista.

Do ponto de vista institucional, as ditaduras se caracterizam pela supremacia do poder executivo, pela irrelevância do poder legislativo e pela submissão do poder judiciário. Nas ditaduras, os direitos civis, isto é, os direitos individuais, tais como ir e vir, a liberdade de associação, a liberdade de expressão, de opinião e de contestação do governo, a liberdade de informação são severamente controlados pelos detentores do poder estatal; e os direitos políticos, direito à participação, direito de voto, direito a disputar eleições livres veem-se claramente comprometidos. Daí se afirmar que a ditadura é uma forma de governo que não respeita o Estado de direito. Em algumas classificações a ditadura representa um regime de exceção, sendo a regra a democracia liberal. A confusão ocorre de forma proposital onde a política é considerada apenas como partido político e os políticos em sua dura cerviz. Neste ponto cumpre enfatizar a relação que a ciência política possui com as mais variadas áreas de conhecimento e uso de poder através das ciências sociais, dentre elas a economia, a história, a psicologia. A ciência política tem como escopo, o poder, um conceito básico, que se estabelece através da representação da sociedade política, ou Estado, que é uma sociedade como as demais.

O poder de persuadir os indivíduos das opiniões corretas está ligado à capacidade da persuasiva dominante de se apoiar em todo um vasto sistema educativo, em toda uma organização de formação cultural corrompida que é proporcionado ao amplo público consumidor. Mas eficazmente do que o conjunto das escolas, analisadas posteriormente e por assim dizer, tardiamente por estudiosos, em relação à “indústria cultural” serve à multidão de produtos culturais simplificados, vulgarizados, amontoados acriticamente. Os professores se convencem de que estão “ajudando” seus alunos a avançar pouco a pouco na assimilação da cultura. Os alunos, massificados, lisonjeados com a semi-cultura, satisfazem-se com o que lhes está sendo veiculado, e são induzidos a preservar o que lhes parece ser o seu saber, o seu patrimônio cultural, local, reagindo contra objeções dos inúmeros questionadores, quase sempre insatisfeitos, ou contra as investidas insensatas de uma crítica radical. A cultura é sempre contraditória, por isso devemos idealizá-la. No século XX, com a esmagadora predominância de critérios imediatistas e utilitários, esses valores críticos da cultura sofrem um brutal esvaziamento. As comunidades vão deixando de ter a capacidade de reconhecê-los, mesmo se por acaso com eles se defrontarem.

Bibliografia geral consultada.

RAPPAPORT, Regina Clara, Temas Básicos de Psicologia. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária. Volume VII, 1984; FOUCAULT, Michel, História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. 5ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984; DEJOURS, Christophe, O Corpo entre a Biologia e a Psicanálise. São Paulo: Editora Artes Médicas, 1988; CAPRA, Fritjof, La Trama de la vida. Una Nueva Perspectiva de los Sistemas Vivos. 2ª Ediciones. Barcelona: Editorial Anagrama, 1999; LIPP, Marilda,  O Stress está Dentro de Você. 8ª edição. São Paulo: Editora contexto, 1999; DURAND, Gilbert, As Estruturas Antropológicas do Imaginário: Introdução a Arquetipologia Geral. São Paulo: Martins Fontes, 1997; POSTMAN, Neil, O Desaparecimento da Infância. Rio de Janeiro: Editora Graphia, 1999; FROVOLA, Marina, “A Paisagem dos Geógrafos Russos: A Evolução do Olhar Geográfico entre o Século XIX e o XX”. In: Revista RA`EGA. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, n° 13, pp. 159-170, 2007; HARDING, Luke, Os Arquivos Snowden: A História Secreta do Homem mais Procurado no Mundo. Rio de Janeiro: Editora Leya, 2014; COSTA, Grasielle Aires da, Ritual em Richard Schechner e Victor Turner: Aspectos de um Diálogo Interdisciplinar. Programa de Pós-graduação em Performance Cultural. Escola de Música e Artes Cênicas. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2015; VIEIRA, Carlos, Depressão-Doença: O Grande Mal do Século XXI. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2016; SOUZA, Bruno Garcia, Considere o Fracasso: Ensaio, Ensaismo em Robert Musil. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Departamento de História. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2017; CABRAL, Deborah Garson, A Forja Narrativa em Umberto Eco: Uma Aventura em Busca da Experiência da Verdade. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários. Faculdade de Ciências e Letras. Araquara: Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, 2020; DOMINGUES, Jádina Santos Vieira, Transtorno do Estresse Pós-traumático Aumenta a Sensibilidade à Dor por Reduzir a Modulação Descendente Serotoninérgica e Noradrenérgica. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Biociências Aplicada à Saúde. Alfenas (MG): Universidade Federal de Alfenas, 2020; MACHADO, Clarissa Ferrarez Alcon & SIQUEIRA, Emílio Conceição de, “Uma abordagem geral do Transtorno de Estresse Pós-Traumático: Revisão de Literatura”. In: Revista Eletrônica Acervo Médico, 18, 2022; entre outros.