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domingo, 5 de abril de 2026

Guerras Espirituais – Disciplinas Científicas & Estudantes Universitários.

                                                                 A vida vem em ondas como um mar num indo e vindo infinito”. Lulu Santos                                     

          

           William Gurnall (1616-1679) foi um escritor inglês e clérigo anglicano nascido em King`s Lynn, Norfolk, onde foi batizado em 17 de novembro de 1616. Reconhecida até 1537 como Bishop`s Lynn e coloquialmente como Lynn, é uma cidade portuária e mercantil no distrito de King`s Lynn e West Norfolk, no condado de Norfolk, Inglaterra. Fica a 58 km a Nordeste de Peterborough, 71 km a Nordeste de Cambridge, 71 km a Oeste de Norwich e cerca de 8 km para o interior do estuário de The Wash. A etimologia de King`s Lynn é incerta. O nome Lynn pode significar um corpo de água perto da cidade – a palavra galesa llyn significa lago; mas o nome é plausivelmente de origem anglo-saxônica, de lean, que significa posse em regime de propriedade plena ou fazenda. O Domesday Book de 1086 registra-o como Lun e Lenn, e o atribui ao Bispo de Elmham e ao Arcebispo de Canterbury. O Domesday Book menciona salinas em Lena (Lynn); uma área de tanques divididos pode ter existido ali na época. A presença de sal, que era relativamente raro e caro no início do período medieval, pode ter aumentado o interesse de Herbert de Losinga e outros normandos proeminentes na modesta paróquia. A cidade foi chamada de Len Episcopi (Bishop`s Lynn) enquanto estava sob a jurisdição temporal e espiritual do Bispo de Norwich.

         Mas no reinado de Henrique VIII de 1509 até sua morte, em 1547, foi entregue à coroa e recebeu o nome de Lenne Regis ou King`s Lynn. No entanto, a cidade é geralmente conhecida localmente como Lynn. Outros lugares no velho continente com Lynn no nome incluem Dublin, Irlanda, com An Dubh Linn significando “a Piscina Negra”. A cidade de Lynn, Massachusetts, ao Norte de Boston, foi nomeada em 1637 em homenagem ao seu primeiro ministro religioso oficial, o Reverendo Samuel Whiting Sr., que chegou lá vindo de Lynn, Norfolk. Lynnhaven, Virgínia, também recebeu o nome de King`s Lynn, tendo sido nomeada pelo Capitão Adam Thoroughgood, que era natural de King’s Lynn. William Gurnall foi educado na escola primária gratuita de sua cidade natal e, em 1631, foi indicado para a bolsa de estudos Lynn no Emmanuel College, em Cambridge, onde se formou em bacharelado em 1635 e em mestrado em 1639. Ele foi nomeado reitor da Igreja de São Pedro e São Paulo, em Lavenham, Suffolk, em 1644; e antes de receber essa nomeação, parece ter oficiado, talvez como cura, em Sudbury. Na Restauração, ele assinou a declaração exigida pelo Ato de Uniformidade de 1662 e, por esse motivo, foi alvo de um ataque difamatório publicado em 1665 intitulado “Renunciantes do Pacto, Apóstatas Desesperados”. 

       Gurnall é reconhecido por sua obra Christian in Complete Armour (O Cristão em Armadura Completa), publicada em três volumes, datados de 1655, 1658 e 1662. Consiste em sermões ou palestras ipsis litteris proferidas pelo autor no decorrer de seu ministério regular, em uma sequência de ensinamentos sobre Efésios 6:10-20. É descrita como um repositório do qual o cristão é provido de “armas espirituais” para a batalha, auxiliado a vestir sua armadura e instruído no uso de sua arma; juntamente com o desfecho feliz de toda a guerra. É, portanto, considerada um clássico sobre guerra espiritual. A obra é mais prática do que abstrata teológica; e seu estilo e seu tom religioso fervoroso continuaram a torná-la popular entre alguns leitores. Richard Baxter e John Flavel tinham o livro em alta consideração.  Augustus Montague Toplady foi um clérigo anglicano inglês e escritor de hinos. Ele foi um grande oponente calvinista de John Wesley. Ele é mais lembrado como o autor do hino Rock of Ages que costumava fazer extensos trechos dele em seu caderno de anotações. John Newton, o ex-traficante de escravos convertido, anteriormente à passagem do trabalho escravo ao trabalho livre da produção capitalista disse que, se fosse obrigado a escolher apenas um livro além da Bíblia, escolheria Christian Armour. Richard Cecil passou muitos dos últimos dias de sua vida lendo-o e expressou repetidamente sua admiração pela obra.                  


Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) comentou que o trabalho de Gurnall é “incomparável e inestimável; cada linha repleta de sabedoria. O livro já foi tema de inúmeros sermões e é, em nossa opinião, o melhor gerador de ideias em toda a nossa biblioteca”. Em 1988, a Banner of Truth Trust, uma editora evangélica e reformada sem fins lucrativos, estruturada como um fundo de caridade e fundada em Londres em 1957 por Iain Murray, Sidney Norton e Jack Cullum, publicou uma versão revisada e abreviada em inglês contemporâneo. A velha tradição anticapitalista da Igreja, lembra-nos Michael Löwy (2014), entra assim em relação de afinidade eletiva com a análise marxista da exploração capitalista e com a crítica dos marxistas latino-americanos, originária da extraordinária Teoria da Dependência, ao capitalismo dependente como fundamento estrutural do “subdesenvolvimento”, da miséria e do autoritarismo militar. A solidariedade com o pobre é o ponto de partida deste processo social de elaboração teológica. A grande diferença, a novidade decisiva, o salto qualitativo em relação à concepção católica tradicional do pobre, é que este já não é considerado como “vítima passiva, objeto de caridade e assistência, mas sim como sujeito de sua própria libertação”.

Graças a esta ruptura - fruto da experiência prática dos cristãos comprometidos no curso das conjunturas históricas dos anos 1960 e 1970, que tem como primícias a problemática de a interpelação da Teologia da Libertação vai convergir com o princípio político fundamental do marxismo: a emancipação dos trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores. Enfim, a opção prioritária pelos pobres, aprovada pela Conferência dos Bispos Latino-Americanos de Puebla (1979) é, na realidade, uma fórmula de compromisso, interpretada num sentido tradicional e assistencialista pelas correntes mais moderadas ou conservadoras da Igreja católica, e num sentido radical pelos teólogos da libertação e as correntes mais avançadas do clero: como um engajamento na organização e na luta dos pobres e despossuídos por sua própria libertação. A luta de classes - não só como método de análise da realidade, mas também como guia para a ação - se torna assim um elemento central (implícito ou explícito) na nova teologia. Como escreveu Gustavo Gutierrez Merino: “negar o fato da luta de classes é, na realidade, tomar partido em favor dos setores dominantes. A neutralidade neste assunto é impossível”. De qualquer forma, para o método marxista, o essencial é o que se passa na realidade.

 Enquanto processo de convergência por afinidade eletiva, esta relação se refere também a certos valores (comunitários), a certas opções (a solidariedade com os pobres), a utopias do futuro (uma sociedade sem ético-políticas exploração nem opressão). E na medida em que a teologia da libertação é a expressão de uma práxis social, de um movimento social e de uma experiência ativa, seu encontro com o marxismo se dá no terreno do compromisso prático com as lutas populares de libertação. À medida que aumentava o afastamento de seus pares acadêmicos norte-americanos, Mills buscava escrever mais e mais para o grande público. Além de artigos em revistas como: New Leader, Politics, New York Times Magazine e Dissent, inovou no âmbito da comunicação literária quando escreveu “livros-panfletos” que lhe deram grande exposição na mídia norte-americana - algo comparável apenas, talvez, à que teria a antropóloga Margaret Mead (1901-1978). Em The Causes of World War Three (1958), Mills tratou da corrida nuclear; em Listen, Yankee: The Revolution in Cuba (1960), da fase inicial da revolução cubana, livro escrito em seis semanas após uma visita que Mills fizera a Cuba em agosto de 1960, foi um enorme sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, colocou o FBI à sua espreita. O livro baseou-se em extensas entrevistas gravadas com Fidel Castro, Che Guevara e outros líderes da revolução social, além de jornalistas, militares e intelectuais.

Fidel Castro teria então contado a Mills que lera The Power Elite durante a guerrilha.  Mills acreditara que os revolucionários cubanos pudessem seguir por uma via socialista independentes. Durante sua estada na Europa, completou boa parte de The Sociological Imagination, apresentando em 1957 as versões do livro num Seminário em Copenhague. A obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (2003) é considerada a grande obra de Max Weber e é seu texto mais reconhecido. A primeira parte desta obra foi publicada em 1904 e a segunda veio a público em 1905, depois da viagem do autor e da esposa Marianne Schnitger (1870-1954), destacada feminista e escritora aos Estados Unidos da América. Analisando o processo em seu conjunto, Weber verifica que dos dogmas e, especialmente, dos impulsos morais do protestantismo, derivados após a reforma de Martin Lutero (1483-1546), surge uma forma de vida de caráter metódico, disciplinado e racional. Da base moral do protestantismo surge não só a valorização religiosa do trabalho e da riqueza, mas também uma forma de vida que submete toda a existência do indivíduo a uma lógica férrea e coerente: uma personalidade sistemática e ordenada. Sem estes impulsos morais não seria possível compreender a ideia de vocação profissional, concepção que subjaz as figuras modernas do operário e do empresário.

A moral presente na vida social dos círculos protestantes possui uma relação sociológica de afinidade eletiva com o comportamento (espírito) que subjaz ao sistema econômico e, disciplinar, ainda que não derive deste fator unicausal, trata-se de um impulso vital para o entendimento do mundo social tanto moderno quanto contemporâneo. No final da Ética Protestante, Max Weber destaca para o que nos interessa - objeto de nossa argumentação que, apesar de secularizada, ou seja, desprovida de fundamentos religiosos, a vida aquisitiva da economia moderna generalizou-se para todo conjunto da vida social: os puritanos queriam tornar-se monges, hoje todos têm que segui-los. Esta avaliação também ganha contornos críticos, pois Weber constata que a lógica da produção, do trabalho e da riqueza envolve o mundo moderno como uma jaula de ferro (Eisernen Käfig) e se pergunta qual o destino dos tempos modernos: o ressurgimento de velhas ideias ou profecias ou uma realidade petrificada, até que a última tonelada de carvão fóssil seja queimada? Em tons que lembram Friedrich Nietzsche, ele dirá ainda sobre os homens dos tempos atuais: “especialistas sem espírito, nulidades sem coração”. Esta visão crítica do capitalismo encorajou importantes pensadores marxistas como Georg Lukács (1885-1971), Karl Löwith (1897-1973), Michael Löwy a ressaltarem algumas afinidades do pensamento hic et nunc com a visão marxista, corrente que, sem menosprezar as sensíveis diferenças entre as duas formas de pensamento, denominada de webero-marxismo (cf. Löwy, 2014).

No entanto, diferente da visão marxista, que privilegia os condicionamentos econômicos, Max Weber, coerente com uma visão multicausal dos níveis sociais, destaca seus fatores culturais e, mais tarde, concordando com Marx, enfatizará também os fatores materiais ou níveis de análise com domínio econômico no surgimento das instituições modernas. Sobre a questão específica a respeito das chamadas Afinidade eletivas, lembra Michael Löwy que são raros os pesquisadores especializados em sociologia das religiões que, ao comentar os diversos escritos de Weber sobre o tema hic et nunc, em particular A Ética Protestante, não constataram a utilização conceitual através do termo “afinidade eletiva”. Isto porque, estranhamente, esse termo suscitou poucos estudos, discussões ou debates e menos ainda uma análise mais sistemática de seu significado metodológico. Existe o ensaio de Richard Howe (1978) que contém informações úteis sobre as origens do termo, mas a definição que ele propõe considerando a “afinidade eletiva”, como uma ideia no sentido de emprego kantiano não é muito pertinente. Além disso, na interpretação Löwyniana, o referido autor não distingue a “afinidade interna” da conceitual afinidade eletiva, o que elimina o papel decisivo da eleição. Enfim, ele parece querer reduzir a Wahlverwandtschaft a uma “afinidade entre palavras”, em função da “interseção de significados”, o que limita seu considerável alcance. No ensaio de J. J. R. Thomas (1985) depois de uma discussão não sem interesse, chega a uma conclusão decepcionante: - “Tentando evitar o conceito de ideologia, considerado por ele grosseiramente materialista, Weber criou um conceito [afinidade eletiva] que não leva a lugar algum”.

A contribuição social é a do escritor e ensaista espanhol José María González Garcia que dedicou às afinidades eletivas um capítulo de seu livro entre Max Weber e Johann Wolfgang von Goethe (1992). O termo Wahlverwandtschaft tem uma longa história, muito anterior aos escritos sobre religião de Max Weber. Foi na alquimia medieval que o termo “afinidade” começou a ser usado para explicar a atração e fusão dos corpos. Segundo Alberto Magno (1193/1206-1280), se o enxofre se une aos metais, é por causa da afinidade que ele tem com esses corpos: “propter affinitarem naturae metalla adurit”. Encontramos essa temática nos alquimistas dos séculos seguintes. Por exemplo, em seu livro Elementa Chimiane (1724), Hermannus Boerhaave (1668-1738) explica que “particulae solventes et solutae se affinitate suae naturae colligunt in corpora homogênea”. A afinidade é uma força em virtude da qual duas substâncias “procuram-se, unem-se e encontram-se” numa espécie de casamento, de bodas químicas, antes procedendo do amor que do ódio, “magis ex amore quam ex dio”. O termo attractio electiva aparece pela primeira vez nos escritos do químico sueco Torbern Olof Bergman. Seu livro, De attractionjibus electivis (Upsalla, 1775), foi traduzido para o francês com o título de Traité des affinités chimiques ou Attractions électives (1788).

Na tradução alemã (Frankfurt, Tabor, 1782-1790), o termo “atração eletiva” foi exatamente traduzido por Wahlverwandtschaft, afinidade eletiva. Foi dessa versão alemã do livro oitocentista de Bergman que Goethe tirou o título de seu romance Wahlverwandtschaft (1809), no qual ele menciona um livro de química estudado “há cerca de dez anos” por um de seus personagens. O termo se torna uma extraordinária metáfora para designar o movimento passional pelo qual um homem e uma mulher são atraídos um para o outro – correndo o risco de se separarem de seus antigos companheiros – a partir da afinidade íntima entre suas almas. Essa transposição de Wolfgang Goethe faz do conceito químico para a o terreno social da espiritualidade e do amor foi facilitada pelo fato de que, em vários alquimistas, como a Síndrome de Boerhaave, por exemplo, o termo já era fortemente carregado de metáforas sentimentais e eróticas. Para Goethe, existe afinidade eletiva quando dois seres ou elementos “procuram-se um ao outro, atraem-se, apropriam-se um do outros e, em seguida ressurgem dessa união íntima numa forma renovada me imprevista”. A semelhança com a fórmula de Boerhaave – dois elementos “procuram-se, unem -se e encontram-se” – é impressionante, e não excluímos que Goethe conhecesse e tenha se inspirado na obra do alquimista holandês.

Com o romance de Goethe, o termo ganhou direito de cidadania na cultura alemã como designação de um tipo social de ligação particular entre duas almas. Foi na Alemanha que ele passou por sua terceira metamorfose: a transmutação, por obra desse grande alquimista da ciência social chamado Max Weber, em conceito de representação puramente de encarnação sociológico.  Historicamente da acepção antiga, ele conserva as conotações de escolha recíproca, isto é, relacional entre a atração e combinação, mas a dimensão da novidade parece desaparecer. O conceito ocupa um lugar importante em A Ética Protestante, precisamente por levar a cabo a análise da relação complexa e sutil entre essas duas formas. Para a análise de Max Weber, trata-se de superar a abordagem tradicional em termos de causalidade e, assim, evitar o debate inútil sobre a primazia do “material” ou do “espiritual”.  São especificados ao mesmo tempo, na medida do possível, o modo e a direção geral segundo as quais, em consequência de tais afinidades eletivas, o movimento religioso agiu sobre o desenvolvimento da cultura material.

Ibiúna representa, mutatis mutandis, um município brasileiro do estado de São Paulo. Situa-se na Região Metropolitana de Sorocaba, na extensa Mesorregião Macro Metropolitana Paulista e na Microrregião de Piedade. Localiza-se a uma latitude 23º39`23” Sul e a uma longitude 47º13`21” Oeste, estando a uma altitude de 996 metros. Sua população foi estimada em 80 062 habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística. O município é formado pela sede e pelos distritos de Carmo Messias e Paruru. Ibiúna possui a segunda maior população rural do estado de São Paulo, menor apenas que a capital do estado. Por estar localizada geograficamente entre as grandes bacias hidrográficas do Tietê e Paranapanema, a região que abarca o atual município de Ibiúna provavelmente já reunia ótimas condições para o estabelecimento de grupos humanos há milênios atrás. De acordo com algumas pesquisas arqueológicas, os primeiros indícios da presença de grupos ameríndios no estado de São Paulo datam de fins do Pleistoceno, sendo que a área onde hoje está a capital e região metropolitana contam com datações radiocarbônicas de cerca de 6.000 anos atrás. Estes primeiros grupos humanos produziam tecnologicamente diversas ferramentas feitas em pedra, madeira e ossos, utilizando assim diversos tipos de matéria-prima para confecção desses instrumentos de subsistência. Sua alimentação era baseada na caça de animais e coleta de frutos e raízes, lhes sendo desconhecida a agricultura nesse primeiro momento.

As primeiras populações indígenas agricultoras só teriam alcançado a região de Ibiúna e outras próximas dos grandes rios paulistas por volta do início da Era Comum. Ancestrais dos atuais grupos Tupi-Guarani e Macro-Jê, essas populações cultivavam mandioca, feijão e milho, assim como diversas várias espécies não alimentícias, como cabaças, tabaco, algodão e urucu. Também produziam cerâmica, tecnologia provavelmente desconhecida pelos primeiros grupos que haviam se estabelecido nas margens de rios como o Una e o Sorocamirim e arredores. Séculos depois, os primeiros colonizadores europeus se depararam com diversos grupos Guaianás, também reconhecidos como Guaianazes nas cabeceiras do rio Sorocaba e boa parte do Planalto Paulista. Falante de um idioma relacionado ao tronco Macro-Jê, o contato entre este povo e os portugueses se deu já nas primeiras décadas de colonização da América, geralmente mencionados nas documentações dos séculos XVI e XVII como “índios bravos”. Por resistirem ao avanço português sobre suas terras, diversos conflitos ocorreram, sendo muitas vezes escravizados, mortos ou eventualmente expulsos para o interior do continente. O nome Guaianá não corresponde à identidade própria desses povos, já que esse termo era normalmente utilizado para designar diversas gentes não-tupis. A presença de grupos Tupi na região das nascentes do rio Sorocaba também parece ser confirmada pelos registros arqueológicos, inclusive durante o período colonial.

Os Acordos MEC-USAID foram implementados no Brasil com a lei 5.540/68. Foram negociados secretamente e só se tornaram públicos em novembro de 1966 após intensa pressão política e popular. Foram estabelecidos entre o Ministério da Educação (MEC) do Brasil e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) para reformar o ensino brasileiro de acordo com padrões impostos pelos Estados Unidos da América. A USAID surgiu em 1961, com a assinatura do Decreto de Assistência Externa do Presidente John F. Kennedy, unificando diversos instrumentos assistenciais dos Estados Unidos. Diretamente ou através de agências subsidiárias, a USAID atua como um reforço à política externa norte-americana, cooperando nas áreas de economia, agricultura, saúde, política e assistência humanitária. A agência tem sido objeto de críticas e acusada de trabalhar em colaboração com a CIA por conta de suas atividades de inteligência na desestabilização de governos não alinhados com as políticas dos Estados Unidos da América (USA). Apesar da ampla discussão ocorrida anteriormente sobre a educação, iniciada ainda em 1961, essas reformas foram implantadas pelos militares que tomaram o poder após o Golpe Militar de 1° de abril de1964. A reforma mais visível ocorreu na renomeação dos cursos. 

A tradição de 1º de abril remonta à instituição do Calendário Gregoriano, que substituiu o Calendário Juliano por determinação do Concílio de Trento, o conselho ecumênico da Igreja Católica. O Calendário Gregoriano divide o ano em quatro estações distribuídas ao longo de 12 meses, ou 365 dias, de acordo com o movimento da Terra em relação ao Sol e estabelece o primeiro dia do ano em 1º de janeiro. Com a instituição do novo calendário pelo papa Gregório XIII, em 1582, historiadores contam que parte da população francesa se revoltou contra a medida e se recusou a adotar o 1º de janeiro como início do ano. Zombados pelo resto considerado da população, os resistentes às mudanças sociais e política eram convidados para festas e comemorações inexistentes no dia 1º de abril. Nascia assim a tradição de zombaria e de pregação de peças. Há também relatos históricos que relacionam a data ao festival de Hilária - uma festa romana no período anterior ao nascimento de Cristo - que celebrava o equinócio de março em honra à deusa Cibele, a “Mãe dos Deuses”, uma divindade que reunia aspectos das deusas gregas Gaia, Reia e Deméter. No Brasil, a tradição foi introduzida em 1828, com o noticiário impresso mineiro “A Mentira”, que trazia em sua edição a morte do colonizador português Dom Pedro I imperador brasileiro de 1822 a 1831 na capa e foi em 1º de abril.           

      

Mas não são apenas as pessoas que contam mentiras no 1º de abril. Empresas entenderam o potencial de marketing e a oportunidade de engajamento das “pegadinhas” para aumentar a visibilidade no mercado e passaram, desde o século passado, a participar da celebração. Entre os mais conhecidos exemplos está a emissora pública britânica BBC, que tradicionalmente prega peças no público desde a década de 1930. Em uma das memoráveis brincadeiras, a BBC afirmou que o governo do Reino Unido trocaria o mecanismo de ponteiros do Big Ben - o relógio mais famoso do mundo e símbolo nacional - por um mostrador digital. A mentira, veiculada em 1980, ainda prometeu que a primeira pessoa a ligar para a rádio ganharia os antigos ponteiros do grande relógio como lembrança. A ação gerou milhares de ligações e cartas e acabou causando problemas à emissora, que teve que explicar a manobra durante a programação nas semanas seguintes. Nos Estados Unidos, em 1992, a National Public Radio (NPR), também uma emissora pública de comunicação, veiculou entrevista do comediante Rich Little em que ele se passava pelo ex-presidente Richard Nixon. No quadro, chamado “Conversa da Nação”, o personagem afirmava categoricamente que se candidataria novamente à Presidência naquele ano. O problema é que Nixon, figura política controversa, havia renunciado durante processo de impeachment em 1974 pelo envolvimento no escândalo de Watergate, o que no âmbito da comunicação social gerou revolta nos ouvintes. 

A emissora ficou com todas as linhas telefônicas congestionadas até que, em determinado momento, foi anunciada a pegadinha do Dia dos Tolos. A Amazon, a maior loja online do mundo, também celebra o Dia da Mentira com brincadeiras que, muitas vezes, confundem os usuários. Em 2015, a Amazon reverteu sua página principal para a versão de 1999 - época em que a internet ainda era rudimentar. Até descobrirem a brincadeira, os usuários deveriam passar pela experiência de “túnel do tempo” na navegação do site.  Apesar da permissão lúdica no dia 1º de abril, a mentira pode se tornar hábito e degradar relações sociais. Em tempos de ampla difusão de conteúdos na internet, uma mentira pode ser considerada até mesmo fake News - notícias falsas ou com dados manipulados deliberadamente para enganar ou enviesar as conclusões do leitor - e ser punida legalmente. Para o psiquiatra Ilton Castro, existem diferentes níveis de mentira: há aquelas que suavizam realidades e as que são usadas para usufruir benefícios em detrimento de outras pessoas. Há também a condição psicológica conhecida como mitomania, definida pelo uso compulsivo de mentiras. - “No jogo social, é normal mentir ou omitir alguma coisa, mas existem casos considerados sérios. A mentira aparece como um hábito. O mitomaníaco mente e acredita no que diz. A fantasia vira realidade e ganha enredos intermináveis. A mentira cresce”. O uso exacerbado de mentiras pode indicar transtorno de personalidade e fragilidades psicológicas que necessitam ser trabalhadas.

O antigo curso primário (5 anos) e ginasial (4 anos) foram fundidos e renomeados como primeiro grau, com oito anos de duração. o antigo curso científico foi fundido com o clássico e passou a ser denominado segundo grau, com três anos de duração. O curso universitário passou a ser denominado terceiro grau. Essa reforma eliminou um ano de estudos, fazendo com que o Brasil tivesse apenas 11 níveis até chegar ao fim do segundo grau enquanto países europeus e o Canadá possuem um mínimo de 12 níveis. Documentos obtidos pelo WikiLeaks mostram que nas ações da USAID na Venezuela, entre os anos de 2004 e 2006, houve intenções de desestabilizar o governo do país. A USAID fez uma doação de 15 milhões de dólares a várias organizações civis, com o intuito de impulsionar a estratégia do ex-embaixador de Washington na Venezuela, William Brownfield, baseada em provocar uma fratura interna no chavismo, e em organizar os setores descontentes com as reformas realizadas pelo Partido Socialista Unido da Venezuela. Em 3 de abril de 2014, a imprensa revelou que de 2009, a USAID organizou e participou ativamente em uma operação secreta americana para derrubar o governo de Cuba, com a criação de uma rede de comunicação, similar ao twitter visando provocar uma “Primavera Cubana”.

O programa foi financiado pelo governo dos Estados Unidos da América e criou uma rede supostamente independente, mas na verdade falsa, com o objetivo de criar “uma comoção e incitar uma revolta popular levando a queda do governo cubano”. O programa, chamado de ZunZuneo, armazena dados estritamente pessoais dos assinantes cubanos e informações demográficas, com seu gênero, idade, receptividade e tendências políticas. O nome ZunZuneo se relacionada ao nome do pássaro colibri em Cuba - o zunzún. O projeto foi iniciado em 2009, depois da prisão do americano Alan Gross, que executava missão clandestina da United States Agency for International Development em Cuba e   foi condenado à prisão quando foi descoberto. Os usuários não sabiam que o projeto foi criado por uma agência dos Estados Unidos da América ligada ao Departamento de Estado, nem que os americanos coletaram informações pessoais sobre eles para que esses dados fossem usados para fins políticos. Os organizadores do ZunZuneo criaram o que parecia ser um negócio legítimo. Fizeram um portal de internet, e uma campanha, de maneira que os usuários pudessem se inscrever e enviar suas próprias mensagens de texto a grupos de sua escolha. Seus contratantes omitiram que o projeto tinha ligações diretas com Washington D. C.

Para tal, criaram uma rede de empresas de fachada com sede em Espanha e contas bancárias nas Ilhas Cayman, na tentativa de esconder as transações financeiras e recrutaram executivos de empresas privadas para fazer parte da fachada do projeto, de forma que não ficasse claro que o projeto foi financiado com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos e estava sendo executado pela USAID. – “Não será mencionada a participação do governo dos Estados Unidos”, disse um relatório da empresa Mobile Acord, uma das empresas que colaborou com o programa como contratadas. - “É absolutamente crucial para o êxito a longo prazo do serviço e para garantir o cumprimento da missão”. A revelação do programa veio confirmar afirmações anteriores de Raúl Castro que em janeiro de 2014, havia afirmado que havia tentativas contra de introduzir o capitalismo neocolonial em Cuba. As atividades em Cuba se assemelham as atividades reveladas em 2013 pelo jornal Der Spiegel, com base em documentos revelados por Edward Snowden, um analista de sistemas, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da National Security Agency (NSA) que tornou públicos detalhes de programas do sistema de vigilância global da NSA americana, referentes as Campanhas EFFECTS (Operações confidenciais), do GCHQ britânico.

O sítio Muduru, localizado no bairro dos Alves, na cidade de Ibiúna, na Serra de São Sebastião a 70 km da capital de São Paulo, tornou-se destaque nas páginas dos jornais publicados em outubro de 1968, dentro e fora do Brasil, por ter sido escolhido para abrigar em torno de 700 estudantes no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). É uma organização estudantil representante de alunos do Ensino Superior do país, tendo sede em São Paulo, além das regionais no Rio de Janeiro e Goiás. Fundada em 11 de agosto de 1937, a instituição desempenha um papel singular na política desde o início do século XX, especialmente aqueles ligados à esquerda política. Essa propriedade, que pertencia a Domingos Simões, também chegou a ser utilizada para abrigo de militantes e disponibilizada ao congresso, após uma reunião com Therezinha Zerbini fundadora do Movimento Feminino pela Anistia e Frei Tito de Alencar, frade dominicano e estudante de Filosofia na Universidade de São Paulo. A luta estudantil contra os governos autoritários, com o golpe de Estado de 1° de abril de 1964 contra o governo popular democrático de João Goulart (1919-1976), teve início nos primeiros momentos de ação política do golpe civil-militar.

As atividades ideológicas e sociais da “elite orgânica”, na expressão de Dreifuss (1981: 231 e ss.), consistiam em doutrinação geral e doutrinação específica, ambas coordenadas com atividades político-ideológicas mais amplas no Congresso, sindicatos, movimento estudantil e clero. A doutrinação geral visava a apresentar as abordagens da elite aos responsáveis por tomadas de decisão políticas e ao público em geral, assim como causar um impacto ideológico em públicos selecionados e no aparelho do Estado. A doutrinação geral através da mídia era realizada pela ação encoberta e ostensiva, de forma defensiva e defensiva-ofensiva, onde conflitos e tensões subsistem de forma necessária. Nessas situações, não há alternativas senão na confiança recíproca. Constituía-se basicamente numa medida neutralizadora. Visava infundir ou fortalecer atitudes e pontos de vista tradicionais na esfera de ação política de direita e estimular percepções negativas do bloco popular nacional-reformista. No ordenamento jurídico brasileiro, a abordagem pessoal por qualquer agente de segurança só é permitida quando há razões, concretas e objetivas, para a suspeita de que o indivíduo esteja portando bem ilícito ou praticando algum desvio ou delito.

Ela atacava o comunismo, o socialismo, a oligarquia rural e a falsa ideia de “corrupção” do populismo. No aspecto positivo, argumentava que a prosperidade do país e a melhoria dos padrões de vida do povo se deviam à iniciativa privada e não se deviam, certamente, a métodos socialistas ou à inversão do Estado na economia. Sua abordagem negativa podia ser vista na sua utilização de uso socialmente de uma mesclagem de técnicas sofisticadas e uma grosseira propaganda anticomunista, constituindo uma pressão ideológica, que explorava representativamente o chamado “encurralamento pelo pânico organizado”. O objetivo geral da doutrinação específica era modelar as várias frações das classes dominantes e diferentes grupos sociais das classes médias em um momento de opinião com objetivos em curto prazo amplamente compartilhados, qual seja, a destruição de João Goulart da presidência e a contenção da mobilização popular,  às demandas históricas das esquerdas e, ipso facto pregadas por ele mesmo: as reformas de base. A elite institucionalmente publicava, diretamente ou através das editoras, uma série de trabalhos, incluindo livros, panfletos, periódicos, jornais, revistas e folhetos. Saturava o rádio e a televisão com mensagens ideológicas.

Frei Tito de Alencar Lima nasceu em Fortaleza, em 14 de setembro de 1945 e morreu enforcado em Éveux, em 10 de agosto de 1974. Foi um frade católico alvo de perseguição da ditadura militar após ser fichado pela polícia devido a sua participação no Congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), no ano de 1968. Nasceu em Fortaleza e estudou no Liceu do Ceará. Sua militância se iniciou na União Cearense de Estudantes Secundaristas e, em 1963, mudou-se para Recife, após ser escolhido como dirigente regional da região nordeste da Juventude Estudantil Católica (JEC). Em 1966, ingressou no noviciado dos dominicanos em Belo Horizonte, e fez a profissão dos votos no ano seguinte. Em 1968 mudou-se para São Paulo para estudar filosofia na Universidade de São Paulo e no mesmo ano, no dia 12 de outubro, foi preso por participar do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna após ser fichado pela polícia e se tornar alvo de perseguição da ditadura militar. Foi preso pela segunda vez dia 4 de novembro de 1968 junto com outros companheiros da ordem dos dominicanos de Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social.                        

Nessa ocasião foi acusado junto aos outros presos, de manter contatos com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e seu dirigente, Carlos Marighella, um dos principais organizadores da luta armada contra a ditadura. Frei Tito foi submetido à palmatória e choques elétricos. Posteriormente foi transferido para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu até 17 de fevereiro de 1970 e, em seguida, nas mãos da Justiça Militar, foi levado para a sede da Operação Bandeirantes (Oban). Na prisão, Frei Tito escreveu sobre a tortura com a qual conviveu, quando este documento se transformou em um símbolo da luta pelos direitos humanos. Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um grupo de luta armada brasileira de extrema-esquerda que lutou contra a ditadura militar brasileira, visando à instauração de um governo de cunho socialista no país. Frei Tito foi banido do Brasil pelo governo militar de Emílio Garrastazu Médici seguindo para o Chile. Sob a ameaça de novamente ser preso, fugiu para a Itália. De Roma, foi para Paris, onde recebeu apoio afetivo dos dominicanos. Traumatizado pela tortura, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico e, no dia 10 de agosto de 1974, cometeu suicídio.

No dia 1º de abril de 1964 a sede da União Nacional dos Estudantes foi invadida e incendiada por militares comandados pelo presidente cearense marechal Humberto Castelo Branco. A Lei Suplicy de Lacerda, decretada em novembro de 1964, colocou a UNE na clandestinidade. O novo regime político organizado em abril de 1964 tinha no movimento estudantil um forte elemento de antagonismo, razão por que o governo procurou substituir as entidades estudantis existentes, regidas pelo Decreto Café Filho, de 1955, por outras, controladas direta ou indiretamente pelo Ministério da Educação. O instrumento criado pelo Estado de Exceção dessa tentativa de controle foi baseado na Lei nº 4.464, de 9 de novembro de 1964, reconhecida como Lei Suplicy, devido ao nome do ministro da Educação que a patrocinou, Flávio Suplicy de Lacerda. Os acontecimentos posteriores a 1968, quando o regime assumiu sua feição ditatorial por meio do AI-5, fizeram com que se desse pouca importância à natureza da violência surgida a partir de 1964 e ao modo como ela foi enfrentada pelo governo Castello Branco. Ali estava a gênese da tortura e, frequentemente coberta por uma definição imprecisa do conceito nas legislações de organizações militares, sobretudo, de uma política que arruinaria as instituições políticas e militares do país.

Art. 1º: - Os órgãos de representação dos estudantes de ensino superior, que se regerão por esta Lei, têm por finalidade: a) defender os interesses dos estudantes; b) promover a aproximação e a solidariedade entre os corpos discente, docente e administrativo de ensino superior; c) preservar as tradições estudantis, a probidade da vida escolar, o patrimônio moral e material das instituições de ensino superior e a harmonia entre os diversos organismos da estrutura escolar; d) organizar reuniões e certames de caráter cívico, social, cultural, científico, técnico, artístico, e desportivo, visando o aprimoramento da formação universitária. Art. 2º - São órgãos de representação dos estudantes de ensino superior: a) o Diretório Acadêmico (D.A.), em cada estabelecimento de ensino superior; b) o Diretório Central de Estudantes (D.C.E.), em cada Universidade; c) o Diretório Estadual de Estudantes (D.E.E.), em cada capital de Estado, Território ou Distrito Federal, onde houver mais de um estabelecimento de ensino superior; d) o Diretório Nacional de Estudantes (D.N.E.), com sede na Capital Federal. E, principalmente: Art. 14. É vedada aos órgãos de representação estudantil qualquer ação, manifestação ou propaganda de carácter político-partidário, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares.

Flávio Suplicy de Lacerda foi ministro da Educação no governo Castelo Branco (cf. Figueiredo, 1980), de 15 de abril de 1964 a 8 de março de 1965, e de 22 de abril de 1965 a 10 de janeiro de 1966. Durante sua gestão no Ministério de Educação e Cultura, estabeleceu um acordo de cooperação com a United States Agency for International Development, que visava transformar o ensino brasileiro num projeto tecnocrático. Essa estratégia político-ideológica foi reconhecida como um Acordo institucionalizado. Com ele as universidades seriam as maiores afetadas. Redutos de manifestações estudantis nos mais diversos matizes da esquerda brasileira, as universidades eram vistas “pelo comando da ditadura militar como focos de subversão ao regime”. O acordo serviria para transformar o jovem ensino superior brasileiro não mais numa formação crítica do cidadão na sociedade, mas tão somente em cursos de formação meramente profissional e técnica. Nessa mesma conjuntura golpista, surgiram os primeiros rumores de privatização das universidades federais e estaduais, que, tal qual todo o projeto previsto no acordo norte-americano, revoltou os estudantes. Com a crise de hegemonia civil-militar, o movimento estudantil brasileiro entrou na sua fase mais aguerrida, com uma série de revoltas realizadas entre 1966 e 1968, ano de seu auge nas organizações. Vários desses conflitos tiveram vítimas fatais entre os estudantes.

A lei determinava que os diretórios acadêmicos (DA) continuariam tendo existência obrigatória nos estabelecimentos de ensino público superior. Os estudantes das universidades teriam seu Diretório Central de Estudantes (DCE) composto de representantes dos diretórios. Estes se reuniriam, também, para organizar os Diretórios Estaduais de Estudantes (DEE), os quais, por sua vez, comporiam, por meio de representantes, o Diretório Nacional de Estudantes (DNE). A lei “assegurava” a participação de representantes discentes junto aos órgãos de deliberação coletiva e aos departamentos das instituições de ensino superior, designados pelos estudantes. Atendia, também, antiga reivindicação do movimento estudantil, tornando obrigatório o voto para a eleição das diretorias. Em compensação, vedava aos órgãos de representação estudantil “qualquer ação, manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”, cujo objetivo, ainda que indireto, seja a promoção de uma pessoa, um partido político ou uma ideologia partidária.

 Mas em contrapartida a lei procurava limitar e desacelerar a participação social das diretorias das entidades estudantis, tornando inelegíveis “os estudantes repetentes, dependentes ou matriculados em regime parcelado, proibindo o abono de faltas pela participação nos diretórios”. Ao contrário do que acontecia com as entidades estudantis gerindo seu processo eleitoral, a lei determinava que as eleições para os diretórios devessem “ser acompanhadas por um professor designado pela direção da escola ou da universidade”. A fiscalização do cumprimento da lei deveria ser feita pelas Congregações ou Conselhos Departamentais, para os diretórios; pelos Conselhos Universitários (CU), no caso do Diretório Central do Estudantes (DCE), e pelo Conselho Federal de Educação (CFE), instituído pela lei nº 4024/61 reconhecida como Lei de Diretrizes e Bases de/1961, no caso respectivo do DEE e DNE. As universidades e as entidades estudantis deveriam adaptar seus Estatutos à lei em 60 dias. Sobre a determinação militar, a lei estipulava que os diretores de faculdade ou reitores de universidades incorreriam em “falta grave” se permitissem ou tolerassem o não cumprimento das normas por ação ou por omissão.

Diante da Lei Suplicy, os estudantes precarizaram as atividades políticas e se dividiram. Uma corrente era favorável à participação nos “Diretórios oficiais” mantendo-se ou não entidades “livres” paralelas. Outros defendiam o boicote aos “Diretórios oficiais”, anulando seus votos nas eleições obrigatórias. Esta última posição prevaleceu, fazendo com que após a contenção política iniciada pela promulgação do Ato Institucional nº 5, o Decreto Aragão, sucessor da Lei Suplicy, fosse aplicado com mais intensidade. Edson Luís de Lima Souto nascido em Belém, em 24 de fevereiro de 1950 e assassinado por policiais militares no Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968.  foi um estudante secundarista morto, durante confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar que endureceu até decretar o chamado AI-5. Nascido em uma família pobre, iniciou os estudos na Escola Estadual Augusto Meira em Belém, no Pará. Mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino, no qual funcionava o restaurante Calabouço.

Em 28 de março de 1968, os estudantes do Rio de Janeiro estavam organizando uma passeata-relâmpago para protestar contra a alta do preço da comida no restaurante Calabouço, que deveria acontecer no final da tarde do mesmo dia.  Por volta das 18 horas, a Polícia Militar chegou ao local e dispersou os estudantes que estavam na frente do complexo. Os estudantes se abrigaram dentro do restaurante e responderam à violência policial utilizando paus e pedras. Isso fez com que os policiais recuassem e a rua ficasse deserta. Quando os policiais voltaram, tiros começaram a ser disparado do edifício da Legião Brasileira de Assistência (LBA), o que provocou pânico entre os estudantes, que fugiram. Os policiais acreditavam – não se sabe por qual razão, que os estudantes iriam atacar a Embaixada dos Estados Unidos e invadiram o restaurante. Durante a invasão, o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou o secundarista Edson Luís “com um tiro a queima roupa no peito”. Outro estudante, Benedito Frazão Dutra, também baleado, chegou a ser levado ao hospital, mas morreu. Temendo que a PM sumisse com o corpo, os estudantes não permitiram que ele fosse levado para o Instituto Médico Legal (IML), mas o carregaram em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado. A necropsia foi feita no próprio local pelos médicos Nilo Ramos de Assis e Ivan Nogueira Bastos na presença do Secretário de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. Óbito n° 16.982 teve como declarante o estudante Mário Peixoto de Souza.

O registro de ocorrência n° 917 da 3ª Delegacia de Polícia informou que, no tiroteio ocorrido no restaurante Calabouço, outras seis pessoas ficaram feridas: Telmo Matos Henriques, Benedito Frazão Dutra (que morreu logo depois), Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto. Todos foram atendidos no Hospital Souza Aguiar. No período que se estendeu do velório até a missa da Igreja da Candelária, realizada em 2 de abril foram mobilizados protestos em todo o país. Em São Paulo, quatro mil estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Também foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade São Francisco, na Escola Politécnica da Universidade de Sao Paulo e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.  O Rio de Janeiro parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: A noite dos Generais, À queima roupa e Coração de Luto. Centenas de cartazes foram colados nas paredes e postes da Cinelândia com frases como: “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?”. Edson Luis foi enterrado ao som do Hino Nacional, cantado pela multidão em vigília.

Diante do quadro de terror/horror no início de 1970, poucos eram os estabelecimentos de ensino superior onde existiam diretórios acadêmicos “oficiais” ou “livres”. Foi só a partir de 1973, que os estudantes começaram a organizar entidades livres que vingaram, instituindo o voto direto para o DCE, e fazendo as entidades “oficiais” saírem dos limites da Lei Suplicy. A lei determinava que os diretórios acadêmicos continuariam tendo existência obrigatória nos estabelecimentos de ensino superior. Os estudantes das universidades teriam seu Diretório Central de Estudantes composto de representantes dos diretórios acadêmicos. Estes se reuniriam, também, para organizar os diretórios estaduais de estudantes que comporiam, por representantes, o Diretório Nacional de Estudantes. Durante a ditadura militar, o movimento estudantil ocupou um espaço destacado na estratégia política ao regime. Manifestações coordenadas pela UNE denunciaram os problemas da educação e expuseram os tempos sombrios do regime. Todos os eventos políticos da entidade eram organizados e realizados em clandestinidade.

 A primeira ação da ditadura militar brasileira ao tomar o poder em 1964 e depor o presidente João Goulart (1961-1964) foi metralhar, invadir e incendiar a sede da UNE, na Praia do Flamengo 132, na fatídica noite de 30 de março para 1º de abril. Ficava clara a dimensão do incômodo que os militares golpistas e os grupos elitistas conservadores sentiam em relação à entidade. A ditadura perseguiu, prendeu, torturou e executou centenas de brasileiros, muitos deles estudantes. O regime militar retirou legalmente a representatividade da UNE por meio da Lei Suplicy de Lacerda e a entidade passou a atuar na ilegalidade. As universidades eram vigiadas, intelectuais e artistas reprimidos, o Brasil escurecia. Em 1966, um protesto em Belo Horizonte na Faculdade de Direito é brutalmente reprimido. No mesmo ano, também na capital mineira, a UNE realiza um congresso clandestino porão de uma igreja. Já no Rio de Janeiro, na Faculdade de Medicina da UFRJ, a ditadura reprimi com violência os estudantes no episódio conhecido como Massacre da Praia Vermelha. A UNE continuou a existir nas sombras da ditadura, em firme oposição ao regime, como aconteceu no ano de 1968, marcado por revoluções culturais e sociais em quase todo o mundo ocidental. 

  Decorre daí que estudantes e artistas engrossaram a Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro, pedindo democracia, liberdade e justiça. No entanto, os militares endureciam a repressão em episódios como o assassinato do estudante secundarista Édson Luis e a invasão do Congresso da UNE em Ibiúna (SP), com a prisão de cerca de mil estudantes. No fim do mesmo ano, a proclamação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) indicava uma violência ainda maior. Nos anos seguintes, a ditadura torturou e assassinou estudantes como a militante Helenira Rezende e o presidente da UNE, Honestino Guimarães, perseguido e executado durante o período de clandestinidade da entidade. Mesmo assim, o movimento estudantil continuou nas ruas, como nos atos e missa de 7º dia da morte do estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, em 1973. Ao final dos anos 1970, com os primeiros sinais de enfraquecimento do regime militar, a UNE começou a se reestruturar. O Congresso de reconstrução da entidade aconteceu Salvador, em 1979, reivindicando mais recursos para a universidade, defesa do ensino público e gratuito, assim como pedindo a libertação de estudantes presos do Brasil. No início dos anos 1980, os estudantes tentaram também recuperar sua sede na Praia do Flamengo, mas foram duramente reprimidos e os militares demoliram o prédio.

Na manhã de 4 de abril foi realizada um missa na Igreja da Candelária em memória de Edson. Após o término da missa, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas pela cavalaria da Polícia militar com golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas. Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar proibiu a realização dessa missa, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la. A missa foi celebrada com cerca de 600 pessoas.  Temendo que o mesmo massacre da manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de fora havia três fileiras de soldados a cavalo com os sabres desembainhados, mas atrás estava o Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do DOPS. Num ato de coragem, os clérigos saíram na frente de mãos dadas, fazendo um “corredor” da porta da igreja até a Avenida Rio Branco para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria militar em represália aguardou que todos saíssem e os encurralaram nas ruas apertadas da Candelária. O saldo negativo foi de dezenas de pessoas feridas. Percebe-se a impossibilidade de se ver o menino que vivia na rua, como uma criança ou a adolescente. Ele era visto como “menor”. Foram mortas crianças, adolescentes e jovens que viviam à margem de tudo que a sociedade imaginava constituir a infância. Eram nomeadas “de rua”. Como se o traço humano, o nascimento, fosse subtraído. Não tinham nomes, família, humanidade. Nasciam e morriam nas ruas.

A maior parte dos membros participantes do 30º Congresso estava dormindo quando a polícia chegou ao sítio Muduru, na pequena cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo. Por volta das 7h30 daquele sábado, dia 12 de outubro de 1968, agentes do Departamento de Ordem Política e Social invadiram à propriedade acompanhados por homens armados da Força Pública, como eram denominadas as tropas estaduais. Após anunciar o cerco com disparos de metralhadora, os policiais prenderam 739 estudantes que estavam hospedados no sítio para os debates do encontro.  Os estudantes tornaram-se alvo do Aparato Repressivo de Estado (ARE). Muitos foram monitorados, fichados, presos, torturados e mortos. O histórico da repressão militar em Sorocaba e região destaca o episódio icônico daquela conjuntura, a prisão de quase mil estudantes em outubro de 1968, num sítio em Ibiúna, durante o 30º Congresso Nacional da União Nacional dos Estudantes (UNE), dissolvido por ação conjunta de 215 policiais da Força Pública e do temido DOPS, comandado pelo coronel da PM de Sorocaba, Divo Barsotti do 7º Batalhão Policial.  O 30º Congresso da UNE foi finalizado com a invasão do sítio pela polícia às 07 horas e 15 minutos da manhã de 12 de outubro de 1968. - “Todos foram presos”, foi a frase utilizada pela imprensa para destacar o resultado da operação policial, que prendeu quase todos os estudantes participantes.

 A comissão criada pelo governo para definir o valor de indenização a ser paga a União Nacional dos Estudantes (UNE), pela perda de sua sede durante a ditadura, em 1964, estipulou em R$ 44,6 milhões a reparação. Esta é a primeira reparação coletiva do Estado brasileiro quando foram depositados R$ 30 milhões desse montante na conta da entidade. A segunda parcela restante, de R$ 14,6 milhões, foi também paga em 2011. O governo reconheceu a responsabilidade do Estado pelo incêndio que destruiu a sede da UNE. A comissão trabalhou durante 60 dias e apresentou seu Parecer aos ministros da Justiça, Luiz Paulo Barreto, e ao ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci. Os dois acataram o Parecer da comissão. A lei sancionada por Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) previa indenização de até R$ 97,2 milhões, montante que representa seis vezes o valor do terreno, mas avaliado por baixo do valor de mercado pela Caixa Econômica Federal em torno de R$ 16,2 milhões. O valor fixado pela comissão representa pouco menos da metade do limite da lei. A indenização foi paga pela Comissão de Anistia. O presidente Lula participou de um ato simbólico de inauguração da pedra fundamental da reconstrução do prédio, na Praia do Flamengo. O projeto da arquitetura do prédio foi uma doação de Oscar Niemeyer (1907-2012).

A canção Menino, composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada no álbum Geraes (1976), e também por Elis Regina nas apresentações e no disco Saudade do Brasil (1980), refere-se a Edson Luís. A canção “Coração de Estudante”, composta por Wagner Tiso inicialmente sob o nome de “Tema de Jango” para um documentário sobre João Goulart, ganhou letra de Milton Nascimento lembrando a tragédia de Edson Luís e a canção foi rebatizada como “Coração de Estudante”. A canção foi gravada no álbum “ao vivo” em 1983. Em 28 de março de 2008, para lembrar os quarenta anos de sua morte, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao estudante Edson Luís na Praça Ana Amélia, entre a Avenida Churchill e a Rua Santa Luzia, no Rio de Janeiro. O trevo viário que liga o Aterro do Flamengo às avenidas General Justo e Presidente Antônio Carlos, próximo ao Aeroporto Santos Dumont, passou a ser reconhecido como Trevo Estudante Edson Luís de Lima Souto. A trágica cena do seu violento assassinato foi representada na novela do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Amor e Revolução, no dia 28 de setembro de 2011. Foi escrita por Tiago Santiago, com colaboração de Renata Dias Gomes, Miguel Paiva e Elliana Garcia, e dirigida por Reynaldo Boury, Luiz Antônio Piá e Marcus Coqueiro e produção-executiva de Sérgio Madureira. A ditadura militar é o tema da trama, as consequências do golpe militar no país entre os anos 1960 até o final dos anos 1980, envolvendo a moda, a música, a expansão da televisão na vida. Foram investidos 25 milhões de reais na produção da novela, entre cenários, a compra de novos equipamentos e gravações em externas.

Bibliografia Geral Consultada.

FIGUEIREDO, Eurico de Lima, Os Militares e a Democracia (Análise Estrutural dos Discursos do Presidente Castelo Branco). Dissertação de Mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia). Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, 1975; Idem, Os Militares e a Democracia. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1980; LAQUEUR, Thomas, Inventando O Sexo: Corpo e Gênero dos Gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001; WEBER, Max, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição. São Paulo: Editora Pioneira Thomson Learning, 2003; YAXLEY, Susan, ed., O Cerco de King`s Lynn. Larks Press Publisher, 2009; MAIA JUNIOR, Edimilson Alves, Memórias de Luta: Ritos Políticos do Movimento Estudantil Universitário (Fortaleza, 1962-1969). Fortaleza: Edições Universidade Federal do Ceará, 2008; PAULA, Gil César Costa de, A Atuação da União Nacional dos Estudantes – UNE: Do Inconformismo à Submissão do Estado (1960-2009). Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2009; MULLER, Angélica, A Resistência do Movimento Estudantil Brasileiro contra o Regime Ditatorial e o Retorno da UNE à Cena Pública (1969-1979). Tese Doutorado em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2010; GOFFMAN, Erving, Os Quadros da Experiência Social. Petrópolis (RJ): Editoras Vozes, 2012; LÖWY, Michael, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano. 1ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014; SANTANA, Flávia de Angelis, Movimento Estudantil e Ensino Superior no Brasil: A Reforma Universitária no Centro da Luta Política Estudantil dos Anos 60. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014; SOUZA, Eliezer Felix de, Flávio Suplicy de Lacerda: Relações de Poder no Campo Acadêmico/Político Paranaense e o Processo de Federalização e Modernização da Universidade do Paraná (1930-1971). Tese Doutorado em Educação. Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2016; ZONATTO, Octávio, “O Adolescente Mais Velho do Brasil”: Investigações sobre as Representações de Dinho Ouro Preto Associadas à Juventude. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2024; OLIVEIRA, Laura Beatriz Alves de, “As Inquietações Sociais da Morte em Hieronymus Bosch Uma Análise da Obra A Morte do Avarento (1490–1510)”. In: Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade, (37), 2026; e75256; entre outros.

sábado, 4 de abril de 2026

Lytton Strachey – Biografia, Religião Estatal & Irreverência Social.

                                             Madame, I am the civilization they are fighting for”. Giles Lytton Strachey

      

        Escrita é a representação social persistente da linguagem, sendo que um sistema de escrita inclui um conjunto específico de símbolos, bem como as regras e métodos pelas quais eles codificam uma língua falada específica. Toda língua escrita surge de uma língua falada correspondentemente; embora o uso da linguagem seja universal nas sociedades humanas, a maioria das línguas faladas não é escrita. A escrita é uma atividade cognitiva e social que envolve processos neuropsicológicos e físicos. O resultado dessa atividade, também chamada na modernidade de texto, uma série de símbolos fisicamente inscritos, transferidos mecanicamente ou representados digitalmente. A leitura é o processo mental correspondente de interpretação de um texto escrito, sendo o intérprete denominado leitor. Em geral, os sistemas de escrita não constituem línguas em si mesmos, mas sim um meio de codificar a linguagem de modo que ela possa ser lida por outros através do tempo e do espaço. Embora nem todas as línguas usem um sistema de escrita, aquelas que o fazem podem complementar e estender as capacidades da linguagem falada, criando formas sociais duráveis de linguagem que podem ser transmitidas através do espaço, como correspondência escrita e armazenadas ao longo do tempo, por exemplo, nas bibliotecas.

A escrita também pode impactar o conhecimento que as pessoas adquirem, uma vez que permite aos humanos externalizar seu pensamento em formas que são mais fáceis de refletir, elaborar, reconsiderar e revisar. Historicamente, a escrita surgiu para atender às necessidades de sociedades que cresciam em complexidade econômica e social. Uma vez desenvolvidas, as aplicações potenciais incluíam o rastreamento de produtos e outras riquezas, o registro da história, a manutenção da cultura, a codificação do conhecimento por meio de currículos, bem como listas de textos considerados como contendo conhecimento fundamental, por exemplo, O Cânone da Medicina, ou valor artístico, por exemplo, o cânone literário. Os auxílios à administração incluíam códigos legais, registros de censo, contratos, escrituras de propriedade, tributação, acordos comerciais e tratados. Como explica o acadêmico norte-americano Charles Bazerman, a “marcação de sinais em pedras, argila, papel e agora memórias digitais, cada uma mais portátil e viajando rapidamente do que a anterior, forneceu meios para ações cada vez mais coordenadas e estendidas, bem como memória entre grupos maiores de pessoas ao longo do tempo e do espaço”. Outras inovações incluíram sistemas legais mais uniformes, previsíveis e amplamente dispersos, a distribuição de versões acessíveis de textos sagrados e o fomento de práticas de pesquisa científica e gestão do conhecimento, todas as quais dependiam amplamente de formas portáteis e facilmente reproduzíveis de linguagem inscrita. 

A história da escrita é coextensiva com os usos da escrita e a elaboração de sistemas de atividade que dão origem e fazem circular a escrita. Bazerman fez sua graduação na Universidade Cornell (bacharelado em 1967) e obteve um doutorado em Literatura Inglesa e Americana na Universidade Brandeis em 1971. Em 2016, as Universidades Nacionais Argentinas de Córdoba, Entre Ríos, Río Cuarto e Villa Maria concederam-lhe o título de Doutor Honoris Causa. Lecionou no Baruch College, da Universidade da Cidade de Nova York, de 1972 a 1990, tornando-se professor titular em 1985. Foi professor de Literatura, Comunicação e Cultura no Instituto de Tecnologia da Geórgia de 1990 a 1994. Em 1994, ingressou no corpo docente de inglês da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB), e em 1997 tornou-se professor de Educação na Escola de Pós-Graduação em Educação Gervitz da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, onde também atuou como coordenador do programa de educação de 2000 a 2006. Lecionou ainda na Universidade Cornell, na Universidade Nacional de Singapura, na Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), na Universidade de Lorraine (França), na Universidade Masaryk (República Tcheca), na Universidade de Geociências da China (Pequim), na Universidade do Porto (Portugal) e na escola primária PS93K, no Brooklyn. Seus trabalhos foram traduzidos para português, italiano, francês, espanhol e chinês. Seu trabalho ganhou inúmeros prêmios, incluindo dois prêmios de reconhecimento pela trajetória, o Prêmio James R. Squires de 2018 do Conselho Nacional de Professores de Inglês e o Prêmio Exemplar da Conferência de 2020 sobre Composição e Comunicação Universitária.                            

O Prêmio Trajetória de reconhecimento do Estado e da sociedade civil para as pessoas que vivem da cultura e transformam vidas por meio da arte nas diferentes comunidades. No total, foram recebidas 5.218 inscrições. Bazerman, como um dos primeiros defensores da Escrita em todo o currículo (WAC, na sigla em inglês), procurou estabelecer uma base de pesquisa para entender um movimento dentro dos estudos contemporâneos de composição que se preocupa com a escrita em aulas fora de composição, literatura e outros cursos de inglês. Sua análise de 1981 de artigos de pesquisa nas ciências, ciências sociais e humanidades identificou diferenças na maneira como eles representavam o material estudado, estabeleciam uma relação com os públicos disciplinares, apresentavam o autor e utilizavam a literatura disciplinar. Em publicações subsequentes, ele estudou tópicos como a mudança de gêneros de artigos de pesquisa disciplinares, o desenvolvimento de práticas de referência e citação e o uso de evidências na aprendizagem do aluno e em domínios profissionais. Com seus alunos, ele escreveu um guia de referência para Escrita Através do Currículo, que integrou estudos de escrita em diferentes disciplinas juntamente com práticas e programas educacionais. Baseando-se em seus diversos estudos históricos e empíricos e no trabalho de colegas, Bazerman desenvolveu teorias sobre gênero e como eles participavam e ajudavam a formar sistemas de atividade, inicialmente em seu livro Shaping Written Knowledge (1988). Posteriormente, elaborou ideias teóricas em vários capítulos sobre sistemas de gênero, tipificação e originalidade, conceitos em atividade, e as origens sociais dos gêneros na escrita de cartas. Ele incentivou o trabalho de outros estudiosos sobre atividade por meio da coedição de vários volumes com David Russell.

Seus dois volumes de Literate Action (2013) forneceram uma visão abrangente de sua teoria retórica e fontes interdisciplinares. Para investigar mais a fundo como as ações sociais consequentes envolvem múltiplos sistemas de atividade e gênero em interação, ele examinou como Thomas Edison (1847-1931) e seus colegas precisaram se engajar comunicativamente com múltiplas esferas jornalísticas, financeiras, técnicas, jurídicas, culturais e corporativas no processo de invenção e produção de luz e energia centrais. Em uma série de artigos, ele também aplicou esse raciocínio globalizante para entender a ascensão do conhecimento ambiental, o engajamento público e governamental com o meio ambiente e a política da legislação sobre mudanças climáticas. Embora seu trabalho tenha se concentrado principalmente no contexto histórico e social da escrita, ele buscou compreender como esses fatores socioculturais estabelecem as condições para os processos psicológicos, o desenvolvimento das habilidades técnicas e sociais de escrita e o desenvolvimento intelectual. Por meio do estudo de exemplos históricos, ele examinou como a crescente compreensão do mundo comunicativo de pensadores inovadores como Joseph Priestley (1733-1804) e Adam Smith (1723-1790) caminhou lado a lado com suas formas de escrita em transformação na sociedade. Consequentemente, ele estudou como as práticas de escrita e leitura influenciaram o desenvolvimento do pensamento nos alunos. 

A questão do desenvolvimento de escritores individuais, dentro de suas condições e circunstâncias sociais e sua compreensão mutável de sua necessidade comunicativa e circunstâncias sociais, resultou em uma série de investigações sobre o desenvolvimento da escrita ao longo da vida social e as dificuldades metodológicas de tal projeto; e sua participação em grupos colaborativos para se envolver nessa investigação. Bazerman é uma das organizadoras fundadoras do Research Network Forum, um fórum para acadêmicos em início de carreira e estudantes de pós-graduação que é realizado, anualmente desde, 1987 na Conference on College Composition and Communication, no Consortium of Doctoral Programs in Rhetoric and Composition e no Rhetoricians for Peace. Em 2011, Bazerman tornou-se a primeira presidente da International Society of the Advancement of Writing Research, que realiza conferências sobre pesquisa em escrita em todo o mundo. As motivações individuais para escrever incluem a capacidade de operar além das limitações da própria memória, por exemplo, listas de tarefas, receitas, lembretes, diários de bordo, mapas, instruções para tarefas complicadas ou rituais, disseminação de ideias e coordenação, por exemplo, ensaios, monografias, panfletos, planos, petições, manifestos, criatividade e narrativa, manutenção de parentesco e outras redes sociais, correspondência comercial sobre bens e serviços e escrita de vida, por exemplo, um diário ou jornal

A disseminação global de sistemas de comunicação digital, como e-mail e mídia social, tornou a escrita uma característica cada vez mais importante da vida diária, onde esses sistemas se misturam com tecnologias mais antigas, como papel, lápis, quadros brancos, impressoras e copiadoras. Quantidades substanciais de escrita cotidiana caracterizam a maioria dos locais de trabalho em países ditos desenvolvidos. Em muitas ocupações, por exemplo, direito, contabilidade, design de software, recursos humanos, a documentação escrita não é apenas o principal produto final, mas também o próprio meio de trabalho. Mesmo em ocupações normalmente não associadas à escrita, o gerenciamento de registros de rotina faz com que a maioria dos funcionários escreva pelo menos parte do tempo. Algumas profissões são tipicamente associadas à produção da escrita, como autores literários, jornalistas e escritores técnicos, mas a escrita está presente na maioria das formas modernas de trabalho contemporâneo, participação cívica, gestão doméstica e atividades sociais em tono do lazer. Lytton Strachey publicou “Eminent Victorians” (Vitorianos Eminentes), uma sequência extraordinária de quatro ensaios biográficos cuja elegância dissertativa disfarçava sua intenção irreverente. Os personagens de Strachey, embora alvos talvez fosse mais preciso, eram Florence Nightingale (1820-1910), foi uma reformadora social britânica, estaticista e fundadora da enfermagem moderna. Nightingale ganhou destaque ao servir como chefe e treinadora de enfermeiras durante a Guerra da Crimeia, na qual organizou o atendimento aos soldados feridos, Major-General Charles George Gordon, CB (1833-1855), também reconhecido como Gordon chinês, Gordon Paxá e Gordon de Cartum, foi um oficial e administrador do exército britânico. 

Ele viu ação na Guerra da Criméia como oficial do exército britânico. No entanto, ele fez sua reputação militar na China, onde foi colocado no comando do “Exército Sempre Vitorioso”, foi um pequeno exército imperial que lutou contra rebeldes na China do final do século XIX. Foi dirigido e treinado por europeus. O Exército Sempre Vitorioso lutou pela dinastia Qing contra os rebeldes das Rebeliões Nian e Taiping. Trata-se de uma força beligerante de soldados chineses liderados por oficiais europeus que foi fundamental para derrubar a Rebelião Taiping, derrotando regularmente forças muito maiores. Por essas realizações, ele recebeu o apelido de “Gordon chinês” e honras do Imperador da China e dos britânicos. Ele entrou ao serviço do Quediva do Egito em 1873, com a aprovação do governo britânico e mais tarde tornou-se o governador-geral do Sudão, onde fez muito para reprimir as revoltas e o comércio local de escravos. Exausto, ele renunciou e voltou para a Europa em 1880. Thomas Arnold (1795-1842) foi um educador e historiador inglês. Arnold foi um dos primeiros apoiadores do movimento anglicano Igreja Ampla. Foi diretor da Rugby School de 1828 a 1841, onde introduziu uma série de reformas. Arnold nasceu na Ilha de Wight, filho de William Arnold, um funcionário da alfândega real, e de sua esposa Martha Delafield. Foi educado na Lord Weymouth`s Grammar School, em Warminster, no Winchester College e no Corpus Christi College, Oxford. Lá, ele se destacou em arte e cultura clássicas e se tornou membro do Oriel College em 1815. Foi diretor de uma escola em Laleham, Surrey antes de se mudar para Rugby. 

A nomeação de Arnold para a direção da Rugby School em 1828, após trabalhar alguns anos como professor particular, deu uma reviravolta nos rumos da instituição, e sua força de caráter e zelo religioso lhe permitiram transformá-la em um modelo seguido por outras escolas públicas, exercendo uma influência sem precedentes sobre o sistema educacional da Inglaterra. Além de introduzir as matérias de História, Matemática e línguas modernas, Arnold fundamentou seu ensinamento nas línguas clássicas. “Eu admito, fundamentado em toda a minha experiência do caso, que os meninos de uma escola pública nunca aprenderão a falar ou pronunciar bem o francês, sob quaisquer circunstâncias”, por isso seria o suficiente para eles se pudessem “aprendê-la gramaticalmente como uma língua morta”. A Física, no entender de Arnold, não era ensinada, pois, “ou ela deveria assumir um lugar de destaque no currículo escolar, ou deveria ser deixada de lado”. Arnold desenvolveu a Praepostor (Monitoria), sistema no qual eram dados poderes às crianças mais velhas, geralmente as da última (sexta) série, sobre as mais novas cada, cuidadosamente observados por ele mesmo a fim de manter a disciplina geral no estabelecimento de ensino. O romance de Thomas Hughes, Tom Brown`s School Days (1857) retrata uma geração de meninos “que temia o Doutor do fundo do coração, e muito pouco além do céu ou da terra; que pensava mais nos deveres da escola do que na Igreja de Cristo, e colocava as tradições de Rugby e a opinião pública de meninos em nossa vida diária acima das leis de Deus” e o Cardeal Manning (1808-1892), foi um prelado inglês da Igreja Católica e o segundo Arcebispo de Westminster de 1865 até sua morte em 1892. Ele foi ordenado na Igreja da Inglaterra quando jovem, mas se converteu ao catolicismo após o julgamento de Gorham. 

Manning nasceu em 15 de julho de 1808 na casa de seu avô, Copped Hall, Totteridge, Hertfordshire. Ele era o terceiro e mais novo filho de William Manning, um proeminente comerciante e proprietário de escravos, que atuou como diretor e (1812–1813) como governador do Banco da Inglaterra e também foi membro do Parlamento por 30 anos, representando, pelo Partido Conservador, Plympton Earle, Lymington, Evesham e Penryn consecutivamente. A mãe de Manning, Mary (falecida em 1847), filha de Henry Lannoy Hunter, de Beech Hill, e irmã de Sir Claudius Stephen Hunter, 1º Baronete, pertencia a uma família de origem huguenote francesa. Manning passou a maior parte da sua infância em Coombe Bank, Sundridge, Kent, onde teve como companheiros Charles Wordsworth e Christopher Wordsworth, mais tarde bispos de St Andrews e Lincoln, respectivamente. Frequentou a Harrow School (1822–1827) durante a gestão de George Butler, mas não obteve qualquer distinção além de jogar críquete durante dois anos na equipe. No entanto, isto não se revelou um impedimento para a sua carreira acadêmica. Manning matriculou-se no Balliol College, Oxford, em 1827, estudando Clássicos, e logo se destacou como debatedor na Oxford Union, onde William Ewart Gladstone o sucedeu como presidente em 1830. Nessa época, ele tinha ambições de seguir carreira política, mas seu pai havia sofrido perdas severas nos negócios e, nessas circunstâncias, tendo se graduado com honras de primeira classe em 1830, obteve no ano seguinte, por intermédio do 1º Visconde Goderich, um cargo de escriturário supernumerário no Escritório Colonial. Manning renunciou a esse cargo em 1832, tendo seus pensamentos se voltado para uma carreira clerical sob influências evangélicas, incluindo sua amizade com Favell Lee Mortimer (1802-1878), que o afetou profundamente ao longo da vida. Ao retornar a Oxford em 1832, foi eleito membro do Merton College e ordenado diácono na Igreja da Inglaterra. Em janeiro de 1833, tornou-se cura de John Sargent, reitor de Lavington-with-Graffham, West Sussex.

Em maio de 1833, após a morte de Sargent, sucedeu-o como reitor devido ao patrocínio da mãe de Sargent. Manning casou-se com Caroline, filha de John Sargent, em 7 de novembro de 1833, numa cerimónia realizada pelo cunhado da noiva, o Reverendo Samuel Wilberforce, mais tarde Bispo de Oxford e Winchester. O casamento de Manning não durou muito: a sua jovem esposa vinha de uma família com histórico de tuberculose e morreu sem filhos a 24 de julho de 1837. Quando Manning morreu mais de meio século depois, descobriu-se que, apesar de ser um clérigo católico celibatário há muitas décadas, ele usava ao pescoço uma corrente com um medalhão contendo a fotografia de Caroline. Embora nunca tenha se tornado um discípulo reconhecido de John Henry Newman (mais tarde Cardeal Newman), a influência deste último fez com que, a partir dessa data, a teologia de Manning assumisse um caráter cada vez mais de Alta Igreja e seu sermão impresso sobre a “Regra de Fé”, uma profissão de fé do mormonismo, semelhante ao Decálogo judaico-cristão e ao Credo niceno católico, sinalizasse publicamente sua aliança com os Tractarianos. Em 1838, ele desempenhou um papel social de liderança no movimento de educação da igreja, pelo qual conselhos diocesanos foram estabelecidos em todo o país; e escreveu uma carta aberta ao seu bispo criticando a recente nomeação da comissão eclesiástica. Em dezembro daquele ano, fez sua primeira visita a Roma e visitou Nicholas Wiseman, o Reitor do Colégio Inglês, na companhia de Gladstone.

Em janeiro de 1841, Philip Shuttleworth, bispo de Chichester, nomeou Manning como arquidiácono de Chichester, e, assumindo o cargo, ele iniciou uma visita pessoal a cada paróquia dentro de seu distrito, concluindo a tarefa em 1843. Em 1842, ele publicou um tratado sobre A Unidade da Igreja e, dada a sua reputação estabelecida como um pregador eloquente e fervoroso, foi nomeado, no mesmo ano, pregador selecionado por sua universidade, sendo assim chamado para ocupar de tempos em tempos o púlpito que Newman, como vigário de St Mary`s, estava prestes a deixar. Quatro volumes de sermões de Manning apareceram entre os anos de 1842 e 1850 e estes alcançaram a 7ª, 4ª, 3ª e 2ª edições respectivamente em 1850, mas não foram reimpressos posteriormente. Em 1844, seu retrato foi pintado por George Richmond e, no mesmo ano, ele publicou um volume de sermões universitários, omitindo o que havia pregado sobre a Conspiração da Pólvora (1605). Este sermão havia irritado Newman e seus discípulos mais avançados, mas era uma prova de que, naquela época, Manning era leal à Igreja da Inglaterra. A Conspiração da Pólvora, que em séculos anteriores também era chamada de “Conspiração da Traição da Pólvora” ou “Traição Jesuíta”, foi uma tentativa malsucedida de regicídio contra o rei Jaime I da Inglaterra, realizada por católicos ingleses liderados por Robert Catesby. A secessão de Newman em 1845 colocou Manning em uma posição de maior responsabilidade, como um dos líderes da Alta Igreja, juntamente com Edward Bouverie Pusey, John Keble e Marriott; com Gladstone e James Robert Hope-Scott que ele esteve associado neste momento. 

A crença de Manning no anglicanismo foi abalada em 1850, quando, no chamado julgamento de Gorham, o Conselho Privado ordenou à Igreja da Inglaterra que nomeasse um clérigo evangélico que negasse que o sacramento do batismo tivesse um efeito objetivo de regeneração batismal. A negação do efeito objetivo dos sacramentos era para Manning e muitos outros uma grave heresia, contradizendo a clara tradição da Igreja Cristã desde os Padres da Igreja. O fato de um tribunal civil e secular ter o poder de forçar a Igreja da Inglaterra a aceitar alguém com uma opinião tão heterodoxa provava a ele que, longe de ser uma instituição divinamente criada, a Comunhão Anglicana era uma criação humana e, pior ainda em sua visão, continuava completamente controlada pelo Governo de Sua Majestade. No ano seguinte, em 6 de abril de 1851, Manning foi recebido na Igreja Católica na Inglaterra e depois estudou na academia em Roma, onde obteve seu doutorado, e em 14 de junho de 1851 foi ordenado sacerdote católico na Igreja Jesuíta da Imaculada Conceição, Farm Street. Dadas as suas grandes habilidades e fama anterior, ele ascendeu rapidamente a uma posição de influência. Ele serviu como reitor do cabido da catedral sob o Cardeal Wiseman. Em 1857, ele estabeleceu, sob a direção de Wiseman, a missão de Santa Maria dos Anjos, em Bayswater, para servir aos trabalhadores que construíam a Estação Paddington. Lá, ele fundou, a pedido de Wiseman, a Congregação dos Oblatos de São Carlos. Esta nova comunidade de sacerdotes seculares foi obra conjunta do Cardeal Wiseman e de Manning, pois ambos haviam concebido independentemente a ideia de uma comunidade desse tipo, e Manning havia estudado a vida e a obra de Carlos Borromeu (1538-1584) em seus dias anglicanos em Lavington e, além disso, visitado os Oblatos em Milão, em 1856, para se certificar de que sua regra poderia ser adaptada às necessidades de Westminster. Manning tornou-se superior da congregação.

Essas quatro eminências: a fundadora da enfermagem moderna, o militar mais condecorado do Império Britânico, o diretor reformista da Rugby School e o mais proeminente clérigo católico da Inglaterra protestante, foram pari passu derrubadas, humilhadas e deixadas com um ar ligeiramente ridículo. Com a linguagem afiada como um “bisturi”, Strachey removeu as camadas espessas de fanfarronice celebratória para revelar esses heróis da Grã-Bretanha vitoriana como “narcisistas iludidos” cujas conquistas dependiam da exploração implacável daqueles ao seu redor. Gordon bebia, “gostava particularmente de meninos” e batia em seus criados; Manning havia se convertido da Igreja Anglicana para Roma porque “lá encontraria melhores perspectivas de emprego”; Nightingale era “uma valentona psicótica” que deixava seus ajudantes, todos santos, exaustos; enquanto Arnold, numa descrição maravilhosamente alegórica, tinha “pernas ligeiramente curtas demais para o seu corpo”. E todos eles sabiam que Deus estava do lado deles. A biografia, para o “bem e para o mal”, nunca mais seria a mesma. Dentre os cem anos anteriores, aproximadamente durante o século XIX, a biografia valorizou na escrita a discrição em detrimento da revelação. Homens proeminentes e, ocasionalmente, mulheres eram imortalizados no papel da mesma forma que eram eternizados em pedra. 

Enquanto cada cidadezinha e praça londrina ostentava uma estátua gigante de Nelson ou Gladstone, retratados em seu ângulo mais lisonjeiro, cada estante de livros se curvava sob o peso de uma biografia em dois volumes que transmitia os aspectos mais admiráveis ​​da carreira pública do biografado e silenciava sobre o restante. Essas lacunas incluíam, a questão da homossexualidade, falência, ilegitimidade, alcoolismo e mentiras descaradas. Os Grandes, claro, eram sempre também Bons. O Protestantismo é a maior religião no Reino Unido, com Anglicanismo, Tradição Reformada e Metodismo sendo ramos proeminentes. Durante séculos, desempenhou um papel primordial na formação da vida política e religiosa em toda a região. Embora um Alemão, Martin Luther foi responsável pelos primórdios da Reforma Protestante no início do século XVI, o Reino Unido, e especialmente Inglaterra, desenvolveu e produziu muitas das suas figuras mais notáveis. O protestantismo influenciou muitos dos monarcas da Inglaterra nos séculos XVI e XVII, incluindo Henrique VIII, Edward VI, Elizabeth I e James I. A violência era comum, e a perseguição dependia em parte se o monarca era católico ou protestante. Os reformadores e os primeiros líderes da igreja foram perseguidos nos primeiros séculos da Reforma, mas o movimento não conformista sobreviveu. Como resultado da Reforma, o protestantismo é a religião mais praticada no Reino Unido moderno, embora a participação na igreja se tenha enfraquecido nos últimos anos. A Abadia de Westminster é usada para a coroação dos monarcas, onde eles também são feitos chefes da Igreja Anglicana. Entretanto, antes que o protestantismo chegasse a Inglaterra, a Igreja Católica da Igreja Católica foi a igreja estadual estabelecida.

País de Gales e Irlanda também estavam intimamente ligados ao Catolicismo Romano, mas a Escócia tinha sido dominada por muitas religiões pagãs que os Celtas praticavam. Na Inglaterra católica, a única Bíblia disponível foi escrita em Vulgata latina, uma tradução do Latin apropriado considerado santo pela Igreja Católica Romana. Como resultado, apenas clero tinham acesso a cópias da Bíblia. Os camponeses eram dependentes de seus sacerdotes locais para a leitura das escrituras porque não podiam ler o texto por si mesmos. Alguns acreditam que o Papa organizou isso para esconder a verdade das pessoas comuns (cf. Thompson, 1998). Isto é importante, na medida em que no início da Reforma, um dos desentendimentos fundamentais entre a Igreja Romana e os líderes protestantes foi sobre a distribuição da Bíblia na linguagem comum das pessoas. John Wycliffe ajudou a tornar a Bíblia disponível para todos, independentemente da sua riqueza ou posição social. Wycliffe traduziu a Bíblia inteira na língua inglesa porque acreditava que os ingleses precisavam estar familiarizados com as escrituras em seus próprios termos para conhecer Jesus Cristo. Em 1526, William Tyndale publicou a primeira bíblia completa impressa. Isso facilitou a distribuição a um custo menor e, em breve, a Bíblia não só era legível para cidadãos ingleses, mas também acessível para a maioria das pessoas. 

Uma vez que as pessoas comuns tiveram acesso à Bíblia, muitos se juntaram à Igreja Protestante. O crescimento revolucionário na leitura bíblica foi um evento notável da Reforma, e a Inglaterra foi um dos primeiros países onde isso ocorreu. Logo, as convicções fundamentais da Inglaterra estavam mudando, e surgiram novas doutrinas protestantes que desafiaram a Igreja Católica Romana. Reveladores líderes e filósofos do tempo, como Wycliffe, ajudaram a estabelecer essas doutrinas pregando a grandes grupos de pessoas. Wycliffe, entre outros, opôs-se à crença católica de transubstanciação. Alguns católicos acreditam que, quando participam da Eucaristia, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Jesus quando o sacerdote reza sobre ele. Todos os líderes protestantes rejeitaram essa crença como falso. Muitos líderes protestantes também desaprovaram o monaquismo católico porque acreditavam que era desnecessário salvação e prejudicial para aqueles que o praticavam. A prática da penitência e a crença de que boas obras poderiam equilibrar a punição de pecado ou levar à salvação eram particularmente comuns entre os monges que viviam em mosteiros. Os protestantes rejeitaram essa doutrina, acreditando que as boas obras por si só não poderiam permitir que alguém entre no céu. Em vez disso, os protestantes acreditavam nas doutrinas de sola scriptura e sola fide. Durante os séculos XVI e XVII, quase todos os monarcas e os governos resultantes de Escócia, Irlanda e Inglaterra foram católicos ou Protestantes. 

Henrique VIII foi o primeiro monarca a introduzir o protestantismo como religião estatal para os ingleses. Em 1532, ele queria se divorciar de sua esposa, Catarina de Aragão. Quando o Papa Clemente VII se recusou a consentir o divórcio, Henrique VIII decidiu separar todo o país da Inglaterra da Igreja Católica Romana. O papa não tinha mais autoridade sobre o povo da Inglaterra. Esta separação abriu a porta para o protestantismo entrar no país. Henrique VIII estabeleceu a Igreja da Inglaterra após sua separação com o Papa. No entanto, a Inglaterra ficou muito igual, mesmo com a nova religião do estado. Suas doutrinas e práticas eram, em primeiro lugar, muito semelhantes às da Igreja Católica. O rei não estabeleceu a Igreja da Inglaterra como resultado de diferenças religiosas com o catolicismo; seus motivos eram principalmente políticos, e ele perseguiu protestantes radicais que ameaçavam sua igreja. O sucessor de Henrique VIII, Eduardo VI, apoiou a Reforma, mas sua crença no Protestantismo não era apenas política. Ele foi mais devoto em sua fé e a perseguição de protestantes cessou. Sob o próximo monarca, no entanto, os protestantes foram perseguidos mais uma vez. A Rainha Maria I foi criada católica, e ela viu como seu dever limpar o mal do protestantismo de seu país. Durante o reinado, os reformadores da igreja, como Thomas Hawkes, Hugh Latimer, Nicholas Ridley, Thomas Cranmer e George Wishart, foram executados por sua fé. Essas execuções não destruíram o movimento protestante. Na verdade, muitos se tornaram protestantes quando viram como estavam comprometidos estes mártires com a sua religião. O próximo monarca, Elizabeth I, era protestante. Sob o seu governo, a Igreja Protestante floresceu. 

Os protestantes agora ocuparam muitos cargos de liderança no governo. Com este novo poder veio a perseguição de muitos católicos. As semelhanças entre as igrejas Católica e Protestante diminuíram constantemente durante esse período. Muitos Católicos foram perseguidos pela rainha Elizabeth I. O reinado de James I estabeleceu uma vitória definitiva para o protestantismo na Inglaterra. A King James Bible introduziu uma nova forma protestante da Bíblia para os membros da igreja em todo o país. Esta tradução estava em um idioma e dialeto específico para os ingleses e para a religião protestante. James dissera: - eu realizei os esforços dos reformadores protestantes que estavam apoiando a distribuição de Bíblias em linguagem comum por décadas. A Guerra civil inglesa (1642-1651) foi amplamente influenciada pela Reforma Protestante. Enquanto a Inglaterra lutou entre catolicismo e protestantismo, a Escócia sofreu um impacto significativo da Reforma e suas ideias. Um forte Presbiteriano se desenvolveu, mas a Igreja da Escócia não concordou com as expectativas de Charles I da Inglaterra sobre a religião protestante. Charles I ameaçou mudar a Igreja da Escócia ao recorrer a Irlanda, que era um forte estado católico. Oliver Cromwell (1599-1658), um inglês nascido em Huntington, saiu vitorioso no final da Guerra Civil. Uma vez que ele ganhou o controle da Inglaterra, Cromwell estabeleceu um governo religioso radical. Ele organizou a Assembleia dos Santos, uma seita firme e estrita do protestantismo que era muito semelhante ao puritanismo. A Assembleia manteve-se forte na Inglaterra até o reinado de Charles II, que acabou com muitas das práticas rigorosas do puritanismo. Quando o parlamento aprovou o Ato de Tolerância de 1689, dissidentes receberam liberdade de culto na Inglaterra. Os católicos não foram incluídos neste ato do Parlamento, mas membros de outras religiões, principalmente o protestantismo, foram oficialmente protegidos contra a perseguição com base em sua fé. A Escócia experimentou um movimento muito mais profundo da reforma protestante do que qualquer outra nação no Reino Unido. John Knox é creditado com a introdução da Reforma na Escócia. 

Knox provocou a Reforma Escocesa em 1560, quando começou a pregar sobre o Protestantismo a grandes grupos de pessoas em todo o país. [11] Mais tarde, a Escócia se envolveu na Guerra Civil Inglesa quando Charles I ameaçou a Igreja Presbiteriana do país. O País de Gales se tornou uma parte da Inglaterra quando a Dinastia Tudor conquistou a nação. Os religiosos e as histórias políticas do País de Gales e da Inglaterra estavam intimamente ligados durante o reinado dos monarcas Tudor, e o impacto da Reforma em ambas as nações era semelhante. Em 1588, William Morgan publicou a Welsh Bible. Galês é a única língua não-estatal em que toda a Bíblia foi publicada durante a Reforma Protestante. Para a maior parte, os católicos fiéis tornaram mais difícil o progresso protestante avançar no país. No entanto, protestantes e não conformistas ainda compõem o maior grupo religioso no País de Gales. Embora a Irlanda do Norte seja considerada mais protestante do que a República da Irlanda, ainda manteve mais catolicismo do que outras nações no Reino Unido. A Igreja Presbiteriana na Irlanda e a Igreja da Escócia foram intimamente ligadas no passado. As estatísticas mostram um declínio constante na participação e no comparecimento da igreja no Reino Unido. De acordo com a British Broadcasting Corporation (BBC), o comparecimento da igreja no Reino Unido diminuiu nos últimos 50 anos, não apenas na Igreja da Inglaterra ou em outras igrejas protestantes, mas provavelmente em todos os estabelecimentos religiosos.  

Estatisticamente a BBC descobriu que 26% das pessoas com mais de 65 anos frequentam a igreja, em oposição a 11% daqueles com idade entre 16 e 44 anos. Britannica Online diz que a Igreja da Inglaterra tem mais membros do que outras igrejas, mas há uma maior dedicação entre os membros de congregações não conformistas. O Office for National Statistics confirmou em seu censo de 2001 que 15% das pessoas na Inglaterra não reivindicam qualquer religião. A pesquisa ocorrida em 2005 concluiu que o número de cidadãos que pertenciam a uma religião e atendidos em qualquer igreja diminuiu 41% em 41 anos, enquanto que aqueles que disseram que não pertenciam a nenhuma religião e não atendiam serviços aumentaram 35% na mesma quantidade de tempo social. Estes números apontam para a secularização crescente do país. Escócia tem sido dominada pelo presbiterianismo. A Igreja da Escócia está enfraquecendo como uma igreja estadual, e a participação no país está em declínio. De acordo com pesquisas na cidade de St. Peters, apenas 10% dos membros da igreja atendem regularmente aos serviços. Embora a maioria dos cidadãos no País de Gales sejam membros de igrejas protestantes e não conformistas, a cultura tornou-se cada vez mais secular. Os católicos romanos são uma minoria crescente. 

A Irlanda do Norte é agora uma das regiões mais diversas do Reino Unido, e os presbiterianos totalizam um quinto da população. A Igreja da Irlanda representa cerca de um sexto da população, embora a maior denominação da Irlanda do norte seja a Igreja Católica Romana, eles ainda não são a maioria da população. Desde a primeira página de Eminent Victorians, fica claro que algo está acontecendo. O autor estreante – o único livro anterior de Strachey havia sido um volume de crítica acadêmica – proclama que as antigas formas de escrever sobre vidas passadas não funcionam mais. “Nossos pais e avós produziram e acumularam uma quantidade tão vasta de informações”, explica ele, que qualquer historiador ou biógrafo do século XX teria dificuldades para encontrar padrões, fazer conexões ou mesmo elaborar um resumo decente. O que se fazia necessário, em vez disso, era uma “estratégia mais sutil”. O biógrafo “atacará seu biografado em pontos inesperados; atacará pela lateral ou pela retaguarda; lançará um holofote repentino e revelador em recônditos obscuros, até então desconhecidos”. Tal violência premeditada não poderia ser mais diferente da abordagem da geração anterior, na qual o biógrafo se assemelhava a um fiel criado da família, alguém que conhecia todas as pequenas peculiaridades de seu patrão, mas preferia morrer a expô-las ao olhar impertinente do mundo. Nesse mesmo prefácio de duas páginas, Strachey também descarta levianamente o antigo hábito biográfico de incluir tudo na esperança de que algo se fixe. Na verdade, ele sugere que tudo o que isso realmente faz é entediar as pessoas com suas “massas de material mal digerido”, “estilo descuidado”, “tom de panegírico tedioso”, “lamentável falta de seleção, de distanciamento, de propósito”.

O que era necessário, em vez disso, era uma “brevidade adequada – uma brevidade que exclui tudo o que é redundante e nada do que é significativo – que, certamente, é o primeiro dever do biógrafo”. O que Strachey está abordando aqui é a “forma significativa”, o princípio orientador do modernismo literário que foi tão importante para seus contemporâneos do Grupo de Bloomsbury, Virginia Woolf e E.M. Forster. A maneira como algo era escrito importava tanto, talvez até mais do que a informação que transmitia. A biografia, como uma pintura ou um romance, deve ser considerada não como objetiva, mas autônoma, uma obra de arte com sua própria coerência lógica e apenas uma relação superficial com o que se encontra além de sua moldura. E isso se revelou um legado fascinante. Pois o que é a brilhante trilogia de Alexander Masters sobre vidas esquecidas, começando com Stuart: Uma Vida ao Contrário (2005), senão uma exploração e um desafio à forma biográfica, ou seja, biológica? Mesmo os biógrafos modernos que trabalham dentro da tradição do nascimento à morte foram libertados pela sugestão de Strachey de que comparativamente o que se omite é tão importante quanto o que se inclui. Não é mais esperado, nem mesmo desejável, incluir detalhes minuciosos sobre o que o biografado comeu no café da manhã ou de onde vieram suas bisavós. Embora a obra exemplar de Hilary Spurling, uma escritora britânica, conhecida por seu trabalho como jornalista e biógrafa, sobre Matisse em dois volumes, ou a obra-prima de Robert Caro sobre Lyndon B. Johnson (1908-1973) em vários níveis, podem estar firmemente ancoradas em arquivos, mas em voz e forma, elas se elevam muito acima da enfadonha narrativa cronológica que antes era considerada a única maneira de registrar uma vida no papel. 

A menos que uma biografia apresente uma revelação bombástica, de preferência de natureza sexual, é como se o livro não tivesse razão de existir. Não é coincidência que a nova e radical proposta de Strachey sobre como escrever a vida de outras pessoas tenha surgido nos últimos meses da Primeira Guerra Mundial. Contudo, o que Strachey não reconheceu, mas que certamente devemos reconhecer, é a mistura de desejo, inveja e “raiva edipiana” que está presente sempre que um biógrafo escolhe seu biografado. Quando ele desferiu seu desprezo sutil contra os vitorianos de espírito nobre e ostensivamente altruístas, ele estava, em certo sentido, atacando sua própria família. Ele nascera em 1880 em um clã altamente distinto de administradores e soldados coloniais, e não é por acaso que duas das eminências que ele se propôs a diminuir, Florence Nightingale e Gordon, também foram figuras proeminentes do grande empreendimento imperial. Nightingale dedicou sua vida pós-Crimeia à saúde do exército britânico na Índia, enquanto Gordon foi governador-geral do Sudão. Além disso, Strachey havia sofrido muito em um internato. Aqui, talvez, estejam as origens de sua particular aversão por Arnold, que, graças ao entusiasmo promovido pelo romance Tom Brown`s Schooldays (1857), era agora considerado o homem que havia estabelecido o modelo do que um jovem inglês adequado deveria ser: piedoso, esportivo, viril e não particularmente inteligente. 

Para Strachey, que era gay, asmático, ateu e membro da elite intelectual dos Apóstolos de Cambridge, era difícil imaginar um modelo menos apetitoso. Ao marcar o fim da deferência biográfica, os eminentes vitorianos conferiram uma liberdade revigorante a toda a forma literária. A partir de então, os biógrafos sentiram-se à vontade para incluir tanto os aspectos sombrios quanto os luminosos da vida. Escândalos sexuais, desgraças financeiras e depravação moral em geral seriam admitidos ao público, em vez de serem relegados às margens como fofocas de bastidores e insinuações maliciosas. Contudo, por vezes parece que essa permissão para a franqueza degenerou em uma exigência de grosseria. Hoje em dia, a menos que uma biografia possa se gabar de uma revelação, de preferência de natureza sexual, há uma sensação de superficialidade, como se o livro não tivesse uma razão específica para existir. E se, durante a pesquisa, um biógrafo por acaso desenterrar algo escandaloso, corre o alto risco de que isso domine as resenhas, ofuscando material mais discreto, porém não menos importante. Isso aconteceu há 9 anos, quando a cobertura da biografia criteriosa e erudita de William Golding, escrita por John Carey, foi dominada por notícias que alardeavam a descoberta de Carey de que, enquanto estudante de graduação em Oxford, Golding tentara estuprar sua namorada de 15 anos. Nesse processo, a análise magistral de Carey sobre O Senhor das Moscas, A Torre e A Escuridão Visível foram temporariamente ofuscadas.

Existem também outras maneiras pelas quais Eminent Victorians, apesar de todo o seu brilho e entusiasmo, estabeleceu precedentes potencialmente prejudiciais. Strachey não acreditava em pesquisa, pelo menos não no tipo de pesquisa que biógrafos e historiadores fazem. Em vez de consultar fontes primárias, passando horas empoeiradas vasculhando anotações de diário sobre problemas de encanamento (Nightingale) ou A Presença Real (Manning), ele extraiu o que precisava de biografias e histórias já existentes. De fato, ao trabalhar em seu capítulo sobre Manning, Strachey encomendou tantos livros sobre a história da religião que sua senhoria presumiu que ele estivesse estudando para a igreja. Da mesma forma, o ensaio de Strachey sobre Nightingale baseia-se principalmente na biografia em dois volumes de Sir Edward Cook (1913), um livro que o próprio Strachey havia considerado escrever, mas rejeitou sob a alegação de que Miss Nightingale “era uma mulher terrível”. Seria muito mais divertido selecionar informações do árduo trabalho de Cook e transformá-las em uma crítica espirituosa e “cínica” (nas palavras de Strachey) da Dama da Lâmpada. Como Strachey demonstra triunfantemente, não há nada de errado em ser a segunda ou a vigésima pessoa a abordar um determinado biografado. Livre da obrigação de recontar uma história já conhecida do zero, você fica livre para escrever o livro que realmente deseja.

Esse princípio é espetacularmente demonstrado em Out of Sheer Rage, de Geoff Dyer, sua obra-prima de 1997 sobre D.H. Lawrence (1885-1930). Em vez de se somar à pilha de estudos biográficos e literários já existentes, Dyer produziu um relato etnográfico peculiar de sua experiência frustrada ao tentar escrever a obra seminal sobre seu herói literário constituído de longa data. Assim como Strachey, Dyer evitou arquivos empoeirados, limitando-se ao tipo de fonte impressa que pode ser lida na cama ou guardada em uma mala. Nos 21 anos que se passaram desde Out of Sheer Rage, a biografia continuou a ser moldada pelo legado de Eminent Victorians, de Strachey. O que até 1997 era chamado de “experimentação” agora é a nova norma. Pense em H Is for Hawk, de Helen Macdonald, que inseriu uma biografia parcial do problemático autor de meados do século XX, T.H. White, dentro de uma investigação da experiência pessoal do autor com o luto e os pássaros. Ou no simplesmente brilhante Ma`am Darling: 99 Glimpses of Princess Margaret, de Craig Brown, que demonstra um deleite stracheano ao lidar com “Sua Alteza Real Horrível” e lança a cronologia e as divisões de capítulos em uma bela desordem. Mesmo uma biografia mais direta, como a de Jenny Uglow, que abrange a vida de Edward Lear (1812-1888) historicamente do berço ao túmulo, consegue, de uma forma que nenhum biógrafo anterior conseguiu, falar abertamente sobre a angústia interna do escritor de non sense ao lidar com sua homossexualidade. Todas essas biografias são dos filhos de Strachey. Não por acaso eles dizem: Temos muito a agradecer a ele por isso!

Bibliografia Geral Consultada.

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