“A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito”. Lulu Santos
William Gurnall (1616-1679) foi um escritor inglês e clérigo anglicano nascido em King`s Lynn, Norfolk, onde foi batizado em 17 de novembro de 1616. Reconhecida até 1537 como Bishop`s Lynn e coloquialmente como Lynn, é uma cidade portuária e mercantil no distrito de King`s Lynn e West Norfolk, no condado de Norfolk, Inglaterra. Fica a 58 km a Nordeste de Peterborough, 71 km a Nordeste de Cambridge, 71 km a Oeste de Norwich e cerca de 8 km para o interior do estuário de The Wash. A etimologia de King`s Lynn é incerta. O nome Lynn pode significar um corpo de água perto da cidade – a palavra galesa llyn significa lago; mas o nome é plausivelmente de origem anglo-saxônica, de lean, que significa posse em regime de propriedade plena ou fazenda. O Domesday Book de 1086 registra-o como Lun e Lenn, e o atribui ao Bispo de Elmham e ao Arcebispo de Canterbury. O Domesday Book menciona salinas em Lena (Lynn); uma área de tanques divididos pode ter existido ali na época. A presença de sal, que era relativamente raro e caro no início do período medieval, pode ter aumentado o interesse de Herbert de Losinga e outros normandos proeminentes na modesta paróquia. A cidade foi chamada de Len Episcopi (Bishop`s Lynn) enquanto estava sob a jurisdição temporal e espiritual do Bispo de Norwich.
Mas no reinado de Henrique VIII de 1509 até sua morte, em 1547, foi entregue à coroa e recebeu o nome de Lenne Regis ou King`s Lynn. No entanto, a cidade é geralmente conhecida localmente como Lynn. Outros lugares no velho continente com Lynn no nome incluem Dublin, Irlanda, com An Dubh Linn significando “a Piscina Negra”. A cidade de Lynn, Massachusetts, ao Norte de Boston, foi nomeada em 1637 em homenagem ao seu primeiro ministro religioso oficial, o Reverendo Samuel Whiting Sr., que chegou lá vindo de Lynn, Norfolk. Lynnhaven, Virgínia, também recebeu o nome de King`s Lynn, tendo sido nomeada pelo Capitão Adam Thoroughgood, que era natural de King’s Lynn. William Gurnall foi educado na escola primária gratuita de sua cidade natal e, em 1631, foi indicado para a bolsa de estudos Lynn no Emmanuel College, em Cambridge, onde se formou em bacharelado em 1635 e em mestrado em 1639. Ele foi nomeado reitor da Igreja de São Pedro e São Paulo, em Lavenham, Suffolk, em 1644; e antes de receber essa nomeação, parece ter oficiado, talvez como cura, em Sudbury. Na Restauração, ele assinou a declaração exigida pelo Ato de Uniformidade de 1662 e, por esse motivo, foi alvo de um ataque difamatório publicado em 1665 intitulado “Renunciantes do Pacto, Apóstatas Desesperados”.
Gurnall é reconhecido por sua obra Christian in Complete Armour (O Cristão em Armadura Completa), publicada em três volumes, datados de 1655, 1658 e 1662. Consiste em sermões ou palestras ipsis litteris proferidas pelo autor no decorrer de seu ministério regular, em uma sequência de ensinamentos sobre Efésios 6:10-20. É descrita como um repositório do qual o cristão é provido de “armas espirituais” para a batalha, auxiliado a vestir sua armadura e instruído no uso de sua arma; juntamente com o desfecho feliz de toda a guerra. É, portanto, considerada um clássico sobre guerra espiritual. A obra é mais prática do que abstrata teológica; e seu estilo e seu tom religioso fervoroso continuaram a torná-la popular entre alguns leitores. Richard Baxter e John Flavel tinham o livro em alta consideração. Augustus Montague Toplady foi um clérigo anglicano inglês e escritor de hinos. Ele foi um grande oponente calvinista de John Wesley. Ele é mais lembrado como o autor do hino Rock of Ages que costumava fazer extensos trechos dele em seu caderno de anotações. John Newton, o ex-traficante de escravos convertido, anteriormente à passagem do trabalho escravo ao trabalho livre da produção capitalista disse que, se fosse obrigado a escolher apenas um livro além da Bíblia, escolheria Christian Armour. Richard Cecil passou muitos dos últimos dias de sua vida lendo-o e expressou repetidamente sua admiração pela obra.
Charles Haddon Spurgeon
(1834-1892) comentou que o trabalho de Gurnall é “incomparável e inestimável;
cada linha repleta de sabedoria. O livro já foi tema de inúmeros sermões e é,
em nossa opinião, o melhor gerador de ideias em toda a nossa biblioteca”. Em
1988, a Banner of Truth Trust, uma editora evangélica e reformada sem
fins lucrativos, estruturada como um fundo de caridade e fundada em Londres em
1957 por Iain Murray, Sidney Norton e Jack Cullum, publicou uma versão revisada
e abreviada em inglês contemporâneo. A velha tradição anticapitalista da
Igreja, lembra-nos Michael Löwy (2014), entra assim em relação de afinidade
eletiva com a análise marxista da exploração capitalista e com a crítica dos
marxistas latino-americanos, originária da extraordinária Teoria da
Dependência, ao capitalismo dependente como fundamento estrutural do
“subdesenvolvimento”, da miséria e do autoritarismo militar. A solidariedade
com o pobre é o ponto de partida deste processo social de elaboração teológica.
A grande diferença, a novidade decisiva, o salto qualitativo em relação à
concepção católica tradicional do pobre, é que este já não é considerado como
“vítima passiva, objeto de caridade e assistência, mas sim como sujeito de sua
própria libertação”.
Graças a esta ruptura -
fruto da experiência prática dos cristãos comprometidos no curso das
conjunturas históricas dos anos 1960 e 1970, que tem como primícias a
problemática de a interpelação da Teologia da Libertação vai convergir
com o princípio político fundamental do marxismo: a emancipação dos
trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores. Enfim, a opção
prioritária pelos pobres, aprovada pela Conferência dos Bispos
Latino-Americanos de Puebla (1979) é, na realidade, uma fórmula de
compromisso, interpretada num sentido tradicional e assistencialista pelas
correntes mais moderadas ou conservadoras da Igreja católica, e num sentido
radical pelos teólogos da libertação e as correntes mais avançadas do clero:
como um engajamento na organização e na luta dos pobres e despossuídos por sua
própria libertação. A luta de classes - não só como método de análise da
realidade, mas também como guia para a ação - se torna assim um elemento
central (implícito ou explícito) na nova teologia. Como escreveu Gustavo
Gutierrez Merino: “negar o fato da luta de classes é, na realidade, tomar
partido em favor dos setores dominantes. A neutralidade neste assunto é
impossível”. De qualquer forma, para o método marxista, o essencial é o que se
passa na realidade.
Enquanto processo de convergência por
afinidade eletiva, esta relação se refere também a certos valores
(comunitários), a certas opções (a solidariedade com os pobres), a utopias
do futuro (uma sociedade sem ético-políticas exploração nem
opressão). E na medida em que a teologia da libertação é a expressão de uma
práxis social, de um movimento social e de uma experiência ativa, seu encontro
com o marxismo se dá no terreno do compromisso prático com as lutas populares
de libertação. À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos
norte-americanos, Mills buscava escrever mais e mais para o grande público.
Além de artigos em revistas como: New Leader, Politics, New
York Times Magazine e Dissent, inovou no âmbito da comunicação
literária quando escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na
mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a
antropóloga Margaret Mead (1901-1978). Em The Causes of World War Three
(1958), Mills tratou da corrida nuclear; em Listen, Yankee: The Revolution
in Cuba (1960), da fase inicial da revolução cubana, livro escrito em seis
semanas após uma visita que Mills fizera a Cuba em agosto de 1960, foi um
enorme sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, colocou o FBI à sua espreita. O
livro baseou-se em extensas entrevistas gravadas com Fidel Castro, Che Guevara
e outros líderes da revolução social, além de jornalistas, militares e
intelectuais.
Fidel Castro teria
então contado a Mills que lera The Power Elite durante a guerrilha. Mills acreditara que os revolucionários
cubanos pudessem seguir por uma via socialista independentes. Durante sua
estada na Europa, completou boa parte de The Sociological Imagination,
apresentando em 1957 as versões do livro num Seminário em Copenhague. A obra A
Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande
obra de Max Weber e é seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra
foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do
autor e da esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e
escritora aos Estados Unidos da América. Analisando o processo em seu conjunto,
Weber verifica que dos dogmas e, especialmente, dos impulsos morais do
protestantismo, derivados após a reforma de Martin Lutero (1483-1546), surge
uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral
do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da
riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do
indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e
ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de
vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do
empresário.
A moral presente na
vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de
afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema
econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal,
trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno
quanto contemporâneo. No final da Ética Protestante, Max Weber destaca
para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de
secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva
da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os
puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta
avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da
produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de
ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos
modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade
petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons
que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos
atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica
do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács
(1885-1971), Karl Löwith (1897-1973), Michael Löwy a ressaltarem algumas
afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem
menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento,
denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014).
No entanto, diferente
da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber,
coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores
culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais
ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições
modernas. Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade
eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados
em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber
sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a
utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque,
estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e
menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico.
Existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as
origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade
eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente.
Além disso, na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a
“afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel
decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a
uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o
que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois
de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: -
“Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente
materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não
leva a lugar algum”.
A contribuição social é
a do escritor e ensaista espanhol José María González Garcia que dedicou às
afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang
von Goethe (1992). O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história,
muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia
medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado para explicar a atração e
fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno (1193/1206-1280), se o enxofre se une aos
metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter
affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas
dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724),
Hermannus Boerhaave (1668-1738) explica que “particulae solventes et solutae se
affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma
força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se”
numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do
ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece
pela primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu
livro, De attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para
o francês com o título de Traité des affinités chimiques ou Attractions
électives (1788).
Na tradução alemã
(Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi exatamente
traduzido por Wahlverwandtschaft, afinidade eletiva. Foi dessa versão alemã do
livro oitocentista de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft
(1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez
anos” por um de seus personagens. O termo se torna uma extraordinária metáfora
para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são
atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos
companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas. Essa transposição
de Wolfgang Goethe faz do conceito químico para a o terreno social da
espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários
alquimistas, como a Síndrome de Boerhaave, por exemplo, o termo já era
fortemente carregado de metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe
afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro,
atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima
numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave –
dois elementos “procuram-se, unem -se e encontram-se” – é impressionante, e não
excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista
holandês.
Com o romance de
Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na cultura alemã como designação de
um tipo social de ligação particular entre duas almas. Foi na Alemanha que ele
passou por sua terceira metamorfose: a transmutação, por obra desse grande
alquimista da ciência social chamado Max Weber, em conceito de representação
puramente de encarnação sociológico. Historicamente
da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, isto é,
relacional entre a atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece
desaparecer. O conceito ocupa um lugar importante em A Ética Protestante,
precisamente por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas
duas formas. Para a análise de Max Weber, trata-se de superar a abordagem
tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate inútil sobre a
primazia do “material” ou do “espiritual”.
São especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a
direção geral segundo as quais, em consequência de tais afinidades eletivas, o
movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material.
Ibiúna representa,
mutatis mutandis, um município brasileiro do estado de São Paulo. Situa-se na
Região Metropolitana de Sorocaba, na extensa Mesorregião Macro Metropolitana
Paulista e na Microrregião de Piedade. Localiza-se a uma latitude 23º39`23” Sul
e a uma longitude 47º13`21” Oeste, estando a uma altitude de 996 metros. Sua
população foi estimada em 80 062 habitantes, conforme dados do Instituto
Brasileiro de Geografia Estatística. O município é formado pela sede e
pelos distritos de Carmo Messias e Paruru. Ibiúna possui a segunda maior
população rural do estado de São Paulo, menor apenas que a capital do estado.
Por estar localizada geograficamente entre as grandes bacias hidrográficas do
Tietê e Paranapanema, a região que abarca o atual município de Ibiúna
provavelmente já reunia ótimas condições para o estabelecimento de grupos
humanos há milênios atrás. De acordo com algumas pesquisas arqueológicas, os
primeiros indícios da presença de grupos ameríndios no estado de São Paulo
datam de fins do Pleistoceno, sendo que a área onde hoje está a capital e
região metropolitana contam com datações radiocarbônicas de cerca de
6.000 anos atrás. Estes primeiros grupos humanos produziam tecnologicamente
diversas ferramentas feitas em pedra, madeira e ossos, utilizando assim
diversos tipos de matéria-prima para confecção desses instrumentos de
subsistência. Sua alimentação era baseada na caça de animais e coleta de frutos
e raízes, lhes sendo desconhecida a agricultura nesse primeiro momento.
As primeiras populações
indígenas agricultoras só teriam alcançado a região de Ibiúna e outras próximas
dos grandes rios paulistas por volta do início da Era Comum. Ancestrais dos
atuais grupos Tupi-Guarani e Macro-Jê, essas populações cultivavam mandioca,
feijão e milho, assim como diversas várias espécies não alimentícias, como
cabaças, tabaco, algodão e urucu. Também produziam cerâmica, tecnologia
provavelmente desconhecida pelos primeiros grupos que haviam se estabelecido
nas margens de rios como o Una e o Sorocamirim e arredores. Séculos depois, os
primeiros colonizadores europeus se depararam com diversos grupos Guaianás,
também reconhecidos como Guaianazes nas cabeceiras do rio Sorocaba e boa parte
do Planalto Paulista. Falante de um idioma relacionado ao tronco Macro-Jê, o
contato entre este povo e os portugueses se deu já nas primeiras décadas de
colonização da América, geralmente mencionados nas documentações dos séculos
XVI e XVII como “índios bravos”. Por resistirem ao avanço português sobre suas terras,
diversos conflitos ocorreram, sendo muitas vezes escravizados, mortos ou
eventualmente expulsos para o interior do continente. O nome Guaianá não
corresponde à identidade própria desses povos, já que esse termo era
normalmente utilizado para designar diversas gentes não-tupis. A presença de
grupos Tupi na região das nascentes do rio Sorocaba também parece ser
confirmada pelos registros arqueológicos, inclusive durante o período colonial.
Os Acordos MEC-USAID
foram implementados no Brasil com a lei 5.540/68. Foram negociados secretamente
e só se tornaram públicos em novembro de 1966 após intensa pressão política e
popular. Foram estabelecidos entre o Ministério da Educação (MEC) do Brasil e a
Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na
sigla em inglês) para reformar o ensino brasileiro de acordo com padrões
impostos pelos Estados Unidos da América. A USAID surgiu em 1961, com a
assinatura do Decreto de Assistência Externa do Presidente John F. Kennedy,
unificando diversos instrumentos assistenciais dos Estados Unidos. Diretamente
ou através de agências subsidiárias, a USAID atua como um reforço à política
externa norte-americana, cooperando nas áreas de economia, agricultura, saúde,
política e assistência humanitária. A agência tem sido objeto de críticas e
acusada de trabalhar em colaboração com a CIA por conta de suas atividades de
inteligência na desestabilização de governos não alinhados com as políticas dos
Estados Unidos da América (USA). Apesar da ampla discussão ocorrida
anteriormente sobre a educação, iniciada ainda em 1961, essas reformas foram
implantadas pelos militares que tomaram o poder após o Golpe Militar de 1° de
abril de1964. A reforma mais visível ocorreu na renomeação dos cursos.
A tradição de 1º de
abril remonta à instituição do Calendário Gregoriano, que substituiu o
Calendário Juliano por determinação do Concílio de Trento, o conselho ecumênico
da Igreja Católica. O Calendário Gregoriano divide o ano em quatro estações
distribuídas ao longo de 12 meses, ou 365 dias, de acordo com o movimento da
Terra em relação ao Sol e estabelece o primeiro dia do ano em 1º de janeiro.
Com a instituição do novo calendário pelo papa Gregório XIII, em 1582,
historiadores contam que parte da população francesa se revoltou contra a
medida e se recusou a adotar o 1º de janeiro como início do ano. Zombados pelo
resto considerado da população, os resistentes às mudanças sociais e política
eram convidados para festas e comemorações inexistentes no dia 1º de abril.
Nascia assim a tradição de zombaria e de pregação de peças. Há
também relatos históricos que relacionam a data ao festival de Hilária - uma
festa romana no período anterior ao nascimento de Cristo - que celebrava o
equinócio de março em honra à deusa Cibele, a “Mãe dos Deuses”, uma divindade
que reunia aspectos das deusas gregas Gaia, Reia e Deméter. No Brasil, a
tradição foi introduzida em 1828, com o noticiário impresso mineiro “A
Mentira”, que trazia em sua edição a morte do colonizador português Dom Pedro I
imperador brasileiro de 1822 a 1831 na capa e foi em 1º de abril.
Mas não são apenas as
pessoas que contam mentiras no 1º de abril. Empresas entenderam o potencial de marketing
e a oportunidade de engajamento das “pegadinhas” para aumentar a visibilidade
no mercado e passaram, desde o século passado, a participar da celebração.
Entre os mais conhecidos exemplos está a emissora pública britânica BBC, que
tradicionalmente prega peças no público desde a década de 1930. Em uma das
memoráveis brincadeiras, a BBC afirmou que o governo do Reino Unido trocaria o
mecanismo de ponteiros do Big Ben - o relógio mais famoso do mundo e símbolo
nacional - por um mostrador digital. A mentira, veiculada em 1980, ainda
prometeu que a primeira pessoa a ligar para a rádio ganharia os antigos
ponteiros do grande relógio como lembrança. A ação gerou milhares de ligações e
cartas e acabou causando problemas à emissora, que teve que explicar a manobra durante
a programação nas semanas seguintes. Nos Estados Unidos, em 1992, a National
Public Radio (NPR), também uma emissora pública de comunicação, veiculou
entrevista do comediante Rich Little em que ele se passava pelo ex-presidente
Richard Nixon. No quadro, chamado “Conversa da Nação”, o personagem afirmava
categoricamente que se candidataria novamente à Presidência naquele ano. O
problema é que Nixon, figura política controversa, havia renunciado durante
processo de impeachment em 1974 pelo envolvimento no escândalo de Watergate, o
que no âmbito da comunicação social gerou revolta nos ouvintes.
A emissora ficou com
todas as linhas telefônicas congestionadas até que, em determinado momento, foi
anunciada a pegadinha do Dia dos Tolos. A Amazon, a maior loja online do mundo,
também celebra o Dia da Mentira com brincadeiras que, muitas vezes, confundem
os usuários. Em 2015, a Amazon reverteu sua página principal para a versão de
1999 - época em que a internet ainda era rudimentar. Até descobrirem a
brincadeira, os usuários deveriam passar pela experiência de “túnel do tempo”
na navegação do site. Apesar da
permissão lúdica no dia 1º de abril, a mentira pode se tornar hábito e
degradar relações sociais. Em tempos de ampla difusão de conteúdos na internet,
uma mentira pode ser considerada até mesmo fake News - notícias falsas ou com
dados manipulados deliberadamente para enganar ou enviesar as conclusões do
leitor - e ser punida legalmente. Para o psiquiatra Ilton Castro, existem
diferentes níveis de mentira: há aquelas que suavizam realidades e as que são
usadas para usufruir benefícios em detrimento de outras pessoas. Há também a
condição psicológica conhecida como mitomania, definida pelo uso compulsivo de
mentiras. - “No jogo social, é normal mentir ou omitir alguma coisa, mas
existem casos considerados sérios. A mentira aparece como um hábito. O
mitomaníaco mente e acredita no que diz. A fantasia vira realidade e
ganha enredos intermináveis. A mentira cresce”. O uso exacerbado de mentiras
pode indicar transtorno de personalidade e fragilidades psicológicas que
necessitam ser trabalhadas.
O antigo curso primário
(5 anos) e ginasial (4 anos) foram fundidos e renomeados como primeiro grau,
com oito anos de duração. o antigo curso científico foi fundido com o clássico
e passou a ser denominado segundo grau, com três anos de duração. O curso universitário
passou a ser denominado terceiro grau. Essa reforma eliminou um ano de estudos,
fazendo com que o Brasil tivesse apenas 11 níveis até chegar ao fim do segundo
grau enquanto países europeus e o Canadá possuem um mínimo de 12 níveis.
Documentos obtidos pelo WikiLeaks mostram que nas ações da USAID na Venezuela,
entre os anos de 2004 e 2006, houve intenções de desestabilizar o governo do
país. A USAID fez uma doação de 15 milhões de dólares a várias organizações
civis, com o intuito de impulsionar a estratégia do ex-embaixador de Washington
na Venezuela, William Brownfield, baseada em provocar uma fratura interna no
chavismo, e em organizar os setores descontentes com as reformas realizadas
pelo Partido Socialista Unido da Venezuela. Em 3 de abril de 2014, a imprensa
revelou que de 2009, a USAID organizou e participou ativamente em uma operação
secreta americana para derrubar o governo de Cuba, com a criação de uma rede de
comunicação, similar ao twitter visando provocar uma “Primavera Cubana”.
O programa foi financiado
pelo governo dos Estados Unidos da América e criou uma rede supostamente
independente, mas na verdade falsa, com o objetivo de criar “uma comoção e
incitar uma revolta popular levando a queda do governo cubano”. O programa,
chamado de ZunZuneo, armazena dados estritamente pessoais dos assinantes
cubanos e informações demográficas, com seu gênero, idade, receptividade e
tendências políticas. O nome ZunZuneo se relacionada ao nome do pássaro
colibri em Cuba - o zunzún. O projeto foi iniciado em 2009, depois da
prisão do americano Alan Gross, que executava missão clandestina da United
States Agency for International Development em Cuba e foi condenado à prisão quando foi descoberto.
Os usuários não sabiam que o projeto foi criado por uma agência dos Estados Unidos
da América ligada ao Departamento de Estado, nem que os americanos coletaram
informações pessoais sobre eles para que esses dados fossem usados para fins
políticos. Os organizadores do ZunZuneo criaram o que parecia ser um negócio
legítimo. Fizeram um portal de internet, e uma campanha, de maneira que os
usuários pudessem se inscrever e enviar suas próprias mensagens de texto a
grupos de sua escolha. Seus contratantes omitiram que o projeto tinha ligações
diretas com Washington D. C.
Para tal, criaram uma
rede de empresas de fachada com sede em Espanha e contas bancárias nas Ilhas
Cayman, na tentativa de esconder as transações financeiras e recrutaram
executivos de empresas privadas para fazer parte da fachada do projeto, de
forma que não ficasse claro que o projeto foi financiado com o dinheiro dos
contribuintes norte-americanos e estava sendo executado pela USAID. – “Não será
mencionada a participação do governo dos Estados Unidos”, disse um relatório da
empresa Mobile Acord, uma das empresas que colaborou com o programa como
contratadas. - “É absolutamente crucial para o êxito a longo prazo do serviço e
para garantir o cumprimento da missão”. A revelação do programa veio confirmar
afirmações anteriores de Raúl Castro que em janeiro de 2014, havia afirmado que
havia tentativas contra de introduzir o capitalismo neocolonial em Cuba. As
atividades em Cuba se assemelham as atividades reveladas em 2013 pelo jornal
Der Spiegel, com base em documentos revelados por Edward Snowden, um analista
de sistemas, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da National
Security Agency (NSA) que tornou públicos detalhes de programas do sistema de
vigilância global da NSA americana, referentes as Campanhas EFFECTS (Operações
confidenciais), do GCHQ britânico.
O sítio Muduru,
localizado no bairro dos Alves, na cidade de Ibiúna, na Serra de São Sebastião
a 70 km da capital de São Paulo, tornou-se destaque nas páginas dos jornais
publicados em outubro de 1968, dentro e fora do Brasil, por ter sido escolhido
para abrigar em torno de 700 estudantes no 30º Congresso da União Nacional
dos Estudantes (UNE). É uma organização estudantil representante de alunos
do Ensino Superior do país, tendo sede em São Paulo, além das regionais no Rio
de Janeiro e Goiás. Fundada em 11 de agosto de 1937, a instituição desempenha
um papel singular na política desde o início do século XX, especialmente
aqueles ligados à esquerda política. Essa propriedade, que pertencia a Domingos
Simões, também chegou a ser utilizada para abrigo de militantes e
disponibilizada ao congresso, após uma reunião com Therezinha Zerbini fundadora
do Movimento Feminino pela Anistia e Frei Tito de Alencar, frade
dominicano e estudante de Filosofia na Universidade de São Paulo. A luta
estudantil contra os governos autoritários, com o golpe de Estado de 1° de
abril de 1964 contra o governo popular democrático de João Goulart (1919-1976),
teve início nos primeiros momentos de ação política do golpe civil-militar.
As atividades
ideológicas e sociais da “elite orgânica”, na expressão de Dreifuss (1981: 231
e ss.), consistiam em doutrinação geral e doutrinação específica, ambas
coordenadas com atividades político-ideológicas mais amplas no Congresso,
sindicatos, movimento estudantil e clero. A doutrinação geral visava a
apresentar as abordagens da elite aos responsáveis por tomadas de decisão
políticas e ao público em geral, assim como causar um impacto ideológico em
públicos selecionados e no aparelho do Estado. A doutrinação geral através da
mídia era realizada pela ação encoberta e ostensiva, de forma defensiva e
defensiva-ofensiva, onde conflitos e tensões subsistem de forma necessária.
Nessas situações, não há alternativas senão na confiança recíproca.
Constituía-se basicamente numa medida neutralizadora. Visava infundir ou
fortalecer atitudes e pontos de vista tradicionais na esfera de ação política
de direita e estimular percepções negativas do bloco popular
nacional-reformista. No ordenamento jurídico brasileiro, a abordagem pessoal
por qualquer agente de segurança só é permitida quando há razões, concretas e
objetivas, para a suspeita de que o indivíduo esteja portando bem ilícito ou
praticando algum desvio ou delito.
Ela atacava o
comunismo, o socialismo, a oligarquia rural e a falsa ideia de “corrupção” do
populismo. No aspecto positivo, argumentava que a prosperidade do país e a
melhoria dos padrões de vida do povo se deviam à iniciativa privada e não se
deviam, certamente, a métodos socialistas ou à inversão do Estado na economia.
Sua abordagem negativa podia ser vista na sua utilização de uso socialmente de
uma mesclagem de técnicas sofisticadas e uma grosseira propaganda
anticomunista, constituindo uma pressão ideológica, que explorava
representativamente o chamado “encurralamento pelo pânico organizado”. O
objetivo geral da doutrinação específica era modelar as várias frações das
classes dominantes e diferentes grupos sociais das classes médias em um momento
de opinião com objetivos em curto prazo amplamente compartilhados, qual seja, a
destruição de João Goulart da presidência e a contenção da mobilização
popular, às demandas históricas das
esquerdas e, ipso facto pregadas por ele mesmo: as reformas de base. A elite
institucionalmente publicava, diretamente ou através das editoras, uma série de
trabalhos, incluindo livros, panfletos, periódicos, jornais, revistas e
folhetos. Saturava o rádio e a televisão com mensagens ideológicas.
Frei Tito de Alencar Lima nasceu em Fortaleza, em 14 de setembro de 1945 e morreu enforcado em Éveux, em 10 de agosto de 1974. Foi um frade católico alvo de perseguição da ditadura militar após ser fichado pela polícia devido a sua participação no Congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), no ano de 1968. Nasceu em Fortaleza e estudou no Liceu do Ceará. Sua militância se iniciou na União Cearense de Estudantes Secundaristas e, em 1963, mudou-se para Recife, após ser escolhido como dirigente regional da região nordeste da Juventude Estudantil Católica (JEC). Em 1966, ingressou no noviciado dos dominicanos em Belo Horizonte, e fez a profissão dos votos no ano seguinte. Em 1968 mudou-se para São Paulo para estudar filosofia na Universidade de São Paulo e no mesmo ano, no dia 12 de outubro, foi preso por participar do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna após ser fichado pela polícia e se tornar alvo de perseguição da ditadura militar. Foi preso pela segunda vez dia 4 de novembro de 1968 junto com outros companheiros da ordem dos dominicanos de Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social.
Nessa ocasião foi
acusado junto aos outros presos, de manter contatos com a Ação Libertadora
Nacional (ALN) e seu dirigente, Carlos Marighella, um dos principais
organizadores da luta armada contra a ditadura. Frei Tito foi submetido à
palmatória e choques elétricos. Posteriormente foi transferido para o Presídio
Tiradentes, onde permaneceu até 17 de fevereiro de 1970 e, em seguida, nas mãos
da Justiça Militar, foi levado para a sede da Operação Bandeirantes (Oban). Na
prisão, Frei Tito escreveu sobre a tortura com a qual conviveu, quando este
documento se transformou em um símbolo da luta pelos direitos humanos. Em
dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo
embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), um grupo de luta armada brasileira de extrema-esquerda
que lutou contra a ditadura militar brasileira, visando à instauração de um
governo de cunho socialista no país. Frei Tito foi banido do Brasil pelo
governo militar de Emílio Garrastazu Médici seguindo para o Chile. Sob a ameaça
de novamente ser preso, fugiu para a Itália. De Roma, foi para Paris, onde
recebeu apoio afetivo dos dominicanos. Traumatizado pela tortura, Frei Tito
submeteu-se a um tratamento psiquiátrico e, no dia 10 de agosto de 1974,
cometeu suicídio.
No dia 1º de abril de
1964 a sede da União Nacional dos Estudantes foi invadida e incendiada por
militares comandados pelo presidente cearense marechal Humberto Castelo Branco.
A Lei Suplicy de Lacerda, decretada em novembro de 1964, colocou a UNE na
clandestinidade. O novo regime político organizado em abril de 1964 tinha no
movimento estudantil um forte elemento de antagonismo, razão por que o governo
procurou substituir as entidades estudantis existentes, regidas pelo Decreto
Café Filho, de 1955, por outras, controladas direta ou indiretamente pelo
Ministério da Educação. O instrumento criado pelo Estado de Exceção dessa
tentativa de controle foi baseado na Lei nº 4.464, de 9 de novembro de 1964,
reconhecida como Lei Suplicy, devido ao nome do ministro da Educação que a
patrocinou, Flávio Suplicy de Lacerda. Os acontecimentos posteriores a 1968,
quando o regime assumiu sua feição ditatorial por meio do AI-5, fizeram com que
se desse pouca importância à natureza da violência surgida a partir de 1964 e
ao modo como ela foi enfrentada pelo governo Castello Branco. Ali estava a
gênese da tortura e, frequentemente coberta por uma definição imprecisa do
conceito nas legislações de organizações militares, sobretudo, de uma política
que arruinaria as instituições políticas e militares do país.
Art. 1º: - Os órgãos de
representação dos estudantes de ensino superior, que se regerão por esta Lei,
têm por finalidade: a) defender os interesses dos estudantes; b) promover a
aproximação e a solidariedade entre os corpos discente, docente e administrativo
de ensino superior; c) preservar as tradições estudantis, a probidade da vida
escolar, o patrimônio moral e material das instituições de ensino superior e a
harmonia entre os diversos organismos da estrutura escolar; d) organizar
reuniões e certames de caráter cívico, social, cultural, científico, técnico,
artístico, e desportivo, visando o aprimoramento da formação universitária.
Art. 2º - São órgãos de representação dos estudantes de ensino superior: a) o
Diretório Acadêmico (D.A.), em cada estabelecimento de ensino superior; b) o
Diretório Central de Estudantes (D.C.E.), em cada Universidade; c) o Diretório
Estadual de Estudantes (D.E.E.), em cada capital de Estado, Território ou
Distrito Federal, onde houver mais de um estabelecimento de ensino superior; d)
o Diretório Nacional de Estudantes (D.N.E.), com sede na Capital Federal. E,
principalmente: Art. 14. É vedada aos órgãos de representação estudantil
qualquer ação, manifestação ou propaganda de carácter político-partidário, bem
como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares.
Flávio Suplicy de
Lacerda foi ministro da Educação no governo Castelo Branco (cf. Figueiredo,
1980), de 15 de abril de 1964 a 8 de março de 1965, e de 22 de abril de 1965 a
10 de janeiro de 1966. Durante sua gestão no Ministério de Educação e Cultura,
estabeleceu um acordo de cooperação com a United States Agency for
International Development, que visava transformar o ensino brasileiro num
projeto tecnocrático. Essa estratégia político-ideológica foi reconhecida como
um Acordo institucionalizado. Com ele as universidades seriam as maiores
afetadas. Redutos de manifestações estudantis nos mais diversos matizes da
esquerda brasileira, as universidades eram vistas “pelo comando da ditadura
militar como focos de subversão ao regime”. O acordo serviria para transformar
o jovem ensino superior brasileiro não mais numa formação crítica do cidadão na
sociedade, mas tão somente em cursos de formação meramente profissional e
técnica. Nessa mesma conjuntura golpista, surgiram os primeiros rumores de
privatização das universidades federais e estaduais, que, tal qual todo o
projeto previsto no acordo norte-americano, revoltou os estudantes. Com a crise
de hegemonia civil-militar, o movimento estudantil brasileiro entrou na sua
fase mais aguerrida, com uma série de revoltas realizadas entre 1966 e 1968,
ano de seu auge nas organizações. Vários desses conflitos tiveram vítimas
fatais entre os estudantes.
A lei determinava que
os diretórios acadêmicos (DA) continuariam tendo existência obrigatória nos
estabelecimentos de ensino público superior. Os estudantes das universidades
teriam seu Diretório Central de Estudantes (DCE) composto de representantes dos
diretórios. Estes se reuniriam, também, para organizar os Diretórios Estaduais
de Estudantes (DEE), os quais, por sua vez, comporiam, por meio de
representantes, o Diretório Nacional de Estudantes (DNE). A lei “assegurava” a
participação de representantes discentes junto aos órgãos de deliberação
coletiva e aos departamentos das instituições de ensino superior, designados
pelos estudantes. Atendia, também, antiga reivindicação do movimento
estudantil, tornando obrigatório o voto para a eleição das diretorias. Em
compensação, vedava aos órgãos de representação estudantil “qualquer ação,
manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, bem como incitar,
promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”, cujo objetivo,
ainda que indireto, seja a promoção de uma pessoa, um partido político ou uma
ideologia partidária.
Mas em contrapartida a lei procurava limitar e
desacelerar a participação social das diretorias das entidades estudantis,
tornando inelegíveis “os estudantes repetentes, dependentes ou matriculados em
regime parcelado, proibindo o abono de faltas pela participação nos
diretórios”. Ao contrário do que acontecia com as entidades estudantis gerindo
seu processo eleitoral, a lei determinava que as eleições para os diretórios
devessem “ser acompanhadas por um professor designado pela direção da escola ou
da universidade”. A fiscalização do cumprimento da lei deveria ser feita pelas
Congregações ou Conselhos Departamentais, para os diretórios; pelos Conselhos
Universitários (CU), no caso do Diretório Central do Estudantes (DCE), e pelo
Conselho Federal de Educação (CFE), instituído pela lei nº 4024/61 reconhecida
como Lei de Diretrizes e Bases de/1961, no caso respectivo do DEE e DNE. As
universidades e as entidades estudantis deveriam adaptar seus Estatutos à lei
em 60 dias. Sobre a determinação militar, a lei estipulava que os diretores de
faculdade ou reitores de universidades incorreriam em “falta grave” se
permitissem ou tolerassem o não cumprimento das normas por ação ou por omissão.
Diante da Lei Suplicy,
os estudantes precarizaram as atividades políticas e se dividiram. Uma corrente
era favorável à participação nos “Diretórios oficiais” mantendo-se ou não
entidades “livres” paralelas. Outros defendiam o boicote aos “Diretórios oficiais”,
anulando seus votos nas eleições obrigatórias. Esta última posição prevaleceu,
fazendo com que após a contenção política iniciada pela promulgação do Ato
Institucional nº 5, o Decreto Aragão, sucessor da Lei Suplicy, fosse aplicado
com mais intensidade. Edson Luís de Lima Souto nascido em Belém, em 24 de
fevereiro de 1950 e assassinado por policiais militares no Rio de Janeiro, em
28 de março de 1968. foi um estudante
secundarista morto, durante confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio
de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas
mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5.
Nascido em uma família pobre, iniciou os estudos na Escola Estadual Augusto
Meira em Belém, no Pará. Mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o segundo
grau no Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante
Calabouço.
Em 28 de março de 1968,
os estudantes do Rio de Janeiro estavam organizando uma passeata-relâmpago para
protestar contra a alta do preço da comida no restaurante Calabouço, que
deveria acontecer no final da tarde do mesmo dia. Por volta das 18 horas, a Polícia Militar
chegou ao local e dispersou os estudantes que estavam na frente do complexo. Os
estudantes se abrigaram dentro do restaurante e responderam à violência
policial utilizando paus e pedras. Isso fez com que os policiais recuassem e a
rua ficasse deserta. Quando os policiais voltaram, tiros começaram a ser
disparado do edifício da Legião Brasileira de Assistência (LBA), o que provocou
pânico entre os estudantes, que fugiram. Os policiais acreditavam – não se sabe
por qual razão, que os estudantes iriam atacar a Embaixada dos Estados Unidos e
invadiram o restaurante. Durante a invasão, o comandante da tropa da PM,
aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou o secundarista Edson Luís “com um tiro
a queima roupa no peito”. Outro estudante, Benedito Frazão Dutra, também
baleado, chegou a ser levado ao hospital, mas morreu. Temendo que a PM sumisse
com o corpo, os estudantes não permitiram que ele fosse levado para o Instituto
Médico Legal (IML), mas o carregaram em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa
do Rio de Janeiro, onde foi velado. A necropsia foi feita no próprio local
pelos médicos Nilo Ramos de Assis e Ivan Nogueira Bastos na presença do
Secretário de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. Óbito n° 16.982 teve como
declarante o estudante Mário Peixoto de Souza.
O registro de
ocorrência n° 917 da 3ª Delegacia de Polícia informou que, no tiroteio ocorrido
no restaurante Calabouço, outras seis pessoas ficaram feridas: Telmo Matos
Henriques, Benedito Frazão Dutra (que morreu logo depois), Antônio Inácio de
Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias
Pinto. Todos foram atendidos no Hospital Souza Aguiar. No período que se
estendeu do velório até a missa da Igreja da Candelária, realizada em 2 de
abril foram mobilizados protestos em todo o país. Em São Paulo, quatro mil
estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo (USP). Também foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI
de Agosto, da Faculdade São Francisco, na Escola Politécnica da Universidade de
Sao Paulo e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O Rio de Janeiro parou no dia do enterro.
Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando
três filmes: A noite dos Generais, À queima roupa e Coração de Luto. Centenas
de cartazes foram colados nas paredes e postes da Cinelândia com frases como:
“Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um
estudante. E se fosse seu filho?”. Edson Luis foi enterrado ao som do Hino Nacional,
cantado pela multidão em vigília.
Diante do quadro de
terror/horror no início de 1970, poucos eram os estabelecimentos de ensino
superior onde existiam diretórios acadêmicos “oficiais” ou “livres”. Foi só a
partir de 1973, que os estudantes começaram a organizar entidades livres que
vingaram, instituindo o voto direto para o DCE, e fazendo as entidades
“oficiais” saírem dos limites da Lei Suplicy. A lei determinava que os
diretórios acadêmicos continuariam tendo existência obrigatória nos
estabelecimentos de ensino superior. Os estudantes das universidades teriam seu
Diretório Central de Estudantes composto de representantes dos diretórios
acadêmicos. Estes se reuniriam, também, para organizar os diretórios estaduais
de estudantes que comporiam, por representantes, o Diretório Nacional de
Estudantes. Durante a ditadura militar, o movimento estudantil ocupou um espaço
destacado na estratégia política ao regime. Manifestações coordenadas pela UNE
denunciaram os problemas da educação e expuseram os tempos sombrios do regime.
Todos os eventos políticos da entidade eram organizados e realizados em
clandestinidade.
A primeira ação da ditadura militar
brasileira ao tomar o poder em 1964 e depor o presidente João Goulart
(1961-1964) foi metralhar, invadir e incendiar a sede da UNE, na Praia do
Flamengo 132, na fatídica noite de 30 de março para 1º de abril. Ficava clara a
dimensão do incômodo que os militares golpistas e os grupos elitistas
conservadores sentiam em relação à entidade. A ditadura perseguiu, prendeu,
torturou e executou centenas de brasileiros, muitos deles estudantes. O regime
militar retirou legalmente a representatividade da UNE por meio da Lei Suplicy
de Lacerda e a entidade passou a atuar na ilegalidade. As universidades eram
vigiadas, intelectuais e artistas reprimidos, o Brasil escurecia. Em 1966, um
protesto em Belo Horizonte na Faculdade de Direito é brutalmente reprimido. No
mesmo ano, também na capital mineira, a UNE realiza um congresso clandestino
porão de uma igreja. Já no Rio de Janeiro, na Faculdade de Medicina da UFRJ, a
ditadura reprimi com violência os estudantes no episódio conhecido como
Massacre da Praia Vermelha. A UNE continuou a existir nas sombras da ditadura,
em firme oposição ao regime, como aconteceu no ano de 1968, marcado por
revoluções culturais e sociais em quase todo o mundo ocidental.
Decorre daí que estudantes e artistas
engrossaram a Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, pedindo democracia,
liberdade e justiça. No entanto, os militares endureciam a repressão em
episódios como o assassinato do estudante secundarista Édson Luis e a invasão
do Congresso da UNE em Ibiúna (SP), com a prisão de cerca de mil estudantes. No
fim do mesmo ano, a proclamação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) indicava uma
violência ainda maior. Nos anos seguintes, a ditadura torturou e assassinou
estudantes como a militante Helenira Rezende e o presidente da UNE, Honestino
Guimarães, perseguido e executado durante o período de clandestinidade da
entidade. Mesmo assim, o movimento estudantil continuou nas ruas, como nos atos
e missa de 7º dia da morte do estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, em
1973. Ao final dos anos 1970, com os primeiros sinais de enfraquecimento do
regime militar, a UNE começou a se reestruturar. O Congresso de reconstrução da
entidade aconteceu Salvador, em 1979, reivindicando mais recursos para a
universidade, defesa do ensino público e gratuito, assim como pedindo a
libertação de estudantes presos do Brasil. No início dos anos 1980, os
estudantes tentaram também recuperar sua sede na Praia do Flamengo, mas foram
duramente reprimidos e os militares demoliram o prédio.
Na manhã de 4 de abril
foi realizada um missa na Igreja da Candelária em memória de Edson. Após o
término da missa, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas
pela cavalaria da Polícia militar com golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram
feridas. Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar
proibiu a realização dessa missa, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D.
Castro Pinto, insistiu em realizá-la. A missa foi celebrada com cerca de 600
pessoas. Temendo que o mesmo massacre da
manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de
fora havia três fileiras de soldados a cavalo com os sabres desembainhados, mas
atrás estava o Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do DOPS. Num ato de
coragem, os clérigos saíram na frente de mãos dadas, fazendo um “corredor” da
porta da igreja até a Avenida Rio Branco para que todos os que estavam na
igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria militar em
represália aguardou que todos saíssem e os encurralaram nas ruas apertadas da
Candelária. O saldo negativo foi de dezenas de pessoas feridas. Percebe-se a
impossibilidade de se ver o menino que vivia na rua, como uma criança ou a
adolescente. Ele era visto como “menor”. Foram mortas crianças, adolescentes e
jovens que viviam à margem de tudo que a sociedade imaginava constituir a
infância. Eram nomeadas “de rua”. Como se o traço humano, o nascimento, fosse
subtraído. Não tinham nomes, família, humanidade. Nasciam e morriam nas ruas.
A maior parte dos
membros participantes do 30º Congresso estava dormindo quando a polícia chegou
ao sítio Muduru, na pequena cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo. Por
volta das 7h30 daquele sábado, dia 12 de outubro de 1968, agentes do
Departamento de Ordem Política e Social invadiram à propriedade acompanhados
por homens armados da Força Pública, como eram denominadas as tropas estaduais.
Após anunciar o cerco com disparos de metralhadora, os policiais prenderam 739
estudantes que estavam hospedados no sítio para os debates do encontro. Os estudantes tornaram-se alvo do Aparato
Repressivo de Estado (ARE). Muitos foram monitorados, fichados, presos,
torturados e mortos. O histórico da repressão militar em Sorocaba e região
destaca o episódio icônico daquela conjuntura, a prisão de quase mil estudantes
em outubro de 1968, num sítio em Ibiúna, durante o 30º Congresso Nacional da
União Nacional dos Estudantes (UNE), dissolvido por ação conjunta de 215
policiais da Força Pública e do temido DOPS, comandado pelo coronel da PM de
Sorocaba, Divo Barsotti do 7º Batalhão Policial. O 30º Congresso da UNE foi finalizado com a
invasão do sítio pela polícia às 07 horas e 15 minutos da manhã de 12 de
outubro de 1968. - “Todos foram presos”, foi a frase utilizada pela imprensa
para destacar o resultado da operação policial, que prendeu quase todos os
estudantes participantes.
A comissão criada pelo governo para definir o
valor de indenização a ser paga a União Nacional dos Estudantes (UNE), pela
perda de sua sede durante a ditadura, em 1964, estipulou em R$ 44,6 milhões a
reparação. Esta é a primeira reparação coletiva do Estado brasileiro quando
foram depositados R$ 30 milhões desse montante na conta da entidade. A segunda
parcela restante, de R$ 14,6 milhões, foi também paga em 2011. O governo
reconheceu a responsabilidade do Estado pelo incêndio que destruiu a sede da
UNE. A comissão trabalhou durante 60 dias e apresentou seu Parecer aos
ministros da Justiça, Luiz Paulo Barreto, e ao ministro da Secretaria Geral da
Presidência, Luiz Dulci. Os dois acataram o Parecer da comissão. A lei
sancionada por Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT)
previa indenização de até R$ 97,2 milhões, montante que representa seis vezes o
valor do terreno, mas avaliado por baixo do valor de mercado pela Caixa
Econômica Federal em torno de R$ 16,2 milhões. O valor fixado pela comissão
representa pouco menos da metade do limite da lei. A indenização foi paga pela
Comissão de Anistia. O presidente Lula participou de um ato simbólico de
inauguração da pedra fundamental da reconstrução do prédio, na Praia do
Flamengo. O projeto da arquitetura do prédio foi uma doação de Oscar Niemeyer
(1907-2012).
A canção Menino,
composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no álbum Geraes
(1976), e também por Elis Regina nas apresentações e no disco Saudade do Brasil
(1980), refere-se a Edson Luís. A canção “Coração de Estudante”, composta por
Wagner Tiso inicialmente sob o nome de “Tema de Jango” para um documentário
sobre João Goulart, ganhou letra de Milton Nascimento lembrando a tragédia de
Edson Luís e a canção foi rebatizada como “Coração de Estudante”. A canção foi
gravada no álbum “ao vivo” em 1983. Em 28 de março de 2008, para lembrar os
quarenta anos de sua morte, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao
estudante Edson Luís na Praça Ana Amélia, entre a Avenida Churchill e a Rua
Santa Luzia, no Rio de Janeiro. O trevo viário que liga o Aterro do Flamengo às
avenidas General Justo e Presidente Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos
Dumont, passou a ser reconhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto.
A trágica cena do seu violento assassinato foi representada na novela do
Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Amor e Revolução, no dia 28 de setembro
de 2011. Foi escrita por Tiago Santiago, com colaboração de Renata Dias Gomes,
Miguel Paiva e Elliana Garcia, e dirigida por Reynaldo Boury, Luiz Antônio Piá
e Marcus Coqueiro e produção-executiva de Sérgio Madureira. A ditadura militar é o tema da trama, as
consequências do golpe militar no país entre os anos 1960 até o final dos anos
1980, envolvendo a moda, a música, a expansão da televisão na vida. Foram investidos
25 milhões de reais na produção da novela, entre cenários, a compra de novos
equipamentos e gravações em externas.
Bibliografia
Geral Consultada.
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