quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Carequinha - Arte Cênica & Alegria do Maior Palhaço do Brasil.

                          Fui o primeiro na TV. Inventei uma nova escola de palhaços”. George Savalla Gomes

         

          George Savalla Gomes nasceu em Rio Bonito (RJ), em 18 de julho de 1915 e faleceu em São Gonçalo (RJ), 5 de abril de 2006, mas tornou-se reconhecido pelo nome artístico de palhaço Carequinha, consagrando-se um dos mais notórios palhaços brasileiros. Carequinha nasceu em uma família circense, na cidade de Rio Bonito, interior do estado do Rio de Janeiro. Seus pais eram os trapezistas Elisa Savalla e Lázaro Gomes. George literalmente nasceu no Circo, pois sua mãe grávida estava fazendo performance de trapézio quando entrou em trabalho de parto em pleno picadeiro. Deu início à sua carreira como palhaço Carequinha aos cinco anos de idade, no circo de sua família, quando este estava em apresentação em Carangola, cidade do interior do estado de Minas Gerais. Aos 12 anos era palhaço oficial do Circo Ocidental, pertencente ao seu padrasto. Em 1938, estreou como cantor na Rádio Mayrink Veiga, no Programa Picolino da rádio carioca, fundada em 21 de janeiro de 1926. Em busca de outros públicos, para o processo de trabalho e comunicação social, Carequinha levou seu show para fora dos picadeiros, apresentando-se em aniversários e clubes, além de representar o Brasil quatro vezes no exterior. Ele venceu um concurso de palhaço na Itália mais moderno do mundo, representando o Brasil no 1º Festival Internacional de Clowns. E foi o primeiro palhaço com a inauguração da televisão brasileira, começando na TV Tupi em 1951, ano seguinte à inauguração da emissora, a primeira do país. Lá, realizou o Circo Bombril, permanecendo com apresentações durante 16 anos.

         Historicamente nos anos posteriores à chamada Revolução de 1930, alternaram-se as funções e a própria estrutura do Estado brasileiro. As formas de desenvolvimentos do poder público revelaram a acentuação dos seus conteúdos burgueses, em confronto com os elementos sociais, culturais e políticos de tipo oligárquico vigentes nas décadas anteriores a 1930. Esta mudança política cria condições para o desenvolvimento do Estado burguês, como um sistema que engloba instituições políticas e econômicas, bem como padrões e valores sociais e culturais de tipo propriamente burguês. Enquanto manifestação e agente social e político das estruturas internas e externas, a Revolução implicou na derrota do Estado oligárquico. Isto significa que o poder público passou a funcionar mais adequadamente, segundo as exigências e as possibilidades estruturais estabelecidas pelo sistema brasileiro do capitalismo. A evolução da legislação trabalhista e os governantes passaram a reformular as condições sociais de funcionamento do mercado de fatores de produção ou de forças produtivas, no sentido marxista, bem como as relações internas de produção, e as relações entre a economia interna e o mercado internacional. A partir da radicalização política da década de 1930, com a chamada invenção do trabalhismo, foram estabelecidos, de modo formal, sob a responsabilidade do Estado, as condições e os limites básicos de funcionamento do mercado de trabalho.

Em poucas palavras, o conjunto das atividades estatais, no período 1930-45, segundo Ianni (1979) assinalam a agoniado Estado de tipo oligárquico e o desenvolvimento do Estado propriamente burguês, com a adoção de uma série de medidas econômicas e inovações institucionais que assinalaram uma nova fase nas relações entre o Estado e o sistema político-econômico, conforme eles apareciam no seu horizonte político, por injunção de interesses e pressões econômicos, políticos, sociais e militares. Antes de 1930 o sistema político e econômico já se defrontava com problemas estruturais e conjunturais típicos de uma economia dependente, isto é, economia primária exportadora. Note-se que na década de 1920-1930 o café perfaz mais de 80% do valor global das exportações brasileiras. O que nos dá uma ideia econômica da importância relativa da cafeicultura na criação de capacidade para importar. Além disso, a política econômica externa, de tipo liberal, significava a maciça e sistemática exportação do excedente econômico nacional. Tanto através da comercialização do café, controlada pelos centros dominantes dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha e outros, como por meio da importação de manufaturados e artigos de consumo da classe dominante, boa parte do produto nacional encaminhava-se para o comércio exterior. Isto é, o governo atuava no sentido de proteger e incentivar as atividades produtivas ligadas ao setor externo, que era essencial à sustentação do sistema político-econômico vigente.

Ipso facto, a chamada Revolução de 1930 representa uma ruptura política, e também, econômica, social e cultural com o Estado oligárquico vigente nas décadas anteriores. Há, portanto, em Getúlio Vargas, a condenação explícita do liberalismo econômico. E, ainda, o reconhecimento de que a situação vigente nos começos da década de trinta exigia a reorganização pela força bruta da política dos mercados de capital e força de trabalho, de modo a contornarem-se as inconveniências da política econômica liberal. Este é o contexto político em que o grupo reunido em torno de Getúlio Vargas (1882-1954) deu o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937 e instalou a ditadura até 1945, sob a denominação de Estado Novo. Em consequência, liquidaram-se as poucas e frágeis instituições democráticas, a despeito de exclusivamente urbanas. Ao mesmo tempo, acelerou-se o processo de destruição dos remanescentes do Estado oligárquico. Os setores burgueses mais fortes, apoiados na força militar e em aliança com os setores da classe média, passaram a controlar o poder político e a opinar sobre as decisões de política econômica. Pouco a pouco, as classes sociais de mentalidade e interesses caracteristicamente urbanos impuseram-se por sobre a mentalidade e os interesses enraizados na economia primária exportadora. Para os partidos políticos e movimentos sociais que haviam lutado por instituições democráticas, a vitória sobre as oligarquias havia malogrado. Passava-se do regime oligárquico à ditadura burguesa, depois de um entreato de grande fermentação política e cultural. 

Em conseqüência da incipiente industrialização havida nas décadas anteriores, do crescimento do setor terciário e da própria urbanização, surgiram novos grupos sociais, particularmente os primeiros núcleos proletários e os princípios com os quais a burguesia industrial buscava inferir sua hegemonia sócio-política e, per se, além de expandir-se a classe média em torno dos truques da burocracia estatal e o patrimonialismo dos coronéis donos do poder. Foi nesse ambiente urbano mais complexo e parcialmente independente da cultura agrária que surgiram, na década dos anos 1920, vários movimentos políticos e artísticos novos: fundou-se o Partido Comunista do Brasil, em 1922; surgiram as primeiras manifestações do tenentismo, o qual exprimia os interesses, os ideais e as ambições políticas de alguns setores do Exército; fundou-se um partido político de inspiração fascista, com a Legião do Cruzeiro do Sul, em 1922; e realizou-se a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, também em 1922, quando se manifestaram alguns jovens artistas de avant-garde, responsáveis por introduzir no cenário cultural, artístico etc., técnicas, ideias e conceitos novos, avançados. Essas são algumas das principais expressões artísticas e culturais de uma sociedade urbana em franca transformação. Nesse contexto histórico, em que se revelam as pré-condições das rupturas políticas e econômicas que assinalam a Revolução de 1930, a Depressão Econômica Mundial de 1929-1933, desempenha um papel decisivo. É o Estado oligárquico per se em que se rompem internamente, pela impossibilidade de acomodarem-se as tensões sociais e conciliarem-se os tipos sociais contrários liberados pela dimensão da crise política e econômica nacional e internacional.  

Em 29 de outubro de 1945 o ditador Getúlio Vargas foi deposto, em um Golpe de Estado organizado por forças políticas civis e militares. Em seguida, iniciou-se um programa de desmantelamento de quase tudo que estivesse identificado com a ditadura do Estado Novo e a figura de Getúlio Vargas. A própria estrutura do Estado passou a ser reformulada, devido à decisão dos novos governantes de “redemocratizar” o país. A vitória das “nações aliadas” sobre o nazifascismo alimentou ideologicamente a conversão do poder político ditatorial para uma “democracia representativa”. No cenário político brasileiro surgiram partidos e lideranças liberais, conservadores, socialistas, comunistas e outros. Em síntese, a Constituição ditatorial de 1937 foi substituída pela Constituição democrática de 1946, elaborada por uma Assembleia Constituinte. Os partidos políticos estavam representados da seguinte forma: Partido Social Democrático (PSD), com 173 representantes; União Democrática Nacional (UDN), com 85 representantes; Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com 23 representantes; Partido Comunista do Brasil (PCB), com 15 representantes; Partido Republicano (PR), com 1 representantes; Partido Social Progressista (PSP), com 7 representantes; Partido Democrata Cristão (PDC), com 2 representantes; Esquerda Democrática (ED), com 2 representantes e Partido Libertador (PL), com 1 representante.  Em síntese, nessa ocasião haviam-se conjugado condições favoráveis: a) à realização de mais uma fase no processo de ruptura com os laços tradicionais de dominação externa; b) à realização de mais uma etapa no desenvolvimento econômico do Brasil. Em nome de princípios liberais, criaram-se novas condições favoráveis á entrada e saída de capital estrangeiro. Ao mesmo tempo eliminaram-se os órgãos estatais  vinculados ao intervencionismo. Sob o pretexto de que findara a guerra e em nome de uma espécie de “neoliberalismo”. Em pouco tempo desmontou-se a nascente tecnoestrutura que se criara nos anos anteriores. Em nome da “democracia representativa” abandonaram-se as diretrizes e as práticas ligadas à política econômica de orientação nacionalista.

A Constituição de 1946 e as normas políticas e econômicas adotadas pelos governantes instauraram a hegemonia dos princípios da “livre iniciativa” e da “igualdade  de oportunidades para nacionais e estrangeiros”. Tanto assim que a Comissão Mista Brasileiro-Americana, criada em 1948, tomou o cuidado de ressaltar o liberalismo da Constituição, em contraposição ao “princípio nacionalista”, que havia vigorado nos anos 1930-45. Em pouco tempo, aos partidos e lideranças populistas e de esquerda passaram a combater os rumos que se davam aos assuntos de política econômica. Alguns, prontamente compreenderam que junto com o “liberalismo econômico” havia uma política de associação entre grupos econômicos brasileiros e estrangeiros. Compreenderam que se abandonava a política destinada a fortalecer o capitalismo de tipo nacional, em favor da política de associação e interdependência. Assim, com o governo Dutra abandonava-se a convicção de que era possível realizar um capitalismo relativamente autônomo no Brasil. A maneira pela qual o poder político foi levado a reorientar e reduzir as suas relações com a economia do país, segundo Ianni (1979), implicava na modificação do sentido e conteúdo da política econômica estatal. Em pouco tempo os governantes adotaram objetivos e diretrizes que conferiram outra significação à atividade do poder público. Ao recusar o nacionalismo econômico, como princípio básico de política econômica, recusava-se também a possibilidade de um capitalismo de tipo nacional. Ao recusarem-se as diretrizes e técnicas específicas da política econômica nacionalista, adotavam-se diretrizes e técnicas que iriam reforçar a interdependência e redefinir as condições de dependência internacional.

Em nome do liberalismo econômico e da democracia representativa, o poder público foi colocado numa posição menos ativa que aquela na qual encontrava-se nos anos de guerra.  O Conselho Nacional de Economia, criado pela Constituição de 1946 (Art. 205), somente foi regulamentado por lei, para efeito de funcionamento efetivo, em 1949. Esse atraso pode ser tomado como sintoma do desinteresse dos governantes por um órgão que teria sido útil para a realização de estudos e a formulação de diretrizes sobre os problemas de política econômica governamental. Devido a esses compromissos conservadores e ideológicos, mas também práticos, e em nome da reação antiditatorial e antiintervencionista, a política econômica governamental dos anos 1945-50 serviu principalmente aos interesses mais imediatos da empresa privada, nacional e estrangeira. Portanto, a ruptura política ocorrida nos anos 1945-46 permitiu que fosse adotada uma política econômica inspirada nas teses do grupo liderado ou representado pelo economista Eugênio Gudin (1886-1986). Em consequência, o pensamento representado pelo industrial e economista Roberto C. Simonsen (1889-1948) foi colocado em segundo plano. Assim, a controvérsia sobre as relações entre Estado, Economia e Planejamento – iniciada nos anos da guerra mundial – teve tanto desdobramentos teóricos como práticos. Não por acaso, o compromisso fundamental com a “livre iniciativa”, e contra a modalidade anterior de intervencionismo estatal na economia, aparece em quase todas as principais atuações e diretrizes do governo Gaspar Dutra. Dizemos intencionalmente “modalidade anterior de intervencionismo estatal” porque nos anos 1946-50 o poder público, leia-se o Estado nacional, continuou a desempenhar  papéis decisivos na economia do país. Ocorre que a direção dessa atividade se havia alterado, alterando-se, em consequência, os instrumentos e os conteúdos ideológicos. A omissão do poder, quando houve, ela pode ter sido uma omissão deliberada, com sentido.

Ao iniciar-se o segundo período governamental de Getúlio Vargas (1951-54), o poder público e maioria do Congresso Nacional ainda estava comprometidos ideológica e praticamente, com uma política econômica antiintervencionista e internacionalizante. Não era uma política de desenvolvimento econômico, diz Ianni (1979), a que fora praticada na época do governo Dutra; era uma política destinada principalmente a garantir as condições de funcionamento e prosperidade do setor privado, nacional e estrangeiro. Os recuos e reorientações a que tinham sido obrigados o governo e o congresso Nacional não haviam alterado a linha de estilo “neoliberal” dominante. Em 1950-51, a Guerra da Coréia provocou alterações importantes na composição e volume das importações brasileiras, devido às preocupações similares aquelas provocadas pela 2ª guerra mundial. Esse foi o contexto mais geral, no qual o governo Vargas se defrontava com alguns dilemas econômico-financeiros importantes. Ele precisava enfrentar, de alguma forma, problemas da governabilidade tais como; a inflação, o desequilíbrio na balança de pagamentos, a necessidade de importar máquinas e equipamentos, a insuficiência de energia elétrica e transportes, a insuficiência de oferta de gêneros alimentícios para as populações dos centros urbanos em rápida expansão etc.   Claro está que nesses anos já se haviam evidenciado os principais pontos de estrangulamento na economia brasileira, tendo-se em conta as possibilidades reais e as tendências possíveis de desenvolvimento. Contudo, ao difundir-se e aprofundar-se o debate técnico e político sobre as condições e as tendências possíveis do desenvolvimento econômico do Brasil, começavam a configurar-se as diferentes estratégias políticas propostas pelas várias correntes de opinião pública. De qualquer forma, a diferenciação do sistema político e econômico tornara mais complexos e agudos os antagonismos. Em consequência, nestes anos criaram-se novas condições para a aceleração do desenvolvimento industrial.

            Atração circense, que estreou com nome de Circo na TV, tinha como mestre de cerimônia Walter Stuart (1922-1999), que também se encarregava da produção do programa. Luís Galon ficou encarregado da direção de TV. Stuart herdou o lado artístico da família, uma vez que seu pai e sua mãe, o francês Albert Canales e a espanhola Conceição Tereza eram atores de uma companhia circense chamada Oni, fundada em 1920. Nascido em Birigui, onde a companhia dos pais estava instalada, viveu sua infância e juventude num ambiente de circo, tendo viajado por todo o Brasil, sem deixar de frequentar colégios. Ainda criança, mudou-se para Buenos Aires onde viveu por sete anos e aprendeu a falar francês e espanhol com os irmãos Henrique e Conchita. Aos seis anos, começou a trabalhar como acrobata, sem perder de vista outras funções na trupe como bilheteiro, palhaço, faxineiro e ajudante de mágico. Em 1941, casou-se com Mouralina Stuart, com quem tivera três filhos, dentre eles Adriano Stuart, nascido em Quatá, que seguiria os passos profissionais do pai. Em 1950, Albert e Conceição vendem o circo, firmando residência fixa em São Paulo e toda a família é contratada pela recém-inaugurada TV Tupi São Paulo passados os testes. Inicialmente, Walter é contratado como diretor de estúdio com seu irmão Henrique, entretanto, com a ajuda do diretor artístico, o jovem Cassiano Gabus Mendes, ganha o aval para criar e apresentar um programa semanal chamado Circo Bom Bril, que contava com a apresentação de vários artistas circenses num estúdio especial montado pela emissora. Se consagra entre os primeiros e grandes comediantes da televisão, ao trazer o circo para o vídeo, inaugurando humor no veículo de comunicação.

Durante as décadas de 1950 e 1960, roteiriza, dirige e atua em seriados de sucesso na emissora como As Aventuras de Berloque Holmes (1953), 48 Horas com Bibinha (1953), Seu Tintoreto (1956), Seu Genaro (1957) e Doce Lar Teperman (1959); o inesquecível programa chamado A Bola do Dia (1955), um diário bem-humorado que durou exatos dez anos no ar; e os diversos teleteatros da TV de Vanguarda, TV de Comédia e do Grande Teatro Tupi. Rapidamente, conquista as telonas, estreando em 1953 com filmes: O Mártir do Calvário e acumulando grandes sucessos como Uma Certa Lucrécia (1957), Crime no Sacopã (1963), A Super Fêmea (1973) e A Noite dos Duros (1978), entre outros, sendo que este último roteirizado e dirigido por seu próprio filho. Sua primeira novela fora A Ponte de Waterloo (1967), de autoria do amigo Geraldo Vietri (1927-1996). Lá, fez novelas de sucesso, representadas pelas revolucionárias Beto Rockfeller (1968) e Signo da Esperança (1972). Em 1969, saiu da Tupi temporariamente para fazer Seu Único Pecado na Rede Record e voltaria a fazer isso em 1972 quando convidado por Bráulio Pedroso para atuar em O Bofe, na Rede Globo. A TV Tupi São Paulo, assim como boa parte da Rede Associada de rádio, jornal e televisão, chegou ao fim em 1980. Entristecido pela queda da emissora que o notabilizou, Walter Stuart fez O Espantalho (1977) na Record; Plumas & Paetês (1980) e Humor Livre (1984) na Globo; Braço de Ferro (1983) na Band; Acorrentada (1983) e A Praça É Nossa (1987), seu último trabalho no Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

Neste ínterim, as pantomimas ficavam por conta da dupla Fuzarca, Torresmo e Positivo. Na TV Tupi do Rio de Janeiro, David Cohen chamou George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha que ficava com a atração principal do infantil. Passou a se chamar Circo Bombril com a entrada do patrocínio comercial. Assim, São Paulo e Rio de Janeiro tinham suas versões independentes do programa infantil. Os bordões do palhaço Carequinha tornaram-se reconhecidos do público infantil: “Aiaiai, carrapato não tem pai”, “Tá certo ou não tá, garotada?”. Carequinha usava sua empatia junto ao público infantil para passar boas mensagens de higiene, comportamento, segurança, entre outras. Logo ingressou na trupe o comediante Zumbi, com quem protagonizava o mais puro pastelão, e o trapalhão anãozinho Meio Quilo. Oscar Polidoro atuava como mestre de cerimônias do Circo, que se apresentava apitando e batendo seu chicote. Em setembro de 1956 foi a vez da TV Itacolomi das Minas Gerais ganhar o seu Circo Bombril. Carequinha e sua turma viajavam para Belo Horizonte para apresentar o programa que na emissora tinha a direção de Floriano Andrade. Carequinha ficou apenas um ano em Minas Gerais, sendo exibido aos sábados às 19h30, mas o infantil permaneceu sob o comando do Palhaço Moleza, interpretado por Antônio Cerezo. Carequinha também apresentou versões do Circo Bombril em outros estados. Na TV Paraná, ficou durante o conturbado ano de governo militar cearense, em 1965, com a produção de Ulisses Triana, sob o título de Cirquinho do Canal 6 e depois Circo do Carequinha; na TV Piratini de Porto Alegre ficou dois anos; e na TV Rádio Clube do Recife, exibiu o programa durante um ano. Terminando o contrato com a empresa Bombril, o Circo teve outro patrocinador passando a se chamar Circo Ping-Pong.

A história da Bombril começou a ser escrita no verão de 1948, a partir de um sentimento vivo na alma de nosso fundador: a paixão pelo novo. As panelas de ferro estavam cedendo seu lugar às panelas de alumínio, mais modernas, leves e rápidas de aquecer, porém, as donas de casa se queixavam de limpá-las com esponjas comuns. Elas desejavam usar algo que pudesse ser fácil de arear e de dar brilho, deixando-as sempre novas e bonitas. O lançamento desse produto representou uma revolução para as donas de casa em geral. Bombril polia panelas e também limpava vidros, louças, azulejos e ferragens, tanto que ganhou o conceito de “1001 utilidades” na cultura brasileira. Naquele ano, foram vendidas 48 mil unidades de Bombril. Em 1976, a Bombril muda sua linha de produção do bairro do Brooklin, em São Paulo, para a moderna fábrica em São Bernardo do Campo, cidade próxima à capital. Essa unidade existe é considerada a” grande casa da Bombril”. Em 1984, é a vez da inauguração da Bombril Nordeste, em Recife (PE), e a razão social muda para Bombril S/A. A empresa passa a ter ações negociadas na Bolsa de Valores. Em 1987, mais uma inauguração, agora da Bombril Minas, em Sete Lagoas (MG). Com o tempo histórico e social, a marca foi crescendo e se desenvolvendo até se tornar o que é.A Companhia com 71 anos de atividade e atuação no segmento da indústria de higiene e limpeza, fabricando produtos de consumo doméstico e industrial. É detentora de marcas consagradas, como Limpol, Mon Bijou, Sapólio Radium, Kalipto, Pinho Bril e Bom Bril.

Carequinha gravou 26 discos com músicas muito populares entre as crianças. Sua primeira gravação ocorreu em 1957, com a marcha de Miguel Gustavo “Fanzoca do rádio”, que fez bastante sucesso. Ele teve êxito com a criançada com a música: “O bom menino” que de forma afirmativa cantarolava: “o bom menino não faz xixi na cama, o bom menino não faz malcriação...”, assim como através das músicas: “A marcha do carrapato”, “Parabéns, parabéns” e canções de roda tradicionais como “Escravos de Jó”, “Ciranda cirandinha”, “Carneirinho carneirão” e “O cravo brigou com a Rosa”. Nos anos 1980, apresentou um programa infantil na TV Manchete, até sair para que entrasse o programa da Xuxa, que começou naquela emissora sua carreira artística. Ele se apresentou para vários presidentes brasileiros, entre os quais Getúlio Vargas e Juscelino Kubistchek, além de ser condecorado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Foi o reduto de talentos e ícone da chamada Era do Rádio, o principal veículo de comunicação social de massa entre 1930 e o início da década de 1960.Teve o radialista César Ladeira (1910-1969) como diretor artístico a partir de 1933. Foi líder de audiência nos anos 1930, até o surgimento da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde estrearam Carmen Miranda e sua irmã Aurora. Na conturbada década de 1930, na esfera política, a Mayrink emplacou programas que marcaram a história social do rádio: Canção do dia, com Lamartine Babo; Trem da alegria, com Lamartine Babo, Yara Salles e Heber de Bôscoli; Picolino, com Barbosa Junior; Horas do outro mundo, com Renato Murce, e o Programa Casé, com Ademar Casé, e outros.

Iniciou sua carreira em 1931, como locutor da Rádio Record de São Paulo, para onde fora convidado, quando era estudante de Direito, a fazer um teste e, em vez de ler anúncios, proferiu um discurso contra o ditador Getúlio Vargas - o que agradou, junto a sua voz, a direção da emissora. No entanto, ficou reconhecido como “A voz da Revolução Constitucionalista”, que ocorreu em 1932, e veio a se tornar um dos ícones da Era de Ouro do rádio no Brasil e dos mais famosos locutores do país. Ladeira foi o criador de nomes artísticos com os quais alguns cantores passaram a ser identificados para o público consumidor: “Rei da Voz” para Francisco Alves, “A Pequena Notável” para Carmen Miranda, “O Cantor que Dispensa Adjetivos” para Carlos Galhardo, “O Caboclinho Querido” para Sílvio Caldas e “A Garota Grau Dez” para Emilinha Borba. Em 1933, foi contratado pela Mayrink Veiga, como locutor e diretor artístico. Mudando-se para o Rio de Janeiro iniciou um estilo comercial, copiado dos locutores argentinos que para diferenciar na pronúncia os “erres” dos “agás” aspirados, carregavam nos primeiros. Atuou no cinema estreando, em 1935, no cinema no filme “Alô, Alô, Brasil”. O célebre humorístico PRK-30 (cf. Perdigão, 2003), criado e apresentado por Lauro Borges e Castro Barbosa, estreou na Mayrink Veiga em 1944, onde ficou por dois anos e retornou à emissora em 1955. Foi protagonista do filme Sob a Luz do Meu Bairro, de 1946, dirigido por Moacyr Fenelon. Quatro anos depois, o programa voltou para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Quem fez história na emissora foi Chico Anysio apresentado por Haroldo Barbosa, realizou grandes sucessos de programas cômicos. Em 1948, assinou contrato com a Rádio Nacional, onde apresentou durante dez anos “Seu criado, obrigado”, ao lado de Daisy Lúcidi, entre programas de sucesso. Dois anos antes de sua morte, em 1967, passou a atuar em programas humorísticos na extinta TV Tupi do Rio de Janeiro. Foi casado com a atriz Renata Fronzi. Seus filhos, Cesar Fronzi Ladeira e Renato Fronzi Ladeira, foram os criadores da banda de rock A Bolha e, mais tarde, do grupo Herva Doce. 

          Em 1963, o canal 2 do Rio de Janeiro foi comprado pela TV Excelsior. A Mayrink era a concessionária do canal, mas os planos de montar a TV não saíram do papel. Em 1961, a Rádio Mayrink Veiga, que tinha como diretor do departamento político e jornalístico Hiram Athaydes Aquino, participou da chamada Cadeia da Legalidade, uma mobilização civil e militar em 1961, para garantir a posse de João Goulart como Presidente do Brasil, derrubando o veto dos ministros das Forças Armadas à sucessão legal do presidente Jânio Quadros, que tinha renunciado, ao vice-presidente Goulart. Ela foi liderada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, aliado ao comandante do III Exército, general José Machado Lopes. A crise da renúncia de Jânio Quadros e o veto à sucessão para Goulart figuram entre as crises da República Populista que precederam o golpe de Estado de 1° de abril de 1964, junto a 1954 (fim de Getúlio Vargas) e 1955 (sucessão para Juscelino Kubitschek, garantida pelo Movimento de 11 de Novembro). A crise política de 1961 é antecedente de 1964 e mesmo chamada de seu ensaio geral. A crise política resultou na negociação do parlamentarismo como novo sistema de governo do país. Na comunicação representou uma rede de rádios organizada por Leonel Brizola para defender a posse de João Goulart, da campanha pelas Reformas de Base, que serviram como justificativas para o presidente-militar Humberto de Alencar Castelo Branco fechá-la em julho de 1965 por meio do Mandado de Segurança n° 16.135. Cesar Ladeira morreu de hemorragia cerebral, aos 58 anos, no Rio de Janeiro. Foi sepultado no Cemitério de São João Batista. Carequinha estava radicado em São Gonçalo há mais de 60 anos. Ele foi pai de quatro filhos, quatro netos e quatro bisnetos. A tradição de família finda com ele. Infelizmente, ninguém quis mais seguir a bela carreira de palhaço.                

Bibliografia geral consultada.

IANNI, Octavio, Estado e Planejamento Econômico no Brasil (1930-1970). 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1979; PERDIGÃO, Paulo, No Ar: PRK-30: O mais Famoso Programa de Humor da Era do Rádio. Rio de Janeiro: Editor Casa da Palavra, 2003; MINOIS, Georges, História do Riso e do Escárnio. São Paulo: Editora Unesp, 2003; PANTANO, Andreia Aparecida, A Personagem Palhaço. São Paulo: Editora Unesp, 2007; SACHETT, Patrícia de Oliveira Freitas, As Discussão Clown ou Palhaço às Permeabilidades de Clownear-Palhaçar. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Instituto de Artes. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009; SILVA, Thalita Costa da, Memórias de um Palhaço: O Rito de Passagem de Roger Avanzi para o Palhaço Picollino II. Dissertação de Palhaço. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2011; FLÓREZ, Laili Von Czékius, Pedagogia da Bobagem: Uma Oficina de Palhaço para Adultos com Deficiência Intelectual. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2012; RABELO, Andréa da Silva, Cada Nariz em Seu Lugar: O Palhaço, Seus Afetos e Estados em Diferentes Espaços. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Escola de Teatro. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2014; ROMEIRO, Alexandre, A Formação do Palhaço: Interfaces com Categorias Freirianas. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Gestão e Práticas Educacionais.  São Paulo: Universidade Nove de Julho, 2015; PERIN, Diogo Zomer, Se “Tá Certo ou Não Tá?!” O Importante é que Vai Tudo “Muito bem!”. As Canções de Palhaços Cantores: do Circo-Teatro às Novas Mídias – 1951 a 2001. Dissertação de Mestrado.  Programa de Pós-Graduação em História. Centro de Ciências Humanas e da Educação. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2016; SANTOS, Eduardo Dias dos, Por Trás do Nariz Vermelho: Breve História de um Palhaço Brasileiro. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Instituto de Filosofia, Artes e Cultura. Ouro Preto: Universidade Federal de Ouro Preto, 2017; BALATON, Thaís Caroline Póvoa, Escola de Palhaços. Estudo sobre a Prática Pedagógica do Programa de Formação de Palhaços para Jovens Doutores da Alegria. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Escola de Comunicações e Artes. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2018; SILVA, Renan Carlos Medeiros da, Roteiro Performativo: Circuito de Intervenções Pedagógicas na Prática do Professor-performer. Dissertação de Mestrado em Artes Cênicas. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2021; entre outros.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O Último Duelo – Cinema, Combate & Testemunho da História.

                                           Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte”. William Shakespeare

                                    

Jodie Marie Comer nasceu em Liverpool, em 11 de março de 1993. É uma atriz britânica reconhecida principalmente por seu papel como Villanelle em Killing Eve (2018), pelo qual ganhou o Emmy do Primetime de Melhor Atriz em Série Dramática e o prêmio de melhor atriz do British Academy of Film and Television Arts. Outros papéis notáveis da queen foram Chloe Gemell na série de comédia dramática My Mad Fat Diary, Ivy Moxam na minissérie da BBC Three, Thirteen, Kate Parks em Doctor Foster (2015) e como Elizabeth of York na minissérie The White Princess (2017). No cinema, é reconhecida pelos seus papéis de Millie Rusk/Molotov Girl em Free Guy e Marguerite de Carrouges em O Último Duelo (2021). Jodie frequentou aulas de teatro uma vez por semana e participou em peças de teatro na St. Julie`s Catholic High School em Woolton, Liverpool. Após ser expulsa do grupo da escola por ter faltado aos ensaios de dança para o espetáculo de talentos, ela decidiu participar na instituição solo, apresentando um monólogo. Este episódio chamou atenção da professora de teatro, que a enviou para audição para uma peça na BBC Radio 4. Este acabou por ser o seu primeiro trabalho profissional. Outros dentre os atores que participaram neste trabalho encorajaram Jodie Comer a seguir uma carreira na representação e aconselharam-na a arranjar um agente.

Em abril de 2018, estreou Killing Eve, uma série de suspense e espionagem da BBC America, criada por Phoebe Waller-Bridge. Na série, Jodie interpreta uma assassina psicopata, Villanelle, que desenvolve um fascínio mútuo uma agente do MI5 que a persegue (Sandra Oh). A série tinha sido renovada para uma segunda temporada antes da sua estreia. Jia Tolentino escreveu no The New Yorker que, no contexto das “constantes inversões de tom e ritmo”, a “ambiguidade (e impossibilidade) da personagem de Villanelle, funcionou (na primeira temporada) graças ao carismático e inexpugnável carisma de Comer”. A segunda temporada da série estreou em abril de 2019 e a terceira em 2020. Jodie Comer ficou na 94º posição da lista “Radio Times TV 100” de 2018, uma lista das estrelas de TV mais poderosas do ano, elaborada por executivos de televisão e veteranos de radiodifusão. Em novembro de 2018, o The Hollywood Reporter incluiu-a na lista “Next Gen Talent 2018: Estrelas em ascensão de Hollywood”. Em dezembro, a revista Vogue do Reino Unido incluiu-a na sua lista de “Mulheres Mais Influentes de 2018”, e em fevereiro de 2019 a Forbes incluiu Jodie na sua lista anual “Forbes 30 Under 30” por estar entre as 30 pessoas mais influentes na Europa com menos de 30 anos.

Em abril de 2019, Jodie revelou no podcast Happy Sad Confused que tinha sido forçada a desistir da adaptação de Kenneth Branagh de Death on on the Nile devido a conflitos de agenda. Nesse ano, teve uma pequena participação no filme Star Wars: The Rise of Skywalker (2019) no papel de mãe da personagem Rey em flashbacks. Em junho de 2020, Jodie interpretou o papel de Lesley no reboot do BBC iPlayer de Talking Heads, no episódio “Her Big Chance”. Em dezembro de 2018, foi anunciado que Jodie iria participar no filme de ação e comédia, Free Guy, que começou a ser filmado em maio de 2019. Jodie interpreta o papel da protagonista feminina, ao lado de Ryan Reynolds. Ela interpreta dois papéis: Millie, uma desenvolvedora de jogos, e Molotov Girl, o avatar de Millie no jogo. O filme estreou em agosto de 2021. Ainda neste ano, Jodie juntou-se a Jack Thorne e Stephen Graham como protagonista do telefilme Help, um drama transmitido pelo Channel 4 onde interpreta o papel de uma prestadora de cuidados com dificuldades nos primeiros dias da pandemia. Jodie foi uma das produtoras executivas. No mesmo ano, estreou The Last Duel realizado por Ridley Scott. No filme, Jodie interpreta Marguerite de Carrouges, a mulher de um cavaleiro que acusa o amigo deste de a ter violado sexualmente. A acusação leva Jean de Carrouges a desafiar o seu amigo para um “julgamento por combate”. Para além de Jodie, o filme conta com Matt Damon, Ben Affleck e Adam Driver.

                                  


O Último Duelo tem como representação social um filme épico de drama histórico de 2021 dirigido por Ridley Scott, com roteiro de Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon, baseado no livro The Last Duel: A True Story of Crime, Scandal, and Trial by Combat in Medieval France (2004), de Eric Jager. Ambientado na França medieval, o filme é estrelado por Damon como Jean de Carrouges, um cavaleiro que desafia seu antigo amigo, o escudeiro Jacques le Gris (Adam Driver), para um duelo judicial depois que a esposa de Jean, Marguerite (Jodie Comer), acusa Jacques de estupro. Os eventos que levam ao duelo são divididos em três capítulos distintos, refletindo as perspectivas contraditórias dos três personagens principais. Affleck também estrela em um papel coadjuvante como o Conde Pierre d`Alençon. A adaptação do livro de Jager foi anunciada pela primeira vez em 2015, embora só tenha recebido sinal verde oficialmente em julho de 2019. Affleck e Damon foram confirmados como protagonistas e corroteiristas com Comer e Driver se juntando ao elenco naquele ano. As filmagens ocorreram na França e na Irlanda de fevereiro a outubro de 2020. O filme “The Last Duel” estreou no 78º Festival Internacional de Cinema de Veneza em 10 de setembro de 2021 e foi lançado nos cinemas dos Estados Unidos em 15 de outubro de 2021 pela 20th Century Studios. O filme recebeu críticas positivas e foi selecionado pelo National Board of Review como um dos dez melhores filmes de 2021. Embora o filme tenha tido um desempenho fraco nas bilheterias mundiais, posteriormente obteve “sucesso financeiro nos mercados pós-exibição”.

O parlamento inglês teve origem após a província romana da Britânia. Em 1066, Guilherme I de Inglaterra trouxe para a Inglaterra um sistema feudal no qual era necessário um conselho para avaliar as leis que seriam instituídas. Em 1215, o Conselho já demonstrava o seu poder obrigando o Rei João a assinar a Magna Carta, limitando assim o poder dos monarcas. O atual parlamento teve origem em 1200 durante o reinado de Eduardo I de Inglaterra, neto de João, que convocou o parlamento várias vezes junto aos religiosos e burgueses com o objetivo de delimitar as respectivas leis. Os dois elementos chave na política do Reino Unido são a Coroa do Reino Unido e o próprio parlamento. Os membros do parlamento, composto por duas câmaras, não podem fazer parte das duas casas ou trocar de câmara arbitrariamente. Como cargo histórico, a Coroa ainda é muito poderosa e exerce poder sobre todas as outras câmaras e partidos podendo até dissolver as câmaras, criar novos tratados, declarar guerras ou nomear os presidentes das câmaras. O monarca também escolhe o primeiro-ministro, que em seguida terá poder sobre as câmaras. Os Lordes Espirituais eram os clérigos que representavam a Igreja da Inglaterra, mas foram dissolvidos durante o reino de Henrique VIII de Inglaterra. Todos os bispos diocesanos continuaram com lugar no parlamento, mas um novo tratado determinou que apenas 26 bispos ocupariam lugar no parlamento, estes são o Arcebispo da Cantuária, o Arcebispo de York, o Bispo de Londres, o Bispo de Durham e o Bispo de Winchester. Os outros 21 Lordes Espirituais são os mais altos bispos diocesanos, classificados por ordem de consagração. Os Lordes Temporais são todos membros da nobreza hereditários. Os direitos de lugares hereditários no parlamento têm origem em 1707. Dos cargos hereditários apenas 92 mantém seus lugares. Todas as leis que fazem parte da Constituição do Reino Unido devem ser aprovadas pelo parlamento.

O último duelo judicial é um parti pris permitido pelo parlamento francês envolveu três personagens: Jean de Carrouges, sua esposa Marguerite, e Jacques Le Gris. A história narra que, por anos, Carrouges e Le Gris foram muito amigos, mas a disputa pelo poder de terras os colocou em situação de grande rivalidade corporal. Julgamento por combate, também reconhecido como aposta de batalha, julgamento por batalha ou duelo judicial era um método do direito germânico para resolver acusações na ausência de testemunhas ou de uma confissão, em que duas partes em disputa lutavam em combate único. O vencedor da luta foi proclamado possuidor da verdade. Em essência, foi um duelo sancionado judicialmente. Permaneceu em utilidade de uso durante toda a Idade Média europeia, desaparecendo gradualmente no decorrer do século XVI. Ao contrário do julgamento por Ordália em geral, que é conhecido por muitas culturas no mundo, o “julgamento por combate” é reconhecido principalmente pelos costumes dos povos germânicos. Ordálio ou Ordália, também conhecida como juízo de Deus (judicium Dei), é um tipo de testemunho de prova judiciária antiga, usada para determinar a culpa ou a inocência do acusado por meio da participação de elementos da natureza e cujo resultado é interpretado como um juízo divino. O acusado submetia-se a torturas ou provas físicas que provariam a sua inocência, caso não lhe causassem dano. A origem da palavra ordália é no latim ordalium ou, de acordo com Verstegan, do saxão, ordal e ordel, que, segundo Hicks, vem de Dael, julgamento, com o sentido de grande julgamento.  Outros derivam do franco ou teutão Urdela, que significa julgar. Eduard Lye (1694–1767) foi estudioso do século XVIII de filologia inglesa antiga e germânica. 

No seu dicionário de Anglo-Saxão, deriva a palavra desta língua, significando um tipo de julgamento onde não existe interferência das pessoas, sendo feita uma justiça absoluta, religiosamente uma prerrogativa de Deus. De uso relativamente amplo provavelmene em todo o mundo antigo, na Europa teve o seu uso consideravelmente diminuído, sobretudo por influência de alguns advogados, teólogos e de figuras pródigas da Igreja. Pedro Cantor assinalou como a exigência da ordália equivalia a procurar um milagre, e assim violava a injunção bíblica: “não tentarás o Senhor, teu Deus”. Foi um teólogo francês. Educado em Reims, mudou-se depois para Paris, onde, em 1183, tornou-se cantor (daí o seu nome) em Notre-Dame. Em 1196, foi eleito deão em Reims, mas morreu, no ano seguinte, na Abadia de Longpont em algum momento depois de 29 de janeiro. Em suas obras, de viés escolástico, Pedro comentou sobre o Antigo e o Novo Testamento. Além disso, escreveu uma obra sobre o sacramento da penitência. O extraordinário medievalista Jacques Le Goff citou Cantor quando tentava determinar o “nascimento do purgatório” no século XII, citando que ele utilizou o termo purgatorium como substantivo em 1170. Seu Dictionarium Saxonico et Gothico-Latinum, publicado em 1772, foi um marco no desenvolvimento histórico da lexicografia do inglês antigo, superado pelo Dictionary of the Anglo-Saxon Language de Joseph Bosworth (1838), ao qual contribuiu per se na sociedade inglesa. Os mais antigos relatos da aplicação da ordália encontram-se no Código de Ur-Nammu (2100-2050 a. C.) no Código de Hamurábi (1750 a. C.), e no judaico Livro dos Números.

Antigo estudante da École Normale Supérieure, Jacques Le Goff estudou na Universidade Carolina em 1947-48, professor de história em 1950 e membro da École Française de Rome, foi nomeado assistente da Faculté de Lille (1954-59) antes de ser nomeado pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica), em 1960. Em seguida, mestre-assistente da VI seção da École Pratique des Hautes Études (1962), sucedeu a Fernand Braudel no comando da École des Hautes Études en Sciences Sociales, onde ele foi diretor dos estudos. Cedeu seu lugar a François Furet em 1967. Na qualidade de diretor de estudo na École des Hautes Études en Sciences Sociales, publicou estudos que renovaram a pesquisa histórica, sobre mentalidade e sobre antropologia da Idade Média. Seus seminários exploraram os caminhos então novos da antropologia histórica. Ele publicou os artigos sobre as universidades medievais, o trabalho, o tempo, as maneiras, as imagens, as lendas, as transformações intelectuais da Idade Média. Codiretor da Escola dos Annales, dirigiu os estudos ligados à Nova História, como a coletânea Faire de l’Histoire em 1977 e o volumoso Dictionnaire de la Nouvelle Histoire publicado no ano seguinte, levando à revolução dos Annales. Nos anos 1980 ele trabalhou em uma biografia de São Luís, publicada em 1996. Tudo em recordações das etapas essenciais do reinado de Luís IX (1214-1270), ele renovou o gênero biográfico pelos seus métodos e suas reflexões sobre a possibilidade de conhecer realmente um personagem da Idade Média. Le Goff atuou pragmaticamente no sentido de levar a História para além do mundo acadêmico, apresentando um programa na rádio estatal francesa France Culture, sendo consultor de produções para a TV e cinema, incluindo o filme O Nome da Rosa, adaptação do livro de Umberto Eco, estrelado por Sean Connery. Era poliglota, sendo fluente nos idiomas inglês, italiano, polonês e alemão. Morreu em 1° de abril de 2014, em Paris.

Assim, o Código de Hamurabi estipulava que: “Se um homem lançou um feitiço sobre outro homem e este ainda não foi justificado, aquele sobre quem o feitiço foi lançado deverá ir ao rio sagrado; ele deverá mergulhar no rio sagrado. Se o rio sagrado o vencer e ele se afogar, o homem que lançou o feitiço tomará posse de sua casa. Se o rio sagrado o declarar inocente e ele permanecer ileso, o homem que lançou o feitiço será condenado à morte. Aquele que mergulhou no rio tomará posse da casa de quem lançou o feitiço sobre ele”. De acordo com Adam Clarke, a ordália, que foi praticada em diversas partes do mundo, tinha como origem possivelmente “as águas da amargura”. A qual consta na Bíblia, no livro de Números, onde se prescreve que a mulher, suspeita de adultério, deverá beber uma água possivelmente contaminada, e, se for adúltera, morrerá, porém, se for fiel, sobreviverá e terá filhos. A prática era “quase universal na Europa”, segundo o medievalista Eric Jager, nascido em 27 de abril de 1957 é um crítico literário norte-americano e especialista em literatura medieval. Ele é professor do departamento de inglês da Universidade da Califórnia, Los Angeles, recebeu seu bacharelado do Calvin College em 1979 e seu doutorado da Universidade de Michigan em 1987.

Ele também lecionou na Universidade Columbia como professor Associado.  Estava em uso entre os antigos borgonheses, francos ripuários, alamanos, lombardos e suíones. Era desconhecido na lei anglo-saxônica e no direito romano e não figura nas tradições da Antiguidade do Oriente Médio, como o código de Hamurabi ou a Torá. No entanto, está registrado nas Leis Brehon irlandesas medievais, como Din Techtugad. A prática é regulamentada em vários códigos legais germânicos. Estando enraizadas na lei tribal germânica, as diversas leis regionais do Império Franco e do Sacro Império Romano-Germânico prescreviam diferentes particularidades, como equipamentos e regras de combate. A Lex Alamannorum, isto é, recensão Lantfridana 81, datada de 712–730 d.C. prescreve um julgamento por combate no caso de duas famílias disputarem a fronteira entre suas terras. Um punhado de terra retirado do terreno em disputa é colocado entre os competidores e eles são obrigados a tocá-lo com suas espadas, cada um jurando que sua reivindicação é legal. A parte vencida, além de perder o direito ao terreno, deverá pagar uma multa. Os códigos legais que regem seu uso aparecem a partir do ano 803. Luís I, o Piedoso, prescreveu o combate entre testemunhas de cada lado, e não entre o acusador e o acusado, e permitiu brevemente a Ordália em casos envolvendo clérigos.

Na Escandinávia medieval, a prática sobreviveu durante a Era Viking na forma do holmgang. Uma variante incomum, o duelo conjugal, envolvia o combate entre marido e mulher, sendo o primeiro deficiente físico de alguma forma. O perdedor era morto. O primeiro relato de ordália na Europa está associado ao Rei Ina, um rei anglo-saxão que governou entre 688 e 726 e é conhecido por seu código legal e foi composto por volta do ano 700, denominado decisão por ferro incandescente e água. Agobardo, bispo de Lião, escreveu contra a ordália sessenta anos antes. A ordália foi mencionada no Concílio de Trevers, em 895. A ordália não era praticada na Normandia até sua conquista, e foi provavelmente introduzida na Inglaterra durante o tempo de Ina, sendo introduzida no código de leis de Athelstan e Ethelred. A ordália por fogo era para os homens e mulheres nobres, e a ordália por água para os servos.  Segundo a lenda, Cunegunda de Luxemburgo, após ter sido acusada de adultério, provou a sua inocência caminhando “sem danos sobre arados aquecidos ao rubro”. Em 1157, a prova do ferro quente foi ordenada pelo Concílio de Reims para todos os suspeitos de heresia. Em 1210, treze anos após a morte de Pedro Cantor, o bispo Henrique de Estrasburgo ordenou esse “tratamento” para cerca de 100 hereges. Henrique III proibiu a ordália no terceiro ano do seu reinado, em 1219. Houve vário papas que emitiram bulas papais contra as ordálias. Foram papéis desempenhados por Estêvão VI, em 887/888; Alexandre II, em 1063; e, mais demarcadamente, por Inocêncio III, que no IV Concílio de Latrão em 1215 que proibiu o clero de compactuar com julgamentos “por fogo e por água”, substituindo-os pela compurgação, de juramento e testemunho; ou, dando-lhe outra tradução, julgamento por juramento.

É importante salientar que, neste período histórico, desenrolava-se a chamada Guerra dos Cem Anos uma série de conflitos travados entre os reinos da Inglaterra e da França durante o final da Idade Média. Originou-se de reivindicações inglesas ao trono francês entre a Casa Real Inglesa de Plantageneta e a Casa Real Francesa de Valois. Com o tempo, a guerra se transformou em uma luta de poder mais ampla envolvendo facções de toda a Europa Ocidental, alimentada pelo nacionalismo emergente de ambos os lados. Na Inglaterra tudo que era identificado como francês era visto como inimigo e nessa visão se incluiu a Igreja, pois havia transferido sua sede de Roma para Avinhão, na França. A elite inglesa formada pela realeza, parlamento e nobreza, reagia à ideia de enviar dinheiro aos papas, pois era uma atitude vista como ajuda ao sustento do próprio inimigo. Neste ambiente hostil beligerante à França e à Igreja, um teólogo como John Wycliffe desfrutou quase imediatamente de grande apoio, não apenas político, como de popularidade, despertando historicamente o nacionalismo inglês. Em 22 de maio de 1377, o Papa Gregório XI (1331-1378), que em janeiro havia abandonado Avinhão para retornar à sede da Igreja a Roma, expediu uma bula contra Wycliffe, declarando que suas 18 teses eram errôneas e perigosas para a Igreja em sua relação com o Estado. O apoio de que Wycliffe desfrutava na corte e no parlamento “tornaram a bula sem efeito prático, pois era geral a opinião de que a Igreja estava exaurindo os cofres ingleses”.

Embora o procedimento inquisitorial como um meio para combater a heresia fosse uma prática antiga da Igreja Católica, a prática foi apoiada oficialmente pela Santa Sé a partir de 1184, com a publicação da bula Ad abolendam, do Papa Lúcio III, em resposta ao crescimento da heresia cátara no sul da França e nas cidades do norte italiano. É chamada de episcopal porque era administrada por bispos, que em latim é episcopus. Foi o embrião do qual surgiria o Tribunal da Inquisição e do Santo Oficio. O castigo físico dos hereges foi designado para os leigos. Por esta bula, os bispos foram historicamente obrigados a intervir ativamente para erradicar a heresia e foi dado “o poder de julgar e condenar os hereges em sua diocese”. Todas as inquisições medievais importantes foram descentralizadas. As autoridades descansaram com as autoridades locais com base em orientações da Santa Sé, mas não havia nenhuma autoridade central executando as inquisições, como seria o caso das inquisições pós-medievais. Há tipos diferentes de inquisições, dependendo da localização espacial e métodos; historiadores têm geralmente classificadas de Inquisição Episcopal e Inquisição papal.

Os papas, durante algum tempo, tiveram que frear o impulso crescente dos heréticos. Porém finalmente no Terceiro Concílo de Latrão (1179) incitaram os príncipes a aplicar as sanções penais contra os hereges. De início, tentou liquidar o problema militarmente, quando em 1208, o papa Inocêncio III apelou à Cruzada albigense, convocando os príncipes cristãos e garantindo aos que dela participassem os mesmos benefícios espirituais e temporais ligados à Cruzada de libertação da Terra Santa. Terminou pela vitória dos cruzados, que logo se apoderaram dos territórios dos albigenses e dos senhores feudais que os protegiam. Mas o resultado não foi o esperado pelo papa, pois a heresia continuou a progredir. Como resultado, “o papa recorreu à pressão judicial, estabelecendo a Inquisição”. Essa instituição apareceu primeiro em 1203, quando Inocêncio III mandou juízes papais especiais “inquirirem” casos de heresia em certos locais em que os tribunais dos bispos pareciam incapazes de colocar-se à altura de sua rápida difusão. Essas novas cortes mostraram-se muito mais eficazes do que os tribunais episcopais efetivos e, em consequência, em 1229, foram transformadas em instituição permanente para o fim específico de lidar com a heresia.

O Quarto Concílio de Latrão (1225) codificou as leis existentes e urgiu a eficácia simbólica do seu cumprimento. Em 1230, o Papa Gregório IX, respondeu às falhas da inquisição episcopal com uma série de bulas papais que se transformaram na Inquisição papal, que foi composta por profissionais especificamente preparados para essa tarefa. Os indivíduos foram escolhidos de diferentes ordens e do clero secular, mas principalmente vieram da Ordem Dominicana. Os dominicanos foram favorecidos pela sua história de anti-heresia. Como mendicantes, eles estavam acostumados a viajar. Ao contrário dos métodos do acaso episcopal, a Inquisição papal foi aprofundada, sistemática, mantendo registros detalhados. Alguns documentos da Idade Média, envolvendo discurso na primeira pessoa por camponeses vêm registros da inquisição papal. O papa Gregório IX em 1231 aceitou para toda a Igreja a constituição de Frederico II (1224) pela que se impunha a pena de morte aos hereges e formou o tribunal da Inquisição do qual foi encarregada a ordem dos dominicanos. Em 1252, o Papa Inocêncio IV bula Ad extirpanda autorizou a utilidade de uso de tortura para extrair as possíveis confissões de prisioneiros. Recomenda-se que os torturadores não excedam a mutilar o acusado ou denunciado. As penas eram variadas. Aqueles que se recusavam a abjurar, hereges relapsos foram entregues ao braço secular para a execução da pena de morte. Na Espanha só existiu no reino de Aragão.

Mas destacou-se como obra de Nicolas Eymerich (1320-1399), como Directorium inquisitorum, manual da Inquisição medieval. O Malleus Maleficarum, que foi publicado em 1486, mais tarde do que foi a Era da Inquisição dos tempos dos cátaros e albigenses. No norte da Europa a Inquisição foi um pouco mais suave: nos países escandinavos que tinham praticamente nenhum impacto até que a Inquisição Espanhola, quando os reis espanhóis utilizavam para matar muitos que não concordam com a coroa espanhola. Existiu no reino de Aragão, durante este período, mas não no resto da Península Ibérica. A Inquisição nunca foi instituída na Inglaterra, mas Cristóvão Colombo (1451-1506) levou-a consigo para o Novo Mundo. A disseminação dos movimentos heréticos do século XII, pode ser vista, pelo menos em parte, como uma reação à crescente “corrupção moral do clero, que inclui subornos para casamentos ilegais e posse de riqueza extrema”. Na Idade Média, o escopo principal da Inquisição era erradicar essas novas seitas. Assim, seu raio de ação foi definido predominantemente na Itália e na França, onde as seitas, como se tinha estabelecido. Os dois principais movimentos heréticos eram reconhecidos como os cátaros e os valdenses. Os primeiros foram na maior parte no Sul da França, em cidades como Toulouse. Parecem ter sido originalmente fundadas por alguns soldados da Segunda Cruzada, que, no seu caminho de volta, foram convertidos por uma seita búlgara, o Bogomilos. A principal heresia dos cátaros, entretanto, era sua crença no dualismo: “o Deus do mal criou o mundo materialista e o Deus bom criou o mundo espiritual”.

Os valdenses foram principalmente na Alemanha e na Itália do Norte. Em contraste com os cátaros e em sintonia com a Igreja, eles acreditavam em um só Deus, mas não reconheciam o sacerdócio, nem a veneração que para eles não é sinônimo de culto de santos e mártires, que faziam parte da ortodoxia da Igreja. As queixas das duas principais ordens do período, articulada em torno dos dominicanos e dos franciscanos, contra a corrupção moral da Igreja, em certa medida, ecoaram dos movimentos heréticos, mas eram doutrinariamente convencionais, e foram convocados pelo Papa Inocêncio III (1161-1216) contra as heresias. Como resultado, muitos franciscanos e dominicanos foram inquisidores. Robert le Bougre (1173-1239), o “Martelo dos Hereges” (Malleus haereticorum), considerado “premier Inquisiteur général en France”, foi frade dominicano que se tornou um inquisidor reconhecido por sua crueldade e violência. Outro exemplo veio da província de Veneza, que foi entregue aos inquisidores franciscanos, que rapidamente se tornou famosa por suas fraudes contra a Igreja, “enriquecendo-se com os bens confiscados dos hereges e a venda de absolvições”. Por causa de sua corrupção, eles foram forçados pelo papa para suspender as suas atividades religiosas em 1302. A Guerra dos Cem Anos, por outro lado, representou um dos conflitos mais significativos da Idade Média. Durante 116 anos, interrompidos por várias tréguas, cinco gerações de reis de duas dinastias rivais lutaram pelo trono do maior reino da Europa Ocidental. O efeito político da guerra na história europeia foi duradouro. Ambos os lados produziram inovações em tecnologia e táticas militares, incluindo exércitos permanentes profissionais e artilharia, que mudaram permanentemente a guerra na Europa. Mas a cavalaria, que atingiu seu auge durante o conflito, posteriormente declinou. 

Identidades nacionais mais fortes criaram raízes em ambos países, que se tornaram mais centralizados e gradualmente ascenderam como potências globais. Para fins de definição geográfica, de censo, econômico, de soberania e muitos outros, torna-se necessário nomear as extensões territoriais e urbanas; desde muito cedo a Humanidade se dedicou a fazer isso. Província equivale também aos estados em alguns outros países. Vem do Latim provincia, “território sob o domínio romano”, dado como resultante de pro-, “à frente”, mais vincere, “vencer”. E isto era coisa que eles gostavam de fazer, embora nem sempre conseguissem. País, do Latim pagus, “distrito rural”, originalmente “área demarcada”, relacionada com pangere, “apertar, colocar no lugar”, que veio do Indo-Europeu pag-, “colocar no lugar, unir, tornar firme”. Reino, do Latim regnum, “reinado”, a estrutura de poder dirigida por um rei, do Latim rex.  E esta, por sua vez, é derivada do Indo-Europeu reg-, “mover-se em linha reta”, daí “dirigir, guiar, comandar, reger”. O termo “Guerra dos Cem Anos” foi adotado por historiadores como periodização historiográfica para abranger conflitos relacionados, construindo o conflito militar considerado o mais longo da história europeia. A guerra é comumente dividida abstratamente em três fases separadas por tréguas: a Guerra Eduardiana (1337-1360), Guerra Carolina (1369-1389) e Guerra Lancastriana (1415-1453). Cada lado atraiu muitos aliados para o conflito, com as forças inglesas inicialmente prevalecendo; a Casa de Valois finalmente manteve o controle sobre a França, com as monarquias tanto francesas e inglesas anteriormente entrelaçadas permanecendo separadas. As causas profundas do conflito podem ser atribuídas à crise da Europa do século XIV. 

O cerco de Calais no período de 4 de setembro de 1346 a 3 de agosto de 1347, ocorreu na conclusão da campanha de Crécy, quando um exército inglês sob o comando do rei Eduardo III da Inglaterra sitiou com sucesso a cidade francesa de Calais durante a fase eduardiana dos Cem Anos Guerra. O exército inglês em torno de 10.000 homens havia desembarcado no Norte da Normandia em 12 de julho de 1346. O chevauchée de Lancaster de 1346 foi uma sequência de ataques comandados por Henrique, conde de Lancaster, no sudoeste da França no decorrer do outono de 1346, como parte da Guerra dos Cem Anos. O ano havia iniciado com um grande] exército francês sob o comando de João, duque da Normandia, filho e herdeiro do rei Filipe VI, sitiando a cidade estrategicamente importante de Aiguillon, na Gasconha. Lancaster recusou a batalha e assediou as linhas de suprimentos francesas, evitando que Aiguillon fosse bloqueado. Após um sitio de cinco meses, os franceses receberam ordens para enfrentar o principal exército inglês, que em 12 de julho desembarcou na Normandia sob Eduardo III da Inglaterra e iniciou a campanha de Crécy. Eles embarcaram em um ataque em grande escala, ou chevauchée, devastando partes do Norte da França. Em 26 de agosto de 1346, lutando no terreno de sua própria escolha, os ingleses infligiram uma pesada derrota a um grande exército francês liderado por seu rei Filipe VI na Batalha de Crécy. Uma semana depois, eles investiram no porto bem fortificado de Calais, que tinha uma forte guarnição de soldados sob o comando de Jean de Vienne (1341-1396). As principais consequências políticas da Guerra dos Cem Anos foram principalmente o desenvolvimento extraordinário e peculiar de um sentimento de identidade nacional profundo, dos dois lados, que contribuiu para a formação da Inglaterra e da França como passamos a reconhecê-las.

Os dois sistemas acabaram por ser gradualmente substituídos, a partir dessa mesma época, pelo julgamento por um júri. Contudo, o ordálio pela água continuou a ser usado no período da chamada “caça às bruxas”. A ordália por batalha, crê-se que tenha vindo dos lombardos, os quais, provindos da Escandinávia, varreram a Europa. Este modo foi instituído por Frotha III, rei da Dinamarca na época do nascimento de Cristo, que ordenou que cada controvérsia fosse resolvida pela espada. Esta prática continuou até o reinado de Cristiano III, rei da Dinamarca, em 1535. A partir dos países escandinavos a prática chegou à Inglaterra, e continuava, nos dias de Adam Clarke, nascido em Moybeg Kirley, condado de Derry, 1762 em Londres, e morto em 26 de agosto de 1832 foi um escritor irlandês e estudioso bíblico. Como escritor e estudioso bíblico, ele publicou um influente comentário bíblico entre outras obras, a servir como base para a detestável prática dos duelos, uma relíquia da superstição. Os duelos supostamente tiveram um grande crescimento em 1527, quando houve o rompimento de um tratado entre o imperador Carlos V e Francisco I. Após algumas mensagens insultuosas, eles decidiram resolver a disputa em um duelo, porém não conseguiram chegar a um acordo sobre as condições do duelo. O exemplo de dois personagens ilustres influenciou várias pessoas na Europa a fazerem o mesmo. Adam Clarke conclui a sua exposição da ordália citando Dr. Henry. Este menciona os vários casos medievais onde pessoas foram expostas a ordália, “colocando os braços em água fervente, segurando bolas incandescentes de ferro, caminhando sobre carvão em brasa, sem sofrer nenhuma injúria”, porém ele não atribui estes milagres à providência divina, mas a um conluio político entre o acusado e o padre encarregado de organizar a cerimônia, para enganar a população crédula.

Do século V ao XI foram numerosas as rupturas seguidas de reconciliação entre as igrejas do Ocidente e Oriente. O principal conflito era o método de governo da Igreja, enquanto o Oriente sustentava a Igreja como uma Pentarquia dentro do Império Bizantino, comandada pelos patriarcas das cinco cidades mais importantes: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém; no Ocidente os Papas, invocavam jurisdição sobre todos os assuntos da Igreja e o direito de julgar até mesmo os patriarcas, em cerca de 446 o Papa Leão I (400-461) tinha expressamente reivindicado autoridade sobre toda a Igreja: “O cuidado da Igreja universal, deve convergir para a cadeira de Pedro, e nada deve ser separado de sua cabeça”. Desde a metade do século VIII, as fronteiras do Império Bizantino enfrentavam uma iminente expansão islâmica. Antioquia voltou ao controle bizantino por volta de 1045, mas o ressurgente poder dos sucessores romanos no ocidente passou a postular por seus direitos e sua autoridade nos lugares perdidos na Ásia e África. Então, em 1054 os legados romanos do papa Leão IX, viajaram para Constantinopla para insistir no reconhecimento da primazia papal, o patriarca de Constantinopla se recusou a reconhecer sua autoridade e se excomungaram mutuamente, posteriormente a separação entre Ocidente e Oriente se desenvolveu quando todos os outros patriarcas orientais apoiaram Constantinopla, no reconhecido evento do Grande Cisma. Leão I, reconhecido como São Leão Magno foi o Papa da Igreja Católica de 29 de setembro de 440 até a data de sua morte. 

Nascido em território italiano, de origem aristocrática, destacou-se tanto por sua sabedoria teológica quanto por sua forte liderança pastoral e diplomática, em um período de profundas transformações políticas e doutrinais no Império Romano. Foi o primeiro Papa a receber o título de “Magno” (o Grande), em reconhecimento à sua notável influência sobre a Igreja e o mundo cristão. O pontificado de Leão Magno marcou um dos períodos mais importantes do desenvolvimento da doutrina cristológica. Ele é lembrado especialmente pelo célebre “Tomo de Leão”, carta endereçada ao patriarca Flaviano de Constantinopla, na qual expressou a fé da Igreja sobre a dupla natureza de Cristo, isto é, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, unidas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. Este documento foi de importância decisiva no Concílio de Calcedônia (451), o quarto concílio ecumênico, que reafirmou esta doutrina contra as heresias monofisitas e consolidou a teologia cristã sobre a Encarnação do Verbo. Além de seu legado teológico, Leão Magno ficou famoso também por seu papel político e pastoral: em 452, encontrou-se pessoalmente com Átila, o Huno, nas proximidades de Mântua, e o convenceu a abandonar sua marcha sobre Roma, evitando uma possível devastação da cidade. Três anos depois, enfrentou ainda a invasão dos vândalos de Genserico, buscando proteger os habitantes e os lugares sagrados. São Leão I foi declarado Doutor da Igreja em 1754 pelo Papa Bento XIV, em reconhecimento de seus escritos e sermões, muitos dos quais são considerados exemplos de doutrina e eloquência cristã. Sua memória litúrgica é celebrada em 10 de novembro.

Mudanças posteriores ocorreram com uma redivisão da Europa. Guilherme, o Conquistador, duque da Normandia, invadiu a Inglaterra em 1066. A conquista normanda foi crucial na história inglesa por diversas razões. Essa conquista aproximou a Inglaterra da Europa continental com a introdução da aristocracia normanda e, portanto, diminuindo a influência escandinava. Assim criou-se uma das mais poderosas monarquias europeias em um sofisticado sistema governamental. Depois do Grande Cisma do Oriente, a cristandade ocidental foi adotada nos recém-criados reinos da Europa Central: Polônia, Reino da Hungria e o Reino da Boêmia. A Igreja Católica tornou-se muito poderosa, levando a vários conflitos entre o Papa e o Imperador. Em 1129, a Igreja Católica estabeleceu o uso da Inquisição para conservar a sua ortodoxia doutrinária no Ocidente católico. A Inquisição punia e exortava todos aqueles que praticavam a heresia para se arrependerem e se converterem. Caso não o fizessem, a punição poderia ser a morte. Durante este tempo muitos senhores e nobres se converteram ao cristianismo. Os Monges de Cluny batalharam para instituir a igreja onde nobres não o faziam. O papa Gregório VII continuou o trabalho dos monges com mais dois objetivos alcançados, libertar a igreja do controle de reis e nobres e aumentar o poder do papado. A área de influência da Igreja Católica aumentou enormemente devido às conversões de reis pagãos na Escandinávia, Lituânia, Polônia e Hungria à reconquista da Península Ibérica e às Cruzadas. A maior parte da Europa era católica no século XV.

 Sinais do renascimento da civilização na Europa ocidental começaram a aparecer já no século XI com o início do comércio ainda na península Itálica, levando a um crescimento cultural e econômico de cidades-Estado independentes como a República de Veneza e a República Florentina; no mesmo tempo estados-nação começaram a formar-se como França, Inglaterra, Espanha e Portugal, mas o processo de formação, em geral, demorou séculos. Essas nações criadas começaram a se comunicar com seus idiomas culturais, em vez do tradicional latim. Figuras notáveis do movimento incluem Dante Alighieri e Cristina de Pisano, primeira escritora em italiano, que depois de sua mudança de Veneza para a França, escreveu em francês. Por outro lado, o Sacro Império Romano-Germânico, essencialmente baseado na Alemanha e na península Itálica, esteve fragmentado em um conjunto de principados e pequenas cidades-Estado, cuja subjugação ao imperador era apenas formal. Durante os séculos XIII-XIV, o Império Mongol subiu ao poder. Os exércitos mongóis expandiram-se em direção ao Oeste sob o comando de Batu Cã. Suas conquistas no ocidente incluíram quase toda a Rússia, salvo Novgorod, que se tornou um vassalo, Quipechaques, a Hungria e a Polônia que permaneceu como um Estado autônomo. Documentos mongóis sugerem que Batu Cã estaria planejando a completa conquista dos poderes europeus remanescentes, começando com um ataque no inverno sobre a Áustria, península Itálica e Alemanha, quando foi chamado de volta para a Mongólia devido a morte do grão-cã Oguedai. Muitos historiadores acreditam que sua morte preveniu a conquista completa da Europa. Na Rússia, entretanto, os mongóis da Horda Dourada governaram por quase 250 anos. 

O renascimento foi inspirado pelo crescimento dos estudos de textos latinos e gregos e a admiração da era greco-romana como uma época de ouro. Isso incitou muitos artistas e escritores a tomar emprestados exemplos gregos e romanos para suas obras, mas também existiram muitas inovações nesse período, especialmente através de artistas multifacetados tais quais Leonardo da Vinci e Leon Battista Alberti. Muitos textos gregos e romanos ainda existiam na Idade Média europeia, devido ao trabalho inestimável dos monges católicos, que copiaram e recopiaram os textos antigos e os guardaram por todo um milênio. Muitos outros foram descobertos com a migração de estudiosos gregos, assim como de textos gregos clássicos, para a Itália. Após a queda de Constantinopla, enquanto outros textos gregos e romanos chegaram através de fontes islâmicas, que os herdaram através das conquistas, e até mesmo fazendo tentativas de melhorar alguns deles. Com o orgulho natural de pensadores avançados, os humanistas viram o ressurgimento desse grande passado como uma renascença – o renascimento da própria civilização. Importantes precedentes políticos aconteceram neste período. Nicolau Maquiavel escreveu “O Príncipe” que influenciou o posterior absolutismo e a política pragmática. Também foram importantes os diversos líderes que governaram estados e usaram a arte da Renascença como um sinal de seus poderes. Durante esse período, a corrupção da Igreja Católica levou a uma dura reação, na Reforma Protestante. E ela ganhou muitos seguidores, especialmente entre príncipes e reis buscando um estado forte para acabar com a influência da Igreja Católica. Figuras como Martinho Lutero começaram a surgir, assim também como João Calvino com o seu calvinismo que teve influência em muitos países e o rei Henrique VIII que rompeu com a Igreja Católica e fundou a Igreja Anglicana. Essas divisões religiosas trouxeram uma onda frenética de guerras inspiradas e conduzidas religiosamente por interesses do clero, mas também pela ambição dos monarcas na Europa Ocidental que se tornavam cada vez mais centralizadas e poderosas.

A Reforma Protestante também levou a um forte movimento reformista na Igreja Católica chamado Contrarreforma, que tinha como objetivo reduzir a corrupção, assim como aumentar e fortalecer a doutrina católica. Um importante grupo da Igreja Católica que surgiu nessa época foram os jesuítas, que ajudaram a manter a Europa Oriental na linha católica de pensamento. Mesmo assim, a Igreja Católica foi fortemente enfraquecida pela Reforma protestante e grande parte do continente europeu não estava mais sob sua influência e os reis nos países que continuaram no catolicismo começaram a anexar as terras da igreja para seus próprios domínios. Diferentemente da Europa Ocidental, os países da Europa Central, a Comunidade Polaco-Lituana e a Hungria, foram mais tolerantes. Enquanto se aumentava a predominância do catolicismo, eles ainda permitiam que um grande número de minorias religiosas cultivasse suas crenças. Assim, a Europa Central manteve-se dividida entre católicos, protestantes, ortodoxos e judeus. Outro importante acontecimento desta época foi o crescimento do sentimento de união do povo europeu. Émeric Crucé (1623) formulou a ideia do Conselho Europeu, com a intenção de acabar com as guerras na Europa; visto que a última tentativa de criar paz na Europa não obteve sucesso quando todos os países europeus fizeram um tratado de paz em 1518 no Tratado de Londres

Muitas guerras implodiram de novo em poucos anos. Vale lembrar que a reforma proporcionou a paz impossível na Europa por muitos séculos ainda. As numerosas guerras não impediram que os novos estados explorassem e conquistassem largas porções do mundo, particularmente na Ásia (Sibéria) e a recém-descoberta América. No século XV, Portugal liderou a exploração geográfica, seguido pela Espanha no começo no século XVI. Eles foram os primeiros estados a fundar colônias na América e estações de troca nas costas da África e da Ásia, porém logo foram seguidos pela França, Inglaterra e Países Baixos. Em 1552, o czar russo Ivan, o Terrível conquistou os dois maiores Canatos tártaros, Kazan e Astracã, e a viagem de Yermak em 1580, que levou a anexação da Sibéria pela Rússia. A expansão colonial prosseguiu-se nos anos seguintes, mesmo com alguns empecilhos, como a Revolução Americana e as guerras pela independência em muitas colônias americanas. A Espanha controlou parte da América do Norte e grande parte da América Central e do Sul, o Caribe e Filipinas; Portugal teve em suas mãos o Brasil e vários territórios costeiros em África e na Ásia como por exemplo a Índia, Macau, Timor Português, etc.; os britânicos comandavam a Austrália, Nova Zelândia, maior parte da Índia e grande parte da África e América do Norte; a França comandou partes do Canadá e da Índia, porém quase tudo foi perdido para os britânicos em 1763, a Indochina, grandes terras na África e Caribe; os Países Baixos ficaram com as Índias Orientais (depois Indonésia) e algumas ilhas no Caribe; países como Alemanha, Bélgica, Itália e Rússia conquistaram colônias posteriormente.

Essa expansão ajudou a acumulação de capital dos países que a fizeram. O comércio prosperou, por causa da menor estabilidade entre os impérios. No final do século XVI, a prata americana era responsável por um quinto de todo o comércio da Espanha. Os países europeus travaram guerras que foram pagas através do dinheiro da exploração das colônias. No entanto, os lucros com o tráfico de escravos e as plantações das Índias Ocidentais, a mais rentável das colônias britânicas naquele momento, representavam apenas 5% de toda a economia do Império Britânico no final do século XVIII, inicial da Revolução Industrial. A partir destas primícias deste período, o capitalismo substituía o mercantilismo como principal forma de organização econômica, ao menos no Oeste da Europa. A expansão das fronteiras coloniais resultou em uma Revolução Comercial. No período o crescimento da ciência moderna e a aplicação de suas descobertas em melhorias tecnológicas, que culminaram com a revolução Industrial. Descobertas ibéricas do Novo Mundo, começaram com a jornada de Cristóvão Colombo ao Oeste com a busca de uma rota fácil para as Índias Orientais em 1492, foram logo adaptadas por explorações inglesas e francesas na América do Norte. Novas formas de comércio e sua expansão fizeram necessária uma mudança no direito internacional. A Reforma Protestante produziu efeitos profundos na unidade europeia. Não apenas dividindo as nações uma das outras pela sua orientação religiosa, mas alguns estados foram afetados internamente por lutas religiosas, fortemente encorajadas por seus inimigos externos. A França viveu essa situação no século XVI com uma série de conflitos, como as guerras religiosas na França, que culminaram no triunfo da Dinastia Bourbon. 

A Inglaterra preveniu-se desse fato com a consolidação sob a Rainha Elizabeth do moderado Anglicanismo. Quase toda parte da atual Alemanha estava dividida em inúmeros estados sob o comando teórico do Sacro Império Romano Germânico, que também estava dividido dentro do próprio governo. A única exceção a isso era a Comunidade Polaco-Lituana, uma aliança criada pela União de Lublin, expressando uma grande tolerância religiosa. Esse embate religioso aconteceu até a Guerra dos Trinta Anos quando o nacionalismo substituiu a religião como principal motor dos conflitos na Europa. A Guerra dos Trinta Anos aconteceu entre 1618 e 1648, principalmente no território da atual Alemanha, e envolveu as principais potências europeias. Começou como um conflito religioso entre protestantes e católicos no Sacro Império Romano Germânico, e gradualmente desenvolveu-se em uma proporção de guerra geral, envolvendo boa parte da Europa, por razões não necessariamente ligadas à religião. O maior impacto da guerra, na qual exércitos de mercenários foram largamente utilizados, foi a devastação de regiões inteiras na busca do exército inimigo. Episódios como a disseminação da fome e das doenças devastaram a população dos estados germânicos e, em menor grau, dos Países Baixos e da península Itálica, onde levaram à falência muito dos poderes regionais envolvidos. Entre um quarto e um terço da população alemã pereceu por causas diretamente ligadas à guerra ou ainda de doenças e miséria causadas pelo conflito armado. A guerra durou trinta anos, mas os conflitos que ela deu início ainda continuaram sem solução por muito tempo. Depois da Paz de Vestfália, que permitiu aos países que eles escolhessem sua orientação religiosa, o absolutismo tornou-se o padrão do continente, a Inglaterra caminhava rumo com a Guerra Civil Inglesa (1642-1651) e a Revolução Gloriosa (1688-1689). 

Os conflitos na Europa não acabaram, mas tiveram menos impacto na vida de seus cidadãos. O Iluminismo deu a base para um novo ponto de vista na sociedade, e a contínua difusão da literatura foi possível com a invenção da prensa, criando novas formas de avanço do pensamento humano. Ainda, nesse segmento, a Comunidade Polaco-Lituana foi uma exceção, com sua quase democrática “liberdade dourada”. A Europa Oriental era uma arena de conflito disputada por Suécia, a Comunidade Polaco-Lituana e o Império Otomano. Nesse período observou-se um gradual declínio destes três poderes que foram eventualmente substituídos pelas novas monarquias absolutistas do Império Russo, do Reino da Prússia e da Monarquia de Habsburgo. Na virada para o século XIX, eles tornaram-se as novas potências, dividindo a Polônia entre si, com Suécia e Império Otomano perdendo territórios substanciais para o Império Russo e Monarquia de Habsburgo, respectivamente. Uma grande parte de judeus poloneses emigrou para a Europa Ocidental, fundando comunidades judaicas em lugares de onde foram expulsos durante a Idade Média. A Revolução Industrial compreendida entre o fim do século XVIII e o começo do século XIX, no qual ocorreram grandes mudanças na agricultura, manufatura e transporte produziu um profundo efeito socioeconômico e cultural na Grã-Bretanha, que se espalhou por toda a Europa, América do Norte, e depois para todo o mundo, em um processo que ainda continua: a industrialização. Na parte final dos anos de 1700, a economia baseada na força de trabalho manual no Reino da Grã-Bretanha começou a ser substituída por outra pela indústria e pelas máquinas. Começou com a mecanização das indústrias têxteis, o desenvolvimento de técnicas avançadas de produção de ferro e o aumento do uso de carvão refinado. A expansão do comércio foi possibilitada com a introdução de canais, rodovias e o desenvolvimento de autoestradas. A introdução das máquinas a vapor abastecidas primeiramente fomentada pelo uso carvão e maquinaria bruta, na manufatura têxtil deram a base para grandes aumentos na capacidade produtiva inglesa. O desenvolvimento de máquinas de ferramentas nas duas primeiras décadas do século XIX facilitou a produção de mais máquinas para serem utilizadas em outras indústrias. Durante o século XIX, a industrialização se alastrou pelo resto da Europa Ocidental e América do Norte, afetando posteriormente grande parte do mundo.

Bibliografia Geral Consultada.

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